2026 02 01
Sobre um banimento — e sobre a
miséria política que ele expõe
Banimos recentemente uma pessoa
chamada Isabel Coelho, da Marinha Grande.
Convém dizê-lo desde já: não foi
por divergência ideológica abstrata, nem por capricho, nem por intolerância.
Foi por comportamento político
concreto.
A Isabel Coelho apresenta-se, no
seu próprio perfil, como socialista convicta, com o mural recheado de
publicações do PS e de apoio a António José Seguro. Está no seu direito.
Ninguém foi, nem é, banido por apoiar o PS.
O problema começou quando essa
pessoa decidiu intervir num post que nós publicámos, onde se republicava o
testemunho de um jovem da Marinha Grande. Um testemunho simples, direto e
politicamente legítimo:
que o PCP teve uma boa atitude,
que ajudou pessoas, que esteve presente no terreno, e que, apesar disso, é
sistematicamente isolado e silenciado pela comunicação social, ao contrário do
que acontece com figuras como André Ventura, omnipresente nos ecrãs.
Não havia ataques ao PS.
Não havia insultos.
Não havia provocação.
Havia uma constatação política
óbvia — e incômoda para alguns.
A resposta da Isabel Coelho não
foi debate.
Não foi discordância.
Não foi argumentação.
Foi isto, em substância:
“Aqui vocês não têm que falar. Vão
fazer política para o outro lado. Aqui quem manda somos nós.”
Isto não é opinião.
Isto é autoritarismo político,
embrulhado em militância partidária.
Foi por isso que houve banimento.
E foi um banimento legítimo.
Porque isto não é um caso isolado
Quem quiser reduzir isto a “uma
socialista exaltada” está a mentir — ou a proteger o problema.
Este comportamento não nasce do
nada.
É expressão de uma cultura
política profundamente enraizada no PS: a ideia de que a esquerda à esquerda do
PS existe apenas para servir, calar e alinhar.
O PS quer o voto da esquerda.
Quer o voto comunista.
Quer o voto “útil”.
Mas não tolera autonomia política,
nem crítica, nem memória histórica que não controle.
Quando alguém lembra que o PCP
esteve no terreno, ajudou populações concretas e fez trabalho real, a reação
não é debate: é mandar calar.
Aqui convém dizer as coisas pelo
nome.
Ajoelham e rezam sempre que
precisam apanhar os votos dos comunistas.
Sempre. Não é ocasional, não é
acidente. É rotina.
Rezaram com Costa.
Ajoelham e rezam agora com Seguro.
E vão ajoelhar e rezar sempre que
chegarem os pedidos de voto útil.
O ritual é claro:
Primeiro, arrebanhar os votos da
esquerda, de preferência ajoelhados.
Depois, insultar, mandar calar e
desprezar quem ousou pensar por si.
Repetir infinitamente, como se a
política fosse apenas uma devoção ritual à própria sobrevivência eleitoral.
Querem o voto comunista de
joelhos,
mas nunca suportam comunistas de
pé.
A hipocrisia socialista
É obsceno ver quem:
manda comunistas “fazer política
para outro lado”
diz “aqui quem manda somos nós”
deslegitima o PCP e o seu trabalho
ser a mesma gente que, em período
eleitoral, aparece com ar piedoso a pedir unidade, contenção e sacrifício.
Querem o voto, não querem a voz.
Querem o número, não querem o
sujeito político.
E ainda se indignam quando alguém
ousa não baixar a cabeça.
O voto em Seguro não é confiança —
é contenção de danos
Convém ser claro, porque o PS
gosta de confundir tudo.
Quem pondera votar em António José
Seguro não o faz por acreditar no PS, nem porque ache que o PS mudou de
natureza.
Fá-lo, quando muito, por voto
defensivo,
contra André Ventura,
não a favor do PS.
Isso não cria qualquer dívida
moral.
Não cria silêncio.
Não cria submissão.
E muito menos dá ao PS o direito
de insultar, humilhar ou mandar calar quem sempre esteve na linha da frente
contra a direita e a extrema-direita.
O PS errou, erra e continuará a
errar
Não é um problema de comunicação.
Não é um deslize local.
É linha política.
O PS:
gere o capitalismo
aceita a lógica do mercado
normaliza desigualdades
governa para os mesmos interesses
e depois finge surpresa com o
crescimento da extrema-direita
O PS não é o dique contra a
direita.
É, demasiadas vezes, o terreno
onde ela cresce.
Banir não foi censura — foi
higiene política
Espaços de esquerda não são
obrigados a tolerar:
intimidação
arrogância
lógica de dono do território
nem o “aqui mando eu” travestido
de militância
Quem entra para mandar calar não
entra para dialogar.
Banir esse comportamento foi um
ato de autodefesa política.
Conclusão
Este episódio não diz nada de
essencial sobre uma Isabel Coelho.
Diz tudo sobre o PS.
Um partido que exige votos à
esquerda enquanto despreza a esquerda.
Que pede unidade enquanto insulta.
Que fala de democracia enquanto
tenta silenciar quem luta.
A esquerda não existe para servir
o PS.
O PCP não existe para legitimar
carreiras socialistas.
E a democracia não pertence a quem
acha que manda nela.
Quem fala assim não tem projeto
democrático.
Tem apenas instinto de poder.
E isso, sim, é o verdadeiro problema.
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"O trabalho é mais importante e é independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho, e não existiria sem ele. O trabalho é superior ao capital e merece a consideração mais elevada." (Lincoln, Presidente dos EUA)