segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sophia de Mello Breyner - Revolução

* Sophia de Mello Breyner

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta

como puro inícío
Como tempo novo
Sem mancha nem vício

Como a voz do mar
Interior de um povo

Como página em branco
Onde o poema emerge

Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner Andresen, O nome das coisas, 1977 

Jorge de Sena - Nunca pensei viver para ver isto:

 * Jorge de Sena

 Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
– no negro desespero sem esperança viva –
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe –
E agora, povo português?

Essas promessas – há que fazer depressa
que o povo as entenda, creia mais em si mesmo
do que nelas, porque elas só nele se realizam
e por ele. Há que, por todos os meios,
abrir as portas e as janelas cerradas quase cinquenta anos -
E agora, meu general?

E tu povo, em nome de quem sempre se falou,
ouvir-se-á a tua voz firme por sobre os clamores
com que saúdas as promessas de liberdade ?
Tomarás nas tuas mãos, com serenidade e coragem,
aquilo que, numa hora única, te prometem ?
E agora, povo português?

Jorge de Sena, 40 anos de servidão

quinta-feira, 20 de abril de 2017

João Pedro Grabato Dias - Um silêncio vazio está demasiado perto da loucura.



 * João Pedro Grabato Dias

Um silêncio vazio está demasiado perto da loucura.
Temos de ritmá-lo continuamente. E logo
esvaziá-lo dos especialíssimos silencios do remorso
alimentá-lo sem cessar de outros silencios
dar-lhe sempre e sempre o veludo das carícias.

Passeio-me na solidão como a um cão de luxo.
Povôo-a de regularidades e higiene.
Alço a metafísica como uma pesada para trazeira.
E com a possível e muito estudada simplicidade
jorro-me contente nos bocados mais amargos.

Agora cão, mão e dono e cão, passeio. Passo
por entre goivos dominicais em plástico.
Sou o olho vagaroso a deter viúvas, o sapato
a moer érres de saibro no ondular morno da alameda
o cheiro tudo nada pungente da cera.
E cão, mão, dono, olho, sapato, odor, sigo
curva tensa da trela
satisfatóriamente menos, qualquer coisa mais.  

Abri, suponho, a porta errada.
E saí para dentro desta calma máquina de moer cristal.
Tateio as engrenagens de mucosa
estou todo fora cá dentro, arranho-me e é bom.

Com extrema doçura amarelece a infância
nas caixas ordenadas em cada visita.
Sem pensamento possível, miro-me.
Reconheço-me: olá, subo à nespereira pela malícia acima
toco o arco das bruxas, e, enforquilhado
tiro a broa das alhadas do bife
e berlindo o Universo com dois olhos contentes
e, óbviamente incontáveis, caroços de nêspera.

Pita branca, pita preta, pinta branca – pinta preta.
À volta do olho redondo imobilizam-se as pintas
num plano de atenção. Dona pedrez roufeja
o convite, e o olho faz-se o pórtico enorme
por onde entro a patinar de barriga e um pouco surdo
no labirinto sem curvas de uma quente ansiedade
e torno a sair à mesa no amarelo do ovo
riso babão reflectido no bojo do candeeiro
a falar baixo da avó, o brilhar dos dentes da avó
o esmalte laranja das caçarolas, o tinir das malgas
o encher lento e morno da barriga a apertar o corção.
(o João pestana entrou agora e cerrou a porta
Avó tenho tosse. Queres um patacão?Toma.)
Do forro pingam bordões da guitarra.
E da boca da guitarra sai um silêncio grosso e contente
como  um jorro de sangue que me lava os olhos
me rodeia, me embala e onde navego
no exatíssimo instante que antecede
o grande mergulho no meio do Sol.

