Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 30 de julho de 2026
(40) - António Maria Eusébio, “o Calafate” - Nunca fui mal procedido
(39) Sebastião da Gama - Naufrágio
quarta-feira, 29 de julho de 2026
(38) Laureano Rocha - Rio Azul
(37) - Sebastião da Gama - Serra Mãe - excerto
(36) Bocage - Auto-retrato [Magro, de olhos azuis, carão moreno]
Bocage na Rua - 30 + 1 Poemas - 01 - 2ª edição
segunda-feira, 27 de julho de 2026
(35) Bocage - Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado
quarta-feira, 22 de julho de 2026
(34) - Giovan Matteo Garipa; língua e cultura sardas
Este mural em Orgosolo é uma exaltação da língua, cultura e história literária sarda, prestando homenagem a uma das figuras intelectuais mais importantes da história da vila: o padre e escritor Giovan Matteo Garipa (século XVII).
O texto nas paredes é uma citação direta retirada do prólogo da obra Su Legendariu de Santas Virgines et Martires de Jesu Cristu (1627), escrita por Giovan Matteo Garipa e considerada um marco da literatura em prosa sarda:
terça-feira, 21 de julho de 2026
(33) - Neo-realismo e pacifismo em Orgosolo: Vittorio de Seta e Charlot
Estes dois murais em Orgosolo (Sardenha) capturam duas vertentes fundamentais da identidade e do muralismo da vila: a valorização da memória cultural e a mensagem pacifista/antimilitarista.
1. O Mural do Cartaz de Cinema: "Banditi a Orgosolo" (À esquerda)
O que está escrito?
Topo: "CINEMA FONTANA"
Cartaz: "BANDITI A ORGOSOLO"
Preço: "INGRESSO L. 150"
Rodapé: "FILM DIRETTO DA VITTORIO DE SETA INTERPRETATO DAI PASTORI DI ORGOSOLO"
O que representa?
O Resgate da Identidade Local: Recreia o cartaz do icónico filme neorrealista de 1961 (Bandidos em Orgosolo), realizado por Vittorio De Seta.
Vittorio De Seta (1923–2011): É o autor e realizador do filme Banditi a Orgosolo (1961). Ele era famoso pelos seus documentários e filmes que retratavam com enorme realismo a vida dos camponeses, pescadores e pastores do sul da Itália e da Sardenha, usando frequentemente as próprias pessoas locais como atores.
A Dignificação dos Pastores: O filme usou os próprios habitantes e pastores da vila como atores (retratados no mural), abordando a dura realidade da região da Barbagia sem cair nos estereótipos pejorativos que o Estado costumava atribuir à população sarda.O filme é um clássico do cinema italiano porque não utilizou atores profissionais; foi protagonizado pelos próprios pastores de Orgosolo (como Michele Cossu e Peppeddu Cuccu, cujos rostos surgem pintados no mural) para contar a história realista de um pastor acusado injustamente que se vê forçado a fugir para as montanhas.
Em vez do estereótipo pejorativo de "povo criminoso" que o Estado italiano frequentemente atribuía à região da Barbagia, o filme (e este mural que o celebra) retrata a dura realidade socioeconómica, a solidão do pastor e as injustiças do sistema judicial, tornando-se um motivo de enorme orgulho comunitário.
2. O Mural do Soldado Charlot: "Un'altra guerra? No grazie." (À direita)
O que está escrito?
No balão de fala da personagem:
"un'altra guerra? no grazie." ("Uma outra guerra? Não, obrigado.")
O que representa?
A imagem de Charlot de capacete de aço, farda militar e espingarda às costas foi inspirada no icónico filme mudo de 1918 "Charlot nas Trincheiras" (Shoulder Arms), rodado durante a Primeira Guerra Mundial.
Nessa obra-prima da comédia pacifista, Chaplin retrata a vida difícil e absurda do seu lendário Vagabundo recrutado para as trincheiras da Frente Ocidental em França.
Ao transpor essa figura para as paredes de Orgosolo, o pintor Francesco Del Casino usou essa exata imagem de Charlot vestindo a farda militar para criar a poderosa mensagem antagónica de paz: "Un'altra guerra? No grazie." ("Outra guerra? Não, obrigado.").
A Rejeição Absoluta do Militarismo: Com uma expressão melancólica e o olhar direto para o transeunte, a personagem recusa categoricamente novos conflitos. O mural sintetiza o forte sentimento antimilitarista de Orgosolo, marcado pela resistência histórica à ocupação de terras para bases e exercícios militares na Sardenha.
sexta-feira, 17 de julho de 2026
(32) - Rui Belo - Esta rua alegre
(31) - José Régio - Romance de Vila do Conde
O excerto presente na lápide faz parte do poema "Romance de Vila do Conde", escrito por José Régio, uma composição lírica de tom nostálgico, onde o autor recorda com saudade as paisagens da sua infância e juventude na sua terra natal.
