terça-feira, 17 de janeiro de 2012

António Sousa Homem ~ O meu casamento com Jenny Whitestone


Correio da Manhã
Em certos aspectos
“Jenny Whitestone apreciava begónias. Eu cultivo hibiscos, lembro alguma fidalguia das giestas amarelas do Minho”
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Por:António Sousa Homem
Talvez eu tivesse, em sonhos, casado com Miss Jenny Whitestone. A impressão é antiga e nebulosa, cheia de recordações literárias. Hoje, quase ninguém sabe quem é Miss Whitestone e, portanto, o meu suposto casamento seria relegado – como convém – àquela clandestinidade que é, na literatura como na vida, a antecâmara da felicidade verdadeira.
A minha sobrinha Maria Luísa, citando certa autora, e ajudada pela sua "deliciosa idade" (aquele período que, nas senhoras, ronda os quarenta anos), acha que a felicidade é "uma espécie de subproduto". Tanta sensatez parece-me obra de desgosto e até a mim me espanta. Na verdade, Miss Whitestone nunca me desiludiu até hoje; o principal motivo é o de a sua figura ser pura criação literária, evidentemente, e só viver nas páginas de ‘Uma Família Inglesa’, de Júlio Dinis, romance que hoje todos esqueceram.
A mim comoveu-me sempre o seu génio britânico e certa bondade portuense; mas falta-lhe, digamos, a tempestade que desperta paixões irresistíveis e descompõe destinos timoratos. Sobre ela, eu tive uma larguíssima vantagem: a de o velho Doutor Homem, meu pai, ser um personagem verdadeiro e admirável, ao contrário da figura de Richard Whitestone, o pai de Jenny e de Carlos. Defeito de Júlio Dinis, que não desenhou – porque não podia – uma figura como a de Craft, o personagem inglês de Eça (em ‘Os Maias’, onde é apresentado com a sua genealogia portuense), que se bateu como voluntário em Marrocos e na Abissínia e é um modelo de virtudes cépticas.
Craft nunca poderia ter casado (a sua descrença no género humano traçou-lhe o destino); Carlos Whitestone, o irmão de Jenny, teria forçosamente de casar (com Cecília, se lerem o romance); e Jenny teria de aguardar por mim. Infelizmente, vivemos em tempos diferentes, mesmo se as minhas irmãs me acusam de pertencer ao século XIX, o que é um gesto de bondade arqueológica.
Maria Luísa, quando lhe contei este projecto antigo (o de, algures, poder ter casado com Jenny Whitestone) franziu o sobrolho e lembrou que os bons casamentos são feitos de pessoas reais. Nada mais verdadeiro. Ela própria, pessoa real, uma mulher que atravessou – com sucesso notável, uma vez que continua a visitar a minha biblioteca – duas ou mais décadas de feminismo, fracturas morais e desafios à espécie, já acumulou dois divórcios.
Jenny Whitestone apreciava begónias. Eu cultivo hibiscos, lembro alguma fidalguia das giestas amarelas do Minho, prolongo a vida das japoneiras do jardim do eremitério de Moledo. É uma aliança natural.

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