sexta-feira, 6 de março de 2026

Alfredo Barroso - MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES


MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES, ADMIRÁVEL CRONISTA E, SEM DÚVIDA, GRANDE ROMANCISTA QUE LI POUCO POR PREGUIÇA…

- confessa Alfredo Barroso, mais virado para as crónicas

António Lobo Antunes era sobretudo, para mim, um cronista genial, da envergadura de Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz, admiráveis cronistas do século XIX português. Oxalá reeditem, e tornem a pôr à venda as crónicas que ele escreveu. Leem-se, tal como as de Camilo e Eça, por puro prazer, deleite e admiração pela extraordinária riqueza e flexibilidade da escrita.

Foi um amigo meu, o Joaquim Brandão, quem me alertou, já lá vai quase meio século, para a “Memória de Elefante”, a que se seguiu, pois claro, a leitura de “Os Cus de Judas”. Vieram depois “A Morte de Carlos Gardel” e o “Manual dos Inquisidores”. E por aqui me fiquei.

Confesso que, neste último, não apreciei a insistência nas repetições, uma técnica de construção narrativa do autor cheia de desarrincanços, mas que me transtornava a leitura, o que só prova que me tornei preguiçoso e não sou bom leitor dos romances de António Lobo Antunes. Nota-se a cadência das repetições – como se topa logo desde o começo do ‘Manual’, com a insistência do latifundiário em dizer que não tira o chapéu da cabeça enquanto sodomiza criadas, por exemplo, «a filha do caseiro (…) acocorada num banquinho de pau», ou «a cozinheira estendida de costas no altar, de roupa em desordem e avental ao pescoço». E repete as explicações: «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão»…

E assim por diante, com repetições em série cheias de imaginação, muito sainete e manifesto talento literário. Até a um apocalipse final em que as palavras, frases e ideias se embrulham e atropelam, no meio de «cabanas desfeitas pela guerra e pela chuva», da ordem «queimem esta merda toda», e dum pai a implorar´repetidamente: «peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu». E acaba assim, a frase interrompida sem reticências…

O narcisismo, ou melhor, o fascínio de António Lobo Antunes pela sua própria escrita é mais que evidente, sobretudo nos romances que escreveu e menos nas suas admiráveis crónicas. Mas era, sem dúvida, um admirável escritor, sempre a lamentar que não lhe atribuíssem o Prémio Nobel da Literatura…

NOTÍCIA DA DEMÊNCIA E DA MORTE

O certo é que António Lobo Antunes morreu, esta quinta-feira, dia 5 de Março de 2026, com 83 anos de idade (só mais dois do que eu). Dizem as notícias da sua morte que escreveu mais de três dezenas de romances, e que, nos últimos anos, se afastou bastante do mundo, devido à demência que o afectou.

«A doença que o foi invadindo, acentuou-se durante o confinamento causado pela pandemia de Covid-19», revelou João Céu e Silva, seu biógrafo, citado pelo Expresso. O jornalista explicou que os sintomas da doença terão começado vários anos antes. Alguns desses sintomas são a perda de memória, a dificuldade de fazer novas aprendizagens, a perda frequente de objetos de valor, como carteiras e chaves, ou esquecer-se da comida ao lume. Cuidado Alfredo, ela vem aí…

“É a minha geração partindo”, comentou comovida a escritora Lídia Jorge, logo de manhã, tinha acabado de receber a notícia. “É uma geração que cumpriu o seu dever: deixámos a memória de um tempo de mudança extraordinária no país, e à frente de todos nós esteve ele.”

Para Lídia Jorge, António Lobo Antunes (ALA) foi capaz de pegar “nas aquisições do romance psicológico e fazer dele uma espécie de modelo inventivo para falar da história viva, ativa, portuguesa”, sublinhando “o que hoje é evidente, a necessidade da relação entre a Europa e o mundo colonial”, e fazendo-o por meio de “um estilo, um modo e uma forma que são universais”.

Essa forma que, segundo Gonçalo M. Tavares, é “das mais contagiantes em termos de estilo e de tom de escrita”. O autor, de 55 anos, conta que leu Lobo Antunes muito novo. “Ele falava muito de o leitor apanhar com os seus livros uma espécie de vírus, de doença benigna. Quando se é novo, é dificil ler e não escrever como ele. É uma avalanche de ritmo, de repetições, de diálogos, da própria estrutura da página... O leitor, depois de o ler, tem de resistir muito par não escrever como ele.”

