sábado, 8 de agosto de 2026

Entrevista a Augusto Santos Silva (2026)


Nota prévia - Essa extensa entrevista é um espelho do chorrilho de mistificações e de contradições que percorrem o labirinto dos defensores do capitalismo, essencialmente autofágico e predador, sem remissão (Victor Nogueira)

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Augusto Santos Silva: "Trump está num estado que considero quase demencial. Temos hoje a maior potência do mundo nas mãos de corruptos, ineptos e moralmente desqualificados"

Tiago Palma

30 jul, 2026

ENTREVISTA || A guerra no Irão confirmou, para Augusto Santos Silva, que o principal problema do Ocidente já não está apenas em Moscovo, Teerão ou Pequim: está também em Washington. O antigo presidente da Assembleia da República e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa acusa Donald Trump de agir sem qualquer racionalidade estratégica e de estar a “destruir as bases morais da nossa defesa militar”, enquanto a Europa responde com apaziguamento e submissão. Nesta entrevista, classifica a ofensiva contra o Irão como uma agressão ilegal, sem absolver Teerão da resposta militar, contesta a meta dos 5% do PIB para a defesa, critica a posição portuguesa sobre a Base das Lajes e denuncia a “conduta miserável” da Europa perante a Palestina

A guerra começou “com três fanáticos”, mas, quatro meses depois, Augusto Santos Silva já não os vê no mesmo lugar. Donald Trump, sustenta, “deixou de dirigir a guerra e passou a ser dirigido por ela”, mudando de objetivos “como quem muda de camisa” e conduzindo os Estados Unidos “para um atoleiro” sem saída política. 


Do outro lado, Teerão tem uma estratégia: “garantir a sobrevivência do regime”, entregar o comando à fação mais dura da Guarda Revolucionária e fazer do controlo do estreito de Ormuz uma arma que Augusto Santos Silva considera “mais poderosa do que uma eventual arma nuclear”.

Da passagem pela Defesa e pelos Negócios Estrangeiros ficou-lhe o hábito de não confundir a necessidade de travar o Irão com um salvo-conduto para Washington. O Ocidente deve impedir que o Irão tenha uma arma nuclear, "até pela força, se for necessário”. O ataque norte-americano, porém, foi “uma agressão” contra um país soberano, e os crimes cometidos depois por Teerão não podem legitimá-lo retroativamente. “Não, não e não”, responde. 

A mesma régua serve para a Ucrânia: reconhecer conquistas territoriais obtidas pelas armas poderá interromper os combates, mas “paz sem justiça não é paz”.

É na NATO que encontra a contradição mais perigosa. Santos Silva continua a considerar os Estados Unidos o “melhor aliado possível” da Europa e espera que o trumpismo seja só “passageiro”, mas chama ao Presidente norte-americano “um inimigo desta aliança” e recusa que os europeus preservem a relação através do medo. 

Também não aceita os 5% do PIB para a defesa, que classifica como “uma chantagem inaceitável”: antes de gastar mais, a Europa precisa de gastar melhor, coordenar forças e equipamentos e cumprir decisões que permanecem há anos no papel. 

Portugal, recorda, “não é um leão” na cena internacional, mas “uma gazela” que, perante os Estados Unidos, deve olhar para o comportamento dos restantes aliados e ajustar o seu: como Itália, Reino Unido, França, Alemanha e Espanha se distanciaram da ofensiva contra o Irão, “Portugal podia também ter tomado essas distâncias”.

A Europa, porém, perdeu voz por culpa própria. Foi capaz de sustentar a resistência ucraniana quando Washington se aproximou de Moscovo, “mas não aplicamos a Gaza e, sobretudo, à Cisjordânia, os critérios que aplicamos na Ucrânia”, uma incoerência com um custo “absolutamente brutal” para a influência internacional europeia. 

Perante Trump, acusa os dirigentes europeus, incluindo António Costa, de tentarem “amansar a fera” e vê uma “humilhação” na viagem de Ursula von der Leyen ao campo de golfe do Presidente norte-americano, onde esperou pelo fim da partida para aceitar um acordo desigual. Cada cedência, sustenta, não contém a seguinte: apenas lhe abre caminho.