Recortada no estanho da hesitação tremeluz a sardinha.
Busca os fundos da memória, fende a carne mais antiga
Desce fresca entre duas águas, crepita num azul de escama
Meigo e seguro bisturi asséptico, a sardinha, revela agora
o pequeno nódulo perlífero que cresce girando
e, subitamente mole, é o branco duro da duna
é o orvalho das camarinhas, é o barulho morno dos pés na caruma
é um besugar sem vento nas canas, um rasquinhar de formigas
é o espantoso silencio do mar, só evidente
no segundo após a vaga quebrada

Buraco movediço na paisagem, borrão preto
elástico, roja a sombra que projecta
e transporta sem custo duas palhetas de hipnose.
Não faz ruidos , não é daqui, só vagueia
pelo presente. Determinado num sem rumo certo
presente-se-lhe a cabeça cheia de esmeraldas
que saiem em pedradas rápidas e se fundem
imediatamente na luz de antemanhã.
Sinto o peso da bola de sombra
o arripio da cerda na orelha
o apunhalar das unhas na coberta de papa
e o roronar desta máquina de meiguice.
Bichinho gato.
Bichinho. Meu gato,


(Poema ou parte do poema premiado no concurso da Câmara Municipal de Lourenço Marques, recuperado em fragmentos do original)
Sonetos de amor e circunstância e uma canção desesperada
João Pedro Grabato Dias
Colecção O Som e o Sentido
Edição de Académica Lda, Lourenço Marques, 1975

IN http://caisdoolhar.blogspot.pt/2017/04/olhar-as-capas_19.html 

Jorge de Sousa Braga - 3 AM



Jorge de Sousa Braga

Mãe 
Não consigo adormecer 
Já experimentei tudo. Até contar carneirinhos ...
Não consigo adormecer 
Nem chorar 
(Que maior tragédia poderá acontecer a um homem do que a de já não ser
capaz de chorar?)
Mãe 
Sabias que o cordão umbilical pode funcionar 
como uma corda num enforcamento? 
— tenho aprendido coisas bem singulares neste 
convívio com os deuses — 
Um dia destes regressarei a Tebas para ser coroado 
Reservei hoje mesmo um lugar num avião das Linhas Aéreas Gregas 
Gostaria de brindar contigo com uma taça de orvalho 
antes de partir
Mãe 
Detesto coberturas de açúcar mesmo que levem limão 
Isto é tão certo como o é tu não me compreenderes 
Estava a sonhar que estava a sonhar e assim por aí adiante até ao infinito. Depois
acordei. E fui descendo vertiginosamente de sonho para sonho 
Ainda não parei de acordar. E de sonhar
Mãe 
Tenho uma surpresa para ti 
um caramanchão para que te possas sentar todas as tardes a catar estrelas
na minha cabeça
Mãe 
Abriu um concurso para preencher uma vaga de 
ascensorista no Paraíso e eu concorri 
Achas que tenho alguma hipótese de ser admitido? 
— tenho a boca cheia de formigas —
Mãe 
um dia hei-de subir contigo 
degrau 
a degrau 
o arco-íris



Jorge de Sousa Braga, in 'Antologia Poética
IMAGEM - carneirinhos por kitty'in http://mamiferas.blogspot.pt/2009/04/ja-e-hora-de-dormir.html?m=1 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sete obras essenciais para conhecer Mia Couto

16 de abril de 2017 - 13h28 

  

Mia Couto é um dos mais aclamados escritores africanos contemporâneos





Mia escreve em diversas formas, mas todas com algo em comum: a sensibilidade. Seus textos traduzem e explicam a alma humana, o que torna impossível para alguém permanecer indiferente após a leitura. É um dos autores africanos mais reconhecidos da atualidade, aclamado em todo o mundo.



Selecionamos sete obras essenciais para entender Mia Couto: 

Poemas escolhidos

Para esta antologia poética, Mia Couto selecionou poemas de seus livros Idades cidades divindades, Raiz de orvalho e outros poemas e Tradutor de chuvas.

Terra sonâmbula

Um ônibus incendiado em uma estrada poeirenta serve de abrigo ao velho Tuahir e ao menino Muidinga, em fuga da guerra civil devastadora que grassa por toda parte em Moçambique. Como se sabe, depois de dez anos de guerra anticolonial (1965-75), o país do sudeste africano viu-se às voltas com um longo e sangrento conflito interno que se estendeu de 1976 a 1992.

O veículo está cheio de corpos carbonizados. Mas há também um outro corpo à beira da estrada, junto a uma mala que abriga os “cadernos de Kindzu”, o longo diário do morto em questão. Qual será a ligação entre estas duas histórias? Um romance escrito numa prosa poética que remete a Guimarães Rosa.