O texto completo do poema é o seguinte:
domingo, 28 de junho de 2026
(30) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
* Google Gemini
Este mural em Orgosolo (visível na imagem image_ec8a08.jpg) traz de volta a famosa citação de Don Lorenzo Milani retirada da sua "Carta aos Juízes" de 1965. Curiosamente, esta é a mesma passagem que transcrevemos anteriormente, mas desta vez pintada num formato puramente textual e abstrato.
O que está escrito?
O texto foi pintado em letras maiúsculas pretas e rústicas, ocupando grande parte de um painel branco:
"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il direito di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri. (DON MILANI)"
Tradução:
"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. (DON MILANI)"
(Nota: O pintor cometeu um pequeno erro ortográfico de grafia na palavra "direito", escrevendo-a em português/espanhol com "g" em vez do italiano "diritto", além de trocar a palavra original "diseredati" por "disperati", o que é muito comum em reproduções populares de cariz oral ou de memória).
O que representa este mural?
Esta obra representa o antifascismo, o internacionalismo e a primazia da justiça social sobre as fronteiras geográficas ou o nacionalismo estatal.
1. Elementos Visuais e Simbologia
Estilo Gráfico Abstrato: Ao contrário de outros murais figurativos de Orgosolo que mostram pastores ou cenas históricas, este foca-se na força crua da palavra escrita. O texto assenta sobre manchas de cores primárias vivas — vermelho, amarelo e azul — dispostas de forma fluida no fundo. Estas formas orgânicas e dinâmicas servem para dar destaque e urgência à leitura da mensagem.
A Sombra Projetada: A própria arquitetura do edifício cria uma sombra triangular cortante sobre a pintura, conferindo ao mural uma forte integração com a envolvência urbana da vila.
2. O Significado Político e Humanitário
Ao estampar esta frase de Don Milani no centro da Sardenha, os muralistas recusam a lógica de exclusão baseada na terra de nascimento. A obra afirma que a verdadeira divisão da humanidade não se faz por passaportes ou bandeiras (italianos vs. estrangeiros), mas sim por uma linha de classe e de justiça: os que sofrem (os oprimidos) contra os que abusam do poder (os opressores).
Para a comunidade de Orgosolo, historicamente marginalizada pelo Estado centralizado, esta frase serve como um lema de solidariedade universal com todos os povos que sofrem pressões semelhantes em qualquer canto do planeta.
VER (28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
quarta-feira, 17 de junho de 2026
(29) Quando i primi missionari arrivarono in Africa ...
Este mural em Orgosolo aborda uma perspetiva crítica sobre o colonialismo e a perda de soberania dos povos indígenas, utilizando uma citação histórica célebre.
O que está escrito?
O texto central está escrito em italiano com uma caligrafia cursiva avermelhada na parede de tom ocre:
"Quando i primi missionari arrivarono in Africa, noi avevamo la terra e loro la Bibbia. Allora chiudemmo gli occhi e pregammo. Quando li riaprimmo noi avevamo in mano la Bibbia e loro avevano la terra. (DESMOND TUTU Vescovo anglicano del Sud Africa)"
Tradução:
"Quando os primeiros missionários chegaram a África, nós tínhamos a terra e eles tinham a Bíblia. Então fechámos os olhos e rezámos. Quando os reabrimos, nós tínhamos a Bíblia na mão e eles tinham a terra. (DESMOND TUTU, Bispo anglicano da África do Sul)"
(Nota: Embora a frase seja frequentemente atribuída ao Arcebispo Desmond Tutu ou a Jomo Kenyatta, o primeiro presidente do Quénia, ela resume uma crítica partilhada sobre os métodos de subjugação colonial).
Esta frase em específico tem um percurso muito curioso: ela não pertence a um livro ou a um manifesto longo e estruturado, mas nasceu originalmente como uma parábola ou provérbio oral popular partilhado entre as comunidades africanas durante a descolonização.
Por se tratar de uma expressão da tradição oral, não existe um "texto integral" ou um documento de arquivo de onde tenha sido extraída. No entanto, ela foi popularizada mundialmente de duas formas principais:
1. A versão e o ensaio de Desmond Tutu
Embora o mural atribua a frase a Desmond Tutu, o próprio Arcebispo sul-africano explicou num ensaio biográfico posterior que esta já era uma "velha rábula" (an old saying) que os negros sul-africanos contavam quando debatiam a perda das suas terras sob o regime do Apartheid.
Tutu utilizava-a frequentemente nos seus discursos para quebrar o gelo, acrescentando-lhe um desfecho irónico e teológico:
"A storiella racconta un cattivo affare? Uno perde la propria terra in cambio di che cosa? Della Bibbia. [...] Ma io voglio affermare nella maniera più netta che non abbiamo fatto un cattivo affare: la Bibbia è un libro sovversivo. I colonizzatori ci hanno dato il libro che conteneva i semi della nostra stessa liberazione."
Tradução: "Será que a história conta um mau negócio? Perder a terra em troca de quê? Da Bíblia. [...] Mas eu quero afirmar da maneira mais clara que não fizemos um mau negócio: a Bíblia é um livro subversivo. Os colonizadores deram-nos o livro que continha as sementes da nossa própria libertação."
