terça-feira, 9 de março de 2010

Manhã de Abril - Joaquim Namorado

Assunto: ALMA LAVADA...
Data: 7/Mar 14:54
QUANDO A CHUVA COMEÇOU A CAIR, FUI PARA A RUA, PARA QUE A ÁGUA ME LAVASSE A ALMA, LEVANDO CONSIGO ESTES RESTOS SOMBRIOS QUE EU NÃO CONSIGO ARRANCAR...É TÃO DOLOROSA A PARTIDA COMO O MAL COM QUE ME FERIRAM...ESTÃO COLADOS,ALGUNS CRIARAM RAÍZES, JULGANDO SEMPRE QUE SERIA AQUI A SUA MORADA...AGORA NÃO QUEREM PARTIR...E EU DE BRAÇOS ABERTOS AO CÉU QUE SOBRE MIM DEIXA CAIR A ÁGUA PURIFICADORA, ME ENTREGO COMO UMA ESTÁTUA ONDE O TEMPO FOI DEIXANDO O VERDETE DOS ANOS...E SINTO...ESTE PEDAÇO DE DÚVIDA QUE AGORA ME ABANDONOU, NUNCA MAIS PENETRARÁ NOS MEUS SONHOS, PERTURBANDO-OS...ENCOLHENDO-OS...JÁ FOI...PARTIU...DÓI A TRAIÇÃO QUANDO É FINALMENTE ARRANCADA...AGARROU-SE BEM COM SUAS GARRAS... PERTURBOU E ACABOU DESTRUINDO A CONFIANÇA QUE TINHA EM ALGUNS AMIGOS...IRMÃOS...NÃO SE RENDE, PROMETENDO VOLTAR...E A CHUVA CONTINUA CAINDO LEVANDO A INDIFERENÇA QUE SEMPRE FICOU Á PORTA, NÃO HAVIA LUGAR PARA ELA...NUNCA A DEIXEI REALMENTE ENTRAR. AS DESILUSÕES, UMAS MAIORES, OUTRAS MERAS PERTURBAÇÕES DE UM DADO MOMENTO, NÃO FIZERAM QUESTÃO, E LÁ FORAM AFOGANDO-SE NA PEQUENA ENXURRADA...NÃO CONSEGUIRAM CRESCER COMO QUERIAM...PARECIAM ATÉ ALIVIADAS POR ABANDONAR UM LUGAR ONDE FORAM SEMPRE REMETIDAS PARA O CANTO MAIS ESCURO. POR FIM SÓ RESTAVA A SAUDADE...GRITOU, ESBRACEJOU, AGARROU-SE AO SONHO MAIS PRÓXIMO, PROMETEU VINGANÇA E VOLTAR NA PRIMEIRA OPORTUNIDADE, VINCOU A SUA IMPORTÂNCIA NA MINHA VIDA - ERA ELA QUE POSSUIA TUDO O QUE DE BOM ME FOI ACONTECENDO...MINHA ALMA FICARIA NUA E DESERTA...SORRI...A CHUVA BATEU MAIS FORTE E A DESCOLOU...LEVOU PARTE DE MIM, É CERTO, MAS TAL COMO ESTOU CERTA QUE O SOL VOLTARÁ DEPOIS DA CHUVA, TAMBÉM SEREI CAPAZ DE IR CONSTRUINDO UMA NOVA VIDA...ONDE A ALEGRIA, A ESPERANÇA, A CRENÇA E, SOBRETUDO, O AMOR, TOMARÃO OS LUGARES QUE A CASCATA MELODIOSA QUE NAS NUVENS NASCEU E DO CÉU FOI ESCORRENDO, LAVOU E ABENÇOOU...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira  (hi5)



MANHÃ DE ABRIL 
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Olho o céu nas poças da rua

que a chuva de ontem deixou,

como pássaros verdes as primeiras folhas

empoleiram-se nos ramos enegrecidos a do inverno

e o sol entorna sobre o casario miserável

uma chuva de falso oiro.

Que raiva me dá...

Foi hoje a enterrar aquela miúda loura

que via brincar na rua

com as tranças apertadas nos laços vermelhos

— morressem antes os velhos

que da vida nada esperam,

já sem amor, já sem esperança,

roídos de chagas e da lepra dos dias.

que não morresse ninguém, vá lá!

mas ela...

levaram-lhe flores os outros meninos da rua,

iam contentes como para uma festa,

e a mãe atrás do caixão chorando,

e as folhas verdes

e as flores nos canteiros e nas janelas

como se florir fosse uma coisa natural e inevitável

e o velho mendigo cego estendendo a mão,

e a gente educada tirando o chapéu por hábito...
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Que raiva me dá a Primavera sobre a dor do Mundo!
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JOAQUIM NAMORADO 
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