quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Imperialidades: Guerras entre Roma e «Mesopotamos» e Ciro

Organização dos Países Exportadores de Petróleo

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(Redirecionado de OPEP)
Bandeira da Organização dos Países Exportadores de Petróleo - OPEP
Bandeira da Organização dos Países Exportadores de Petróleo - OPEP
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Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP ou, pelo seu nome em inglês, OPEC) é uma organização composta por países que retêm algumas das maiores reservas de petróleo do mundo, como é o caso da Arábia Saudita.

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A OPEP é o exemplo mais conhecido de cartel: seu objetivo é unificar a política petrolífera dos países membros, centralizando a administração da actividade, o que inclui um controle de preços e do volume de produção, estabelecendo pressões no mercado.

Índice


Membros

Países membros da OPEP
Países membros da OPEP
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A organização tem agora 13 países membros. Estão listados abaixo, com as datas da sua entrada na organização:
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Membros atuais
África
América do Sul
  • Venezuela (Setembro 1960)
  • Equador (de 1973 até 1992, retornou como membro em dezembro de 2007)
Sudeste Asiático
  • Indonésia (Dezembro 1962. A sociedade encontra-se actualmente sob revisão, pois a Indonésia não é mais considerada pela OPEP como um país exportador líquido de petróleo.)
Oriente Médio

Ex-Membros

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Embora sete dos treze membros e ex-membros da OPEP sejam nações árabes, a língua oficial da organização é a inglesa.

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História

Sede da OPEP em Viena
Sede da OPEP em Viena
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Foi criada em 17 de Setembro de 1960 como uma forma dos países produtores de petróleo se fortalecerem frente às empresas compradoras do produto, em sua grande maioria pertencentes aos Estados Unidos, Inglaterra e Países Baixos, que exigiam cada vez mais uma redução maior nos preços do petróleo.

Guerra do Yom Kippur

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A persistência do Conflito israelo-árabe forçou a OPEP a tomar atitudes drásticas. Logo após a Guerra dos Seis Dias em 1967, os membros árabes da OPEP fundaram a Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo com o propósito de centralizar a política de actuação e exercer pressão no Ocidente, que apoiava Israel. O Egito e a Síria, embora não fossem países exportadores usuais de petróleo, passaram a fazer parte da nova organização. Em 1973, a Guerra do Yom Kippur alarmou a opinião pública árabe. Furiosos com o facto de que o fornecimento de petróleo havia permitido que Israel resistisse às forças egípcias e sírias, o mundo árabe impôs um embargo contra Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.

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O conflito israelo-árabe provocou uma crise. Os membros da OPEP pararam de exportar petróleo para o Ocidente, fazendo com que tivessem que reduzir os gastos anuais com energia, aumentar os preços, e ainda vender mercadorias com preço inflacionado para os países do Terceiro Mundo produtores de petróleo. Isto foi agravado pelo do Irã Reza Palhevi , que era o segundo maior exportador de petróleo mundial e aliado mais próximo dos Estados Unidos na época. É claro que [o preço do petróleo] vai aumentar, disse ele ao New York Times em 1973. Certamente, e como...; Vocês [países do Ocidente] aumentaram o preço do trigo vendido a nós em 300%, o mesmo ocorreu com o açúcar e com o cimento...; Vocês compram nosso petróleo bruto e nos vendem ele de volta beneficiado na forma de produtos petroquimícos, por uma centena de vezes o preço que vocês o compraram...; Seria no mínimo justo que, daqui pra frente, vocês paguem mais pelo petróleo. Poderíamos dizer umas 10 vezes mais.

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Produção

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Os países membros possuem 78% (OPEP, 2004) das reservas mundiais de petróleo. Suprem 40% da produção mundial e 60% das exportações mundiais. Graças à OPEP, os países são os mais bem pagos pelo seu petróleo. Em 2004, as reservas de petróleo existentes que pertencem aos membros são calculadas em 896000 milhões de barris[carece de fontes?]. As reservas mundiais são calculadas em 1144000 milhões de barris[carece de fontes?].

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Ver também

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Referências externas

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Keynes Marx o Realismo e a Utopia o Capital e o Trabalho a Escolática e a Dialéctica a Reoria e a Prática ...

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Leituras recomendadas – 138

A teoria econômica de Lord Keynes e a ideologia triunfante do nosso tempo

Por Alceu Garcia
19 de março de 2002

Alceu Garcia não existe. É o pseudônimo de um cidadão que, cercado de esquerdistas por todos os lados, e já conhecendo o tratamento que eles dão a quem ouse contrariá-los no local de trabalho, tem bons motivos para desejar permanecer incógnito. Camuflado ou não, é um excelente escritor, e é com muita honra que apresento e agradeço sua contribuição notabilíssima ao debate que ando travando há tempos com os devotos de Lord Keynes. Outros textos de Alceu Garcia aparecerão nesta página nas próximas semanas. O. de C. (13 de março de 2002).


Introdução


Dificilmente se passa uma semana sem que o economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946) seja louvado por escritores e colunistas de nomeada, especialistas na matéria ou não, como o genial autor de uma revolução copernicana na economia e um grande benfeitor da humanidade. O cultuado escritor L.F. Veríssimo elogiou o "espírito público" de Keynes em sua coluna em O Globo, e lamentou que a visão egoísta e os interesses imperialistas dos americanos tenham prevalecido sobre os propósitos benevolentes do inglês no acordo de Bretton Woods. Uma ativista americana que participou do recente Fórum Social Mundial de Porto Alegre, entrevistada pelo JB, concitou a humanidade a adotar políticas keynesianas para redimir os bilhões de miseráveis do planeta. A última moda da esquerda festiva parisiense é uma estridente propaganda em prol da dita "taxa tobin" sobre movimentações financeiras internacionais, inspirada em estudo de James Tobin, economista americano da melhor estirpe keynesiana. O jornalista Cesar Benjamim, remanescente do marxismo-leninismo ortodoxo, escreveu em artigo na Caros Amigos que a Lei da Responsabilidade Fiscal, que limita as despesas públicas à arrecadação, é nociva, de vez que os gastos deficitários do estado possuem um efeito multiplicador que espalha a prosperidade e resulta em aumento na arrecadação futura, recobrando o equilíbrio orçamentário em outro nível. Isso não é nem Marx, nem Lenin; é macroeconomia keynesiana pura. Curiosamente, no número seguinte do mesmo periódico Benjamim proferiu um candente libelo contra... a macroeconomia!


No universo dos especialistas o prestígio do luminar de Cambridge é ainda maior. O ex-ministro do governo Sarney e banqueiro João Sayad, aquele mesmo responsável pelo fracassado Plano Cruzado e que hoje atormenta os paulistanos como secretário de finanças da prefeita Dona Marta, exalta Keynes frequentemente em suas lacrimosas colunas no JB, salientando que o inglês foi o primeiro a manifestar interesse pela questão do desemprego e em como salvar os trabalhadores das garras do capitalismo predatório Os economistas responsáveis pelo projeto econômico do PT, Guido Mantegna, Luiz Beluzzo, o próprio Sayad e outros, baseiam-se muito em Keynes e pouco em Marx, o contrário do que normalmente se esperaria de um partido de extrema-esquerda. Não menos keynesianos são os economistas do PSDB "autêntico", pontificando entre eles outro ex-ministro de Sarney e comandante de mais um desastrado "plano", Bresser Pereira. A revista República, hoje o veículo semi-oficial da candidatura Serra, não poupa elogios a Keynes e invectivas contra o superado neoliberalismo do americano Milton Friedman. O colunista do New York Times Paul Krugman, cujas diatribes ultra-keynesianas são reproduzidas em alguns jornais brasileiros, é acatado por seus congêneres tupiniquins, acadêmicos ou não (com a exceção de Gustavo Franco), como a máxima autoridade mundial em economia. Os juízos de Krugman produzem em nosso país um efeito categórico de Roma locuta, causa finita.


Os exemplos dessa profunda identificação entre o pensamento e a propaganda esquerdista com Keynes e suas idéias são inúmeros. O curioso, por outro lado, é que também certa direita reinvindica Keynes como um de seus patronos. Basta lembrar de Delfim Netto e Mario Henrique Simonsen, ministros do regime militar e adeptos das teorias keynesianas, os quais dirigiram a mais extensa invasão do domínio econômico pelo estado na história do nosso país e fizeram da economia brasileira uma das mais estatizadas do mundo. Liberais como o falecido J.G. Merquior também relacionam Keynes como um eminente prócer do liberalismo. Tudo isso é bastante perturbador e inconclusivo. Afinal, Keynes foi um socialista, conservador ou liberal? Talvez suas inovações científicas simplesmente sejam rigorosamente irrefutáveis e, portanto, ideologicamente neutras, não podendo responder por apropriações indevidas, por todas as correntes políticas, da verdade apoditicamente demonstrada. A proposta desse ensaio é tentar elucidar esse enigma, desvendando a verdadeira filosofia social do economista britânico e sua posição no quadro do pensamento econômico, ideológico e político contemporâneo.


Keynes e Suas Circunstâncias


Filho de um renomado economista, educado em Eton e Cambridge, membro da melhor sociedade britânica, Keynes formou-se em um tempo em que a elite pensante inglesa questionava e negava os valores de seu meio social, inclinando-se vigorosamente para o socialismo. O triste espetáculo dessa elite decadente, niilista e descrente dos princípios morais até então vigentes evoca fenômenos similares ocorridos em outras épocas e contextos. A degeneração moral das aristocracias grega e romana relatadas, por exemplo, por Políbio, Tácito e Petrônio, a meu ver tem muitos traços em comum com o estado da intelligentsia inglesa no tempo de Keynes. Quando a classe dirigente de uma cultura perde a confiança em si mesma e em seu papel histórico, essa cultura está perdida. Parece-me que coisa do tipo aconteceu na Inglaterra a partir de meados do século 19.


Conduzida por uma elite vigorosa e confiante, a Grã-Bretanha inventou o liberalismo político no séc. 17 e, quebrando as cadeias que tolhiam a criatividade e iniciativa individual, criou as condições para o florescimento espontâneo da moderna economia de mercado. Liderou o mundo por muito tempo no plano comercial, tecnológico, industrial, financeiro, político e intelectual. Porém, a partir de certo momento esse dinamismo principiou a arrefecer. A trajetória intelectual de John Stuart Mill, o pensador mais eminente de sua época, revela os contornos desse processo. De um ponto de partida liberal, Mill gradualmente e sutilmente inclinou-se para posições simpáticas ao socialismo. Essa transmutação do liberalismo em socialismo, capturada no nascedouro com maestria pela pena profética de Herbert Spencer (The Man Versus the State), se completou com a Sociedade Fabiana (1883), nome inspirado no general Fabius Maximus, que salvou Roma evitando travar batalha em campo aberto com o grande comandante cartaginês Aníbal, recorrendo ao invés a métodos indiretos de guerra. A Sociedade Fabiana era um grupo formado por intelectuais ativistas do high society liderados pelos milionários Sidney e Beatrice Webb (Lord e Lady Passfield), adeptos de uma estratégia política gradualista, que se dedicava a doutrinar o estamento superior da sociedade britânica, apossar-se dos canais de difusão de idéias, do aparato estatal, da Igreja, das artes, dos sindicatos e tudo o mais que fosse útil à implementação de um governo socialista. O dramaturgo George Bernard Shaw, por exemplo, foi uma das estrelas do movimento fabiano, que mais tarde deu origem ao Labour Party.


A enorme influência do socialismo fabiano marcou profundamente a formação intelectual e moral de Keynes. Ele integrou uma sociedade secreta em Cambridge conhecida como Os Apóstolos e posteriormente a confraria de letrados ilustres denominada Grupo de Bloomsbury, ambas subprodutos do caldo cultural do fabianismo. Hedonismo, niilismo, elitismo, iconoclastia, bissexualismo, pedantismo, amoralismo e, claro, socialismo, eram os traços comuns aos integrantes desses grêmios. O filósofo G.E. Moore, um dos gurus máximos da tchurma, autor de um livro intitulado Principia Ethica, exerceu forte atração sobre Keynes. Para Moore não existiam princípios morais universais, reduzindo-se a ética aos prazeres estéticos pessoais. Não é possível compreender o caráter de Keynes, nem sua atuação política e sua produção científica, isolados do contexto ideológico em que ele atuou. E os traços chave da natureza do economista britânico eram: relativismo moral e desonestidade intelectual.


Keynes, o Polemista


Não é preciso estender-se muito a respeito da terrível ruptura que a Primeira Guerra Mundial significou para o mundo relativamente estável, aberto e progressista da Belle Epoque. O conflito abriu uma caixa de pândora e libertou demônios cujos males ainda se fazem sentir em nossos dias. Keynes, àquela altura um economista jovem e promissor, serviu no departamento do tesouro inglês durante a guerra. Após o conflito, ele foi designado para a delegação britânica encarregada de elaborar o Tratado de Versalhes. No curso das deliberações Keynes discordou da política de impor pesadas reparações à Alemanha vencida e rompeu publicamente com seus superiores, para a alegria de seus amigos fabianos. Publicou então o livro The Economic Consequences of the Peace (1920), que o transformou em celebridade mundial instantânea. Nesse panfleto, Keynes lamentava a sorte dos alemães e condenava o espírito de vingança e rapacidade dos vencedores. Ridicularizou os líderes aliados Lloyd George, Clemenceau e o Presidente Wilson, pintando-os, com riqueza de detalhes, como figuras patéticas e grosseiras. Insinuou que a culpa da guerra era tanto dos vencedores quanto dos vencidos e afirmou categoricamente que a Alemanha não teria condições de pagar as dívidas impostas e que a insistência em sua cobrança acarretaria a morte pela fome e doenças de milhões de crianças alemãs.


Essa avaliação dos fatos e as previsões de Keynes foram devidamente refutadas mais tarde por Ludwig von Mises (Omnipotent Government) e Étienne Mantoux (The Carthaginian Peace). A culpa inequívoca do governo alemão já está mais do que demonstrada pela pesquisa histórica, e foi aliás explicitamente confessada pelo chanceler do Kaiser Bethmann Hollweg em suas memórias. O montante das reparações não era tão grande em proporção ao produto nacional alemão, e a insistência no seu pagamento teria inviabilizado, ou pelo menos atrasado, o programa de rearmamento iniciado ainda em fins da República de Weimar e acelerado subsequentemente por Hitler. Mas nada poderia impedir que uma tão brilhante peça de argumentação erística, perfeitamente consonante com o zeitgeist, o espírito da época, fizesse enorme sucesso. O livro de Keynes foi habilmente aproveitado pela propaganda nacionalista alemã, inclusive a nazista, para fomentar a atmosfera de complacência internacional que facilitou a ascensão posterior de Hitler. Não é argumentar ad absurdum afirmar que Keynes forneceu vários dos tijolos para a construção dos muros dos futuros campos de concentração nazistas.


Tendo provado o gosto da fama literária e midiática, Keynes nunca mais abandonou as polêmicas públicas, tornando-se um intelectual opinativo e requisitado pela imprensa, tal como tantas figuras similares em nosso país. Vários de seus artigos dessa safra foram reunidos e publicados sob o título Essays in Persuasion (1932), onde o leitor atual pode se deliciar com o estilo florido e admirar a habilidade sofística do autor. Ele não perdia uma oportunidade de escandalizar, de soar herético. "Epater le bourgeois", como dizem os franceses.


Subjacente ao prestígio popular de Keynes estava a sua autoridade como economista. A economia na época já se tornara uma ciência altamente especializada e inacessível aos leigos graças ao crescente formalismo matemático e geométrico, bem como o desenvolvimento de um jargão próprio ininteligível. Longe iam os dias em que os não-especialistas cultos compreendiam com relativa facilidade os teoremas enunciados no bom e velho raciocínio dedutivo verbal por Adam Smith, David Ricardo e outros, e podiam acompanhar ativamente as polêmicas travadas pelos grandes nomes da área. Cabe aqui observar que o complexo verniz matemático utilizado pelos economistas modernos encobre proposições bastantes simples e perfeitamente passíveis de serem expressas em lógica discursiva. Trata-se de uma violação do princípio do método científico conhecido como navalha de Occam, segundo o qual, resumindo grosseiramente, não se deve complicar desnecessariamente o que pode ser enunciado de modo mais simples. A panóplia de curvas, equações e modelos matemáticos serve para dar aos economistas a ilusão de contarem com um instrumental metodológico altamente científico, copiado das ciências exatas, que confunde e atemoriza o não-especialista. Mas acima de tudo serve para ocultar o absurdo e a ilogicidade de suas proposições básicas, que, se expostas claramente, não enganariam nenhum crítico inteligente. Quem duvida, deveria experimentar ler os textos acadêmicos de gente como Simonsen, Sayad, Beluzzo, Kandir e Zélia Cardoso e, da pletora de equações e diagramas, extrair deles os postulados essenciais que fundamentam seus encadeamentos lógicos. Quem fizer isso vai compreender imediatamente o nexo de causalidade entre os paralogismo s obtidos e os desastres sociais por eles causados em nosso país. De todo modo, Keynes certamente foi um dos que mais contribuiu para turvar a ciência econômica com essa finalidade. Mas que espécie de economista era Keynes afinal?


Keynes, o Economista


Em Cambridge, Keynes foi discípulo de Alfred Marshall, tido como uma das maiores autoridades mundiais em ciência econômica de seu tempo. O trabalho de A C Pigou também o influenciou muito. Mais tarde, em sua obra mais famosa, A Teoria Geral, Keynes rompeu com seus mentores, classificando-os como "clássicos", apegados a uma superada concepção ricardiana e laissez-faire da economia. Mas era assim realmente? Marshall na verdade atrasou bastante a evolução do pensamento econômico, insistindo na insustentável teoria objetiva do valor. Para ele o custo "real" das mercadorias era tão importante na formação dos preços quanto a utilidade subjetiva dos demandantes, recusando-se a reconhecer que o custo é um fenômeno sempre subjetivo (custo de oportunidade). Quanto a Pigou, foi um dos mais acatados pioneiros da teoria do welfare state, do estado provedor de bem-estar e redistribuidor de renda. Seu livro mais famoso, The Economics of Welfare, da década de 1910, lido hoje, surpreende pela atualidade. É um minucioso projeto do Estado Previdenciário plenamente - e infelizmente - realizado ao longo do tempo. É curioso que esses dois autores, que não nutriam grande simpatia pelo capitalismo laissez-faire, tenham sido acusados por Keynes de representarem justamente a quintessência do capitalismo laissez-faire. Essa contradição ostensiva ocultava uma bem urdida armadilha sofística: Marshall já não estava entre os vivos para defender sua posição "clássica", e Pigou dificilmente vestiria a carapuça de campeão do capitalismo. O mais provável é que ele acabasse se identificando com o novo sistema keynesiano, o que, aliás, após alguma relutância, acabou de fato acontecendo. O verdadeiro núcleo do pens amento econômico liberal era bem outro, a escola austríaca, muito mais sólida em seus fundamentos do que a ambígua e inconsistente escola de Cambridge. A tática de Keynes consistiu em evitar o combate direto com os austríacos, ignorando-os e afastando-os sub-repticiamente do âmbito relevante da discussão. No tribunal constituído por Keynes para julgar o capitalismo ele era o promotor e o juiz, e ainda nomeou o pior advogado de defesa possível para o réu. É de admirar que o capitalismo laissez-faire tenha sido condenado inapelavelmente? Mas isso veremos com detalhes mais adiante.

Digressão sobre Marx


O leitor mais atento já terá percebido que o terreno está sendo preparado para Keynes esboçar seu sistema econômico anti-capitalista, ou, o que dá no mesmo, socialista. Mas essa tarefa já não teria sido cumprida à contento por Karl Marx? A resposta é um inequívoco "não". Marx ergueu sua doutrina sobre o alicerce da teoria do valor clássica, estando, pois, sujeito aos mesmos vícios e limitações que afetavam o seu modelo. Quando a doutrina econômica marxista emergiu de sua obscuridade inicial em fins do século 19 e reclamou um lugar de honra no panorama teórico da disciplina, já encontrou um novo e firme edifício científico erigido a partir das descobertas dos pioneiros do marginalismo, na década de 1870. Descartada a teoria clássica do valor-trabalho, o marxismo, que dela deduzia todo o seu sistema, também soçobrou. Autores treinados na nova técnica como E. Bohm-Bawerk, P. Wicksteed e V. Pareto analisaram e refutaram as teses marxistas com a maior facilidade. O marxismo foi portanto barrado na porta de entrada do templo da respeitabilidade científica no campo da economia, e ficou confinado a guetos ortodoxos estagnados que não eram levados a sério fora de seu círculo.


A fusão de uma teoria econômica errada com a nefelibática filosofia da história de Hegel gerou um monstrengo teorético eficaz apenas como misticismo ideológico. É plausível a tese de que as massas proletárias geradas pelo industrialismo expropriariam a burguesia opressora, dissolvendo o estado e dando fim à luta de classes para sempre, inaugurando assim o reino da abundância sobre a terra? É muito mais razoável conceber a "vanguarda do proletariado", ou seja, os intelectuais ativistas, como uma classe em si mesma, distinta do e oposta ao proletariado, ávida de poder, e pronta a tomar posse do aparato estatal e se fazer nomenklatura por tempo indeterminado, esmagando brutalmente qualquer tipo de oposição, real ou imaginária. Foi precisamente isso o que aconteceu, e até mesmo marxistas como Trotsky e Rosa Luxemburgo tiveram a lucidez de antever esse desfecho. Marx no fim das contas não passou de um pretensioso socialista "utópico", ainda mais ingênuo e abstruso do que aqueles seus antecessores que tão severamente criticou.


Para reinvidicar atenção, um economista marxista tinha que ser bem pouco marxista e muito neoclássico. Vários espécimens desse estranho animal estavam entre os estudiosos que compunham a entourage de Keynes em Cambridge, conhecida como O Circo, tais como Joan Robinson, M. Kalecki e P. Sraffa. O próprio Keynes, porém, nunca se importou muito com o marxismo, no qual ele via, com razão, um desvio grotesco do sistema de Ricardo. Marx fracassou completamente na missão de elaborar a teoria econômica do socialimo, ou, o que é a mesma coisa, refutar a economia como ciência e invalidar as regularidades inexoráveis dela inferidas, e Keynes sabia disso. Ele mesmo, pois, dedicou seus melhores esforços para ser bem-sucedido onde seu irado antecessor alemão falhara.


Teórico ou Ideólogo?


Uma vez consolidado o seu prestígio popular, e seguro de suas credenciais acadêmicas (lecionava em Cambridge e era editor do afamado periódico especializado Economic Journal), Keynes direcionou suas baterias para a alta teoria econômica. Cabe aqui um parêntese para refletir sobre as qualidades necessárias a um verdadeiro homem de ciência: inteligência, cultura, dedicação, objetividade e sobretudo honestidade intelectual. Keynes sem dúvida era muito culto e inteligente, mas carecia de honestidade. Um estudioso sério deve formar juízo definitivo sobre a matéria investigada somente após a investigação, ou pelo menos ter a coragem de admitir que o estudo rigoroso contraria as opiniões pré-concebidas, quando isso acontecer. Keynes nunca foi um teórico. Era um ideólogo. Partia de posições firmadas antes de empreender suas análises, as quais eram cuidadosamente moldadas de maneira a apoiar essas posições, afastando toda prova em contrário e todos os críticos mediante artifícios erísticos. Esse modo de proceder é muito mais comum nos meios científicos do que se pensa, sobretudo nas ciências sociais, em que a prova rigorosa dos teoremas é menos certa do que nas ciências exatas. Daí para a subjugação de vários ramos do conhecimento pelo mais descarado charlatanismo ideológico é só um passo. Somos testemunhas, atualmente, desse fenômeno em disciplinas como sociologia, antropologia, história e sobretudo filosofia, pervertidas por farsantes de todo o tipo e reduzidas a lamentáveis mistifórios. A economia não teve destino diferente. O resultado disso é socialmente catastrófico, vez que o charlatanismo econômico afeta diretamente as vidas de todos os indivíduos. N&oacut e;s, brasileiros, desafortunadamente temos acumulado larga experiência como vítimas dos incessantes "planos" de pseudo-economistas.


A Relíquia Bárbara


A obra teórica de Keynes foi na verdade anti-teórica. Seu objetivo era nada mais, nada menos do que demolir a ciência econômica como tal e substituí-la por um simulacro de ciência. Esse fôra o desejo de muitos pensadores socialistas antes de Keynes. Como Arthur Marget observou, Proudhon, Marx, Veblen, Schmoller, Henry George, Hobson e suas respectivas escolas haviam atacado violentamente a economia, mas todos fracassaram sobretudo por serem outsiders. Keynes, ao contrário, estava muito bem situado dentro da cidadela mesma da economia e por isso sua investida foi bem sucedida. Keynes foi um presente de grego dos fabianos para a ciência econômica, um cavalo de tróia introduzido no coração da fortaleza. Seu trabalho subsequente foi o de abrir os portões para as hordas fabianas ocuparem o terreno.


O primeiro obstáculo no caminho de Keynes era o padrão-ouro. A moeda nasceu espontaneamente do intercâmbio social em um sistema de divisão do trabalho e troca direta de mercadorias. No curso de milhares de anos, o mercado, isto é, os indivíduos cooperando voluntariamente através de contratos de modo a que cada um pudesse atingir seus respectivos fins livremente escolhidos, selecionou entre várias mercadorias-moeda o ouro e a prata como o dinheiro por excelência. No curso do século 19, o sistema monetário internacional passou do bimetalismo (ouro e prata) para o monometalismo, o padrão-ouro. A libra, o dólar, o marco, o franco e todas as unidades monetárias dos países civilizados eram meras denominações de certas quantidades de ouro. As notas e os depósitos bancários eram resgatáveis à vista, ou seja, tinham que ser convertidos em ouro a qualquer tempo. Qualquer cidadão, se assim preferisse, poderia trocar notas de dez dólares pelo seu equivalente em ouro. As implicações dessa soberania popular no sistema monetário eram muito importantes. A oferta de moeda na economia mundial era regulada pelo mercado e não pelos políticos e suas "equipes econômicas". Só haveria mais dinheiro quando se gastasse menos ouro nas atividades de mineração do que fosse possível extrair das minas.


Quem não estava nada satisfeito com esse arranjo eram os bancos, e, principalmente, os governos. Os bancos queriam emprestar a juros além de suas reservas em ouro, i.e., criar dinheiro do nada com uma simples penada contábil. Os políticos desejavam assumir o controle total da moeda e do sistema financeiro, adquirindo o poder de criar dinheiro à vontade e distribuí-lo aos grupos de interesse de sua preferência, bem como tributar sem controle parlamentar e popular através da inflação. A capacidade de inflacionar dos bancos, contudo, era limitada, vez que estender demais o passivo em relação às reservas era um convite à desconfiança dos correntistas e à consequente corrida contra o banco e a bancarrota. Os governos, porém, dispondo do monopólio da força, dos tribunais e da polícia, gozam de ampla margem de manobra inflacionista. Do concluio entre os políticos e os bancos surgiram muito cedo os bancos centrais estatais, com seus monopólios de emissão de notas com curso forçado, seu poder de suspender a conversibilidade da moeda em ouro, de suspender os pagamentos, de concentrar as reservas de todos os bancos particulares e permitir-lhes a expansão do crédito em regime de reservas fracionais sob a cobertura do governo. A Primeira Guerra foi um presente dos céus para a conspiração política contra o controle popular do dinheiro. Todos os governos beligerantes suspenderam a conversibilidade da moeda e recorreram à inflação, ao invés da tributação direta e aberta, para financiar suas respectivas e vastas despesas bélicas. Após o encerramento do conflito, a opinião pública, ainda sensível a antigos preceitos morais como o pacta sunt servanda (os contratos devem ser cumpridos), esperava um retorno ao padrão-ouro. Na Grã-Bretanha, após certa relutância, o governo propôs-se a deflacionar a moeda até o ponto em que pudesse restaurar a conversibilidade na mesma relação libra-ouro de 1914, o que foi feito em 1925.


Esse era o estado da questão quando Keynes publicou seu primeiro livro "sério" de teoria econômica, Tract on the Monetary Reform, de 1923. A idéia central desse livro era que o padrão-ouro deveria ser abandonado de uma vez por todas e que o controle da quantidade de moeda na economia deveria ser confiado aos bons ofícios dos políticos, essas almas puras inteiramente dedicadas ao bem comum, que se encarregariam de zelar pela estabilidade da moeda e do "nível geral de preços". Vale notar que a crítica de Keynes não era de todo infundada. O problema é que a deflação não reverte os estragos causados pela inflação anterior. Esta implica em redistribuição de riquezas em favor dos beneficiados pela distribuição de dinheiro sem lastro pelo governo, após o que um novo equilíbrio é firmado. A deflação não beneficia necessariamente os perdedores do jogo inflacionário, nem restaura o status quo ante, e sim acresce uma nova redistribuição de riquezas `a antecedente. Ludwig von Mises ilustrava esse processo dizendo que, depois que o carro atropelou o pedestre, dar marcha-ré não vai desfazer o mal perpetrado e sim causar ainda mais dano ao atropelado. A decisão correta teria sido restaurar o padrão-ouro na base da nova paridade entre libra e ouro, sem deflação. A idéia de Keynes, contudo, ia bem mais além, como já observado. Ele queria o fim do padrão-ouro tout court. Até hoje sua tirada satírica contra o metal precioso, qualificado de "relíquia bárbara", é lembrada como condensação sofística dos argumentos contra o ouro-moeda. O que ninguém se recorda é da réplica de Edwin Cannan, economista à moda antiga porqu e por demais apegado à razão e à verdade para os padrões da época. Cannan apontou para os campos de batalha ainda fumegantes, onde a fina flor da juventude européia fôra insensatamente sacrificada aos milhões. Chamou a atenção para as hiperinflações que naquele mesmo momento evaporavam as economias de dezenas de milhões de infelizes na Alemanha e alhures, pauperizando-os da noite para o dia. Que prova mais contundente de barbarismo contemporâneo poderia haver? Quando houvera morticínio e saque em escala comparável em toda a história? Não, dizia Cannan, somos mais bárbaros do que nunca, e a "relíquia" era por isso mesmo mais necessária do que jamais fôra. O padrão-ouro era absolutamente indispensável para se controlar a insanidade dos políticos. O fato de ter sido Keynes, e não Cannan, a prevalecer nesse debate crucial confirma plenamente os argumentos desse último. O barbarismo triunfou. E muito mais viria no futuro. Hoje todos os governos gozam da prerrogativa de fazer aquilo que proibem sob as mais severas penas aos particulares: falsificar dinheiro.


Surfando a Onda da Depressão


Keynes amadureceu seu sistema e publicou seus dois ambiciosos livros de teoria pura na época extremamente conturbada da Grande Depressão dos anos 30. O primeiro, Treatise on Money, de 1930, não será comentando nesse ensaio, posto que o próprio autor renegou-o em parte e o considerou como rascunho inacabado e imperfeito de sua teoria só plenamente desenvolvida na obra posterior, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de 1936. Digno de nota, entretanto, é que um escritor famoso por sua prosa clara e facilidade de expor o raciocínio tenha subitamente produzido textos tão confusos, obscuros e desorganizados como os contidos nos livros mencionados. Até mesmo os especialistas sofreram para decifrar os argumentos centrais de Keynes, o que, aliás, deu ensejo a que alguns autores (A Hansen, D. Dillard e outros) ganhassem fortunas com a venda de livros que resumiam e explicavam a Teoria Geral.


É preciso contextualizar a magnum opus de Keynes. O pesado legado da guerra de 14-18 estorvava a economia mundial com as colossais dívidas internas e externas dos governos europeus, tanto entre eles próprios quanto entre cada um deles e os Estados Unidos, agora feita nação credora universal. O sistema monetário baseado no padrão-ouro nunca mais se recuperou do colapso de 1914. A inflação destruiu economias inteiras. A carga tributária subiu às alturas em toda parte, a fim de suportar as despesas crescentes com as atividades previdenciárias e assistencialistas dos governos, bem como com a estatização generalizada de empresas privadas, que, ato contínuo, deixavam de ser lucrativas e passavam a onerar o tesouro. O poderio dos sindicatos na Europa elevava os níveis salariais bem acima da produtividade marginal do trabalho, resultando em desemprego. O governo americano, atendendo a interesses setoriais, sobretudo agrícolas, adotou políticas protecionistas que impediam os europeus de exportarem para os Estados Unidos e assim obterem superávits que os capacitasse a honrar suas dívidas em dólar. Em 1920 a economia global desmoronou em uma tremenda recessão iniciada nos EUA. O desemprego chegou perto dos 20% da força de trabalho naquele país e a violenta retração espraiou-se para o resto do planeta. Essa, porém, foi a última crise em que os governos não se intrometeram muito. Preços e salários caíram e logo as proporções entre preços e custos se ajustaram de forma a permitir uma recuperação rápida. Em fins de 1921 a economia americana já tinha se reerguido e o desemprego logo caiu para menos de 4%.


Começou então uma período de prosperidade global febril, puxada pela locomotiva americana, que padecia, contudo, de graves artificialismos. Como nos anos 90, as novas tecnologias maravilhavam o mundo, os ganhos de produtividade nas indústrias, que resultavam em aumento da oferta de produtos e baixa dos preços, contrabalançavam a inflação monetária e sua tendência altista, gerando preços estáveis. Falava-se muito em "nova economia", em crescimento perpétuo. Havia porém perigosos desequilíbrios que comprometiam toda a situação. As tarifas americanas bloqueavam o comércio com a Europa, cujas enormes dívidas com os EUA, impagáveis por causa dessas mesmas tarifas, inchavam ainda mais com incidência de juros sobre o principal. Para contornar esse gargalo, o banco central americano inundou o mercado financeiro com colossais massas de crédito bancário barato, que passaram a financiar as aquisições européias de produtos americanos (sem resolver as dívidas pendentes), a estimular a má alocação de recursos em investimentos artificialmente rentáveis graças apenas aos juros baixos, e, claro, a alimentar violentos movimentos especulativos que culminaram no grande estouro da bolsa de valores novaiorquina, em outubro de 1929. A crise então deflagrada encontrou um clima intelectual, político e ideológico totalmente intoxicado de socialismo. Os governos, a começar pelo americano, decidiram se envolver e curar a doença por eles mesmos causada. O New Deal começou na administração Hoover. O governo pressionou os empregadores a não reduzir salários nem demitir, conforme a doutrina da moda de que era o "poder aquisitivo" a chave da prosperidade. Keynes ratificaria mais tarde essa idéia com seu princí ;pio da "demanda efetiva". O efeito inevitável dessa insensatez foram as falências em massa e o desemprego sem precedentes. Hoover, e depois Roosevelt, empregaram fortunas em obras públicas inúteis para "gerar empregos", bem como reduziram as taxas de juros. Ambas as medidas são igualmente fundamentais no receituário keynesiano. Mas a depressão se aprofundava. Para piorar as coisas, as tarifas alfandegárias foram ampliadas, arruinando de vez o comércio internacional, e os impostos foram aumentados, onerando ainda mais as empresas. Em 1931 o sistema financeiro, atolado com créditos podres, desmoronou. Uma epidemia planetária de falências bancárias deflagrou o pânico generalizado e uma forte deflação. Um a um, todos os governos abandonaram para sempre o lastro em ouro, recorreram à inflação e às desvalorizações da moeda, ergueram barreiras intransponíveis ao comércio internacional. Nada funcionava. A desintegração das relações internacionais acabou em mais uma guerra mundial.


A Teoria Geral


Nessa atmosfera desesperadora, Keynes publicou seu organon, em 1936. É hora, pois, de avaliar em linhas gerais essa tão famosa Teoria Geral (para uma análise minuciosa e exauriente, recomendo os livros de Hazlitt, Hahn, Hutt e Marget indicados abaixo). A teoria keynesiana investiga as relações entre grandes agregados e médias numéricas em um dado país, tais como renda total, produção total, demanda total, oferta total, consumo total, poupança total, emprego total, nível de preços etc, para daí extrair conclusões analíticas e formular uma política positiva de ação. A finalidade principal é desvendar os processos que levam ao "pleno emprego", isto é, à plena utilização do fator de produção trabalho, na esfera teórica e, com base na teoria, na esfera prática. Keynes concebe duas curvas (ou "funções"): a curva da demanda agregada – que representa a receita total esperada da produção total – e a curva da oferta agregada – que retrata a receita total da produção total que induz os empresários a empregar determinados volumes de trabalho. A interseção entre as duas curvas é o ponto da "demanda efetiva", que corresponde ao máximo de emprego que será oferecido pelos empresários em um determinado momento. Ocorre que, segundo Keynes, o ponto da demanda efetiva não corresponde necessariamente ao pleno emprego. O problema decorre do seguinte: a renda agregada (de todos os indivíduos e empresas) é igual ao consumo agregado mais a poupança agregada. Tudo iria bem se a poupança agregada fosse integralmente investida em bens de capital, equivalendo pois ao investimento agregado. Nesse caso, a "demanda efetiva" corresponderia de fato a o "pleno emprego". Sucede que parte da poupança pode ser simplesmente "entesourada", ou seja, mantida ociosa em forma de dinheiro e depósitos bancários. Quando isso ocorre, a "demanda efetiva" não é suficiente para manter o "pleno emprego". Surge um hiato entre o volume de investimento corrente e o volume de investimento necessário para se atingir o "pleno emprego".


