quarta-feira, 19 de agosto de 2026

(82) Abílio Paciência e o 'caminho dos pescadores'

* Victor Nogueira / Gemini

Partindo da Rua da Batalha do Viso encosta acima se encontra esta escadaria, em zona que após o 25 de Abril foi possível tornar habitacionalmente mais digna com o Projecto SAAL e a participação dos moradores das casas então abarracadas. Ingénuas quadras de Abílio Paciência ao longo do percurso são a memória desses tempos, substituindo grafitos anteriores.

Penosamente uma mulher idosa sobe a escadaria com um cão pela trela; saudamo-nos, cedo-lhe o lado do corrimão e ela agradece, enquanto lanudo canito saltita em meu redor deliciado com as festas que lhe faço. Mais adiante, no relvado, hierático, um indiferente e plácido gato aquece-se com os raios de sol duma tarde de céu azul mas algo neblinada. Áspero e acidentado era o caminho então feito a pé, entre a beira-mar e o Viso, encosta acima ou abaixo, incluindo a íngreme Rua do Clube Recreativo da Palhavã. onde as belas  vistas e horizontes estavam ao alcance da vista das populações vivendo na penúria, em estreitas vielas, atascadas na  lama.

«Um caminho que liga o rio e o bairro, que por ele passaram os pescadores que partiam e regressavam, com os bolsos quase vazios... Mas com o coração cheio de mar.

As mulheres, sozinhas, com os filhos pequenos, à espera do regresso de quem parte.

Um caminho que levava e trazia trabalhadoras da indústria conserveira.

Mulheres de corpos cansados de trabalho e de luta por uma vida mais digna.

É uma história antiga, mas que também é nossa e de todos os que a sentirem como sua, feita de coragem, dor e resistência.

Uma história que atravessa o tempo, entre marés de sacrifício e esperança, na eterna...

Luta pela Liberdade."

Todo o espectáculo teve como inspiração o poema a "A Arte da Palavra" escrito pelo Sr. Abílio Paciência, um antigo morador do Bairro dos pescadores, bem como histórias contadas por alguns moradores do bairro.» (in https://www.uf-setubal.pt/atividades/espaco-publico/348-novo-caminho-facilita-acesso-pedonal-no-bairro-dos-pescadores)




 O caminho que percorri

Até chegar ao sítio onde vivi

 


Noites sem conta

Semana após semana

Foi uma afronta

À dignidade humana

 

Hoje podemos viver

Este caminho percorrer

Em liberdade crescer

Na busca de outro fim...

 

Este caminho renovado

Tem novo visual

Às cores foi pintado

Satisfazendo o nosso ideal

 

Tudo o que se constrói

Há quem queira derrubar

Mas o que mais me dói

É conhecer quem não quer amar 

Um pássaro sozinho faz ninho

Mas criação não pode fazer

A ti te peço, amiguinho,

Ajuda-me a crescer!

 

Abílio Paciência (21-5-2013)

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«Abílio Paciência é uma figura marcante da cultura popular e comunitária de Setúbal, ligado às tradições marítimas e ao quotidiano do Bairro dos Pescadores (na freguesia da Anunciada).

Quem é e a sua Ligação a Setúbal

  • Poeta Popular do Povo: Não sendo um autor literário académico, Abílio Paciência destaca-se pela poesia ingénua e de tradição oral/popular (quadras e trovas), que retrata a vida simples, as dificuldades, a fé e o sentimento de comunidade dos bairros operários e piscatórios setubalenses.

  • Ação no Caminho dos Pescadores: As quadras gravadas no "Caminho dos Pescadores" fazem parte de um projeto de intervenção comunitária e de requalificação urbana. O espaço — uma rampa/escadaria que liga zonas do bairro — foi pintado e decorado com os seus versos (datados de maio de 2013) para dignificar a passagem, celebrar a liberdade e incentivar a entreajuda local.

  • Preservação da Memória Local: O seu nome continua a ser evocado em iniciativas da União das Freguesias de Setúbal e em projetos artísticos coletivos (envolvendo moradores e associações locais como a APPACDM de Setúbal), onde a sua poesia é utilizada para valorizar a identidade e a memória histórica dos bairros dos Pescadores e Grito do Povo.

A sua obra reflete a essência do "sentir setubalense": versos simples, diretos, com forte carga humana, focados no amor ao próximo, na superação das dificuldades e no orgulho do trabalho comunitário.» (Gemini)

VER  Murais em Setúbal 60 - O Caminho dos Pescadores

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"O trabalho é mais importante e é independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho, e não existiria sem ele. O trabalho é superior ao capital e merece a consideração mais elevada." (Lincoln, Presidente dos EUA)