Nota prévia - Essa extensa entrevista é um espelho do chorrilho de mistificações e de contradições que percorrem o labirinto dos defensores do capitalismo, essencialmente autofágico e predador, sem remissão (Victor Nogueira)
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Augusto Santos Silva:
"Trump está num estado que considero quase demencial. Temos hoje a maior
potência do mundo nas mãos de corruptos, ineptos e moralmente
desqualificados"
30 jul, 2026
ENTREVISTA || A guerra no Irão
confirmou, para Augusto Santos Silva, que o principal problema do Ocidente já
não está apenas em Moscovo, Teerão ou Pequim: está também em Washington. O
antigo presidente da Assembleia da República e ex-ministro dos Negócios
Estrangeiros e da Defesa acusa Donald Trump de agir sem qualquer racionalidade
estratégica e de estar a “destruir as bases morais da nossa defesa militar”,
enquanto a Europa responde com apaziguamento e submissão. Nesta entrevista,
classifica a ofensiva contra o Irão como uma agressão ilegal, sem absolver
Teerão da resposta militar, contesta a meta dos 5% do PIB para a defesa,
critica a posição portuguesa sobre a Base das Lajes e denuncia a “conduta
miserável” da Europa perante a Palestina
A guerra começou “com três
fanáticos”, mas, quatro meses depois, Augusto Santos Silva já não os vê no
mesmo lugar. Donald Trump, sustenta, “deixou de dirigir a guerra e passou a ser
dirigido por ela”, mudando de objetivos “como quem muda de camisa” e conduzindo
os Estados Unidos “para um atoleiro” sem saída política.
Do outro lado, Teerão tem uma
estratégia: “garantir a sobrevivência do regime”, entregar o comando à fação
mais dura da Guarda Revolucionária e fazer do controlo do estreito de Ormuz uma
arma que Augusto Santos Silva considera “mais poderosa do que uma eventual arma
nuclear”.
Da passagem pela Defesa e pelos
Negócios Estrangeiros ficou-lhe o hábito de não confundir a necessidade de
travar o Irão com um salvo-conduto para Washington. O Ocidente deve impedir que
o Irão tenha uma arma nuclear, "até pela força, se for necessário”. O
ataque norte-americano, porém, foi “uma agressão” contra um país soberano, e os
crimes cometidos depois por Teerão não podem legitimá-lo retroativamente. “Não,
não e não”, responde.
A mesma régua serve para a
Ucrânia: reconhecer conquistas territoriais obtidas pelas armas poderá
interromper os combates, mas “paz sem justiça não é paz”.
É na NATO que encontra a
contradição mais perigosa. Santos Silva continua a considerar os Estados Unidos
o “melhor aliado possível” da Europa e espera que o trumpismo seja só
“passageiro”, mas chama ao Presidente norte-americano “um inimigo desta aliança”
e recusa que os europeus preservem a relação através do medo.
Também não aceita os 5% do PIB
para a defesa, que classifica como “uma chantagem inaceitável”: antes de gastar
mais, a Europa precisa de gastar melhor, coordenar forças e equipamentos e
cumprir decisões que permanecem há anos no papel.
Portugal, recorda, “não é um
leão” na cena internacional, mas “uma gazela” que, perante os Estados Unidos,
deve olhar para o comportamento dos restantes aliados e ajustar o seu: como
Itália, Reino Unido, França, Alemanha e Espanha se distanciaram da ofensiva
contra o Irão, “Portugal podia também ter tomado essas distâncias”.
A Europa, porém, perdeu voz por
culpa própria. Foi capaz de sustentar a resistência ucraniana quando Washington
se aproximou de Moscovo, “mas não aplicamos a Gaza e, sobretudo, à Cisjordânia,
os critérios que aplicamos na Ucrânia”, uma incoerência com um custo
“absolutamente brutal” para a influência internacional europeia.
Perante Trump, acusa os
dirigentes europeus, incluindo António Costa, de tentarem “amansar a fera” e vê
uma “humilhação” na viagem de Ursula von der Leyen ao campo de golfe do
Presidente norte-americano, onde esperou pelo fim da partida para aceitar um acordo
desigual. Cada cedência, sustenta, não contém a seguinte: apenas lhe abre
caminho.
Para explicar o resultado,
recupera a frase da avó da mulher: “Quem muito se abaixa, o cu se lhe vê”.
