terça-feira, 26 de maio de 2026

Há sempre personagens inevitáveis nestas reuniões políticas improvisadas da internet portuguesa.

* canal #moritz

2026 05 26
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Há sempre personagens inevitáveis nestas reuniões políticas improvisadas da internet portuguesa. Não importa se a conversa começa sobre salários, guerra, imigração ou o preço da electricidade. Ao fim de dez minutos aparecem sempre os mesmos arquétipos políticos, carregados de certezas absolutas, contradições épicas e uma impressionante capacidade para dizer tudo e o seu contrário sem pestanejar.

A primeira a entrar costuma ser a , socialista de televisão, europeísta de ocasião e anti-comunista preventivamente nervosa. É daquelas pessoas que conseguem, na mesma frase, elogiar o Estado Social, defender o PS, citar valores de Abril e terminar a pedir “responsabilidade dos mercados”. Para ela, o capitalismo americano é profundamente injusto, mas ao mesmo tempo representa “a democracia liberal que nos protege”. A União Soviética acabou há décadas, mas a dona Matilde continua a falar dos soviéticos como quem espera uma invasão anfibia em Peniche.

Depois aparece o inevitável , representante da esquerda domesticada, higienizada e compatível com painéis televisivos patrocinados por bancos. O Luís apresenta-se como homem do Bloco de Esquerda, progressista, defensor de causas sociais e especialista em indignação selectiva. Revolta-se contra tudo o que não coloque verdadeiramente em causa o sistema económico. Fala muito de linguagem inclusiva, diversidade e empatia, mas quando a conversa chega a imperialismo, NATO, grandes grupos económicos ou concentração de riqueza, entra imediatamente em modo nevoeiro ideológico:

 “A questão é complexa.”
Complexa, neste caso, significa:
 “Tenho medo de dizer algo que me retire convites para debates televisivos.”

O curioso é que esta pseudo-esquerda vive obcecada em parecer “responsável” perante o mesmo sistema que diz combater. Quer fazer revolução, mas sem incomodar acionistas. Quer combater desigualdades, mas sem tocar nos lucros. Quer defender trabalhadores, mas sem assustar comentadores da SIC Notícias.
E claro, nenhuma reunião estaria completa sem a lendária , patriota profissional do sofá, inimiga mortal dos imigrantes — excepto daqueles que lhe fazem os trabalhos todos que ela nunca quis fazer. A dona Rebola Caixotes passa a vida a repetir que “os estrangeiros vêm roubar empregos aos portugueses”, embora ela própria nunca tenha mostrado grande interesse em trabalhar. Defende valores tradicionais, acha que a mulher deve ficar em casa e acredita que o país está a ser destruído por gente de fora. No entanto, o jardineiro é imigrante, o estafeta é imigrante, o homem das obras é imigrante e provavelmente até o técnico da internet que lhe permite espalhar teorias absurdas no Facebook também é imigrante.

Mas esses não contam.

Porque no imaginário dela existem sempre dois tipos de estrangeiros:
* os “bons”, que trabalham barato e em silêncio;
* e os “maus”, inventados diariamente por páginas de propaganda e vídeos alarmistas.

No meio deste circo ideológico sobra apenas o , que apesar das minis e da linguagem caótica, por vezes é o único que percebe o absurdo geral da conversa. É ele quem pergunta como é possível um partido dizer-se socialista enquanto governa para grandes interesses económicos. É ele quem se ri de uma esquerda que evita certos temas para não parecer “radical”. E é ele quem nota que muitos dos que gritam contra pobres, imigrantes ou subsídios normalmente nunca criticam os verdadeiros centros de poder económico.

No fundo, aquela reunião online não era apenas uma conversa caricata. Era um retrato bastante fiel da confusão política moderna: uma direita agressiva alimentada pelo medo, uma pseudo-esquerda preocupada em parecer aceitável para o sistema, um centrismo disfarçado de socialismo e um povo perdido no meio de propaganda, redes sociais e slogans vazios.

https://www.facebook.com/canalmoritzptnet

Henry David Thoreau - Walden (ou A Vida nos Bosques)



Fotos victor nogueira mural em Setúbal na Rua das Oliveiras - Henry David Thoreau - Walden (ou A Vida nos Bosques) IMG_4638  


* Henry David Thoreau

 Com certeza. A frase "Só amanhece o dia para o qual estamos acordados" que surge no mural é a célebre linha final do último capítulo (intitulado "Conclusion") da obra clássica Walden (ou A Vida nos Bosques), publicada em 1854 pelo escritor e filósofo transcendentalista norte-americano Henry David Thoreau.

Para que possa apreciar o contexto filosófico original pensado pelo autor, eis o parágrafo final completo do livro na sua versão original em inglês e a correspondente tradução para português:

Versão Original (Inglês)

"I do not say that John or Jonathan will realize all this; but such is the character of that morrow which mere lapse of time can never make to dawn. The light which puts out our eyes is darkness to us. Only that day dawns to which we are awake. There is more day to dawn. The sun is but a morning star."

Tradução para Português

"Não digo que o João ou o Jónatas venham a perceber tudo isto; mas tal é o carácter desse amanhã que o mero passar do tempo nunca poderá fazer amanhecer. A luz que nos cega os olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Há mais dias para amanhecer. O sol não passa de uma estrela da manhã."

Significado no Contexto da Obra

Neste encerramento, Thoreau resume o cerne do seu período de isolamento junto ao lago Walden: a urgência de uma revolução interior. Ele defende que a verdadeira visão e a verdadeira vida não dependem do tempo cronológico ou da luz física do sol, mas sim do nível de consciência e de despertar espiritual de cada indivíduo. (Google Gemini)

VER   Murais em Setúbal 46 - Rua das Oliveiras

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Sebastião da Gama - É pelo sonho que lá vamos


Foto victor nogueira - Setúbal - mural na  Rua das Oliveiras (pormenor - versos de Sebastião da Gama) IMG_4629 e IMG_4637

* Sebastião da Gama

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

Partimos. Vamos. Somos.
 

Boaventura Sousa Santos - Em Leninegrado, a pensar em Cuba e Gaza

* Boaventura Sousa Santos 

Ao longo da história, o cerco de populações foi muito utilizado como estratégia para obter a rendição das forças políticas e militares defensoras dos territórios cercados. A razão fundamental para crer na eficácia do cerco era a fome e a doença impostas à população civil. Alguns cercos duraram meses, outros duraram anos. Todos provocaram um sofrimento inaudito às populações, sobretudo às populações civis, as populações não diretamente envolvidas nos combates. Os militares e todos os funcionários de serviços de que dependiam, bem como os líderes políticos, sempre tiveram alguns privilégios.

A história sobre o êxito ou o fracasso dos cercos é fascinante. Se é verdade que muitas populações cercadas sucumbiram, em muitos outros casos resistiram e obrigaram os atacantes a retirar. Em tempos de autarcia das populações, o cerco era literal, à volta das muralhas, impedindo saídas e entradas e recorrendo muitas vezes à táctica da “terra arrasada”: queima de colheitas, abate de gado, envenenamento dos poços. Desde a era moderna, com a globalização do capitalismo e a liberalização do comércio internacional de mercadorias (e de pessoas), criaram-se tantas formas de interdependência entre os povos que novos instrumentos de encercamento foram postos à disposição dos atacantes (guetos, bloqueios, embargos, sanções, políticas anti-imigração, espaços aéreos fechados, criminalização internacional de líderes políticos, etc.). Reciprocamente, tais interdependências tornaram possíveis às populações cercadas novas táticas de resistência.

Não é objetivo deste texto analisar as virtualidades bélicas dos cercos. Centro-me exclusivamente no sofrimento humano que os cercos causam às populações civis cercadas. Para ilustrar esse sofrimento, escolho o cerco mais brutal da história contemporânea, o cerco de Leninegrado pelo exército Nazi entre Setembro de 1941 e Janeiro de 1944. Escolho-o pela sua brutalidade, mas também por ilustrar um caso de derrota do atacante, aliás, considerado ao tempo do cerco um inimigo todo poderoso. Faço-o a pensar em Cuba e na Palestina. Sobretudo tendo em mente que o mundo da comunicação social tem tido o papel nefasto de trivializar o sofrimento, mesmo quando aparentemente o dramatiza. Por esta razão, não se cria uma população mundial horrorizada e mobilizada contra o sofrimento humano injusto. Em vez disso, delega-se a má consciência a pequenos grupos de corajosos ativistas que, pela sua natureza, revelam tanto a possibilidade da resistência como a fatalidade da sua derrota.