Mulheres de cinza

Apesar do tema duro – a luta, no século 19, de Portugal para “livrar” o sul de Moçambique do domínio do ditador africano Ngungunyane -, o lirismo de Mia Couto transforma a história em algo incrivelmente poético. Muito coerente da sua parte dividir a obra em dois narradores: uma nativa africana e um soldado português. No começo, o leitor fica surpreso com as lendas africanas e consternado com a ingenuidade dos nativos. Contudo, ao longo das páginas, ele percebe que esta ingenuidade está justamente no lado lusitano, que em momento algum entende, de verdade, as nuances do local que deseja tanto conquistar. E o melhor? É apenas o primeiro volume de uma trilogia.

Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra

O retorno de Marianinho a Luar-do-Chão não é exatamente uma volta às suas origens. Ao chegar à ilha natal, incumbido de comandar as cerimônias fúnebres do avô Mariano – de quem recebeu o mesmo nome e de quem era o neto favorito -, ele se descobre um estranho tanto entre os de sua família quanto entre os de sua raça, pois na cidade adquiriu hábitos de um branco. Aos poucos, Marianinho percebe que voltou à ilha para um renascimento.

O fio das missangas

Em histórias de desencontros, de incompreensões, de vidas incompletas e de sonhos não realizados, Mia Couto condensa as infinitas vidas que podem se abrigar em cada ser humano. São 29 contos unidos como missangas em redor de um fio.

Antes de nascer o mundo

Jesusalém, pequeno local encravado em Moçambique, abriga cinco almas apartadas das gentes e das cidades do mundo. Ali, ensaiam um arremedo de vida: Silvestre e seus dois filhos, Mwanito e Ntunzi, mais o Tio Aproximado e o serviçal Zacaria. O passado para eles é pura negação recortada em torno da figura da mãe morta em circunstâncias misteriosas. E o futuro se afigura inexistente. Mas um belo dia os donos do mundo voltarão para reivindicar a terra de Jesusalém. E não só isso: uma bela mulher também virá para agitar a inércia dos dias solitários daqueles homens.

Estórias abensonhadas

Depois de quase trinta anos de guerra, Moçambique vive agora um período de paz. Numa prosa poética e carregada das tradições orais africanas, o autor tece pequenas fábulas e registros que, sem irromper em grandes acontecimentos, capturam os movimentos íntimos dessa passagem. Fantasia e realidade se entrelaçam e se impõem uma à outra, como num reflexo do próprio continente africano.





Fonte: Estante
http://www.vermelho.org.br/noticia/295676-1

António Feliciano de Castilho - Os 13 anos

* António Feliciano de Castilho

Já tenho treze anos, 
que os fiz por Janeiro:
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.
Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já bailo ao domingo
com as mais no terreiro.
Já não sou Anita,
como era primeiro;
sou a Senhora Ana,
que mora no outeiro.
Nos serões já canto,
nas feiras já feiro,
já não me dá beijos
qualquer passageiro.
Quando levo as patas,
e as deito ao ribeiro,
olho tudo à roda,
de cima do outeiro.
E só se não vejo
ninguém pelo arneiro,
me banho co'as patas
Ao pé do salgueiro.
Miro-me nas águas,
rostinho trigueiro,
que mata de amores
a muito vaqueiro.
Miro-me, olhos pretos
e um riso fagueiro,
que diz a cantiga
que são cativeiro.
Em tudo, madrinha,
já por derradeiro
me vejo mui outra
da que era primeiro.
O meu gibão largo,
de arminho e cordeiro,
já o dei à neta
do Brás cabaneiro,
dizendo-lhe: «Toma
gibão, domingueiro,
de ilhoses de prata,
de arminho e cordeiro.
A mim já me aperta,
e a ti te é laceiro;
tu brincas co'as outras
e eu danço em terreiro».
Já sou mulherzinha,
já trago sombreiro,
já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro.
Já não sou Anita,
sou a Ana do outeiro;
Madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.
Não quero o sargento,
que é muito guerreiro,
de barbas mui feras
e olhar sobranceiro.
O mineiro é velho,
não quero o mineiro:
Mais valem treze anos
que todo o dinheiro.
Tão-pouco me agrado
do pobre moleiro,
que vive na azenha
como um prisioneiro.
Marido pretendo
de humor galhofeiro,
que viva por festas,
que brilhe em terreiro.
Que em ele assomando
co'o tamborileiro,
logo se alvorote
o lugar inteiro.
Que todos acorram
por vê-lo primeiro,
e todas perguntem
se ainda é solteiro.
E eu sempre com ele,
romeira e romeiro,
vivendo de bodas,
bailando ao pandeiro.
Ai, vida de gostos!
Ai, céu verdadeiro!
Ai, páscoa florida,
que dura ano inteiro!
Da parte, madrinha,
de Deus vos requeiro:
Casai-me hoje mesmo
com Pedro Gaiteiro.
António Feliciano de Castilho, in 'Escavações Poéticas'

