Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
terça-feira, 3 de novembro de 2026
Prabhat Patnaik - A guerra do neofascismo contra a educação
domingo, 1 de novembro de 2026
El Hadj Mohamed Brahim - A extrema-direita na Europa: quando a ira social é desviada
terça-feira, 20 de outubro de 2026
José Pacheco Pereira - Os cristãos cruéis
José Pacheco Pereira - A destruição da Assembleia da República
Maria J. Paixão - Sobre a violência e a esquerda
* Maria J. Paixão
19 de outubro 2026 -
Rita Matias quis fazer crer que a forma violenta da intervenção nos espaços da AAC foi um meio para alcançar o fim nobre de defender a liberdade de expressão e a democracia. A verdade é que a invasão foi fim em si mesma: uma demonstração de força perpetrada pelos fortes sobre os mais fracos.
A invasão da sede da Associação Académica de Coimbra e, em particular, dos estúdios da Rádio Universidade de Coimbra por militantes do Chega foi mais um episódio circense como tantos outros a que o partido já nos foi habituando. Sendo evidente que assistimos a uma manobra de diversão, destinada a obscurecer o conluio do partido de Ventura com o governo a respeito da alteração da lei do arrendamento, a justificação apresentada e algumas reações à esquerda merecem reflexão mais aprofundada.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
Manuel Loff - Cem anos a “justificar” o 28 de Maio
* Manuel Loff
18 de Agosto de 2026
A Grande Guerra trouxera consigo,
um pouco por toda a Europa mas sobretudo entre nós, a permanente irrupção dos
militares e o sistemático uso da violência na vida política.
Há cem anos, o regime liberal
português, que, com intermitências, havia durado mais de um século desde a
Revolução de 1820, foi um dos primeiros na Europa a ceder perante a vaga
autoritária fascizante do pós-I Guerra
Mundial. A participação de Portugal na Grande Guerra acelerou, como ocorria
por toda a Europa, o processo de crise do sistema liberal, de que a República
do 5 de Outubro foi, no nosso país, a última etapa.
O rol de consequências que da
guerra decorreram (cem mil jovens enviados para a guerra, racionamento,
requisições forçadas, censura e supressão de liberdades, repressão da
contestação social), coincidindo no seu ano final com a pandemia da gripe
pneumónica, exasperara inevitavelmente a grande maioria da sociedade. Dela
foram sintomas os levantamentos da fome e os assaltos aos armazéns e às lojas
de víveres, as greves que os sindicatos convocaram contra Afonso Costa (1917) e
Sidónio Pais (1918), ou a remobilização religiosa em torno das chamadas “aparições” de Fátima (maio-outubro de 1917).
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Raquel Varela - 100º aniversário do 28 de Maio de 1926
* Raquel Varela
Afinal, o que representou o golpe de 28 de maio de 1926? Como este dia, que deu início à mais longa ditadura da Europa, nos ensina a olhar o regime hoje?
Portugal teve
desde 1890 um dos principais e mais bem organizados movimentos sindicalistas
revolucionários do mundo (a par do norte-americano, italiano, francês e claro,
espanhol – era um movimento ibérico). Depois da crise de 1929 e a ameaça
revolucionária em Espanha nos anos 1930, o regime torna-se abertamente
fascista.
A incapacidade
de estabilizar o país para a acumulação de capital no quadro da fase
imperialista – a criação de monopólios como condição de existência da burguesia
portuguesa no mercado mundial, ou seja, como condição de existência da própria
burguesia nacional – vai levar um sector importante desta classe a abdicar do
poder político-institucional a partir de 1926, para manter o poder
económico-social, ensaiando um clássico regime bonapartista, suprimindo o
Parlamento – a Ditadura Militar.
Entre 1926 e
1933, houve uma compreensão clara por parte da maioria dos setores da burguesia
portuguesa de que a modernização capitalista e a acumulação de capital,
baseada, na metrópole, no “trabalho barato” (assente na proibição de sindicatos
e partidos políticos livres) e, nas colónias, na primazia do trabalho forçado,
não poderiam ocorrer sob regime democrático, porque, já no século XX, se dá a
par da emergência de um novíssimo sujeito social: o moderno proletariado.
O
pronunciamento militar deu-se durante um Congresso Mariano em Braga, cidade
ultracatólica. Seguindo o figurino da Europa do Sul, veio de fora da capital.