Como me centro no sofrimento humano, socorro-me das descrições do cerco por parte daqueles que o viveram. A descrição deles e delas é mais poderosa do que qualquer análise abstrata. Entre muitas descrições, seleccionei a de Constantine Krypton (pseudónimo?) publicado em 1954 na revista Russian Review, vol 13:4, pp 255-265.[i] É uma longa citação:

O inimigo não conseguiu destruir os edifícios de pedra; conseguiu, sim, uma aniquilação terrível da vida dentro deles. A causa principal da destruição entre a população foi a fome. De acordo com o recenseamento oficial de 1939, a população de Leninegrado era de 3.191.304 habitantes. O processo de aniquilação da população começou no final do mês de Novembro de 1941. O seu sinal exterior na vida da cidade foi o aparecimento nas ruas de todo o tipo de trenós, principalmente trenós de crianças atrelados uns aos outros com cadáveres sobre eles. Mais tarde, transportavam frequentemente os mortos em trenós individuais, especialmente se fossem mais compridos. Envolviam os cadáveres em lençóis, cobertores, tapetes, sacos de todo o tipo e todo o tipo de trapos. Dia após dia, o número destes trenós aumentava, criando, num determinado período, no final de Dezembro e início de Janeiro, uma procissão interminável ao longo das ruas principais.

O processo de morte da população de Leninegrado recebeu, na linguagem médica, o nome de «distrofia». A distrofia tinha três fases. A distrofia da primeira fase caracterizava-se por um enfraquecimento geral do organismo e uma grande perda de peso. A distrofia do segundo estágio trazia ainda maior fraqueza e perda de peso, juntamente com uma série de doenças que apresentavam, em particular, os seguintes sintomas: gengivas escamosas, formigueiros na parte superior do abdómen, úlceras, inchaço, dormência, problemas de estômago e similares. Esses sintomas já estavam parcialmente presentes no primeiro estágio. Na segunda fase, as pessoas começaram, como se dizia naquela época, «a devorar os seus músculos». A distrofia da terceira fase, com duração média de duas semanas, caracterizava-se pelo colapso completo da pessoa, depois a morte. Diz-se que aqueles que passavam para a terceira fase da distrofia não podiam ser salvos. Tive a oportunidade de observar dois casos em que familiares de uma pessoa distrófica acamada obtiveram manteiga e outros alimentos nutritivos, mas era absolutamente impossível proporcionar qualquer alívio real.

As pessoas que tinham entrado no período crítico permaneciam indiferentes a tudo à sua volta, num estado de completa apatia. As pessoas caíam e morriam inesperadamente enquanto caminhavam na rua, estavam na fila, no trabalho ou em casa. Certa vez, ao chegar ao Instituto, onde nas salas frias e sem aquecimento ainda decorriam aulas com três ou quatro pessoas, fui literalmente atacado por um homem bastante baixo. A mim, na qualidade de reitor da faculdade, ele expressou com grande ênfase a sua indignação pelo facto de tão poucos estudantes comparecerem às aulas. Parece que este homem era um professor de desenho técnico, que eu ainda não tinha conhecido. No semestre seguinte, ele iria dar um curso. Quanto ao número de alunos, ele teria sete. Então eu disse-lhe: «O facto de ter sete alunos, em vez dos habituais quatro ou cinco, demonstra um progresso notável, que só pode ser explicado pelo grande interesse na sua disciplina.» Isso acalmou-o um pouco, mas, dirigindo-se ao grupo de alunos, gritou com toda a força: «Sim, mas eu quero ter 25 alunos. Quero lutar por cem por cento.» Trinta ou trinta e cinco minutos depois, uma jovem aluna veio a correr ter comigo para informar que o professor de desenho técnico estava morto.

A taxa de mortalidade era excecional entre aqueles que estavam a concluir os seus estudos. Aqui, a competição cobrou o seu preço. Essas pessoas, apesar de todos os obstáculos, queriam concluir o seu trabalho de graduação e concluí-lo bem. Sem comida, em dormitórios frios, trabalhavam teimosamente e escreviam os seus trabalhos. Não viviam muito tempo depois disso — cerca de dez a quinze dias. O esforço intelectual excessivo com o estômago vazio tinha esgotado qualquer reserva de força que eles tivessem.

Na opinião dos médicos, no início de Dezembro de 1941, uma grande percentagem da população de Leninegrado encontrava-se na segunda fase de distrofia. O mês de Dezembro foi o período de transição para a segunda fase para a grande maioria da população. As condições de vida contribuíram fortemente para isso. A distribuição de alimentos em Dezembro tornou-se totalmente insignificante. Os trabalhadores recebiam 200 gramas de pão por dia; os funcionários civis e seus dependentes, ainda menos. A ração de cereais permitia preparar sopa apenas três ou quatro vezes por semana. As batatas tinham sido distribuídas pela última vez em Setembro. O número de cartões de trabalhadores (primeira categoria), que garantiam mais pão e cereais, era estritamente limitado. Um titular de uma cátedra nas escolas superiores de um instituto recebeu esses cartões apenas em Janeiro de 1942; mas os docentes, estudantes de pós-graduação e outros tinham os cartões de funcionários civis (segunda categoria).

Os suprimentos privados pertencentes à população esgotaram-se em meados ou, no máximo, no final de Novembro. Durante esse mês, as pessoas comiam gatos na cidade. Enquanto esperava na fila pelos cartões de racionamento de Dezembro, ouvi involuntariamente a conversa de alguns estudantes. Eles tinham descoberto que a carne de gato era muito saborosa; era algo semelhante à de coelho e só havia uma coisa desagradável: matar o gato. Os gatos defendem-se desesperadamente. Mas logo deixei de ouvir tais conversas — já não havia mais gatos para matar. Em Dezembro, as pessoas começaram a comer ratazanas, ratos e pombos. A uma mulher idosa que estava a morrer, a sua jovem sobrinha trouxe meio rato que tinha conseguido apanhar e deu-lho. No entanto, a mulher moribunda e a sua sobrinha, juntamente com os seus familiares, morreram pouco tempo depois. Seguiram-se os cães.

Os músculos eram a fonte básica de vida. Os médicos recomendavam em particular que as pessoas caminhassem menos e gastassem este recurso de forma mais razoável, uma vez que não seriam capazes de o reconstruir. Em condições especiais, os trabalhadores do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), o pessoal do estado-maior de guerra, os principais quadros do partido e a maioria dos trabalhadores responsáveis recebiam provisões alimentares. Estas pessoas, claro, não conheciam a fome. Os membros do Partido tinham alguns privilégios. No entanto, para além de porções extra de sopa sem cartões de racionamento e de um ou dois cartões adicionais, esses privilégios não ultrapassavam a quota legal. Aqueles que tinham alguma ligação com o abastecimento, como um serviço de refeições em alguma instituição, saíam-se um pouco melhor. A alimentação de alguns membros muito necessários do pessoal técnico de engenharia era melhor. Eram obrigados a viver em instalações governamentais, onde eram alimentados em refeitórios especiais e recebiam alguma comida para levar consigo. No entanto, quando um dos engenheiros levou a mãe para partilhar a sua comida com ela, recebeu uma repreensão do director. A melhor alimentação destinava-se a garantir a sua máxima capacidade de trabalho. A mãe teve de ir directamente para casa, a fim de partilhar o destino comum da população.