E se gostou dos primeiros – cita o “Tratado das Paixões da Alma” e “Ordem Natural das Coisas” -, considera que a segunda fase de ALA finca o pé na linguagem de um modo “impressionante e corajoso” como poucos. “Esses últimos livros, sendo mais difíceis, estavam num mundo em que o romance se dissolve no trabalho da linguagem, em que se assume que a história não é importante. Coloca-se no campo da linguagem, do ritmo, da frase, da metáfora”.

Dulce Maria Cardoso concorda que António Lobo Antunes manteve o selo de qualidade e de originalidade até ao fim. “Fechou com chave de ouro, com “O Tamanho do Mundo”, que é um bom livro”, observa. “Sinto-me devedora dele, aprendi muito. Aprendi sobretudo, desde o início, essa coisa maravilhosa de que a escrita é trabalho, trabalho, trabalho. Ele próprio aplicou isso no seu caminho, ao evoluir muito ao longo dos anos”, diz a autora de “O Retorno”, que pouco se cruzou com o escritor nascido em Benfica.

Carlos Vaz Marques, jornalista e editor que conheceu o romancista, prefere recordá-lo relatando um dos “vários episódios marcantes” dos seus encontros com ele. “Fui entrevistar o António ao Hospital Miguel Bombarda, onde ele era médico psiquiatra. Levei um daqueles gravadores a pilhas, pequeninos, para registar a conversa. A meio do diálogo, batem à porta do gabinete. ‘Entre.’ Abre-se a porta e surge um homem de olhar vago, naquela espécie de farda hospitalar que vestiam os doentes em ambulatório. ‘Já está, sôtor; aqui tem.’ E lança dali mesmo uma chave, saindo de imediato. ‘Pedi-lhe para me ir arrumar o carro’, explica o médico. E depois, sem transição, sem qualquer inflexão especial, a frase fulgurante, guardada pelo gravador: ‘É um tipo porreiro. Matou o pai.’ Nunca mais ouvi alguém dizer de alguém que ‘é um tipo porreiro’ sem voltar a ouvir a frase do António. Que pena tenho de já só a poder ouvir, naquela voz bem timbrada, na minha cabeça.”

Campo d’Ourique, 5 de Março de 2026

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terça-feira, 3 de março de 2026

Michael Hudson - Da negociação à detonação



– O ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso ao Irão) é uma perfídia que ficará na história.
– Podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, ao Irão como o verdadeiro gatilho da Terceira Guerra Mundial.
– O ataque dos EUA pôs fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional dolarizado.
– Momento propício para a transferir a sede da ONU para fora dos próprios Estados Unidos.
– Não pode haver Estado de direito enquanto o controlo sobre a ONU e as suas agências permanecer nas mãos dos EUA e dos seus satélites europeus.

Michael Hudson [*]

Na última sexta-feira, o mediador das negociações nucleares entre os EUA e o Irão em Omã, o ministro das Relações Exteriores daquele país, Badr Albusaidi, desmascarou a pretensão enganosa do presidente Trump de ameaçar uma guerra com o Irão. Porquê? Porque este país havia recusado as suas exigências de desistir do que ele alegava ser a sua própria bomba atómica. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã explicou no programa Face the Nation da CBS que a equipa iraniana concordou em não acumular urânio enriquecido e ofereceu "uma verificação completa e abrangente pela AIEA". Esta nova concessão foi um "avanço nunca antes alcançado. E acho que, se conseguirmos aproveitar isso e construir sobre essa base, acho que um acordo está ao nosso alcance“ para alcançar ”um acordo de que o Irão nunca, jamais terá material nuclear que possa ser usado para fabricar uma bomba. Acho que isso é uma grande conquista".

Salientando que este avanço "foi muito ignorado pelos meios de comunicação social", ele enfatizou que exigir "zero armazenamento" foi muito além do que havia sido negociado durante o governo do presidente Obama, porque "se não se pode armazenar material enriquecido, não há como realmente criar uma bomba".

