terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

leonardo padura - a neblina do passado (excerto) 02


~~~~~~~~~~

Padura, Leonardo – A Neblina do Passado

 (…) Sentindo como o coração se lhe acelerava, Conde abriu o primeiro dos livros e depois de ler o lema que aconselhava «Labore et tsntstuntin», deixou desfilar diante dos olhos as gravuras coloridas à mão, que reproduziam com tanta precisão as figuras de alguns peixes que dava a impressão de que tinham sido fotografados, acabados de tirar dos mares tropicais, húmidos ainda Mas a ansiedade espicaçava-o e pôs-se imediatamente a folhear o outro volume, um álbum pesado de uns quarenta e cinco por trinta centímetros, e diante das pupilas deslumbradas dos compradores sucederam-se as litografias de um porto com vários veleiros atracados, um vale semeado de cana-de-açúcar, uma paisagem campestre captada em todos os seus pormenores e várias vistas de engenhos açucareiros em plena faina. Conde acariciou com a maior delicadeza a pesada cartolina sobre a qual estava gravada a imagem idílica e orgulhosa do engenho La Flor de Cuba, e fechou o volume, levantando-se e apoiando-se desajeitadamente nas traves da estante, com os dois livros contra o peito, como se quisesse protegê-los dos perigos infinitos do mundo.

- Estes são duas jóias. Não têm preço. Não têm comparação - conseguiu dizer, sentindo a língua presa, pensando que adjectivos podia atribuir àquelas maravilhas inestimáveis da impressão cubana. - A este toda a gente chama «o livro dos peixes», mas o seu verdadeiro título é - abriu a capa e leu o frontispício - Descripción de diferentes piezas de historia natural las más dei ramo marítimo representadas en 75 láminas. É o primeiro livro importante impresso em Cuba ... foi feito em 1787 ... E este outro, está a ver, chama-se Los ingenios, a impressão é de 1857, deve ter vinte e oito gravuras de Eduardo Laplante e é um dos mais belos livros feitos no mundo. Nem é preciso dizer que são os dois livros mais valiosos que se imprimiram em Cuba.

- O que significa valioso? - Os nervos denunciavam Dionisio, cuja voz marcial se quebrou ao fazer a pergunta.
- Significa que podem valer uma fortuna... - a emoção de Conde não diminuía, a secura da boca aumentava, como se tivesse sido possuído por uma febre fulminante. - Se não lhes faltar nenhuma gravura, creio que a própria Biblioteca Nacional seria capaz de cavar até encontrar dinheiro para os comprar ... Estamos a falar de mais de dez mil dólares por cada um, de mais, de mais

 Dionisio Ferrero empalideceu.

- Isso não é possível - afirmou, convencido de que Conde entrara em desvario. - Nunca os tinha tido nas mãos. - Conde tinha-se esqueci de Dionisio e, sem os afastar do peito, acariciava a pele dos livros- Se Cristóbal os pudesse ver ...

- Cristóbal? - Dionisio parecia cada vez mais alterado, definitivamente incapaz de compreender o acontecimento inesperado que sucedia diante dele. - Quem é Cristóbal?

- Mas como diabo esse negro coxo filho de uma puta que o pariu se dirigiu directamente para estes livros? - Perguntou Yoyi, alterado, quase gritando um assombro cada vez mais carregado de maus pressentimentos.         .

- Demasiada coincidência - admitiu Conde, levando finalmente os livros para a estante que haviam escolhido para colocar os exemplares a que tinham atribuído a categoria de invendáveis. - Demasiada coincidência - repetiu e acariciou novamente as grossas lombadas dos dois volumes, num gesto de amorosa despedida, tratando de sacudir as sensações que o martirizavam. - Bom, Yoyi, vamos trabalhar, não se dê o caso de esse homem nos ganhar a fraternal emulação socialista, não achas?

