Uma palmatória, comparações
"absurdas" e "traições à pátria": o debate entre Pacheco
Pereira e Ventura sobre presos políticos
Uma frase de Ventura que levou os deputados constituintes a abandonarem uma sessão no Parlamento levou a um debate tenso, longo, com relatórios pelo meio e até uma palmatória.
Mariana Lima Cunha. Texto
14 abr. 2026
A premissa era simples: contrariar
a ideia, lançada por André Ventura na sessão solene pelos 50 anos da
Constituição portuguesa, de que houve mais presos políticos a
seguir ao 25 de Abril do que (imediatamente) antes. O repto foi lançado por
Pacheco Pereira, Ventura aceitou, e o que se seguiu foi 1h20 de debate (e
alguns gritos) em que os dois discutiram as prisões, a descolonização e a
corrupção durante a ditadura portuguesa, com diferentes armas: muitos livros,
um dossiê com relatórios e uma palmatória, levada por Pacheco
Pereira para ilustrar as torturas levadas a cabo pelos portugueses nas antigas
colónias.
O debate organizado pela CNN andou
sempre à volta da mesma ideia: André Ventura queria defender que houve prisões
políticas e tortura no período da transição para a democracia, o que
significaria que nem tudo na democracia é bom e “nem tudo [na ditadura] foi
mau”; Pacheco Pereira considerava a comparação “absurda”, uma vez
que punha em confronto as prisões, torturas e outras restrições às liberdades
que aconteceram durante 48 anos de ditadura e a “turbulência própria” dos meses
seguintes, a que se pôs termo com a normalização do regime democrático.
O líder do Chega explicou
inicialmente que o que “quis dizer” no dia da sessão da Constituição foi que
especificamente no dia 24 de Abril de 1974 havia menos presos
políticos em Portugal do que haveria uns meses depois, referindo-se também aos
expatriados que foram “perseguidos pelos novos donos de sistema”. Falou da
forma como cresceu em Mem Martins, sem “privilégio”: “Estou à vontade para dizer:
o sistema anterior errou mas o que veio não trouxe naqueles meses tudo de bom.
Eu gostava era de ter uma democracia plena, em que não houvesse
presos políticos e torturados e expropriações”.
Ouça
aqui a reportagem da Rádio Observador
Além disso, Ventura arrancou o
debate contestando a ideia de que todas as pessoas presas nas colónias fossem
presos políticos, mostrando as imagens de bebés mortos pela UPA em 1961 e
defendendo que alguns presos o foram por estarem a “atacar os
nossos militares”.
“Você mete-se em cada sarilho…”,
cometou Pacheco Pereira, lembrando o número de presos a 24 de Abril — 127 em
Portugal continental, 4249 nas colónias — e lembrando também que o número de
guerrilheiros presos era relativamente baixo, até porque muitos eram
executados; grande parte dos presos seriam “enfermeiros, funcionários dos
correios, pastores protestantes, professores, estudantes aliciados a
regressarem a Portugal”. Além disso, argumentou, quem se defendia da “ocupação
portuguesa” deveria ser considerado preso político. “Se Espanha invadisse
Portugal o que fazia? É uma atitude política”, frisou. “Como bom
nacionalista que é, admite que estavam a lutar pelo seu país”.
Por entre ataques vários — “hoje
não tem aqui a Alexandra Leitão, é o André Ventura”; “Eu gosto muito do meu
país, em muitos aspetos mais do que o André Ventura” — os debatentes foram
comparando números e também os castigos corporais que
existiram, em muito maior número durante o Estado Novo. “Trouxe uma palmatória
que era usada nos castigos corporais”, mostrou Pacheco Pereira, lendo
descrições de torturas da PIDE em Moçambique: “Violação anal com
garrafas, mutilação do pénis com queimaduras, choques elétricos, suspensão do
tecto de cabeça para baixo, Sabe qual é o problema? É que estes são pretos.
Eram tratados como sub-homens. Vários deles desapareceram. Estas
violências eram sistemáticas e aconteceram durante todo o período do império
colonial”.
Já Ventura leu as descrições de
torturas que aconteceram já depois do 25 de Abril, incluindo de “carpinteiros,
comerciantes, advogados e reformados, pessoas que discordavam da
extrema-esquerda”, e ironizou: se a ditadura era “tão feroz”, não
poderiam existir apenas “cento e tal presos em Lisboa” (número que se referia
apenas à véspera do 25 de Abril).