No final de Novembro e início de Dezembro, os ataques aéreos alemães chegaram ao fim. Isso, ao que parecia, poderia facilitar a aplicação dos conselhos médicos sobre a economia de energia física. A população poderia dormir tranquilamente à noite; não seria necessário correr para os abrigos antiaéreos nem apagar incêndios. No entanto, em vez dos bombardeamentos que tinham esgotado as suas forças físicas, a vida assumiu algo de novo e mais árduo. Em primeiro lugar, os eléctricos tinham deixado completamente de circular na cidade. Enquanto pela calçada se movia uma sucessão de trenós com cadáveres, nas calçadas, e por vezes nas ruas, havia um grande número de pessoas a caminhar, uma vez que careciam de qualquer outro meio de transporte. Para onde quer que se fosse, era preciso ir a pé: para o trabalho, para fazer recados diversos, simplesmente para visitar as casas das pessoas vizinhas. Todos tinham de fazer um esforço colossal e gastar uma quantidade extraordinária de energia. Uma grande desgraça foi o início do frio, e mais tarde o frio extremo do Inverno, chegando a 50 graus negativos.

Todos os esforços para salvar o sistema de água foram em vão, e toda a população da cidade começou a dirigir-se às bombas próximas que ainda estavam em funcionamento. Durante muito tempo, um buraco aberto na rua por um projétil de artilharia, a oito ou dez minutos a pé da nossa casa, salvou-me. Havia sempre água ali, que as pessoas dos apartamentos próximos vinham buscar. Muitas pessoas, não tendo uma bomba na vizinhança, nem buracos na rua, tiveram de percorrer longas distâncias, por vezes até ao rio, para ir buscar água. O problema da casa de banho foi resolvido despejando tudo na neve nos quintais.

Era impossível aquecer esses quartos. Era preciso dormir vestido, vestindo todas as peças de roupa disponíveis para se manter aquecido. Devido ao frio e à falta de água, muitas pessoas deixaram completamente de se lavar. Cozinhas e quartos de hóspedes irremediavelmente gelados foram transformados em locais de armazenamento. Aqui, frequentemente, eram construídas casas de banho. Uma circunstância extremamente difícil era a completa falta de luz eléctrica. Pequenas lâmpadas fumegantes da época da guerra civil lançavam luz apenas suficiente para permitir que alguém se movimentasse pela sala.

Entretanto, em Leninegrado, no final de Dezembro e em Janeiro, a situação assumiu um carácter catastrófico. O número diário de mortos disparou para entre 25.000 e 30.000. Possivelmente, para a parte da população que estava a morrer, esta foi a transição natural para o período crítico, com as suas consequências inevitáveis. As autoridades administrativas, literalmente sobrecarregadas pelo aumento da taxa de mortalidade, deram ordens para abrir os necrotérios. Estes surgiram nos pátios das casas de Leninegrado. Era escolhido um pátio de grandes dimensões para cada sete a dez casas, dependendo do número de residentes. Era afixado um cartaz e, através do administrador do prédio, era feita uma notificação adequada. Todos podiam agora levar os seus mortos para o necrotério. Para remover os cadáveres das ruas, foram atribuídos camiões, mas estes encontravam-se frequentemente em condições insatisfatórias. Era um trabalho difícil para os carregadores de camiões. Frequentemente, no meio das suas tarefas, caíam mortos e era necessário procurar substitutos. Em média, dez ou doze camiões carregados de cadáveres passavam pela nossa rua todos os dias. Nas ruas principais, o seu número era muito maior.

Embora a maioria das pessoas, independentemente do seu sofrimento, permanecesse notavelmente controlada, ocasionalmente ouvia-se falar de algum comportamento particularmente agressivo [ii]. Em meados de Dezembro, uma conhecida minha, uma senhora idosa, cuja filha estava num campo de concentração, saiu à rua, segurando o seu amado cão pela trela. O cão estava com ela há muito tempo. Antes que a senhora se apercebesse, vários homens lançaram-se sobre ela. Alguns queriam agarrar o cão; outros tentavam arrancar-lhe a trela da mão. Todos disputavam entre si, gritando: «o cão é meu.» Nesse momento, outros transeuntes chegaram a tempo de deter os agressores e afastá-los. A velha senhora regressou, agradecida, a casa com o cão, mas, mesmo assim, três ou quatro semanas depois, acabou por comer o próprio animal.

Aconselhava-se as pessoas a andarem com cuidado nas escadas escuras de madrugada. Ocorreram casos em que, partindo do princípio de que uma pessoa ia buscar pão, alguém lhe batia na cabeça e lhe roubava os cartões de racionamento. Normalmente, era necessário ter cuidado nessas escadas escuras depois de o pão ter sido adquirido. O pão tinha de ser transportado embrulhado e escondido. Por vezes, nas filas nas instalações da loja, os rapazes aventuravam-se a roubar o pão aos donos. Esperavam pelo momento certo e, então, cravavam os dentes num pedaço de pão nas mãos de alguém, tentando morder um pedaço. Por acaso, eu próprio observei uma cena dessas. A dona do pão em que o menino tinha cravado os dentes agarrou-o com grande violência pelo pescoço e não o deixava engolir; depois, a chorar, disse que tinha um menino como ele que estava a morrer em casa. Todas estas coisas eram excessos individuais, resultando num certo aumento da ilegalidade.

É possível até falar de novos tipos de «crime». Um deles era chamado de «esconder cadáveres». Ao manter o cadáver em casa durante cerca de uma semana e ocultar a morte, algumas pessoas conseguiam acumular pão suficiente no cartão do falecido para pagar a escavação da sepultura. Outras faziam-no para ficar com o pão e outros cartões de racionamento do falecido para uso pessoal. Conservar um cadáver nos apartamentos gelados daquela época não era tarefa difícil.

Eu conhecia uma funcionária civil que conseguiu esconder a sua tia morta durante quase um mês inteiro. Mais tarde, ela lamentou não ter feito o mesmo com a sua mãe, que tinha morrido dois ou três dias antes da tia. Mais tarde ainda, ela própria morreu, e um vizinho conseguiu escondê-la também durante cinco dias. Na prática, era difícil usar os cartões de uma pessoa morta por mais de doze ou catorze dias. Além disso, apenas uma pequena percentagem da população se dedicava a esta prática. Durante a segunda quinzena de Janeiro, dizia-se que a taxa de mortalidade tinha descido para 9.000 ou 10.000 por dia. Isto pode ter-se devido ao facto de as pessoas mais fracas já terem morrido ou, possivelmente, a uma alteração na qualidade do pão racionado. Seja como for, a melhoria das condições foi de curta duração. Uma nova desgraça abateu-se sobre a cidade. As fortes geadas e o estado geral de degradação dos edifícios da cidade levaram à paralisação do trabalho nas padarias da cidade e a maior parte das lojas ficou sem pão. Em algumas lojas onde o pão chegou, formaram-se filas enormes que se mantiveram desde o início da manhã até ao fim da tarde. Multidões de pessoas, após esperarem dez ou doze horas sob temperaturas geladas, saíram de mãos vazias. A falta de pão, juntamente com a exaustão extrema causada pela espera no frio, fez com que a taxa de mortalidade disparasse de imediato para o valor anterior de 25.000 a 30.000. Algumas pessoas morreram na fila; muitas morreram nas ruas, depois de correrem desesperadamente de loja em loja para perguntar se havia alguma esperança de uma entrega de pão.
No início de 1942, ocorreram alguns acontecimentos que foram muito embaraçosos para as autoridades militares e civis da cidade. Multidões de pessoas que estavam na fila assaltaram várias padarias. Mais impactante do que a pilhagem de algumas mercearias, considerando as condições particulares da vida soviética, foi um acontecimento de significado político. Duas organizações de mulheres (Trabalhadoras da Engenharia Técnica) uniram-se e apresentaram uma petição na qual solicitavam, em nome das crianças moribundas, a rendição da cidade. Elas apontavam para a prática geral das relações internacionais e, especialmente, para o recente anúncio de que Paris seria declarada uma «cidade aberta». Se esta petição conseguiu chegar a algum representante de nível superior a Pyotr Popkov, o presidente do Soviete de Leninegrado, nunca vim a saber. Na cidade, a petição não causou grande impressão, embora muitas pessoas soubessem da sua existência. Algumas mulheres trabalhadoras do Partido chegaram mesmo a discutir o assunto comigo, apesar de eu não ser membro do Partido e, o que é mais surpreendente, não condenaram as mulheres que tinham redigido a petição.”