Até se ter transformado num predador profissional de livros, decidido a alimentar-se deles também fisicamente, Mario Conde tivera uma relação respeitosa, quase mística, com as bibliotecas. Embora no bairro, demasiado esquentado e brigão onde tinha nascido não existisse naquele tempo uma única biblioteca particular com mais de vinte volumes, a sorte quis que na sua própria casa houvesse uma dúzia de livros - todos da sua mãe, porque o seu pai, tal como o seu avô Rufino, o Conde, nunca parou para abrir um livro em toda a sua vida -, chegados até ali pelas vias mais diversas, e acomodados, com orgulhosa proeminência, como se alguém suspeitasse que aqueles objectos tinham algum valor, numa extremidade da prateleira do aparador, junto da fotografia do casamento dos seus pais, de um relógio de porcelana vienense e de uma pequena floreira art-nouveau. Ao longo da sua adolescência, Conde foi lendo distraidamente aqueles livros - dois volumes de colecções dasSelecções do Reader's Digest, o lacrimoso e para ele detestável Coração, de Edmunclo de Amicis, uma das de Sandokan e, sobretudo,  Huckleberry Finn, numa edição barata que se estava a desfazer - e sentiu como despertava nele um tímido fervor por aquele acto, tão extraordinário para um membro da sua família e para um habitante do seu bairro, muito pouco dados, regra geral, a inclinações tão passivas. Mesmo quando Conde preferia gastar os seus dias em jogos de baseball, a fazer travessuras pelas ruas e a roubar mangas, a sua curiosidade inata fê-lo dar o primeiro passo firme em direcção à bibliofilia quando, depois de Ier em êxtase emocional O Conde de Monte Cristo, quis saber o destino final de Edmundo e Mercedes e saiu à caça do segundo acto daquela aventura fabulosa, encontrando um Dumas decepcionante, quase cruel, que no romance A Mão do Finado destruía a felicidade pela qual tanto tinham lutado o generoso Dantes e a sua amada Mercedes. Dois anos mais tarde, já matriculado no pré-universitário, a curiosidade viera novamente em sua ajuda, embora nessa ocasião de uma forma definitiva. Depois de ler, como leitura obrigatória para as aulas, uma adaptação ridícula da Ilíada, Conde tinha ido bem fornecida biblioteca do velho instituto de La Víbora à procura de uma edição completa do poema homérico e, já intrigado pelo destino daqueles guerreiros, procurou algumas respostas na Odisseia. De uma forma natural, quase de pára-quedas, penetrou num beco sem saída quando quis saber o destino dos restantes heróis gregos e Cristóbal, o velho bibliotecário a quem faltava uma perna o incentivou a ler a Eneida, primeiro, e outras sagas dos heróis aqueus, depois. A relação com Cristóbal, o Coxo, como era conhecido por todos dos no Pre, foi um dos encontros decisivos na vida de Mario Conde de, que não só se tornou leitor voraz e obediente, daqueles capnz de terminar qualquer livro iniciado - pôde superar Os Miseráveise até A Montanha Mágica -, como começou a amar os livros e as bibliotecas da mesma maneira que os crentes adoram os seus templos: como sítios sagrados, onde não é admitida a profanação com risco da condenação eterna.

Além de lhe fornecer livros e de o orientar nas leituras, Cristóbal foi o primeiro a descobrir que o rapaz tinha uma sensibilidade latente e animou-o a tentar a sorte com a escrita. Mario Conde,   desde sempre possuidor de um sólido conhecimento das suas muitas limitações e de um enorme receio do ridículo, pôs essa ideia de parte, mas não pôde evitar que uma, semente ficasse escondida em qualquer lugar da sua consciência, preparada para germinar. Enquanto isso, aprofundou a sua relação com os livros e, graças ao velho bibliotecário, familiarizou-se com a valiosa bibliografia cubana do século XIX e da primeira metade do século xx e começou a valorizar os livros não só pelo seu conteúdo, mas pelo seu aspecto, muitas vezes pouco cuidado, a sua idade e origem.

Um dos objectivos mais firmes de Cristóbal foi aproximar o jovem de uma parte da literatura cubana que ia ficando oculta pelas novas tendências estéticas e políticas. Por isso fê-lo ler os autores malditos ou amaldiçoados, inomináveis naquela década árida dos anos  setenta, escritores de quem Conde só ouviria falar publicamente muitos anos depois. Para abrir a porta daquele mundo excluído, Cristóbal tinha escolhido Lino Novás Calvo e Carlos Montenegro, com os quais calculara - acertadamente - que o jovem poderia estabelecer uma comunicação rápida, graças às suas histórias de negreiros, biltres e presidiários. Mais tarde vieram l.abrador Ruiz, Lydia Cabrera e Enrique Serpa, para depois o lançar aos mundos cáusticos de Virgilio Pifiera, naquele tempo condenado ao silêncio mais esmagador que a morte surpreenderia. De lodos aqueles escritores lidos aos dezasseis, dezassete anos, Conde colheu um olhar complexo do seu passado, do passado de todos os habitantes da ilha, e intuiu que o mundo podia 'ser de cores muito diversas e que as verdades podiam ser mais complexas do que oficialmente pareciam. Mario Conde, que na sua selvática juventude tinha cometido os mais diversos desatinos - roubar comida nos acampamentos de rnna-de-açúcar para onde eram enviados durante os vários meses da safra, beneficiar dos exames divulgados pela própria direcção do Pre e que lhes garantiam classificações altas, fazer batota nos pagamentos na geladaria próxima do instituto, surripiar livros da livraria La Polilla, nunca se atreveu a levar com intuitos pessoais um só livro da biblioteca do Pre, apesar de Cristóbal ter estabelecido a improvável excepção de o deixar entrar no depósito de livros para que farejasse à sua vontade e escolhesse as suas leituras. A convicção de que o mundo podia ser um campo de batalha mas que uma biblioteca era um terreno colectivo de neutralidade inviolável, enraizou-se no seuI espírito como um dos proveitos mais benéficos da sua vida, uma noção com a qual, chegada a Crise, teria de negociar para sobreviver, como outros tantos tiveram de fazer com as suas lembranças e até com a sua dignidade.