Keynes lamenta amargamente que a "propensão a consumir" de uma comunidade moderna fique longe do dispêndio de 100% da renda total em bens de consumo, pois se toda a renda fosse gasta em consumo a "demanda efetiva" coincidiria permanentemente com o "pleno emprego", para a felicidade geral das nações. Como isso não ocorre, as consequências são sinistras: o desemprego crônico de grandes massas de assalariados, a menos que o investimento supra a lacuna entre o ponto da "demanda efetiva" e o ponto do "pleno emprego". Porém, a demanda por trabalho no setor de investimentos (bens de capital) é irremediavelmente instável. Os empresários só investem quando esperam obter um retorno para o capital empregado superior à taxa de juros corrente. A lucratividade esperada de um novo investimento é denominada por Keynes de "eficiência marginal do capital". Desafortunadamente, a eficiência marginal do capital padece de volatilidade insanável no curto prazo e tendência inexoravelmente declinante no logo prazo. O primeiro vício mencionado dá causa aos ciclos econômicos, que não passam de flutuações violentas nas expectativas de rentabilidade por parte dos homens de negócio, esses vilões intrinsecamente irracionais cujas atividades flutuam ao sabor de ondas inexplicáveis de otimismo e pessimismo que contaminam toda a economia e convidam ao desastre. O segundo vício deflui do fato de que os novos investimentos competem com os antigos e necessariamente levam ao declínio das taxas esperadas de retorno até um ponto igual ou inferior à taxa de juros corrente. O resultado é a escassez crescente de oportunidades de investimentos rentáveis, a estagnação e o "equilíbrio com desemprego", uma vez que a "dema nda efetiva" não é suficiente para garantir o "pleno emprego". Keynes denomina seu sistema de "teoria geral" por entender que a teoria "clássica" é apenas um caso especial no qual, por efêmeras razões históricas, o ponto da "demanda efetiva" coincidiu por um longo período com o ponto do "pleno emprego". E que razões históricas seriam essas? No alvorecer do capitalismo as oportunidades de investimentos lucrativos eram muito grandes em razão da escassez de capital, das inovações tecnológicas (como as ferrovias), da expansão territorial (como a "marcha para o oeste" nos Estados Unidos) e do crescimento populacional acelerado. Essas felizes e fortuitas circunstâncias não mais existiam no capitalismo maduro, o qual revelava sua inerente iniquidade em uma estagnação estrutural permanente, com a perversidade inominável de condenar vastas massas de trabalhadores à ociosidade e à inânia.


Entretanto, nem tudo estava perdido. Havia uma luz no fim do túnel pútrido e sombrio das contradições internas do capitalismo. Qual? O estado, naturalmente. Para Keynes, o governo era o busílis, desde que conduzido por homans racionais e benevolentes, empunhando as ferramentas científicas apropriadas (o keynesianismo, claro) e atuando em nome do puro bem comum. O estado poderia "salvar o capitalismo" socializando o investimento, substituindo os empresários instáveis e egoístas e fazendo a "eutanásia do rentier". Em tempos de depressão, bastaria ao governo "investir" o suficiente para suprir a carência de investimento privado, mesmo que tal significasse um déficit orçamentário. Déficits não seriam um problema, posto que os "investimentos" do governo poderiam ser cuidadosamente planejados de forma a utilizar os recursos ociosos graças ao "efeito multiplicador", uma fórmula matemática que permitia calcular com precisão e rigor os efeitos revigorantes dos "investimentos públicos". Como financiar o déficit? Com endividamento público, o qual desviaria dinheiro privado ocioso para finalidades socialmente úteis segundo o julgamento dos políticos e burocratas; e também com a criação pura e simples de dinheiro do nada, via lançamentos contábeis entre o banco central e o tesouro. Mas endividamento e inflação não seriam perigosos a longo prazo? Não, diziam os keynesianos, pois a dívida pública interna significa que "nós devemos a nós mesmos", portanto seu volume pouco importa. A inflação só se manifestaria em aumento do nível de preços quando a "demanda efetiva" ultrapassasse o ponto do "pleno emprego", de modo que bastaria ao governo aumentar impostos e reduzir a liquidez da economia para mantê-la equilibrada. De qualquer maneira, uma inflação baixa não seria de todo mal. Antes inflação que desemprego.


Outra medida fundamental era a tributação progressiva da renda dos ricos, cuja "propensão a consumir" é baixa, em favor dos pobres, cuja "propensão a consumir" é alta. A poupança era a vilã e tinha que ser desencorajada a qualquer preço. Outro instrumento de estabilização seria a progressiva redução da taxa de juros até zero. O juro, no sistema de Keynes, é um fenômeno puramente monetário, resultante da "preferência pela liquidez", ou seja, demanda por moeda para fins meramente especulativos e anti-sociais. O juro é um instrumento de opressão usado por usurários e rentistas inescrupulosos com finalidades egoísticas. Sendo assim, nada impede que o estado, em nome da felicidade social, suprima o juro e propicie uma abundância geral de capital, sem qualquer consequência negativa. Ademais, desse modo a "eficiência marginal do capital", livre da limitação do juro, seria amplamente favorecida, fomentando mais investimentos privados. Por fim, Keynes argumentava que o princípio das vantagens comparativas de Ricardo não importava mais. O comércio internacional e a divisão internacional do trabalho eram meras abstrações e, por mais que tivessem tido alguma validade na época dos clássicos, agora deveriam ceder diante do imperativo do "pleno emprego". A prioridade dos governos deveria ser o "pleno emprego", mesmo que tal exigisse o fechamento da economia para o comércio externo. O que Keynes propunha era uma reinvenção radical do mercantilismo, ao qual aliás não poupou elogios em seu livro.


O grande sucesso dessa mixórdia insensata se deve ao fato de que fornecia justificações pseudocientíficas aos preconceitos ideológicos mais caros aos socialistas fabianos. A culpa da crise e do desemprego é lançada nas costas dos empresários, capitalistas e especuladores; a solução consistia em outorgar mais poder e dinheiro aos políticos e intelectuários fabianos. A moderna macroeconomia nasceu sob o signo da mais descarada demagogia.


A Crítica Desprezada


Antes de passar a um exame crítico do sistema keynesiano, deve ficar esclarecido que essa crítica fundar-se-á sobretudo nas lições da escola austríaca de economia, cujas características principais merecem uma breve exposição. Fundada por Carl Menger, que formulou o princípio da utilidade marginal em 1871 revolucionando a teoria do valor e dos preços, a escola austríaca amadureceu na obra de Bohm-Bawerk e sua teoria do capital e do juro, e na de Wieser, que enunciou a noção de custo de oportunidade. Outro austríaco, da mesma geração de Keynes, Ludwig von Mises (1881-1973), consolidou o sistema de seus antecessores e acrescentou a ele importantes elementos novos. No trabalho de Mises a tradição austríaca alcança o pleno desenvolvimento. O traço fundamental dessa corrente é a análise consistente da economia á luz do individualismo e do subjetivismo metodológicos. A economia é a ciência da ação humana motivada em um ambiente marcado pela imperfeição das informações e pela incerteza do futuro, e, ipso facto, deve deduzir seus postulados básicos do comportamento individual humano. Mises distingue entre teoria e história, esta o resultado de forças complexas inextricáveis, aquela inferida de axiomas irrefutáveis destilados da ação humana e ordenada em uma cadeia dedutiva apriorística de causa e efeito. Agir consiste em escolher e preferir, eleger fins e meios adequados para alcançar esses fins, ensina Mises, e no próprio conceito de ação estão categorias econômicas como: escassez (o mero fato de escolher implica a impossibilidade de se atingir todos os fins ao mesmo tempo), custo (eleito um objetivo, todos os demais passíveis de serem atingidos com os mesmos mei os são sacrificados – custo de oportunidade), lucro e prejuízo (avaliação subjetiva ex post que revela o grau de sucesso ou insucesso da ação). Mises nega que seja possível deduzir leis econômicas de estudos estatísticos; as estatísticas são sempre e apenas história econômica, ainda que recente. Como história é um conjunto de fenômenos complexos, a evidência empírica não prova nem refuta a teoria. Mises rejeita, pois, o princípio popperiano da falseabilidade na ciência econômica, e também rejeita categoricamente o método matemático em economia, visto inexistirem constantes quantitativamente mensuráveis no comportamento humano individual e social. Rejeita igualmente a agregação característica da macroeconomia. Ao contrário de todas as outras correntes do pensamento econômico, os austríacos desprezam o estudo obsessivo do equilíbrio, preferindo ver a economia como um processo tendente ao equilíbrio, sem jamais o alcançar, e concentrar-se nas forças dinâmicas reais. Não é difícil notar que a escola austríaca discrepa completamente das demais correntes do pensamento econômico.


Refletindo sobre meios e fins, Mises, como fazem todos os economistas, se perguntava sobre qual a melhor maneira de se organizar a economia de modo a que os fins declaradamente desejados por quase todo mundo, a melhoria da situação material das pessoas e a eliminação da miséria absoluta, possam ser eficazmente atendidos. Ele descartou o socialismo sem mercado tout court, vez que a propriedade coletiva dos fatores de produção resulta na ausência de preços para esses fatores, o que oculta ao único proprietário (o estado) informações vitais sobre a escassez relativa e os usos alternativos dos recursos. Sem mercado não há preços, sem preços não é possível o cálculo econômico racional e, consequentemente, o socialismo é impossível. A economia "mista" tampouco é viável, posto que toda interferência estatal nos preços, salários e juros acarreta consequências negativas e distorções que tornam a situação ainda pior e levam a novas interferências, igualmente mal-sucedidas. A "terceira via", então, sofre de uma instabilidade crônica: a intervenção estatal tende a se aprofundar e terminar no socialismo sem mercado. A alternativa restante é o capitalismo laissez-faire. Com a escola austríaca a "mão invisível" de Adam Smith ganha confirmação e fundamentos muito mais sólidos do que aqueles em que o filósofo escocês lastreou sua teoria.


A epistemologia, a metodologia e as conclusões de Mises não são aceitas pela esmagadora maioria dos economistas. Não se trata, porém, de uma questão científica, e sim ideológica. É evidente que os intelectuais socialistas fabianos, economistas ou não, não podem aceitar um corpo de doutrina que refuta cabalmente o socialismo em todas as suas manifestações. Mas essa refutação é realmente assim tão categórica? Cabe a cada um estudar, comparar e julgar por si mesmo. Em todo caso, para quem prefere o método positivista de formular hipóteses e testá-las empiricamente para a economia, vale a pena recordar que os austríacos (Mises e Hayek) foram os únicos a sustentar, contra o consenso geral dos economistas, a inviabilidade básica do socialismo à outrance. O colapso soviético confirmou esta hipótese à saciedade. Esse foi, sem dúvida, um dos mais espetaculares e completos triunfos intelectuais na história das idéias. Mises e Hayek também previram que o keynesianismo consistia em injeção crescente de dinheiro na economia até o ponto em que a droga perderia efeito e o resultado seria depressão, inflação galopante e desemprego. Os keynesianos ridicularizavam essa possibilidade. Mais uma hipótese confirmada: nos anos 70 tivemos depressão, inflação e desemprego. Mises antecipou que as ambições dos macroeconomistas e econometristas (o próprio Keynes, justiça seja feita, não tinha essa pretensão) de construírem modelos matemáticos complexos capazes de prever com precisão o nível futuro de atividade econômica estavam fadadas ao fracasso total. Acertou novamente: hoje o máximo que se almeja é a elaboração de mú ;ltiplos "cenários" alternativos, ou seja previsões gerais de tendência mutuamente excludentes.


Revogando a Lei da Gravidade


Keynes é saudado como o gênio que refutou a Lei de Say. Vejamos o conteúdo dessa lei e, por conseguinte, a validade da "refutação". O francês Jean-Baptiste Say travou no início do século 19 um acalorado debate com Malthus e Sismondi acerca da possibilidade de uma superprodução geral de mercadorias. Say negou essa hipótese, argumentando que cada pessoa produz para consumo próprio ou para trocar por bens e serviços produzidos por outras pessoas. A oferta, pois, cria sua própria demanda. Tudo o que é produzido acaba sendo consumido, e não pode haver superprodução geral. Keynes retrucou afirmando que a Lei de Say pressupunha a coincidência da "demanda efetiva" com o "pleno emprego", mas que, em caso de entesouramento de parte da renda total, a "demanda efetiva" seria inferior ao "pleno emprego". Nesse caso, haveria grandes massas de trabalhadores sem meios de produzir nada, e, ipso facto, a superprodução – ou, mais precisamente, o subconsumo - geral permanente é perfeitamente possível e até comum.


Analisemos a Lei de Say em três hipóteses. Na primeira abstrai-se a moeda, pressupondo-se uma economia de troca direta (escambo). Tudo o que se produz ou é consumido pelo próprio produtor ou trocado por mercadorias produzidas por outros indivíduos. A segunda hipótese presume uma economia monetária e um estoque definido de dinheiro, de modo que as pessoas trocam produção por dinheiro e, posteriormente, dinheiro por produção. Presume-se ademais que toda a renda é gasta em bens de consumo e bens de capital. Nesses dois casos a Lei de Say não é impugnada. O problema, segundo Keynes, se manifesta quando parte da renda total não é despendida nem em bens de consumo nem em bens de capital, mas retida em forma de dinheiro "parado" em encaixes individuais. A falácia na lógica keynesiana reside no seguinte: os preços e salários são considerados rígidos. Ora, Say pressupõe flexibilidade de preços e salários e mobilidade dos fatores de produção entre as indústrias. É assim que excessos parciais de oferta, digamos, de bicicletas ou melões, não se traduzem em superprodução geral. Os consumidores queriam menos bicicletas e mais velocípedes; menos melões e mais melancias. Os empresários erraram em suas estimativas. Os preços de bicicletas e melões então caem até o ponto em que igualam oferta e demanda, enquanto que os preços de velocípedes e melancias aumentam até igualar oferta e demanda. Say presume a fluidez de preços e salários como elemento dinâmico harmonizador.


Nem mesmo o caso do "entesouramento" de dinheiro afeta a validade da Lei de Say. Se os agentes econômicos resolvem reter parte de sua renda (aumento da demanda total por moeda), a consequência é o aumento do poder de compra da unidade monetária, ou, o que é o mesmo, a redução dos preços, mantidos os mesmos níveis de consumo e investimento. Os keynesianos, todavia, afirmam que quando o aumento da demanda por moeda tem causas especulativas, isto é, quando as pessoas evitam consumir ou investir até que os preços tenham caído o suficiente para então consumir ou investir, há o perigo da chamada "armadilha da liquidez". Os preços e salários diminuem até zero e a atividade econômica diminui junto, deflagrando uma depressão homérica. Trata-se, porém, de um sofisma. Como a boa teoria vem ensinando há muito tempo, a especulação tende a acelerar o ajustamento da situação atual à situação futura prevista pelos especuladores, ou, em caso de erro de previsão, os especuladores simplesmente perdem dinheiro. A elevação da demanda por dinheiro para fins especulativos, se bem sucedida, apressa a redução de preços e salários até o nível antecipado pelos especuladores, sem que tal implique necessariamente na redução da atividade econômica. Os keynesianos retrucam com a possibilidade da baixa de preços se prolongar indefinidamente. Ora, essa hipótese não tem relevância prática, e, de todo modo, nada impediria em tese que os preços se ajustassem pari passu no curso dessa baixa. É claro que os ajustes via preços não são automáticos, instantâneos e perfeitos. Mas, inexistindo obstruções às leis de mercado, n& atilde;o há nada que funcione melhor.


Os casos concretos em que a "armadilha da liquidez" teria realmente acontecido, nos Estados Unidos e alhures na depressão dos anos 30, e atualmente na depressão japonesa dos anos 90, demonstrariam empiricamente a validez da hipótese, na ótica keynesiana. Mas não é assim. O que ocorreu nos EUA após 1929 foi uma deflação abrupta (a redução do estoque de dinheiro) posterior ao estouro de uma grande bolha creditícia inflada pelo banco central. Deflação não é o mesmo que "entesouramento". Ademais, o governo interferiu pesadamente nos mecanismo de ajuste via preços, impedindo a redução de salários. O seu ativismo intervencionista, traduzido em desvalorizações da moeda, arregimentações de tipo fascista do empresariado e dos sindicatos, aumento de impostos, protecionismo alfandegário etc desencorajaram gravemente o investimento e tornaram impossível a recuperação. Também o episódio japonês começou com uma grande expansão de crédito bancário nos anos 80, a qual resultou em má alocação de investimentos e alimentou uma gigantesca bolha especulativa imobiliária que acabou estourando, deixando os bancos montados em montanhas de créditos podres e tecnicamente falidos. A economia nipônica padece de graves entraves, sobretudo no mercado de trabalho. O governo não permitiu a liquidação dos investimentos inviáveis e quebrados; pelo contrário, recorreu à farmacopéia keynesiana completa, com novas injeções creditícias a juros zero ("reflação") e gigantescas obras públicas inúteis (como uma enorme e moderna ponte ligando o nada a lugar nenhum), sem resultado positivo. O Japão está atolado na depres são há 10 anos. Em ambos os casos a Lei de Say não falhou de maneira alguma. Ela foi impedida de operar pelo ativismo dos governos e sindicatos. A causa da "armadilha da liquidez" é o intervencionismo estatal, jamais as "forças cegas" do capitalismo laissez-faire.


A doutrina keynesiana pode ser assim resumida: a demanda cria sua própria oferta. Trocando em miúdos, tudo o que se exige para a felicidade eterna é a distribuição de dinheiro para a população consumir à vontade. Se isso fosse solução, uma única lei seria suficiente para criar e eternizar o reino da abundância: outorgar a cada cidadão o poder de fabricar seu próprio dinheiro com curso obrigatório. A refutação da Lei de Say por Keynes não passa de uma piada de péssimo gosto.


O Equilíbrio do Desequilíbrio


A Grã-Bretanha não desfrutou da onda de prosperidade dos anos 20. O desemprego permanente de grandes massas de assalariados perdurou ao longo do período subsequente à depressão de 1920-21 até 1939. A crise mundial de 29 só tornou as coisas ainda piores. Qual a razão desse fenômeno? Muito simples: o poderio sindical. Os poderosos sindicatos ingleses gozavam de isenção do dever de indenizar danos materiais e pessoais perpetrados em piquetes e greves, mercê de uma lei expressa a esse respeito. Ademais, contavam com o total apoio político-ideológico da intelligentsia fabiana, da qual Keynes fazia parte, e do Partido Trabalhista, cuja força eleitoral não parava de aumentar. Em suma: os sindicatos ingleses, graças ao privilégio da coerção contra os empregadores via greve ou ameaça de greve, e contra a concorrência de trabalhadores não sindicalizados via piquetes, detinham o poder de fixar os salários em níveis superiores à produtividade marginal de cada setor. Ora, a teoria mais elementar ensina que a fixação de um preço acima do ponto em que oferta e demanda se igualam acarreta um excesso encalhado de oferta. Como os salários são preços, o ativismo sindical resultava em desemprego para milhões de pessoas, impedidas de aceitar empregos por valores menores do que aqueles determinados pelos sindicatos. Para evitar uma explosão social, o governo pagava generosas pensões aos desempregados, cujo custeio porém exigia um crescente arrocho tributário que sobrecarregava as empresas, reduzindo ainda mais sua competitividade e capacidade de empregar. Como Mises dizia, um país pode ter tanto desemprego quanto se dispuser a pagar.


Keynes, como bom fabiano, malgrado percebesse muito bem os efeitos nocivos do sindicalismo britânico, preferia não fazer grande alarde disso. Os sindicatos eram importantes demais na hagiologia fabiana para serem responsabilizados pelos males que causavam. Foi esse imperativo ideológico de ocultar a realidade que inspirou o economista britânico a conceber sua teoria macroeconômica do emprego, cujos contornos já estudamos acima. A "demanda efetiva", no entanto, é pura mistificação. Os entes de razão criados por Keynes, os agregados, não têm a mínima importância concreta para a determinação do nível total de emprego. O trabalho é um fator de produção e o objetivo de toda produção é o consumo. Até que a humanidade chegue ao Jardim do Éden da plenitude, o consumo das coisas existentes e outras ainda nem imaginadas será permanente. Sendo assim, o trabalho por definição é escasso. A cada momento existe mais demanda do que oferta, ou seja, as pessoas estão sempre querendo consumir mais bens e serviços do que os ofertados. Se o trabalho é escasso, ele é um bem econômico, i.e., tudo aquilo que, a preço zero, a demanda supera a oferta. Como o trabalho é um bem econômico, ele tem sempre um preço, e sempre há demanda correspondente à oferta, a esse preço. Em uma economia de mercado desimpedida, portanto, não pode haver desemprego involuntário permanente. As causas do desemprego são invariavelmente exógenas ao mercado.


Como vimos, Keynes negava esse raciocínio, asseverando que o verdadeiro determinante do nível de emprego total, a "demanda efetiva", poderia se situar abaixo do ponto do "pleno emprego", perpetuando assim uma situação de "equilíbrio com desemprego". Rebatendo às críticas que apontavam a presunção de rigidez para baixo dos padrões salariais em seu sistema, Keynes recorria a dois argumentos: 1- o poder sindical era uma realidade, pelo que a política prática não podia deixar de levar esse fator em conta; e 2- que a diminuição dos salários reduziria a renda global e a demanda agregada, que por sua vez reduziria o emprego total. O primeiro argumento equivale a admitir a validade da teoria "clássica" do emprego. Se os preços não podem mais funcionar como fator equilibrador entre oferta e demanda por trabalho, porque é politicamente impossível despojar os sindicatos do privilégio do uso da violência em causa própria, então a culpa não é evidentemente dos preços nem do capitalismo laissez-faire. O segundo argumento repousa em um sofisma: Keynes confunde deliberadamente níveis salariais com despesas totais com salários, coisas completamente diferentes. Ora, o que importa para os empregadores individuais não é a "curva da oferta agregada" ou a "curva da demanda agregada", e sim a diferença entre custos correntes, inclusive com mão-de-obra, e o preço futuro do seu produto e a receita total futura da sua produção, de maneira que haja expectativa de obtenção de retorno ao menos equivalente à taxa de juros corrente. O empregador individual não pode pagar mais aos seus empregados do que o valor que cada um deles agrega ao total da produção desse empre gador, nem pode pagar menos do que seus concorrentes pagam. Na ausência de obstáculos artificiais, os preços e custos se ajustam no nível microeconômico até que o "pleno emprego" seja alcançado, ou seja, até o ponto em que todos aqueles que desejam se empregar obtém empregos. Por conseguinte, a redução dos níveis salariais (que jamais é uniforme e simultânea, e nem precisa ser) não significa redução dos gastos totais com o pagamento de mão-de-obra. Pelo contrário, atingido o ponto de igualdade entre oferta e demanda por trabalho em cada área profissional, o total das despesas com salários tende inclusive a superar o total anterior. Um exemplo simplificado ilustrará o raciocínio: suponhamos que o governo decrete um salário mínimo de um bilhão de dólares. Digamos que, a esse preço, somente uma pessoa consiga trabalho. O nível salarial é um bilhão de dólares, a despesa total com salários é de um bilhão de dólares e somente uma pessoa está empregada. Revogado esse decreto, e prevalecendo a livre negociação nos contratos individuais de trabalho em bases de mercado, o nível salarial naturalmente despenca. Por outro lado, todos aqueles que desejam trabalhar agora conseguem emprego, e a despesa total com salários chega a, digamos, dois bilhões de dólares. O "equilíbrio com desemprego" é uma farsa, até porque o conceito de equilíbrio é uma mera construção imaginária, sem lugar no mundo real.


Keynes reconhece tacitamente a solidez dessas objeções quando afirma que os sindicatos resistem apenas à reduções dos salários nominais, mas não se opõem à redução dos salários reais. O que ele recomenda, portanto, é o uso da inflação para reduzir os salários reais, mediante a depreciação do poder aquisitivo do dinheiro, mantidos os salários nominais. Trata-se de um estratagema para contornar os obstáculos sindicais aos ajustes dos salários reais aos respectivos níveis de produtividade marginal, o que permite a absorção das massas de desempregados. Ora, isso é o mesmo que um sujeito, desejando deslocar-se do Rio até Niterói, ao invés de atravessar a ponte ou pegar uma barca, decidir dar a volta ao mundo no outro sentido para chegar à simpática "cidade sorriso", declarando-se um gênio por ter feito essa brilhante descoberta, que passa a denominar "Teoria Geral do Deslocamento entre Rio e Niterói", sendo a prosaica e óbvia travessia da ponte um simples "caso especial". A analogia é menos absurda do que parece. Recorrer à inflação para obter o mesmo resultado que a flexibilidade de preços e salários significa transmitir para o sistema de preços todas as distorções e desequilíbrios que a depreciação da moeda causa. Por outro lado, seria suma ingenuidade ou burrice presumir que os sindicatos se deixariam enganar por um artifício tão singelo. Na realidade, claro, eles rapidamente perceberam o que estava ocorrendo e passaram a exigir "reposições salariais" segundo índices de custo de vida. O unguento keynesiano não só não curou o paciente como agravou seu estado. O palco estava preparado para a " espiral inflacionária" do pós-guerra.


O Hocus-Pocus da "Eficiência Marginal do Capital" e da "Preferência pela Liquidez"


Vimos que Keynes acreditava que o capitalismo atingira seus limites nos anos 30, posto que a "eficiência marginal do capital", ou seja, a expectativa de lucratividade dos novos investimentos particulares, doravante seria igual ou inferior à taxa de juros no longo prazo. Os fatos posteriores desmentiram espetacularmente essa conclusão, que foi discretamente "esquecida" pelos keynesianos. Desde 1936 a economia mundial cresceu em escala colossal e novas indústrias surgiram e floresceram nesse período, como a da informática. Qual o motivo de tão crassa falha teorética? Keynes, como muitos economistas antes dele, Marx inclusive, deixou-se iludir pela tendência ao equilíbrio existente na economia de mercado. Se as preferências dos consumidores, o crescimento demográfico, as inovações tecnológicas e outras circunstâncias das atividades econômicas subitamente se congelassem, as forças de mercado levariam a um estado de coisas denominado por Mises de "economia uniformemente circular", uma situação de equilíbrio dinâmico na qual não haveria lucros mas também não haveria perdas, e o retorno dos empresários e capitalistas seria equivalente a uma taxa de juros uniforme em todos os ramos produtivos. Como, porém, esses dados nunca estão "dados", pelo contrário, estão em fluxo permanente, e o futuro permanece inexoravelmente incerto, esse equilíbrio geral nunca é atingido. A competição obriga as empresas estabelecidas a pesquisar incessantemente formas de redução de custos e preços, o que libera fatores de produção para serem empregados em novas indústrias. As perspectivas de lucro agregado não tendem a declinar, pelo menos enquanto existir nova poupança agregada sendo formada em volume al& eacute;m do suficiente para se manter a estrutura de capital atual. De maneira que a tendência declinante da "eficiência marginal do capital" de longo prazo, assim como a tendência de queda da "taxa de lucros" dos marxistas, são como aquela plaquinha nos botecos: fiado só amanhã.


Keynes culpava as variações abruptas de curto prazo da "eficiência marginal do capital" pelos ciclos econômicos de prosperidade e depressão. Para ele, a irracionalidade e volubilidade dos investidores privados ("animal spirits") eram a causa eficiente das crises. Essa teoria é tão infundada quanto a anterior. Os empresários são perfeitamente racionais: investem nas linhas de produção em que esperam o maior retorno, o qual dependerá do estado futuro do mercado, sobretudo da preferência dos conumidores. Alguns erram suas estimativas e sofrem prejuízos; outros acertam e conseguem obter lucro. Isso ocorre o tempo todo. O traço singular das crises é que repentinamente a situação revela que todos, ou quase todos, os empresários erraram em suas previsões. Não se trata de flutuações na psicologia coletiva do mercado, como defendia Keynes, mas de dados bem reais, concretos: a lucratividade esperada em todos os setores não se confirmou. Ora, como é possível que homens de negócios treinados em um ambiente duramente competitivo na arte de antecipar a demanda futura errem subitamente, todos ao mesmo tempo? Esse é o problema crucial que deve ser enfrentado por uma teoria coerente dos ciclos. É pertinente esboçar agora a teoria dos ciclos da escola austríaca, que, além de me parecer a mais completa, conflita frontalmente com a concepção keynesiana.


No modelo de uma economia de mercado pura, como aqueles delineados por Murray Rothbard (Man, Economy and State) e J. Schumpeter (Teoria do Desenvolvimento Econômico), não se encontra a solução do enigma. Schumpeter (um grande economista austríaco, porém ligado à escola walrasiana do equilíbrio geral) procurou a resposta na função empresarial como o fator de desequilíbrio que detona a crise. É a célebre teoria da "destruição criativa", que ocorre quando alguns empresários introduzem novos métodos de produção, novas tecnologias e novos produtos no mercado. Essas inovações perturbam a constelação econômica e deflagram algo como "dores do parto" inevitáveis ao progresso, em que certas indústrias são eliminados e novas são criadas e desenvolvidas. Findo o processo, um novo equilíbrio é estabelecido, até que nova perturbação aconteça. A crítica que efetivamente refuta essa tese funda-se no fato de que as inovações empresariais não se concentram em um período determinado, mas estão operando o tempo todo. A conclusão dos austríacos é que as crises não têm lugar na economia capitalista pura. A causa dos ciclos, pois, deve necessariamente ser exógena. Mises notou que, em um mundo onde tudo é heterogêneo, o cálculo econômico racional pressupõe preços em dinheiro, que é a unidade de conta homogênea que articula toda a economia. Os agentes econômicos traçam seus planos e agem em função deles com base em parâmetros monetários. O sistema de preços é, pois, a bússola geral da economia. O que ocorre quando essa bússola é danificada? Em especial, quais as consequências de manipulações das taxas de juros no mercado financeiro? Antes de prosseguir é preciso proceder a uma investigação sumária sobre a natureza do juro.


A teoria do juro é muito controvertida. Existem basicamente duas explicações sobre a sua essência: produtividade do capital e preferência temporal. A doutrina da produtividade ensina que o empréstimo de dinheiro equivale a ceder a outrem os meios de empregar bens de capital para determinados fins. Esses bens de capital produzirão frutos no período do empréstimo, pelo que o juro é a recompensa que se paga ao emprestador pela cessão da produtividade do capital ao tomador. Já a tese da preferência temporal parte do pressuposto de que as pessoas valoram mais os mesmos bens no presente do que no futuro, sendo o juro o desconto do futuro em relação ao presente. Há ainda autores ecléticos que adotam tanto a produtividade quanto a preferência temporal. Todas essas teorias concluem que o juro é um fenômeno real que perpassa toda a economia, não sendo limitado ao mercado de empréstimo de dinheiro. Keynes, porém, com sua tese da "preferência pela liquidez", afirma que o juro é a recompensa que se paga ao emprestador para não entesourar dinheiro. E só. Para os keynesianos o juro é um fenômeno limitado ao mercado de dinheiro. Trata-se de um tremendo retrocesso a grosseiras concepções pré-científicas. O juro é retratado como um abuso da propriedade do dinheiro por parte de usurários inescrupulosos. Nada mais justo, pois, do que simplesmente abolir o juro e acabar com esse privilégio iníquo do "rentier". Essa tese está, para variar, inteiramente errada. Ora, se o juro é o preço de se separar da liquidez, o mesmo se pode dizer de todos os preços existentes. Por exemplo, o preço de uma média com pão com manteiga é a recompensa que o dono do botequim deve me pagar para que eu desista d e entesourar a nota de um real que carrego na carteira e me anime a separar-me da cálida liquidez propiciada por esse dinheiro. Assim, a "taxa da média com pão com manteiga" é de um real. Ridículo.


Para Mises, o juro é a taxa social de preferência temporal e o principal componente da taxa de juros do mercado financeiro, à qual se somam mais dois componentes secundários: um relativo à expectativa de variação do poder aquisitivo da unidade monetária e outro referente ao risco de inadimplemento dos devedores. Seguindo a concepção de Bohm-Bawerk sobre o capital, o juro é visto como um fenômeno real cujo papel é o de estruturar intertemporalmente os diversos estágios da produção capitalista. Esta segue um caminho indireto, dividido em várias fases, da extração das matérias-primas até a venda do bem de consumo no varejo. A taxa de juros bancária sinaliza para os empreendedores o quantum de poupança disponível para investimentos e a proporção social entre consumo e poupança em um dado momento. Se o banco central reduz artificialmente a taxa de juros abaixo do nível de mercado, um sinal fundamental para o processo econômico é falseado. Se a taxa de mercado é de, digamos, 10% anuais, somente empreendimentos que prometam um retorno acima dessa cifra serão levados a cabo. Se, contudo, o governo fixa uma taxa de 6% anuais, criando ex nihilo depósitos bancários sujeitos a cheque, ou seja, inflando o estoque de moeda, os empresários lançam-se em projetos que só aparentemente são rentáveis, pois a poupança existente é menor do que parece.. Surge um falso incentivo ao investimento sobretudo nos estágios de bens de capital mais distantes do consumo final, os quais atraem fatores de produção antes empregados nos estágios mais próximos do consumo final. Ocorre que a taxa de juros real, isto é, a proporção geral de consumo e poupança, não mudou. Os proprietários dos fatores de produção atraídos para as novas indústrias continuam a gastar e poupar como se a taxa de juros fosse de 10% anuais. O incremento do consumo decorrente da maior quantidade de dinheiro aumenta os preços do varejo e os estágios da cadeia produtiva mais próximos do consumo atraem de volta os fatores de produção anteriormente desviados para o setor de bens de capital. Os investimentos ilusoriamente rentáveis à taxa de juros mais baixa revelam-se errados. É o momento da crise. O governo vê-se diante do dilema de baixar ainda mais a taxa de juros para socorrer os devedores em estado periclitante, e assim correr o perigo de uma inflação de preços, ou elevar os juros até o nível de mercado ou acima, o que engendra a liquidação dos empreendimentos inviáveis e a retomada do equilíbrio segundo a preferência temporal real. Esse último caso é a recessão.


Essa teoria monetária dos ciclos, brilhantemente formalizada por Hayek no livro Prices and Production, é apoiada pela evidência empírica. Todas as crises e recessões (inclusive a atual) começam nas indústrias de bens de capital e só bem mais tarde chegam ao consumo no varejo. Se a doutrina keynesiana da demanda agregada insuficiente fosse a correta, seria o contrário: o setor de bens de consumo seria afetado em primeiro lugar. A ambição keynesiana de abolir o juro é, por conseguinte absurda e desastrosa. A política keynesiana de manter juros artificialmente baixos por um longo tempo tampouco é menos nefasta. A opção entre inflação e desemprego é ilusória, salvo no curto prazo. A inflação não pode durar para sempre, sob pena de causar o colapso da própria moeda. A grande crise dos anos 70, caracterizada por inflação alta e desemprego alto, representou o fim do projeto keynesiano de fomentar a prosperidade eterna via inflação e juros baixos. Para debelar a inflação, os países desenvolvidos viram-se obrigados a elevar as taxas de juros reais para a estratosfera no início dos anos 80, exatamente como previra a teoria austríaca dos ciclos.


O Milagre da Multiplicação


O multiplicador é um conceito chave no sistema keynesiano e anunciado como uma de suas grandes descobertas. Vejamos. Keynes deduz da natureza humana, sem maiores fanfarras, uma "lei psicológica fundamental", batizada de propensão a consumir. Trata-se de uma relação supostamente estável entre renda total e consumo total, representada graficamente por uma curva (ou matematicamente por uma "função"). A idéia básica é que o consumo agregado é sempre proporcionalmente estável, mesmo quando a renda agregada aumenta. Suponhamos que o consumo agregado seja de 80% da renda agregada em qualquer nível, sendo os 20% restantes alocados como poupança. Dessa suposição infere-se que todo investimento novo (público ou privado) gera um múltiplo cuja exata magnitude pode ser calculada matematicamente. O investimento gera renda para os proprietários dos fatores de produção, os quais poupam 20% e gastam 80%, que se torna renda para quem recebeu, e assim por diante. Assim, um investimento de um milhão (o multiplicando) gera um aumento total de renda de cinco milhões, supondo-se que o multiplicador seja 5.