A brutalidade do sofrimento humano do cerco de Leninegrado – um milhão e meio de mortos – não é qualitativamente diferente dos muitos genocídios coloniais e imperiais entre o século XVI e o século XX: os vários genocídios de povos originários das Américas e de África pelos colonizadores europeus e seus descendentes, o genocídio do povo herero e nama da Namíbia pelo Império Alemão entre 1904 e1908, o genocídio do povo arménio entre 1915-1923 pelo Império Otomano, o genocídio do povo judeu pela Alemanha Nazi, o genocídio do povo tutsi pela elite hútu no Ruanda em 1994, genocídio dos bósnios muçulmanos pelas forças sérvias entre 1992 e 1995 e o genocídio do povo rohingya pelo exército e polícia de Mianmar ao longo das duas últimas décadas.

O que distingue Leninegrado é a forma-cerco levada ao extremo. A mesma forma-cerco está em curso, de modos diferentes, na Palestina e em Cuba. Apesar do seu extremismo, o cerco de Leninegrado foi repelido e estou confiante que mais tarde ou mais cedo será também repelido na Palestina e em Cuba. Para isso é fundamental a solidariedade internacional.

Se Cuba e Palestina não romperem o cerco, seremos todos nós os derrotados, acordando tarde demais para o facto de que o cerco à volta da Palestina e de Cuba está já germinando à nossa volta, multiplicando-se, qual Hidra de Lerna, graças à nossa passividade. Começa a ser tarde demais para a intervenção de Hércules!

Cuba vencerá! Palestina vencerá!
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NOTAS
[i] Trata-se da tradução reduzida de dois capítulos do livro do autor, Osada Leningrad, N. Y., Chekhov Publishing House, 1952. Esta descrição tem as suas limitações, sobretudo tendo em vista a documentação oficial e de arquivo diarista que veio a lume posteriormente. Torna a história do cerco ainda mais dramática. Consultar sobre esta bibliografia Sarah Gruszka, «L’historiographie du siège de Leningrad», Revue des études slaves, Vol. 83:1, 2012, pp. 269-281.

[ii] À luz do que escreve Gruszka, op. cit., houve muita criminalidade e alguma bem grave. É o caso de canibalismo e do comércio de carne humana. Estes crimes eram severamente punidos. A punição de crimes políticos foi igualmente severa.

24 de Maio de 2026

https://estatuadesal.com/2026/05/25/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza/
https://aviagemdosargonautas.net/2026/05/24/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza-por-boaventura-de-sousa-santos/

Pablo Neruda - Ode ao gato



«Este belo e melancólico mural em Orgosolo afasta-se um pouco do tom puramente político ou de protesto militar para mergulhar numa profunda reflexão existencial e poética sobre a insatisfação humana, utilizando as palavras de um dos maiores escritores da literatura mundial: o chileno Pablo Neruda. O texto pintado na parede acima das personagens é um poema em prosa (com pequenas adaptações na quebra dos versos) retirado da obra do Nobel da Literatura:

"...l'uomo vuol essere pesce e uccello, il serpente vorrebbe avere le ali, il cane è un leone spaesato, l'ingegnere vuol essere poeta, la mosca studia per rondine, il poeta cerca d'imitare la mosca, ma il gatto vuole essere solo gatto..." — Pablo Neruda



Esse texto poético faz parte de um dos poemas mais célebres e divertidos de Pablo Neruda, chamado "Oda al gato" (Ode ao gato), publicado em 1954 no seu livro Odas elementales.

Como se trata de uma ode longa, o trecho pintado no mural corresponde à secção central e final do poema, onde Neruda faz justamente essa brilhante transição entre a crise de identidade dos outros seres e a perfeição absoluta do gato.

"Oda al gato" (Original em Espanhol)

Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere.  

El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde el lomo a la cola,
desde la premonición hasta el ratón vivo,
desde la noche hasta sus ojos de oro.  

No hay unidad como él,
no tienen
la luna ni la flor tal contextura:
es una sola cosa
como el sol o el topacio,
y la elástica línea de su contorno
es firme y sutil como
la línea de la proa de un navío.
Sus ojos amarillos
dejaron una sola
ranura
para echar las monedas de la noche.

Oh pequeño emperador sin orbe,
conquistador sin patria,
mínimo tigre de salón, nupcial
sultán del cielo
de las tejas eróticas,
el viento de la amor
reclamas
en la intemperie
cuando pasas
y posas
cuatro pies calzados
con sutiles
calzados de plata,
husmeando
la sospechosa
soledad del mundo.

Oh fiera independiente
de la casa, arrogante
vestigio de la noche,
perezoso, gimnasta
y detectivesco,
hondísimo
gato,
policía secreto
de las habitaciones,
insignia
de una
desaparecida terciopelo,
seguramente no hay
enigma
en tu manera,
tal vez no eres misterio,
todo el mundo te conoce y perteneces
al habitante menos elegante,
tal vez todos se creen
tus dueños,
tus propietarios, tíos
o compañeros,
de gatos, compadres
de su destino,
pero yo
no confieso.
Yo no me rindo al gato.

Él no me pide nada,
camina
y es en su noche su destino.

"Ode ao Gato" (Tradução em Português)

Os animais foram
imperfeitos,
longos de cauda, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco foram-se
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo manchas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
camina sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e ave,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta tenta imitar a mosca,
mas o gato
quer ser apenas gato
e todo o gato é gato
do lombo à cauda,
da premonição até ao rato vivo,
desde a noite até aos seus olhos de ouro.

Não há unidade como ele,
não têm
a lua nem a flor tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha do seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de um navio.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para deitar as moedas da noite.

Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
dos telhados eróticos,
o vento do amor
reclamas
na intempérie
quando passas
e pousas
quatro pés calçados
com subtis
sapatos de prata,
farejando
a suspeita
solidão do mundo.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginasta
e detetivesco,
profundíssimo
gato,
polícia secreto
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
toda a gente te conhece e pertences
ao habitante menos elegante,
talvez todos se creiam
teus donos,
teus proprietários, tios
ou companheiros
de gatos, compadres
do seu destino,
mas eu
não confesso.
Eu não me rendo ao gato.

Ele não me pede nada,
caminha
e é na sua noite o seu destino.»

(Google Gemini)
 

Henrique Raposo - Comunista do interior

* Henrique Raposo

Os doutores do partido, como Cunhal e Urbano, estavam numa situação de conforto, nas praias do mar Negro, enquanto que os comunistas do interior apanhavam da GNR e da PIDE

A tortura é um momento que nos deixa desarmados, dilui as ideologias, humaniza inimigos. Um fascista não deixa de ser fascista só porque foi torturado, mas o seu sofrimento humaniza-o aos nossos olhos e ouvidos: o grito de dor de um fascista é igual ao grito de dor de um democrata. Passa-se o mesmo com um comunista: ele não deixa de ser um inimigo da democracia, mas a tortura que sofreu humaniza-o e até cria um manto acrítico à sua volta, porque na verdade somos todos praticantes de uma vulgata cristã que adora mártires e que assume — erradamente — que o sofrimento santifica, no máximo, ou que cria carácter, no mínimo. Não, não. A tortura ou qualquer outro episódio deste calibre não dá razão nem moral a ninguém. O sofrimento não purifica, nem é livro de autoajuda. Trump não deixa de ser um perigoso quase-fascista só porque já sofreu duas tentativas de assassínio; o rosto rasgado pela bala não lhe dá razão; pensar o contrário é entrar no campo do culto irracional. E, sim, os fiéis trumpistas veem na cicatriz um sinal de superioridade moral de Trump. O comunismo dependia da mesma irracionalidade. Basta olhar para a experiência comunista portuguesa. Como alguns tinham sido torturados pela PIDE, nós sentíamos quase uma obrigação moral de lhes dar razão e até superioridade moral à partida, mesmo antes de qualquer discussão, mesmo quando eles defendiam absurdos antidemocráticos e antidireitos humanos. Aliás, a III República foi fundada neste pressuposto sobretudo a partir do 25 de Novembro: eles, os comunistas, não ficaram com a organização política, mas ficaram com a superioridade moral. E de facto era muito difícil contrariar, por exemplo, um velho comunista alentejano que se imortalizou da seguinte forma: é apanhado pela PIDE com um saco de jornais clandestinos; é levado para os calabouços, vai ser torturado para denunciar os colegas; antes mesmo de qualquer palavra ou ação do pide, ele coloca a mão em cima da mesa e diz: “Vá, podes parti-la à vontadinha que eu não vou falar!” Eu odiava o que ele, o velho comunista, defendia politicamente, mas moralmente era impossível não sentir um certo temor perante este porte. Ou seja, a montante, a parte emocional do meu cérebro respeitava o seu sofrimento crístico, mas a jusante a parte racional não podia aceitar o que ele defendia para a democracia, porque na verdade não queria uma democracia.