“Podemos concordar que tudo o que
é tortura é mau, mas não me venham com a história de que a violência de direita
é má e a de esquerda é boa”, foi repetindo o líder do Chega, enquanto o
historiador defendia que há “comparações que são elas próprias mentira“,
como a que Ventura faz entre 48 anos de ditadura e os dois anos posteriores. “É
tão pontual que é incomparável”, disse, frisando que não nega que tenha havido
violência e tortura já no período da liberdade, mas que a da ditadura foi “sistemática”.
“Sabe o que são 48 anos de tortura sistemática, de humilhação das pessoas
comuns, de violência, de censura? Isso cria uma situação em que a transição
portuguesa, mesmo com esses casos, foi relativamente pacífica. Deixou uma
enorme herança de vingança e ressentimento“.
Inevitavelmente, a
discussão passou por nomes particularmente controversos — Pacheco Pereira
descreveu Marcelino da Mata como um “assassino” que se
“gabava” de matar homens, mulheres e crianças, Ventura respondeu que Otelo
Saraiva de Carvalho é que era “um assassino e um bandido”. Ventura
defendeu que PCP e UDP deviam pagar as “expropriações erradas” do pós-25 de
Abril e que em toda a ditadura não se encontra uma ordem de Salazar ou Marcelo
Caetano para mandar prender alguém — não precisavam, já que
tinham uma polícia política ao dispor, contrapôs o historiador.
Houve ainda tempo, num debate com
mais meia hora do que o anunciado, para falar da descolonização,
que Ventura considerou “criminosa” (“Queriam tanto a independência e hoje estão
a vir para cá viver”) e para Pacheco Pereira concluir que o interlocutor
“justifica a ditadura”. “Com esse tipo de afirmação de extrema-direita, [o
Chega] é um partido fascista“. “Eu nasci em 1983, não quero saber
da ditadura para nada”, respondeu Ventura. “É a história da Humanidade, temos
de estar do lado da nossa pátria”, exclamou, confrontado com o número de
pessoas mortas na guerra colonial.
Com Pacheco Pereira a culpar
Salazar pelos erros na descolonização, Ventura acusou-o de “trair a
sua pátria”. “Devíamos ter tido uma transição democrática, não comunistas a
assaltar o poder. Os senhores, incluo-o a si, estavam tão cheios de chama do
espírito de comunista não olharam a meios. Por isso Portugal está na cauda da
Europa”. “Essa ‘revolução miserável’ deu a liberdade a Portugal e para dizer o
que diz. Quem lutou contra a ditadura lutou por Portugal. Eu amo o
meu país”, respondeu Pacheco Pereira.
A discussão passou ainda pelos
grupos terroristas de extrema-esquerda e extrema-direita após o 25 de Abril,
tendo a ELP “beneficiado” da condescendência “gigantesca” das
autoridades e sido, como as FP-25, “amnistiada com a ideia de
que se ia pacificar a sociedade”. Os últimos, frisou Pacheco Pereira, chegaram
a ser condenados porque “a democracia nessa altura estava a funcionar”.
Ainda houve tempo para uma breve
incursão pelo tema da corrupção, com Ventura a dizer que na
ditadura “havia corrupção como agora há” — “Então porque é que não pôs um
cartaz a dizer 100 anos de corrupção?”, questionou Pacheco Pereira,
referindo-se ao cartaz em que o Chega diz que já lá vão “50 anos de corrupção”
— isto é, referindo-se apenas ao tempo de democracia. Ventura acabou por dizer
que “Sócrates roubou muito mais do que Salazar” e que o “sistema
está podre de corrupção”, acabando por prometer que se tivesse nascido mais
cedo, no tempo da ditadura, lá estaria também a lutar contra o problema.
A troca de acusações final teve a
ver com cristianismo — “eu sou ateu”, disse Pacheco Pereira; “faz mal”,
respondeu Ventura”; “o seu partido é o mais anticristão. Não há uma
declaração dos dois últimos Papas que não seja diretamente contra as posições
do Chega na imigração”, atirou o historiador; “Não me dá lições de cristianismo
porque fazemos (…) luta contra a islamização”, respondeu o líder partidário.
Teriam continuado por ali fora, mas já não havia mais tempo.

Sem comentários:
Enviar um comentário
"O trabalho é mais importante e é independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho, e não existiria sem ele. O trabalho é superior ao capital e merece a consideração mais elevada." (Lincoln, Presidente dos EUA)