Antigo presidente da Assembleia
da República e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, Augusto
Santos Silva acusa Washington de estar a fragilizar a NATO e a ordem
internacional. Foto: Faculdade de Economia da Universidade do Porto
Gostava de recuar a março. Não
foi há muito tempo, embora pareça já distante. Na altura, afirmou que a guerra
no Irão estava “a ser dirigida por três fanáticos”. Creio que se referia a
Donald Trump, ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e ao novo
líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei. Quatro meses depois, perante tudo o
que aconteceu nas últimas semanas, com sucessivos bombardeamentos noturnos dos
Estados Unidos, ataques iranianos contra navios, bases norte-americanas na
região e infraestruturas civis, e o novo bloqueio, de novo, do estreito de
Ormuz, continua a ver apenas fanatismo? Ou algum deles tem uma estratégia?
Para avaliar, teria de corrigir a
minha frase de março, porque um dos fanáticos deixou de dirigir a guerra e
passou a ser dirigido por ela. Estou a falar do Presidente Trump. Qualquer que
seja o critério que utilizemos, não encontramos nenhuma racionalidade
estratégica na conduta da administração norte-americana.
Muda de objetivos como quem muda
de camisa, diz coisas completamente contraditórias, às vezes no espaço de
poucas horas, e há mais de cem dias que garante ter ganhado uma guerra que
continua. Portanto, eu diria que, neste momento, do lado norte-americano, a
guerra no Irão parece mais um atoleiro do que uma operação militar pensada.
Depois, os fanáticos também têm
estratégias. A estratégia do aiatola Mojtaba Khamenei é racional no sentido em
que o seu principal objetivo é a sobrevivência do regime e a possibilidade de
condicionar a situação geopolítica no Médio Oriente. E descobriu que mais
poderoso do que uma eventual arma nuclear seria o controlo do estreito de
Ormuz. Tudo tem feito para assegurar esse controlo.
Também deveria notar-se, no que
diz respeito ao Irão, que hoje é mais evidente do que era em março que nem
sequer é o líder supremo que dirige as operações, mas sim a Guarda
Revolucionária, a fação militar mais dura do regime.
Condenou o ataque inicial dos
Estados Unidos e de Israel como uma "flagrante violação" do direito
internacional, mas salvaguardou também que o Irão cometia crimes contra o seu
próprio povo e até crimes de guerra. A resposta iraniana que se seguiu, contra
navios, países vizinhos, ainda que os seus alvos fossem maioritariamente bases
norte-americanas aí instaladas, pode legitimar uma intervenção norte-americana
e israelita que começou, como disse, de forma ilegal? A resposta iraniana
valida o ataque inicial?
Não, de todo. O que poderia
validar o ataque inicial seria o Irão estar na iminência de produzir armas
nucleares.
Mas quem determina essa
iminência quando o Conselho de Segurança está bloqueado?
É muito difícil fazer uma análise
das relações internacionais sem tornar claro qual é o nosso ponto de partida
normativo. E o meu ponto de partida normativo é muito claro.
Em geral, acho que a cooperação
multilateral é muito importante, que a cooperação internacional é
importantíssima e que o multilateralismo é absolutamente decisivo. Mas não é
suficiente. Ao mesmo tempo que praticamos o multilateralismo, devemos cuidar de
ter bem escorada a nossa estratégia de defesa coletiva. E creio que ela só pode
ocorrer no âmbito do Atlântico Norte, no quadro da NATO.
É preciso ter claro que a melhor
maneira de nos defendermos das ameaças provenientes da Rússia e das ameaças que
podem surgir da China é sermos fortes na dissuasão. Esse é o meu ponto de vista
normativo.
Nesse quadro, acho que o Tratado
de Não Proliferação de Armas Nucleares deve ser cumprido e o Ocidente, digo
mesmo assim, o Ocidente, deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para
impedir que países e regimes como o iraniano possam vir a ter uma arma nuclear.
Devo dizer que, no ano passado,
nem sequer critiquei a operação militar desenvolvida pelos Estados Unidos e por
Israel para bombardear instalações nucleares no Irão, porque o grau de
enriquecimento do urânio que os iranianos estavam a acumular, acima dos 60%,
estava muito para além daquilo de que precisariam para fins civis de produção
de energia nuclear.