Para explicar o resultado, recupera a frase da avó da mulher: “Quem muito se abaixa, o cu se lhe vê”.

Antigo presidente da Assembleia da República e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros e da Defesa, Augusto Santos Silva acusa Washington de estar a fragilizar a NATO e a ordem internacional. Foto: Faculdade de Economia da Universidade do Porto

Gostava de recuar a março. Não foi há muito tempo, embora pareça já distante. Na altura, afirmou que a guerra no Irão estava “a ser dirigida por três fanáticos”. Creio que se referia a Donald Trump, ao primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e ao novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei. Quatro meses depois, perante tudo o que aconteceu nas últimas semanas, com sucessivos bombardeamentos noturnos dos Estados Unidos, ataques iranianos contra navios, bases norte-americanas na região e infraestruturas civis, e o novo bloqueio, de novo, do estreito de Ormuz, continua a ver apenas fanatismo? Ou algum deles tem uma estratégia?

Para avaliar, teria de corrigir a minha frase de março, porque um dos fanáticos deixou de dirigir a guerra e passou a ser dirigido por ela. Estou a falar do Presidente Trump. Qualquer que seja o critério que utilizemos, não encontramos nenhuma racionalidade estratégica na conduta da administração norte-americana.

Muda de objetivos como quem muda de camisa, diz coisas completamente contraditórias, às vezes no espaço de poucas horas, e há mais de cem dias que garante ter ganhado uma guerra que continua. Portanto, eu diria que, neste momento, do lado norte-americano, a guerra no Irão parece mais um atoleiro do que uma operação militar pensada.

Depois, os fanáticos também têm estratégias. A estratégia do aiatola Mojtaba Khamenei é racional no sentido em que o seu principal objetivo é a sobrevivência do regime e a possibilidade de condicionar a situação geopolítica no Médio Oriente. E descobriu que mais poderoso do que uma eventual arma nuclear seria o controlo do estreito de Ormuz. Tudo tem feito para assegurar esse controlo.

Também deveria notar-se, no que diz respeito ao Irão, que hoje é mais evidente do que era em março que nem sequer é o líder supremo que dirige as operações, mas sim a Guarda Revolucionária, a fação militar mais dura do regime.

Condenou o ataque inicial dos Estados Unidos e de Israel como uma "flagrante violação" do direito internacional, mas salvaguardou também que o Irão cometia crimes contra o seu próprio povo e até crimes de guerra. A resposta iraniana que se seguiu, contra navios, países vizinhos, ainda que os seus alvos fossem maioritariamente bases norte-americanas aí instaladas, pode legitimar uma intervenção norte-americana e israelita que começou, como disse, de forma ilegal? A resposta iraniana valida o ataque inicial?

Não, de todo. O que poderia validar o ataque inicial seria o Irão estar na iminência de produzir armas nucleares.

Mas quem determina essa iminência quando o Conselho de Segurança está bloqueado?

É muito difícil fazer uma análise das relações internacionais sem tornar claro qual é o nosso ponto de partida normativo. E o meu ponto de partida normativo é muito claro.

Em geral, acho que a cooperação multilateral é muito importante, que a cooperação internacional é importantíssima e que o multilateralismo é absolutamente decisivo. Mas não é suficiente. Ao mesmo tempo que praticamos o multilateralismo, devemos cuidar de ter bem escorada a nossa estratégia de defesa coletiva. E creio que ela só pode ocorrer no âmbito do Atlântico Norte, no quadro da NATO.

É preciso ter claro que a melhor maneira de nos defendermos das ameaças provenientes da Rússia e das ameaças que podem surgir da China é sermos fortes na dissuasão. Esse é o meu ponto de vista normativo.

Nesse quadro, acho que o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares deve ser cumprido e o Ocidente, digo mesmo assim, o Ocidente, deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para impedir que países e regimes como o iraniano possam vir a ter uma arma nuclear.

Devo dizer que, no ano passado, nem sequer critiquei a operação militar desenvolvida pelos Estados Unidos e por Israel para bombardear instalações nucleares no Irão, porque o grau de enriquecimento do urânio que os iranianos estavam a acumular, acima dos 60%, estava muito para além daquilo de que precisariam para fins civis de produção de energia nuclear.