O aiatolá Ali Khamenei — que já havia emitido uma fatwa contra tal ato e repetido essa posição ano após ano — convocou os líderes xiitas e o chefe militar do Irão para discutir a ratificação do acordo de cessar o controle do urânio enriquecido, a fim de evitar uma guerra.

Mas tal capitulação era precisamente o que nem os Estados Unidos nem Israel podiam aceitar. Uma resolução pacífica teria impedido o plano de longo prazo dos EUA de consolidar e militarizar o seu controlo sobre o petróleo do Médio Oriente, o seu transporte e o investimento das suas receitas de exportação de petróleo, e de usar Israel e a Al Qaeda/ISIS como seus exércitos clientes para impedir que os países produtores de petróleo independentes agissem em seus próprios interesses soberanos.

A inteligência israelense aparentemente alertou as forças armadas dos EUA, sugerindo que a reunião no complexo do aiatolá oferecia uma grande oportunidade para decapitar todos os principais tomadores de decisão. Isto seguiu o conselho do manual militar dos EUA de que matar um líder político que os EUA consideram antidemocrático libertará os sonhos populares de mudança de regime. Essa era a esperança do bombardeamento da residência de campo do presidente Putin no mês passado, e estava em linha com a recente tentativa dos EUA de mobilizar a oposição popular para a revolução no Irão.

O ataque conjunto dos EUA e israelenses deixa claro que não havia nada que o Irão pudesse ter concedido que tivesse dissuadido a longa campanha dos EUA para controlar o petróleo do Médio Oriente, juntamente com o uso de Israel e dos exércitos clientes do ISIS/Al Qaeda a fim de impedir que nações soberanas da região emergissem e assumissem o controlo das suas reservas de petróleo. Esse controlo continua a ser um braço essencial da política externa dos EUA. É a chave para a capacidade dos EUA de prejudicar outras economias, negando-lhes acesso à energia se não aderirem à política externa dos EUA. Essa insistência em bloquear o acesso do mundo a fontes de energia que não estejam sob o controlo americano é a razão pela qual os EUA atacaram a Venezuela, a Síria, o Iraque, a Líbia e a Rússia.

O ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso ao Irão) é uma perfídia que ficará na história. O objetivo era impedir a intenção do Irão de avançar para a paz, antes que os seus líderes pudessem refutar a falsa alegação de Trump de que o Irão se recusara a desistir do seu desejo de obter a sua própria bomba atómica.

Seria interessante saber quantos dos colaboradores de Trump apostaram alto em que os preços do petróleo iriam disparar quando os mercados abrissem na segunda-feira de manhã.

Na semana passada, os mercados subestimaram enormemente o risco de fechar o Golfo do Petróleo. As empresas petrolíferas americanas vão lucrar muito. A China e outros importadores de petróleo vão sofrer. Os especuladores financeiros americanos também vão lucrar muito, porque a sua produção de petróleo é interna. Este facto pode até ter desempenhado um papel na decisão dos EUA de acabar com o acesso mundial ao petróleo do Médio Oriente por um período que promete ser longo.

A perturbação comercial e financeira será, de facto, tão mundial que penso que podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, ao Irão como o verdadeiro gatilho da Terceira Guerra Mundial. Para a maior parte do mundo, a crise financeira iminente (para não falar da indignação moral) definirá a próxima década de reestruturação política e económica internacional.

Os países europeus, asiáticos e do Sul Global não conseguirão obter petróleo, exceto a preços que tornarão muitas indústrias não rentáveis e muitos orçamentos familiares inviáveis. O aumento dos preços do petróleo também tornará impossível para os países do Sul Global pagar as suas dívidas em dólares vencidas aos detentores de títulos ocidentais, bancos e ao FMI.

Os países só poderão evitar a imposição de austeridade interna, desvalorização da moeda e inflação se reconhecerem que o ataque dos EUA (apoiado pela Grã-Bretanha e pela Arábia Saudita, com a aquiescência ambígua da Turquia) pôs fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional dolarizado. Se isso não for reconhecido, a aquiescência continuará até se tornar insustentável em qualquer caso.