Carlos Brito (1933-2026)António Pedro Ferreira

É por isso que eu via em Carlos Brito (1933-2026) alguém especial. Enquanto operacional comunista, Carlos Brito foi torturado pela PIDE, mas — pelo menos no que li e ouvi — Brito não usava esse episódio para criar uma presunção de superioridade moral sobre os outros. O que ele dizia não devia ser aceite no presente com base nesse sofrimento passado; a tortura não é uma carta-branca. O que ele dizia devia ser avaliado pela validade ou invalidade dos seus argumentos, que eram ditos em pé de igualdade com os outros. É por isso, de resto, que Carlos Brito, com o tempo, democratizou o seu pensamento. Sem nunca deixar de ser comunista no sentido mais lato, Brito abandonou a seita irracional que se chama PCP. A essência do PCP e da extrema-esquerda é a ideia da superioridade moral dos comunistas — tese, aliás, defendida em livro por Cunhal; tese, aliás, incompatível com a democracia e por isso contestada por todos os dissidentes comunistas como Brito ou Zita Seabra.


A forma abjeta com que o PCP despreza agora Carlos Brito na hora da sua morte diz tudo sobre a amoralidade leninista da agremiação. É uma enorme ironia do destino: Carlos Brito é mais respeitado da hora da sua morte por democratas de direita do que pelo PCP e pela extrema-esquerda. E saliente-se que Carlos Brito não passou a ser persona non grata na extrema-esquerda só porque passou a acreditar de facto na democracia e — muito antes da ‘geringonça’ — numa aliança de esquerdas dentro da democracia. Não, não. O PCP passou a desprezar Carlos Brito por causa do que ele defendia para o futuro, sim, mas o motivo fundamental do repúdio está naquilo que Brito dizia sobre o passado de Cunhal.

14 maio 2026

https://expresso.pt/opiniao/2026-05-14-comunista-do-interior-a3a58ca3

Vasco Cardoso - A água suja do anti-comunismo

* Vasco Cardoso

Membro da Comissão Política do Comité Central do PCP

Apesar de tanta sentença de morte, de tanto silenciamento e deturpação, de tanta “irrelevância” com que a maioria dos comentadores hoje o tratam, apesar de tudo isto, o PCP e o projecto comunista continua a estar no centro dos grandes debates e das lutas

Perdi a conta à rajada de artigos contra o PCP que foram publicados no seguimento da morte de Carlos Brito. À diversidade de autores – na maioria dos casos repetentes neste tema -, não correspondeu propriamente diversidade de argumentos, quanto muito a disputa por ver quem é que adjectivava de forma mais grotesca, quem fazia a melhor caricatura dos comunistas e do seu Partido. É nessa disputa que o artigo de Henrique Raposo se destaca. Pelo nível do insulto, pelo ódio incontido e, sobretudo, pela mentira grosseira e delirante, que nos vai tomando conta dos dias e que está para lá de Trump ou Ventura, como se sabe e se vê.

Como outros, HR julgou estar perante uma boa oportunidade para dar lastro ao seu anti-comunismo. É uma espécie de obrigação moral que assume e que tem estado presente em muitos dos seus textos. Compreende-se que assim seja, não é fácil viver do que se escreve... “Comunista do interior” - é este o título do artigo – é assim uma espécie de roteiro pelos mais primários preconceitos. Lá encontramos muito do que se destila por aí: comunismo igual a fascismo; comunismo depende da “irracionalidade“; o PCP queria substituir uma ditadura por outra ditadura; comunista bom é um ex-comunista.

Mas onde a mentira se junta com o delírio é quando HR passa à reescrita da história. É aí que HR se superioriza a intelectuais da estirpe de José Milhazes, numa espécie de vale tudo. As teses, mais coisa menos coisa, são estas: Álvaro Cunhal “não queria o 25 de Abril” e tudo fez para o “travar”, ao contrário de CB; AC e outros dirigentes do PCP que se encontravam no exílio (“parisiense”) durante o fascismo vivia no bem bom e “não conhecia o País”, ao contrário de CB que vivia na clandestinidade (no “interior”) e enfrentava a PIDE, pois claro!

HR estará convencido de que a distância temporal que nos separa da Revolução de Abril, somada às sucessivas campanhas contra o PCP (mais uma!) e ao processo de reescrita da história - que visa transformar os fascistas em democratas e os comunistas em inimigos da democracia -, serão suficientes para que as suas mentiras ganhem asas nestes tempos de “pós-verdade”. Mas a consistência dos “argumentos” é tão miserável, tão distante da memória e experiência concreta de milhões de portugueses que corre o risco de se virar contra o próprio autor. Como é comum e recorrente em muitos destes anti-comunistas primários aí está a tentativa de credibilizar o seu texto, invocando ser neto de um membro do PCP. Como se isso lhe desse autoridade suficiente (a ele, ou alguém) para fazer passar o seu contrabando ideológico.

É claro que HR sabe que está a mentir com quantos dentes tem na boca. Um partido que lutou ao longo de 48 anos para derrotar o fascismo, fê-lo para tornar possível o 25 de Abril, não para o impedir, como insinua HR. Um partido que, perante assassinatos, prisões, tortura e mil tentativas de liquidação, colocou alguns dos seus principais quadros no estrangeiro, fê-lo, não por privilégio de alguns, mas como forma de defender o Partido da acção repressiva do fascismo e da PIDE. Um Partido cujos dirigentes e militantes vieram das fábricas e dos campos, que passaram anos a fio nas prisões fascistas, que calcorrearam o País de lés-a-lés, que viviam com as mesmas dificuldades com que vivia a maioria da população, que tinham profunda ligação a sectores intelectuais, não é um partido que desconhecia a realidade, mas aquele que mais profundamente nela tinha mergulhado, facto que poderá ser confirmado na vida e na imensa obra teórica de AC.

Mas não é só, nem fundamentalmente, o passado do PCP que incomoda HR. Quanto muito, dificulta-lhe a vida. O que incomoda verdadeiramente HR é o que o PCP representa hoje, o que o seu ideal e projecto significam no presente e para o futuro. Apesar de tanta sentença de morte, de tanto silenciamento e deturpação, de tanta “irrelevância” com que a maioria dos comentadores hoje o tratam, apesar de tudo isto, o PCP e o projecto comunista continua a estar no centro dos grandes debates, e das lutas, que se travam na nossa sociedade.

O que incomoda é o facto do PCP estar ao lado dos trabalhadores quando lhes querem impingir o Pacote Laboral, é a denúncia do sórdido negócio dos grupos privados que ameaça destruir o SNS, é o combate às privatizações e ao domínio do capital estrangeiro sobre a economia nacional, é a defesa dos interesses de Portugal perante imposições de Washington e Bruxelas, é luta pela paz quando muitos se deixam seduzir pelos tambores da guerra. E é a sua acção prática, quotidiana, aparentemente invisível, que se desenvolve em muitos locais onde vive gente de carne e osso, e que muitos destes escribas, nem suspeitam que possam existir. Uma intervenção corajosa e que, neste tempo de sombras, aponta um caminho de ruptura e alternativa, que não deixa os trabalhadores e o povo à mercê dos que se julgam donos disto tudo. Tudo isto tem muita força, como bem sabe HR, e é um poderoso capital de atracção junto de todos os que vivem mais perto das dificuldades do que dos jornais. No fundo, HR exprime o medo que sempre sentiram as classes dominantes ao longo de séculos. É o medo que empurra HR para o delírio e a mentira.