Portanto, acho que devemos fazer tudo, do ponto de vista diplomático e também, se necessário, do ponto de vista militar, para impedir o Irão de ter uma arma nuclear. E, já agora, esse raciocínio vale também para a Arábia Saudita e para outros países.

Agora, o que os Estados Unidos fizeram foi uma agressão. Uma agressão contra um país soberano, não mandatada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e que não resultava da iminência de qualquer ataque do Irão contra os Estados Unidos. Portanto, não há outra leitura possível à luz do direito internacional.

Isto dito, não significa nem que o Irão tenha passado a ter legitimidade para responder atacando países terceiros, como fez, nem que a ilegitimidade dessa resposta venha legitimar a agressão inicial a posteriori. A resposta do Irão é também absolutamente ilegítima à luz do direito internacional.

Falou de um dos objetivos declarados pelos Estados Unidos para justificar o ataque: impedir uma arma nuclear iraniana. Esse objetivo transformou-se em vários e foi mudando ao longo do tempo, desde enfraquecer ou derrubar o regime até “libertar Ormuz”, usando a expressão de Donald Trump, que se apresentou como o libertador do estreito. Agora, a estratégia parece ser punir cada ataque segundo uma lógica de olho por olho, dente por dente. Esta sucessão de objetivos revela flexibilidade estratégica ou mostra uma guerra sem uma saída definida, do ponto de vista norte-americano?

Revela que o Departamento de Estado norte-americano foi liquidado por esta administração. Revela que à frente do Pentágono está um louco. Um homem que diz que a coisa mais importante é assegurar que os soldados têm um nível suficiente de testosterona só pode ser classificado como um louco.

Está a falar de Pete Hegseth...

Sim. E o Presidente Trump está num estado que considero quase demencial. Esse é um risco maior: temos hoje a maior potência do mundo e o nosso maior aliado nas mãos de um círculo dirigente corrupto, inepto e moralmente desqualificado. Esse é o principal drama que está a ocorrer.

Repare, voltando mais uma vez à minha base normativa, eu acho mesmo que a Rússia é uma ameaça à segurança europeia e internacional. Acho mesmo que os regimes teocráticos são uma ameaça à segurança internacional. Acho mesmo que o Irão, diretamente e através do Hezbollah, do Hamas e dos rebeldes houthis no Iémen, é uma ameaça à nossa segurança. E acho mesmo que a China coloca desafios muito delicados à geopolítica mundial.

Para enfrentar tudo isto, considero essencial que a União Europeia, o Reino Unido, o Canadá e os Estados Unidos estejam unidos. É por isso que critico tanto Donald Trump. Donald Trump é um inimigo desta aliança.

Está a dizer que Trump é hoje uma ameaça interna à própria NATO?

Se não é um cúmplice de Vladimir Putin, é pelo menos alguém cuja ação converge com a de Putin e obedece à mesma lógica: a lógica do império do mais forte. Cada um faz o que quer na sua área de influência.

Trump está a destruir as bases morais da nossa defesa militar. E uma coisa lhe garanto: sem legitimidade moral, sem legitimidade política e sem inteligência política, as guerras podem ser todas ganhas no campo de batalha, mas são sempre perdidas politicamente. A guerra do Vietname mostrou-o e a guerra do Afeganistão também.

Santos Silva não encontra “nenhuma racionalidade estratégica” na atuação de Donald Trump e considera que o Presidente norte-americano deixou de conduzir a guerra no Irão para passar a ser conduzido por ela. Foto: Associated Press

Ainda tinha mais uma ou duas perguntas sobre o capítulo do Irão, mas vou pegar já na NATO. Sustentou recentemente que é difícil existir uma aliança estável quando os seus membros não são consultados antes de uma operação, como aconteceu no Irão. Depois disso, já na recente Cimeira de Ancara, Trump começou por lançar uma espécie de foguetório de ameaças contra aliados, incluindo uma forma de castigo a Espanha, embora tenha terminado reafirmando o artigo 5.º no fim. É possível confiar numa garantia de defesa coletiva, como a da NATO, quando ela depende das oscilações pessoais de um homem que também é o Presidente de uma superpotência?

