* Daniel Oliveira
A polémica dos
chapéus de sol em frente às concessões foi só um episódio de uma guerra que mal
começou. A praia é um dos últimos redutos de propriedade pública disponível
para todos. Num país que fez do litoral um resort para não residentes, em que a
praia deve ser exclusiva, o domínio público marítimo é visto como um obstáculo
económico. Na Arrábida, a família Mirpuri foi a tribunal reclamar cinco praias.
Se não resistirmos, a areia que é nossa pode não sobrar por muito tempo
Durante anos,
milhares de portugueses chegaram à praia, olharam para a frente das concessões
privadas e pensaram: "Aqui não posso pôr o chapéu." A feliz surpresa
veio quando o presidente da APA classificou como "abuso" a proibição
de colocar chapéus de sol em frente às concessões. Este braço de ferro é o
mesmo que se trava um pouco por toda a costa: entre a
pressão privada para retirar à maioria o que é de todos e a resistência de uma
instituição pública que os portugueses parecem valorizar mais do que qualquer
outra.
Estávamos em
2022, e um empreendimento de luxo ligado ao fundo americano Discovery Land
Company tinha posto a circular anúncios que promoviam "praias de acesso
privado" na Costa Terra, entre Tróia e Melides. A APA interveio. Na
Comporta, outro empreendimento vedou os parques de estacionamento das praias.
Ainda recentemente tentei chegar, sem sucesso, à praia de Brejos da
Carregueira. É assim que começa: uma vedação aqui, um acesso
condicionado ali.
A praia é um
dos poucos lugares onde um empregado de balcão e um gestor de fundo estendem a
toalha no mesmo areal. O último reduto de um igualitarismo que
desapareceu de quase toda da vida social portuguesa – escolas, hospitais,
bairros. Por isso, quando a APA disse que à frente das
espreguiçadeiras dos concessionários todos somos livres de abrir os nossos
chapéus de sol, esse direito pareceu óbvio.
Por toda a
Europa, o litoral é um campo de batalha entre o direito de todos e o modelo de
negócio de alguns. Nas praias gregas, apesar de uma lei que obriga a
manter 70% do areal livre de espreguiçadeiras, é comum encontrar praias
inteiramente tomadas por operadores privados; em Itália, as concessões
balneares, herdadas do fascismo, transformaram a maioria da costa numa
propriedade privada de facto; em Espanha, os “chiringuitos” avançaram sobre o
domínio público durante décadas. Portugal resistiu melhor. Em 1864, um
decreto régio declarou as praias e as margens do mar como domínio público
imprescritível. E isso tornou-se identidade nacional.
O que se passa
na Serra da Arrábida é um teste sério a esta velha conquista. O grupo
empresarial fundado por Paulo e Carlos Mirpuri — associado à
insolvência da Air Luxor que, segundo o Ministério Público, foi culposa, a
opacidade societária reportada e a contratos com vários governos europeus para
a execução de voos de deportação de migrantes operados pela Hi Fly
— comprou, em 2019, por 16 milhões de euros, os 600 hectares da Herdade
da Comenda, em pleno Parque Natural. Seguiu-se uma estratégia de cerco:
quilómetros de arame farpado a bloquear caminhos públicos; obstrução da romaria
secular à capela de São Luís; vedação do Parque de Merendas, que só reabriu por
intervenção da Câmara com a GNR.
Em julho de
2025, a família interpôs uma ação judicial para reclamar a propriedade
das praias da Rasca, Comenda, Rainha, Maria Esguelha e Albarquel. Num
segundo processo, reivindicam o Parque de Merendas e a ribeira da Ajuda,
exigindo que a Câmara reponha a vedação. A base legal existe. O decreto de 1864
ressalvou os direitos de quem já era proprietário das margens antes dessa data,
ressalva codificada na lei de 2005: quem provar que uma parcela de margem
marítima era propriedade particular antes de 1864 tem direito ao reconhecimento
judicial. A Herdade foi adquirida em hasta pública em 1852. É esse título que
os Mirpuri agitam.
O Estado tem
argumentos sólidos. O Ministério Público invoca um parecer da Comissão
do Domínio Público Marítimo de 1989 em que a praia não integrava a propriedade.
Os três marcos de delimitação apresentados pelos proprietários não foram
localizados pela comissão especializada nos anos 80, e dois aparentam ser betão
recente. A APA acrescenta que as praias da Comenda e da Rainha ficam submersas
em praia-mar, qualificando-as como leito do estuário, insuscetível de
reconhecimento privado.
Mas há
um precedente: em 2017, o mesmo Tribunal de Setúbal reconheceu como
privados os terrenos da Praia de Alpertuche com o argumento que a propriedade
foi adquirida antes de 1864. O Estado perdeu, apesar da APA considerar
que a praia balnear e a servidão de uso público de acesso
ao mar mantêm-se. Uma decisão favorável aos Mirpuri criaria um guião para a
privatização das praias. A costa portuguesa tem muitas destas propriedades. E
mesmo que a lei mantenha uma servidão de uso público, a história da Comenda
ensina que entre o que a lei promete e o que acontece no terreno costuma haver
uma vedação metálica e muita demora nos tribunais.
A economia
portuguesa tornou-se crescentemente dependente de dois setores que têm na costa
o seu principal ativo: o turismo e o imobiliário. O litoral
transformou-se num resort cuja a valorização depende da exclusividade. O
que está em jogo na Arrábida não é um litígio fundiário isolado, é uma frente
num conflito mais largo entre um modelo de desenvolvimento assente na extração
e na valorização de ativos para não residentes e o que resta de uma economia
que ainda serve quem cá vive.
2026 Julho 02
https://expresso.pt/opiniao/2026-07-02-arrabida-a-areia-que-sobra-698d9080
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