Se esta é a batalha inaugural da Terceira Guerra Mundial, é, em muitos aspetos, uma batalha final para decidir o que foi a Segunda Guerra Mundial. Será que o direito internacional entrará em colapso como resultado da relutância de um número suficiente de países em proteger as regras do direito civilizado que sustentam os princípios da soberania nacional livre de interferência estrangeira e coerção, desde a Paz de Westfália de 1648 até à Carta das Nações Unidas? E no que diz respeito às guerras que inevitavelmente serão travadas, elas pouparão civis e não beligerantes, ou serão como o ataque da Ucrânia à sua população de língua russa nas províncias orientais, o genocídio de Israel contra a etnia palestina, a limpeza religiosa wahabi das populações árabes não sunitas, ou mesmo as populações iraniana, cubana e outras sob ataque patrocinado pelos EUA?

Será que as Nações Unidas podem ser salvas sem se libertarem a si próprias e aos seus países membros do controlo dos EUA? Um teste decisivo inicial para saber onde as alianças se estão a formar será quais os países que se juntarão à ação legal para declarar Donald Trump e o seu gabinete criminosos de guerra. É necessário algo mais do que o atual TPI, dados os ataques pessoais do governo dos EUA aos juízes do TPI que consideraram Netanyahu culpado.

O que é necessário é um julgamento à escala de Nuremberga contra a política militar ocidental que tem procurado mergulhar o mundo inteiro no caos político e económico se este não se submeter à ordem unipolar dos EUA. Se outros países não criarem uma alternativa à ofensiva dos EUA, Europa, Japão e Wahabi, sofrerão o que o secretário de Estado dos EUA, Rubio, chamou (em seu recente discurso em Munique) de ressurgimento da história ocidental de conquista [com o abandono] dos princípios básicos do direito internacional e da equidade.

Uma alternativa requer a reestruturação das Nações Unidas para acabar com a capacidade dos EUA de bloquear resoluções da maioria. Tendo em conta que o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a organização poderá estar falida em agosto e ter de fechar a sua sede em Nova Iorque, este é um momento propício para a transferir para fora dos próprios Estados Unidos. Os EUA proibiram Francesca Albanese de entrar no país devido ao seu relatório que descreve o genocídio israelense em Gaza. Não pode haver Estado de direito enquanto o controlo sobre a ONU e as suas agências permanecer nas mãos dos EUA e dos seus satélites europeus.

02/Março/2026

https://resistir.info/m_hudson/detonacao_02mar26.html

Dani,el Vaz de Carvalho -Assim estalou a guerra

3 de março de 2026

"Negociámos com os Estados Unidos duas vezes nos últimos 12 meses, e em ambos os casos, eles atacaram-nos no meio da negociação - disse o MNE do Irão. E assim estalou a guerra. Como terminará?Desde há mais de 30 anos que Israel afirma que o Irão está "a semanas" de ter uma arma nuclear. Quando se trata da intoxicação da opinião pública, não conta o facto de Ali Khamenei ter assumido através de uma fatwa (regra baseada na lei islâmica) o compromisso do Irão de não construir uma bomba nuclear.

O objetivo traçado também há mais de 30 anos é o império dominar o Médio Oriente, perante isto, não contam as vidas dos palestinos nem dos países recalcitrantes a serem submetidos. A questão pôs-se agora com maior acuidade dada a multipolaridade estabelecida. O plano global anti multipolaridade impunha fazer cair o Irão, enfraquecer a Rússia e a China, desarticular o Sul Global e dominar as fontes energéticas.

Que o principal oponente de uma bomba nuclear iraniana tenha sido morto num ataque direcionado, faz parte do esquema. Gente que clama por direitos humanos e direito internacional, refere extasiado o que não passou de um cobarde assassinato no decorrer de negociações. 

Na manhã de sábado, reuniram em Teerão os principais membros da liderança iraniana para avaliarem o andamento das negociações e cedências feitas. Os EUA bombardearam a reunião, matando altos funcionários e o líder supremo Ali Khamenei, provando que as suas negociações são simplesmente uma arma dos objetivos de domínio.

Os grandes media têm por missão a formatação das mentes dentro do padrão estabelecido. Assim, o que quer que o império realize é à partida aceitável e mesmo que existam algumas reticências vêm acompanhadas de um "mas" justificativo

Os ataques dos EUA e de Israel ao Irão fazem simplesmente parte do plano para remodelar o Médio Oriente a seu contento. Para submeter o Irão duas opções foram consideradas: o esquema venezuelano e o esquema sírio. O esquema venezuelano, supunha que eliminando o dirigente máximo e seus próximos o que restasse iria pedir a continuação das "negociações", por assim dizer de "baraço ao pescoço". Falhou.