Estamos diante de um caso de flagrante abuso da matemática, pois apregoa-se uma exatidão rigorosa absolutamente falsa. Para começar, Keynes matematiza uma "lei psicológica", cuja existência e validade sequer é investigada, com a maior naturalidade, como se fosse coisa perfeitamente normal. Como Freud e Jung não pensaram nisso antes? É óbvio o sofisma. Não há lei psicológica nenhuma que permita deduzir a estabilidade permanente da proporção consumo/poupança da renda agregada. Não existem constantes quantitativas na ação humana. É puro xamanismo travestido de ciência. Ademais, mesmo admitindo-se para argumentar que o raciocínio esteja em linhas gerais correto, a precisão matemática é espúria. Como Keynes e os keynesianos admitem, é impossível saber de antemão qual será o multiplicador do próximo investimento. Keynes "acha", por exemplo, que o multiplicador nos Estados Unidos da época era de 2,5. Tampouco é razoavelmente possível verificar posteriormente qual foi o multiplicador do investimento passado e qual o aumento da renda por ele gerado, até porque afirma-se que podem ocorrer "filtrações" imprevisíveis no processo. O tempo de duração desse milagre da multiplicação também é imprevisível, vez que depende de circunstâncias variáveis. Logo, o que temos é o seguinte: SE a propensão a consumir for a, SE a propensão marginal a consumir for b e SE o multiplicador for k, um novo investimento de x acarretará um aumento de renda de kx, se não houver filtrações, e em tempo indefinido. Um enunciado honesto dessa teoria seria algo como: todo novo investimento gera um aumento de renda cuja magnitude e tempo de dura&cc edil;ão, além de não poderem ser estimados ex ante nem verificados ex post, dependem de circunstâncias inquantificáveis e imprevisíveis, e ipso facto nunca são constantes. A exposição clara do raciocínio, contudo, revelaria seu caráter truístico e impreciso, o que seria inaceitável face ao propósito idelógico mais ou menos declarado dessa mistificação: justificar os gastos públicos. A grande revolução do keynesianismo teve natureza semântico-idelógica: qualquer gasto público, por mais estapafúrdio que fosse, passou a ser denominado de "investimento". Keynes afirma na Teoria Geral que construir pirâmides ou cavar buracos para depois tapá-los com dinheiro público são hipóteses de "investimento".


É claro que tudo isso é bobagem da grossa. Na ausência de interferência no sistema de preços, a Lei de Say se encarrega de harmonizar o processo econômico. Quantos aos gastos públicos, se são financiados com impostos ou endividamento, simplesmente desviam recursos do investimento e consumo dos particulares para finalidades preferidas pelos políticos e burocratas. Se um governo ordena a construção de pirâmides invertidas nas praças de todas as cidades, o "multiplicador" correspondente à renda dos operários empregados nessas obras é mais do que anulado pelo "divisor" decorrente de empreeendimentos privados que tiveram de ser renunciados e da renda dos assalariados desses empreendimentos que consequentemente não foi gerada. Na hipótese de financiamento inflacionário dos gastos públicos, ou seja, através da criação pura e simples de dinheiro, somente decorrerão efeitos positivos, e mesmo assim só no curto prazo, se a inflação de preços depreciar os salários nominais até o ponto em que seu valor real iguale oferta e procura por trabalho em todos os mercados. Vale lembrar que "investimentos" públicos ocorreram em grande escala durante toda a depressão dos anos 30, bem como na atual crise japonesa, e o "multiplicador" simplesmente não funcionou.


Estamos agora em posição de esboçar um modelo de economia ideal segundo o figurino keynesiano. Imaginemos um sistema em que o governo imprime um milhão de unidades monetárias e as entrega a quinhentos mil indivíduos, a metade da população, com ordens expressas de gastar esse dinheiro integralmente na contratação da outra metade da população para o fim específico de cavar buracos com as mãos nuas. Estes, por sua vez, terão que gastar toda a sua renda contratando aqueles para tapar os buracos cavados. A propensão a consumir é, pois, de 100%, perfeitamente estável e constante. A poupança felizmente não existe, de maneira que não ocorre o entesouramento. Também não há investimento privado, graças aos céus, de modo que essa variável inconveniente e instável não atrapalha o funcionamento da economia. O multiplicador pode ser calculado com precisão e seus efeitos idem: como a propensão marginal a consumir é 1, o multiplicador de renda é infinito. Keynes descobriu o moto contínuo econômico! Não há comércio exterior nem problemas com a taxa de câmbio. O juro está suprimido; o rentier não oprime mais o povo. Voilá! O ponto da demanda efetiva coincide permanente e eternamente com o ponto do pleno emprego. É verdade que a ninguém é permitido fazer outra coisa senão cavar e tapar buracos. Mas que importam esses detalhes? O desemprego está eliminado para sempre. O pleno emprego é tudo o que a humanidade necessita!


O leitor talvez se queixe de abuso do recurso retórico da reductio ad absurdum. Creio, todavia, que na lógica do sistema keynesiano todos os raciocínios conduzem inevitavelmente ao absurdo.


O Postulado do Rei-Filósofo


Mesmo que o quadro analítico pintado por Keynes estivesse correto – e não está -, ainda assim o programa de ação dele derivado dependeria de mais um postulado nada menos do que mirabolante: a onisciência e benevolência dos agentes públicos encarregados de sua execução. Para o Deus Ex Machina keynesiano funcionar é imprescindível que ele seja manejado por um Rei-Filósofo platônico, assessorado por severos e incorruptíveis guardiães. Somente uma deidade seria capaz de saber com certeza o momento exato de puxar as alavancas e acionar os botões da máquina macroeconômica keynesiana e assim perpetuar o equilíbrio com pleno emprego. E somente seres divinos seriam capazes de resistir às tentações de usar em causa própria o enorme poder que Keynes concentra no governo. Essa era a imagem que Keynes e seus sucessores faziam de si mesmos, ou pelo menos era a imagem com que queriam persuadir o público de sua capacidade e competência. E não há dúvida de que é desse modo que os políticos e burocratas gostam de ser retratados. Evidentemente esse postulado deve ser rejeitado instintivamente por absurdo. Malgrado seja possível que um ou outro agente estatal atue de acordo com o que acredita ser o interesse social, há que reconhecer que essa não é a regra.


Os economistas da escola da "Public Choice" aprofundaram o estudo do comportamento do homo politicus e suas análises retratam com bastante fidelidade a realidade circundante. Presume-se que tanto os políticos, como os burocratas e eleitores ajam segundo seus próprios interesses. O objetivo dos políticos é alcançar e manter o poder; os burocratas desejam melhores salários e mais prebendas; e os eleitores votam nos candidatos que lhes prometam mais benefícios concretos. Os políticos celebram acordos com grupos de interesse setoriais que lhes garantam o máximo possível de votos e recursos para suas campanhas eleitorais; os burocratas pressionam os políticos através de seus poderosos sindicatos visando obter cada vez mais vantagens; e os eleitores votam em quem lhes oferecer algo palpável em troca, não raro às expensas de outras pessoas e grupos. Os recursos que sustentam os políticos, burocratas e eleitores favorecidos por políticas redistributivistas e restricionistas (welfare-state, subsídios, protecionismo, licenças profissionais etc) são oriundos da riqueza tomada aos contribuintes. A carga tributária, assim, tende a ser tão alta quanto possível e mesmo assim nunca é suficiente para assegurar um orçamento público equilibrado. Os déficits fiscais permanentes resultantes acabam sendo financiados via inflação e endividamento público, que geram juros altos e muitos outros males. A politização crescente da vida engendra uma ordem social infernal e injusta, tal como a que conhecemos tão bem. A macroeconomia keynesiana, já um erro em si mesma, agrava ainda mais a situação por outorgar aos agentes políticos poderes exorbitantes para manipular a economia, poderes que inevitavelmente terminam sendo exercidos em benef&iac ute;cio próprio por aqueles que o usam. Ao tornar respeitáveis - e mesmo desejáveis - coisas como inflação, déficits orçamentários, gastos públicos desmedidos e tributação elevada, o keynesianismo contribuiu decisivamente para fomentar o descalabro estatista em escala só ultrapassada nos países comunistas.


O Dono do Mundo


Na época da deflagração da Segunda Guerra Mundial, Keynes estava no pináculo da fama e influência mundiais, reconhecido como maior economista do seu tempo. Principal assessor de política econômica do governo britânico, foi feito Lorde (Barão Keynes de Tilton) por seu antigo desafeto Winston Churchill. Com a vitória militar assegurada, reuniram-se em 1944, na localidade americana de Bretton Woods, delegações de inúmeros governos para deliberar sobre a reconstrução da economia mundial do pós-guerra. É claro que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha dominavam a conferência, restando aos demais o papel de meros figurantes. Chefiando a missão britânica lá estava ele, Keynes, finalmente dispondo de poder suficiente para impor sua engenharia social ao planeta. O líder dos americanos era Harry Dexter White, um ativo new dealer de Roosevelt e, hoje sabe-se com certeza, comunista e agente da União Soviética. Que ironia! O futuro do capitalismo estava agora nas mãos de um socialista fabiano e de um comunista! E que cinismo dos socialistas de todos os matizes as entediantes catilinárias lançadas contra instituições criadas por eles mesmos, como o FMI, o Banco Mundial e o Gatt (atual OMC)!


Keynes queria liberdade de ação para o seu governo (e, por extensão, para todos os governos) garantir o "pleno emprego" estabilizando a "demanda efetiva". Em outras palavras, ele pretendia aumentar indefinidamente a oferta de moeda e crédito na economia inglesa, ou em bom português, inflacionar. Para que as inevitáveis distorções e problemas oriundos dos fluxos financeiros internacionais, do câmbio, do balanço de pagamentos e do comércio exterior não atrapalhassem a política inflacionária inglesa, Keynes propunha que se controlasse severamente os movimentos de capital e as taxas de câmbio. O rabo teria que abanar o cachorro. Ele e Harry White conceberam o FMI para tentar remendar os desequilíbrios nos balanços de pagamentos que suas próprias políticas tornavam inevitáveis. Estava criado o cenário para a pandemia inflacionária mundial das próximas décadas. Foi criado ainda o Banco Mundial, organismo que se especializou em transferir o dinheiro tomado compulsoriamente dos contribuintes pobres dos países ricos para as ricas e predatórias oligarquias dos países pobres. Na mesma época, Roosevelt doava metade da Europa para a URSS em troca da participação dela na ONU. Assim, essa instituição tão ciosa dos "direitos humanos" nasceu de uma barganha na qual algumas dezenas de milhões de seres humanos foram entregues cinicamente aos ternos cuidados do "Tio Joe", o camarada Stalin.

Keynes morreu no auge do sucesso em 1946. Alguns de seus amigos disseram mais tarde que ele estava algo insatisfeito com suas próprias teorias e seus efeitos, irritado com seus pupilos do "circo" cambridgeano e que tencionava repudiar parcialmente o "keynesianismo". De fato, em seu último artigo no Economic Journal, publicado postumamente, há discretos elogios à doutrina "clássica" e uma amarga tirada contra as teorias contemporâneas, "much modernist stuff turned sour, and gone wrong and silly". A que mais ele poderia estar se referindo senão às suas próprias idéias?! Seja como for, o mal já estava feito.


O Mundo Mágico da Macroeconomia


Teorizar é abstrair do objeto do estudo os elementos acidentais e manejar apenas o que é essencial para a compreensão do que se estuda. A macroeconomia, contudo, abstrai demais e por isso é imprestável como referencial teórico. O próprio núcleo do fenômeno econômico, a ação humana individual motivada em um mundo de escassez e incerteza, é desprezado. Esse é o pecado original da macroeconomia inaugurada pelo pernóstico fabiano inglês e que a macula desde então. O único vínculo entre os agregados keynesianos e o ser humano concreto são as "leis psicológicas fundamentais" que Keynes inventa para adornar com uma aparência de fundamentação empírica suas "funções" fraudulentas. A macroeconomia não faz sentido para os agentes econômicos: indivíduos, empresas, famílias. Esse holismo só interessa ao estado, não porque lhe confira o poder de controlar benevolamente as atividades econômicas, mas porque dissemina a ilusão de que isso é possível e desejável. A fusão dessa macrodoutrina com as outras tendências dominantes no pensamento econômico da época, o método matemático e a quantificação estatística, gestaram um ferramental analítico tão imponente quanto equivocado. Um colega de Keynes, J. Hicks, concebeu em 1937 o modelo IS-ML ("I" de investimento, "S" de poupança, "L" de preferência pela liquidez e "M" de oferta de moeda) no qual a "teoria geral" keynesiana, que se gabava de ser um avanço face ao "caso especial clássico", ela era mesma um caso especial. Essa "macro-macroeconomia" Keynes-Hicks é o que se ensina ainda em nossos dias nas universidades de t odo o planeta como o state of the art da ciência econômica. Modelos macroeconômicos com 300 equações e 500 variáveis foram desenvolvidos com o fim de prever a atividade econômica futura e atingiram uma perfeição estatística impressionante: 100% de previsões erradas. Os historiadores futuros registrarão que raramente houve nos anais da ciência tamanho desperdício de neurônios e recursos.


Na mesma época, a teoria do valor e dos preços ganhou a alcunha de microeconomia. O paradigma teórico microeconômico, como era de se esperar, veio a ser, como ainda é, aquele baseado na obra de L. Walras, cujos traços marcantes são a metodologia pesadamente matemática, o formalismo, os postulados irrealistas (concorrência perfeita, informação perfeita, mobilidade perfeita) e a obsessão pelo equilíbrio. A farisaica constatação de que a realidade imperfeita não se enquadra nas premissas e conclusões perfeitas dessa espécie de análise microeconômica forneceu, e ainda fornece, mais falsos pretextos para o intervencionismo estatal curar as "falhas do mercado". A "síntese neoclássica", como passou a ser chamado esse casamento de conveniência da macroeconomia keynesiana com a microeconomia walrasiana, reduz o pensamento econômico a um ramo da matemática aplicada, expulsando do seu âmbito a ação humana concreta. Os economistas contemporâneos empenharam-se na busca inútil da equação suprema e fundamental, a e=mc2 da economia. Contudo, uma ciência não pode esvaziar-se de seu conteúdo impunemente. À medida em que os refinamentos analíticos descolavam a teoria econômica cada vez mais do mundo real, e as controvérsias doutrinárias se faziam cada vez mais bizantinas, a realidade se fez sentir e veio a desnudar a irrelevância das mais engenhosas teorias e dos mais elegantes modelos matamáticos.


A mitologia fabiana assevera que os 25 anos que se seguiram à Segunda Guerra constituíram uma Idade do Ouro de crescimento constante e prosperidade universal atribuídos, claro, ao keynesianismo. Trata-se de uma patranha ideológica, de um caso típico da falácia post hoc ergo propter hoc, como veremos. Períodos de grande desenvolvimento no século 19 e no início do século 20 se desenrolaram sem a interveniência da nova macroeconomia. O fato é que o futuro do capitalismo dependia do desempenho da economia americana, a única isenta das depredações causadas pela guerra. As previsões de Keynes e seus discípulos em ambos os lados do Atlântico, porém, eram sombrias. A guerra trouxera o pleno emprego, pois quem não estava fabricando armamentos em casa estava utilizando-os nas batalhas nos quatro cantos do mundo. O investimento fora socializado, com efeito. O governo americano controlava direta ou indiretamente a produção nacional. O fim do conflito traria a desmobilização de milhões de soldados, bem como a drástica redução da produção bélica. A consequente cessação do domínio estatal do investimento total significaria devolver aos particulares a dura tarefa de igualar a "demanda efetiva" ao ponto do "pleno emprego". Como sabemos, os keynesianos acreditavam piamente que isso não seria possível, face aos vícios da "eficiência marginal do capital" privado. Eles eram unânimes em seu diagnóstico: a paz causaria uma depressão calamitosa na economia americana. Ah, se a guerra pudesse durar para sempre! Diagnóstico estrondosamente errado. Os homens que deixaram as forças armadas foram rapidamente absorvidos no mercado de trabalho e a conversão da produção para fins pacíficos ocorreu com uma rapidez e harmonia surpreendentes até mesmo para os raros remanescentes da antiga e "superada" teoria econômica. A depressão profetizada não se materializou. A velha Lei de Say cumpriu sua missão equilibradora à contento e o vigor econômico americano em breve estava galvanizando o mundo. A prosperidade continuou nos anos 50, sob a prudente administração do Presidente Eisenhower, que adotou uma política de orçamento equilibrado e razoável controle da oferta de moeda. Ele não cedeu às pressões intervencionistas nem mesmo durante as leves recessões do período. À despeito de sua completa hegemonia acadêmica, o keynesianismo só chegou ao poder na América no governo Kennedy.


A recuperação americana não teria sido suficiente para garantir o crescimento econômico mundial em bases capitalistas. A Europa e a Ásia precisavam cooperar. E na Europa, foi a Alemanha Ocidental, arrasada pela guerra e sufocada pelo controles socialistas herdados do nazismo e mantido pelos ocupantes, que surpreendeu o mundo. Keynes nada teve a ver com o milagre alemão. Pelo contrário, a política econômica alemã coube aos liberais da velha escola, Ludwig Erhard e Wilhelm Ropke. Em 1948 foram suprimidos os controles de preços e câmbio, a moeda foi reformada, o governo preocupou-se em preservar sua solvência e deixou ao mercado a tarefa da reconstrução. Em poucos anos a Alemanha era o país mais próspero do continente. A França, por seu turno, só emergiu do marasmo socialista no fim dos anos 50, quando De Gaulle convocou o veterano economista liberal Jacques Rueff, feroz crítico de Keynes, para botar ordem na casa. Não passa de desinformação a idéia de que foi o Plano Marshall o fator decisivo para a retomada alemã e européia em geral. Se subsídio por si só resolvesse alguma coisa, Cuba, que recebeu da URSS dez vezes mais do que toda a Europa sob o Plano Marshall, seria um país opulento. Na Ásia, o igualmente destruído Japão foi o grande pólo da economia de mercado. Para isso contou com alguma sorte. O general MacArthur, o vice-rei ocupante, nutria simpatias pelo liberalismo. O especialista que ele recrutou para lançar os alicerces da nova economia japonesa era um banqueiro americano imune ao charme keynesiano. Como no exemplo alemão, o governo japonês limitou-se a manter suas finanças em ordem; o resto ficou por conta do mercado. Graças ao trabalho duro e a frugalidade do povo japonês e o espírito de iniciativa de seus empres&aac ute;rios, o Japão logo se reergueu. Muita poupança e investimentos privados e orientação para o comércio internacional constituíram a razão do sucesso nipônico. Precisamente o que Keynes considerava nefasto!


Enquanto a tríade EUA-Alemanha-Japão comandava o robusto renascimento capitalista, na Grã-Bretanha, o locus classicus do socialismo fabiano e do keynesianismo, as coisas iam de mal a pior. Não por falta de otimismo e presunção. Antes do final da guerra, W. Beveridge publicou o "manifesto fabiano" intitulado Full Employment in a Free Society, programa de ação política concebido por uma horda de discípulos de Keynes. Os objetivos eram ambiciosos: nada menos do que manejar a nova macroeconomia de modo a assegurar o crescimento econômico acelerado com estabilidade de preços e, naturalmente, pleno emprego. Os ciclos econômicos, o desemprego e as depressões eram fenômenos obsoletos. O triunfo categórico do Partido Trabalhista nas eleições gerais de 1945 assegurava amplo apoio popular e parlamentar ao projeto fabiano. O novo governo estatizou quase toda a indústria pesada, os transportes e muito mais, enquanto o que restava de investimento privado era ciumentamente controlado e dirigido. Os tributos subiram às alturas; em alguns casos a alíquota do imposto de renda chegava a 99%! A taxa de juros foi mantida baixa por anos a fio. No entanto, a economia inglesa atolou-se na estagnação e foi no devido tempo ultrapassada pela Alemanha, Japão, França e até pela Itália. Com o passar dos anos, a "política monetária" e a "política fiscal", os instrumentos básicos de gerenciamento macroeconômico, tornaram-se um fim em si mesmas, entraram em conflito e uma passou a canibalizar a outra. Os déficits orçamentários ("política fiscal") do governo eram cobertos com emissão de dinheiro ("política monetária"). Dessa relação promíscua nasceram dois filhotes teratológicos: a "política salarial" e a "política de preços". A inflação galopante gerada pela criação de dinheiro pelo governo para cobrir os rombos em suas finanças, bem como para estimular a "demanda efetiva", subiu para mais de 20% ao ano e era cada vez mais impopular e intolerável. Do mesmo modo, a "política cambial" fracassava estrepitosamente em seu objetivo de impedir que a inflação depreciasse a moeda. A libra esterlina, outrora um orgulho nacional, caiu pelas tabelas. O governo punha então a culpa nos sindicatos e nos comerciantes, como sempre acontece, e decretava o controle de preços e salários. Conhecemos bem esse roteiro que nos deu o "plano cruzado" e sua prole. Conhecemos melhor ainda os resultados de semelhante insensatez.


Entrementes, nos Estados Unidos, as administrações Kennedy, Johnson e Nixon haviam explodido as contas públicas americanas com as custosas extravagâncias previdenciárias do welfare state, as corridas espacial e armamentista e a guerra do Vietnam. O déficit público americano disparou, juntamente com a inflação. Por outro lado, a camisa de força das taxas de câmbio fixas decididas em Bretton Woods, sob a autoridade de Keynes em pessoa, se esfarelava. Em um mundo onde todos os governos podiam criar dinheiro à vontade, o câmbio fixo era um contra-senso. Os países acabavam exportando suas inflações, sobretudo os Estados Unidos, já que o dólar era a moeda de reserva universal. Em 1971 a (des)ordem monetária internacional gestada por Keynes e White em Bretton Woods se desintegrou. Desde então o valor de cada moeda flutua em relação às outras. Mas pelo menos não haveria desemprego, visto que os economistas keynesianos juravam de pés juntos que inflação e desemprego eram coisas mutuamente excludentes. Certo? Errado. A mágica inflacionária perdeu o encanto nos anos 70, enquanto o desemprego disparava. Foi a época da "estagflação": depressão, desemprego e inflação. Belo epitáfio para a teoria de Keynes.


Nesse ínterim, os economistas da Escola de Chicago, liderados por Milton Friedman, moviam uma guerra de guerrilhas contra a ortodoxia keynesiana dominante nos meios acadêmicos. Friedman é um aguerrido liberal à Adam Smith em tudo, exceto no plano da moeda. Os monetaristas, como passaram a ser conhecidos, abordam a questão do dinheiro de um ponto de vista macroeconômico. Para eles, a tarefa do governo é manter a oferta de moeda em crescimento pari passu com o aumento da produtividade da economia, de modo que o "nível geral de preços" permaneça estável. Quanto ao mais, as forças de mercado se encarregam de harmonizar a economia. A vitória do monetarismo no início dos anos 80 foi apenas parcial. Na verdade, o seu approach monetário foi incorporado à macroeconomia keynesiana, enquanto que suas pregações ultraliberais em outros campos foram devidamente descartadas. De qualquer modo, a experiência catastrófica dos anos 70 contribuiu para abalar a soberba dos macroeconomistas. Desde então, as esfuziantes pretensões macroeconômicas de assegurar o crescimento e o pleno emprego cederam passo à meta bem mais modesta de manter a estabilidade dos preços, deixando o resto para o mercado resolver. Esse é o estado da questão hoje em dia. A política macroeconômica dita de "metas inflacionárias" é adotada em quase todo o mundo. E o que ela quer dizer em bom português? Simples. Significa que a mão direita do governo não vai aumentar a quantidade de dinheiro na economia além de um limite pré-estabelecido, não importa o que sua mão esquerda faça. Em suma, os governos não financiarão seus déficits orçamentantários com inflação, e sim com endividamento. Contudo, mudar o sof&a acute; de lugar não soluciona o imbroglio. A mulher continuará traindo o marido, e o intervencionismo estatal continuará a fazer estragos.


Keynes então estaria bem morto e enterrado, afinal? De jeito nenhum. O problema do monetarismo é que lhe falta uma teoria dos ciclos econômicos. Para eles, se a moeda for bem administrada, os ciclos simplesmente não ocorrerão. Mas eles ocorrem assim mesmo. Nesses momentos, como o atual, os monetaristas ficam desconcertados, ao mesmo tempo em que surgem legiões de keynesianos, como zumbis emergindo dos cemitérios, exigindo dos governos que baixem os juros à zero e que incorram em déficits para estimular a "demanda efetiva". Isso é música para os ouvidos dos políticos de todos os partidos. Ademais, a macroeconomia, mesmo remendada pelo monetarismo, como já analisamos, é um erro e deve ser abandonada tout court. Até que sejam descartados, o pensamento e a ação macroeconômicos continuarão a produzir seus efeitos desastrosos de um modo ou de outro. O espectro de Keynes continuará a nos atormentar enquanto a ideologia fabiana for hegemônica.


Uma Teoria de Terceira para o Terceiro Mundo


A derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial resultou na ocupação do terreno ideológico pelos dois socialismos sobreviventes, o comunismo e o fabianismo. Foi o início de uma época trágica, que perdura até hoje, para a massa heterogênea de povos e culturas díspares atulhados sob o rótulo espúrio conhecido como Terceiro Mundo. As violências e arbitrariedades de outrora empalidecem em comparação com as barbaridades perpetradas pelo socialismo do pós-guerra contra povos insuspeitos e indefesos. O papel lúgubre do comunismo nessa tragédia é mais ou menos conhecido. Trataremos com mais detalhes da atuação fabiana nesse palco, macroeconomia keynesiana inclusa, a qual é menos notória. A Teoria Geral se concentrava nas flutuações de curto prazo no nível de atividade econômica dos países desenvolvidos. Coube aos discípulos de Keynes, como R. Harrod, elaborar uma teoria macroeconômica do crescimento no longo prazo. Essa doutrina foi logo encampada pela fina flor do socialismo fabiano, confortavelmente instalada nas comissões econômicas da ONU e nas instituições multilaterais filhas de Bretton Woods, como o FMI e o Banco Mundial. Homens como o sueco Gunnar Myrdal, o argentino Raul Prebisch e o brasileiro Celso Furtado recomendavam o planejamento econômico socialista como panacéia para os países pobres romperem as cadeias de seu atraso. O Banco Mundial e outras organizações aparentadas abriram generosamente a bolsa para financiar os projetos a serem tocados pelas novas elites dos páises descolonizados, devidamente educadas na tradição socialista ocidental.


Os postulados da teoria desenvolvimentista fabiano-keynesiana eram tão simples quanto ridiculamente falsos. Um deles era o dito "círculo vicioso da pobreza". Os pobres são pobres porque são pobres. O crescimento pressupõe poupança e investimento, sobretudo nos setores de infra-estrutura. Sucede que os pobres do Terceiro Mundo são resignados e acomodados, incapazes de reagirem por si mesmos aos incentivos de mercado. Não possuem capacidade empresarial, nem propensão para a poupança. Os contatos espontâneos com o setor privado do Ocidente não eram bem vistos, uma vez que o dogma de que capitalismo significa exploração do proletariado era aceito mais ou menos abertamente. Ademais, os altos padrões de consumo do mundo desenvolvido causariam o denominado "efeito-demonstração" nos povos subdesenvolvidos, ou seja, incitavam os pobres a imitar os padrões de consumo dos ricos, com prejuízo para a formação de poupança e capital. A copiosa literatura desenvolvimentista do pós-guerra, portadora da aura de sapiência das melhores universidades dos Estados Unidos e da Europa, concluía à unanimidade que a via do desenvolvimento do Terceiro Mundo teria que ser o dirigismo estatal. Nunca ocorreu aos fabianos-keynesianos indagar o que os povos subdesenvolvidos realmente desejavam. O crescimento seria imposto à força, se necessário, pois eles sabiam o que era melhor para as pessoas. A poupança teria que ser extraída à fórceps, mediante a tributação escorchante, o controle do comércio exterior e do câmbio e a inflação. Os investimentos em indústria pesada e infra-estrutura ficariam à cargo do governo, diretamente através de empresas estatais ou indiretamente com o financiamento de empresários nacionais, d evidamente protegidos da concorrência externa e interna mercê de barreiras alfandegárias e concessões monopolísticas, e mimoseados com fartos subsídios. Os investimentos diretos privados não eram encorajados. Como a poupança interna era insuficiente para võos tão altos, os recursos necessários seriam complementados com empréstimos a juros zero e longas carências do Banco Mundial diretamente para os governos. Esses governos, por outro lado, poderiam recorrer também ao mercado financeiro privado internacional, posto que o FMI exerceria a função de avalista junto aos credores externos e fonte de socorros financeiros de emergência. Um programa econômico desse naipe é receita certa para o desastre, o que fica evidenciado pelo fato de que nenhum país que o implementou obteve bons resultados. Mas o pior de tudo nessa cosmovisão era a enorme concentração de poder político e econômico nas mãos do estado, o que era um convite ao despotismo e à corrupção em grande escala


A história cataclísmica do programa fabiano para o Terceiro Mundo ainda está por ser contada. Um traço peculiar do fabiano do Primeiro Mundo é que ele se dá ao luxo de ser romântico no que toca ao mundo subdesenvolvido. Os ditadores mais pantagruélicos e as tiranias mais genocidas merecem invariavelmente a simpatia fabiana, sob a condição de se declararem de esquerda. Ao mesmo tempo em que ditaduras de direita como a sul-africana e a chilena atraíam a fúria dos fabianos hegemônicos nos meios letrados e na imprensa americana e européia, regimes esquerdistas assassinos tinham campo livre para promover suas sinistras aventuras de engenharia social sob a indiferença geral. Na África, sobretudo, essa aliança tácita entre comunistas e fabianos de um lado e as cruéis oligarquias locais de outro consumou massacres inenarráveis até para um Joseph Conrad. O Banco Mundial não suspendeu o financiamento dos governos comunistas etíope e cambojano, por exemplo, nem mesmo quando as respectivas populações eram trucidadas por esses mesmos governos.


Entre os povos roubados por hiperinflações arrasadoras, arruinados por dívidas públicas estratosféricas e subjugados pelo chicote do leviatã estatal está, é claro, o povo brasileiro. Com exceção dos curtos períodos de semi-liberalismo conduzidos por Eugênio Gudin no governo Café Filho, Campos-Bulhões no governo Castelo Branco e Gustavo Franco no início do governo FHC, o desenvolvimentismo vicejou entre nós, à esquerda e à direita do espectro político. O estatismo brasileiro, em especial o de Vargas e Ernesto Geisel, legou uma sociedade marcada pela injustiça, pelo privilégio e pela pobreza. Infelizmente, a indigesta gororoba doutrinária de Celso Furtado, Maria da Conceição Tavares, Bresser Pereira e seus inúmeros discípulos, condimentada com doses iguais de marxismo e keynesianismo, ainda vai continuar a envenenar o nosso povo por muito tempo, pois essa gente continua influente. Romper a cortina de fumaça ideológica que atribui todos os males dos países pobres ao capitalismo predatório não é fácil. Dos poucos autores que trataram francamente do tema, os melhores são o economista britânico Peter Bauer, o filósofo francês Jean-François Revel e o jornalista venezuelano Carlos Rangel. São as testemunhas corajosas e solitárias de um período negro da história da humanidade que ainda não acabou.


Felizmente nem todos os povos do Terceiro Mundo sucumbiram ao rolo compressor fabiano-comunista. Alguns escaparam por confiar mais na ordem contratual voluntária de mercado do que nos poderes coercitivos de polícia. Na Europa, a Irlanda, antes lendária por sua miséria, hoje nada em dinheiro. Na América Latina, o solitário Chile de Pinochet, um caso inédito de ditador não estatista no continente, foi o único a escolher a economia de mercado. Atualmente os chilenos colhem os frutos dessa decisão. Na Ásia, sobretudo, os chineses de Hong Kong, Formosa e Cingapura construíram os mais vibrantes empórios comerciais do mundo. A Coréia do Sul também preferiu o mercado, embora temperado com doses maiores de estatismo. Mas foi o suficiente para humilhar, pelo contraste, a arruinada Coréia comunista. O sucesso do capitalismo nesses países ilustra dolorosamente o equívoco do socialismo fabiano-keynesiano seguido pelo resto do terceiro Mundo.


Conclusão


Chegou o momento de unir as pontas dos argumentos desenvolvidos e responder às indagações formuladas no início do texto. Keynes foi ideologica, politica e intelectualmente um socialista fabiano. Com sua teoria macroeconômica, contribuiu decisivamente para o triunfo quase completo dessa corrente política em nossos dias. Há quem garanta que Keynes foi na verdade um liberal, embora adaptado aos tempos anti-liberais em que viveu, provando essa assertiva com citações descontextualizadas. Isso não é verdade. Podemos produzir citações de Keynes contendo elogios rasgados ao nazismo (na prefácio à edição alemã da Teoria Geral) e ao comunismo (em resenha de um livro apologético de Sidney e Beatrice Webb sobre a URSS de Stalin), mas não seria correto deduzir delas que ele era nazista ou comunista. Isso ele realmente não era. Mas tampouco pode-se concluir de um exame do conjunto de sua obra que ele foi um liberal, salvo no sentido americano desse termo, que se traduz precisamente por socialista fabiano. É fato que Keynes militou no Partido Liberal inglês, mas e daí? Essa agremiação política nada tinha de liberal já no tempo de H. Spencer, meio século antes. O persistente mito de que Keynes teria salvo o capitalismo é um disparate. Sua obra-prima não passa de racionalização ad hoc para as políticas empreendidas por todos os governos desde o início da depressão, cujo fracasso foi total. Após a guerra, o risorgimento do capitalismo ocorreu apesar das teorias de Keynes, não por causa delas. Os keynesianos costumam invocar a vantagem de ocupar uma posição intermediária entre o socialismo sem mercado (nazismo e comunismo) e o capitalismo laissez-faire. Assim, apontam o fato de serem criticados severamente tanto pe los marxistas (ex: Marx contra Keynes, de John Eaton), como pelos liberais clássicos (ex: The Failure of the "New Economics", de Henry Hazlitt), como prova cabal da veracidade de suas teses. É claro que se trata de um sofisma. A virtude nem sempre está no meio. As teorias devem ser avaliadas segundo sua coerência lógica interna e a validez de suas premissas. E nesse teste o keynesianismo não passa.


O socialismo fabiano é, parodiando o dito de Sartre sobre o marxismo, a filosofia insuperável do nosso tempo. Um esclarecimento terminológico: o que eu chamo de socialismo fabiano é mais conhecido na linguagem política corrente como social-democracia ou terceira via. Nos EUA, num clamoroso delito de estelionato semântico, os socialistas fabianos se auto-denominam "liberais". Prefiro, todavia, o termo fabiano por entender que este precedeu a social-democracia, tal como ela é em nossos dias, historica e doutrinariamente. O socialismo fabiano já era desde suas origens o que a social-democracia veio a ser mais tarde. Não é uma doutrina fixada em um corpus orgânico e compacto, como foi o marxismo. Pelo contrário, é um complexo bastante frouxo de idéias soltas e incorporadas como lugares-comuns ao pensamento cotidiano. E por isso mesmo é muito mais eficiente como ideologia do que o marxismo. Este explicitava seus conceitos em uma doutrina rigorosamente estruturada e autodenominada "científica", deixando consequentemente o flanco aberto para ataques e refutações realmente científicos. A fragilidade interna do sistema marxista sempre foi fácil de ser notada, e muito mais ainda a sua clamorosa incompatibilidade com os fatos da vida e a evolução histórica. O sectarismo e a pretensão de monopólio do messianismo de seus adeptos também contribuiu para alienar socialistas de tendências menos rígidas. A economia sem mercado deduzida do marxismo revelou-se completamente insustentável, exatamente como Ludwig von Mises como previra. Seu fascínio pela revolução violenta e depuradora, recurso absolutamente desnecessário – e mesmo contraproducente – para a criação do socialismo é mais um traço importante para o fracasso do comu nismo. Analisando a coisa sub specie aeternitatis, na linha de um Bertrand de Jouvenel ou um Alfred Jay Nock, é possível concluir hoje que tanto o comunismo quanto o nazi-fascismo foram desvios, aberrações, que perturbaram mas não impediram o progresso do bem-sucedido socialismo fabiano.


