terça-feira, 12 de maio de 2026

Natasha Smirnoff - A MORTE DE CARLOS BRITO E O QUE REALMENTE INCOMODA NO PCP

* Natasha Smirnoff

A nota do PCP coube num parágrafo. Os comentários nas redes sociais encheram três dias. Entre um e outro, a fotografia de Carlos Brito jovem, de cravo na mão, circulou como prova, como acusação, como saudade, tudo ao mesmo tempo.

A nota era breve. Referia o antifascista, o resistente, o homem de Abril. Não havia ali afecto encenado nem absolvição de última hora. Havia distância. E a distância, como já se escreveu esta semana, não nasceu agora: tem vinte e cinco anos.

Carlos Brito rompeu com o PCP em 2000. Não se limitou a retirar-se. Fundou uma associação, defendeu aproximações ao PS, fez a sua escolha. O Partido fez a dele. Até aqui, uma história comum nas democracias normais. Em Portugal, uma ferida que reabre sempre ao primeiro toque.

Foi também por isso que regressou agora à circulação a carta publicada há anos por Miguel Carvalho na Visão. O trabalho jornalístico, diga-se, era irrepreensível. Qualquer jornalista teria feito o mesmo. O problema não está no acto de publicar. Está na reutilização da carta, um quarto de século depois, como se tivesse sido escrita ontem, como se o contexto específico da luta interna no comunismo português dos anos 90 pudesse ser apagado em nome da indignação do momento.

Lida sem histerias nem devoções, a carta mostra sobretudo um homem profundamente desiludido com o rumo do Partido. Fala de suspeição, de rigidez, de incapacidade de renovação. Matéria incómoda, sim. Mas só se incomoda verdadeiramente quem acredita que os partidos sobrevivem sem fracturas.

O que me interessa nesta polémica, no entanto, não é a nota. É uma pergunta que quase ninguém faz: e se o PCP tivesse razão em manter a frieza? Não razão sentimental. Razão política.

Num tempo em que os partidos se vendem como biografias, o líder, o salvador, o rosto, o PCP conserva uma anomalia rara: não depende de um homem só. Carlos Brito foi importante. Mas o Partido nunca foi dele. E essa característica é, ao mesmo tempo, a sua força e a sua dureza. Explica tanto as suas resistências como os seus silêncios.

Há, no fundo, algo de profundamente desconfortável na forma como a esquerda portuguesa lida com os seus mortos. Exige-se ao PCP que chore como uma família quando há vinte e cinco anos que não existem laços familiares. Exige-se calor onde houve ruptura. E, no limite, exige-se que um partido minta sobre a sua própria história para não ferir susceptibilidades externas. Não me parece sério.

Na verdade, o debate daquela época era mais fundo do que hoje se quer fazer parecer. Não se discutiam apenas estilos de liderança. Discutia-se a própria natureza do PCP após a queda da União Soviética. Havia quem defendesse uma transformação numa força eurocomunista, mais adaptada aos novos tempos, mais permeável a entendimentos governativos e mais próxima da social-democracia europeia. Carlos Brito situava-se nessa linha.

Só que a história europeia acabou por ser cruel para quase todos os partidos comunistas que seguiram esse caminho. Muitos dissolveram-se na irrelevância ou foram absorvidos pelo centrismo liberal que julgavam conseguir domesticar. O PCP, pelo contrário, manteve-se. Menor, mais envelhecido eleitoralmente. Mas vivo.

E aqui entra um dado que raramente aparece nas análises apressadas: o declínio comunista não é um fenómeno exclusivamente português, nem pode ser explicado apenas por decisões internas. A desindustrialização fragmentou comunidades de trabalho, os sindicatos perderam peso social, o individualismo tornou-se ideologia dominante e a política passou a disputar-se em territórios digitais controlados por gigantes tecnológicos que moldam emoções e indignações em tempo real.

Nesse ambiente, partidos assentes em organização militante, disciplina colectiva e trabalho de base entram inevitavelmente em desvantagem perante movimentos líquidos e algoritmos desenhados para premiar o ruído. As grandes plataformas digitais não criaram a crise dos partidos tradicionais, mas aceleraram-na brutalmente.

Talvez por isso haja qualquer coisa de paradoxal nesta polémica. Muitos dos que hoje acusam o PCP de frieza são os mesmos que, há décadas, anunciam com entusiasmo o seu desaparecimento iminente. E no entanto o Partido continua ali. Sobrevivendo a cisões, à queda do bloco soviético, à desertificação industrial, ao colapso da imprensa partidária e à era digital.

Isto não é uma defesa acrítica do PCP. O Partido tem falhas evidentes, teimosias que custam votos, uma dificuldade real em falar para quem não fala a sua língua. Mas o que realmente parece incomodar não é nenhuma dessas falhas. É o facto de o PCP insistir em permanecer de pé.

Num tempo em que as convicções duram o tempo de um scroll, uma organização que conserva disciplina, memória e uma certa teimosia institucional torna-se quase obscena.

Carlos Brito foi uma figura importante da história comunista portuguesa. Ninguém sério o negará. Mas o PCP reconheceu o seu papel histórico sem fingir uma proximidade política inexistente há décadas. Pode parecer frio. Talvez seja. Mas também há uma honestidade particular nisso.

No fim de contas, o incómodo real não está na nota de pesar. Está no que ela representa: a recusa de um partido em encenar sentimentos que não tem. E, mais do que isso, a recusa em desaparecer só porque o calendário eleitoral ou o tribunal das redes sociais assim o exigem. É essa teimosia que irrita. É também essa teimosia que o mantém vivo.

2026 05 12 

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