Portanto, acho que devemos fazer
tudo, do ponto de vista diplomático e também, se necessário, do ponto de vista
militar, para impedir o Irão de ter uma arma nuclear. E, já agora, esse
raciocínio vale também para a Arábia Saudita e para outros países.
Agora, o que os Estados Unidos
fizeram foi uma agressão. Uma agressão contra um país soberano, não mandatada
pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e que não resultava da iminência
de qualquer ataque do Irão contra os Estados Unidos. Portanto, não há outra
leitura possível à luz do direito internacional.
Isto dito, não significa nem que
o Irão tenha passado a ter legitimidade para responder atacando países
terceiros, como fez, nem que a ilegitimidade dessa resposta venha legitimar a
agressão inicial a posteriori. A resposta do Irão é também
absolutamente ilegítima à luz do direito internacional.
Falou de um dos objetivos
declarados pelos Estados Unidos para justificar o ataque: impedir uma arma
nuclear iraniana. Esse objetivo transformou-se em vários e foi mudando ao longo
do tempo, desde enfraquecer ou derrubar o regime até “libertar Ormuz”, usando a
expressão de Donald Trump, que se apresentou como o libertador do estreito.
Agora, a estratégia parece ser punir cada ataque segundo uma lógica de olho por
olho, dente por dente. Esta sucessão de objetivos revela flexibilidade
estratégica ou mostra uma guerra sem uma saída definida, do ponto de vista
norte-americano?
Revela que o Departamento de
Estado norte-americano foi liquidado por esta administração. Revela que à
frente do Pentágono está um louco. Um homem que diz que a coisa mais importante
é assegurar que os soldados têm um nível suficiente de testosterona só pode ser
classificado como um louco.
Está a falar de Pete
Hegseth...
Sim. E o Presidente Trump está
num estado que considero quase demencial. Esse é um risco maior: temos hoje a
maior potência do mundo e o nosso maior aliado nas mãos de um círculo dirigente
corrupto, inepto e moralmente desqualificado. Esse é o principal drama que está
a ocorrer.
Repare, voltando mais uma vez à
minha base normativa, eu acho mesmo que a Rússia é uma ameaça à segurança
europeia e internacional. Acho mesmo que os regimes teocráticos são uma ameaça
à segurança internacional. Acho mesmo que o Irão, diretamente e através do
Hezbollah, do Hamas e dos rebeldes houthis no Iémen, é uma ameaça à nossa
segurança. E acho mesmo que a China coloca desafios muito delicados à
geopolítica mundial.
Para enfrentar tudo isto,
considero essencial que a União Europeia, o Reino Unido, o Canadá e os Estados
Unidos estejam unidos. É por isso que critico tanto Donald Trump. Donald Trump
é um inimigo desta aliança.
Está a dizer que Trump é hoje
uma ameaça interna à própria NATO?
Se não é um cúmplice de Vladimir
Putin, é pelo menos alguém cuja ação converge com a de Putin e obedece à mesma
lógica: a lógica do império do mais forte. Cada um faz o que quer na sua área
de influência.
Trump está a destruir as bases
morais da nossa defesa militar. E uma coisa lhe garanto: sem legitimidade
moral, sem legitimidade política e sem inteligência política, as guerras podem
ser todas ganhas no campo de batalha, mas são sempre perdidas politicamente. A
guerra do Vietname mostrou-o e a guerra do Afeganistão também.
Santos Silva não encontra
“nenhuma racionalidade estratégica” na atuação de Donald Trump e considera que
o Presidente norte-americano deixou de conduzir a guerra no Irão para passar a
ser conduzido por ela. Foto: Associated Press
Ainda tinha mais uma ou duas
perguntas sobre o capítulo do Irão, mas vou pegar já na NATO. Sustentou
recentemente que é difícil existir uma aliança estável quando os seus membros
não são consultados antes de uma operação, como aconteceu no Irão. Depois disso,
já na recente Cimeira de Ancara, Trump começou por lançar uma espécie de
foguetório de ameaças contra aliados, incluindo uma forma de castigo a Espanha,
embora tenha terminado reafirmando o artigo 5.º no fim. É possível confiar numa
garantia de defesa coletiva, como a da NATO, quando ela depende das oscilações
pessoais de um homem que também é o Presidente de uma superpotência?