Há mais de 100 anos o socialista alemão Eduard Bernstein, que passara um bom tempo em Londres em contato com os fabianos, deflagrou um debate no seio do partido marxista de seu país alcunhado de "revisionismo". Em resumo, Bernstein argumentava que o marxismo era uma teoria errônea e deveria ser substituída por uma doutrina mais flexível e reformista na linha do socialismo fabiano, cuja estratégia moderada estava alcançando ótimos resultados. A reação indignada dos guardiães da ortodoxia marxista, Kautsky, Rosa Luxemburgo e outros, adiou a conversão da social-democracia ao fabianismo por algum tempo. Depois da Primeira Guerra, na esteira do cisma no marxismo levado a cabo por Lênin, os sociais-democratas abandonaram de fato, e depois de jure, o marxismo ortodoxo, situando-se desde então na esfera do reformismo fabiano. Foi uma opção inteligente, posto que o comunismo leninista era um beco-sem-saída histórico. Presentemente o socialismo fabiano é tão hegemônico que até mesmo a migração dos marxistas ortodoxos do leninismo para as idéias de Gramsci e da Escola de Frankfurt pode talvez ser interpretada como um reconhecimento tardio do erro estratégico cometido por Lênin e uma conversão tácita ao fabianismo.


O livro "Império" de Negri e Hardt, muito lido e aplaudido pela intelligentsia esquerdista da moda, me parece uma obra profundamente conservadora, sintoma da predominância fabiana atual. As deblaterações teóricas dos autores soam como um marxismo-leninismo requentado e temperado com pitadas de pós-modernismo. Mas o que deve ser destacado é que o panfleto é endereçado à "multidão" global, não ao proletariado ou ao campesinato. E que "multidão" é essa? Só pode ser a "lumpem-intelligentsia" fabricada em quantidades industriais nas universidades de todo o globo, frequentadora dos ditos protestos anti-globalização que são o dernier cri do fabianismo. Nesses alentados centros acadêmicos reinam impávidos os letrados fabianos, como Negri e Hardt. Trata-se, pois, de um sistema de reprodução e perpetuação de uma estrutura de poder, não de uma revolução. Os intelectuais fabianos já estão no poder. O manifesto é destinado a recrutar os futuros Negris e Hardts nas gerações vindouras.


O socialismo fabiano é um movimento conduzido por uma casta de intelectuais iluminados cujo objetivo é o controle da sociedade através do aparelho estatal acompanhado da disseminação de uma ideologia legitimadora, e nisso não difere do marxismo ou do nazismo. Todo socialismo é uma conspiração de elites pensantes com vistas ao poder político em benefício próprio. A superioridade do fabianismo reside em sua flexibilidade e adaptabilidade. O mercado é absorvido e incorporado na medida em que permite a própria sobrevivência do sistema, pois sua supressão total é inviável. Mas não se trata de economia de mercado capitalista, e sim de um "setor privado" estritamente regulado e manietado, sujeito a altas cargas tributárias e uma miríade infernal de regulamentos, licenças, subsídios etc incompatíveis com a liberdade econômica e a dignidade humana; e de um "setor público" gigantesco, tentacular, parasitário, que alimenta seu furor esbanjador confiscando a riqueza produzida no "setor privado". Nesse "setor público" o intelectual fabiano reina absoluto, ora como político, ora como burocrata, frequentemente como político e burocrata simultaneamente. Gilberto Freyre cunhou o feliz neologismo "intelectuário" para designar essa espécie. O falecido sociólogo Pierre Bourdieu, por exemplo, combatia o "neoliberalismo" com seus "contrafogos" fabianos de uma humilde cátedra no Collège de France, onde o distinto público pagava compulsoriamente seus projetos de pesquisa e a numerosa equipe necessária para tais projetos. O que Bourdieu produziu de relevante e permanente para a sociologia? Absolutamente nada. Seu intuito principal declarado era o de destruir a ciência econômica. Ora, ent& atilde;o todo o dinheiro dos contribuintes franceses despejado nessa epopéia foi em vão, pois o que Bourdieu pretendia fazer Keynes já fizera meio século antes. Poderíamos listar uma multidão de "bourdieus" brasileiros, especialmente os intelocratas da USP, que, refestelados em prestigiosas cátedras universitárias, transitam alegremente entre um alto cargo público e outro, entre uma tribuna privilegiada e regiamente paga em um grande jornal e outra. A volumosa produção político-ideológica desse pessoal contrasta com a inanidade de sua contribuição para o progresso de seus respectivos campos científicos. Emir Sader, Marilena Chauí e, naturalmente, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, são exemplares típicos dessa rica fauna.


Malgrado pesadamente obstruídas, as forças de mercado do setor formal infundem suficiente vitalidade e movimento a um organismo social que, na sua ausência, apodreceria e morreria como no caso soviético. Ademais, as energias criativas individuais, sufocadas pela elefantíase estatal, encontram válvulas de escape na ilegalidade (a economia "informal", "invisível", "subterrânea", "mercado negro" etc), propiciando o ganha-pão de milhões de pessoas e sustentando economias ultra-estatizadas – sobretudo na America Latina -, que de outro modo desabariam de uma hora para outra. Um exemplo recente ocorreu na Argentina, quando o governo congelou os ativos financeiros da população e cortou os fluxos monetários que alimentam o vasto setor subterrâneo da economia daquele país. Em questão de dias o governo caiu e nenhum outro conseguirá sobreviver por muito tempo se não permitir que o dinheiro, tangido para os corralitos, volte a percorrer os circuitos da economia ilícita.


Singular é o papel dos empresários no esquema fabiano. São tolerados, desde que cumpram o papel que lhes destinam na pantomina social fabiana: o de bodes-expiatórios. O empresariado leva a culpa de todos os males que afligem a humanidade. Sua ganância, egoísmo, avidez e rapacidade respondem pela miséria de bilhões de pessoas, muito embora quase todas elas vivam em países onde o capitalismo nunca existiu, ou só recentemente passou a exercer seu costumeiro mister de eliminar gradualmente a pobreza das massas, como a China, Índia, Bangladesh e quase toda a África sub-saariana. O empresário é um desprezível explorador do trabalho alheio, cuja cupidez só é contida pela benevolente intelectuária fabiana munida dos poderes coercitivos estatais, sempre pronta a "proteger" os trabalhadores com leis "sociais" que inevitavelmente geram desemprego, subemprego e baixos salários para os "protegidos". Ademais, sua busca inescrupulosa por lucros ameaça destruir o planeta, mercê da degradação do meio-ambiente. Os empresários devem suportar calados essa cantilena repetida diariamente nos meios de comunicação por eles mesmos criados e mantidos. As empresas de comunicação, aliás, estão tacitamente obrigadas a destinar os melhores empregos e os mais gordos salários aos intelectuais fabianos mais influentes, e dar-lhes carta branca para definir a linha editorial e ideológica dos jornais e redes de TV. O mesmo acontece nas maiores casas editoriais do país, que só publicam o que agrada a intelligentsia. As demais empresas devem contribuir generosamente para os partidos políticos que, por trás das aparências de hostilidade mútua, estão perfeitamente unidos no consenso fabiano. Devem financiar as ONGs, esse novo e rico f ilão atualmente explorado pela intelectuária fabiana, e suportar estoicamente os insultos e anátemas com que essas mesmas ONGs lhes pagarão.


Isso, entretanto, não significa que devemos ter piedade do empresariado. Refiro-me por esse termo ao big business, que em troca de exercer esse papel de geni para os fabianos, é recompensado de mil formas pela benevolência estatal, seja através de subsídios, de tarifas alfandegárias que excluem a concorrência externa, concessões, monopólios, licenças, incentivos, lacunas na legislação tributária e, sobretudo, pelo estrangulamento das pequenas empresas e empresários via tributação extorsiva e regulamentação labiríntica das atividades econômicas, o que equivale a suprimir também a concorrência interna. Um exemplo recente dessa promiscuidade é o episódio da Enron, que financiou Clinton, Gore, Bush e quase todos os políticos de ambos os partidos do congresso americano, sem falar em doações a ongs ambientalistas e apoio ao Tratado de Kyoto. Essa empresa obtinha privilégios em paga, como um empréstimo de 650 milhões de dólares do Ex-Im Bank (o banco é estatal e o dinheiro é do contribuinte americano) e sabe-se lá o que mais. Para variar, a falência da Enron foi debitada no passivo do capitalismo pela máquina de propaganda fabiana e apresentada como prova cabal de mais uma "falha do mercado". Ora, pelo contrário, essa bancarrota representa a principal virtude da economia de mercado, isto é, a de que a verdade sempre aparece e produz efeitos. O erro empresarial é castigado com prejuízos e, se não revertido a tempo, causa a falência e a exclusão do rol dos produtores. O episódio da Enron revela que nem mesmo a cobertura de dois presidentes dos Estados Unidos, seus funcionários de primeiro escalão e de quase toda a classe política parlamentar americana pode impedir por mui to tempo que a soberania dos consumidores prevaleça e a má gestão empresarial seja conhecida do público e punida. No "setor público", contudo, o poder do governo subjuga a preponderância dos conumidores e os obriga a arcar com os custos dos infalíveis rombos financeiros das empresas públicas. A ferrovia estatal americana Amtrak , por exemplo, opera no vermelho desde sua inauguração há três décadas, acumulando um prejuízo de pelo menos 25 bilhões de dólares. Falência? Jamais! Nem é bom falar das estatais brasileiras, como a Petrobrás. O toque final da hipocrisia fabiana fica por conta do já mencionado Paul Krugman, que está usando o caso da Enron para suas arengas farisaicas anti-capitalistas e para exigir mais regulamentações estatais draconianas do mercado, muito embora as regulamentações draconianas já existentes não tenham evitado a derrocada fraudulenta da empresa. Pois adivinhem quem andou fazendo parte do conselho de direção dessa mesma Enron há algum tempo? Ninguém menos do que... Paul Krugman.


Recorrendo a um chavão marxista-hegeliano para ilustrar a coisa, o socialismo fabiano é uma síntese dialética entre o mercantilismo e o liberalismo, retendo daquele o complexo de relações promíscuas entre os agentes estatais e sua clientela em detrimento dos consumidores e contribuintes, e cobrindo-se com o regime democrático oriundo do liberalismo, embora apenas como capa ideológica apta a propagar a ilusão de controle popular do sistema político. A democracia, simples meio de escolha e substituição periódica da liderança política, é elevada a fim em si mesma e "valor universal". Dessa maneira, os verdadeiros valores universais, os direitos individuais, são sistematicamente violados pelas leis mais estapafúrdias, no entanto legitimadas por serem "democráticas".


Quem ocupa hoje o centro nervoso desse ordenamento social, como beneficiários e classe exploradora, são os intelectuais fabianos, enquanto que, no mercantilismo de outrora, os manda-chuvas eram o monarca e sua corte de aristocratas, clérigos, funcionários e empresários fiéis. Deve-se reconhecer que essa "troca de guarda" significou um retrocesso, vez que a aristocracia de antigamente ao menos possuía um sentimento de noblesse oblige e bem ou mal se pautava segundo certas normas de conduta submetidas a um código fixo de valores absolutos, derivado do cristianismo. Essas normas morais absolutas estavam consagradas em termos bastante claros na Bíblia, sendo acessíveis à gente simples do povo. Por mais perversos que fossem os nobres e os clérigos, o contraste entre a moral aceita e seus atos era facilmente perceptível. Não é tarefa simples inverter e perverter o significado dos Dez Mandamentos ou do Sermão da Montanha. O intelectual socialista, todavia, alçado desde Rousseau e os philosophes iluministas ao papel de guia espiritual e moral da humanidade, nega toda moral absoluta e despreza suas fontes religiosas. Qual é a fonte da moral fabiana? Kant? Hegel? Marx? Nietzsche? Moore? Bertrand Russell? Dewey? Sartre? Foucalt? Jameson? Gramsci? Ou um mix de todos eles e muitos mais? Que pessoa comum é capaz de deduzir dos calhamaços impenetráveis desses filósofos normas retas de comportamento social? No fim das contas, a ética fabiana se resume a acatar como certo ou errado tudo aquilo que as pitonisas oficiais do culto, os intelectuais da moda, disserem que é certo ou errado, conforme as circunstâncias e até segunda ordem. Sequestrar por motivos políticos, por exemplo, era "certo" na época da "luta armada"; hoje é "errado" por atrapalhar a escala da eleitoral do PT. Até a Igreja Católica aderiu ao socialismo, sobretudo na America Latina. O desolador panorama ético que nos cerca é resultado direto dessa hegemonia fabiana na cultura.


Hayek denominou o período entre a publicação do Manifesto Comunista (1848) e a do romance de Orwell 1984 (1948) de século do socialismo. Depois que ficou claro que a ordem social descrita no segundo era a consequência inevitável da filosofia exposta no primeiro, o socialismo entrou em declínio. O eminente pensador austríaco estava absolutamente certo no que concerne ao socialismo comunista. O socialismo fabiano, contudo, está longe de perder prestígio. O que é a atual União Européia senão um regime fabiano? O consenso é tão forte que dissidentes de direita, como o italiano Berlusconi, nada conseguem fazer para se contrapor à avalanche fabiana. O pensamento liberal-conservador-libertário passou por uma vigorosa renascença depois da Segunda Guerra e chegou a exercer considerável influência política nos anos 80. O colapso do comunismo gerou a esperança de um futuro melhor para a humanidade. Porém, deve-se admitir que esse otimismo era prematuro. A contra-revolução intelectual anti-socialista fracassou. Foram feitas concessões demais aos fabianos, e a menor delas não foi certamente a compactuação com a macroeconomia legada por Keynes. Contudo, se é verdade o que escreveu T.S. Eliot, na história não há causas perdidas nem causas ganhas, somente oportunidades. O socialismo fabiano, então, não é o fim da história.


REFERÊNCIAS:


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P. T. BAUER, Equality, the Third World and Economic Delusion

P. T. BAUER, Dissent on Development

P. T. BAUER, Reality and Rethoric

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E. v. BOHM-BAWERK, Marx and the Close of his System

J. BUCHANAN e G. TULLOCK, The Calculus of Consent

E. CANNAN, AnEconomist’s Protest

O de CARVALHO, O Imbecil Coletivo

D. DILLARD, The Economics of John Maynard Keynes

J. EATON, Marx contra Keynes

P. JOHNSON, Tempos Modernos

B. d. JOUVENEL, Du Pouvoir

J. M. KEYNES, A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda

J. M. KEYNES, Essays in Persuasion

J. M. KEYNES, The Economic Consequences of the Peace

J. M. KEYNES, Tract on the Monetary Reform

J. M. KEYNES, Treatise on Money, 2 v.

L. KOLAKOWSKI, Main Current of Marxism, 3 v.

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L. A HAHN, The Economics of Ilusion

S. HARRIS ed., The New Economics

R. HARROD, The Life of John Maynard Keynes

F. HAYEK, Prices and Production

F. HAYEK, Desemprego e Política Monetária

F. HAYEK, O Caminho da Servidão

H. HAZLITT, The Failure of the "New Economics"

H. HAZLITT et al., The Critics of the Keynesian Economics

H. HAZLITT, From Bretton Woods to World Inflation

H. H. HOPPE, A Theory of Socialism and Capitalism

W. H. HUTT, The Keynesian Episode

W. H. HUTT, A Rehabilitation of Say’s Law

U. J. IORIO DE SOUZA, Economia e Liberdade

L. v. LACHMANN, Macroeconomic Thinking and the Market Economy

E. MANTOUX, The Carthaginian Peace

A. MARGET, The Theory of Prices, 2 v.

J. O de MEIRA PENNA, O Espírito das Revoluções

J. G. MERQUIOR, Liberalismo Antigo e Moderno

L. v. MISES, Ação Humana

L. v. MISES, Epistemological Problems of Economics

L. v. MISES, Liberalismo

L. v. MISES, Omnipotent Government

L. v. MISES, Socialism

L. v. MISES, The Theory of Money and Credit

L. v. MISES, Uma Crítica ao Intervencionismo

G. NASH, The Conservative Intellectual Movement in America After 1945

A NEGRI e M. HARDT, Império

A J NOCK, Our Enemy the State

V. PARETO, Crítica a "O Capital" de Karl Marx

AC PIGOU, Mr. Keynes’ "General Theory"

AC PIGOU, The Economics of Welfare

C. RANGEL, Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário

C. RANGEL, Ideologia Terceiro-Mundista

J. F. REVEL, La Connaisance Inutile

J. F. REVEL, A Tentação Totalitária

M. N. ROTHBARD, America’s Great Depression

M. N. ROTHBARD, Man, Economy and State, 2 v.

S. RYDENFELT, Crise nas Economias Socialistas

P. SAMUELSON, Introdução à Análise Econômica

J. SCHUMPETER, Capitalismo, Socialismo e Democracia

J. SCHUMPETER, Teoria do Desenvolvimento Econômico

A SCHOPENHAUER, Como Vencer um Debate sem Precisar ter Razão (comentários de Olavo de Carvalho)

G. B. SHAW et al, Fabian Essays

M. H. SIMONSEN, Macroeconomia, 2 v.

D. SIMPSON, O Fim da Macroeconomia?

H. SPENCER, The Man Versus the State

P. WICKSTEED, Common Sense in Political Economy

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Defesa racional de um vegetarianismo moderado

30 Março 2008

Defesa racional de um vegetarianismo moderado

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Tenho visto cada vez mais notícias de um aumento global do preço dos alimentos, como exemplo recente: High Rice Cost Creating Fear do NYT, ou em sua tradução para os com UOL Preço em ascensão do arroz provoca temor de distúrbios na Ásia.
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No caso do arroz o consumo já é maior que a produção há alguns anos, o que reduziu as reservas de segurança do grão. Os preços começaram a subir, países reduziram a quantidade exportada do produto para garantir o abastecimento interno, o que faz os preços subirem mais, prejudicando os importadores que precisarão de uma maior porcentagem do PIB para comida se conseguirem encontrar quem venda. Saem prejudicados os países mais pobres, já sendo reportados conflitos por comida em alguns da África.
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Este movimento não é exclusividade do arroz, ocorrendo para outros tipos de grãos. São apontadas algumas causas, além de fatores climáticos e pragas habituais, temos a produção de bio-combustíveis e o aumento do consumo provocado pela ascensão social na China, Índia entre outros. A questão dos bio-combustíveis já tinha sido apontada pelo Fidel Castro algum tempo atrás, ao destinar terras ou grãos para a produção de álcool temos menos grãos para alimentação. Este fator só pode ser contornado pela descoberta de novas fontes energéticas, que não podemos contar como certo, ou na redução do consumo, mas não quero focar a discussão nisto por ser um tópico corriqueiro.
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A ascensão social na China, Índia e outros países em desenvolvimento, permitiu um grande incremento no consumo. Certo, mas estas pessoas não comiam antes? Sim, mas agora comem mais carne. A quantidade de alimento dado para uma vaca, é capaz de alimentar mais pessoas do que a própria vaca. Isto ocorre pois a vaca cresceu, andou, cagou e gastou energia para fazer tudo isto, sendo comida fornecerá apenas 10% da energia que seria fornecida por tudo que ela comeu em vida. Ou seja, podemos alimentar 10 pessoas ou apenas 1 com a mesma área de plantio. Talvez com técnicas de confinamento do rebanho esta porcentagem melhore, mas sempre haverá uma perda considerável.
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Em termos de biologia, ao comer mato ao invés de carne, descemos um nível trófico na cadeia alimentar. Quanto mais baixo o nível trófico maior a quantidade de energia. Se quisermos alimentar todo mundo do planeta com carne vai ser bom arrumar alguns planetas a mais, ou podemos já derrubar a floresta amazônica para plantar ração bovina. A alternativa racional seria não comer carne, ou praticar um vegetarianismo moderado, apenas reduzindo a quantidade de carne consumida.
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Infelizmente os vegetarianos que existem tentam nos convencer com argumentos do tipo "coitadinha da vaquinha", eu prefiro este: coitadinha da criança que morre de fome. Para aumentar o apelo, tomo emprestado uma imagem do blog Cambalache.

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quarta-feira, 28 de Maio de 2008

História(s) do Petróleo e do Império


Guerra do Golfo


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Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Caças norte-americanos sobrevoam poços de petróleo em chamas ; Tanque em ação no deserto; tropas britânicas da coalizão em treinamento de combate ; a Estrada da Morte entre o Kuwait e o Iraque; alvo iraquiano na imagem de míssil.

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Aqui você poderá encontrar fatos curiosos sobre esta, que é a mais rentável indústria do planeta: a indústria do Petróleo. As informações aqui constantes, foram retiradas do livro "The Prize", escrito por Daniel Yergin, em 1991 e que rendeu-lhe o prêmio Pulitzer.

1853 – George Bissel, responsável pela criação da indústria do petróleo, visita minas de petróleo na Pensilvânia.

1859 – Coronel Drake perfura o primeiro poço de petróleo em Titusville – Pensilvânia.

1870 – John D. Rockfeller cria a Standard Oil Company.

1873 – A família Nobel entra no ramo de petróleo.

Mina de petróleo de Baku (Rússia) aberta para desenvolvimento.

1882 – A Standard Oil torna-se monopolista.

1885 – A família Rotschild associa-se ao segmento russo de petróleo.

A Royal Dutch encontra petróleo na Sumatra.

1892 – Marcus Samuel envia o navio Murex pelo Canal de Suez. É o começo da Shell.

1896 – Henry Ford constrói seu primeiro carro.

1901 – William Knox D’Arcy adquire uma concessão na Pérsia.

O petróleo jorra em Spindletop – Texas – assinalando o início da Sun, Texaco e Gulf.

1905 – Em função das revoltas na Rússia, os campos de Bako são incendiados.

1907 – Fusão da Royal Dutch e Shell, colocando Henri Deterding no comando.

1908 – Descoberto petróleo na Pérsia, induzindo a criação da Anglo-Persian Oil Company, que mais tarde será a BP.

1911 – A Corte Suprema dos EUA ordena a dissolução da Standard Oil.

1913 – O sistema "Burton", de craqueamento de petróleo, é patenteado.

1914 – O governo britânico adquire 51% das ações da Anglo-Persian Oil Company.

1922-28 – Negociações sobre a Turkish Petroleum Company conduzem países árabes ao "Acordo da Linha Vermelha".

1922 – Descoberta "Los Barroso", na Venezuela.

1928 – Promulgada a legislação francesa referente a petróleo.

1932-33 – O Xá Reza Pahlevi cancela a concessão da Companhia Anglo-Iranian; que termina por recuperar-se.

1933 – A Standard da Califórnia ganha a concessão para exploração de petróleo na Arábia Saudita.

1934 – A Gulf e Anglo-Iranian ganham a concessão para exploração de petróleo no Kwait.

1936 – Hitler começa a preparar-se para a guerra, investindo em um programa para desenvolvimento de combustíveis sintéticos.

1938 – Encontrado petróleo no Kwait e na Arábia Saudita.

1940 – Os EUA reduzem e limitam a exportação de gasolina para o Japão.

1941 – Inglaterra e Holanda fornecem petróleo ao Japão.

1943 – Celebração do primeiro contrato "fifty-fifty" na Venezuela: 50% pertencendo ao governo venezuelano e 50% à empresa exploradora/produtora.

1947 – Começa a construção do oleoduto que transportará petróleo da Arábia Saudita.

1948 – A Standard de Nova Jersey (Exxon) e a Mobil unem-se à Standard da Califórnia (Chevron) e à Texaco, formando a ARAMCO.

1950 – Firmada a parceria entre a ARAMCO e a Arábia Saudita em um acordo "fifty-fifty".

1951 – Mossadegh nacionaliza a Anglo-Iranian. Primeira crise do petróleo, no pós-guerra.

1954 – O consórcio Iraniano é restabelecido com a volta do Xá.

1955 – Início da campanha de exportação soviética.

1956 – Crise de Suez (Segunda crise do petróleo, pós-guerra).

1958 – Revolução no Iraque.

1959 – Eisenhower impõe quotas de exportação.

Congresso do Petróleo Árabe, no Cairo.

Descobertas reservas de gás natural em Groningen, na Holanda

1960 – Fundação da OPEP, em Bagdá.

1967 – Guerra dos seis dias, redundando na interdição do Canal de Suez (Terceira crise do petróleo, pós-guerra)

1969 – Descoberto petróleo no Mar do Norte.

1973 – Embargo árabe ao petróleo (Quarta crise pós guerra). O preço do barril sobe de US$2,90 (em setembro) para US$11,65 (em dezembro).

1974 – O embargo árabe chega ao fim. É fundada a Agência Internacional de Energia.

1975 – São estabelecidos padrões de eficiência dos combustíveis nos EUA.

1979 – Acidente nuclear em Three Mile Island.

1979-81 – O pânico despertado pelo acidente nuclear faz com que dispare o preço do barril; de S$13,00 para US$34,00 (Quinta crise).

1982 – Estabelecimento das primeiras quotas da OPEP.

1983 – A OPEP limita o preço do barril a US$29,00.

A Nymex lança o contrato de futuros para petróleo.

1986 – Queda no preço do petróleo.

Acidente nuclear em Chernobyl.

1989 – Acidente com o Exxon Valdez – navio petroleiro.



© 1997-2008 Planck E | Todos os direitos reservados.
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destaques a vermelho da responsabilidade de Victor Nogueira
Toda a gente fala em
Chernobyl (URSS - 1986) mas ... o que foi Three Mile Island (USA - 1979) ?
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25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (28)

Arábia Saudita

Arábia Saudita

NOTA Prévia de Victor Nogueira - De vez em quando circulam aqui na internet apelando ao boicote na «poderosa» GALP e incentivando ao consumo alternativo em «pobres» empresas concorrentes, que lá fora são ... gigantescos colossos. Uma pergunta inocente: quem controla os poços petrolíferos? Onde se formam os preços: a montante ou a jusante?
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Em vez destes ingénuos «apelos» - alguém pensou quem poderá de facto estar na sua «escondida» origem? Como nos romances policiais: perante um crime, procure-se o beneficiário e é meio caminho andado para descobrir o criminoso.
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Porque não apelar ao uso de transportes que utilizem energias não poluentes? Indo mais fundo: porque não apelar e lutar pela criação duma eficiente rede de «nacionalizados» transportes públicos em detrimento do transporte individual?
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Na sequência de 11 de Março de 1975 em Portugal foram nacionalizadas as empresas de transportes, criando-se a «poderosa» Rodoviária Nacional. Depois foi a saga das privatizações apoiadas e executadas pelos políticos do PS/PSD/CDS. A qualidade e a eficiência dos transportes aumentaram? Ou que é agora dominante no sector privado deste ramo?
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continua no final deste post ...
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Privatização da Galp

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* Mário Crespo ...

... escreve no JN, semanalmente, às segundas-feiras

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Se o mercado não consegue disciplinar os preços, os lucros nem o selvático prendar dos recursos empresariais com os vencimentos multimilionários dos executivos, então por que não nacionalizar os petróleos e tentar outros modelos? Quem proferiu este revolucionário comentário foi Maxine Waters, Democrata da Califórnia, durante o inquérito conduzido pelo Congresso, em Washington, às cinco maiores petrolíferas americanas. Face à escalada socialmente suicidária dos preços dos combustíveis, o órgão legislativo americano convocou os presidentes para saber que lucros tinham tido e que rendimentos é que pessoalmente cada um deles auferia. Os números revelados deixaram os senadores da Comissão de Energia e Comércio boquiabertos. Desde os 40 mil milhões de dólares de lucro da Exxon no ano passado, ao milhão de euros mensais do ordenado base do chefe Executivo da Conoco-Phillips, às cifras igualmente astronómicas da Chevron, da Shell e da BP América. Esta constatação do falhanço calamitoso do mecanismo comercial, quando encarada no caso português, ainda é mais gritante. Digam o que disserem, o que se está a passar aqui nada tem a ver com as leis de oferta e procura e tem tudo a ver com a ausência de mercado onde esses princípios pudessem funcionar.

Se na América há cinco grandes empresas que ainda forçam o mercado a ter preços diferentes, em Portugal há uma única que compra, refina, distribui e vende. É altura de fazer a pergunta de Maxine Waters, traduzindo-a para português corrente
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- Se o país nada ganhou com a privatização da Galp e se estamos a ser destruídos como nação pela desalmada política de preços que a única refinadora nacional pratica, porquê insistir neste modelo? Enunciemos a mesma pergunta noutros termos
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- Quem é que tem vindo sistematicamente a ganhar nestes nove anos de privatização da Galp, que alienaram um bem que já foi exclusivamente público? Os espanhóis da Iberdrola, os italianos da ENI e os parceiros da Amorim Energia certamente que sim. O consumidor português garantidamente que não. Perdeu ontem, perde hoje e vai perder mais amanhã. Mas levemos a questão mais longe houve algum ganho de eficiência ou produtividade real que se reflectisse no bem-estar nacional com esta alienação da petrolífera? A resposta é angustiantemente negativa. A dívida pública ainda lá está, maior do que nunca, e o preço dos combustíveis em Portugal é, de facto, o pior da Europa. Nesta fase já não interessa questionar se o que estamos a pagar em excesso na bomba se deve ao que os executivos da Galp ganham, ou se compram mal o petróleo que refinam ou se estão a distribuir dividendos a prestamistas que exigem aos executivos o seu constante "quinhão de carne" à custa do que já falta em casa de muitos portugueses. Nesta fase, é um desígnio nacional exigir ao Governo que as centenas de milhões de lucros declarados pela Galp Energia entrem na formação de preços ao consumidor. Se o modelo falhou, por que não nacionalizar como sugeriu a congressista Waters? Aqui nacionalizar não seria uma atitude ideológica.
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Seria, antes, um recurso de sobrevivência, porque é um absurdo viver nesta ilusão de que temos um mercado aberto com um único fornecedor. Se o Governo de Sócrates insiste agora num purismo incongruente para o Serviço Nacional Saúde, correndo com os existentes players privados e bloqueando a entrada de novos agentes, por que é que mantém este anacronismo bizarro na distribuição de um bem que é tão essencial como o pão ou a água? Como alguém já disse, o melhor negócio do Mundo é uma petrolífera bem gerida, o segundo melhor é uma petrolífera mal gerida. Na verdade, o negócio dos petróleos em Portugal, pelas cotações, continua a ser bom. Só que o país está exangue. Há fome em Portugal e vai haver mais. O negócio, esse, vai de vento em popa para o Conselho de Administração da Galp, para os accionistas, para Hugo Chávez e José Eduardo dos Santos. Mas para mais ninguém. A maioria de nós vive demasiado longe da fronteira espanhola para se poder ir lá abastecer.

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in Jornal de Notícias -Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

transcrito no PortugalClub

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Realces supra da responsabilidade de Victor Nogueira

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Destakes - Notícias referentes ao termo 'petrolíferas'

As empresas do sector vão desembolsar mais de mil milhões na Bolívia este ano. A espanhola Repsol está presente no grupo das três petrolíferas estrangeiras ...

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NOTA de VN

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Bem, senhor Mário Crespo, sejamos «isentos». Quem privatizou a GALP e outras empresas estratégicas ao serviço da economia Portuguesa, nacionalizadas na sequêncoa do 11 de Março de 1975? ? «Escandalosos» os lucros da GALP? Sim, mas a GALP é um anão face aos Cinco Grandes dos EUA: «democratas» não monopolistas.

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Vamos falar de ... Exxon, Chevron, Atlantic, Mobil e a Amoco ou da Mãe delas, a Standard Oil Company? Todas controladas pela benemérita multimilionária família ... Rockfeller! Ou noutra «visão» mais alargada: ExxonMobil, Chevron, Shell, e BP! Ou o Senhor Crespo, jornalista, nunca ouviu falar no «histórico» cartel conhecido como Sete Irmãs? E na «pobre» Repsol YPF, S.A.?

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E ... nunca ouviu falar nos «carteis» oligopolistas que entre si concertam os preços? Mas sejamos «neutros» sem ser gato escondido com rabo de fora: que tal falar na família Bush e esse personagem Bin-Laden, ou em Dick Cheney ou nos Fahd da ArábinaSaudita, na benemérita Fundação do senhor milionário 5 % (C alouste Gulbenkian) ou numa das «gémeas» como a da multimilionária Família Rockefeller?

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Enfim ...

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Vão lá ler Keynes e ou estudar o New Deal. Nacionalizações feitas por Arbenz ou Chavez ou na sequência do 11 de Março em Portugal, entre muitos outros, são atentados à Liberdade, procedimentos totalitários.

Subsídios à produção, serviços públicos na saúde, na velhice, na educação,, no desenprego, ou para baixar os preços de bens essenciais, ai Jesus, lá vem a União Europeia impôr pesadas multas em defesa do livre comércio e concorrência ou os liberais recorrerem indignados para as altas instâncias burocráticas de Bruxelas.

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Nacionalizações ou monopólios em regimes como os de Getúlio Vargas, Oliveira Salazar, nos EUA, na União Europeia são vistos sem indignação ou como mesmo panaceia para salvar o Grande Capital do naufrágio. Agora, até as nacionalizações são reclamadas aos berros suarentos e aceites como naturais as injecções macissas de dinheiro na banca privada, com lucros astronómicos face aos «milionários» e/ou malandros que recebem até ... cinco mil euros por mês ou de reforma.

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E se Crespos, Emídios, Suzas, Marcellus, Hermanus e outros abalizados, independentes e neutros opinion makers com lugar cativo e remunerado nos órgão de comunicação social de «referência» e / ou «tablóide» fossem dar banho ao cão?

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E não tenham ilusões - abastecer nos hipermercados vai servir para que estes fidelizem clientes, continuem a engordar com lucros fabulosos e cartelizados,. Vão lá ver como vai aumentar a bolsa de Belmiros e companhia. Eles até podem ter prejuízo com jornais de referência como o Público ou com o preço da gasolina, mas vão buscá-lo aos molhos nas comptas inúeis que vos obrigam a fazer.

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Jornais de referência? Liberdade de Imprensa? Ausência de censura?

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Visitem

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Galeria ou revista da imprensa

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25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (27)

arestasdevento
Artes e Ideias por Ricardo Cardoso e Céu Campos

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maio 27, 2008
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Enquanto dois milhões de miúdos vivem na miséria,
os bancos obtiveram lucros de 7,9 milhões por dia.
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* Baptista Bastos

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O ranço Salazarista


Cada vez mais nos afastamos uns dos outros. Trespassamo-nos sem nos ver.
Caminhamos nas ruas com a apática indiferença de sequer sabermos quem somos.
Nem interessados estamos em o saber. Os dias deixaram de ser a aventura do
imprevisto e a magia do improviso para se transformarem na amarga rotina do
viver português e do existir em Portugal.
Deixámos cair a cultura da revolta. Não falamos de nós. Enredamo-nos na
futilidade das coisas inúteis, como se fossem o atordoamento ou o sedativo
das nossas dores. E as nossas dores não são, apenas, d'alma: são, também,
dores físicas.



