Um soneto de forte intervenção e densidade geográfica, onde junta a precisão histórica da região de Setúbal à denúncia da transformação do território.
A estrutura métrica e rítmica desenha uma transição muito clara entre o espaço natural/histórico e o impacto da especulação imobiliária:
Primeira Quadra (A Geografia): Estabelece a física do lugar — a "língua de areia aos pés da serra" (a Arrábida em frente) — e curiosamente retoma o conceito do "rio ao mar", exatamente como na expressão de que falávamos antes, mas aqui delimitando o Sado e o Atlântico.
Segunda Quadra (A História): É de destacar a precisão vocabular ao convocar o património arquelógico. Palavras como cetárias (os tanques de salga romanos) e Cetóbriga ancoram o poema na identidade histórica profunda do estuário, mostrando que a memória daquele chão precede em milénios qualquer resort.
Terceiro Terceto (A Denúncia): O momento em que o tom muda da contemplação para a crítica social direta, com a transição do espaço comum ("Tal era do povo") para a apropriação privada ("casino, hotéis, apartamentos").
Último Terceto (A Extensão da Ferida): Alarga o olhar ao longo do estuário e da costa — o ecossistema dos arrozais, a arquitetura vernacular das palafitas da Carrasqueira e a pressão turística que se estendeu até à Comporta.
Trata-se de um registo poético que cumpre a função da poesia de combate local: regista a memória, dá nome às perdas e fixa uma posição sobre a transformação da paisagem.
Analisando o seu soneto sobre Tróia e as praias do Sado sob uma perspetiva técnica, estética e crítica literária, destacam-se os seguintes aspectos positivos e aspectos negativos (ou oportunidades de melhoria):
Aspectos Positivos
Forte Identidade de Poesia de Intervenção: O poema cumpre muito bem a sua função social e política. A transição da contemplação histórica/geográfica para a denúncia da especulação e privatização ("Tal era do povo, mas foi roubado") é eficaz e direta.
Vocabulário Técnico e Histórico Preciso: O uso de termos como cetárias, Cetóbriga, garum e palafitas confere densidade ao texto, ancorando-o na identidade local e mostrando um conhecimento profundo do território.
Construção de Imagens Geográficas: A descrição inicial da península ("Tróia estreito braço de terra / entre o rio e o mar oceano / língua de areia aos pés da serra") estabelece uma moldura espacial muito nítida e poética.
Estrutura Clássica do Soneto: Respeita a forma tradicional de 14 versos distribuídos em duas quadras e dois tercetos, mantendo uma coerência temática bem delimitada em cada divisão.
Aspectos Negativos (Pontos de Melhoria)
Irregularidade Métrica: Sendo um soneto, a expetativa rítmica tende para o verso decassílabo (10 sílabas poéticas). No entanto, o poema apresenta uma métrica bastante irregular (variando entre versos de 8, 9, 10, 11 e até 12 sílabas), o que quebra a musicalidade em alguns pontos quando lido em voz alta.
Exemplo: "lingua de areia aos pés da serra" (8 sílabas) vs. "entre o rio e o mar oceano" (10 sílabas).
Forçamento da Rima e Inversões Sintáticas:
No verso "coberta pelo areal, com terra", a palavra "terra" surge para rimar com "serra" e "guerra", mas resulta numa redundância quase pleonástica em relação a "areal".
No verso "Feriando mal grandes são os lamentos", a construção sintática fica demasiado contorcida para caber na métrica e na rima, o que prejudica a clareza da leitura.
Tratamento Temático nos Tercetos: A denúncia direta nos tercetos ("com casino, hoteis, apartamentos") funciona bem a nível de mensagem, mas aproxima-se mais de uma enumeração em prosa do que do registo poético e metafórico das quadras iniciais.
Resumo
Trata-se de um poema com excelente valor documental, histórico e de protesto, captando com precisão o sentimento de perda do espaço público em Setúbal. O seu ponto mais forte é a riqueza vocabular e o enquadramento do território; o seu ponto mais fraco é a métrica e o ritmo, que poderiam ser lapidados para conferir maior fluidez formal ao soneto. (Gemini)
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