Nós, da nossa tribo, digamos
assim, de observadores e atores das relações internacionais, usamos a expressão
“paciência estratégica” para distinguir o que é circunstância do que é
estrutura, a conjuntura do tempo longo.
Não duvido de que este momento há
de passar. E é absolutamente essencial, quando olhamos para os Estados Unidos,
distinguirmos a atual estrutura de poder em Washington daquilo que são os
Estados Unidos. Os Estados Unidos continuam a ser uma sociedade vibrante,
democrática e aberta e o melhor aliado que a Europa pode ter.
O aliado original, sim.
Um aliado... interessado. Há uma
mitologia corrente que não tem pés nem cabeça: a ideia de que, por
voluntarismo, generosidade ou benevolência, os Estados Unidos fazem o favor de
defender a Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Ora, os Estados Unidos defendem a
Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial porque, na doutrina militar
inteligente, quando ainda a havia nos Estados Unidos, a Europa é a primeira
linha de defesa dos próprios Estados Unidos. E, nas relações internacionais, os
interesses não são o contrário dos valores.
Não tenho dúvida nenhuma de que,
se os Estados Unidos não tivessem um interesse estratégico em ser aliados da
Europa, não o seriam. Mas têm.
Mas uma aliança pode
sobreviver sem confiança no seu principal membro?
Espero que o trumpismo seja um
fenómeno passageiro. Acho essencial preservarmos essa aliança com os Estados
Unidos e não deixarmos que as dificuldades que temos hoje na relação com Trump
a danifiquem.
A minha única divergência em
relação aos dirigentes europeus, incluindo, já agora, o presidente do Conselho
Europeu [António Costa], é que eles retiram daqui a conclusão de que têm de
amansar a fera, adotar uma atitude de apaziguamento e compreender ou descontar
os exageros retóricos e emocionais de Donald Trump, precisamente para preservar
a relação.
Eu penso o contrário. Penso que é
a firmeza perante as afirmações, as ameaças e as condutas inaceitáveis de Trump
que pode preservar a nossa relação com os Estados Unidos.
Porque é que considero que a NATO
corre perigo? Porque qualquer aliança fundada no artigo 5.º, na qual um dos
membros ameaça invadir outro, tem em perigo a sua própria lógica de
funcionamento. Qualquer aliança que funciona por consenso e na qual um dos seus
membros ameaça expulsar outros, quando nem sequer tem esse poder, tem o seu
funcionamento em perigo.
Está a falar da Gronelândia,
naturalmente.
Da Gronelândia e de Espanha, não
é? Da ameaça de invadir a Dinamarca e da ameaça de expulsar Espanha [da NATO].
Também vejo com tristeza que
muitas pessoas não dizem as coisas como devem ser ditas. Donald Trump não
ameaça simplesmente tomar conta da Gronelândia. Donald Trump ameaça invadir
pela força um Estado soberano, a Dinamarca.
E anexar a Gronelândia, sim.
Porque, se os espanhóis
ameaçassem tomar conta do Alentejo, nós não diríamos: “Os espanhóis querem
invadir o Alentejo”. Diríamos: “Os espanhóis querem atacar Portugal”.
A propósito dessa incerteza
trumpista, mais até do que de uma incerteza norte-americana: se lhe juntarmos a
ameaça russa e a guerra no Irão, como consegue a Europa garantir a sua
segurança sem um esforço financeiro da dimensão dos 5% do PIB para a defesa,
que Donald Trump não impôs sozinho, mas em larga medida impôs? Tem defendido
que uma despesa dessa dimensão é incompatível com o modelo social europeu...
Claro. Em Portugal, haverá de
chegar o dia em que nos perguntaremos como se pagam, por exemplo, os cerca de
3,9 mil milhões de euros das fragatas que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro
decidiu comprar a Itália. Espero que não seja como aconteceu com os submarinos:
Paulo Portas encomendou-os e eu e Fernando Teixeira dos Santos pagámo-los.
Espero que não seja assim.
A minha primeira objeção aos 5% é
não terem qualquer racional. Poderiam ser 5%, 4%, 4,5%, 6% ou 7%.
A segunda objeção é tratar-se de
uma chantagem. Em 2014, na Cimeira de Gales, acordámos todos que nos
aproximaríamos, esse era o termo, no prazo de dez anos, dos 2% do PIB. Quando
chegámos todos perto desse valor, os norte-americanos disseram: “Afinal, já não
conta. Agora passa a ser 5%”. É uma chantagem inaceitável.