A opção síria, implica um guerra civil de separatismo e focos de insurgência, como se viu antes, organizados pela CIA e Mossad, baseada na sedução por modelos ocidentais. Os focos de insurgência foram desmantelados, o separatismo agressivo só surgirá se as forças armadas iranianas forem decisivamente enfraquecidas. Resta uma terceira hipótese que Rubio disse que "para já" não se coloca: é a opção Afeganistão. Sem comentários...

Ora estas opções estratégicas dos EUA, encontram um Irão preparado para elas. Afirma o MNE do Irão: "Tivemos duas décadas para estudar as derrotas do exército dos EUA no nosso leste e oeste imediatos", referindo-se ao Afeganistão e ao Iraque. "Incorporámos lições em conformidade. Os bombardeamentos na nossa capital não têm impacto na nossa capacidade de conduzir guerra. A Defesa Mosaica descentralizada permite-nos decidir quando - e como - a guerra terminará".

A Defesa Mosaica é a abordagem de guerra assimétrica do IRGC para combater forças inimigas superiores. Inclui a delegação de autoridade de decisão significativa a comandantes locais (31 unidades autónomas), permitindo que as operações continuem mesmo que o comando central tenha sido decapitado. As táticas estabelecidas incluem a utilização da geografia do Irão (montanhas, desertos, mares), guerrilha, ataques surpresa e ações para perturbar as linhas de abastecimento inimigas. Cada unidade regional é praticamente autónoma com tudo o que é necessário para a guerra moderna, mísseis, drones, barcos de ataque rápido, baterias de defesa costeira, para a Marinha do IRGC. Defesa aérea integrada descentralizada permite a baterias individuais funcionarem como centros de defesa aérea locais. Note-se que o Irão tem uma superfície 1,648 milhões de km2 praticamente o dobro da França e Alemanha juntas e 93 milhões de habitantes.

Outros princípio da Defesa em Mosaico: silêncio de rádio e comunicações, para neutralizar as capacidades de guerra eletrónica dos EUA. Implantação de milícias voluntárias Basij (mais de 450 efetivos) para segurança interna, além de guerrilha de na retaguarda inimiga e defesa em profundidade no caso de uma incursão inimiga por terra.

Os media israelitas afirmam que Trump atacou o Irão para tentar suavizá-los para as negociações. Na véspera da agressão os estrategas militares dos EUA alegadamente esperavam um cenário de "pequena guerra decisiva", no qual os bombardeamentos seriam rapidamente seguidos por negociações de paz. De acordo com um relatório israelita, o planeamento dos EUA na véspera do ataque - ou pelo menos o que Nethanyau convenceu Trump - era para uma "operação de 4-5 dias" que "traria um Irão enfraquecido de volta à mesa de negociações".

Agora muitos começam a perceber que atacar o Irão foi uma "aposta excessiva" e que sem tropas no terreno as esperanças de mudança de regime não são possíveis.

O Irão resiste aos bombardeamentos e retalia não menos violentamente, os petroleiros estão parados no Golfo, há baixas dos EUA nas bases, grande aumento dos preços da energia, risco dos EUA e Israel ficarem sem intercetores à medida que o Irão intensifica os ataques e dos navios - mesmo porta-aviões - serem atingidos.

Publicada por Daniel Vaz de Carvalho à(s) terça-feira, março 03, 2026 

https://foicebook.blogspot.com/2026/03/assim-estalou-guerra.html#more

domingo, 1 de março de 2026

Ricky - Estamos mesmo fingindo que o atentado a bomba da turma de Epstein ...

Nexo anti-imperialista

Estamos mesmo fingindo que o atentado a bomba da turma de Epstein em uma escola para meninas iranianas conta como libertação das mulheres?

01 de março de 2026

Uma guerra ilegal para desviar a atenção da pedofilia está sendo vendida como "libertação" por setores da mídia, num colapso total da ética jornalística. O Washington Post publicou um artigo de opinião de Reza Pahlavi, autoproclamado "Príncipe Herdeiro" do Irã, declarando que "a hora da sua liberdade está próxima". Parece que ninguém no Post se lembrou de perguntar aos iranianos se eles gostariam de um Príncipe Herdeiro, e eu aqui pensando que isso era sobre democracia.