domingo, 16 de abril de 2017

Konstantin Podrevskii. - Dorogoi dlinnoyu (Those were the days)

Konstantin Podrevskii.

interpretação de Maria Izmajlova

Dorogoi dlinnoyu (versión en ruso)
ехали на тройке с бубенцами,
А вдали мелькали огоньки…
Эх, когда бы мне теперь за вами,
Душу бы развеять от тоски!
Дорогой длинною, погодой лунною,
Да с песней той, что в даль летит звеня,
Да со старинною, да с семиструнною,
Что по ночам так мучила меня.
Да, выходит, пели мы задаром,
Понапрасну ночь за ночью жгли.
если мы покончили со старым,
Так и ночи эти отошли!
В даль родную новыми путями
Нам отныне ехать суждено!
…ехали на тройке с бубенцами,
Да теперь проехали давно!
Dorogoi dlinnoyu (versión en ruso con carácteres latinos)
ekhali na troyke s bubentsami,
A vdali mel’kali ogon’ki…
Ekh, kogda by mne teper’ za vami,
Dushu by razveyat’ ot toski!
Dorogoy dlinnoyu, pogodoy lunnoyu,
Da s pesney toy, chto v dal’ letit zvenya,
Da so starinnoyu, da s semistrunnoyu,
Chto po nocham tak muchila menya.
Da, vykhodit, peli my zadarom,
Ponaprasnu noch’ za noch’yu zhgli.
esli my pokonchili so starym,
Tak i nochi eti otoshli!
V dal’ rodnuyu novymi putyami
Nam otnyne ekhat’ suzhdeno!
…ekhali na troyke s bubentsami,
Da teper’ proekhali davno!
Dorogoi dlinnoyu (versión en Inglés)
You rode on a troika with sleigh bells,
And in the distance lights flickered..
If only I could follow you now
I would dispel the grief in my soul!
By the long road, in the moon light,
And with this song that flies off, ringing,
And with this ancient, this ancient seven-string,
That has so tormented me by night.
But it turns out our song was futile,
In vain we burned night in and night out.
If we have finished with the old,
Then those nights have also left us!
Out into our native land, and by new paths,
We have been fated to go now!
…You rode on a troika with sleigh bells,
[But] you’ve long since passed by!

interpretada pelos Coros do Exército Russo

http://www.hermanotemblon.com/%D0%B4%D0%BE%D1%80%D0%BE%D0%B3%D0%BE%D0%B9-%D0%B4%D0%BB%D0%B8%D0%BD%D0%BD%D0%BE%D1%8E-dorogoi-dlinnoyu-musica-rusa-ii/

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Silvia Plath. - Fever 103°





* Silvia Plath

Pure? What does it mean?
The tongues of hell
Are dull, dull as the triple

Tongues of dull, fat Cerebus
Who wheezes at the gate. Incapable
Of licking clean

The aguey tendon, the sin, the sin.
The tinder cries.
The indelible smell

Of a snuffed candle!
Love, love, the low smokes roll
From me like Isadora’s scarves, I’m in a fright

One scarf will catch and anchor in the wheel.
Such yellow sullen smokes
Make their own element. They will not rise,

But trundle round the globe
Choking the aged and the meek,
The weak

Hothouse baby in its crib,
The ghastly orchid
Hanging its hanging garden in the air,

Devilish leopard!
Radiation turned it white
And killed it in an hour.

Greasing the bodies of adulterers
Like Hiroshima ash and eating in.
The sin. The sin.