Em terceiro lugar, sou contra os
5% porque se baseiam também numa mentira, numa espécie de contabilidade
criativa, para não lhe chamar diretamente aldrabice.
Onde está a contabilidade
criativa? Basta pensar no que acontece com Portugal. De um ano para o outro,
Portugal passa de 1,4% do PIB para 2,1%, e o Primeiro-Ministro até disse
recentemente que chegaríamos aos 3,1% do PIB.
Cada ponto percentual do PIB em
Portugal representará atualmente qualquer coisa como 2,5, 2,6 ou 2,7 mil
milhões de euros. Não é uma coisa que se vá buscar ao mealheiro de um dia para
o outro. Porque é que falamos assim? Porque coisas que nunca foram aceites como
parte do cálculo da despesa militar passaram a sê-lo.
Repare, a primeira-ministra
italiana, Giorgia Meloni, chegou a comunicar que a ponte que pretende construir
entre o continente e a Sicília, sobre o estreito de Messina, contaria para
efeitos de despesa militar, porque aumentaria a segurança do país. Há países
que hoje contabilizam assim.
Faço um novo hospital. O
hospital, se for necessário, poderá ser utilizado para tratar soldados,
portanto também conta. É uma forma de brincar com as coisas.
Mesmo aceitando que os 5% são
artificiais, a Europa não precisa de gastar mais?
A minha quarta objeção é que,
antes de gastarmos mais, deveríamos gastar muito melhor. É disso que
precisamos.
Se retirarmos a parte dos Estados
Unidos da despesa da NATO, que representa atualmente qualquer coisa entre um
quarto e um terço do total, mesmo assim os restantes 31 países, acho eu, gastam
anualmente mais em defesa do que a Rússia, que é a ameaça mais premente, e do
que a China.
Precisamos de gastar melhor,
designadamente tornando os nossos equipamentos mais interoperáveis e as nossas
forças mais coordenadas.
Ainda eu era ministro dos
Negócios Estrangeiros, há uns anos, já lá vão, e nós, ministros dos Negócios
Estrangeiros e da Defesa da União Europeia, acordámos constituir, dentro de
determinado prazo, cinco anos, se não me falha a memória, uma força multinacional
europeia de reação rápida com cinco mil homens e mulheres. Ela ainda não foi
verdadeiramente posta no terreno.
Portanto, há muita coisa a fazer
antes de destruirmos as bases do apoio popular à nossa defesa, sugerindo às
pessoas que vamos gastar mais em armas e menos em pensões ou medicamentos.
Recuperando esses tempos em
que foi ministro dos Negócios Estrangeiros, não para falar do seu período à
frente do Ministério, mas para regressar ao Irão através das Lajes: Portugal
autorizou dezenas de aterragens e sobrevoos norte-americanos na Base das Lajes
e terá imposto como condições que a resposta fosse necessária e proporcional,
no quadro da NATO, e, sobretudo, que não fossem atingidas infraestruturas
civis. É difícil determinar, nesta altura, se isso foi respeitado, porque a
chamada dupla utilização das infraestruturas é discutível. A partir de que
momento o apoio logístico de Portugal através da Base das Lajes deixa de ser
apenas apoio e passa a significar uma participação na guerra, ainda que
indireta?
Eu, que não gosto de ter duas
caras, quando me pronuncio agora nunca me esqueço de que fui ministro da Defesa
Nacional e ministro dos Negócios Estrangeiros. Procuro ser coerente.
Claro que uso agora uma linguagem
muito mais solta do que usaria se tivesse responsabilidades governativas. Se
tivesse responsabilidades governativas, não chamaria louco ao secretário da
Guerra dos Estados Unidos, como ainda há pouco chamei. Compreendo tudo isso
muito bem. Não critico os cuidados de linguagem usados pelo atual Governo ou
por qualquer governo. Isso parece-me evidente.
Também não fui uma das pessoas
que rasgaram as vestes por causa da história das Lajes. Temos uma relação muito
boa com os Estados Unidos. Uma relação muito antiga e muito boa.