Nós, da nossa tribo, digamos assim, de observadores e atores das relações internacionais, usamos a expressão “paciência estratégica” para distinguir o que é circunstância do que é estrutura, a conjuntura do tempo longo.

Não duvido de que este momento há de passar. E é absolutamente essencial, quando olhamos para os Estados Unidos, distinguirmos a atual estrutura de poder em Washington daquilo que são os Estados Unidos. Os Estados Unidos continuam a ser uma sociedade vibrante, democrática e aberta e o melhor aliado que a Europa pode ter.

O aliado original, sim.

Um aliado... interessado. Há uma mitologia corrente que não tem pés nem cabeça: a ideia de que, por voluntarismo, generosidade ou benevolência, os Estados Unidos fazem o favor de defender a Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ora, os Estados Unidos defendem a Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial porque, na doutrina militar inteligente, quando ainda a havia nos Estados Unidos, a Europa é a primeira linha de defesa dos próprios Estados Unidos. E, nas relações internacionais, os interesses não são o contrário dos valores.

Não tenho dúvida nenhuma de que, se os Estados Unidos não tivessem um interesse estratégico em ser aliados da Europa, não o seriam. Mas têm.

Mas uma aliança pode sobreviver sem confiança no seu principal membro?

Espero que o trumpismo seja um fenómeno passageiro. Acho essencial preservarmos essa aliança com os Estados Unidos e não deixarmos que as dificuldades que temos hoje na relação com Trump a danifiquem.

A minha única divergência em relação aos dirigentes europeus, incluindo, já agora, o presidente do Conselho Europeu [António Costa], é que eles retiram daqui a conclusão de que têm de amansar a fera, adotar uma atitude de apaziguamento e compreender ou descontar os exageros retóricos e emocionais de Donald Trump, precisamente para preservar a relação.

Eu penso o contrário. Penso que é a firmeza perante as afirmações, as ameaças e as condutas inaceitáveis de Trump que pode preservar a nossa relação com os Estados Unidos.

Porque é que considero que a NATO corre perigo? Porque qualquer aliança fundada no artigo 5.º, na qual um dos membros ameaça invadir outro, tem em perigo a sua própria lógica de funcionamento. Qualquer aliança que funciona por consenso e na qual um dos seus membros ameaça expulsar outros, quando nem sequer tem esse poder, tem o seu funcionamento em perigo.

Está a falar da Gronelândia, naturalmente.

Da Gronelândia e de Espanha, não é? Da ameaça de invadir a Dinamarca e da ameaça de expulsar Espanha [da NATO].

Também vejo com tristeza que muitas pessoas não dizem as coisas como devem ser ditas. Donald Trump não ameaça simplesmente tomar conta da Gronelândia. Donald Trump ameaça invadir pela força um Estado soberano, a Dinamarca.

E anexar a Gronelândia, sim.

Porque, se os espanhóis ameaçassem tomar conta do Alentejo, nós não diríamos: “Os espanhóis querem invadir o Alentejo”. Diríamos: “Os espanhóis querem atacar Portugal”.

A propósito dessa incerteza trumpista, mais até do que de uma incerteza norte-americana: se lhe juntarmos a ameaça russa e a guerra no Irão, como consegue a Europa garantir a sua segurança sem um esforço financeiro da dimensão dos 5% do PIB para a defesa, que Donald Trump não impôs sozinho, mas em larga medida impôs? Tem defendido que uma despesa dessa dimensão é incompatível com o modelo social europeu...

Claro. Em Portugal, haverá de chegar o dia em que nos perguntaremos como se pagam, por exemplo, os cerca de 3,9 mil milhões de euros das fragatas que o Primeiro-Ministro Luís Montenegro decidiu comprar a Itália. Espero que não seja como aconteceu com os submarinos: Paulo Portas encomendou-os e eu e Fernando Teixeira dos Santos pagámo-los. Espero que não seja assim.

A minha primeira objeção aos 5% é não terem qualquer racional. Poderiam ser 5%, 4%, 4,5%, 6% ou 7%.