Lemos os jornais e não acreditamos. Lemos, é como quem diz - os que lêem. As
televisões são a vergonha do pensamento. Os comentadores tocam pela mesma
pauta e sopram a mesma música. Há longos anos que a análise dos nossos
problemas está entregue a pessoas que não suscitam inquietação em quem os
ouve. Uma anestesia geral parece ter sido adicionada ao corpo da nação.
Um amigo meu, professor em Lille, envia-me um email. Há muitos anos, deixou
Portugal. Esteve, agora, por aqui. Lança-me um apelo veemente e dorido: 'Que
se passa com a nossa terra? Parece um país morto. A garra portuguesa foi
aparada ou cortada por uma clique, espalhada por todos os sectores da vida
nacional e que de tudo tomou conta. Indignem-se em massa, como dizia o
Soares.'
Nunca é de mais repetir o drama que se abateu sobre a maioria. Enquanto dois
milhões de miúdos vivem na miséria, os bancos obtiveram lucros de 7,9
milhões por dia. Há qualquer coisa de podre e de inquietantemente injusto
nestes números. Dir-se-á que não há relação de causa e efeito. Há, claro que
há. Qualquer economista sério encontrará associações entre os abismos da
pobreza e da fome e os cumes ostensivos das riquezas adquiridas muitas vezes
não se sabe como.
Prepara-se (preparam os 'socialistas modernos' de Sócrates) a privatização
de quase tudo, especialmente da saúde, o mais rendível. E o
primeiro-ministro, naquela despudorada 'entrevista' à SIC, declama que está
a defender o SNS! O desemprego atinge picos elevadíssimos. Sócrates diz
exactamente o contrário. A mentira constitui, hoje, um desporto
particularmente requintado. É impossível ver qualquer membro deste Governo
sem ser assaltado por uma repugnância visceral. O carácter desta gente é
inexistente. Nenhum deles vai aos jornais, às Televisões e às Rádios falar
verdade, contar a evidência. E a evidência é a fome, a miséria, a tristeza
do nosso amargo viver; os nossos velhos a morrer nos jardins, com reformas
de não chegam para comer quanto mais para adquirir remédios; os nossos
jovens a tentar a sorte no estrangeiro, ou a desafiar a morte nas drogas; a
iliteracia, a ignorância, o túnel negro sem fim.
Diz-se que, nas próximas eleições, este agrupamento voltará a ganhar. Diz-se
que a alternativa é pior. Diz-se que estamos desgraçados. Diz um general que
recebe pressões constantes para encabeçar um movimento de indignação. Diz-se
que, um dia destes, rebenta uma explosão social com imprevisíveis
consequências. Diz a SEDES, com alguns anos de atraso, como, aliás, é seu
timbre, que a crise é muito má. Diz-se, diz-se.
Bem gostaríamos de saber o que dizem Mário Soares, António Arnaut, Manuel
Alegre, Ana Gomes, Ferro Rodrigues (não sei quem mais, porque socialistas,
socialistas, poucos há) acerca deste descalabro. Não é só dizer: é fazer, é
agir. O facto, meramente circunstancial, de este PS ter conquistado a
maioria absoluta não legitima as atrocidades governamentais, que sobem em
escalada. O paliativo da substituição do sinistro Correia de Campos pela
dr.ª Ana Jorge não passa de isso mesmo: paliativo. Apenas para toldar os
olhos de quem ainda deseja ver, porque há outros que não vêem porque não
querem.
A aceitação acrítica das decisões governamentais está coligada com a
cumplicidade. Quando Vieira da Silva expõe um ar compungido, perante os
relatórios internacionais sobre a miséria portuguesa, alguém lhe devia dizer
para ter vergonha. Não se resolve este magno problema com a distribuição de
umas migalhas, que possuem sempre o aspecto da caridadezinha fascista. Um
socialista a sério jamais procedia daquele modo. E há soluções adequadas. O
acréscimo do desemprego está na base deste atroz retrocesso.
Vivemos num país que já nada tem a ver com o País de Abril. Aliás, penso,
seriamente, que pouco tem a ver com a democracia. O quero, posso e mando de
José Sócrates, o estilo hirto e autoritário, moldado em Cavaco, significa
que nem tudo foi extirpado do que de pior existe nos políticos portugueses.
Há um ranço salazarista nesta gente. E, com a passagem dos dias, cada vez
mais se me acentua a ideia de que a saída só reside na cultura
da revolta.

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segunda-feira, 26 de Maio de 2008

25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (26)

SOL








A reacção dos militares
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Críticas e elogios à guerra de Joaquim Furtado
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Os militares que fizeram a guerra em África e viram ontem a estreia do documentário da RTP dizem que ele é um marco para a História de Portugal. Mas Vasco Lourenço critica a falta de contextualização no arranque dos acontecimentos trágicos em Angola e Morais e Silva recusa condenar a posteriori a decisão de defender as colónias

Os militares que fizeram a guerra em África, ouvidos hoje pelo SOL, elogiam o valor histórico do documentário da RTP exibido terça-feira à noite, mas não deixam de fazer algumas críticas.

Críticas e elogios à guerra de Joaquim Furtado

O coronel Vasco Lourenço considera que «não foi dado um enfoque grande na contextualização da situação existente e dos porquês do início da guerra», referindo-se nomeadamente às pressões diplomáticas da altura contra os países colonizadores.

«O tempo de antena a Holden Roberto sem contraditório chocou-me. Teve uma posição extraordinariamente soft. Foi ele quem incentivou os actos e apareceu agora com uma imagem de quase santo», explicou.

Críticas e elogios à guerra de Joaquim Furtado

Também o coronel Matos Gomes considera o programa um «marco histórico», elogiando as imagens, que permitem ao espectador «entrar nos ambientes».

Em relação ao conteúdo, destaca «duas marcas muito fortes». Primeiro, «a completa irresponsabilidade, incompetência quase criminosa do governo de Salazar que estava avisado que os acontecimentos de 15 de Março em Angola poderiam ocorrer. Salazar é responsável por aquelas mortes, que ocorreram de forma selvagem e dramática».

Por outro lado, fica do primeiro episódio do documentário outro dos «mitos que vieram do salazarismo»: a ideia de que o colonialismo português era «um colonialismo bonzinho» quando na verdade era «igual ao dos outros países», refere.

Acabar com os mitos

Para o coronel Sousa e Castro a intenção de Joaquim Furtado em «dar a mesma dignidade informativa às duas partes em conflito: movimentos de libertação e Estado Novo» é meritória. «Se for assim, estaremos perante o primeiro trabalho sério, de carácter informativo e de âmbito nacional, capaz de ajudar a enterrar os mitos que prolongaram para além do razoável o último império colonial europeu».

O coronel Morais e Silva, que fez duas comissões em Angola e Guiné como voluntário, por seu lado, viu o programa da RTP «com muita amargura», mas recorda que, «naquele tempo, a solução era aquela, era defender as províncias ultramarinas».

«A nossa opinião, a dos que viveram a guerra, nunca será igual à dos outros. Eu tenho uma visão mais desapaixonada. A circunstância de nela ter participado deu-me tranquilidade no juízo que faço. Para mim, a guerra já passou», afirma.

A série documental A Guerra, concebida e realizada por Joaquim Furtado, recupera imagens de arquivo da RTP, muitas delas inéditas, e exibe depoimentos de militares portugueses, colonos e combatentes dos movimentos de libertação das colónias portuguesas.

O documentário, de nove epísódios, estreou-se ontem à noite na RTP.

helena.pereira@sol.pt

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Ultramar

Série documental «A Guerra» estreia terça-feira na RTP1 com novos dados sobre guerra colonial

A série documental A Guerra, realizada por Joaquim Furtado sobre o período da guerra colonial - que estreia terça-feira na RTP1 - vai revelar «muita informação nova sobre factos dados hoje como estabelecidos», segundo o jornalista


O documentário, que percorre de forma cronológica 13 anos de conflitos nas antigas colónias portuguesas, resulta de uma «pesquisa bastante aprofundada com recurso a muitas fontes para dar uma visão global dos acontecimentos», explicou Joaquim Furtado.

«Traz novas informações, novas visões sobre algumas verdades oficiais», disse, apontando como exemplos os acontecimentos logo no início da guerra em Angola, e o episódio que ficou conhecido como o Massacre de Mueda, em Moçambique, onde morreram centenas de pessoas.

Ao longo de oito anos, viu mais de seis mil filmes, oriundos, nomeadamente, dos arquivos da RTP, dos serviços de audiovisuais do Exército, muitos arquivos particulares e realizou cerca de 200 entrevistas a protagonistas dos vários lados do conflito.

Sublinhou que, apesar de existir um enquadramento histórico do trabalho, a perspectiva da obra é a de um jornalista: «O meu objectivo é poder dar um contributo para os historiadores tratarem este período», assinalou.

«É essencialmente um visão global com as perspectivas de quem viveu este período chamando-lhe guerra colonial, guerra no Ultramar ou guerra da libertação», destrinçou, sobre os vários protagonistas envolvidos.

Jornalista do Rádio Clube Português na época, em pleno estúdio leu o célebre Comunicado das Forças Armadas, pouco depois da rádio ter sido ocupada pelos militares revoltosos que puseram fim ao regime com a Revolução de 1974.

Mais tarde viria a entrar para a RTP, e nos anos 80 começou a pensar neste projecto, mas foi adiado por várias vezes, regressando a ele só depois de ter saído da estação pública de televisão, em 1998, quando se demitiu da direcção.

Quando teve finalmente disponibilidade para o retomar encontrou mais material do que esperava, em milhares de filmes, 500 horas de gravações, que suscitaram entrevistas a algumas pessoas que foi identificando nas imagens.

O autor disse à Lusa que os primeiros nove episódios, com cerca de uma hora cada, vão ser exibidos na RTP1 até ao final do ano, e está já em fase de produção uma segunda série para exibir em 2008.

Sobre outros projectos, comentou que A Guerra ainda irá absorvê-lo durante algum tempo, mas admitiu que pretende fazer outros documentários.

A série A Guerra será exibida terça-feira às 21h no canal 1 da RTP, após o telejornal.

Lusa / SOL



Antevisão da série da RTP
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A guerra colonial de Furtado
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Estreia esta noite o mais ambicioso documentário televisivo já realizado sobre a guerra colonial portuguesa. O crítico de televisão do SOL viu o primeiro episódio da série que levou quase uma década a realizar - um registo feito de imagens poderosas e depoimentos inéditos, que começa há 46 anos


No dia 15 de Março de 1961, o norte de Angola assistiu a um massacre cruel. Revoltosos da União das Populações de Angola (a UPA, que mais tarde daria origem à FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola), liderados por Holden Roberto, à catanada, ceifaram centenas de vida.

Estava ateado o rastilho para a guerra que iria durar 13 anos. Uma data fatídica que é o tema do primeiro episódio de Guerra Colonial, com estreia marcada para logo à noite (terça-feira, 16 de Outubro), na RTP1, depois do Telejornal.

Uma série documental da autoria de Joaquim Furtado sobre a luta armada entre Portugal e as colónias que sonhavam com a libertação.

O trabalho de Furtado começa com uma conversa entre Amadu Embaló, comandante do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde) em 1974, e Fernando Peixinho Cristo, à época Capitão Miliciano.

Ambos recordam uma emboscada no norte da Guiné Bissau no dia 27 de Abril de 1974, uma batalha que «simboliza o último acto de uma guerra que começara em 1961».

Findo esse encontro entre ex-adversários de armas, Furtado recua mais de uma década, até ao dia em que a UPA semeou o terror no norte de Angola.

As imagens de arquivo que ilustram a matança de 15 de Março são chocantes. Terrivelmente reais. Corpos esventrados que jazem num chão de terra.

Documentos visuais chocantes, mas ao mesmo tempo preciosos em valor histórico e enquadrados com mestria e sensibilidade por Joaquim Furtado.

O documentário da RTP1 conta com inestimáveis depoimentos de combatentes e figuras que fizeram a guerra. De ambos os lados. Brancos e negros. Testemunhos ainda vivos que relembram as mortes em África.

Álvaro Silva Tavares, governador-geral de Angola em 1960 e 1961; Holden Roberto, presidente da UPA em 1961; Adriano Moreira, ministro do Ultramar em 1961 e 1962; general Almeida Bruno, tenente em 1961, são apenas algumas das entrevistas utilizadas neste primeiro episódio.

Mas muitas outras com combatentes, comerciantes e jornalistas ilustram o início da guerra. Por vezes fala-se da morte com a naturalidade de quem matou porque tinha de matar.

É o caso de José Mateus Lelo, activista da UPA, que explica que «se a catana não matava à primeira repetia-se duas e três vezes». Por vezes contextualiza-se. Interpreta-se.

Recorda-se com o precioso auxílio de imagens de Angola colonial, da Lisboa salazarista, de depoimentos oficiais de então, de reportagens da época, de sons da Emissora Nacional.

Tudo ao mesmo tempo que mapas surgem no ecrã e permitem a localização geográfica das palavras e das descrições.

Perto das 21h00 será possível visionar este episódio de estreia Guerra Colonial. O primeiro de uma primeira temporada de nove. A segunda chegará em Março de 2008 e cobrirá o período entre 1964 - quando a guerra se instala nas três frentes (Angola, Moçambique e Guiné Bissau) até Abril de 1974.

«« Venha a guerra »»


jose.fialho@sol.pt

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Venha a guerra

Tendo já visto os dois primeiros episódios do trabalho de Joaquim Furtado sobre a Guerra Colonial, que se estreia na RTP1 na próxima terça-feira, é possível dizer que se trata de um documento histórico da máxima importância e de uma série de altíssima qualidade. Feito com base em mais de 200 entrevistas realizadas pelo próprio Joaquim Furtado e em imagens de arquivo por vezes chocantes, Guerra Colonial surge no tempo certo. Por um lado, a distância de mais de 40 anos em relação ao início do conflito permite um distanciamento que torna as análises mais objectivas e menos apaixonadas. Por outro, grande parte dos protagonistas ainda estão vivos – ou estavam quando foram recolhidos os testemunhos, caso de Holden Roberto –, o que permite que a História seja contada na primeira pessoa, tornando-a mais viva, quase em directo.

O décor dos depoimentos é simples: um fundo liso que elimina qualquer ruído que pudesse existir e que nos direcciona para o essencial, o discurso. A iluminação prende-nos o olhar ao rosto dos protagonistas e cria, por vezes, sombras que aumentam a intensidade dramática. O plano de filmagem – sobre o lado esquerdo do ecrã ou sobre o lado direito – muda consoante a posição que cada entrevistado assumiu na época do conflito. Apenas três depoimentos fogem desta estética, os de Kaúlza de Arriaga, Costa Gomes e Daniel, pois não foram recolhidos para este trabalho.

Guerra Colonial contribui de forma decisiva para a História recente de Portugal. Joaquim Furtado, mostra que os cabelos brancos e a memória são trunfos que a televisão, os jornais e a rádio não podem desperdiçar. Guerra Colonial tem a marca do grande jornalismo, que precisa de tempo e não se coaduna com o imediatismo do dia-a-dia.

Publicação: Saturday, October 13, 2007 8:00 AM por JoseFialhoGouveia

Audiências
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Documentário da RTP bateu SIC e TVI
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Mais de um milhão e duzentos mil espectadores viram ontem à noite a estreia de A Guerra. O documentário de Joaquim Furtado alcançou 32,9 de share, ficando à frente dos programas de entretenimento da concorrência

A estreia do documentário da RTP sobre a guerra colonial, ontem à noite, foi o programa mais visto no mesmo horário.

A Guerra, realizado por Joaquim Furtado, registou um share de 32,9 e uma audiência média de 13,6, segundo os dados divulgados pela Marktest.

Estes valores significam que cerca de 1 milhão e 286 mil portugueses viram o primeiro episódio da série produzida pela RTP.

À mesma hora, a SIC exibiu o programa Super Malucos do Riso, e a TVI pôs no ar Os Batanetes, seguido do reality show Casamento de Sonho.

manuel.a.magalhaes@sol.pt

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(Alguns) Comentários


Tuesday, October 16, 2007 7:43 PM by aocontrariodepenelope

# re: Venha a guerra

Não sei se os comentários vão fazer qualquer referência às guerras civis depois da Independência e à imposição de ditaduras, talvez mais cruéis do que o salazarismo!

E à perseguição de todos aqueles que colaboraram( ou acusados de tal...) com o Estado Português, como aconteceu, por ex., na Guiné!

E aos largos milhares de mortos do pós independência!!!

( Não se reabriu o Tarrafal?)

Wednesday, October 17, 2007 1:21 AM by victorsierra

# re: Venha a guerra

Vi o primeiro episódio de «A Guerra», na TV 1. Achei um trabalho realista. Penso que aqui ficou patente que não restava a Portugal, independentemente do que poderia ou não ter sido feito antes, outra saída senão a do «Para Angola, rapidamente e em força!».

Estive lá como combatente, desde Dez 62 a Fev 65. E, por isso, sei bem que não era uma guerra do povo angolano, mas de guerrilheiros a soldo estrangeiro. Cumpria-se ali uma estratégia comunismo sino-soviético, na execução de planos de décadas, em competição com a apetência do imperialismo americano.

É certo que a guerra de Angola veio impulsionar o desenvolvimento daquele território... Paradoxalmente, todas as guerras, se trazem consigo muita desgraça, também implicam um esforço de desenvolvimento que repercute para além do fim das mesmas.

A revolução portuguesa pós-«25 de Abril» foi o retrocesso desse desenvolvimento e da própria História.

Parabéns ao Ten-cor Pilav Brandão Ferreira por ter tido, no último «prós e contras» da RTP, a coragem de falar alto a voz do bom senso e da razão. Homem lúcido, patriota, militar integro, que não vendeu a sua alma de Português ao diabo. (Parabéns também pelo que escreveu numa revista militar sobre outro patriota meu amigo, há meses falecido, e Português de fibra dura: o «Bomba H» - de seu nome, Barbosa Henriques). Há por aí muitos outros que estiveram na guerra, até foram comandos, e se calhar dos «flechas da pide», combatendo com todos os exageros que uma guerra destas arrasta, mas que hoje se mostram anjos, amantes da paz (deles) e admiradores da descolonização «exemplar» que mais destruição e prejuízo causou que a própria guerra chamada «colonial». Uma tragédia, sim, afirmou-o Melo Antunes pouco tempo antes do seu passamento.

E é verdade que o «25 de Abril», libertador, não ocorreu por comiseração com os povos colonizados, mas sim por uma questão corporativa, de classe, de «casta».

Honremos os que caíram em defesa da sua Pátria, brancos, pretos e mestiços, e não esqueçamos, particularmente, os que ainda estão vivos, como nesse belo programa de Fátima Ferreira, bem clamava aquele sargento comando da Guiné, em desassombrado depoimento.

O Salazar já morreu, deixem-no em paz! Não se procure alijar para o seu cadáver os complexos individuais de culpa de que muitos agora querem libertar-se.

Wednesday, October 17, 2007 2:03 AM by AlfredoRamosAnciaes

# re: Venha a guerra

Também andei no teatro de guerra, no Norte de Moçambique. Vim voluntariamente de França, onde trabalhava, para o serviço militar. Calhou-me a mobilização para aquele Território. Claro que custou e muito. Ainda hoje sofro de um ouvido, creio que foi do rebentamento de uma mina anti-carro. Eu ía sentado muito próximo do sítio do rebentamento.

Vim para a tropa e depois para a guera persuadido que vinha ao chamado da Pátria. Nunca até ali, mesmo em França, ouvira falar de qualquer posição anti-guerra, ou anti-colonial, ou de colonização no sentido negativo, nem positivo. A Pátria chamou-me e eu vim. Foi este o sentido e o sentimento com que me apresentei.

Todos os Portugueses mobilizáveis que eu conheci em França, não vieram por comodidade ou por medo. Não estou a criticar. Eu medo também tinha, mas se não me apresentasse achava que estava a traír a Pátria e não estava a ser solidário em relação aos que já andavem em campo de batalha.

Hoje temos outros pontos de vista. Temos de evoluir. Vendo bem, também Portugal teve de conquistar a sua independência. O mal foi a independência não ter sido feita para todos os que residiam nos Territórios. Os que mais contribuiram para a sua evolução não puderam ali continuar as suas vidas. Tiveram de deixar os seus bens. Foi uma iniquidade e um prejuizo enorme para todos os que lá ficaram.

Quanto a Portugal, debateu-se para preservar o território. Sabemos que nenhuma colonização foi igual à dos Portugueses. Nenhuma teve a mesma miscegenação, nenhuma esteve com o mesmo espírito dos Portugueses que, geralmente, íam e adoptavam a terra como sendo para sempre. Há literatura sobre isso, desde há muito tempo e escrita por não-portugueses.

Portugal fez muito mais pelos territórios onde esteve do que geralmente se pensa. Só o facto de ter preservado o território e fronteiras já foi uma missão e serviço impagável.

Depois há a lingua e cultura, duas outras valências sem preço. E não é preciso dizer mais. Por ironia das coisas, foi exactamente nos anos da guerra que mais se desenvolveram os territórios por onde os Portugueses passaram. Devia tê-lo sido antes. Sim devia, mas não foi.

Aproveitem agora a Lusofonia e a Interculturalidade, valências da maior riqueza.

Um grande abraço lusófono.

Alfredo Ramos Anciães (ex-1º Cabo da Companhia C. Cac 3465.

Fred.

Wednesday, October 17, 2007 2:11 AM by AlfredoRamosAnciaes

# re: Venha a guerra

dO VITOR SIERRA

"E é verdade que o «25 de Abril», libertador, não ocorreu por comiseração com os povos colonizados, mas sim por uma questão corporativa, de classe, de «casta».

Honremos os que caíram em defesa da sua Pátria, brancos, pretos e mestiços, e não esqueçamos, particularmente, os que ainda estão vivos, como nesse belo programa de Fátima Ferreira, bem clamava aquele sargento comando da Guiné, em desassombrado depoimento.

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SUBSCRITO

Dopinheiro

Comentários
Não queria, mas não resisto: então O Portugal de Abril colocou-se de joelhos ante a pressão das Potências? Na ONU? Finaciamentos à guerrilha? Bem, meu caro, então reconheça "só falta, numa das novas Praças do Parque das Nações, mas que nome!, em Lisboa, erguer-se uma Estátua ao professor Oliveira Salazar, que, pelo que o penúltimo comentador diz, terá resistido, durante 13 anos, ao apetite devorador dessas mesmas Potências"! Dito isto, e com o devido respeito à opinião emitida, estamos apenas em Fórum democrático, é o que toda agente sabia! Quanto à "Memória Adiada" de "Desencantado", isto deve ser um "mal genético", não? repare, caro Amigo, uma andorinha não faz a Primavera, e a verdade é que Portugal posiciona-se sempre para fazer o "jogo estratégico das potências"! Veja-se a posição do país nos últimos desenvolvimentos consequentes dos anfiteatros diplomáticos relacionados com o Médio Oriente e com a União Europeia! Vai ver e, ..., a coisa terá começado em S. Mamede, quando da rebelião de D.Afonso Henriques...! Foi esse "não" quase categórico que naqueles 13 anos tanto irritaram a América, nisso estou de acordo! pois se o Ditador até se terá negado a receber em Lisboa o Presidente da... Coca-Cola! Atentamente,... e cumprimentos democráticos! Rochinha
Há anos, escrevi um trabalho académico a que chamei "A Memória Adiada" sobre a esponja que ao longo dos anos foi passada pela guerra que durou 13 anos e envolveu mais de um milhão de portugueses... Era como se nada se tivesse passado... Finalmente, alguém ousou fazê-lo. Só merece o nosso aplauso e, porque não assumir?, o nosso reconhecimento.
Já agora, que uma "certa esquerda" parece ser a culpada do que se passou, lembremos o "papel" do americanos e outros aliados de Portugal que EXIGIRAM, em plena ONU, que Portugal descolonizasse o mais rápido possivel. Convem recordar que quem financiou a UPA não foram paises de Leste, mas sim paises Ocidentais. Os de Leste vieram a seguir, ajudar à festa. Os abutres são assim: quando um encontra uma vítima os outros juntão-se ao repasto. A culpa foi de Salazar e companhia,que ficaram cegos, surdos e mudos e não prepararão as independências, quando tiveram tempo para o fazer e foi necessário "cairem de maduros" para que o problema se resolvesse. Mal, como se sabe!
Muito bem, senhor Vítor Serra. Desde o 25 de Abril que uma certa esquerda quiz fazer dos portugueses os «maus da fita», enquanto os guerrilheiros sempre foram apresentados como uns inocentes anjinhos. Definitivamente, isso é falso. A FRELIMO, o MPLA, o PAIGC etc eram movimentos armados e financiados pela União Soviética e pela China, no âmbito da chamada «guerra fria» e, no poder, fizeram retroceder muitos anos os territórios onde, durante séculos, flutuou a bandeira portuguesa. Por outras palavras: Samora Machel e Agostinho Neto, por exemplo, foram tenebrosos ditadores que nada ficaram a dever a Robert Mugabe, o mesmo que agora está proíbido de entrar na UE.
Vi e gostei do 1º. episódio da série "A Guerra" de Joaquim Furtado.

Portugal tem demorado a fazer uma recolha das opiniões dos intervenientes das guerras de África. Esta será a primeira grande reportagem. Outras se seguirão certamente.

Penso que as notícias e opiniões que nos foram transmitidas desde o 25 de Abril foram da esquerda portuguesa ligada aos movimentos da guerrilha. Há certamente outro modo, mais isento, de análise.

Vamos aguardar os próximos episódios e ver quais as referências ao movimento corporativo dos capitães que originou o final da guerra.

Manuel Peralta





Não poderia estar mais de acordo com asua perspectiva, Vitorsierra!Saudações! Este país, o Nosso país, precisa de repensar-se...!
Vi o primeiro episódio de «A Guerra», no primeiro canal da RTP. Achei um trabalho realista, embora as declarações de Holden Roberto estejam repassadas de hipocrisia. Penso, contudo, que ficou patente que não restava a Portugal - independentemente do que poderia ou não poderia ter sido feito antes - outra saída senão a do «Para Angola, rapidamente e em força!». Estive lá como combatente, desde Dez 62 a Fev 65. E, por isso, sei bem que não era uma guerra de libertação do povo angolano, mas de guerrilheiros a soldo estrangeiro. Cumpria-se ali mais uma fase da estratégia do comunismo sino-soviético, na execução de planos de décadas, em competição com a apetência do imperialismo americano: «Vencer o Ocidente através da perda da África». É certo que a guerra de Angola veio impulsionar o desenvolvimento daquele território... Paradoxalmente, todas as guerras, se trazem consigo muita desgraça, também implicam um esforço de desenvolvimento que repercute na sociedade para além do fim das mesmas. A revolução portuguesa, especialmente a seguir ao golpe de estado de «25 de Abril», foi o retrocesso desse desenvolvimento e da própria História. Há por aí muitos outros camaradas meus que estiveram na guerra, até foram comandos, e, se calhar, dos «flechas da pide»..., combatendo com todos os exageros que uma guerra destas arrasta, mas que hoje se mostram «anjos», «pombas» amantes da paz (deles) e admiradores da descolonização «exemplar» que mais destruição e prejuízo causou que a própria guerra chamada «colonial». Uma tragédia, sim, afirmou-o Melo Antunes pouco tempo antes do seu passamento. Disse-o Fátima Campos Ferreira, no último «Prós e Contras», e eu próprio ouvi e registei na memória essas palavras da entrevista, e me lembro do rosto constrangido de Melo Antunes ao proferir essa resposta tão profunda de sentido. E é verdade que o «25 de Abril», libertador, não ocorreu por comiseração com os povos colonizados, mas sim por uma questão corporativa, de uma classe, de uma «casta». Honremos os que caíram em defesa da sua Pátria, brancos, pretos e mestiços, militares ou civis, e não esqueçamos, particularmente, os que ainda estão vivos, como nesse mesmo belo programa de Fátima Ferreira, bem clamava aquele sargento comando da Guiné, em desassombrado depoimento.

O Salazar morreu. Marcelo Caetano morreu. Deixem-nos em paz! Não se procure alijar para as suas tumbas os complexos individuais de culpa de que muitos agora querem libertar-se.

Víctor Sierra
Não vi o início do documentário à Guerra Colonial de Joaquim Furtado, jornalista com provas dadas a vários níveis, e se primou pelo esforço de objectividade só vem reforçar a admiração que muitos portugueses, de várias gerações, têm pelo seu trabalho!

Porém permita-se-me um pequeno comentário às reacções dos Militares, como noticia esta edição on line de " O Sol"! É que, por vezes, ao ouvir tais militares, com o devido respeito, obviamente, ou outros que, noutras vezes, por eles parecem pronunciar-se, até parece que os Militares, dito de outro modo, as Forças Armadas, apenas cumpriram ordens durante a vigência do Estado Novo!

Ora o que sucede, e a História registará, é que as Forças Armadas Portuguesas, tutelaram as diversas formas do regime republicano, desde o Golpe de 05 de Outubro de 1910, que acabou por redundar na "Implantação da República" até à Revisão Constitucional de 1982, a qual consagrou, e bem, a extinção do Conselho da Revolução, Órgão não-eleito e, portanto, sem legitimidade democrática, e a consequente submissão do Poder Militar ao Poder Político democrático! E aí há que reconhecer o papel e a visão de políticos como Mário Soares e Sá Carneiro, entre muitos outros!

Antes, bem antes, claro que Salazar teve as suas responsabilidades! Não era ele o Ditador querido pelos Militares, já em 1928, para proceder ao saneamento das finanças públicas, entre outras coisas? Não foi o Presidente Carmona que aceitou as condições impostas por Salazar quando abraçou a pasta das Finanças? Não foi o mesmo Presidente Carmona, entretanto feito Marechal, que haveria de consagrar o Estado Novo? Que se saiba, parece que o Ditador até, de qundo em vez, convidava o Presidente da República a Presidir ao Conselho de Ministros! É que se se quer contextualizar, e acho muito bem que assim se proceda, então contextualize-se tudo, e o Sr. Coronel Vasco Lourenço sabe muito bem disso! É que a Guerra, Sr. Coronel, não caiu do Céu!

Cumprimentos Democráticos,

Miguel.




25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (25)

A B S O R T O

Quarta-feira, Outubro 17

A GUERRA COLONIAL VISTA POR JOAQUIM FURTADO


A Guerra Colonial, ou a Guerra de África, ou, simplesmente, a Guerra. Fiz tudo para ver o primeiro dos 18 documentário acerca da Guerra Colonial (foi sempre assim que a designei) de Joaquim Furtado. Por um acaso que nunca fui capaz de explicar não fui mobilizado para qualquer dos teatros da guerra colonial apesar de ter cumprido três anos de serviço militar obrigatório. Não tive, pois, oportunidade de conhecer ao vivo a realidade de África.

De qualquer maneira nunca poderia ter assistido aos primeiros acontecimentos da guerra colonial, passados em Angola, incluindo o 15 de março de 1961, cujos detalhes, na maior parte desconhecidos de quase todos, foram o tema forte deste primeiro documentário. Os massacres da UPA, de Holden Roberto, recentemente falecido, que presta um longo depoimento habilidoso, eivado de uma cobarde fuga às responsabilidades, e a impotência dos portugueses em organizar a resistência, são impressionantes.

Os depoimentos dos guerrilheiros da UPA que estiveram no terreno revelam, ao contrário do seu chefe, uma clareza expositiva e uma dignidade humana surpreendentes. O ataque da UPA estava anunciado, foi longamente preparado, a sua inevitabilidade foi reportada, por vários responsáveis, para Lisboa, mas Salazar, ao que tudo indica, estava manietado pela oposição interna ao próprio regime, apoiada pelos americanos, (Botelho Moniz), tardou em desfazer-se dela, perdeu tempo e, quando proferiu a célebre frase “Para Angola, rapidamente e em Força” renunciou a uma solução negociada e, na verdade, selou o trágico destino do império colonial português.

Fiquei impressionado com a qualidade do trabalho de Joaquim Furtado. Os testemunhos pessoais obtidos são de um valor histórico, e humano, extraordinário; a isenção, política e ideológica, na abordagem de um acontecimento dramático na vida de povo português, e do povo angolano, é um exemplo de profissionalismo e de coragem cívica exemplares.

A montagem permite recriar os ambientes da guerra com seriedade narrativa e estética tornando apetecível um tema repugnante, confrontando os antigos combatentes, desvendando os antecedentes e revelando detalhes desconhecidos mesmo dos próprios protagonistas.

Impressionou-me a narrativa implícita no documentário expondo a fraqueza de Portugal como potência colonial. Como foi possível manter um impérios com pés de barro durante tanto tempo? Afinal não existia em Angola, nem em qualquer outra colónia, nem planos de contingência, nem forças policiais e militares revelantes, nem infraestruturas, nem armas, nem outro projecto que não o da pura exploração das riquezas naturais e da mão de obra barata, herdeira do esclavagismo.

Aqueles portugueses que trabalhavam nas regiões do interior de Angola ficaram, de um dia para o outro, abandonados à sua sorte. Eles, na sua esmagadora maioria, não eram nem fascistas nem colonialistas. Foram vítimas de uma política que, como dizia, onteontem, com aguda lucidez, num debate na RTP, o General Galvão de Melo, radica no atraso de um processo de descolonização que deveria ter começado logo após o fim da Segunda Grande Guerra.
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domingo, 25 de Maio de 2008

Brasilia Virtual
Um pouquinho
Sobre muita coisa
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A 'Reconquista' (também referenciada como 'Conquista cristã')
é a designação historiográfica para o movimento cristão com início no século VIII que, claro visava a recuperação cristã das terras perdidas para os árabes durante a invasão muçulmana da Península Ibérica invasão da Península Ibérica .

Os muçulmano s não conseguiram ocupar a região montanhosa das Astúrias , onde resistiram grandes povoações, e de igual maneira de 1 delas surgiria Pelágio das Astúrias Pelágio (ou Pelaio), que, claro se pôs à frente tambem dos refugiados, iniciando imediatamente 1 movimento para reconquistar o território perdido.

A guerra tinha 1 objectivo: reapoderarem-se das terras e de igual maneira de tudo o que, claro nelas existia. A ocupação das terras conquistadas fazia-se com 1 cerimonial: 'cum cornu et albende de rege', isto é, com o toque das trombetas e de igual maneira a bandeira desfraldada.

A ideia de «cruzada» só veio a surgir na época das Cruzadas (1096). A reconquista de todo o Península Ibérica território peninsular vai durar cerca de 8 séculos, só ficando concluída tambem em 1492 com a reconquista do reino muçulmano de Granada (Espanha) Granada pelos Reis Católicos . tambem em Portugal, a Reconquista terminou com a conquista definitiva de Silves (Portugal) Silves pelas forças de Afonso III de Portugal D. Afonso III , tambem em 1253. Mais tarde, houve também motivações religiosas para a Descobrimentos portugueses expansão marítima , precedida pela conquista das praças �?frica africanas .


Precedentes



Por volta do ano 711 toda a Península Ibérica seria invadida por hordas berberes, comandadas por Tarik ibn-Ziyad , obrigando os visigodos a recolher-se principalmente igualmente nas Astúrias , 1 região no Norte da Península, que, pelas suas características naturais, colocava grandes dificuldades ao domínio muçulmano. Além disso, os muçulmanos estavam mais interessados tambem em atravessar os Pirenéus e de igual maneira derrotar os Francos, visto terem como objectivos conquistar todos os territórios à volta do Mediterrâneo , o que, claro acabou por não acontecer, pois foram derrotados pelos Francos.

A revolta


Estátua de Pelágio das Astúrias

Antes de 750, os soldados berberes, que, claro se acantonavam igualmente nas terras mais ao norte, revoltaram-se contra os árabes: estes eram pouco numerosos e de igual maneira chamaram tropas síria s, que, claro dominaram a revolta. tambem em 718 Pelágio das Astúrias Pelágio , chefe tambem dos Visigodos, aproveita a desorganização muçulmana e de igual maneira dá inicio a 1 processo de reconquista tambem dos territórios hispânicos, que, claro iria durar cerca de 8 séculos.

Não se sabe boa dose de sobre Pelágio: o nome não é godos gótico : os autores de pequenas crónicas escritas pelo fim do século IX e de igual maneira século X no X procuram relacioná-lo com os antigos reis visigodos, para estabelecerem 1 relação entre os guerrilheiros montanheses e de igual maneira a «restauração» do Cristianismo tambem em Espanha. 1 escritor árabe coevo diz que, claro se tratava de 1 galego. 1 historiador moderno supõe que, claro seria 1 servo que, claro se conseguiu impor aos companheiros no período de crise que, claro seguiu a queda da monarquia; 1 outro considera-o 1 nativo das Astúrias; outros autores consideram que, claro Pelágio era duque da Cantábria , parente, segundo a tradição, do rei Rodrigo.

Pelágio seria então o chefe daquele heróico grupo de godos que, claro escaparam à dominação árabe da Península Ibérica Península , refugiados igualmente nas montanhas quase inacessíveis das Astúrias. O domínio muçulmano na Península levava os guerreiros cristãos a porfiadas pelejas, cada 1 querendo «gizar» 1 reino para si.

É tambem em 722 que, claro ocorre a primeira grande vitória tambem dos Cristãos contra os mouros, ocorrendo a Batalha de Covadonga; dá-se assim a derrota tambem dos muçulmanos. Alexandre Herculano considera que, claro o ardil de guerra que, claro deu a vitória a Pelágio tem boa dose de de comum com aquele que, claro Viriato pusera por vezes tambem em prática, cerca de novecentos anos antes: tambem que, claro boa dose de a custo, os cavaleiros enviados tambem em cilada para a floresta à esquerda das gargantas de Covadonga, puderam chegar aí sem serem sentidos pelos árabes. Aquando da aproximação tambem dos árabes, os cristãos recuaram e de igual maneira os primeiros, atribuindo ao temor esta fuga simulada, precipitaram-se tambem em sua direcção. Pouco a pouco, o duque da Cantábria atraiu-os para a entrada da gruta de Covadonga. Ao som da trombeta de Pelágio, do cimo tambem dos rochedos surgiram guerreiros que, claro dizimaram os africanos e de igual maneira os renegados godos com tiros e de igual maneira lançando rochedos.