2026 05 22 

https://expresso.pt/opiniao/2026-05-22-a-agua-suja-do-anti-comunismo-d75124b7

domingo, 24 de maio de 2026

Charlie Brown Jr. - Dias de Luta, Dias de Glória



24 de maio de 2021
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Foto victor nogueira - grafito em Setúbal, na Avenida José Mourinho - "Nós pintamos Dias de luta, dias de glória" (2018.01.28 Canon 151_01) A frase escrita na parede ( "Dias de luta, dias de glória" ) é a letra de uma canção famosíssima da banda Charlie Brown Jr.

Canto minha vida com orgulho

Na minha vida nem tudo acontece
Mas quanto mais a gente rala, mais a gente cresce
Hoje estou feliz porque eu sonhei com você
E amanhã posso chorar por não poder te ver mais
O seu sorriso vale mais que um diamante
Se você vier comigo, aí nós vamo adiante
Com a cabeça erguida e mantendo a fé em Deus
O seu dia mais feliz vai ser o mesmo que o meu
A vida me ensinou a nunca desistir
Nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir
Podem me tirar tudo que tenho
Só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz pra quem eu amo
E eu sou feliz e canto, o Universo é uma canção
E eu vou que vou

História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória

Ô, minha gata, morada dos meus sonhos
Todo dia, se eu pudesse, eu ia estar com você
Eu já te via muito antes nos meus sonhos
Eu procurei a vida inteira por alguém como você
Por isso eu canto minha vida com orgulho
Com melodia, alegria e barulho
Eu sou feliz e rodo pelo mundo
Sou correria, mas também sou vagabundo
Mas hoje dou valor de verdade
Pra minha saúde e pra minha liberdade
Que bom te encontrar nessa cidade
Esse brilho intenso me lembra você

História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
Histórias, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória
História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória

Hoje estou feliz, acordei com o pé direito
E eu vou fazer de novo, eu vou fazer muito bem feito
Sintonia, telepatia
Comunicação pelo córtex
Boom, bye, bye

nós pintamos dias de luta dias de glória

 ~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

 
O Charlie Brown Jr. foi formado em 1992 na cidade de Santos, no Brasil, misturando rock, skate punk, rap e reggae. Tornou-se um enorme fenómeno de sucesso tanto no Brasil como em Portugal.  Charlie Brown Jr foi uma das maiores bandas de rock/skate punk do Brasil, entre 1992–2013. O vocalista, líder e principal letrista da banda chamava-se Alexandre Magno Abrão, mundialmente conhecido pelo seu apelido: Chorão. 
https://www.letras.mus.br/charlie-brown-jr/788211/
https://en.wikipedia.org/wiki/Charlie_Brown_Jr._(band)

sábado, 23 de maio de 2026

Brecht e A Resistível Ascensão de Arturo Ui



«Este mural, pintado na fachada do histórico "Bar Ziu Mesina" em Orgosolo, é uma das obras mais complexas e politicamente carregadas da vila. Ele aborda os trágicos acontecimentos do "Outono Alemão" de 1977, ligando o terrorismo de Estado, a luta armada e o perigo latente do fascismo através das palavras do dramaturgo Bertolt Brecht.

Abaixo do monumento, encontram-se os nomes dos principais membros do grupo guerrilheiro de extrema-esquerda alemão RAF (Fração do Exército Vermelho), encontrados mortos na prisão de alta segurança de Stammheim precisamente em meados de outubro de 1977: "Andreas Baader" (escrito junto à árvore seca, à esquerda) /  "Gudrun Ensslin" (no centro-esquerda) / "Ulrike Meinhof" (no centro-direita, cuja morte ocorreu antes, em 1976, mas que iniciou o ciclo de mistério)

Os versos finais da peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui (1941), de Bertolt Brecht, alertam sobre o perigo constante do fascismo, que pode ressurgir mesmo após ser derrotado . Escrita durante o exílio, a obra utiliza uma sátira sobre a máfia de Chicago para traçar um paralelo direto com a ascensão de Hitler e do nazismo, defendendo a vigilância democrática

A tradução para português dos famosos versos de Bertolt Brecht que encerram a peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui (escrita em 1941 como uma parábola sobre a subida de Adolf Hitler ao poder) costuma ser traduzida da seguinte forma:

"E vós, aprendei a ver, em vez de olhar sem ver!
Agi, em vez de falar!
Este monstro esteve quase a governar o mundo!
Os povos conseguiram abatê-lo, mas ninguém cante vitória antes do tempo:
O ventre de onde ele nasceu ainda é fecundo."

Análise dos Termos-Chave na Tradução
"Aprendei a ver, em vez de olhar sem ver" (no original alemão: “Lernat sehn, statt glotzen” / no italiano do mural: “imparate che occorre vedere, non guardare in aria”): É um apelo à lucidez e à análise crítica. Brecht pede ao público que não seja mero espectador passivo dos acontecimentos políticos, mas que compreenda os mecanismos sociais que geram o autoritarismo.

"O ventre de onde ele nasceu ainda é fecundo": Esta é a metáfora central. O "monstro" (o fascismo/nazismo) não é um acidente histórico isolado ou a loucura de um único homem (Ui/Hitler), mas sim o produto de condições socioeconómicas específicas, de crises profundas e da cumplicidade de certas elites. Enquanto essas condições estruturais existirem na sociedade, o perigo do regresso de regimes totalitários continuará vivo.  (Google Gemini)

Gonçalo Portocarrero de Almada - Assim se vê como é o PCP!


* Gonçalo Portocarrero de Almada 

Um partido ao serviço do imperialismo da ex-URSS; cúmplice da ditadura em Cuba; e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão.

23 mai. 2026c

Anda meio mundo zangado com o Partido Comunista Português (PCP), por três intervenções políticas em âmbito parlamentar (ou, melhor dizendo, para lamentar …). Com efeito, este partido, cuja representação na Assembleia da República está agora reduzida a uma troïka, protagonizou três polémicas intervenções. A saber: por ocasião da recente visita do presidente do Parlamento ucraniano a Portugal; a propósito da caracterização política do regime de Cuba; e na sequência do recente falecimento de um seu líder histórico, que presidiu ao seu grupo parlamentar e foi seu candidato à presidência da República. Não obstante a multitudinária desaprovação do modo como os comunistas portugueses reagiram a estes factos recentes, o PCP está de parabéns.

A título de declaração de interesses, devo esclarecer que sempre fui contrário à ideologia do PCP, por tradição familiar, pela educação recebida e pelo meu modo de ser independente e, portanto, incapaz de fazer parte de uma organização de pensamento único. Subscrevo os princípios humanistas e democráticos que aquele partido, com exemplar coerência, sempre repudiou. Graças à minha fé cristã, absolutamente oposta ao ideário comunista, também não posso ter, como é óbvio, nenhuma afinidade com o PCP.

Quando era liceal e jovem militante da juventude do então Partido Popular Democrático (PPD), participei activamente na vida política do Liceu Pedro Nunes, tendo concorrido, em lista com outros colegas da JSD, para o seu conselho de gestão. Depois, por exigência da minha formação universitária, fui para o estrangeiro e abandonei, por completo, a militância partidária. Com a ordenação sacerdotal, abdiquei também de qualquer actuação política, mas sem desistir da intervenção cívica como cidadão, sobretudo em defesa da vida, da dignidade e da liberdade humanas, segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja e com total independência de todos os partidos políticos.

O primeiro caso parlamentar recente relativo ao PCP ocorreu quando, no passado dia 6, o presidente da Assembleia da República recebeu o seu homólogo ucraniano. Os deputados comunistas fizeram questão de se ausentar da sala do plenário na sessão de boas-vindas, alegando que “Ruslan Stefanchuk é presidente de um parlamento antidemocrático que é expressão de um poder suportado por forças xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis.” Este pretexto não releva os deputados do PCP da indelicadeza da sua atitude, que ofende a dignidade da Assembleia da República e de Portugal, na medida em que esse órgão de soberania representa o povo português.