A segunda objeção é tratar-se de uma chantagem. Em 2014, na Cimeira de Gales, acordámos todos que nos aproximaríamos, esse era o termo, no prazo de dez anos, dos 2% do PIB. Quando chegámos todos perto desse valor, os norte-americanos disseram: “Afinal, já não conta. Agora passa a ser 5%”. É uma chantagem inaceitável.

Em terceiro lugar, sou contra os 5% porque se baseiam também numa mentira, numa espécie de contabilidade criativa, para não lhe chamar diretamente aldrabice.

Onde está a contabilidade criativa? Basta pensar no que acontece com Portugal. De um ano para o outro, Portugal passa de 1,4% do PIB para 2,1%, e o Primeiro-Ministro até disse recentemente que chegaríamos aos 3,1% do PIB.

Cada ponto percentual do PIB em Portugal representará atualmente qualquer coisa como 2,5, 2,6 ou 2,7 mil milhões de euros. Não é uma coisa que se vá buscar ao mealheiro de um dia para o outro. Porque é que falamos assim? Porque coisas que nunca foram aceites como parte do cálculo da despesa militar passaram a sê-lo.

Repare, a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, chegou a comunicar que a ponte que pretende construir entre o continente e a Sicília, sobre o estreito de Messina, contaria para efeitos de despesa militar, porque aumentaria a segurança do país. Há países que hoje contabilizam assim.

Faço um novo hospital. O hospital, se for necessário, poderá ser utilizado para tratar soldados, portanto também conta. É uma forma de brincar com as coisas.

Mesmo aceitando que os 5% são artificiais, a Europa não precisa de gastar mais?

A minha quarta objeção é que, antes de gastarmos mais, deveríamos gastar muito melhor. É disso que precisamos.

Se retirarmos a parte dos Estados Unidos da despesa da NATO, que representa atualmente qualquer coisa entre um quarto e um terço do total, mesmo assim os restantes 31 países, acho eu, gastam anualmente mais em defesa do que a Rússia, que é a ameaça mais premente, e do que a China.

Precisamos de gastar melhor, designadamente tornando os nossos equipamentos mais interoperáveis e as nossas forças mais coordenadas.

Ainda eu era ministro dos Negócios Estrangeiros, há uns anos, já lá vão, e nós, ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa da União Europeia, acordámos constituir, dentro de determinado prazo, cinco anos, se não me falha a memória, uma força multinacional europeia de reação rápida com cinco mil homens e mulheres. Ela ainda não foi verdadeiramente posta no terreno.

Portanto, há muita coisa a fazer antes de destruirmos as bases do apoio popular à nossa defesa, sugerindo às pessoas que vamos gastar mais em armas e menos em pensões ou medicamentos.

Recuperando esses tempos em que foi ministro dos Negócios Estrangeiros, não para falar do seu período à frente do Ministério, mas para regressar ao Irão através das Lajes: Portugal autorizou dezenas de aterragens e sobrevoos norte-americanos na Base das Lajes e terá imposto como condições que a resposta fosse necessária e proporcional, no quadro da NATO, e, sobretudo, que não fossem atingidas infraestruturas civis. É difícil determinar, nesta altura, se isso foi respeitado, porque a chamada dupla utilização das infraestruturas é discutível. A partir de que momento o apoio logístico de Portugal através da Base das Lajes deixa de ser apenas apoio e passa a significar uma participação na guerra, ainda que indireta?

Eu, que não gosto de ter duas caras, quando me pronuncio agora nunca me esqueço de que fui ministro da Defesa Nacional e ministro dos Negócios Estrangeiros. Procuro ser coerente.

Claro que uso agora uma linguagem muito mais solta do que usaria se tivesse responsabilidades governativas. Se tivesse responsabilidades governativas, não chamaria louco ao secretário da Guerra dos Estados Unidos, como ainda há pouco chamei. Compreendo tudo isso muito bem. Não critico os cuidados de linguagem usados pelo atual Governo ou por qualquer governo. Isso parece-me evidente.

Também não fui uma das pessoas que rasgaram as vestes por causa da história das Lajes. Temos uma relação muito boa com os Estados Unidos. Uma relação muito antiga e muito boa.

Portugal foi o primeiro país neutral a estabelecer relações diplomáticas com os Estados Unidos. O consulado norte-americano em Ponta Delgada é o mais antigo consulado dos Estados Unidos em funcionamento contínuo no mundo. Podemos também recordar que a independência norte-americana foi brindada com vinho da Madeira.