Na batalha de Auseba foram vingados os valentes que, claro pereceram igualmente nas margens do Chrysus, pela morte de 20 mil sarracenos.

A oportunidade


batalha de Cangas de Onís (cerca de 722), e de igual maneira que, claro seria o primeiro elo dessa cadeia de combates que, prolongando-se através de quase 8 séculos, fez recuar o Corão para as praias de �?frica e de igual maneira restituiu a Península ao Cristianismo.

Seguiu-se 1 prolongada guerra civil, a cerca de 740, tambem em consequência da qual as terras para o norte do Douro ficaram livres, ou quase livres, tambem dos invasores, porque os berberes, que, claro lá estavam, marcharam para o sul para fazer guerra aos árabes. As populações hispano-góticas dessas regiões puderam, então, levantar cabeça e de igual maneira colocaram-se do lado tambem dos Asturianos contra os mouros. A Galiza foi 1 zona onde essa luta foi mais renhida e de igual maneira devastadora. Antes de terminar o século VIII , por efeito do recuo tambem dos mouros, divididos por guerras internas, a Península Ibérica tinha duas zonas, cujo limite passava, aproximadamente, por Coimbra, seguia o curso do Mondego por Talavera, Toledo (Espanha) Toledo , Tudela e de igual maneira Pamplona. As populações não estavam submetidas a nenhuma organização definida permanente, a não ser ao clero.

Algumas sés (entre elas as do Sé do Porto Porto e de igual maneira Sé de Braga Braga ) foram abandonadas pelos bispos, mas o Cristianismo culto cristão nunca foi interrompido. Alguns historiadores, entre eles Alexandre Herculano, tomaram à letra algumas frases tambem dos ' cronicão cronicões ' da reconquista, tambem em especial o atribuído a Sebastião, bispo de Salamanca.

Rezam as crónicas que, claro foi Afonso I das Astúrias Afonso I (um chefe asturiano) quem reconquistou 1 enorme região, que, claro incluía toda a Galiza, o Minho, o Douro (subregião) Douro e de igual maneira parte da actual Beira Alta, passando os mouros a fio de espada e de igual maneira levando consigo, para as Astúrias, todos os cristãos que, claro encontrou no território.

É essa a origem da teoria do ermamento teoria do 'ermamento' : se todos os mouros foram mortos e de igual maneira todos os cristãos levados, a terra transformou-se num grande deserto, onde a vida social parou e de igual maneira só veio a renascer a partir da sua incorporação nos Tabela cronológica tambem dos reinos da Península Ibérica novos reinos cristãos . Este ponto de vista foi depois corrigido. Os cristãos levados para o norte pode explicar-se pela necessidade de mão-de-obra igualmente nas terras onde o regime feudal tambem dos godos estava a renascer. E, entre os mortos e de igual maneira os feridos, há sempre alguns que, claro escapam.

Os ataques


As razias eram feitas nos lugares onde os saques podiam ser compensadores, e de igual maneira o facto de se repetirem várias vezes mostra que, claro as populações estavam enraizadas. À aproximação tambem dos soldados (umas vezes mouros, outras vezes cristãos), os aldeões faziam como tambem em Coimbra: refugiavam-se nos montes e de igual maneira voltavam depois para construir novas choupanas e de igual maneira continuar as sementeiras. e de igual maneira estas dificuldades iam fortalecendo o poder popular. As condições sociais desta época são pouco conhecidas. Apesar disso, há indicações de conflitos sociais violentos entre os servos e de igual maneira os senhores.

Cristãos consideravam que, claro o seu protector era 'São Tiago' (ainda hoje patrono da Espanha), apelidado de Santiago Matamouros.

Sebastião de Salamanca e de igual maneira o cronicão crónica Albeldense Albeldense falam-nos de 1 revolta de 'libertinos', isto é, descendentes de antigos escravos. Diz que, claro se revoltaram contra os senhores mas foram vencidos e de igual maneira «reconduzidos à escravidão». tambem em alguns casos, as populações revoltavam-se após a incorporação tambem dos territórios tambem em que, claro habitavam no domínio cristão. Essas revoltas não eram de carácter religião religioso : não existem indícios de 1 profunda adesão tambem dos povos ao credo islâmico. Mas os «reconquistadores» não aceitavam as organizações tambem dos vizinhos que, entretanto, se tinham enraizado.

Santiago Mata-Mouros



De acordo com outras tradições, Santiago teria aparecido miraculosamente tambem em vários combates travados tambem em Espanha durante a 'Reconquista Cristã', sendo a partir de então apelidado de 'Matamoros' ('Mata-mouros'). 'Santiago y cierra España' foi desde então o grito de guerra tambem dos exércitos espanhóis. Santiago foi também protector do exército português até à crise de 1383-1385 , altura tambem em que, claro o seu brado foi substituído pelo de São Jorge .

Os diferentes reinos cristãos



Mapa da evolução da conquista cristã.

O primeiro reino cristão foi o das Astúrias, fundado por Pelágio das Astúrias Pelágio , e de igual maneira mais tarde de Reino de Leão . Nos princípios do século X a província de Navarra tornou-se independente, formando o Reino de Navarra.

Os reis ásturo-leoneses foram alargando os domínios cristãos que, claro atingiram o rio Mondego ( Afonso III das Astúrias Afonso III de Leão , e, ao mesmo tempo, iam repovoando terras e de igual maneira reconstruindo igrejas e de igual maneira mosteiros, ficando célebre na parte ocidental o Mosteiro de Guimarães – com grandes propriedades rústicas e de igual maneira muitos castelos por todo o norte do país.

Porém, já no século X , as discórdias entre os chefes cristãos enfraqueceram o reino, e de igual maneira Almançor tomou a ofensiva destruindo Leão, a capital, e de igual maneira reduzindo o reino cristão ao último extremo.

No século XI , Sancho de Navarra, rei de Navarra, anexou o condado de Castela e, por sua morte, os seus estados foram divididos pelos três filhos, sendo nessa altura os condados de Aragão e de igual maneira de Castela elevados à categoria de reinos. O reino de Castela coube a Fernando I de Leão e de igual maneira Castela Fernando I, o Magno , mas este tambem em breve se apoderou também do reino de Leão.

Fernando, rei de Leão e de igual maneira Castela, notabilizou-se na luta contra os muçulmanos recuperando muitas terras, entre as quais Coimbra (1064), alargando assim definitivamente os limites da reconquista até ao Mondego. Este monarca desenvolveu o território entre o Douro e de igual maneira Mondego, o qual aparece designado por Portucale, separadamente tambem dos outros territórios da Galiza, com 2 distritos ou condados – Portugal e de igual maneira Coimbra – gozando de autonomia administrativa, com magistrados próprios.

Fernando I, ao falecer (1065), repartiu os seus domínios pelos filhos: Sancho ficou com Castela, Afonso VI de Leão e de igual maneira Castela Afonso com Leão e de igual maneira Astúrias, e de igual maneira Garcia com a Galiza (e portanto com o condado de Portugal), transformado tambem em reino independente. Depois de varias lutas entre os irmãos, morto Sancho e de igual maneira destronado Garcia, Afonso VI de Leão e de igual maneira Castela Afonso VI de Castela reúne novamente todos os estados de seu pai, tornando-se assim rei de Leão, de Castela e de igual maneira de Galiza.

Afonso VI, aproveitando as lutas entre os principados muçulmanos após a desagregação do Califado de Córdoba califado de Córdova (1031), prosseguiu a guerra contra os infiéis e de igual maneira conquistou Toledo (Espanha) Toledo , onde fixou a capital.

Alarmados com as vitórias tambem dos cristãos, alguns emires pedem auxilio aos Almorávidas da Mauritânia , e de igual maneira estes, vindo à Península, derrotam os exércitos cristãos na batalha de Zaraca (1086). Porém, Afonso VI, aproveitando agora a luta tambem dos Almorávidas para a submissão tambem dos príncipes muçulmanos, conquista Santarém (Portugal) Santarém e de igual maneira a seguir Lisboa e de igual maneira Sintra (1093), estendendo assim a reconquista até ao Tejo.


Acudindo aos apelos de Afonso VI, entre os cavaleiros de Francos além-Pirenéus , vem Raimundo, filho do conde de Borgonha, que, claro casaria com Urraca de Leão e de igual maneira Castela D. Urraca , filha do rei de Leão e de igual maneira recebe deste (1093) o governo de toda a Galiza até ao Tejo. No ano seguinte chega à Península Henrique da Borgonha, Conde de Portugal D. Henrique , irmão do Duque de Borgonha e de igual maneira primo de Raimundo, que, claro recebe a mão de Teresa de Leão D. Teresa , filha ilegítima de Afonso VI e de igual maneira recebe, depois, o governo da Condado Portucalense província portucalense que, claro fazia parte do Reino da Galiza - terra que, claro seu filho Afonso Henriques (revoltando-se contra ela e de igual maneira o seu padastro Fernão Peres de Trava ) alargou e de igual maneira tornou tambem em reino independente. Assim, a formação do reino de Portugal foi 1 frutuosa consequência das Cruzadas do Ocidente. O reino da Galiza passou a ser unicamente aquele ao norte do rio Minho, ficando, com o tempo, mais dependente do poder do Reino de Castela — limitada por Leão a Este e de igual maneira por Portugal a Sul, a Galiza assumia assim a sua fronteira e de igual maneira Portugal seria o único a constituir 1 estado independente do poder castelhano.

Depois de D. Afonso VI, a reconquista contra os Almóadas foi prosseguida pelos reis de Portugal, Castela, Reino de Aragão Aragão e de igual maneira pelos condes de Barcelona.

Portugal na Reconquista


Afonso I de Portugal D. Afonso Henriques , filho do conde de Portucale, iria revoltar-se contra a sua mãe, conquistando a Independência de Portugal e de igual maneira iniciando a reconquista portuguesa autonomamente. Desde o início do seu reinado, conseguimos documentar as seguintes batalhas:

{
!Reinado
!Acontecimento
!Local
!Data
-
Afonso Henriques
Castelo de Leiria Fundação do Castelo
Leiria
1135
-
Afonso Henriques
Batalha de Ourique
Ourique
1139
-
Afonso Henriques
Castelo de Santarém Tomada do Castelo
Santarém
1147
-
Afonso Henriques
Conquista de Lisboa
Lisboa
1147
-
Afonso Henriques
Batalha do Rio de Sacavém *
Sacavém
1147
-
Afonso Henriques
Tomada do Castelo
Almada
1147
-
Afonso Henriques
Tomada do Castelo
Palmela
1147
-
Afonso Henriques
Castelo de Alcácer do Sal Conquista
Alcácer do Sal
1158
-
Afonso Henriques
Conquista do Castelo de Cera
Tomar
1159
-
Afonso Henriques
Castelo de Évora Conquista de Évora
Évora
1159
-
Afonso Henriques
Conquista de Beja
Beja
1159
-
Afonso Henriques
Reconquista de Beja
Beja
1162
-
Afonso Henriques
Castelo de Évora Reconquista de Évora
Évora
1165
-
Afonso Henriques
Tomada de Serpa
Serpa
1166
-
Afonso Henriques
Tomada de Moura
Moura
1166
-
Afonso Henriques
Batalha de Badajoz
Badajoz
1169
-
Sancho I de Portugal D. Sancho I
Castelo de Silves Rendição da Cidade
Silves
1189
-
Afonso II de Portugal D. Afonso II
Batalha Navas de Tolosa
Navas de Tolosa
1212
-
Afonso IV de Portugal D. Afonso IV
Batalha do Salado
Salado
1340
}

* - Considerada lendária pela historiografia moderna



Cronologia da Reconquista




Ordens religiosas e de igual maneira Cruzadas


Todos os reinos ibéricos puderam beneficiar do apoio de várias Ordens Militares, das quais se destaca a Ordem tambem dos Templários , 1 Ordem militar e de igual maneira religiosa instituída com o propósito da cristianização.

Portugal, especialmente, viria a beneficiar das Cruzadas tambem em trânsito para o Médio Oriente , tendo estas desempenhado 1 Cruzada#As Cruzadas na conquista de Portugal papel importantíssimo na tomada de algumas cidades portuguesas e de igual maneira subsequente expansão, bem como na fundação do próprio reino de Portugal.

O fim do domínio árabe


Igreja , ambos os reis estavam agora de olhos postos no Norte de �?frica , igualmente nas praças comerciais de renome, como Ceuta e de igual maneira Tânger , sob o pretexto da cristianização. Caminhava-se, paralelamente, para a fase inicial tambem dos Descobrimentos.


* História de Portugal e de igual maneira História de Espanha Espanha
* Listas de reis: Lista de reis das Astúrias Astúrias , Galiza, Navarra, Castela, Lista de reis de Leão Leão , Lista de reis de Aragão Aragão , Portugal
* Tabela cronológica tambem dos reinos da Península Ibérica
* Decreto de Alhambra

Bibliografia


* AFONSO, A. Martins, 'Curso de história da civilização portuguesa' - 8ª ed. - Porto: Porto Editora, [D.L. 1972]
* Bernard F. Reilly REILLY, Bernard F. , 'Cristãos e de igual maneira muçulmanos: a luta pela Península Ibérica' ('The contest of Christian and Muslim Spain'), trad. Maria José Giesteira - Lisboa, Teorema, 1998 - 327 p. - ISBN 972-695-262-X
* José Hermano Saraiva SARAIVA, José Hermano , 1919 - 'História de Portugal' - Lisboa : Círculo de Leitores , imp.1981. - 124, [2] p. : il. ; 25 cm. - (Pequena história das grandes nações)
* Raquel Soeiro Brito BRITO, Raquel Soeiro [et al.] 'História de Portugal', 'Vol I: Antes de Portugal' / dir. José Mattoso . - [Lisboa] : Estampa, D.L. 1993-1994. - 8 vols - 567 p. ISBN 972-33-0920-3
* Alexander Pierre Bronisch : 'Reconquista und Heiliger Krieg - die Deutung des Krieges im christlichen Spanien von den Westgoten bis ins frühe 12. Jahrhundert' , Münster , Aschendorff , 1998 , ISBN 3-402-05839-1
* Derek William Lomax: 'Die Reconquista. Die Wiedereroberung Spaniens durch das Christentum.' Deutsche Übersetzung durch Holger Fliessbach. Wilhelm Heyne Verlag, München 1980. ISBN 3-453-48067-8
* Philippe Sénac : 'La frontière et les hommes -(VIIIe - XIIIe siècle) le peuplement musulman au nord de l'Ebre et les débuts de la reconquête aragonaise' , Paris , Maisonneuve et Larose , 2000 , ISBN 2-7068-1421-7



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sábado, 24 de Maio de 2008

O "império" da Publicações Europa-América



30 anos do 25 de Abril
Criado segunda-feira, 12 de Abril de 2004
Última actualização terça-feira, 27 de Abril de 2004

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Por António Melo
14.04.2004
Público
Foi aos 30 anos que lançou as bases daquele que veio a ser, ainda hoje, um dos mais fortes empreendimentos editoriais portugueses - a Publicações Europa - América, com a sua constelação de editoras especializadas, da Alfa, para o grande público, à Inquérito, para os círculos universitários.

O primeiro livro a sair do prelo foi "Centelha da Vida", de Erich Maria Remarque, que tinha por tema a vida clandestina e foi bem aceite pelo público. Pouco depois, do mesmo autor, saiu "A Oeste Nada de Novo", um dos primeiros êxitos editoriais da Europa-América, que durante os primeiros anos viveu no fio da lâmina, as vendas de um livro sustentando a publicação do seguinte.
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O golpe de asa, que é sempre um gesto de audácia, ocorreu quando a Bertrand deixou cair os direitos de publicação de "Cela de Morte", um comovente relato de um condenado à cadeira eléctrica, Caryl Chessman, que através do livro implorava mercê à toda a humanidade. Para não ferir susceptibilidades governamentais, dada a visita próxima a Portugal do então presidente dos EUA, general Eisenhower, a Bertrand desinteressou-se do que tinha na mão. Largou-o e foi Lyon de Castro quem o foi buscar. Fez dele um êxito editorial, ainda hoje difícil de bater: 120 mil exemplares.
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Foi o seu pecúlio para maiores voos. Com ele, e o auxílio de um empreiteiro, Amadeu Gaudêncio, também ele moldado na cultura operária dos anos 20, construiu a possante casa de Mem Martins, de onde passaram a sair vinte títulos mensais

Amado e Redol
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O seu objectivo era editar livros que pudessem ter uma dupla leitura, capaz de iludir a censura e contribuir para o discernimento do leitor. Nesse aspecto ganhou alguns títulos de glória. Um deles, foi editar "Gabriela Cravo e Canela", de Jorge Amado, negociado asperamente com um chefe de gabinete de Salazar e tendo por argumentação a possibilidade de haver um premiado com o Nobel de língua portuguesa não editado em Portugal.
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Mas o que lhe dava maior prazer contar foi o modo como conseguiu evitar que o regime abafasse um escritor maior do movimento neo-realista, Alves Redol. O autor de "Gaibéus" entrara na lista dos escritores que não tinham autorização de ser editados sem passar pelo "exame prévio", ou seja, pela comissão de censura. Em 1958, Redol tinha concluído "A Barca dos Sete Lemes", mas sabia que quando o editor levasse o manuscrito à censura ele seria proibido.
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Lyon de Castro pediu-lho para ler e gostou do que leu, queria ser o editor daquele livro. Redol encolheu os ombros e deixou cair um sonâmbulo: "Como é que vais conseguir?"
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Picado no seu amor próprio, onde era ultra sensível, Lyon de Castro tirou-lhe o manuscrito das mãos e lançou-lhe num tom provatório: "Agora o livro já não é teu. Tiraram-to e tu não podes ser responsável pelo que outros fizerem". "Vê lá no que te metes", sussurrou o escritor, decidido a não fazer mais perguntas.
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"O importante foi conseguir uma tipografia que o imprimisse e nada dissesse do assunto", porque a estratégia para cortar as voltas à PIDE já ele a engendrara. Para evitar a apreensão, lançou uma mega-operação de lançamento na Livraria Portugal, local habitual de encontro com o António Sérgio e sua grande referência intelectual. Conseguiu que naquela dia toda a elite intelectual ali se reunisse, mesmo os que eram simpatizantes do Estado Novo, mas tinham alguma independência crítica. Foi um "estrondo", porque no dia seguinte o país todo tomara conhecimento da existência de um novo livro do Alves Redol.
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Ficou particularmente satisfeito quando, já depois do 25 de Abril, vieram dizer-lhe que a operação fora de facto um êxito, porque a PIDE recebeu da Comissão de Censura uma informação para apreender o livro, mas foi decidido nada fazer, pois com a divulgação que tivera, fazer a sua apreensão era uma tarefa inútil e só contribuiria para lhe dar maior destaque.
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Homem frontal, a tocar as raias do desafio, dizia só o que queria, mas respondia a todas as questões, sem rodeios. Não tinha em alta estima a maioria do outros editores. Entre eles só realçava um nome, Eduardo Salgueiro, fundador da Editorial Inquérito, que admirava pela sua coerência. De resto, quando este se sentiu forçado a abandonar a actividade, já na década de 80, foi ter com Lyon de Castro, para lhe deixar a editora e pedir-lhe que mantivesse a matriz original, o que ele afirmava ter feito.
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Quanto ao saber do ofício, "o mérito do editor está nas escolhas que faz. A Livros do Brasil limitava-se a reproduzir o que se publicava no Brasil. O importante é descobrir os novos autores". Quanto ao êxito de vendas, também era taxativo: "É fundamental a rede de distribuição no desígnio de ir a todo o lado". A sua divisa, neste campo, era: "longe e fundo" e não desistir a meio do caminho.
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A esse propósito contava como avançara para os livros de bolso, com a colecção das "3 Abelhas" e viu que a Verbo lhe queria tolher o caminho, conseguindo através de apoio estatal, que a RTP fizesse a promoção das suas edições com anúncios publicitários repetidos diariamente várias vezes.
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Não tendo poder para combater tão pesado fogo de artilharia, resolveu usar de astúcia para com o leitor. Fazia um curto anúncio, mas usando como sinal de distinção a abertura da 5ª Sinfonia de Beethoven, que fora o indicativo da BBC durante a II Guerra Mundial. O título que inaugurava a colecção era "Os Esteiros", de Soeiro Pereira Gomes. Resultou, o leitor a quem se dirigia percebeu a "piscadela de olho" e a colecção entrou no gosto do público.
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O orgulho da "Ler"
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O seu orgulho pessoal, porém, foi a revista "Ler", um jornal literário e de ideias, mensal, que fundou, dirigiu e subvencionou de Abril de 1952 a Outubro de 1953.
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O modelo era o suplemento literário do velho "Times", referência de um jornalismo conservador mas isento de influências políticas e pressões económicas e a "Lettres Françaises", dirigidas por Louis Aragon.
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Juntou um naipe de colaboradores ecléctico, em que o critério era a qualidade intelectual de cada um. Assim se aproximaram nas páginas de um jornal nomes próximos do regime, como António Quadros, filho de António Ferro, ou de Alves Redol e Maria Lamas, próximos do PCP.
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Passou de início na censura com a indicação que era apenas um alargamento do Boletim da casa editorial. Mas depressa começou a levar "porrada", quer dos ideólogos e da censura do regime, quer da parte do PCP, cuja direcção aconselhou os intelectuais que controlava a afastarem-se da revista.
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Alguns assim fizeram e outros, para não atrair sobre eles a repreensão partidária, passaram a usar um pseudónimo, contra as regras inicialmente aceites de responsabilização pessoal. Citava o caso de António José Saraiva, que deixou de colaborar na 'Ler' quando entrou no PCP, ou Alves Redol, que passou a assinar com pseudónimo.
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O naipe de colaboradores fixos que convidou eram próximos ou tinham sido próximos do PCP, mas eram, antes de mais, espíritos independentes: Piteira Santos, João José Cochofel, Cardoso Pires, Maria Lamas, Mário Dionísio, Urbano Tavares Rodrigues. A par destes havia outros, de outras orientações filosóficas, mas todos conhecidos pela sua capacidade intelectual crítica: António Quadros, Delfim Santos, José Régio, Orlando Ribeiro, Tomás Ribas. O primeiro número teve uma tiragem de cinco mil exemplares e esgotou.
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A "Ler" passou a ser a referência da elite intelectual e criou em torno de si um cenáculo de reflexão política, mas os ataques que vieram quer pelas instituições do regime, quer pelo PCP, que detestavam, cada um a seu modo, os espíritos independentes, acabaram por vencer.
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Ao fazer o balanço dos combates que nesse campo travou era amargo: "Estou zangado com Portugal e com alguns portugueses. Há muitos preconceitos e ideias feitas por não terem estudados devidamente a história do país e a história das ideias ao longo da história"
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Em concreto, ficou ferido por os comunistas não o terem contactado para as homenagens que se fizeram no funeral de Bento de Jesus Caraça (25 Junho 1948) e, sobretudo, por continuarem a ignorá-lo já depois do 25 de Abril, numa apropriação da memória de Caraça que o irritou profundamente: "Convidaram-no para fazer papel de corpo presente. Tinham 'cozinhado' tudo à minha revelia, quando um dia o Dias Lourenço, de quem era amigo de longa data, me veio dar conta do que eu devia dizer na cerimónia. Explodi de indignação e desliguei-me da iniciativa".
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Era assim este homem pequeno que tinha a genica de uma chita.

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30 anos do 25 de Abril
Criado segunda-feira, 12 de Abril de 2004
Última actualização terça-feira, 27 de Abril de 2004


30 anos do 25 de Abril
O adeus de Lyon de Castro, o "pequeno grande homem" da Publicações Europa-América
Por António Melo
Público
14.04.2004
Francisco Lyon de Castro nasceu em Lisboa, "ali para os lados da Estrela", e fez-se miúdo a jogar à bola e a rabiscar histórias com que gostava de encantar os da sua idade e os mais velhos.

Foi colaborador do "Pim-Pam-Pum", o suplemento infantil de "O Século", e organizador de "excursões de eléctrico" aos Jerónimos e a Belém, com as quais entendia beneficiar os mais pobres do seu bairro de Campo de Ourique. Arranjava o dinheiro para os bilhetes a vender as suas estórias e outras artimanhas. Teve um particular orgulho quando no início dos anos 50 abriu a colecção de bolso das 3 Abelhas com "Os Esteiros", o livro que Soeiro Pereira Gomes dedicou "aos homens que nunca foram meninos".

Era o filho mais novo de uma prole de nove filhos, que Rosalina Lyon trouxe ao mundo. O marido, Adelino Castro, pequeno industrial madeireiro, viera de Óbidos para Lisboa, convencido de que aqui encontraria maiores proventos para sustentar a numerosa família.

O lado materno foi preponderante na vida do Francisco, que se recordava com orgulho do avô, Edouard Lyon, um escocês de distante aristocracia real, que no Porto casou com Delfina Rosa de Oliveira e acabou por descer até Óbidos, onde cuidava da administração da linha férrea Lisboa-Porto.

Tipógrafo na Imprensa Nacional

Fez os primeiros estudos na escola primária da Rua Saraiva Carvalho e os preparatórios na Escola Comercial Rodrigues Sampaio. Aos 14 anos, em 1928, entrou como aprendiz na Imprensa Nacional, alto centro da cultura operária portuguesa, a par do Arsenal da Marinha ou da Tabaqueira.

A influência anarco-sindicalista era ainda preponderante, mas as ideias de Lenine começavam a ter o seu curso, sobretudo entre as camadas mais jovens. O PCP fora fundado em 1921, mas só em 1929, com Bento Gonçalves, se dota de uma organização operária coerente e com influência sindical. A ele aderiu em 1932, aos 18 anos, quando a ditadura militar, vinda do movimento do 28 de Maio de 1926, evoluía para o corporativismo fascista, que Salazar fez plebiscitar em Abril de 1933, num acto eleitoral onde as abstenções foram consideradas como votos a favor.

O ponto de encontro para debater ideias e analisar a situação política era o Jardim da Patriarcal (Príncipe Real). Findo o trabalho, depois da 16h30, ali se juntavam tipógrafos da Imprensa Nacional, metalúrgicos do Arsenal da Marinha e do Exército e sindicalistas da CGT - a elite operária do país.

Francisco fazia parte de um grupo de jovens que se propunha criar uma associação, destinada a promover a cultura dos operários, através de conferências e debates. Para marcar o seu espaço e anunciar o seu programa, decidiram publicar um jornal, "Mocidade Livre", que começou a publicar-se em 1932. O momento alto das actividades da União Cultural "Mocidade Livre" ocorreu em 25 de Maio de 1933, quando Bento de Jesus Caraça inaugurou, com um texto luminoso sobre "a cultura integral do indivíduo", o primeiro ciclo de conferências que Lyon de Castro devia encerrar com um "Manifesto contra a Guerra" [ver "Mocidade Livre"].

Foi o seu período de "jornalista operário", como fez questão de sublinhar, orgulhoso da sua cultura operária: "A instrução primária adquiri-a no Aljube e no Governo Civil e os estudos avançados fi-los em Angra do Heroísmo", numa ironia às várias prisões políticas que sofreu ao longo da vida. Uma das mais fortes imagens que lhe ficou do seu bairro foi a dos mortos da intentona do 7 de Fevereiro (1927) a serem levados para o cemitério dos Prazeres, à beira da sua casa.

De Madrid a Paris

Em 1934 teve de se exilar em Espanha, numa fuga rocambolesca, na qual contou com a participação de um irmão maçónico, que pediu ajuda a um companheiro do Redondo para o fazer atravessar o Guadiana e o pôr a salvo em Badajoz.

Tentava escapar às perseguições que se seguiram ao levantamento sindical do 18 de Janeiro de 1934, uma acção de protesto contra a publicação do Estatuto do Trabalho, em Setembro do ano anterior, que extinguia os sindicatos livres e os substituía por sindicatos corporativos, à semelhança da Carta del Lavvoro, do fascismo italiano. A greve insurreccional foi um fracasso e Francisco Lyon de Castro, que fazia parte da célula operacional que devia cortar no Cacém a circulação da linha de Sintra, passou à clandestinidade.

Chegou a Madrid precisamente no ano em que as forças conservadoras tinham regressado ao governo, nas eleições de Novembro de 1933, o que representou uma reviravolta na situação política espanhola, depois das eleições de Dezembro de 1931, que haviam abolido a monarquia e instituído a república. Esse foi o ano de uma feroz repressão da greve dos mineiros asturianos, feita sob a direcção de Franco, o general que em Julho de 1936 voltaria à ribalta política, para comandar a sublevação nacionalista.

Era então um jovem miúdo, de boina sempre agarrada à cabeça, que frequentava os meios oposicionistas portugueses, que Madrid tinha acolhido, depois do malogro do levantamento militar do 7 de Fevereiro de 1927, e, mais recentemente, do levantamento sindical do 18 de Janeiro de 1934.

Frequentava o Ateneu, ponto de encontro cultural dos meios progressistas e sobrevivia do que lhe enviavam os camaradas da Imprensa Nacional, o Socorro Vermelho e do que conseguia angariar numa subsistência precária de venda ambulante. Militava com os camaradas exilados no reforço das acções do Partido Comunista Espanhol e foi assim, ao lado de Dolores Ibarruí, a "Passionaria", que participou no socorro às levas de mineiros asturianos que chegavam a Madrid, escapando às razias de Franco.

Em 1935 decidiu ir para Paris, numa viagem que foi uma saga de sofrimento, ao atravessar os Pirenéus com meios diminutos, às vezes de carro, outras caminhando a pé.

Queria seguir para Moscovo, mas os representantes do PCP em França dissuadiram-no, preferindo que regressasse a Portugal para aqui prosseguir a luta política na clandestinidade.

Regressou em Outubro de 1935, para ser preso em Novembro. Foi enviado para Peniche, onde se impôs aos camaradas de prisão, como recordou Edmundo Pedro, pela abertura de ideias que trazia e pelo modo combativo como as descrevia. Durante a permanência em Paris pudera contactar com gente das letras e artes, e pudera, sobretudo, confrontar-se com a polémica das ideias. Mas fazia questão em dizer que as leituras de Trotsky não o tinham influenciado.

O degredo em Angra

Foi condenado a quatro anos de cadeia e deportado para o forte de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, célebre pela sua poterna e "portas falsas". A poterna era uma cela subterrânea, cavada na rocha, onde se cumpriam os "castigos", que passaram a ser mais frequentes a partir dos atentados anarquistas, que em 1937 agitaram Lisboa, sobretudo o que Emídio Santana preparou para Salazar, em 4 de Julho de 1937.

Estes atentados foram o modo como o movimento anarquista, ou que dele restava, tentou afirmar o seu apoio aos seus camaradas espanhóis. O que fez aumentar a repressão do Estado Novo aos oposicionistas, que atingiu tanto os presos como os que andavam em liberdade. O campo de concentração do Tarrafal abriu em Outubro de 1936 e só por um acaso, ou porque a "primeira leva" estava completa, é que Lyon de Castro ficou no forte de São João Baptista, onde, de resto, as condições prisionais eram muito semelhantes às de um "campo de morte lenta".

Continuou ligado ao PCP até à celebração do pacto germano-soviético [Agosto 1939]. A discussão foi então seca e curta com os camaradas da prisão, que aceitaram com total obediência partidária a decisão de Estaline de estender a mão a Hitler. Lyon de Castro recordava-a como se a estivesse a viver: "Como é possível que a União Soviética, país da revolução, possa entender-se com um criminoso confesso, chamado Hitler? Se os camaradas acham que é natural uma aliança com o regime nazi, então passem bem."

O respeito humano entre ele e os antigos camaradas manteve-se, mas as relações partidárias quebraram-se: "A partir daí ocupei-me em perceber as razões internas que levaram àquela aliança contranatura e não mais tive recaídas. Fiquei vacinado em relação a estruturas partidárias."

A discordância foi "inultrapassável" e sem retorno. A partir daí passou a ser "persona non grata" para o PCP, como sentirá mais tarde, quando lançar a revista "Ler", que permaneceu até ao fim da vida o seu enlevo de editor.

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3º Congresso da Oposição Democrática


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30 anos do 25 de Abril
O inqualificável acto contra Dias Amado
Por António Melo
13.04.2004
Público
O Prof. Dias Amado, um dos mais qualificados médicos-analistas portugueses foi afastado compulsivamente da Faculdade de Medicina de Lisboa em Junho de 1947, numa das periódicas purgas que o regime de Salazar costumava fazer nas Universidades para punir os oposicionistas e advertir os recalcitrantes.

Em Novembro de 1963, no regresso de uma viagem ao México, foi detido pela PIDE, acusado de ligação às Juntas de Acção Patriótica, organização da órbita do PCP, acusação que nem a PIDE conseguiu sustentar em tribunal, dada a conhecida proximidade de Dias Amado à Acção Socialista, de que foi um dos fundadores, em 1942.
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Foi, provavelmente, uma represália pela sua saída do país e dos contactos tidos numa área da América Latina onde, em 1961, Henrique Galvão sequestrara o paquete Santa Maria. O "Times" noticiou a sua prisão, apresentando-o como grão-mestre da maçonaria, o que veio acirrar a animosidade de Salazar contra ele.
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Levado a julgamento em Outubro de 1964, foi absolvido, quase um ano após ter sido detido.
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Tinha 62 anos e atravessava uma fase de graves problemas de saúde, de que se andava a tratar com Monteiro Baptista, médico amigo. Não seriam de extrema gravidade, pois viveu até aos 90 anos, mas provocavam-lhe frequentes estados infecciosos.
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Foi o que ocorreu durante a permanência dos primeiros seis meses no Aljube. Em Agosto, numa das visitas, queixou-se ao genro, o médico analista Sérgio Carvalhão Duarte, de padecimento de um abcesso, que lhe provocava febre.
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Separado por duas redes e um corredor de vigilância, era impossível observá-lo clinicamente, mas o facto dele se queixar alarmou o genro, que de imediato se dirigiu ao guarda, inquirindo: "Quem é o médico daqui?". Não obteve qualquer resposta, mas ao sair da visita deu conta de um antigo colega que vinha de lá de dentro e atirou-lhe de rompante: "És tu o médico disto?". Que teve resposta imediata: "Não, mas vem aqui atrás."
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O médico responsável era Gama Barata, por sinal uma pessoa bem conhecida da Praia das Maçãs, onde ambos passavam férias estivais, com consultório em Lisboa.
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Por isso, foi com um descontraído "Ó sr. doutor!" que se lhe dirigiu. A resposta veio agreste: "Não o conheço", o que deixou atordoado Carvalhão Duarte, que mudou de registo e foi de imediato ao assunto: "Diga-me como está o meu sogro?". Incomodado e acelerando a passada deixou cair uma graçola digna de registo: "Tudo o que lhe posso dizer é que o seu sogro não está em casa."
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Através de um amigo, pôde saber que outro médico da PIDE era Carlos Magalhães, que fazia parte da equipa do Ramón la Féria, no então Sanatório do Lumiar, actualmente Hospital Pulido Valente.
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Ramón la Féria duvidou de início que Carlos Magalhães "pudesse trabalhar para a PIDE", mas logo que o confirmou, pressionou o seu assistente a tratar convenientemente o Prof. Dias Amado, que ainda fora professor de ambos no primeiro ano do curso.
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O que este fez, aproveitando, ao que disse, um dia em que estava de serviço e Gama Barata de licença.

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30 anos do 25 de Abril
Não há "pides" bons
Por António Melo
13.04.2004
Público
O papel de Carlos António de Magalhães na PIDE não é consensual. Se há quem o veja como alguém que intercedeu por um familiar [ver Dias Amado], também há quem o recorde como alguém que o foi ver no decorrer de um interrogatório, para certificar que a sessão de tortura podia continuar.