Tem o seu quê de contraditório, ou de anedótico, que o PCP proteste pelo facto de o Parlamento ucraniano não ser democrático, pois não há nenhum regime comunista que tenha um parlamento eleito livre e democraticamente. Por outro lado, mesmo que o Parlamento ucraniano fosse, como dizem, “suportado por forças xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis”, mais belicista é, com toda a certeza, o Estado que invadiu a Ucrânia, que se limitou a reagir em legítima defesa. Por último, é muito infeliz a referência ao suposto carácter “nazi” dos dirigentes ucranianos, pois foi a URSS que pactuou, pelo ignominioso tratado Ribbentrop-Molotov, com o regime nacional-socialista de Hitler, acordando, a 23-8-1939, a invasão e partilha, por nazis e comunistas, da inocente e martirizada Polónia.

O segundo caso respeita à situação de Cuba. Num despacho de 8 de Maio, a Agência Lusa noticiou: “O PCP agendou para hoje um debate sobre a situação política e social de Cuba, que atravessa uma grave crise económica e social, acentuada nos últimos meses pelo bloqueio petrolífero imposto pela administração norte-americana de Donald Trump, que ameaça uma ação militar contra a ilha. O projeto de resolução comunista, que condenava a ‘escalada de agressão e de ameaças dos EUA contra Cuba’ e propunha a ‘exigência do respeito da soberania e dos direitos do povo cubano’ foi chumbado, tal como uma iniciativa do Bloco de Esquerda ‘sobre a crise humanitária em Cuba e a necessidade de Portugal assumir uma posição activa pelo fim das sanções unilaterais e pela proteção da população civil cubana’.”

É significativo que o regime comunista cubano, depois de sessenta e sete anos de revolução, não consiga garantir ao seu povo condições mínimas de sobrevivência. Em nome do bem-estar da população, o comunismo defende e pratica a supressão das liberdades políticas dos cidadãos, impondo um regime ditatorial que, em princípio, deveria resultar numa sociedade justa e igualitária. Não se conhece, contudo, nenhum país que, tendo feito esta experiência, tenha conseguido sequer chegar a uma situação minimamente eficiente em termos socioeconómicos. Ajudar a população cubana não passa, pois, por financiar o regime que a oprime, mas pela aposta na sua reforma política, que se espera que possa acontecer quanto antes, se possível por meios pacíficos e sem intervenção estrangeira. Qualquer apoio prestado ao regime comunista cubano traduz-se, necessariamente, em cumplicidade com o vigente sistema repressivo.

Como era expectável, “o projeto de resolução comunista (…) foi chumbado (…). Por outro lado, os deputados aprovaram em plenário resoluções do Chega, a recomendar ao Governo ‘que realize todos os esforços políticos e diplomáticos no sentido de pressionar o regime cubano e conduzir à plena democratização da República de Cuba’; da Iniciativa Liberal, a propor ao executivo que ‘defenda o povo cubano e promova o respeito pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais em Cuba’, e do CDS-PP, ‘em defesa do povo cubano contra a tirania do regime comunista’.”

Em terceiro lugar, foi deplorável a atitude do PCP em relação a um seu líder histórico, cuja memória nem sequer respeitou por ocasião da sua morte, a 7 de Maio passado. Felizmente, o voto de pesar, por unanimidade, da Assembleia da Republica, prestou-lhe a homenagem de que o partido em que militou tantos anos não foi capaz.

Apesar de estas três atitudes deploráveis do PCP, por curiosa coincidência ocorridas nos dias 6, 7 e 8 de Maio de 2026, o partido está de parabéns porque, se fosse a favor da Ucrânia, defendesse a democracia em Cuba, e lamentasse o falecimento de um seu líder histórico, não obstante a sua divergência política, poder-se-ia pensar que é um partido anti-imperialista, democrático e humanista quando, pelo contrário, continua a ser o que sempre foi. Com efeito, é uma força política ao serviço do imperialismo da ex-URSS, pois a sua líder parlamentar teve até a infelicidade de declarar, na Assembleia da República, que “a União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente porque de facto foram anos extraordinários para o povo”. É também um partido cúmplice da ditadura cubana e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão. Graças a estas suas tão desastradas intervenções, o PCP afirma, de forma inequívoca, o que sempre foi e é e, por isso, está de parabéns. Em formato de slogan, que não destoaria na festa do Avante!, poder-se-ia dizer que assim se vê como é o PCP!

 https://observador.pt/opiniao/assim-se-ve-como-e-o-pcp/ 

Eduardo Maltez Silva - Uma opinião sobre Sócrates e o futuro do PS

 


* Eduardo Maltez Silva

Esta é uma opinião controversa — e convém dizê-lo logo à partida: nada disto desculpa, apaga ou relativiza a mancha negra de corrupção que paira sobre José Sócrates.

Quem quer defender a verdade histórica não precisa de branquear a ferida democrática que esse caso abriu. Isso fica claro.

Mas reduzir todo o ciclo Sócrates à corrupção é intelectualmente desonesto.

Porque, goste-se ou não, houve ali uma coisa que hoje quase desapareceu da política portuguesa:

VISÃO DE PAÍS.

Sócrates teve vícios, arrogância, erros, obras discutíveis e uma relação perigosa com o poder económico. Mas também teve uma ideia de modernização nacional.

E muitas das coisas que, na altura, foram ridicularizadas, atacadas ou tratadas como propaganda são hoje absolutamente essenciais.

Foi assim com o Cartão de Cidadão.

Hoje, ninguém imagina voltar ao tempo em que cada pessoa andava com bilhete de identidade, cartão de contribuinte, cartão da Segurança Social, cartão de eleitor e cartão de utente separados. Mas, quando surgiu, foi apresentado como mais uma “mania modernizadora”.

O mesmo vale para o Simplex, a Empresa na Hora, o Documento Único Automóvel e a desmaterialização dos serviços públicos. Hoje parece banal. Na altura, era um gasto.

Foi assim com o Magalhães e com a escola digital.

O computador foi gozado até à exaustão. Era o “computadorzinho”, era a “propaganda”, era a “modernice”que só servia para jogarem jogos.

Mas a ideia era simples: pôr tecnologia nas mãos dos alunos, reduzir a desigualdade digital e aproximar a escola pública do futuro.

Hoje, quando o Estado distribui computadores a alunos e professores, ninguém acha isso uma loucura.

A forma podia ser discutível. A direção estava certa.

Foi assim com a lei do tabaco. Proibir fumar em restaurantes, cafés e locais de trabalho parecia, para muitos, uma violência contra a liberdade individual. Vieram os discursos do costume: “já não se pode fazer nada”, “é o Estado a meter-se na vida das pessoas”.

Hoje, entrar num restaurante cheio de fumo parece pré-histórico.

Foi assim com a escolaridade obrigatória até aos 18 anos e com a universalização do pré-escolar a partir dos 5 anos.

Hoje parece óbvio. Na altura, foi uma decisão política de fundo — com muitas críticas.

Foi assim com direitos civis.

A interrupção voluntária da gravidez foi despenalizada em 2007; o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado em 2010.

Hoje, para uma parte significativa do país, isto já é normalidade democrática.

Na altura, a histeria conservadora dizia que vinha aí o colapso moral da família, da sociedade e da civilização.

Não veio. Veio apenas mais liberdade, mais dignidade e mais igualdade perante a lei.

Foi assim com o Complemento Solidário para Idosos, criado para combater a pobreza entre os mais velhos com rendimentos mais baixos.

Hoje, ninguém sério deveria achar estranho que o Estado proteja idosos pobres.

Mas é precisamente o tipo de política que a direita económica detesta em silêncio — porque prova que o Estado social não é uma abstração ideológica.

É comida, aquecimento, medicamentos e dignidade na vida concreta das pessoas.

Foi assim também com a reforma dos cuidados de saúde primários e com as Unidades de Saúde Familiar.

Não resolveu tudo, não impediu a degradação posterior do SNS, mas introduziu uma lógica mais próxima, organizada e eficaz nos cuidados de primeira linha.