Darling, all night
I have been flickering, off, on, off, on.
The sheets grow heavy as a lecher’s kiss.

Three days. Three nights.
Lemon water, chicken
Water, water make me retch.

I am too pure for you or anyone.
Your body
Hurts me as the world hurts God. I am a lantern ——

My head a moon
Of Japanese paper, my gold beaten skin
Infinitely delicate and infinitely expensive.

Does not my heat astound you. And my light.
All by myself I am a huge camellia
Glowing and coming and going, flush on flush.

I think I am going up,
I think I may rise ——
The beads of hot metal fly, and I, love, I

Am a pure acetylene
Virgin
Attended by roses,

By kisses, by cherubim,
By whatever these pink things mean.
Not you, nor him

Not him, nor him
(My selves dissolving, old whore petticoats) ——
To Paradise.

–Sylvia Plath, 20 October 1962, Ariel, 1965
***
Because I am sick in bed… sniffling… coughing… suffering a lot… and listening to Plath on Spotify… 

http://lovingsylvia.tumblr.com/

Ary dos Santos - Memória de Adriano

*  Ary dos Santos

Nas tuas mãos tomaste uma guitarra.
Copo de vinho de alegria sã
Sangria de suor e de cigarra
Que à noite canta a festa da manhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra

O que à Terra chamou amante e irmã

Mas também português que investe e marra
Voz de alaúde e rosto de maçã.

O teu coração de oiro veio do Douro

num barco de vindimas de cantigas
tão generoso como a liberdade.

Resta de ti a ilha de um Tesouro

A jóia com as pedras mais antigas.
Não é saudade, não! É amizade.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Cantares da emigração

PRA A HABANA!

V

Este vaise i aquel vaise,
E todos, todos se van,
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.
Tés, en cambio, orfos e orfas
E campos de soledad.
E nais que non teñen fillos
E fillos que non tén pais.
E tés corazóns que sufren
Longas ausencias mortás,
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará.

Rosalía de Castro
in Follas Novas, 1880

CANTAR DA EMIGRAÇÃO 

Este parte, aquele parte
e todos, todos se vão
Galiza ficas sem homens
que possam cortar teu pão

Tens em troca órfãos e órfãs
tens campos de solidão
tens mães que não têm filhos
filhos que não têm pai

Coração que tens e sofre
longas ausências mortais
viúvas de vivos mortos
que ninguém consolará


Repete 1ª quadra
Tradução: José Niza Interpretação: Adriano Correia de Oliveira 
Album: Cantaremos, 1970

in http://folhadepoesia.blogspot.pt/2014/09/pra-habana-cantar-de-emigracao.html





terça-feira, 11 de abril de 2017

Manuel da Fonseca - Tejo que levas as águas

* Manuel da Fonseca

Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar

Lava-a de crimes espantos
De roubos fomes terror
Lava a cidade de quantos
Do ódio fingem amor

Lava bancos e empresas
Dos comedores de dinheiro
Que dos salários de tristeza
Arrecadam lucro inteiro

Lava palácios vivendas
Casebres bairros da lata
Leva negócios e rendas
Que a uns farta e a outros mata

Leva nas águas as grades
De aço e silêncio forjadas
Deixa soltar-se a verdade
Das bocas amordaçadas

Lava avenidas de vícios
Vielas de amores venais
Lava albergues e hospícios
Cadeias e hospitais

Afoga empenhos favores
Vãs glórias, ocas palmas
Leva o poder dos senhores
Que compram corpos e almas

Das camas de amor comprado
Desata abraços de lodo
Rostos corpos destroçados
Lava-os com sal e iodo

Tejo que levas as águas
Correndo de par em par
Lava a cidade de mágoas
Leva as mágoas para o mar.
               
Manuel da Fonseca, Poemas para Adriano, 1972



 Adriano Correia de Oliveira - "Tejo que levas as águas" do disco "Que Nunca Mais" (LP 1975)

domingo, 9 de abril de 2017

Eugénia Cunhal - Cantar de amigo

* Eugénia Cunhal

Cantar de amigo*

O tempo passa, amor, correm os dias
E as ruas em silêncio à nossa espera
À hora em que as palavras não são ditas
E as mãos entrelaçadas são poemas.