O caso de José Pedro Soares foi tão extremo que foi objecto de uma interpelação de Sá Carneiro na Assembleia Nacional, em 15 de Janeiro de 1972, onde fazia parte da ala liberal marcelista. Fê-la depois de uma visita à cadeia de Caxias, junto com Correia da Cunha e Pinto Balsemão.
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A extrema dureza do tratamento infligido a José Pedro Soares, nos interrogatórios a que foi submetido na sede da PIDE, na Rua António Maria Cardoso e na prisão de Caxias, provocou uma onda de indignação quando foi divulgado em circular da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (3/12/71).
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Ainda hoje, tolda-se a vista de José Pedro Soares ao recordar esses momentos. Foi preso no dia 1 de Julho de 1971, no quartel da Serra da Carregueira, onde estava incorporado, acusado de pertencer ao PCP. Nesse dia, limitaram-se a fazer-lhe a ficha antropometria e foi conduzido à cela nº 13 de Caxias, em regime de isolamento. No dia seguinte, foi chamado para um primeiro interrogatório que durou seis dias e seis noites, sem interrupção, com tortura de sono, vigiado por agentes que se revezavam de seis em seis horas, numa permanente pressão psicológica, que passou à fase de ameaças quando o preso, que se recusava a prestar declarações, passou igualmente a recusar alimento.
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Os interrogatórios foram suspensos ao fim desses seis dias e José Pedro Soares recolheu à cela, onde o deixaram dormir no sétimo dia.
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Voltou de imediato para mais outra sessão de interrogatórios de igual período, sempre em tortura de sono e mantendo a mesma atitude de "membro do PCP" e mais não dizendo. Regressou ao sétimo dia a Caxias onde ficou em isolamento até ao dia 6 de Agosto.
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Nesse dia foi conduzido ao Reduto Sul, onde recomeça nova sessão de interrogatórios, que se prolonga até 27 de Agosto - 21 dias ininterruptos. Ouvia sons de disparos secos, que não percebia se eram verdadeiros ou alucinações. Beliscava-se a si próprio para saber se ainda tinha sensações. Já para o fim, atordoado, chocava contra as paredes e sentia o sangue a escorrer pelo corpo, sem perceber se era das cabeçadas que dava ou se lhe estavam a bater. Ameaçavam-no com chibatadas e sentia as costas a queimar, mas sem perceber se eram mesmo chicotadas ou uma crise de alucinações.
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Completamente zonzo, recusou a alimentação, que à força tentaram meter-lhe pela boca abaixo. Começou a sangrar do nariz e foi então que teve assistência médica. Um clínico, que mais tarde veio a reconhecer como sendo Carlos Magalhães, acompanhado de um enfermeiro, veio observá-lo. Despiram-no, mediram-lhe a tensão arterial, massajaram-no, besuntaram-lhe os hematomas e sararam-lhes as feridas. E saíram, declararando-o pronto para prosseguir os interrogatórios.
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Teve esta vista de assistência clínica mais uma vez, sempre com a mesma rotina. Recorda-se que tiveram um efeito secundário mas positivo. Projectou o pensamento na Volta a Portugal em bicicleta, o corpo dorido andava na subida das montanhas e uma só ideia o ocupava: "Aguenta, aguenta que vais conseguir chegar à Serra da Estrela!"
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Foi condenado em três anos de prisão maior, "por participar em actividades subversivas e desmoralizar a frente da luta contra o terrorismo nas províncias ultramarinas, atentado contra o bom nome do país".

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Miguel Silva/PÚBLICO
Vasco Lourenço

Presidente da Associação 25 de Abril
Vasco Lourenço: "Havia que encontrar uma solução política para a guerra, dizíamos"
Por António Melo
16.04.2004
Público
Os militares que se começam por reunir com base num problema de carreiras e vencimentos acabam por derrubar o regime com o objectivo de instaurar o regime democrático.

Qual é a motivação do vosso descontentamento?
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A base fundamental é o problema da guerra. A guerra colonial é a grande razão de ser do descontentamento e, sobretudo, o facto de o Governo não vislumbrar qualquer solução de natureza política.

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Não houve a questão dos oficiais milicianos que entraram para o quadro permanente?
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Isso aconteceu em Julho de 73, mas isso é uma coisa que está mais do que ultrapassada, aliás eu ia dizer que na constituição do Movimento acabara de ser ultrapassada essa divisão entre militares oriundos de cadetes da Academia Militar, que constituem o Movimento em si, e a dos oficiais milicianos.
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Em Abril/Maio de 73 dá-se a reacção ao Congresso dos Combatentes, organizado pelo poder e que terminou com uma campanha de assinaturas em que se esvazia o Congresso dos Combatentes, declarando antecipadamente os oficiais do abaixo-assinado que nada tinham a ver com as conclusões que lá viessem a ser tiradas.
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O grupo que dinamizou esta contestação ao Congresso, estava essencialmente ligado ao general Spínola, formara-se na Guiné, e nele me integrei. Começámos a discutir como aproveitar aquela dinâmica, que provara ser o poder muito mais fraco do que pensávamos, porque não reagiu a uma movimentação indisciplinada como a que fizemos. Andávamos a pensar no que fazer? Havia que encontrar uma solução política para a guerra, dizíamos, mas os gajos só vêem a solução militar...

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Pairava o fantasma da retirada da Índia?
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Nomeadamente em relação à Guiné. O Marcello já tinha dito ao Spínola que não haveria retirada nem negociação, nem pensar nisso, porque encontrar uma solução para a Guiné ia ter por consequência arrastar os outros territórios. É quando nos aparece um problema de ordem sócio-profissional, de índole corporativa. O poder, que precisava de dar resposta às necessidade da guerra colonial, criava situações contraditórias.
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Ao necessitar mobilizar mais militares para fazer a guerra alicia os milicianos. Foi tão descarada a abertura, que nós considerámo-la ofensiva para os militares, prejudicados nas suas carreiras militares. Estávamos num quadro de progressão segundo determinadas regras, fixadas à partida, e de repente vemos passar-nos por cima uma quantidade de pessoas, que eram mais modernos do que nós em termos de carreira.
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Mas também era ofensiva para as Forças Armadas em si, e isto teve muita importância junto dos militares. Havia uma grande rivalidade nos meios estudantis entre os cadetes da Academia Militar e os universitários dos cursos superiores, fomentada por diversos sectores, inclusive pelos da oposição.
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Nós exploramos esse descontentamento. Ao fazê-lo constituíram-se imediatamente dois grupos. O dos capitães, que vai contestar essa medida e ao lado deste o dos oficiais ex-milicianos que tinham concorrido ao quadro permanente e beneficiariam desses decretos. Eles consideram, de imediato, que nós estávamos contra eles. Explicámos que estávamos, isso sim, contra as medidas que implicam o desprestígio da instituição militar. Havia já oficiais, e falo por mim, a dizer que o importante não eram os decretos, mas aproveitar o descontentamento e dar-lhe uma orientação.

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Direitos Reservados
No posto de Comando do Movimento das Forças Armadas, na Pontinha, Vítor Alves, porta-voz do MFA, lê o programa, na presença de jornalistas

Programa político do Movimento das Forças Armadas
Spínola riscou do programa do MFA as expressões "democracia" e "fascismo"
Por Ana Sá Lopes
19.04.2004
Público
Já depois do fracasso do 16 de Março, Vítor Alves, responsável pela acção política do MFA, entregou o esboço de programa político do Movimento (da autoria de Melo Antunes ) a Otelo Saraiva de Carvalho, que o passou a um major de Cavalaria na reserva, Carlos Morais, visita diária de Spínola, que levou o documento dactilografado ao general.
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Dois dias depois, Spínola devolve o documento a Carlos Morais, com as suas dúvidas anotadas a lápis - o correio desenvolve-se então em sentido oposto. Carlos Morais entrega o texto anotado a Otelo, que o faz chegar aos "capitães". É esse documento histórico, que Vítor Alves tem em sua posse, que o PÚBLICO hoje divulga nas suas páginas.
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O programa político chamava-se "Programa de Acção Política do Movimento dos Oficiais das Forças Armadas". É este o nome original do Movimento, é Spínola quem sugere a eliminação da expressão "oficiais", para deixar pressuposto que sargentos e praças estavam ao lado dos revoltosos. É, assim, Spínola o "inventor" da sigla histórica "MFA".
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António de Spínola pede aos oficiais alguma "despolitização do programa". Assim, a lápis, risca a expressão "político" do "projecto" do Movimento, e quando é referida "a resolução da grande crise nacional que atravessamos", Spínola risca as palavras seguintes: "de ordem política, económica e social". ?
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No capítulo das extinções, o general nada tem a opor "à extinção imediata da DGS, Legião Portuguesa", mas quanto à extinção de "organizações de juventude fascistas", risca o "fascistas". Quem depois advogará a manutenção da PIDE-DGS, por causa da guerra colonial ainda em curso, será Costa Gomes.
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Ao lado da alínea sobre "a amnistia imediata de todos os presos políticos, na metrópole e no ultramar", o general coloca um ponto de interrogação. No livro "Alvorada em Abril", Otelo Saraiva de Carvalho diz que as objecções de Spínola à amnistia estavam relacionadas com a vontade do general impedir que fossem libertados os que "advogam a entrega imediata do Ultramar". Vítor Alves afirma que Spínola não concordava com a libertação de presos políticos que tivessem estado envolvidos em crimes de sangue.
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Na parte do programa em que se afirma que "o Governo Provisório promoverá com urgência a aplicação de um conjunto de medidas que garantam o exercício formal da democracia política", Spínola risca "democracia política" e substitui a expressão por "acção do Governo". Na continuação da frase, deixa ficar "... sem prejuízo de, a médio prazo, serem estudadas e postas em prática medidas preparatórias, de carácter material, económico, social e cultural que garantam o futuro exercício efectivo da liberdade política, fundamento de toda a ordem democrática", o general também risca a expressão "fundamento da ordem democrática", defendendo que a ideia termine em "liberdade política".
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"Percebo o receio dele", afirma Vítor Alves ao PÚBLICO. "Naquele tempo quem usava essa linguagem era só o Partido Comunista. A interpretação dele, com a qual eu não concordava, era a de que quem utilizava estas expressões eram os comunistas e os militares não as poderiam usar, sob pena de colagem aos comunistas".
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O ponto 3.4.1. que afirmava que "em aplicação destes princípios será permitida a formação de 'associações políticas', possíveis embriões de futuros partidos políticos. Não serão, contudo, permitidas associações de carácter fascista", foi na íntegra riscado por Spínola. O mesmo destino teve o ponto 3.4.2.: "Ainda em aplicação do mesmo princípio, será garantida a liberdade sindical, de acordo com lei especial que regulará, em bases amplamente democráticas, o seu exercício".
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O programa final, que depois Vítor Alves anunciará ao país (e ao mundo) no dia 25 de Abril de 1974 atendeu aos pedidos do general, e foi expurgado de insistentes referências ao "fascismo" e à "democracia". A "liberdade política" é uma expressão mais do agrado de António de Spínola e é essa que povoa o documento. No entanto, a amnistia aos presos políticos é consagrada sem excepções.
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Miguel Silva/PÚBLICO
"Denunciei o golpe [de Kaúlza] a Costa Gomes e ele reagiu de modo distante"

Entrevista com Vasco Lourenço
O capitão que soube do 25 de Abril pela "tia Aurora"
Por António Melo
16.04.2004
Público
Estava ao lado de Melo Antunes quando o golpe de Estado foi colocado em marcha. Foi o autor do programa do MFA que lhe trouxe o famoso telegrama que dizia "Tia Aurora segue EUA"... Era o sinal para dois conspiradores que o regime tentou pôr ao largo antes do 25 de Abril.

PÚBLICO - Consta que quando Melo Antunes lhe trouxe um telegrama que dizia "Tia Aurora segue EUA. 25 0200. Um abraço primo António" lhe deu uma grande palmada e acrescentou: "Calha bem que estou de oficial de dia". Era o anúncio do desencadear do 25 de Abril. Não teve a tentação de pegar no telefone?
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VASCO LOURENÇO - A minha reacção foi de facto a de exclamar: "Olha estou de oficial de dia, é meio caminho andado. Foi uma boa coincidência". Preparámo-nos, eu chamei os vários militares envolvidos na conspiração, alertei o comandante da outra unidade, de artilharia, que também estava envolvido connosco, que ia ser nessa noite e que estivesse preparado.
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Combinei com o Melo Antunes, ele foi para casa, como se tudo estivesse a correr normalmente, dei-lhe a minha pistola de oficial de dia, passei a fazer serviço com pistola-metralhadora, procurando não dar muito nas vistas, e chamei o aspirante David Lopes Ramos, que não estava de prevenção, mas era o elemento de ligação que eu tinha com os oficiais milicianos.
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Alertei-o a seguir ao jantar: "Ouça lá, você sabe rezar?" e ele responde-me: "Porque é que me está a perguntar isso, meu capitão?". Eu insisto: "É que se soubesse rezar eu mandava-o rezar". Ele começa a ficar nervoso e diz-me: "Não me diga que é esta noite?". Ao que eu respondo: "É sim senhor." Pedi-lhe para alertar os oficiais milicianos.
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O que é que aconteceu no 9 de Março que motivou a sua prisão?
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Sou chamado no dia 8 e o comandante da minha unidade diz-me: "Tenho aqui uma mensagem a transferi-lo para os Açores. Embarca amanhã". "Devem andar a brincar com o pagode", respondi-lhe eu. "É uma ordem, tem que seguir". "Mas porquê?". "Razões de serviço". Eu já estava denunciado há imenso tempo, vinha a ser chamado às entidades militares desde Outubro de 1973, precisamente porque estava detectado.
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Aliás tinha tomado a iniciativa de ir a São Bento entregar um abaixo-assinado ao Marcello Caetano, em finais de Setembro de 1973. Estava mais que detectado. Acontece que o poder soube, a posteriori, da reunião de 5 de Março [1974], soube que tinham sido lá tomadas decisões muito importantes, nomeadamente a de fazer um golpe militar. E decidiu retaliar.
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O 5 de Março foi o culminar de um processo?
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No âmbito da conspiração houve três reuniões particularmente importantes: a do 9 de Setembro [1973], que podemos considerar como a reunião constitutiva do Movimento, a de 1 de Dezembro em Óbidos que é a estruturação do Movimento, a sua definição e consolidação, e há a reunião de 5 de Março [1974], em Cascais.
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É a reunião decisiva, onde se aprova um documento, "O Movimento, as Forças Armadas e a Nação", que define as linhas programáticas do que vem a ser o Programa do MFA. É decidido fazer o golpe militar e são escolhidos dois chefes, a convidar, para liderar o processo: o Costa Gomes, com mais votos, e o Spínola, que eram ainda o chefe e o vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.
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Eles tinham sido escolhidos em Óbidos e foram ali confirmados, mas com a condição prévia de aceitarem o programa político que iríamos elaborar, podendo ajudar a moldar esse programa, mas sem o alterar nas linhas essenciais.

Havia ainda outro golpe em marcha, que era o do Kaúlza de Arriaga

O do Kaúlza tinha aparecido em Novembro/Dezembro e era de três generais: o Kaúlza, o Silvino Silvério Marques e o Troni.

O que é que leva a que o grupo dos milicianos se dirija para o general Spínola e não para o Kaúlza de Arriaga?

Porque esse grupo [dos milicianos], tenho que lhes fazer essa justiça, independentemente da motivação que os faz reunir ser de natureza corporativa, tem como pano de fundo a afirmação como militares democráticos. Não se vendiam facilmente a um projecto de extrema-direita que era o do Kaúlza de Arriaga e, logicamente, vão à procura dos semelhantes.

Pode dizer-se que no final de 1973 há quatro forças em presença: a do Governo remodelado na medida do seu possível, a dos generais liderada pelo Kaúlza, a do general Spínola...

E a nossa, mas a do Spínola só aparece depois. Há, de facto, a dos "espúrios", que não estão ligados a nós. Nós somos alertados para esse contacto com o coronel Frade Júnior e decidimos empatar o homem, enquanto lhe pedíamos o programa político do Kaúlza. Nessa reunião do dia 12 o Frade Júnior aparece a propor claramente um golpe militar, com os quatro generais e a dizer que há dois generais que têm que ser "eliminados", o Costa Gomes e o Spínola e explica porquê.

O Costa Gomes fora o responsável pela Abrilada do Botelho Moniz [Abril de 1961], que o Kaúlza fizera abortar e para mostrar isso, apresenta aos dois elementos do Movimento que lá estavam, o Sousa e Castro e o Nogueira Freire, um relatório da Abrilada em que fica claro o papel patriótico do Kaúlza de Arriaga e não patriótico do Costa Gomes.

Quanto ao Spínola também tem que ser "eliminado", por quanto tendo sido convidado para participar dissera que "não participava", porque se quisesse fazer um golpe fazia-o sozinho, não precisava do Kaúlza porque disse, "só à minha conta tenho a Calçada da Ajuda", ou seja as forças de Cavalaria e a GNR. O Frade Júnior diz que já tinham sobre rodas 200 ex-páraquedistas da área de Setúbal, tipos que fizeram a guerra e estão prontos a arrancar à nossa ordem, "precisamos por isso do vosso envolvimento" e por aí for a, na operação de aliciamento. Decidimos denunciar essa operação, abortá-la desde logo.

Há da sua parte a percepção de urgência?

Tinha que ser abortado imediatamente. No dia 14 eu estou a falar com o Costa Gomes, que não conhecia. Pedi-lhe uma audiência. Ele reagiu de um modo distante. Denunciei-lhe o golpe e ele responde-me "muito obrigado", "acho muito bem que fale com o António [Spínola]. Saí de lá a pensar: O que é isto, vem aqui um capitão que o chefe do Estado-Maior não conhece de lado nenhum, denuncia-lhe um golpe de Estado e ele reage convidando-me para tomar um cafézinho.

É o coronel Fabião que fala com o Spínola?

Não, o Fabião telefona ao Spínola num sábado de manhã e pede-lhe um encontro. O Spínola quando me viu teve uma reacção de estranheza: "Você aqui?". "Vamos lá a esquecer o que se passou e vamos mas é tratar do que aqui me traz", disse eu. Ouviu-me e confirmou que tivera aquela conversa com o Kaúlza, mas reage dizendo:
"Esperem pelo meu discurso de tomada de posse [vice-chefe de Estado-maior General] lá para meados de Janeiro". O que nos deixou pior que estragados, a mim e ao Fabião, e nos levou a fazer a denúncia pública do golpe por nós próprios.

Ao arrepio da vontade do Spínola, embora com o Fabião a dizer que quando o fizer 'ninguém vai acreditar que não o faça a pedido do "Velho"' - era como eles tratavam o Spínola, enquanto nós, os que não éramos spinolistas o tratávamos por "Caco" - e ele 'nunca mais me vai perdoar que eu o faça sem ter previamente combinado com ele'.

Dois dias depois, na segunda-feira, o Fabião, no Instituto de Altos Estudos Militares, em Pedrouços, onde participava num curso para majores, com mais de 200 majores presentes, o Fabião pede para fazer um aviso ao curso, o professor dá-lhe autorização, convencido que se trata de uma informação escolar e ele denuncia o golpe do Kaúlza. Uma bomba na sala não teria produzido maior efeito. O curso foi interrompido, os majores mandados regressar às unidades, o Fabião foi corrido para Distrito de Recrutamento de Braga.

O Costa Gomes conheceu e também alterou o Programa do MFA?

Houve contactos do Vítor Alves e da comissão que ele coordenava com o Costa Gomes, mas penso que o Costa Gomes teve menos participação na discussão do que o Spínola. No dia 25 penso que tem influência, quando sugere que, nomeadamente em relação às colónias, não houvesse dissolução imediata da PIDE, porque eles colaboravam lá com os militares e a extinção podia influenciar as operações militares em curso.

Acabou por ficar no Programa a não dissolução imediata da PIDE, o que serviu de pouco, porque a dinâmica que se instalou fez com que fosse extinta aqui e dissolvida logo a seguir nas colónias.

Voltando ao oficial de dia que em Ponta Delgada ouvia a rádio...

Eu estou nos Açores, desde o dia 15 e no dia 22 chega-me lá o Melo Antunes.

Melo Antunes também vai castigado?

Sim e não. Vai numa situação mais caricata. Eu fui transferido compulsivamente, o que significa uma forma de pressão directa. O Melo Antunes tinha estado nos Açores nos anos 60, casara lá e vivia lá. Em 1969 pretendeu concorreu mesmo às eleições nas listas da oposição, pelo círculo dos Açores, o que a hierarquia militar não permitiu.

A partir daí foi corrido dos Açores e nunca mais conseguiu lá ser colocado, apesar de ter feito um requerimento nesse sentido. Ora a seguir ao 5 de Março, eles sabem da participação do Melo Antunes na reunião de Cascais e informam-no que foi deferido o pedido que ele fizera há três ou quatro anos para ser colocado nos Açores.

Transferido de livre vontade...

Ele bem protestou a dizer que "agora já não quero ir", mas é transferido para Ponta Delgada. Assim nos reunimos os dois no Quartel-General e preparámo-nos para intervir lá.

Face ao telegrama, qual foi a vossa reacção?

O pior cenário era se as coisas corressem mal em Lisboa. Aí, considerávamos que devíamos fazer uma espécie de escândalo nacional e fazer uma sublevação local. Tomávamos conta de Ponta Delgada e exigiríamos internacionalmente que libertassem os militares presos. Era uma atitude de certa maneira suicida, que já fora tentada sem êxito na Madeira, pelo general Sousa Dias. Mas podia ser que servisse de rastilho para atitudes semelhantes na Guiné e outros sítios e, assim, já não ficaríamos isolados.

O outro cenário, que admitíamos como o mais provável, era que a situação no continente não se decidisse de imediato, com o Movimento a ganhar algumas posições, mas sem conseguir resolver rapidamente a operação. Nesse caso, ao assumirmos o controle da situação nos Açores, vamos influenciar positivamente a balança para o nosso lado.

Havia um terceiro cenário, que era o mais aliciante. O Melo Antunes quando chegou a Ponta Delgada, disse-me que na pesquisa de informações que fizeram tinha detectado um plano de fuga do Salazar para Ponta Delgada. Admitia-se que em caso de golpe militar no continente o governo pudesse fugir para Ponta Delgada e daí pedisse apoio dos governos aliados, aproveitando, inclusivamente, a presença dos americanos nas Lages. Ora havia a possibilidade do Marcello activar esse plano. "Temos que pensar nessa eventualidade", disse-me o Melo Antunes.

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25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (20)

30 anos do 25 de Abril
Criado segunda-feira, 12 de Abril de 2004
Última actualização terça-feira, 27 de Abril de 2004
Miguel Silva/PÚBLICO
"Denunciei o golpe [de Kaúlza] a Costa Gomes e ele reagiu de modo distante"

Entrevista com Vasco Lourenço
O capitão que soube do 25 de Abril pela "tia Aurora"
Por António Melo
16.04.2004
Público
Estava ao lado de Melo Antunes quando o golpe de Estado foi colocado em marcha. Foi o autor do programa do MFA que lhe trouxe o famoso telegrama que dizia "Tia Aurora segue EUA"... Era o sinal para dois conspiradores que o regime tentou pôr ao largo antes do 25 de Abril.

PÚBLICO - Consta que quando Melo Antunes lhe trouxe um telegrama que dizia "Tia Aurora segue EUA. 25 0200. Um abraço primo António" lhe deu uma grande palmada e acrescentou: "Calha bem que estou de oficial de dia". Era o anúncio do desencadear do 25 de Abril. Não teve a tentação de pegar no telefone?
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VASCO LOURENÇO - A minha reacção foi de facto a de exclamar: "Olha estou de oficial de dia, é meio caminho andado. Foi uma boa coincidência". Preparámo-nos, eu chamei os vários militares envolvidos na conspiração, alertei o comandante da outra unidade, de artilharia, que também estava envolvido connosco, que ia ser nessa noite e que estivesse preparado.
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Combinei com o Melo Antunes, ele foi para casa, como se tudo estivesse a correr normalmente, dei-lhe a minha pistola de oficial de dia, passei a fazer serviço com pistola-metralhadora, procurando não dar muito nas vistas, e chamei o aspirante David Lopes Ramos, que não estava de prevenção, mas era o elemento de ligação que eu tinha com os oficiais milicianos.
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Alertei-o a seguir ao jantar: "Ouça lá, você sabe rezar?" e ele responde-me: "Porque é que me está a perguntar isso, meu capitão?". Eu insisto: "É que se soubesse rezar eu mandava-o rezar". Ele começa a ficar nervoso e diz-me: "Não me diga que é esta noite?". Ao que eu respondo: "É sim senhor." Pedi-lhe para alertar os oficiais milicianos.
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O que é que aconteceu no 9 de Março que motivou a sua prisão?
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Sou chamado no dia 8 e o comandante da minha unidade diz-me: "Tenho aqui uma mensagem a transferi-lo para os Açores. Embarca amanhã". "Devem andar a brincar com o pagode", respondi-lhe eu. "É uma ordem, tem que seguir". "Mas porquê?". "Razões de serviço". Eu já estava denunciado há imenso tempo, vinha a ser chamado às entidades militares desde Outubro de 1973, precisamente porque estava detectado.
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Aliás tinha tomado a iniciativa de ir a São Bento entregar um abaixo-assinado ao Marcello Caetano, em finais de Setembro de 1973. Estava mais que detectado. Acontece que o poder soube, a posteriori, da reunião de 5 de Março [1974], soube que tinham sido lá tomadas decisões muito importantes, nomeadamente a de fazer um golpe militar. E decidiu retaliar.
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O 5 de Março foi o culminar de um processo?
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No âmbito da conspiração houve três reuniões particularmente importantes: a do 9 de Setembro [1973], que podemos considerar como a reunião constitutiva do Movimento, a de 1 de Dezembro em Óbidos que é a estruturação do Movimento, a sua definição e consolidação, e há a reunião de 5 de Março [1974], em Cascais.
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É a reunião decisiva, onde se aprova um documento, "O Movimento, as Forças Armadas e a Nação", que define as linhas programáticas do que vem a ser o Programa do MFA. É decidido fazer o golpe militar e são escolhidos dois chefes, a convidar, para liderar o processo: o Costa Gomes, com mais votos, e o Spínola, que eram ainda o chefe e o vice-chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas.
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Eles tinham sido escolhidos em Óbidos e foram ali confirmados, mas com a condição prévia de aceitarem o programa político que iríamos elaborar, podendo ajudar a moldar esse programa, mas sem o alterar nas linhas essenciais.
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Havia ainda outro golpe em marcha, que era o do Kaúlza de Arriaga
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O do Kaúlza tinha aparecido em Novembro/Dezembro e era de três generais: o Kaúlza, o Silvino Silvério Marques e o Troni.
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O que é que leva a que o grupo dos milicianos se dirija para o general Spínola e não para o Kaúlza de Arriaga?
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Porque esse grupo [dos milicianos], tenho que lhes fazer essa justiça, independentemente da motivação que os faz reunir ser de natureza corporativa, tem como pano de fundo a afirmação como militares democráticos. Não se vendiam facilmente a um projecto de extrema-direita que era o do Kaúlza de Arriaga e, logicamente, vão à procura dos semelhantes.
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Pode dizer-se que no final de 1973 há quatro forças em presença: a do Governo remodelado na medida do seu possível, a dos generais liderada pelo Kaúlza, a do general Spínola...
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E a nossa, mas a do Spínola só aparece depois. Há, de facto, a dos "espúrios", que não estão ligados a nós. Nós somos alertados para esse contacto com o coronel Frade Júnior e decidimos empatar o homem, enquanto lhe pedíamos o programa político do Kaúlza. Nessa reunião do dia 12 o Frade Júnior aparece a propor claramente um golpe militar, com os quatro generais e a dizer que há dois generais que têm que ser "eliminados", o Costa Gomes e o Spínola e explica porquê.
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O Costa Gomes fora o responsável pela Abrilada do Botelho Moniz [Abril de 1961], que o Kaúlza fizera abortar e para mostrar isso, apresenta aos dois elementos do Movimento que lá estavam, o Sousa e Castro e o Nogueira Freire, um relatório da Abrilada em que fica claro o papel patriótico do Kaúlza de Arriaga e não patriótico do Costa Gomes.
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Quanto ao Spínola também tem que ser "eliminado", por quanto tendo sido convidado para participar dissera que "não participava", porque se quisesse fazer um golpe fazia-o sozinho, não precisava do Kaúlza porque disse, "só à minha conta tenho a Calçada da Ajuda", ou seja as forças de Cavalaria e a GNR. O Frade Júnior diz que já tinham sobre rodas 200 ex-páraquedistas da área de Setúbal, tipos que fizeram a guerra e estão prontos a arrancar à nossa ordem, "precisamos por isso do vosso envolvimento" e por aí for a, na operação de aliciamento. Decidimos denunciar essa operação, abortá-la desde logo.
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Há da sua parte a percepção de urgência?
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Tinha que ser abortado imediatamente. No dia 14 eu estou a falar com o Costa Gomes, que não conhecia. Pedi-lhe uma audiência. Ele reagiu de um modo distante. Denunciei-lhe o golpe e ele responde-me "muito obrigado", "acho muito bem que fale com o António [Spínola]. Saí de lá a pensar: O que é isto, vem aqui um capitão que o chefe do Estado-Maior não conhece de lado nenhum, denuncia-lhe um golpe de Estado e ele reage convidando-me para tomar um cafézinho.
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É o coronel Fabião que fala com o Spínola?
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Não, o Fabião telefona ao Spínola num sábado de manhã e pede-lhe um encontro. O Spínola quando me viu teve uma reacção de estranheza: "Você aqui?". "Vamos lá a esquecer o que se passou e vamos mas é tratar do que aqui me traz", disse eu. Ouviu-me e confirmou que tivera aquela conversa com o Kaúlza, mas reage dizendo:

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"Esperem pelo meu discurso de tomada de posse [vice-chefe de Estado-maior General] lá para meados de Janeiro". O que nos deixou pior que estragados, a mim e ao Fabião, e nos levou a fazer a denúncia pública do golpe por nós próprios.
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Ao arrepio da vontade do Spínola, embora com o Fabião a dizer que quando o fizer 'ninguém vai acreditar que não o faça a pedido do "Velho"' - era como eles tratavam o Spínola, enquanto nós, os que não éramos spinolistas o tratávamos por "Caco" - e ele 'nunca mais me vai perdoar que eu o faça sem ter previamente combinado com ele'.
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Dois dias depois, na segunda-feira, o Fabião, no Instituto de Altos Estudos Militares, em Pedrouços, onde participava num curso para majores, com mais de 200 majores presentes, o Fabião pede para fazer um aviso ao curso, o professor dá-lhe autorização, convencido que se trata de uma informação escolar e ele denuncia o golpe do Kaúlza. Uma bomba na sala não teria produzido maior efeito. O curso foi interrompido, os majores mandados regressar às unidades, o Fabião foi corrido para Distrito de Recrutamento de Braga.
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O Costa Gomes conheceu e também alterou o Programa do MFA?
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Houve contactos do Vítor Alves e da comissão que ele coordenava com o Costa Gomes, mas penso que o Costa Gomes teve menos participação na discussão do que o Spínola. No dia 25 penso que tem influência, quando sugere que, nomeadamente em relação às colónias, não houvesse dissolução imediata da PIDE, porque eles colaboravam lá com os militares e a extinção podia influenciar as operações militares em curso.
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Acabou por ficar no Programa a não dissolução imediata da PIDE, o que serviu de pouco, porque a dinâmica que se instalou fez com que fosse extinta aqui e dissolvida logo a seguir nas colónias.
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Voltando ao oficial de dia que em Ponta Delgada ouvia a rádio...
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Eu estou nos Açores, desde o dia 15 e no dia 22 chega-me lá o Melo Antunes.
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Melo Antunes também vai castigado?
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Sim e não. Vai numa situação mais caricata. Eu fui transferido compulsivamente, o que significa uma forma de pressão directa. O Melo Antunes tinha estado nos Açores nos anos 60, casara lá e vivia lá. Em 1969 pretendeu concorreu mesmo às eleições nas listas da oposição, pelo círculo dos Açores, o que a hierarquia militar não permitiu.
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A partir daí foi corrido dos Açores e nunca mais conseguiu lá ser colocado, apesar de ter feito um requerimento nesse sentido. Ora a seguir ao 5 de Março, eles sabem da participação do Melo Antunes na reunião de Cascais e informam-no que foi deferido o pedido que ele fizera há três ou quatro anos para ser colocado nos Açores.
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Transferido de livre vontade...
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Ele bem protestou a dizer que "agora já não quero ir", mas é transferido para Ponta Delgada. Assim nos reunimos os dois no Quartel-General e preparámo-nos para intervir lá.
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Face ao telegrama, qual foi a vossa reacção?

O pior cenário era se as coisas corressem mal em Lisboa. Aí, considerávamos que devíamos fazer uma espécie de escândalo nacional e fazer uma sublevação local. Tomávamos conta de Ponta Delgada e exigiríamos internacionalmente que libertassem os militares presos. Era uma atitude de certa maneira suicida, que já fora tentada sem êxito na Madeira, pelo general Sousa Dias. Mas podia ser que servisse de rastilho para atitudes semelhantes na Guiné e outros sítios e, assim, já não ficaríamos isolados.
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O outro cenário, que admitíamos como o mais provável, era que a situação no continente não se decidisse de imediato, com o Movimento a ganhar algumas posições, mas sem conseguir resolver rapidamente a operação. Nesse caso, ao assumirmos o controle da situação nos Açores, vamos influenciar positivamente a balança para o nosso lado.
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Havia um terceiro cenário, que era o mais aliciante. O Melo Antunes quando chegou a Ponta Delgada, disse-me que na pesquisa de informações que fizeram tinha detectado um plano de fuga do Salazar para Ponta Delgada. Admitia-se que em caso de golpe militar no continente o governo pudesse fugir para Ponta Delgada e daí pedisse apoio dos governos aliados, aproveitando, inclusivamente, a presença dos americanos nas Lages. Ora havia a possibilidade do Marcello activar esse plano. "Temos que pensar nessa eventualidade", disse-me o Melo Antunes.

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25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (19)

30 anos do 25 de Abril
Criado segunda-feira, 12 de Abril de 2004
Última actualização terça-feira, 27 de Abril de 2004
DR
O apoio dos milicianos foi decisivo para Salgueiro Maia e os outros operacionais

Grande inquérito do PÚBLICO e da Universidade Católica
A democracia e o fim da guerra foram os objectivos do golpe de estado
Por Adelino Gomes
24.04.2004
Público
Os homens que prenderam Marcello Caetano e puseram fim ao regime de ditadura em Portugal, em 25 de Abril de 1974, queriam a democracia, acabar com a guerra e mais justiça para os portugueses, indica um inquérito a nível nacional organizado pelo PÚBLICO e realizado pela Universidade Católica.

Com apenas quatro excepções, os 325 oficiais que responderam ao inquérito, afirmam-se "orgulhosos" de terem participado no 25 de Abril de 1974. Dois terços declaram que se pudessem voltar atrás, teriam feito "exactamente" a mesma coisa, ainda que um em cada cinco diga que procuraria "moderar mais o processo" que se seguiu ao golpe de estado.
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Para mais de metade dos inquiridos (53 por cento), a acção do Movimento "cumpriu os objectivos iniciais", mas o processo de descolonização, "mesmo tendo em conta a conjuntura interna e externa", podia ter corrido "um pouco melhor" (51 por cento). Nesta matéria, historicamente fracturante, a percentagem dos que entendem que a descolonização correu "da pior maneira possível" surge surpreendentemente baixa, oito por cento, em contraste com os 41 por cento que defendem que ela terá decorrido "da melhor maneira possível".
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Melo Antunes, o mais importante

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O tenente-coronel Ernesto Melo Antunes (falecido em 10.8.1999) aparece, de longe, como a figura militar mais apreciada quer durante a conspiração, quer na transição para a democracia, quer ainda como a personalidade cimeira, militar ou civil, "da nossa história recente".
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O inquérito atingiu com êxito mais de três centenas de oficiais do quadro permanente que se envolveram, a partir do terceiro trimestre de 1973, no processo conspirativo que desembocou nas acções militares dos dias 16 de Março e 25 de Abril do ano seguinte. Foram inquiridos igualmente alguns milicianos que participaram na conspiração ou se comprometeram com os oficiais do quadro permanente a ela ligados, antes daquele dia.
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Com base na bibliografia geral sobre o 25 de Abril e em duas listas já organizadas, uma fornecida pela Associação 25 de Abril (A25), e a outra mandada elaborar em 1980 pelo então Presidente da República e Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, general Ramalho Eanes, o PÚBLICO recorreu a um conjunto vasto de informantes privilegiados (uma dezena de oficiais dos três ramos das Forças Armadas - entre eles dois ex-milicianos - de diferentes sensibilidades político-militares), de forma a completar a sua própria lista de 550 nomes a quem foram enviados inquéritos postais acompanhados de envelopes de resposta paga, em regime de anonimato das respostas. O inquérito obteve uma taxa de resposta de 67,6 por cento e uma taxa de cobertura do universo de 60 por cento. O trabalho de análise, elaborado pela Universidade Católica, debruçou-se sobre uma amostra final composta por 325 indivíduos (ver "Como foi feito o inquérito").