Portugal foi o primeiro país
neutral a estabelecer relações diplomáticas com os Estados Unidos. O consulado
norte-americano em Ponta Delgada é o mais antigo consulado dos Estados Unidos
em funcionamento contínuo no mundo. Podemos também recordar que a independência
norte-americana foi brindada com vinho da Madeira.
Portanto, é uma relação muito
boa. E devo dizer que, durante o meu mandato nos Negócios Estrangeiros, que
incluiu o primeiro mandato do Presidente Trump, as coisas foram sempre geridas
com bastante cuidado e simpatia de parte a parte. Faço uma distinção clara
entre o primeiro mandato e este, em que me parece que tudo explodiu.
Este que ele próprio considera
ser o terceiro.
[Risos.]
Mas continue...
Porque há ali um elemento que não
posso deixar de caracterizar como demencial.
Durante o primeiro mandato,
participei apenas uma vez numa reunião com o Presidente Trump, quando
acompanhei o ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Depois, houve
um encontro a dois no qual, literalmente, não participei.
Mas participei em muitas reuniões
com o secretário de Estado, o secretário da Defesa e o Conselho de Segurança
Nacional. Foi sempre possível, com essa estrutura da governação
norte-americana, ter conversas muito produtivas, nas quais cada um defendia os seus
interesses e rapidamente chegávamos à conclusão de que esses interesses
convergiam.
Portanto, não critiquei o Governo
português na história das Lajes. Percebo que a nossa tradição seja de grande
generosidade relativamente às autorizações de que os norte-americanos
necessitam à luz do tratado, porque a nossa relação é muito boa.
Não fiquei muito incomodado com o
facto de os Estados Unidos terem inicialmente contornado os procedimentos, até
porque a responsabilidade por isso é mais dos Estados Unidos do que do Governo
português.
Também me pareceu que as
condições e os requisitos tornados públicos pelo ministro Paulo Rangel eram
adequados: precisamente aqueles que ainda agora citou.
Já fiquei muito preocupado quando
vi a jactância do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ao dizer,
no fundo, que os portugueses são tão bons, ou tão palermas, que, antes de lhes
dizermos para que queríamos a autorização, já eles a estavam a dar.
Isso pareceu-me uma forma muito
infeliz de nos rebaixar, à qual deveríamos ter reagido. E deveríamos ter
reagido com mais firmeza.
Augusto Santos Silva considera
adequadas as condições impostas por Portugal ao uso norte-americano da Base das
Lajes, mas defende que o país poderia ter-se distanciado da ofensiva contra o
Irão.. Foto: Lusa
Uma autorização como esta,
para aterragens e sobrevoos, pode ser revista ou alterada no decorrer desta
guerra concreta? Ou isso abriria um problema diplomático, dada a nossa relação
com os Estados Unidos?
Creio que não temos qualquer
interesse em entrar numa negociação com a atual administração norte-americana
para rever seja o que for. É melhor sermos um pouco mais pacientes. Mas queria
ainda dizer outra coisa.
Por favor...
Não ignoro, em primeiro lugar,
que temos uma relação muito estreita e antiga com os Estados Unidos e que os
Estados Unidos são os Estados Unidos.
Também não ignoro que nós somos,
na cena internacional, uma gazela. Uma gazela que corre em qualquer terreno e
tem uma conduta muito flexível, daí as vitórias que vamos acumulando no plano
internacional. Mas não deixamos de ser uma gazela. Não somos um leão.
Sempre fiz assim, e creio que
qualquer ministro fará o mesmo: quando tinha algum problema com um leão, neste
caso os Estados Unidos, procurava ver o que estavam a fazer os outros membros
do meu grupo, que são também meus aliados, e ajustava o meu comportamento tendo
em conta o comportamento deles.
Ora, neste caso, a Itália, a
própria Itália, o Reino Unido, a França e a Alemanha, para além do caso
evidente de Espanha, tomaram as suas distâncias em relação à agressão ao Irão.
Creio que Portugal também poderia ter tomado essas distâncias.
Portugal teve, entretanto, uma
vitória muito expressiva, com a eleição para o Conselho de Segurança das Nações
Unidas. Isso mostra que o país não foi prejudicado por este comportamento?
Volto agora, acho eu, a responder
a uma pergunta sua, uma questão um pouco mais técnica, porque chegou a
perguntar se não teríamos sido prejudicados por este comportamento. Não creio.
Aliás, acho que o resultado da eleição para o Conselho de Segurança mostra
isso.
