terça-feira, 2 de agosto de 2016

António Bagão Félix . a narrativa

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2 de Agosto de 2016, 13:34

Por


A narrativa

D
e tempos em tempos, o modismo lexical faz-nos deparar, em qualquer esquina de comunicação escrita ou oral, com uma palavra antes ignorada ou esquecida. Não falo de neologismos que, aportuguesados ou inglesados, nos surgem amiúde, nem do modo sincopado do “siglês” que também fez e faz o seu percurso. Falo, antes, de palavras quase subitamente acordadas de longa letargia ou de esparso e comedido uso.

Assim foi, há anos, com o adjectivo incontornável, que tão incontornável aparecia que quase não se podia contornar. Com o tempo foi minguando e hoje, pelos vistos, já nada é incontornável.
Já no âmbito do “economês”, o vocábulo descontado foi reabilitado, não em termos do valor pago a menos em saldos, mas para se usar, com ar tecnocrático, como uma poderosa arma de previsão económica a posteriori para um efeito ou acção já concretizados.
Outro exemplo mais recente é o uso do verbo demandar (fora do contexto jurídico) como sinónimo de procurar, reclamar ou requerer. Um galicismo que se tornou algo elitista, pois cativa mais a erudição dizer que “este problema demanda atenção” do que dizer que “requer atenção”.
Fiz esta breve introdução para eleger uma das mais recentes palavras da moda linguística: narrativa, seja por que motivo for. Antes usada com parcimónia no domínio técnico dos géneros literários, eis que foi exponenciada após a pletora de “narrativas” que José Sócrates usou para narrar a jorros numa entrevista televisiva.
Vai daí, a narrativa (oral) anda por todo o lado. Transformou-se numa espécie de genérico, que se usa por dá cá aquela palha. Ela é exposição, raciocínio, relato, narração, enredo, conto, novela, prosa, récita, história, “estória”, conversa, sonho, paleio, imaginação, aconselhamento, intriga. De toda a narrativa que vamos ouvindo, há um género que, nestes tempos conturbados e de expansão de redes sociais, vai fazendo escola e, por regra, traz água no bico: a narrada ou inventada pelo narrador.
A narrativa está, como substantivo, para implementar, como verbo. Dão para quase tudo e, assim sendo, também dão para nada significar.
E por aqui me fico na brevíssima narrativa sobre a narrativa.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/08/02/a-narrativa/

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