O tempo passa, amor, ventos arrastam
Cada segundo de vida que ofertamos
À luta consciente a que nos damos
E as horas para amar já não nos bastam.

Por cada dia fica em nossos rostos
Mais uma ruga do mapa dos caminhos
Que percorremos juntos, mas distantes
Ombro a ombro, sempre, mas sozinhos.

Quilómetros de noite nos separam
Meu corpo já cansado pede tanto
A ternura de um beijo sempre adiado
Enquanto beijo aqueles p’ra quem canto.

Deixa dizer-te apenas uma vez
Esta saudade enorme que me habita
Mas crê que em cada dia em que me vês
Minha coragem renasce e ressuscita.

Deste sofrer distante, desta ausência
Ficarão as sementes que lhe damos
E no coro das vozes que cantamos
Encontro a tua voz, distintamente.




*Adriano musicou este poema, mas a obra nunca chegou a ser editada.

in http://cravodeabril.blogspot.pt/2015/12/maria-eugenia-cunhal.html 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Francisco Louçã - O pensamento mágico

***


7 de Abril de 2017, 10:46

Por

2

O pensamento mágico

P
aulo Portas terá dito recentemente a uma ilustre plateia: “Quanto mais vejo referendos, primárias e directas e as suas consequências, mais admiro o método cardinalício: um colégio de 120 pessoas, todos nomeados e nenhum eleito, mas com a ajuda do Espírito Santo, foram capazes de eleger papas como Wojtyla e Francisco quando foi necessário mudar o mundo”. Escândalo? Manifesto anti-democrático? Teocracia reinventada? Voltamos à Idade Média? Calma, parem as sirenes, era uma piada.
Nada indica que a direita, pese embora as disfarçadas inclinações monárquicas e teocráticas que povoam o CDS, se oriente para um modelo constitucional em que se atribua ao Divino Espírito Santo, na sua infinita misericórdia, a escolha do Presidente, governo e juntas de freguesia. Era mesmo uma piada.
Mas temos um problema a bordo. É que os métodos que foram inventados com a missão solene de refrescar a democracia cerimonial, a que se baseia na distante convocação dos eleitores de quatro em quatro anos, cansada que ela vai, não resultaram e até, todos eles, agravaram o problema. Círculos uninominais? Aumentam o risco de corrupção. Primárias? Um bom truque para um partido tentar recrutar apoios fingindo que escuta a sociedade. Referendos? O poder europeu impediu referendos prometidos e chora os que não conseguiu evitar. Participação na internet? As caixas de comentários são geralmente lixeiras e o frenesim vingativo de alguns maníacos não é prova de vigor comunicacional. Sondagens? Já vimos como são manipuladas.
Na verdade, ainda temos um problema mais grave: é que a democracia foi sempre vista com desconfiança pela burguesia – já passavam cento e cinquenta anos desde o seu triunfo e ainda se recusava o sufrágio universal, que só se generaliza no final do século XX (e ainda não chegou a todo o mundo).
Este preconceito social tem antecedentes. Heródoto, nas suas “Histórias”, condenava a democracia e as suas palavras retinem ainda hoje: “quando nos exorta a colocarmos o poder supremo nas mãos do povo, afasta-se do bom caminho. Nada mais insensato e insolente do que uma multidão inconsequente. Procurando evitar-se a insolência de um tirano, cai-se sob a tirania do povo sem freios. Haverá coisa mais insuportável? Quando o soberano toma uma medida, sabe bem por que a toma; o povo, ao contrário, não usa a inteligência nem a razão”. E concluía modestamente: “quanto a nós, escolhamos homens virtuosos e coloquemos o poder em suas mãos. Acho que podemos incluir-nos nesse número, e, de acordo com a lógica, os homens sensatos e esclarecidos só podem dar excelentes conselhos”.
Velharias? Não tanto. James Buchanan, prémio Nobel da Economia, explicava numa reunião da Sociedade de Monte Peregrino, o Olimpo dos nossos neoliberais, que “a manutenção da sociedade livre pode bem depender de serem retiradas certas decisões da determinação por voto maioritário”, e o governador do Banco da Alemanha, Hans Tietmeyer, acrescentaria que preferia o “plebiscito dos mercados” ao das urnas.
É por isto que as evocações de um pensamento mágico sobre a condução da sociedade devem merecer atenção. Não por causa do divino espírito santo, coitado, mas por causa de Heródoto: a substituição da democracia pela tirania (dos tecnocratas, do BCE, da Comissão Europeia acima dos eleitos, ou de outra qualquer forma moderna) é a forma de governar que nos foi imposta. O poder que pode evoca então um destino mítico para substituir a capacidade de escolha legítima pelos homens e mulheres: deve haver austeridade por ser a exigência de “reformas estruturais”; deve ser entregue o Novo Banco por ser a lógica dos mercados; devem ser cortados os salários por que a agências de notação assim o preferem. Perante qualquer dificuldade de monta, a justificação é sempre mágica, o que constitui o mais radical afastamento da ideia democrática.
A triste lógica do “mal menor”, na sua fatal desistência da inteligência, arrasta a Europa para a substituição dos contratos sociais de inclusão e de bem-estar pela ordem da exclusão e mal-estar. O centro, tão radical nessa desistência, reconhece que a legitimidade democrática é um perigo para a governação neoliberal e, por isso, deve ser substituída pela autoridade mágica, que se conforta com o poder político autoritário. Que ninguém se espante então com Trump, ou com Orban, ou com Dijsselbloem, ou com o que vem a seguir.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/04/07/o-pensamento-magico/