Os países de todo o mundo
compreendem bem o que é Portugal, qual é o posicionamento geopolítico de
Portugal e qual é esta capacidade portuguesa de falar com todos. Não creio que
isso tenha ficado prejudicado. Mantemos esse forte capital de confiança.
Regresso brevemente ao Irão.
Talvez esta pergunta faça também sentido dirigindo-a ao professor catedrático
da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Durante a trégua de junho,
embora saibamos que o Irão podia continuar a escoar petróleo por vias
informais, sobretudo para a Ásia, Washington levantou temporariamente o
bloqueio. O tráfego marítimo no estreito de Ormuz regressou quase aos níveis
anteriores à guerra e o Irão pôde retomar as exportações de petróleo. Trump,
mesmo do ponto de vista económico, não terá cometido um erro estratégico ao
permitir que Teerão recuperasse receitas e, dessa forma, se preparasse para um
novo possível confronto, que acabou por acontecer?
A lista de erros do Presidente
Trump é infindável.
Há duas coisas às quais o
Presidente Trump reage e, como se diz em Economia, reage com uma elasticidade
muito alta. A primeira é a demonstração de força. Veja-se o que aconteceu no
diálogo com a China. A segunda é o andamento da bolsa de valores nos Estados
Unidos e tudo o que possa causar uma penalização eleitoral mais imediata.
A trégua de junho teve a ver com
o facto de a inflação ter disparado nos Estados Unidos. O facto de os Estados
Unidos serem autossuficientes em petróleo e até exportadores líquidos, ao
contrário do que pensam os “economistas” que rodeiam Trump, não os torna imunes
à escalada dos preços do petróleo.
Portanto, o preço do galão de
gasolina, como lá se diz, aumentou muito. Para os nossos valores, continua a
ser pouco, mas, tendo em conta os hábitos norte-americanos, onde o automóvel é
ainda mais importante do que o quarto de dormir, foi uma escalada brutal.
O que o Presidente Trump fez foi
tentar conter essa espiral, permitindo, ao fim e ao cabo, que o Irão deixasse
escoar o petróleo e pudesse escoar o seu próprio petróleo.
Às vezes digo, e penso para
comigo, que aquele que teria mais depressa um ataque cardíaco perante a conduta
do Presidente Trump seria Henry Kissinger. Seria precisamente aquele
republicano completamente vidrado na Realpolitik, naquele cinismo
muito inteligente e estratégico. Ele seria o primeiro a ter um ataque cardíaco
com isto, acho eu.
O controle do estreito de Ormuz
tornou-se a principal arma de Teerão: para Santos Silva, poderá ser “mais
poderoso do que uma eventual arma nuclear”. Foto: Associated Press
Ainda a propósito da trégua de
junho, o Paquistão talvez tenha sido o país central, embora possamos também
falar do contributo de países como a Arábia Saudita ou a Turquia. Mas uma coisa
que causou espanto foi a posição da União Europeia, que parece hoje, pelo menos
nesta circunstância, muito reduzida aos apelos à contenção. Sendo esta uma
guerra que ameaça diretamente a União Europeia, do ponto de vista da segurança
energética, da economia e até da NATO, estamos a perder demasiada voz ou
capacidade diplomática em conflitos como este, para não falar da guerra na
Ucrânia e de outros?
Nós, na União Europeia, temos uma
coisa de que nos podemos orgulhar muito e duas de que nos devemos envergonhar.
A coisa de que nos podemos
orgulhar muito é o nosso apoio à Ucrânia, que foi absolutamente essencial,
designadamente naquele período inicial do segundo mandato de Trump em que os
Estados Unidos alinharam com a Rússia e interromperam qualquer apoio à Ucrânia.
Nós conseguimos manter esse apoio.
Esse apoio é decisivo para a
resistência da Ucrânia, juntamente, evidentemente, com o heroísmo do seu
próprio povo. Isso é muito importante e também demonstra que, ao contrário do
que por vezes se diz, não estamos assim tão dependentes dos Estados Unidos para
assegurar a nossa defesa coletiva na Europa.
A incoerência entre a Ucrânia
e Gaza não destrói a autoridade moral da Europa?
A primeira coisa de que nos
devemos envergonhar é a conduta miserável que temos tido em relação à
Palestina. Não há outro termo. O adjetivo, para mim, é miserável.
