* Victor Nogueira / Gemini
Partindo da Rua da Batalha do Viso encosta acima se encontra esta escadaria, em zona que após o 25 de Abril foi possível tornar habitacionalmente mais digna com o Projecto SAAL e a participação dos moradores das casas então abarracadas. Ingénuas quadras de Abílio Paciência ao longo do percurso são a memória desses tempos, substituindo grafitos anteriores.
Penosamente uma mulher idosa sobe a escadaria com um cão pela trela; saudamo-nos, cedo-lhe o lado do corrimão e ela agradece, enquanto lanudo canito saltita em meu redor deliciado com as festas que lhe faço. Mais adiante, no relvado, hierático, um indiferente e plácido gato aquece-se com os raios de sol duma tarde de céu azul mas algo neblinada. Áspero e acidentado era o caminho então feito a pé, entre a beira-mar e o Viso, encosta acima ou abaixo, incluindo a íngreme Rua do Clube Recreativo da Palhavã. onde as belas vistas e horizontes estavam ao alcance da vista das populações vivendo na penúria, em estreitas vielas, atascadas na lama.
«Um caminho que liga o rio e o bairro, que por ele passaram os pescadores que partiam e regressavam, com os bolsos quase vazios... Mas com o coração cheio de mar.
As mulheres, sozinhas, com os filhos pequenos, à espera do regresso de quem parte.
Um caminho que levava e trazia trabalhadoras da indústria conserveira.
Mulheres de corpos cansados de trabalho e de luta por uma vida mais digna.
É uma história antiga, mas que também é nossa e de todos os que a sentirem como sua, feita de coragem, dor e resistência.
Uma história que atravessa o tempo, entre marés de sacrifício e esperança, na eterna...
Luta pela Liberdade."
Todo o espectáculo teve como inspiração o poema a "A Arte da Palavra" escrito pelo Sr. Abílio Paciência, um antigo morador do Bairro dos pescadores, bem como histórias contadas por alguns moradores do bairro.» (in https://www.uf-setubal.pt/atividades/espaco-publico/348-novo-caminho-facilita-acesso-pedonal-no-bairro-dos-pescadores)
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O caminho que percorri
Até chegar ao sítio onde vivi
Noites sem conta
Semana após semana
Foi uma afronta
À dignidade humana
Hoje podemos viver
Este caminho percorrer
Em liberdade crescer
Na busca de outro fim...
Este caminho renovado
Tem novo visual
Às cores foi pintado
Satisfazendo o nosso ideal
Tudo o que se constrói
Há quem queira derrubar
Mas o que mais me dói
É conhecer quem não quer amar
Um pássaro sozinho faz ninho
Mas criação não pode fazer
A ti te peço, amiguinho,
Ajuda-me a crescer!
Abílio Paciência (21-5-2013)
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«Abílio Paciência é uma figura marcante da cultura popular e comunitária de Setúbal, ligado às tradições marítimas e ao quotidiano do Bairro dos Pescadores (na freguesia da Anunciada).
Quem é e a sua Ligação a Setúbal
Poeta Popular do Povo: Não sendo um autor literário académico, Abílio Paciência destaca-se pela poesia ingénua e de tradição oral/popular (quadras e trovas), que retrata a vida simples, as dificuldades, a fé e o sentimento de comunidade dos bairros operários e piscatórios setubalenses.
Ação no Caminho dos Pescadores: As quadras gravadas no "Caminho dos Pescadores" fazem parte de um projeto de intervenção comunitária e de requalificação urbana. O espaço — uma rampa/escadaria que liga zonas do bairro — foi pintado e decorado com os seus versos (datados de maio de 2013) para dignificar a passagem, celebrar a liberdade e incentivar a entreajuda local.
Preservação da Memória Local: O seu nome continua a ser evocado em iniciativas da União das Freguesias de Setúbal e em projetos artísticos coletivos (envolvendo moradores e associações locais como a APPACDM de Setúbal), onde a sua poesia é utilizada para valorizar a identidade e a memória histórica dos bairros dos Pescadores e Grito do Povo.
A sua obra reflete a essência do "sentir setubalense": versos simples, diretos, com forte carga humana, focados no amor ao próximo, na superação das dificuldades e no orgulho do trabalho comunitário.» (Gemini)
VER Murais em Setúbal 60 - O Caminho dos Pescadores
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"O trabalho é mais importante e é independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho, e não existiria sem ele. O trabalho é superior ao capital e merece a consideração mais elevada." (Lincoln, Presidente dos EUA)