Portanto, é uma relação muito boa. E devo dizer que, durante o meu mandato nos Negócios Estrangeiros, que incluiu o primeiro mandato do Presidente Trump, as coisas foram sempre geridas com bastante cuidado e simpatia de parte a parte. Faço uma distinção clara entre o primeiro mandato e este, em que me parece que tudo explodiu.

Este que ele próprio considera ser o terceiro.

[Risos.]

Mas continue...

Porque há ali um elemento que não posso deixar de caracterizar como demencial.

Durante o primeiro mandato, participei apenas uma vez numa reunião com o Presidente Trump, quando acompanhei o ex-Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Depois, houve um encontro a dois no qual, literalmente, não participei.

Mas participei em muitas reuniões com o secretário de Estado, o secretário da Defesa e o Conselho de Segurança Nacional. Foi sempre possível, com essa estrutura da governação norte-americana, ter conversas muito produtivas, nas quais cada um defendia os seus interesses e rapidamente chegávamos à conclusão de que esses interesses convergiam.

Portanto, não critiquei o Governo português na história das Lajes. Percebo que a nossa tradição seja de grande generosidade relativamente às autorizações de que os norte-americanos necessitam à luz do tratado, porque a nossa relação é muito boa.

Não fiquei muito incomodado com o facto de os Estados Unidos terem inicialmente contornado os procedimentos, até porque a responsabilidade por isso é mais dos Estados Unidos do que do Governo português.

Também me pareceu que as condições e os requisitos tornados públicos pelo ministro Paulo Rangel eram adequados: precisamente aqueles que ainda agora citou.

Já fiquei muito preocupado quando vi a jactância do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, ao dizer, no fundo, que os portugueses são tão bons, ou tão palermas, que, antes de lhes dizermos para que queríamos a autorização, já eles a estavam a dar.

Isso pareceu-me uma forma muito infeliz de nos rebaixar, à qual deveríamos ter reagido. E deveríamos ter reagido com mais firmeza.

Augusto Santos Silva considera adequadas as condições impostas por Portugal ao uso norte-americano da Base das Lajes, mas defende que o país poderia ter-se distanciado da ofensiva contra o Irão.. Foto: Lusa

Uma autorização como esta, para aterragens e sobrevoos, pode ser revista ou alterada no decorrer desta guerra concreta? Ou isso abriria um problema diplomático, dada a nossa relação com os Estados Unidos?

Creio que não temos qualquer interesse em entrar numa negociação com a atual administração norte-americana para rever seja o que for. É melhor sermos um pouco mais pacientes. Mas queria ainda dizer outra coisa.

Por favor...

Não ignoro, em primeiro lugar, que temos uma relação muito estreita e antiga com os Estados Unidos e que os Estados Unidos são os Estados Unidos.

Também não ignoro que nós somos, na cena internacional, uma gazela. Uma gazela que corre em qualquer terreno e tem uma conduta muito flexível, daí as vitórias que vamos acumulando no plano internacional. Mas não deixamos de ser uma gazela. Não somos um leão.

Sempre fiz assim, e creio que qualquer ministro fará o mesmo: quando tinha algum problema com um leão, neste caso os Estados Unidos, procurava ver o que estavam a fazer os outros membros do meu grupo, que são também meus aliados, e ajustava o meu comportamento tendo em conta o comportamento deles.

Ora, neste caso, a Itália, a própria Itália, o Reino Unido, a França e a Alemanha, para além do caso evidente de Espanha, tomaram as suas distâncias em relação à agressão ao Irão. Creio que Portugal também poderia ter tomado essas distâncias.

Portugal teve, entretanto, uma vitória muito expressiva, com a eleição para o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Isso mostra que o país não foi prejudicado por este comportamento?

Volto agora, acho eu, a responder a uma pergunta sua, uma questão um pouco mais técnica, porque chegou a perguntar se não teríamos sido prejudicados por este comportamento. Não creio. Aliás, acho que o resultado da eleição para o Conselho de Segurança mostra isso.