A forma como não aplicamos a Gaza
e, sobretudo, à Cisjordânia os mesmos critérios que aplicamos na Ucrânia é uma
vergonha para a Europa e tem um custo absolutamente brutal para a sua
influência internacional.
A segunda coisa de que nos
devemos envergonhar é o apaziguamento, a complacência e até o medo que
manifestamos perante a administração norte-americana. Isso ainda por cima tem
um efeito perverso.
A avó da minha mulher tinha uma
expressão muito engraçada. Eu sou do Porto, portanto uso uma linguagem muito...
Quando necessário...
[Risos] Quando é necessário. A
expressão era: “Quem muito se abaixa, o cu se lhe vê”. Lembro-me sempre desta
expressão quando vejo esta forma timorata de agir.
O que ganhou a presidente da
Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao sujeitar-se à humilhação de se
deslocar à Escócia, ao campo de golfe do Presidente Trump, e esperar que ele
acabasse a sua partida para assinar um papel no qual aceitava que os Estados
Unidos impusessem tarifas de 15% e a Europa não impusesse nenhuma?
Era evidente que essa humilhação
só abriria caminho para que Trump fizesse o que veio a fazer depois: ignorar o
próprio acordo.
É curioso que, mesmo ignorando
esse acordo, continue a apresentar-se como o único dirigente político capaz de
pôr fim à guerra na Ucrânia.
Há uma coisa que não consigo
perceber: como é que os jornalistas podem ouvir isto e não se desatam todos à
gargalhada?
Mas a minha pergunta é
precisamente essa: não é só risível?
Não sei se conhece os memes, os
vídeos e os cartazes que circulam no Irão, com os bonecos em estilo Lego do
Presidente norte-americano. Eu próprio sinto vergonha, porque os Estados Unidos
são um dos países líderes do Ocidente e eu acredito mesmo no Ocidente. Como é
que nos sujeitamos a isto?
Augusto Santos Silva rejeita uma
solução que reconheça as conquistas territoriais russas obtidas pela força:
“Paz sem justiça não é paz”. Foto: EPA
Esta é a minha última
pergunta. A paz que Donald Trump defende é uma paz que, de forma mais ou menos
implícita, reconhece as conquistas territoriais obtidas pela força pela Rússia.
Se, por um lado, é verdade que reconhecer essas conquistas poderia evitar novas
mortes, podemos realmente chamar paz a uma solução que parte da força?
Não. Não, não e não.
Em primeiro lugar, porque paz sem
justiça não é paz.
Em segundo lugar, porque, mesmo
do ponto de vista, digamos assim, da Pax Romana, da administração e
do controlo de um território, isso é impossível.
Imagine que o Presidente Putin
tinha cumprido o seu objetivo e, como dizia, tinha “desnazificado” a Ucrânia
numa semana, derrubado o regime e tomado conta do país. Não sei quantos são,
40, 50 ou 60 milhões de ucranianos. Ir-se-iam sujeitar pacificamente ao domínio
russo?
Acha que os venezuelanos estão
contentes com o protetorado norte-americano?
Acho que foram iludidos.
Estão furiosos, porque perceberam
que há uma combinação de interesses entre um dos regimes mais corruptos do
mundo, o regime de Maduro e o regime de transição de Delcy Rodríguez, e os
Estados Unidos, que invadiram o país, mataram pessoas, tomaram conta da
Venezuela e não têm pejo em dizer, cito as palavras do próprio Presidente
norte-americano, que são eles que governam a Venezuela.
Portanto, só conquistamos a paz e
só asseguramos a nossa segurança através do direito. O direito tem,
evidentemente, como último recurso o uso legítimo da força, tanto no direito
interno como no direito internacional.
Mas, sem direito, sem normas que
sejam iguais para todos, sem respeito pela independência dos povos, pela
autonomia dos países e pelas aspirações das populações, garanto-lhe que podemos
bombardear e reduzir a cinzas edifícios, igrejas e hospitais, mas nunca
ganharemos a guerra do ponto de vista político. Como, aliás, os israelitas
percebem em Gaza.
30 jul, 2026

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"O trabalho é mais importante e é independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho, e não existiria sem ele. O trabalho é superior ao capital e merece a consideração mais elevada." (Lincoln, Presidente dos EUA)