Apesar dos anos investidos no ofício da compra e venda, Conde sentia sempre um certo mal-estar quando desempenhava o papel de predador de bibliotecas e, por princípio, decidiu não comprar nenhum livro carimbado, que revelasse a sua origem de objecto público. Mas em todo o tempo dedicado àqueles assuntos mercantis, nunca experimentara uma sensação de acto profanador tão evidente como o que estava a provocar-lhe a biblioteca dos Montes de Oca. Talvez o facto de saber que, por mais de quatro décadas de furacão revolucionário, aquele tesouro se tinha mantido indemne - justamente até à sua chegada àquele local, como oferenda de uma promessa imutável, contribuísse para a existência daquela sensação incómoda. Saber que três gerações de uma família cubana tinham dedicado dinheiro e esforços à aquisição maravilhosa daqueles cinco mil volumes, vindos de meio mundo para ocupar um lugar naquelas estantes imunes à humidade e ao pó, revelava-se-Ihe um acto de amor que ele agora destruía sem piedade. O mais doloroso, no entanto, era a certeza de que a profanação vinha de mão dada com o caos e o caos muitas vezes pode levar ao desmoronamento dos sistemas mais sólidos. Com a sua presença não estava a cumprir-se justamente essa equação? Alguma coisa sagrada estava a ser alterada pelas suas mãos e interesses económicos e Conde pressentia que a sua acção provocaria uma reacção, ainda inimaginável, mas cuja efectivação devia esperar de um momento para outro.

Foi numa daquelas tardes preguiçosas em que o jovem Conde se refugiara com um livro no canto mais isolado e fresco da biblioteca do Pre de La Víbora, que Cristóbal, o Coxo, apoiado nas suas muletas, o interrompeu com o pretexto de partilhar um cigarro com o seu discípulo. Mario Conde nunca esqueceria, durante o resto da sua vida, de como a conversa, inicialmente irrelevante, de repente mudara de tom quando Cristóbal começou a falar-lhe do futuro incerto daquela biblioteca. A data da sua reforma já tinha sido largamente ultrapassada e, a dada altura, uma altura cada vez mais próxima, teria de se ir embora com as suas muletas e com o seu amor pelos livros, para outro lado, talvez para a tumba. A grande preocupação do velhote era o destino que seria dado a alguns livros que ele tinha conservado e defendido durante quase trinta anos, livros que, tinha a certeza, ninguém cuidaria e amaria como ele.

- Cada um dos livros que estão ali atrás - e apontou para o depósito ao fundo - tem a sua alma, tem a sua vida, tem parte da alma e da vida dos rapazes que, tal como tu, passaram por esta biblioteca e os leram durante estes trinta anos ... Classifiquei cada um deles, coloquei-os no lugar, limpei-os, cosi-os e colei-os cada vez que foi necessário ... Condesito, eu vi muitas loucuras nos meus anos de vida. O que lhes vai acontecer? Tu terminas este ano e vais-te embora daqui. Eu reformo-me ou morro, mas também saio. Os livros vão ficar entregues à sua sorte. Espero que o próximo bibliotecário os ame como eu. Seria uma desgraça se não o fizesse. Cada livro, qualquer um, é insubstituível, cada um tem uma palavra, uma frase, uma ideia que espera pelo seu leitor. - Cristóbal apagou o cigarro, pôs-se de pé, apoiando-se à mesa e colocando uma das muletas debaixo do braço. - Vou lanchar qualquer coisa. Cuida da biblioteca ... Antes que eu regresse, vai lá atrás e escolhe os livros que te fizerem falta ou de que mais gostes. Leva--os, salva-os, mas cuida deles.