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Os pobrezinhos, de António Lobo Antunes


* António Lobo Antunes

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres.

Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam.

Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria: - Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente».

No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. 

Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

 Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres dinheiro, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e irresponsável.

O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

 O atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:

- O que é que o menino quer, esta gente é assim.

 E eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais.

A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar, e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

 Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.

cartoon - Quino


domingo, 2 de abril de 2017

Daniel Filipe - REQUIEM PARA UM DEFUNTO VULGAR

Daniel Filipe 

Antoninho morreu. Seu corpo resignado
é como um rio incolor, regressando à nascente
num silêncio de espanto e mistério revelado.
Está ali - estando ausente.
Jaz de corpo inteiro e fato preto.
Ele, da cabeça aos pés,
trivial e completo,
estátua de proa e moço de convés.
Jaz como se dormisse (pelo menos
é o que dizem as velhas carpideiras).
Jaz imóvel, sem gestos, sem acenos.
Jaz morto de todas as maneiras.
Jaz morto de cansaço, de pobreza, de fome
(sobretudo, de fome). Jaz morto sem remédio.
É apenas, sobre um papel azul, um nome.
De ser mais qualquer coisa, a morte impede-o.
Jaz alheio a tudo à sua volta,
à grita dos parentes, companheiros,
como um cavalo à rédea solta
ou no mar largo, os rápidos veleiros.
Jaz inútil, feio, pesado,
a colcha de crochet aconchega-o na cama.
Nunca esteve tão quente e animado.
Nunca foi tão menino de mama.
Os filhos olham-no e fazem contas cuidadosas:
padre, enterro, velório, certidão
de óbito... E discutem, com manhas de raposas,
os parcos bens e a possível divisão.
Entanto, sobre o leito que foi da vida de casado,
Antoninho jaz morto. Definitivamente.
Os parentes e amigos falam dele no passado.
A viúva serve copos de aguardente.


Daniel Filipe em Pátria, Lugar de Exílio

sábado, 1 de abril de 2017

Manuel António Pina - Primeiro sabem-se as respostas, as perguntas chegam depois

* Manuel António Pina


Primeiro sabem-se as respostas. 
As perguntas chegam depois, 
como aves voltando a casa ao fim da tarde
e pousando, uma a uma, no coração
quando o coração já se recolheu
de perguntas e de respostas. 

Que coração, no entanto, pode repousar
com o restolhar de asas no telhado? 
A dúvida agita
os cortinados
e nos sítios mais íntimos da vida
acorda o passado. 

Porquê, tão tardo, o passado? 
Se ficou por saldar algo
com Deus ou com o Diabo
e se é o coração o saldo
porquê agora, Cobrança,
quando medo e esperança

se recolhem também sob
lembranças extenuadas? 
Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas, 
e de poços, e de portas entreabertas, 
e sonham no escuro
as coisas inacabadas. 

Manuel António Pina, in Poesia, saudade da prosa.