A Operação Fúria Épica já se tornou um desastre humanitário, ceifando centenas de vidas inocentes e arriscando uma guerra regional de maior escala. O Príncipe Palhaço do Crime deve estar se deliciando com as paisagens urbanas em chamas por todo o Oriente Médio, cortesia da classe de Epstein. Provavelmente não haverá vencedores, mas enquanto Pahlavi continuar reinando sobre os escombros...

Os israelenses estão escondendo a dimensão da destruição e mal mencionando as mortes de civis, mas as evidências sugerem que o número de vítimas é muito maior do que o admitido . De alguma forma, Israel subestimou novamente a capacidade de retaliação do Irã. É difícil ter compaixão pelos israelenses encolhidos em bunkers quando essa situação é inteiramente autoinfligida. O que quer que estejam sofrendo agora é mil vezes menor do que já infligiram a outros.

Se ao menos a mídia tivesse abordado o assunto dessa forma, em vez de retratar israelenses e americanos como vítimas. O New York Times publicou uma matéria sobre as dificuldades enfrentadas pelos israelenses que se refugiaram em abrigos antiaéreos, como se os palestinos não tivessem passado mais de dois anos caminhando pelo país com barracas. Uma jornalista da MSNBC se expôs ao ridículo ao perguntar ao ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi: “Como o senhor justifica atacar bases militares americanas?”. Sua resposta foi simples: “Porque vocês estão nos atacando”.

O jornalismo ocidental tornou-se uma piada. Ele simplesmente oferece diferentes versões de propaganda, adaptadas aos nossos preconceitos, enquanto nos conduz a uma versão "woke" ou "anti-woke" do imperialismo.

Eis o contexto adequado para esta guerra: os ataques ilegais deste império violaram a soberania do Irã e destruíram famílias, enquanto seu luto é reembalado como libertação. Os autoproclamados salvadores das mulheres iranianas acabaram de bombardear uma escola para meninas, para vocês terem uma ideia. Nada do que a classe de Epstein diz deve ser levado a sério.

A afirmação de Trump sobre o Irã estar construindo armas nucleares que poderiam atingir os EUA é um absurdo desprezível. Seus próprios assessores não conseguem manter uma versão coerente dos fatos — alguns dizem que as instalações nucleares foram "destruídas" em 2025, enquanto outros gritam que o ataque nuclear é iminente. Não pode ser as duas coisas.

As mesmas vozes que clamavam contra a brutalidade iraniana para justificar a mudança de regime agora estão transformando as cidades iranianas em Gaza. Não se trata de uma operação de precisão, mas sim de um bombardeio indiscriminado que ultrapassou todos os limites. Nada ilustra melhor essa depravação do que o ataque à escola primária feminina Shajareh Tayyebeh. Três mísseis disparados contra um único prédio escolar não é um erro. Pelo menos 148 inocentes foram mortos no ataque e 95 ficaram feridos — a maioria meninas de 7 a 12 anos.

Imagens mostram equipes de resgate retirando mochilas e livros escolares dos destroços: os sonhos de uma geração destruídos por ocidentais que odeiam o hijab. Em nome dessas meninas, posso dizer: que se dane a sua libertação?

Isso não foi dano colateral, foi um crime de guerra flagrante. De acordo com as Convenções de Genebra e a Carta da ONU, ataques contra infraestrutura civil são proibidos. Autoridades iranianas denunciaram o ataque como um "crime atroz", enquanto os militares dos EUA disseram que estavam "investigando" as denúncias. É uma questão de tempo até que o exército de Epstein se inocente.

Esta guerra não começou porque o Irã se recusou a fazer concessões; começou porque estava pronto para aceitar um acordo nuclear. As negociações em Genebra e Omã, no início de fevereiro, estavam fadadas ao fracasso devido às crescentes exigências para que o Irã desmantelasse seu programa de mísseis e rompesse relações com seus aliados.