E depois há as energias renováveis.

Hoje, Portugal é elogiado como uma das histórias solares e renováveis mais interessantes da Europa. Mas isto não caiu do céu.

A viragem começou antes. Em 2007, o Governo Sócrates assumia a meta de 45% da eletricidade consumida a partir de fontes renováveis até 2010.

Em 2010, a Estratégia Nacional para a Energia 2020 afirmava expressamente que Portugal queria reforçar o seu estatuto de referência nas renováveis e na eficiência energética. A potência eólica instalada passou de 537 MW em 2004 para mais de 3500 MW em 2009.

Portugal não se tornou líder nas renováveis por acidente.

Houve uma decisão política deliberada: pegar num país sem petróleo, sem gás, sem carvão competitivo, mas com sol, vento, água, território e capacidade técnica, e transformar isso em soberania energética.

Durante anos, a direita gozou com isto. Chamou-lhe fantasia verde, custo excessivo, capricho ideológico.

Em 2024, as renováveis abasteceram 71% do consumo elétrico nacional. Que falem agora.

Também no turismo houve visão.

Sócrates não inventou a promoção turística. Mas o Plano Estratégico Nacional do Turismo, aprovado em 2007, tratou o setor como estratégico a sério: marcas, mercados, produtos, qualificação, inovação, articulação entre Estado e empresas.

E até no aeroporto a história tem uma ironia brutal.

A localização em Alcochete, decidida em 2008, foi atacada, adiada, enterrada, ressuscitada, trocada pelo Montijo e novamente discutida — e, no fim, muitos anos e muitos milhões desperdiçados depois, o país voltou exatamente ao mesmo ponto.

Em 2024, o Governo Montenegro anunciou o novo Aeroporto Luís de Camões no Campo de Tiro de Alcochete.

A decisão que tantos trataram como delírio era, afinal, a solução estrutural.

O atraso custou tempo, capacidade, competitividade, dinheiro e décadas de saturação na Portela. Parabéns a todos.

Depois veio 2008.

E aqui também é preciso limpar a propaganda de uma vez por todas.

A crise não nasceu em Lisboa.

Não nasceu porque Portugal deu computadores a crianças.

Não nasceu porque se investiu em eólicas, escolas, tecnologia, cartões digitais ou modernização administrativa.

A crise nasceu na banca desregulada dos Estados Unidos, no subprime, na engenharia financeira tóxica, no colapso de confiança que atravessou o Atlântico e rebentou na zona euro.

Portugal tinha fragilidades? Tinha.

Défices, dívida a subir, dependência externa, PPP, problemas de competitividade. Tinha.

Mas transformar tudo numa historinha infantil sobre “Sócrates gastou demais e, por isso, veio a troika” sempre foi propaganda — e a prova disso foi a forma desastrosa como a austeridade de Passos Coelho empobreceu o país e agravou a dívida em percentagem do PIB, precisamente a dívida que dizia combater.

Em 2025, segundo o Banco de Portugal, a dívida pública ainda representava 89,7% do PIB.

Temos mais dívida hoje do que no tempo de Sócrates, mas hoje somos vistos com uma das melhores economias no mundo...embora extremamente desigual.

Muitos países que estavam a investir no futuro foram apanhados pela mesma tempestade financeira global. Uns estavam mais preparados, outros menos. Portugal estava vulnerável.

Mas não foi um Governo português que inventou o subprime, a banca-sombra, os derivados tóxicos, o colapso do Lehman Brothers ou a arquitetura europeia inflexível que transformou uma crise bancária numa crise de Estados.

O que a direita fez depois foi genial do ponto de vista propagandístico: pegou numa crise global, numa zona euro mal desenhada, em fragilidades portuguesas reais, em erros do Governo Sócrates e na podridão posterior da Operação Marquês, misturou tudo numa panela e vendeu uma moralina simples: “o socialismo destruiu Portugal”.

Só que esse “socialismo” nem sequer existia.

O que existia era social-democracia reformista — com defeitos, vícios e alguns erros —, mas também com uma ideia clara: modernizar o Estado, digitalizar serviços, qualificar a escola, apostar em renováveis, proteger direitos civis, combater a pobreza, planear o turismo, pensar infraestruturas e tentar colocar Portugal no século XXI.

Compare-se isso com o que temos hoje.

Com todos os seus defeitos, Sócrates tinha uma ideia de país. Podia falhar. Podia exagerar. Podia construir mal. Mas queria construir.

Hoje, temos um Governo que parece não querer construir nada.

Gere o dia a dia.

Faz conferências de imprensa. Distribui slogans. Chama “reforma” a cortes. Chama “responsabilidade” à resignação. Chama “modernização” a entregar o país aos mesmos de sempre.

E há uma diferença simbólica terrível entre a corrupção de ontem e a zona cinzenta de hoje.

No caso Sócrates, a imagem pública ficou associada a envelopes com dinheiro, motoristas, contas na Suíça, amigos e dinheiro escondido.

Era a corrupção clássica, clandestina, subterrânea, cinematográfica.

Hoje, a corrupção modernizou-se.

Já não precisa de envelope entregue às escondidas, nem escondidos em caixas de vinho.

Pode aparecer com fatura, empresa familiar, avenças, consultoria, clientes, sigilo profissional e “trabalhos” que o cidadão comum nunca consegue verdadeiramente escrutinar.

A única coisa que se modernizou verdadeiramente foi a sofisticação da zona cinzenta.

Foi o Simplex da corrupção.

E, enquanto isto acontece nos bastidores, a sociedade foi domesticada para odiar um “socialismo” que nunca existiu.

Confundiram socialismo com social-democracia. Confundiram proteção social com preguiça. Confundiram Estado social com desperdício. Confundiram direitos com privilégios.

Criaram medo e ódio pelos de baixo para proteger os de cima — e assim convenceram muita gente a votar contra aquilo que a protege: SNS, escola pública, pensões, salários dignos, habitação acessível, direitos laborais, serviços públicos.

Sempre foi assim.

Disseram que o divórcio destruía a família. Disseram que a IVG destruía a moral.

Disseram que o casamento entre pessoas do mesmo sexo destruía a sociedade.

Disseram que não fumar em restaurantes destruía os cafés.

Disseram que computadores nas escolas eram propaganda.

Disseram que as renováveis eram fantasia e desperdício.

Disseram que o Estado digital era mania tecnocrática.

Depois, o país avança, o avanço torna-se normal e os mesmos que gritaram contra acabam a viver dentro do mundo que outros tiveram a coragem de construir.

Sem nunca agradecer.

Sem nunca assumir que estavam errados.

Por isso, está na hora de recuperar a palavra sem medo.

Não como dogma. Não como nostalgia.

Mas como aquilo que fez dos países mais livres, mais justos e mais desenvolvidos do mundo sociedades decentes: uma social-democracia corajosa, reformista, popular e democrática.

O novo PS tem de deixar de parecer uma versão educada da direita.

Tem de abandonar essa moderação bafienta que chama responsabilidade à resignação.

Tem de deixar de pedir licença aos mercados, aos comentadores, às televisões e aos salões onde nunca falta nada a ninguém.

O PS tem de voltar a ser progressista, popular, democrático e combativo: com a coragem de Pedro Nuno, o reformismo de Sócrates sem os seus vícios, a inteligência de Costa, a honestidade de Sampaio, o punho erguido de Mário Soares e o sentido social de Guterres.

Tem de parar de olhar para as elites — para os mercados, para os equilíbrios de salão, para os donos disto tudo — e voltar a olhar para baixo e para o meio: para quem paga renda, para quem espera no SNS, para quem educa filhos com salários curtos, para quem trabalha uma vida inteira e continua sem segurança.

Um PS que faz a diferença não pede desculpa por proteger as pessoas.

Reforma o Estado.

Enfrenta privilégios.

Combate desigualdades.

Investe no futuro.

Protege os serviços públicos.

Moderniza sem entregar o país aos privados.

Simplifica sem fragilizar o interesse público.

Cresce sem abandonar quem trabalha.

Precidamos de visão para o país...e ela nunca virá da direita.

Make social democracy great again.


2026  05 23

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