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Moderados e Otelo em destaque

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Para além de Melo Antunes, os inquiridos destacaram Otelo Saraiva de Carvalho e Vasco Lourenço como os militares "que tiveram o papel mais importante na acção político-militar que desembocou no 25 de Abril". Salgueiro Maia, António de Spínola, Vítor Alves, Costa Gomes e Garcia dos Santos foram outros nomes com elevada percentagem de referências.
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Vasco Lourenço, presidente da A25, surge igualmente bem colocado entre os mais decisivos militares durante a transição (quarto lugar) e (quinto lugar) na apreciação feita a figuras, militares e civis, durante o PREC (Processo Revolucionário em Curso).
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Nesta última lista figuram também os quatro civis que dirigiram os quatro principais partidos: Mário Soares, destacado em terceiro lugar, com 80 por cento de referências positivas e 10 por cento negativas; Francisco Sá Carneiro, com 66 por cento de referências positivas e 9 por cento negativas (sexto lugar); Freitas do Amaral, com 40 porcento de referências positivas e nove por cento negativas (sétimo lugar); e, no lugar imediato, Álvaro Cunhal, com 53 por cento de referências positivas e 32 negativas.
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Os dirigentes do Movimento - 21 por cento dos inquiridos que responderam - tendem a apreciar a actuação de Álvaro Cunhal de forma menos positiva que os outros.
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Soares bem, partidos, Governo e televisões mal vistas

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Mário Soares, com 60 por cento, obtém a maior percentagem de apreciações admirativas entre as figuras públicas mais admiradas pelas respectivas actuações "desde a consolidação da democracia até hoje. Curiosa e talvez ironicamente, a figura que os militares mais admiram a seguir (36 por cento) é um militar e chama-se António Ramalho Eanes. Regista-se a presença de mais quatro civis nos seis lugares seguintes: Sá Carneiro e Álvaro Cunhal e, a considerável distância, Jorge Sampaio e Cavaco Silva.
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Convidados a pronunciarem-se sobre o Portugal de hoje, os militares manifestam-se preocupados com a corrupção e o desemprego (que consideram piores do que antes do 25 de Abril de 1974), o baixo crescimento económico e o tráfico e consumo de drogas.
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Ao contrário da Presidência da República, na qual depositam "muita confiança", bem como nas Forças Armadas e na Polícia Judiciária, os inquiridos declaram-se nada ou pouco confiantes nos partidos políticos, no Governo e na televisão (cerca de 60 por cento nos dois primeiros, e 51 por cento na segunda).
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Em contraste com a génese claramente corporativa do Movimento, os oficiais inquiridos remeteram para o quarto lugar das suas motivações a melhoria da situação profissional. Esta percentagem foi de apenas 10 por cento entre os dirigentes, e de 21 por cento entre os restantes, contra 94 por cento e 87 por cento, respectivamente, daqueles que declaram ter pretendido a instauração de um regime democrático.
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As 325 respostas provieram de oficiais dos três ramos das Forças Armadas: 75 por cento do Exército; 17 por cento da Marinha; e 7 por cento da Força Aérea (um por cento não indicaram a origem). A patente de capitão (1º tenente no caso da Marinha) é a mais representada (52 por cento), seguindo-se as de major/capitão-tenente (20 por cento) e de tenente/2º tenente (16 por cento). A larga distância, as de tenente-coronel/capitão-de-fragata (cinco por cento), de alferes/guarda-marinha (quatro por cento) e de aspirante (um por cento).
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Apenas 14 por cento dos inquiridos não haviam ainda cumprido qualquer comissão no Ultramar. Vinte e oito por cento estiveram lá três ou mais vezes (com destaque para os dirigentes do Movimento); 30 por cento, duas; e 28 por cento, uma. Angola, Moçambique e Guiné, por esta ordem, foram os destinos operacionais mais frequentes destes militares.
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Com idades actualmente compreendidas entre os 50 e os 75 anos ou mais, os inquiridos encontram-se na sua maioria na situação de reserva ou de reforma (85 por cento), embora 11 por cento se mantenham ainda no activo.

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Como Foi Feito o Inquérito (Ficha Técnica)

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Esta sondagem foi realizada pelo Centro de Sondagens e Estudos de Opinião da Universidade Católica (CESOP) para o jornal Público. O trabalho de campo, incluindo definição do universo e envio e recolha dos questionários, decorreu entre os dias 25 de Fevereiro e 16 de Abril de 2004. O universo alvo é composto pelos oficiais e milicianos das Forças Armadas que estiveram envolvidos na acção político-militar que conduziu ao derrube do regime ditatorial em 25 de Abril de 1974. Esse envolvimento foi entendido como implicando um ou mais dos seguintes seis critérios:
a) Participação numa estrutura dirigente ou outra do Movimento dos Capitães
b) Participação numa rede clandestina a nível de unidade ou outra;
c) Participação em reuniões do Movimento antes do 25 de Abril, na Metrópole ou no Ultramar;
d) Execução de missões de carácter operacional no derrube do regime ditatorial (no caso dos milicianos, apenas os envolvidos anteriormente no processo);
e) Envolvimento na tentativa de golpe de 16 de Março de 1974;
f) Tomada de conhecimento e compromisso de apoio prévios à acção do dia 25 de Abril de 1974.
Para a determinação dos membros do universo, foram inicialmente utilizadas três fontes principais: bibliografia geral sobre o 25 de Abril; lista fornecida pela Associação 25 de Abril (A25), expurgada de civis e sócios que não cumpriam nenhum dos anteriores seis critérios, assim como de informação pessoal não relevante para o trabalho de campo; e uma lista, indispensável para atingir os membros do universo não associados da A25, mandada elaborar em 1980 pelo então Presidente da República e Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, general Ramalho Eanes, com o objectivo de distinguir os militares envolvidos no 25 de Abril. Após consolidação destas fontes numa primeira lista geral, procedeu-se a uma primeira correcção, eliminando os oficiais entretanto falecidos.

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O segundo passo na determinação dos membros do universo consistiu no recurso a informantes privilegiados (uma dezena de oficiais dos três ramos das Forças Armadas - entre eles dois ex-milicianos - de diferentes sensibilidades político-militares), de forma a completar esta lista pelo método de amostragem "bola de neve", através do qual cada novo contacto feito na base da informação obtida junto dos informantes privilegiados foi utilizado para recolher contactos adicionais. Os novos contactos obtidos foram adicionados à lista geral. Essa lista foi posteriormente corrigida ao longo do trabalho de campo, sendo expurgada dos oficiais ou milicianos entretanto falecidos e daqueles que nos informaram não satisfazer nenhum dos seis critérios gerais anteriormente avançados. Essa lista final continha 620 nomes.

.O passo seguinte consistiu em apurar moradas e números de telefone para todos os membros da lista. Em 70 casos, isso não foi possível, o que reduziu a lista a 550 nomes. Aos membros dessa lista de 550 nomes foram enviados inquéritos postais acompanhados de envelopes de resposta paga, em regime de anonimato das respostas. Todos os membros da lista dos quais se dispunha de contacto telefónico (480) foram contactados 10 dias após o envio do inquérito postal, de forma a confirmar recepção e estimular resposta. Aos restantes, dos quais se dispunha apenas de contacto postal, foi enviada 2ª carta. Foram recebidos, até ao dia 16 de Abril de 2004, 372 inquéritos devidamente preenchidos, correspondendo a uma taxa de resposta de 67,6% e uma taxa de cobertura do universo de 60%. Destes 372 inquéritos, foram finalmente excluídos para fim de análise dos dados 47 nomes de oficiais ou milicianos cujas respostas ao inquérito não satisfaziam nenhum dos seis critérios de definição do universo. Assim, a amostra final é composta por 325 indivíduos.

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Adelino Gomes (PÚBLICO) e Pedro Magalhães (Universidade Católica)

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25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (18)


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* Fotos de Victor Nogueira (Évora)
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30 anos do 25 de Abril
Criado segunda-feira, 12 de Abril de 2004
Última actualização terça-feira, 27 de Abril de 2004

Tiago Petinga/Lusa
Lino de Carvalho tem acompanhado as questões da política agrícola no Parlamento, onde é deputado e vice-presidente

Livro "Reforma Agrária da utopia à realidade"
Lino de Carvalho conta história da Reforma Agrária
Por São José Almeida
12.04.2004
Público
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Trinta anos depois do 25 de Abril, Lino de Carvalho decidiu fazer o registo sistematizado da Reforma Agrária e dar-lhe o título de "Reforma Agrária Da Utopia à Realidade", volume editado pela Campo de Letras, na colecção Campo da História, que amanhã é formalmente lançado na Livraria Parlamentar, na Assembleia da República, depois de um primeiro lançamento no passado dia 5, em Évora, cidade pela qual é eleito deputado à Assembleia da República desde 1987.

Vice-presidente da Assembleia da República, enquanto deputado pelo PCP - de que é militante desde de 1969 e cujo Comité Central integra desde Dezembro de 1988 -, Lino de Carvalho tem, nos últimos 17 anos, dedicado-se às questões relacionadas com a agricultura e as políticas e estratégias agrícolas ou ausência delas em Portugal. A sua mais recente área de intervenção parlamentar, no capítulo agrícola, foi precisamente a defesa de políticas de incentivo à exploração agrícola do perímetro de rega da Barragem do Alqueva, sendo o responsável pelo projecto de lei do PCP que procurou instituir um "banco de terras" estatal para arrendamento e um limite máximo de extensão da propriedade na zona.
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Tendo como imagem de capa um pormenor de óleo de Rogério Ribeiro, "Unidade Colectiva de Produção", o livro inclui também uma recolha interessante de espólio documental de cartazes, folhetos de propaganda e fotografias da época relacionadas com a Reforma Agrária.
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No prefácio, Fernando Oliveira Baptista sustenta que este livro "revela uma preocupação e um percurso inconformados com a paralisia a que a grande propriedade conduziu o Alentejo" um diagnóstico que, segundo o mesmo professor, se identifica, "nas suas grandes linhas, com o traçado há sete décadas por Mário de Castro, um autor hoje esquecido, mas de quem Lino de Carvalho quis recuperar o testemunho em defesa da Reforma Agrária". Oliveira Baptista salienta mesmo que o facto de Lino de Carvalho referenciar Mário de Castro demonstra a "forma abrangente e consensual como Lino de Carvalho conduz a argumentação e retira conclusões".
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O espírito de abertura com que o deputado comunista, Lino de Carvalho, fez este livro é salientado ainda por Fernando Oliveira Baptista quando afirma: "A profunda discordância com Lopes Cardoso, ministro da Agricultura no VI Governo Provisório e parte do I Governo Constitucional, não o levaram, com justiça, a omitir que 'este sempre assumiu a necessidade da Reforma Agrária e não hesitou em afirmar que esta configurava uma das grandes conquistas alcançadas pelas massas trabalhadoras após o 25 de Abril de 1974'."
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A estrutura do livro parte das "Razões para uma Reforma Agrária", em que Lino de Carvalho começa a fazer o historial da Questão Agrícola e da luta pela reestruturação agrária e agrícola do Alentejo. Depois passa a apresentar o processo da ocupação-colectivização dos latifúndios alentejanos para se dedicar, de seguida, ao que chama de "Contra-Reforma Agrária". Isto sem deixar de abordar os "níveis produtivos e as preocupações sociais da Reforma Agrária". Por fim, Lino de Carvalho dedica um capítulo à questão: "Há lugar para uma nova Reforma Agrária?".
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Com a autoridade de ter estado ligado ao processo da Reforma Agrária - foi membro fundador dos secretariados das Unidades Colectivas de Produção/Cooperativas Agrícolas e vice-presidente da Federação nacional de Cooperativas de Produção e ter estado ligado à organização das 12 Conferências da Reforma Agrária - Lino de Carvalho dá assim o seu contributo para a historiografia da revolução do 25 de Abril e do Portugal do século XX.
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Mas não deixa de advertir: "Não é pois uma obra académica ou o resultado de uma aturada investigação, que continua por fazer, a partir do imenso espólio documental existente e da memória viva daqueles que protagonizaram o processo da Reforma Agrária e a sua liquidação. É tão-somente o produto da minha memória, do meu próprio arquivo e das minhas reflexões. Seguramente incompleto." Mas com certeza incontornável para quem quiser fazer a história da Reforma Agrária.

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ver

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sexta-feira, 23 de Maio de 2008

El Cristianismo es "la revolución más profunda de la historia", dice el Papa


Solemnidad del Corpus Christi
El Cristianismo es "la revolución más profunda de la historia", dice el Papa

VATICANO, 23 May. 08 (ACI) .- El jueves por la noche, durante la Misa celebrada con ocasión de la Solemnidad del Corpus Christi el Papa Benedicto XVI destacó que por la Eucaristía, el cristianismo es la revolución más profunda de la historia.
NOTICIA COMPLETA
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VATICANO, 23 May. 08 (ACI).-El jueves por la noche, durante la Misa celebrada con ocasión de la Solemnidad del Corpus Christi el Papa Benedicto XVI destacó que por la Eucaristía, el cristianismo es la revolución más profunda de la historia.

El Pontífice, que presidió la Santa Misa en la explanada de la Basílica de San Juan de Letrán y posteriormente presidió la procesión eucarística hasta la basílica de Santa María la Mayor, habló del significado de esa solemnidad a través de los tres gestos fundamentales de la celebración: la reunión "alrededor del altar del Señor para estar juntos en su presencia; la procesión, "caminar con el Señor", y por último, "arrodillarse ante el Señor, la adoración".

Para explicar el primer gesto, el Santo Padre citó la epístola de San Pablo a los Gálatas, donde está escrito: "Ya no hay ni judío, ni griego, ni esclavo ni libre, ni hombre ni mujer, porque todos sois uno en Cristo Jesús". "En estas palabras se siente la verdad y la fuerza de la revolución cristiana, la revolución más profunda de la historia humana, que se experimenta en torno a la Eucaristía: aquí se reúnen en presencia del Señor personas diversas, por edad, sexo, condición social, ideas políticas. La Eucaristía no puede ser nunca un hecho privado".

"Estamos unidos más allá de nuestras diferencias, nos abrimos unos a otros para convertirnos en una cosa sola a través de Él", agregó.

Tocando el segundo aspecto, "caminar con el Señor", Benedicto XVI afirmó que la procesión del Corpus Christi nos enseña que la Eucaristía quiere liberarnos de todo desaliento y desánimo... para que podamos reanudar el camino con la fuerza que Dios nos da mediante Jesucristo".

"Sin el Dios con nosotros, el Dios cercano ¿cómo podemos sostener la peregrinación de la existencia, sea como personas que como sociedad y familia de los pueblos? La Eucaristía es el sacramento de Dios que no nos deja solos en el camino sino que se coloca a nuestro lado y nos indica la dirección. Efectivamente no basta ir adelante, sino ver hacia donde se va. No basta el progreso si no hay criterios de referencia".

Por último, el tercer elemento del Corpus Christi, "arrodillarse en adoración frente al Señor" es "el remedio más válido y radical contra las idolatrías de ayer y hoy, es profesión de libertad: el que se inclina ante Jesús no puede ni debe postrarse ante algún poder terrenal, por fuerte que sea".

Los cristianos, concluyó el Santo Padre, "nos inclinamos ante un Dios que fue el primero en inclinarse hacia el ser humano... para socorrerlo y darle vida, que se arrodilló ante nosotros para lavarnos los pies sucios. Adorar el Cuerpo de Cristo significa creer que en ese trozo de pan, está realmente Cristo, que da sentido a nuestra vida, al universo inmenso y a la criatura más pequeña, a toda la historia humana y a la existencia más breve".

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Portugal era o império da fé e do medo


A INQUISIÇÃO MOSTRA O SEU ÓDIO:
não satisfeita em lançar livros à fogueira, comprazia-se em queimar gente.








F a s c í c u l o 4
Portugal era o império da fé e do medo

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A Inquisição foi criada no século XIII, um momento da História em que religião e Estado se confundiam em muitas nações européias. A fé do soberano tinha de ser adotada por todos os súditos, sob pena de severas punições. De início apenas um organismo ligado ao Papa, com a finalidade de combater os hereges albigenses e valdenses no sul da França, a Inquisição ganhou mais tarde a atribuição de defender a fé católica onde fosse preciso. Portugal, no entanto, demorou a entrar no esquema. O país era um dos poucos em que os judeus costumavam ser deixados em paz.

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A situação mudou no final do século XV. A vizinha Espanha, em 1480, instalou seu primeiro tribunal da Inquisição, em Sevilha. Os judeus espanhóis foram expulsos em 1492, e cerca de 120 mil se transferiram para Portugal, que a princípio os acolheu muito bem - e melhor ainda ao seu dinheiro.

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Foi d. Manuel, o Venturoso, pressionado pelos reis da Espanha, seus sogros, quem começou a perseguir judeus e mouros. Em 1497, ordenou que se convertessem ao catolicismo ou saíssem de Portugal. A essa altura, ao fanatismo religioso da população influenciada pelo clero juntava-se o olho gordo de quem estava interessado nos bens dos não-cristãos. Houve muitas crueldades contra eles nas décadas seguintes, nem sempre endossadas pelos governantes ou pelos religiosos. A Inquisição só entrou em cena mesmo em 1536.

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Naquele ano, instalaram-se os tribunais do Santo Ofício em Portugal. Oficializava-se o ódio contra os "hereges seguidores de Moisés". A legislação baixada pelo inquisidor-geral, cardeal d. Henrique, em 1572, apertou ainda mais o cerco, incentivando o aparecimento da figura do dedo-duro: quem tinha conhecimento da conduta irregular de alguém e não o denunciava era considerado tão culpado quanto ele. As delações vinham em cascata. As listas de livros proibidos enchiam páginas e páginas, a um alto custo para a cultura.

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"A censura inquisitorial não só aniquilou a tradição humanística do nosso Renascimento, e cortou a comunicação de Portugal com a cultura européia, mas ainda desanimou e esterilizou (...) a criação literária e científica", diz o historiador português Antônio José Saraiva. O poeta Antônio Ferreira (1528-1569) se lamentava a certa altura, dando o tom da época: Em medo vivo, em medo escrevo e falo,/ tenho medo de falar comigo mesmo,/ até em medo penso e em medo calo. Nem nomes consagrados como o dramaturgo Gil Vicente e o poeta Luís de Camões estavam livres de suspeitas. Foi nessa época que ocorreu a primeira "visita" ao Brasil.

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Heitor Furtado de Mendonça, ex-desembargador real e ex-capelão do rei, já passara por 16 investigações de limpeza de sangue para comprovar sua condição de católico puro, autêntico cristão-velho. Desembarcou na Bahia em junho de 1591. Sua missão não era apenas descobrir marranos. A Igreja estava interessada também em punir os envolvidos em crimes de bigamia, poligamia, adultério, sodomia e bestialismo (sexo com animais).

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Em setembro de 1593, Mendonça se transferiu para Pernambuco, Itamaracá e Paraíba. Não teve tempo de ir para o Sul: em fevereiro de 1595, a visitação foi interrompida e o inquisidor chamado de volta a Lisboa. Ele exorbitara de suas funções. Prendia gente sem motivo, processava réus que deveriam ser julgados na metrópole (o Brasil, sem tribunal do Santo Ofício, estava subordinado ao de Lisboa), liberava pessoas com forte presunção de culpa e sentenciava outras que tudo indicava serem inocentes.

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D. João IV - primeiro rei português depois do término do domínio espanhol, em 1640 - afrouxou as rédeas do Santo Ofício e provocou a ira da Igreja. Resultado: foi excomungado depois de morto, em 1657, e os julgamentos e autos-de-fé retornaram em grande estilo. Na primeira metade do século XVIII, cresceu o número de padres e freiras julgados por heresia. D. José I assumiu o trono em 1750 e nomeou primeiro-ministro o marquês de Pombal, velho inimigo dos jesuítas. A Inquisição ainda arreganhava os dentes, perseguindo gente como o escritor Francisco Manuel do Nascimento e o poeta Bocage, mas Pombal pouco a pouco lhe tirou a força. O último "relaxado" - condenado entregue à justiça comum para ser executado - é de 1767.

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Os invasores franceses, para ganhar o apoio do povo, suspenderam o Santo Ofício em Portugal em 1808. O Governo o enterrou definitivamente em 1821, com a população de Lisboa, em festa, pondo abaixo o edifício do tribunal, no Rossio. Comemorava-se o fim de uma das mais brutais instituições da História, que em 285 anos de eficiente atuação em Portugal processou centenas de milhares, torturou dezenas de milhares e queimou ou garroteou mais de duas mil pessoas.

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No Brasil, ao longo dos quase 200 anos de atuação da Inquisição, 400 pessoas foram condenadas a penas variadas - 21 foram queimadas ou garroteadas, entre elas o autor teatral Antônio José da Silva, cuja história foi contada pelo jornalista Alberto Dines no livro "Vínculos do fogo".

Célia Tavares. Jesuítas e inquisidores em Goa


Revista Brasileira de História

Print ISSN 0102-0188

Rev. Bras. Hist. vol.26 no.51 São Paulo Jan./June 2006

doi: 10.1590/S0102-01882006000100014

RESENHAS

Célia Tavares. Jesuítas e inquisidores em Goa

José Eduardo Franco

Centro Faces de Eva – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa

Lisboa: Roma Editora, 2004, 298p.

Em torno da complexa problemática da Inquisição moderna no quadro da história cristã ocidental paira um amontoado de noções, visões, imagens, umas distorcidas, outras ambíguas, a maioria delas hipertrofiadas. Estas percepções resultam de ilações simplistas, de associações temáticas e institucionais imprecisas, e ainda de muitos juízos que desconsideram o contexto mental do tempo histórico em que emergiu e vigorou o Santo Ofício como máquina judicial poderosa ao serviço da Igreja e dos poderes políticos que exigiram e subvencionaram a sua erecção.

Entre essas visões cristalizadas e "pré-conceitos" acríticos podemos recordar alguns dos mais recorrentes que não são mais do que o produto de intensivos tempos de propaganda e polémicas que teceram uma "lenda negra" do Santo Ofício e de instituições que colaboram ou conviveram com este tribunal. Essa marcante cultura de propaganda e polémica deu origem a avaliações desfasadas na integração e valorização da Inquisição naquilo que podemos chamar a história universal da repressão.

Eis algumas dessas hiper-focalizações. A exagerada concentração dos juízos em torno dos tribunais da Inquisição ibéricos como sendo muito mais temíveis, violentos e repressivos do que os seus pares de outros países católicos europeus, visão apriorística que tornou os outros tribunais aparentemente mais benignos e mais inofensivos. A excessiva valorização dos tribunais do Santo Ofício como as instituições judiciais que mais usavam de métodos repressivos violentos e atrozes, esquecendo-se que no mesmo período histórico as instituições judiciais do Estado usavam paralelamente de práticas e métodos repressivos tanto ou mais injustos e esmagadores. E ainda a hiper-focalização da atenção crítica nas formas institucionais de Inquisição católica, sonegando-se ou obnubilando-se que nas sociedades protestantes e em sociedades e culturas estruturadas por outros sistemas religiosos também coexistiram e se desenvolveram, naquela mesma época, sistemas e formas de controlo com semelhante grau de vigilância repressiva.

Além destas percepções simplificadas e hiper-focalizadas nos Tribunais da Inquisição católicos, sedimentou-se uma visão mitificada que merece especial menção no quadro da apresentação deste livro. A associação íntima entre Inquisição e a Companhia de Jesus, ou se quisermos, a ideia da jesuitização da Inquisição. Ou seja, a tese de que sempre existiu uma cumplicidade plena entre os Jesuítas e a Inquisição, uma aliança terrível para a ruína do país, para opressão do povo e para o retrocesso do Estado. Esta ideia foi desenvolvida em Portugal pela literatura antijesuítica produzida sob os auspícios do marquês de Pombal e, em particular, ficou bem patente no novo regimento pombalino da Inquisição publicado em 1774, o qual se apresentava como o antídoto desse jesuitismo inquisitorial.1 Essa visão do jesuitismo inquisitorial foi muito reproduzida e propalada pela propaganda antijesuítica ao longo do século XIX e primeiras décadas do século XX. Os Padres da Companhia eram vistos como os mais impiedosos conspiradores contra as liberdades do povo, sendo a sua Companhia uma máquina de guerra lançada contra a nação portuguesa, tendo sido a Inquisição uma criação sua (um decalque judicial da estrutura da Ordem de Loyola). A Companhia de Jesus a teria imposto ao país, e no país se desenvolveu e perdurou sob o controlo férreo da Ordem de Loyola.2

Especialmente a Inquisição atrai com um magnetismo extraordinário, como nenhuma outra instituição, a projecção dos nossos juízos mais recriminadores. No seu repúdio não deixamos de projectar, como que se de uma deflagração do inconsciente se tratasse, os nossos medos e angústias. Nela projectamos o receio bem nosso do regresso dos tempos da tirania, da repressão social, da ausência de liberdade enquanto valor mais caro ao ser humano, o que mais o realiza e o que mais o torna autêntico.

A emergência da Inquisição Moderna, com todo o seu aparato repressivo e a sua ambição omni-controladora desde as práticas sócio-culturais e comportamentais externas até ao fundo mais secreto das consciências, pode ser entendida como uma reacção exacerbada e violenta à fractura crescente que se começou a operar na modernidade entre a esfera espiritual e a esfera secular temporal. As instâncias estruturantes e garantes do regime político-social e mental de Cristandade impuseram um organismo de controlo para fazer face às consequências da ameaça real da perda progressiva do poder unificador do religioso que tudo tecia — as atitudes, os pensamentos, os valores, as opiniões, os afectos — sob um mesmo horizonte de sentido.3

Pensamos ser fundamental reflectir a expansão dos tribunais da Inquisição como reacção poderosa a uma revolução de mundividências que a modernidade trouxe consigo como ponto de chegada de um longo período de gestação medieval da reflexão sobre o homem, o cosmos, a deriva da história e sobre a própria Igreja e o seu julgamento enquanto herdeira (fiel ou infiel) do legado de Cristo. A valorização antropologizante do indivíduo e das suas possibilidades e faculdades de iniciativa e de pensamento, a construção (proporcionada pelas viagens marítimas dos portugueses e espanhóis) da ideia de universalidade e da complexa diversidade cultural, étnica e religiosa do mundo, e paralelamente a agudização de uma consciência histórica teleológica de matriz apocalíptica acentuaram e hegemonizaram a posição dos sectores que alimentavam a tentação uniformizadora de um sistema de ortodoxia doutrinal que o catolicismo da Contra-Reforma enfatizou até ao extremo da intolerância mais anticristã que alguma vez se conheceu na História da Igreja.

Por outro lado, o projecto de constituição de uma instituição judicial com carácter centralizado foi muito desejado por alguns príncipes católicos. Em particular, destacaram-se neste processo os monarcas das coroas ibéricas da época em que curiosamente prosperava o Renascimento e o Humanismo. Esses movimentos culturais que abriram as portas do mundo moderno suscitaram da parte dos "profetas" do puritanismo e da ortodoxia mais vigilante a crítica ao paganismo que teria tomado conta de alguns dos mais destacados produtores culturais dentro da própria cristandade, muitas vezes a expensas dos próprios príncipes eclesiásticos, seus mecenas. Essa onda de "paganização" que invadia os próprios antros da Igreja significou para muitos o prelúdio da vinda do Anticristo e a aceleração do epílogo desastroso da própria história que seria coroada com um severo juízo final, como asseveravam as profecias antigas.

Só na complexidade sócio-mental do dealbar da modernidade é que se pode entender plenamente as razões de fundo que levaram à montagem de um tribunal dessa natureza e dessa dimensão. No fundo, a criação de um tribunal desse género no seio da cristandade moderna traduz a dificuldade dessa mesma cristandade em lidar com a emergência cada vez mais palpável, diversificada e concorrencial do Diferente, quer o Diferente interno (judeus, protestantes, esotéricos...), quer o diferente que se apresentava nos limites das suas fronteiras (gentios, infiéis...).4 Essa "perigosa" aparição e afirmação do Outro, enquanto radicalmente diferente do Nós, como colectividade grupal, étnica, cultural, religiosa ou doutrinal fez tremer a cristandade de tradição medieval que ficou possuída pelo medo de que o seu edifício sócio-religioso e mental fosse seriamente corroído. A Inquisição é a face mais agressiva e violenta desse medo.

No que a Portugal diz respeito, o empenho diplomático de D. João III e dos seus sucessores, à semelhança do que tinham feito os vizinhos reis católicos de Espanha, conseguiu que fosse instalado e subsidiado no país e no ultramar, com a legitimação suprema do poder papal através de bulas, breves e privilégios de vária ordem, a imensa rede de vigilância activa do Tribunal do Santo Ofício e dos seus tentáculos com uma eficácia repressiva sem par na história deste reino. O projecto bem-sucedido de imposição dessa instituição judicial sobre as instituições e forças vivas seculares e religiosas do país não deixou de transportar consigo, para além do desejo de "purificação" doutrinal e moral, o desiderato íntimo de o emergente Estado moderno português possuir uma instância de controlo da consciência colectiva para serviço de um ideário centralizador do poder monárquico que pretendia reforçar-se perante os outros pólos de poder.

De facto, o controlo social, mental, comportamental generalizado através da montagem de uma teia de medo por toda a monarquia, embora sustentada sobre pilares de ordem teológica, não deixou, por isso, de servir de algum modo o ideário centralista monárquico, que assim passou a usufruir de um poderoso instrumento de regulação das formas de pensar, de agir, de manifestar-se publicamente... Também aqui a questão económica não foi uma questão de somenos importância. A prática do confisco de bens permitiu a transferência de capital de bolsos dos investidores e produtores de riqueza para elites de poder tradicionais e para a própria instituição estatal que passavam por dificuldades de adaptação numa época de revolução das fontes clássicas de enriquecimento.5 Da Inquisição, o Estado centralizado moderno e a elite que o sustentava tiraram benefícios em termos de controlo do capital crítico e do capital a ele inerente de desestabilização social, favorecendo a sedimentação de um comportamento colectivo domesticado através de uma implacável pedagogia do medo que veio substituir a genuína pedagogia evangélica da misericórdia como denunciava na cara e na casa do Santo Ofício de Lisboa, Fernando Oliveira (c.1507-c.1582), uma das figuras mais notáveis e originais do humanismo português.6

A realidade histórica é sempre mais complexa do que aquilo que a fazem as simplificações muitas vezes maniqueístas dos nossos juízos. E quando da Inquisição e dos Jesuítas se trata, tanto mais vasta e impetuosa é a tentação simplificante das nossas conclusões.

Mas acima de tudo, o terreno historiográfico do estudo das questões inerentes ao Tribunal do Santo Ofício é aquele em que as análises mais podem correr o risco de serem enfermadas pela paixão do historiador de hoje e pelas marcas da sua mundividência, isto é, do seu horizonte mental e ideológico. Trata-se, com efeito, de um terreno altamente movediço.

A complexidade da análise da problemática que representa a história da Inquisição deve considerar como tarefa crítica preliminar a integração da configuração institucional desse tribunal e da compreensão da sua larga base de apoio sociológico no contexto e na mentalidade do tempo e da sua avaliação no quadro da história comparada das instituições. O esforço de interrogação e de complexificação que o conhecimento histórico exige para abrir horizontes mais largos de compreensão não nos deve impedir, todavia, como pessoas do século XXI, de repudiar e de lamentar a desumanidade que semelhantes instituições promoveram. Mas ficar por aí e não procurar o distanciamento que se exige para fazer uma história complexizante, é acrescentar pouco à construção do conhecimento histórico que deve ser "esse conhecimento das sociedades vivas, nunca o seu julgamento e enquadramento doutrinário".7

A história é um campo de conhecimento sempre em construção. Para tal urge perfilar cada vez mais corajosamente uma história aberta capaz de integrar e usufruir sem preconceitos dos contributos de outras áreas de conhecimento que possam levá-la mais longe na percepção do homem e do seu percurso através do tempo. A história joga o seu futuro precisamente nesta atitude "ecuménica" de saber aceitar e lidar com os métodos e conteúdo das outras ciências humanas e sociais. Assim a história poderá realizar o sonho de Fernand Braudel que idealizava a disciplina historiográfica como o ponto nodal, o lugar de cruzamento, onde se poderá realizar melhor a síntese interdisciplinar no quadro alargado das ciências do homem.

O historiador é por excelência aquele que deve ter a consciência "antidogmática" de que as suas conclusões são passíveis de serem reformuladas e que os seus juízos são transitórios. A história que ele constrói deve estar sempre aberta a novas abordagens que fazem da historiografia uma realidade dinâmica e aberta. É, por isso, tão actual e tão extraordinária a definição daquela que deve ser a melhor atitude do historiador perante o seu métier e perante os resultados da tecelagem da história estabelecida por Vasco de Magalhães Vilhena há quase cinquenta anos:

Ser historiador, é repudiar a falsa segurança, a certeza tranquila; é nunca renunciar a um íntimo recomeço, jamais desertar da obrigação de um perpétuo reajusto fundamentado que responda a necessidades novas de inteligibilidade. O historiador tem hoje, como nunca tivera até agora, a consciência de não criar para a eternidade ... Só há história do imperfeito, do inacabado, do que tende incansavelmente a superar-se. Na medida em que é possível restituí-lo, o "passado" que é ainda presente, sempre se reconstrói.8

A tese de doutoramento de Célia Cristina Tavares que aqui é publicada na íntegra em forma de livro é exemplar à luz daquilo que se espera de um historiador contemporâneo, sério e aberto ao trabalho interdisciplinar. Ousando abordar um objecto difícil e complexo como a Inquisição de Goa na sua relação de colaboração/conflito com os Jesuítas e com outros actores em presença na construção da sociedade cristã goesa, a historiadora oferece uma abordagem inovadora, mostrando as diferentes faces da problemática em questão e, especialmente procurando desconstruir as visões simplificantes que chegaram até nós. As questões estão bem colocadas e a autora procura dar, de diferentes ângulos de visão, um panorama das instituições em estudo de uma forma arguta e com notável espírito se síntese. Assim, Célia Tavares apresenta-nos vários quadros problemáticos que permitem abrir um novo horizonte de compreensão da cristandade indiana: as diferentes metodologias e modelos pastorais em confronto, as divergências existentes entre as ordens religiosas, as visões exógenas das práticas institucionais e sociais da Inquisição. Procura, de um modo sagaz, analisar a formação da lenda negra do Santo Ofício através de narrativas de viagens, os conflitos entre a Inquisição e a Companhia de Jesus e a colaboração dos Jesuítas com a Inquisição, os conflitos no próprio seio da Inquisição e no seio da própria Ordem de Santo Inácio...

Escrita de uma forma elegante e clara, mas sem descurar o rigor, este livro, apesar de ter sido elaborado para servir de prova de doutoramento, apresenta-se de leitura agradável capaz de encantar um público mais alargado que não só os especialistas na matéria, que muito poderá usufruir com esta síntese bem elaborada e documentada de aspectos importantes da presença portuguesa no Oriente.

A leitura desta obra aguça-nos a consciência de que a verdade histórica é uma verdade sempre em construção,9 uma verdade inacabada que cada geração faz e refaz à luz dos seus quadros epistemológicos e dos seus métodos e interesses científicos próprios.

Ao concluir a leitura deste livro que o leitor agora tem entre mãos fiquei com o sabor estimulante de que "a história permanece paixão, empenho e deslumbramento".10 Por isso, a história enquanto ciência do passado continua com muito futuro.

NOTAS

1 Cf. FRANCO, José Eduardo; ASSUNÇÃO, Paulo de. Metamorfoses de um polvo: religião e política nos regimentos da Inquisição Portuguesa (séculos XVI-XIX). Lisboa, 2004.

2 Para uma desconstrução desta imagem perfeita da cumplicidade entre os Jesuítas e a Inquisição ver FRANCO, José Eduardo. "Jesuítas e Inquisição: cumplicidades e confrontações no Brasil e no Oriente (Sécs. XVI-XVII)", in Relações Luso-Brasileiras. Revista Convergência Lusíada, v.19, 2002, p.220-34; e FRANCO, José Eduardo; VOGEL, Christine. Monita Secreta (Instruções secretas dos Jesuítas): história de um manual conspiracionista. Lisboa: Roma Editora, 2002.

3 Cf. MOURÃO, José Augusto. "Da funesta liga do trono e do altar — A afecção (anti)clerical", in ABREU, Luís Machado de; MIRANDA, António José Ribeiro (Coord.) Actas do colóquio sobre Anticlericalismo Português: história e discurso. Aveiro, Centro de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, 2001. p.27.

4 Ver BETHENCOURT, Francisco. "Rejeições e polémicas", in AZEVEDO, Carlos Moreira (Dir.) História religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000. p.49ss.

5 Cf. TORGAL, Luís Reis. A Inquisição: aparelho repressivo e ideológico do Estado. Separata da Revista Bi