Espantado com aquela proposta, Conde viu Cristóbal sair, balançando o seu corpo sobre os apoios de madeira. Meia hora depois, quando o velhote regressou, continuava no mesmo sítio, com o livro que tinha nas mãos.

- Porque não me deste atenção? - quis saber o bibliotecário.

- Não sei, Cristóbal, não consigo ...

- Acabarás por lamentar ...

Passados quinze anos, quando o tenente investigador Mario Conde entrou novamente noPre de La Víbora, solicitado pelo assassinato de uma jovem professora de Química, uma das primeiras visitas que efectuou foi à anteriormente belíssima biblioteca onde Cristóbal o incitara a ler Virgílio, Sófocles, Eurípedes, Novás Calvo, Pifiera e Carpentier. Para sua tristeza eterna, o antigo estudante compreendeu que as previsões de Cristóbal, o Coxo, tinham sido ultrapassadas pela realidade. Poucos livros, maltratados e moribundos, colocados de qualquer maneira, cabeceavam entre os espaços vazios das estantes antes repletas, de onde tinham voado gregos e latinos, dramaturgos ingleses e poetas italianos, cronistas das índias. historiadores e romancistas cubanos. A depredação tinha sido sistemática. impiedosa e, ao que parece, ninguém pagara por aquela acção afrontosa. Conde pensou então que Cristóbal, o Coxo, na sua campa escura, deve ter sentido nos ossos as chicotadas de uma profanação aleivosa, capaz de destruir a melhor obra da sua pobre vida de bibliotecário mutilado, amante dos seus preciosos livros.

A colheita daquela tarde valeu o sacrifício de Yoyi Conde terem prescindido do almoço, sobrepondo-se aos gritos de angústia dos seus estômagos, exigentes de mais trigo para triturar. Levados pelo receio de intrusões definitivamente indesejáveis,  conseguiram que uma terça parte da biblioteca ficasse revista e foram duzentos e sessenta e três os livros de alta cotização que levaram imediatamente da casa dos Ferrero, que, além de receberem os quatrocentos e trinta e seis dólares e os mil e trezentos pesos que Ihes deviam os compradores, estremeceram ao ouvir a soma de vinte oito mil e quatrocentos pesos que agora lhes deviam, e da que receberam seis mil que Yoyi trazia consigo. Enquanto isso, Conde e o seu sócio decidiram criar com os livros menos desejados em primeira instância um terceiro fundo, com volumes certamente vendáveis mas a preços modestos, um fundo avultado de emergência de quase quinhentos livros, destinados a uma segunda etapa da compra e venda. Ao mesmo tempo, na secção dos «invendáveis”, além dos dois livros ilustrados que tanto agitaram a sensibilidade de Conde, foram colocados vários tomos, incluindo uma extraordinária edição mexicana de 1716 das poesias de soror Juana Inés de la Cruz; o sempre perseguido e cotadÍssimo Isla de Cuba, ilustrado com trinta brilhantes gravuras de Federico Mialhe Grenier, impresso em Havana, em 1848; um exemplar de Aves de la Isla de Cuba, de juan Lembelle, datado em Havana em 1850; a sempre procurada primeira edição, nova-iorquina e de 1891, dos Versos sencillos, de Martí, valorizada pela assinatura do Apóstolo com dedicatória «ao compatriota e irmão SerafÍn Montes de Oca, o bom», e os dois tomos - dos quais Conde se afastou com uma mágoa particular - da rarÍssima e perseguida edição das Poesías dei ciudadano José María Heredia, estampada em Toluca em 1832, a qual, apesar de ser apresentada como segunda edição corrigida e aumentada, era avaliada pelos entendidos como uma primeira edição do clássico cubano, porque superava imprecisões e acrescentava poemas importantes,  excluídos da edição original nova-iorquina ele 1825.

A satisfação provocada pelo negócio fabuloso acabado de concluí não pôde apagar, no entanto, a preocupação de Yoyi relativamente à presença alarmante naquela mina de livros de um comprador dotado de um perigoso radar capaz de o conduzir na direcção dos tesouros mais perseguidos da bibliografia cubana, nem silenciar a ressonância malévola da história de Silvano Quintero nos ouvidos de Mario Conde que, depois de concluir o acordo mercantil  com Pombo - que o abarrotou com tantos milhares de pesos como nunca vira na vida - preferiu refugiar-se na solidão da sua casa, necessitado de tempo e de espaço para meditar.

Padura, Leonardo – A Neblina do Passado, Ed Asa, Lxa 2008 
Gosto ·  · 

Sem comentários: