segunda-feira, 15 de junho de 2026

Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms

 Opinião

As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.

Se há cidade europeia que sabe o que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações da violência sectária. Só mudou o alvo.

A história da caça às minorias que se viveu na última semana é relativamente simples de contar. Um requerente de asilo sudanês, a quem fora concedida autorização de permanência no Reino Unido, foi responsável por um ataque à faca de rara brutalidade. A vítima, um homem na casa dos 40 anos, perdeu um olho e testemunhas falaram de uma tentativa de decapitação. O crime exige mão rápida e pesada.

É o tipo de crime que a extrema-direita adora para espalhar a culpa e a vingança por associação. Não quer saber da vítima e até ignorou os familiares que pediram para “não se politizar” o ataque. Quer combustível para o ódio. Em poucas horas, foram publicadas listas com moradas de imigrantes e de advogados de imigração nas redes sociais. Homens mascarados arrombaram portas para “libertar” as casas. Enfermeiras de minorias étnicas foram arrancadas dos carros a caminho do trabalho. O ano passado já tinha acontecido algo parecido, depois de uma acusação de violação contra jovens romenos.

Na véspera da oferta pública em Wall Street que o tornou o homem mais rico do planeta — uma fortuna equivalente a tudo o que o nosso país produz em três anos —, o que ocupou o tempo de Elon Musk não foi a SpaceX. Foi Belfast. Mais de cem tweets em quatro dias. Partilhou o apelo a protestos por todo o país, lançado pelo ativista britânico de extrema-direita, Tommy Robinson, sabendo muito bem que acabariam em violência. Continuou a dar palco a Rupert Lowe, líder de um partido sem qualquer exposição até Musk o promover, que defende deportações em massa, a proibição do abate halal kosher e a reposição da pena de morte. Amplificou Matt Goodwin, outra figura marginal. Difundiu listas com dezenas de locais para protestos-relâmpago e acrescentou a sua própria instrução: “só protestando REPETIDAMENTE e RUIDOSAMENTE haverá mudança”.

Segundo o Center for Countering Digital Hate, Musk amplificou as imagens da violência de Belfast até elas somarem mais de 64 milhões de visualizações. Musk não é um nome lateral nestes protestos. É um dos seus maiores instigadores e promotores.

Elon Musk não vive no Reino Unido. O mais certo é não conhecer Belfast e as suas camadas de história. Mas sabe, como Trump, que cada país pode ser usado como cenário para a sua guerra ideológica. O multiculturalismo, os direitos, os tribunais, os requerentes de asilo, a BBC, os governos liberais, tudo é apresentado como prova de uma civilização que se odeia a si própria. Não é por acaso que Ventura partilha um sem número de falsidades internacionais, como a que Amesterdão proibiu a publicidade a carne no espaço público para não ofender muçulmanos. A imagem de caos e dissolução das sociedades é central na propagação do medo e ressentimento que alimenta a sua mensagem.

A violência sectária recuou, mas as estruturas que a alimentaram não desapareceramEm alguns bairros, antigas redes paramilitares protestantes, antes viradas contra católicos, encontraram novos alvos. A organização, a intimidação, o controlo territorial, a capacidade de mobilizar jovens, tudo isso já lá estava. Mudou o inimigo. O imigrante, o muçulmano, o requerente de asilo, o não branco, o advogado que o defende. A violência sectária apenas mudou de alvo para continuar a demonstrar quem manda no bairro.

O que ardeu em Belfast tem um nome que a Europa devia conhecer de cor, porque o escreveu com o seu próprio sangue: pogrom. Casas marcadas, famílias expulsas, multidões a “limpar” bairros, minorias transformadas em ameaça comum.

As redes sociais não inventaram a propaganda do ódio. As máquinas que normalizaram o extermínio dos judeus não precisaram de algoritmos. A diferença é que a mentira viaja à velocidade da luz e não conhece fronteiras. As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional. Representam a concentração sem precedentes históricos dos fluxos informativos, nas mãos de três ou quatro pessoas. São elas que, através do algoritmo, decidem o que vemos, o que se repete, o que parece ameaça e o que é escondido. Sem transparência, sem controlo democrático e com um incentivo estrutural para amplificar o que nos torna piores. O ódio é rentável porque é partilhável. E a violência e o medo do caos são sempre excelentes conteúdos.

As democracias são frágeis quando a desigualdade volta a ser obscena, o custo de vida esmaga classes médias atormentadas por sucessivas crises inflacionistas. É o caldo perfeito para a extrema-direita. O ressentimento nasce de uma vida material em degradação, de instituições desacreditadas, de um sistema de poder onde sentimento que o voto conta cada vez menos nas decisões que efetivamente contam. E tem o mais poderoso dos aliados: a elite das big tech. Os mesmos que, sentados numa concentração sem paralelo, se aliaram a Trump para fazer frente às tentativas de regulação da União Europeia e lhes permitir carta-branca para as suas explorações na nova fronteira tecnológica, a Inteligência Artificial.

O primeiro-ministro britânico fez alusões, mais ou menos veladas, a Musk quando falou na perseguição legal dos autores morais dos distúrbios racistas. O empresário sul-africano respondeu como sempre, dizendo que Starmer “odeia brancos”. Musk é um dos rostos mais perigosos desta convergência entre riqueza extrema, poder tecnológico e autoritarismo cultural. Não é excêntrico ou provocador. É o proprietário de uma máquina global de influência que usa para promover forças interessadas em tornar a democracia ingovernável.

Numa coisa, Musk tem razão: Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Quando um trilionário consegue exportar ódio para um país que desconhece e antigas paramilícias encontram nas redes sociais uma nova logística para os seus pogroms, temos um problema existencial no coração da democracia. Ou os governos europeus tomam a sério a regulação das redes sociais ou podem organizar as exéquias das suas democracias.

 2026 Junho15

https://expresso.pt/opiniao/2026-06-15-o-trilionario-que-promove-pogrom 

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