2. A atribuição a Jomo Kenyatta
Muitos historiadores associam originalmente a autoria desta metáfora a Jomo Kenyatta (o líder da independência do Quénia e seu primeiro presidente), que a utilizava nos seus comícios políticos na década de 1950 para ilustrar o processo de expropriação forçada sofrido pela etnia Kikuyu face aos colonos britânicos. Na sua versão, o foco era puramente a perda dos recursos:
"When the Missionaries arrived, the Africans had the land and the Missionaries had the Bible. They taught us how to pray with our eyes closed. When we opened them, they had the land and we had the Bible."
Resumo: O texto que vê no mural é, na verdade, o texto completo em si. Ele condensa em poucas linhas um aforismo anticolonial que se tornou universal e que os muralistas de Orgosolo adotaram para espelhar a sua própria desconfiança histórica em relação às forças externas que tentavam ocupar as terras da Sardenha.
O texto não faz parte de um discurso oficial longo ou de uma obra literária estruturada. É exatamente isso: a frase funciona por si só como um aforismo ou uma parábola de tradição oral.
A força dessa mensagem reside precisamente na sua capacidade de condensar uma realidade histórica complexa — o processo de colonização e a perda de soberania de um povo — numa metáfora curta, direta e de fácil memorização. Foi por ser uma tirada tão marcante e curta que se espalhou pelo mundo, sendo adotada por diferentes líderes políticos e, eventualmente, pintada nas paredes de Orgosolo como um lema universal de resistência (Google Gemini)
terça-feira, 16 de junho de 2026
(28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
Este mural em Orgosolo foca-se numa profunda reflexão social, ética e humanitária, recorrendo a uma das citações mais célebres da história do ativismo e da pedagogia social italiana.
O que está escrito?
O texto está escrito em italiano com letras maiúsculas pretas e desalinhadas sobre um fundo branco rodeado por formas abstratas coloridas (amarelo, vermelho e azul). A inscrição diz o seguinte:
"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il diritto di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri (DON MILANI)"
Tradução:
"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros (DOM MILANI)."
O excerto pintado no mural faz parte da célebre "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici), escrita por Don Lorenzo Milani a 18 de outubro de 1965.
Dom Milani escreveu este texto como memória de defesa para o tribunal de Roma, uma vez que se encontrava gravemente doente com cancro e não podia deslocar-se pessoalmente ao seu julgamento. Ele tinha sido processado por "instigação à delinquência" após ter defendido publicamente o direito à objeção de consciência dos jovens que recusavam o serviço militar obrigatório.
Abaixo encontra-se a transcrição integral do parágrafo exato de onde o excerto foi retirado, tanto no original em italiano como traduzido para português:
Texto Original (Em Italiano)
"Non posso dire ai miei giovani che l'unico modo d'amare la legge sia d'obbedirla. Posso solo dir loro che essi dovranno tenere in tale onore le leggi degli uomini da osservarle quando sono giuste (cioè quando sono la forza del debole). Quando invece vedranno che non sono giuste (cioè quando sanzionano il sopruso del forte) essi dovranno battersi perché siano cambiate.
Ma l'obbedienza civile a una legge ingiusta, cioè alla legge che non sia ancora riusciti a cambiare, non è che una forma di pigrizia e di viltà. Bisogna che la cambino accettando la pena che la stessa legge prevede per chi la viola (questa è obbedienza alla legge, ma disobbedienza alla forza).
È questo il profondo significato della nonviolenza dei grandi santi e dei grandi laici della nostra epoca.
Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri allora vi dirò che, nel vostro senso, io non ho patria e reclamo il diritto di dividere il mondo in diseredati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni son la mia patria, gli altri i miei stranie
ri. E se voi avete il diritto di insegnare che gli italiani e i loro alleati compiono sempre atti giusti e che gli altri sono sempre nel torto, allora io reclamo il diritto di dire che anche gli italiani hanno compiuto atti ingiusti e che anche gli altri hanno compiuto atti giusti."
Tradução em Português
"Não posso dizer aos meus jovens que a única maneira de amar a lei seja obedecer-lhe. Só lhes posso dizer que eles deverão ter em tal honra las leis dos homens que as devem observar quando são justas (isto é, quando são a força do fraco). Quando, pelo contrário, virem que não são justas (isto é, quando sancionam o abuso do forte), eles deverão lutar para que sejam mudadas.
Mas a obediência civil a uma lei injusta, isto é, a uma lei que ainda não se conseguiu mudar, não passa de uma forma de preguiça e de cobardia. É preciso que a mudem aceitando a pena que a própria lei prevê para quem a viola (isto é obediência à lei, mas desobediência à força).
Este é o significado profundo da não-violência dos grandes santos e dos grandes laicos da nossa época.
Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então dir-vos-ei que, no vosso sentido, eu não tenho pátria e reclamo o direito de dividir o mundo em deserdados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. E se vós tendes o direito de ensinar que os italianos e os seus aliados praticam sempre atos justos e que os outros estão sempre errados, então eu reclamo o direito de dizer que também os italianos praticaram atos injustos e que também os outros praticaram atos justos." (Google Gemini)
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