Já vimos essa estratégia antes: os EUA e Israel atacam durante as negociações e culpam o outro lado porque um acordo é a última coisa de que o Projeto do Grande Israel precisa. Tel Aviv decidiu que a guerra era sua última chance de enfraquecer seu maior rival antes que o desenvolvimento de mísseis e drones do Irã estabelecesse uma dissuasão real.

Não vamos esquecer que o Irã não invade outro país há séculos. Todos sabemos que Israel tem uma arma com balas em formato de kompromat apontadas para a cabeça de Trump. Ele concordou em sacrificar seus próprios homens e mulheres para se salvar. Que sujeito.

A vitória parece improvável para ambos os lados e o custo da guerra será enorme. As forças americanas e israelenses lançaram quase 900 ataques aéreos em todo o Irã, visando instalações militares, prédios governamentais e complexos de lideranças. Explosões abalaram Teerã, Tabriz e províncias do sul. Imagens de satélite mostram fumaça subindo de instalações importantes, mas o Irã está revidando com força . Foto após foto mostra bases americanas reduzidas a escombros. Uma base de radar que custou US$ 1,1 bilhão foi destruída no Catar — os americanos sem plano de saúde arcarão com os custos.

Toda essa destruição levanta a questão de se as baixas americanas estão sendo ocultadas. Até o momento, os relatos mencionam pelo menos três militares americanos mortos e outros feridos nos primeiros dias, mas esse número parece muito baixo. Meu palpite é que o número real de mortos provocaria a fúria do público americano.

Centenas de iranianos morreram nas primeiras doze horas, entre eles altos comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica e — o mais chocante — o aiatolá Ali Khamenei . Ao contrário de Netanyahu, que embarcou em um avião, Khamenei permaneceu com seu povo até o fim. Chame-o do que quiser, mas essa é a diferença entre um líder nativo e um colonizador.

O presidente dos EUA, cujo nome consta mais de um milhão de vezes nos arquivos de Epstein, vangloriou-se no Truth Social por ter assassinado um chefe de Estado — seu mais recente crime de guerra. O pedófilo, que está cometendo o crime de agressão supremo, chamou o aiatolá Khamenei de "uma das pessoas mais perversas da história". A ironia acaba de morrer.

Os EUA assassinaram o líder que emitiu uma fatwa proibindo armas nucleares, logo depois de o próprio Trump ter rompido o acordo nuclear. Talvez se o aiatolá tivesse demonstrado "respeito pelos direitos das mulheres" viajando até a ilha de Epstein, ele ainda estaria vivo. Parece que seu verdadeiro crime foi trilhar um caminho independente para seu povo em vez de se juntar à rede comprometida.

Se você pensa que o Irã vai simplesmente se render, pense novamente. O Irã promete ataques "sem precedentes", potencialmente usando aliados como o Hezbollah ou os Houthis para uma guerra assimétrica. Seus mísseis hipersônicos Fattah-2 teriam sido usados ​​pela primeira vez, sinalizando o desafio tecnológico do Irã. Imagens nas redes sociais mostraram explosões em Tel Aviv e um importante clérigo xiita emitiu uma fatwa prometendo "golpes terríveis". Embora eu não tenha certeza se o Irã pode vencer esta guerra, certamente pode causar danos enormes.

O número de vítimas aumenta nos países do Golfo, aeroportos estão fechados e turistas estão retidos, incluindo celebridades ocidentais que publicam vídeos das explosões nas redes sociais. A economia dos Emirados Árabes Unidos, baseada no turismo e nos investimentos, depende da estabilidade e agora pode sofrer um duro golpe. Uma coisa que o império sabe fazer é prejudicar seus aliados.

As consequências da Guerra Epstein são devastadoras, com milhares de mortos e feridos, como as meninas de Minab cujos futuros foram roubados num instante. O fluxo de refugiados pode aumentar drasticamente e será interessante observar os defensores da guerra exigindo que eles voltem para casa. Economicamente, as remessas de petróleo pelo Estreito de Ormuz foram interrompidas , o que representa um risco de crise financeira global. Independentemente de outras nações serem arrastadas para um conflito maior, todos nós sentiremos o impacto. Se o seu custo de vida aumentar, culpe a classe de Epstein. Se a convocação para o serviço militar chegar, revolte-se.

https://www.councilestatemedia.uk/p/were-really-pretending-the-epstein?