Os países de todo o mundo compreendem bem o que é Portugal, qual é o posicionamento geopolítico de Portugal e qual é esta capacidade portuguesa de falar com todos. Não creio que isso tenha ficado prejudicado. Mantemos esse forte capital de confiança.

Regresso brevemente ao Irão. Talvez esta pergunta faça também sentido dirigindo-a ao professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade do Porto. Durante a trégua de junho, embora saibamos que o Irão podia continuar a escoar petróleo por vias informais, sobretudo para a Ásia, Washington levantou temporariamente o bloqueio. O tráfego marítimo no estreito de Ormuz regressou quase aos níveis anteriores à guerra e o Irão pôde retomar as exportações de petróleo. Trump, mesmo do ponto de vista económico, não terá cometido um erro estratégico ao permitir que Teerão recuperasse receitas e, dessa forma, se preparasse para um novo possível confronto, que acabou por acontecer?

A lista de erros do Presidente Trump é infindável.

Há duas coisas às quais o Presidente Trump reage e, como se diz em Economia, reage com uma elasticidade muito alta. A primeira é a demonstração de força. Veja-se o que aconteceu no diálogo com a China. A segunda é o andamento da bolsa de valores nos Estados Unidos e tudo o que possa causar uma penalização eleitoral mais imediata.

A trégua de junho teve a ver com o facto de a inflação ter disparado nos Estados Unidos. O facto de os Estados Unidos serem autossuficientes em petróleo e até exportadores líquidos, ao contrário do que pensam os “economistas” que rodeiam Trump, não os torna imunes à escalada dos preços do petróleo.

Portanto, o preço do galão de gasolina, como lá se diz, aumentou muito. Para os nossos valores, continua a ser pouco, mas, tendo em conta os hábitos norte-americanos, onde o automóvel é ainda mais importante do que o quarto de dormir, foi uma escalada brutal.

O que o Presidente Trump fez foi tentar conter essa espiral, permitindo, ao fim e ao cabo, que o Irão deixasse escoar o petróleo e pudesse escoar o seu próprio petróleo.

Às vezes digo, e penso para comigo, que aquele que teria mais depressa um ataque cardíaco perante a conduta do Presidente Trump seria Henry Kissinger. Seria precisamente aquele republicano completamente vidrado na Realpolitik, naquele cinismo muito inteligente e estratégico. Ele seria o primeiro a ter um ataque cardíaco com isto, acho eu.

O controle do estreito de Ormuz tornou-se a principal arma de Teerão: para Santos Silva, poderá ser “mais poderoso do que uma eventual arma nuclear”. Foto: Associated Press

Ainda a propósito da trégua de junho, o Paquistão talvez tenha sido o país central, embora possamos também falar do contributo de países como a Arábia Saudita ou a Turquia. Mas uma coisa que causou espanto foi a posição da União Europeia, que parece hoje, pelo menos nesta circunstância, muito reduzida aos apelos à contenção. Sendo esta uma guerra que ameaça diretamente a União Europeia, do ponto de vista da segurança energética, da economia e até da NATO, estamos a perder demasiada voz ou capacidade diplomática em conflitos como este, para não falar da guerra na Ucrânia e de outros?

Nós, na União Europeia, temos uma coisa de que nos podemos orgulhar muito e duas de que nos devemos envergonhar.

A coisa de que nos podemos orgulhar muito é o nosso apoio à Ucrânia, que foi absolutamente essencial, designadamente naquele período inicial do segundo mandato de Trump em que os Estados Unidos alinharam com a Rússia e interromperam qualquer apoio à Ucrânia. Nós conseguimos manter esse apoio.

Esse apoio é decisivo para a resistência da Ucrânia, juntamente, evidentemente, com o heroísmo do seu próprio povo. Isso é muito importante e também demonstra que, ao contrário do que por vezes se diz, não estamos assim tão dependentes dos Estados Unidos para assegurar a nossa defesa coletiva na Europa.

A incoerência entre a Ucrânia e Gaza não destrói a autoridade moral da Europa?

A primeira coisa de que nos devemos envergonhar é a conduta miserável que temos tido em relação à Palestina. Não há outro termo. O adjetivo, para mim, é miserável.

