MORREU ANTÓNIO
LOBO ANTUNES, ADMIRÁVEL CRONISTA E, SEM DÚVIDA, GRANDE ROMANCISTA QUE LI POUCO
POR PREGUIÇA…
- confessa
Alfredo Barroso, mais virado para as crónicas
António Lobo
Antunes era sobretudo, para mim, um cronista genial, da envergadura de Camilo
Castelo Branco e Eça de Queiroz, admiráveis cronistas do século XIX português.
Oxalá reeditem, e tornem a pôr à venda as crónicas que ele escreveu. Leem-se,
tal como as de Camilo e Eça, por puro prazer, deleite e admiração pela
extraordinária riqueza e flexibilidade da escrita.
Foi um amigo
meu, o Joaquim Brandão, quem me alertou, já lá vai quase meio século, para a
“Memória de Elefante”, a que se seguiu, pois claro, a leitura de “Os Cus de
Judas”. Vieram depois “A Morte de Carlos Gardel” e o “Manual dos Inquisidores”.
E por aqui me fiquei.
Confesso que,
neste último, não apreciei a insistência nas repetições, uma técnica de
construção narrativa do autor cheia de desarrincanços, mas que me transtornava
a leitura, o que só prova que me tornei preguiçoso e não sou bom leitor dos
romances de António Lobo Antunes. Nota-se a cadência das repetições – como se
topa logo desde o começo do ‘Manual’, com a insistência do latifundiário em
dizer que não tira o chapéu da cabeça enquanto sodomiza criadas, por exemplo,
«a filha do caseiro (…) acocorada num banquinho de pau», ou «a cozinheira
estendida de costas no altar, de roupa em desordem e avental ao pescoço». E
repete as explicações: «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da
cabeça para que se saiba quem é o patrão»…
E assim por
diante, com repetições em série cheias de imaginação, muito sainete e manifesto
talento literário. Até a um apocalipse final em que as palavras, frases e
ideias se embrulham e atropelam, no meio de «cabanas desfeitas pela guerra e
pela chuva», da ordem «queimem esta merda toda», e dum pai a
implorar´repetidamente: «peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu
filho que apesar de tudo eu». E acaba assim, a frase interrompida sem
reticências…
O narcisismo,
ou melhor, o fascínio de António Lobo Antunes pela sua própria escrita é mais
que evidente, sobretudo nos romances que escreveu e menos nas suas admiráveis
crónicas. Mas era, sem dúvida, um admirável escritor, sempre a lamentar que não
lhe atribuíssem o Prémio Nobel da Literatura…
NOTÍCIA DA
DEMÊNCIA E DA MORTE
O certo é que
António Lobo Antunes morreu, esta quinta-feira, dia 5 de Março de 2026, com 83
anos de idade (só mais dois do que eu). Dizem as notícias da sua morte que
escreveu mais de três dezenas de romances, e que, nos últimos anos, se afastou
bastante do mundo, devido à demência que o afectou.
«A doença que o
foi invadindo, acentuou-se durante o confinamento causado pela pandemia de
Covid-19», revelou João Céu e Silva, seu biógrafo, citado pelo Expresso. O
jornalista explicou que os sintomas da doença terão começado vários anos antes.
Alguns desses sintomas são a perda de memória, a dificuldade de fazer novas
aprendizagens, a perda frequente de objetos de valor, como carteiras e chaves,
ou esquecer-se da comida ao lume. Cuidado Alfredo, ela vem aí…
“É a minha
geração partindo”, comentou comovida a escritora Lídia Jorge, logo de manhã,
tinha acabado de receber a notícia. “É uma geração que cumpriu o seu dever:
deixámos a memória de um tempo de mudança extraordinária no país, e à frente de
todos nós esteve ele.”
Para Lídia
Jorge, António Lobo Antunes (ALA) foi capaz de pegar “nas aquisições do romance
psicológico e fazer dele uma espécie de modelo inventivo para falar da história
viva, ativa, portuguesa”, sublinhando “o que hoje é evidente, a necessidade da
relação entre a Europa e o mundo colonial”, e fazendo-o por meio de “um estilo,
um modo e uma forma que são universais”.
Essa forma que,
segundo Gonçalo M. Tavares, é “das mais contagiantes em termos de estilo e de
tom de escrita”. O autor, de 55 anos, conta que leu Lobo Antunes muito novo.
“Ele falava muito de o leitor apanhar com os seus livros uma espécie de vírus,
de doença benigna. Quando se é novo, é dificil ler e não escrever como ele. É
uma avalanche de ritmo, de repetições, de diálogos, da própria estrutura da
página... O leitor, depois de o ler, tem de resistir muito par não escrever
como ele.”
E se gostou dos
primeiros – cita o “Tratado das Paixões da Alma” e “Ordem Natural das Coisas”
-, considera que a segunda fase de ALA finca o pé na linguagem de um modo
“impressionante e corajoso” como poucos. “Esses últimos livros, sendo mais
difíceis, estavam num mundo em que o romance se dissolve no trabalho da
linguagem, em que se assume que a história não é importante. Coloca-se no campo
da linguagem, do ritmo, da frase, da metáfora”.
Dulce Maria
Cardoso concorda que António Lobo Antunes manteve o selo de qualidade e de
originalidade até ao fim. “Fechou com chave de ouro, com “O Tamanho do Mundo”,
que é um bom livro”, observa. “Sinto-me devedora dele, aprendi muito. Aprendi
sobretudo, desde o início, essa coisa maravilhosa de que a escrita é trabalho,
trabalho, trabalho. Ele próprio aplicou isso no seu caminho, ao evoluir muito
ao longo dos anos”, diz a autora de “O Retorno”, que pouco se cruzou com o
escritor nascido em Benfica.
Carlos Vaz
Marques, jornalista e editor que conheceu o romancista, prefere recordá-lo
relatando um dos “vários episódios marcantes” dos seus encontros com ele. “Fui
entrevistar o António ao Hospital Miguel Bombarda, onde ele era médico
psiquiatra. Levei um daqueles gravadores a pilhas, pequeninos, para registar a
conversa. A meio do diálogo, batem à porta do gabinete. ‘Entre.’ Abre-se a
porta e surge um homem de olhar vago, naquela espécie de farda hospitalar que
vestiam os doentes em ambulatório. ‘Já está, sôtor; aqui tem.’ E lança dali
mesmo uma chave, saindo de imediato. ‘Pedi-lhe para me ir arrumar o carro’,
explica o médico. E depois, sem transição, sem qualquer inflexão especial, a
frase fulgurante, guardada pelo gravador: ‘É um tipo porreiro. Matou o pai.’
Nunca mais ouvi alguém dizer de alguém que ‘é um tipo porreiro’ sem voltar a
ouvir a frase do António. Que pena tenho de já só a poder ouvir, naquela voz
bem timbrada, na minha cabeça.”
Campo
d’Ourique, 5 de Março de 2026
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"O trabalho é mais importante e é independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho, e não existiria sem ele. O trabalho é superior ao capital e merece a consideração mais elevada." (Lincoln, Presidente dos EUA)