* Domingos Lobo
É parábola dos tempos sombrios da década de 60, do País sob Salazar
O teatro épico é a tentativa mais ampla e mais radical de criação de um grande teatro moderno; cabe-lhe vencer as mesmas imensas dificuldades que, no domínio da política, da filosofia, da ciência e da arte, todas as forças com vitalidade têm de vencer.1
Bertolt Brecht e o seu conceito de teatro épico teve influência determinante, em início dos anos 1960, em alguns autores progressistas como José Cardoso Pires, com “O Render dos Heróis”; Luís Sttau Monteiro, com “Felizmente Há Luar” e “As Mãos de Abraão Zacut”; Luzia Maria Martins, com “Bocage”, “Alma Sem Mundo” e “O Judeu”, de Bernardo Santareno.
Destes cinco textos dramáticos, só “Felizmente Há Luar” e “O Judeu”, face às incursões censórias, não tiveram estreia entre nós antes de 25 de Abril de 1974.
A peça de Sttau Monteiro foi considerada pela crítica, logo em 1961, data da sua publicação, um texto incontornável, vencendo o Grande Prémio de Teatro. Uma tentativa, do próprio autor, de encenar a peça, em 1962, no Teatro Experimental do Porto, resultou gorada. Mas a peça de Sttau tornou-se, ao longo dos anos, marco referencial da nossa produção dramática da segunda metade do século XX, texto de leitura quase obrigatória entre aqueles que se opunham à ditadura salazarista, de tal forma que a Ática lançava, dois anos depois, a 5.ª edição desta peça, totalizando treze mil exemplares. Contudo, a peça de Sttau Monteiro só chegaria aos palcos portugueses em 1978, no Teatro Nacional de D. Maria II, encenada pelo próprio autor.
“Felizmente há Luar” tem como cenário o ambiente político de inícios do século XIX: em 1817, uma conspiração, encabeçada pelo general Gomes Freire d’ Andrade, que pugnava pelo regresso do Brasil do rei D. João VI e se manifestava contrária à presença inglesa, foi descoberta e reprimida com muita severidade, sendo Gomes Freire enforcado e os outros conspiradores acusados de traição à pátria, queimados publicamente num acto bárbaro e medieval. Os mandantes, entre os quais se destaca a figura sinistra do Principal Sousa, mas igualmente do melífluo D. Miguel Forjaz, da usura cínica de Beresford, dos sabujos denunciantes (os delatores do século XIX, herdados de Pina Manique, figuras em que Sttau Monteiro procurou simbolizar os bufos pidescos), contrapondo as figuras populares, os mais conscientes da sua classe, Manuel e Rita e Matilde de Melo, a corajosa companheira de Gomes Freire d’Andrade. Não por acaso, a peça abre com a fala de Manuel que, num processo de interrogação brechtiana, introduzindo na diegese, de modo dialéctico, a inquietação reveladora do trágico final: «Que posso eu fazer? Sim: que posso eu fazer: Vê-se a gente livre dos Franceses e zás! Cai na mão dos ingleses! E agora? Se acabamos com os Ingleses ficamos na mão dos reis do Rossio... Entre os três o diabo que escolha... Deus todo-poderoso para a frente... […] E enquanto eles andam para trás e para a frente, para a esquerda e para a direita, nós não passamos do mesmo sítio.»2
A peça estrutura-se pelo conteúdo fortemente ideológico, como alegoria da opressão que se vivia na época em que foi publicada (1961), sob a ditadura de Salazar. O recurso à distanciação histórica e à descrição das injustiças praticadas no início do século XIX, permitiu a Sttau, de forma assertiva, inferir os malefícios do seu tempo que tiveram como alvo homens e mulheres antifascistas. É, assim, uma «parábola dos tempos sombrios da década de 60»3, da realidade social e política do País, vivida sob o jugo de Salazar, que Sttau Monteiro traça analogias com o período histórico em que a peça se estrutura, com a realidade política ao tempo da sua gestação. Tempo incomum, em termos sociais e políticos, para o fascismo: ano em que o paquete Santa Maria é tomado de assalto por Henrique Galvão; os movimentos de libertação iniciam a insurreição armada em Angola; a Índia de Nehru invade e toma Goa, Damão e Diu e José Dias Coelho é assassinado pela PIDE numa rua de Lisboa.
“Felizmente Há Luar” é um drama narrativo, dentro da estética do teatro épico, que descreve a “trágica apoteose” do movimento liberal oitocentista em Portugal e interpreta as condições da sociedade portuguesa do início do século XIX e a revolta das massas mais esclarecidas, das sociedades secretas (a maçonaria, as franjas do jacobinismo nascente) contra o poder absolutista e tirânico do miguelismo, de Beresford e sequazes.
Na situação actual do nosso Teatro e da Cultura em geral, sob a batuta do PSD, parece-nos grave que os responsáveis dos nossos teatros continuem a ignorar autores como Sttau, Santareno, Redol, Torga, Romeu Correia, Cardoso Pires, Rebelo, ou seja, a Arte Viva que o Teatro é, fronteira cultural e de resistência contra as derivas conservadoras que atravessam o nosso tempo.
1Bertolt Brecht, Estudos Sobre Teatro, p.26, Portugália editora, Lisboa, 1964
2Felizmente Há Luar, pp. 13 e 14, 5.ª edição, Ática
3Filomena Oliveira/Miguel Real, O Teatro na Cultura Portuguesa do Século XX, p. 134, Vega, Lisboa, 2016
https://www.avante.pt/pt/2743/argumentos/184202/%E2%80%9CFelizmente-H%C3%A1-Luar%E2%80%9D-a-prop%C3%B3sito-do-centen%C3%A1rio-de-Lu%C3%ADs-de-Sttau-Monteiro.htm