A forma como não aplicamos a Gaza e, sobretudo, à Cisjordânia os mesmos critérios que aplicamos na Ucrânia é uma vergonha para a Europa e tem um custo absolutamente brutal para a sua influência internacional.

A segunda coisa de que nos devemos envergonhar é o apaziguamento, a complacência e até o medo que manifestamos perante a administração norte-americana. Isso ainda por cima tem um efeito perverso.

A avó da minha mulher tinha uma expressão muito engraçada. Eu sou do Porto, portanto uso uma linguagem muito...

Quando necessário...

[Risos] Quando é necessário. A expressão era: “Quem muito se abaixa, o cu se lhe vê”. Lembro-me sempre desta expressão quando vejo esta forma timorata de agir.

O que ganhou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao sujeitar-se à humilhação de se deslocar à Escócia, ao campo de golfe do Presidente Trump, e esperar que ele acabasse a sua partida para assinar um papel no qual aceitava que os Estados Unidos impusessem tarifas de 15% e a Europa não impusesse nenhuma?

Era evidente que essa humilhação só abriria caminho para que Trump fizesse o que veio a fazer depois: ignorar o próprio acordo.

É curioso que, mesmo ignorando esse acordo, continue a apresentar-se como o único dirigente político capaz de pôr fim à guerra na Ucrânia.

Há uma coisa que não consigo perceber: como é que os jornalistas podem ouvir isto e não se desatam todos à gargalhada?

Mas a minha pergunta é precisamente essa: não é só risível? 

Não sei se conhece os memes, os vídeos e os cartazes que circulam no Irão, com os bonecos em estilo Lego do Presidente norte-americano. Eu próprio sinto vergonha, porque os Estados Unidos são um dos países líderes do Ocidente e eu acredito mesmo no Ocidente. Como é que nos sujeitamos a isto?

Augusto Santos Silva rejeita uma solução que reconheça as conquistas territoriais russas obtidas pela força: “Paz sem justiça não é paz”. Foto: EPA

Esta é a minha última pergunta. A paz que Donald Trump defende é uma paz que, de forma mais ou menos implícita, reconhece as conquistas territoriais obtidas pela força pela Rússia. Se, por um lado, é verdade que reconhecer essas conquistas poderia evitar novas mortes, podemos realmente chamar paz a uma solução que parte da força?

Não. Não, não e não.

Em primeiro lugar, porque paz sem justiça não é paz.

Em segundo lugar, porque, mesmo do ponto de vista, digamos assim, da Pax Romana, da administração e do controlo de um território, isso é impossível.

Imagine que o Presidente Putin tinha cumprido o seu objetivo e, como dizia, tinha “desnazificado” a Ucrânia numa semana, derrubado o regime e tomado conta do país. Não sei quantos são, 40, 50 ou 60 milhões de ucranianos. Ir-se-iam sujeitar pacificamente ao domínio russo?

Acha que os venezuelanos estão contentes com o protetorado norte-americano?

Acho que foram iludidos.

Estão furiosos, porque perceberam que há uma combinação de interesses entre um dos regimes mais corruptos do mundo, o regime de Maduro e o regime de transição de Delcy Rodríguez, e os Estados Unidos, que invadiram o país, mataram pessoas, tomaram conta da Venezuela e não têm pejo em dizer, cito as palavras do próprio Presidente norte-americano, que são eles que governam a Venezuela.

Portanto, só conquistamos a paz e só asseguramos a nossa segurança através do direito. O direito tem, evidentemente, como último recurso o uso legítimo da força, tanto no direito interno como no direito internacional.

Mas, sem direito, sem normas que sejam iguais para todos, sem respeito pela independência dos povos, pela autonomia dos países e pelas aspirações das populações, garanto-lhe que podemos bombardear e reduzir a cinzas edifícios, igrejas e hospitais, mas nunca ganharemos a guerra do ponto de vista político. Como, aliás, os israelitas percebem em Gaza.

30 jul, 2026

https://cnnportugal.iol.pt/augusto-santos-silva/entrevista

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"O trabalho é mais importante e é independente do capital. O capital é apenas o fruto do trabalho, e não existiria sem ele. O trabalho é superior ao capital e merece a consideração mais elevada." (Lincoln, Presidente dos EUA)