Se a República
teve como mote inicial uma unidade contra a monarquia, a ditadura que se
instalou dispôs-se, sobretudo, a derrubar a República e seus aliados. Os
protestos contra a “partidocracia”, a “balbúrdia” parlamentar, a
“instabilidade” governativa, a crise das instituições e a “agitação social”
operária, assumem a forma de putsch. Os golpistas são, à proa, Mendes Cabeçadas
e Gomes da Costa.
O golpe de 28
de maio de 1926, que inicia a ditadura militar, não é inesperado. A República
burguesa tinha sido brutal contra o movimento operário, que, mesmo assim,
resistia. Além das prisões, das perseguições, dos batalhões antigreve ou do
vagão-fantasma, o ambiente anticomunista, incentivado pelo culto mariano contra
a URSS – as “aparições” de Fátima, em 1917, aos três pastorinhos –, abre a via
para a ditadura que se segue.
Como lembra
César Oliveira: “Todo o período que vai desde o fim da Primeira Guerra Mundial
até 1927-1928 é, de facto, muito marcado por uma constante: o apelo sistemático
à salvação do país, quer dos desmandos da “ordem republicana”, quer dos
eventuais perigos da revolução social”. O “anticomunismo” é a argamassa da
contrarrevolução.
Contexto
internacional da Ditadura Militar
Não se pode
compreender a vitória da contrarrevolução (militar ou fascista) sem compreender
o destino da revolução russa, a derrota da revolução alemã e da revolução
europeia no início da década de 1920, concomitantes com o boom económico desses
anos, “os loucos anos 20”, e a vitória da contrarrevolução estalinista, depois
de 1927.
Gramsci
sintetizará o fascismo em três dimensões: i) como a ideologia que pretende
eliminar o conflito social e unificar a nação como um todo, ii) como uma forma
de dominação da transição histórica da sociedade camponesa-industrial para a
sociedade industrial de massas e iii) como o produto de uma época histórica de
crise orgânica do capitalismo.
Primo de Rivera
liderará a Espanha com mão de ferro entre 1923 e 1930, e fundará o novo partido
fascista espanhol, a Falange, em 1933. Entre 3 e 12 de maio de 1926, ergue-se
com uma força inédita desde as lutas cartistas, em Inglaterra, o movimento
social e operário inglês numa greve geral. As classes dominantes foram
obrigadas a aceitar, a contragosto, uma aliança entre o Partido Trabalhista e a
burguesia para esquivar os efeitos da greve geral de 1926, que começara pela
exigência de aumentos salariais para os mineiros, mas tomara proporções
insurrecionais, ao atingir 1,7 milhões de trabalhadores em todo o país e
envolver estivadores, transportes, etc.
À semelhança de
outros países, casos da Alemanha e da Itália, de tardia unificação, que irão
constituir as forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, a tardia
“democratização liberal” do país leva a que, quando é feita, o proletariado –
organizado nas correntes anarcossindicalistas e comunistas, além das
socialistas – já tenha expressão suficientemente importante para impedir a
estabilização do capitalismo e garantir as taxas de lucro almejadas.
É bonapartista
a forma do encerramento do Parlamento, a 31 de maio do mesmo ano; a formação de
um novo governo dominado pelos militares (de “salvação nacional”); a forte
coerção armada contra os opositores, condenados, sem julgamento, ao desterro
para as colónias. As greves operárias e manifestações públicas são proibidas em
todo o território. Toda a oposição é fortemente reprimida – a começar pelas
revoltas do reviralhismo, republicanas e democráticas. A maçonaria será
proibida em 1935.
Após o golpe de
Estado, funda-se a Polícia de Segurança Pública (PSP), depois do reordenamento
do corpo de polícia cívica de Lisboa e Porto. No mês seguinte é instituída a
censura à imprensa. As sedes do PCP são encerradas no Porto e em Lisboa. A
Confederação Geral do Trabalho (CGT) é posta na ilegalidade. Dá-se então uma
contrarreforma do sistema de educação pública, com a redução do ensino primário
de seis para quatro anos.
Em 1928,
promulga-se um novo “Código de Trabalho” para os autóctones das colónias
portuguesas em África. O documento baseava-se no pressuposto “civilizatório” do
trabalho indígena, obrigando ao trabalho, que deveria também prover interesses
“públicos”. Fundar -se -á a Polícia de Informação do Ministério do Interior. A
27 de abril de 1928, Oliveira Salazar tomará posse como o novo ministro das
Finanças, iniciando a austeridade, liderando o início da mais longa ditadura da
Europa Ocidental no século XX. Após a crise de 1929, a burguesia acumula forças
que levam à instituição do “Estado Novo”. Com as exportações, fonte central de
receita, em queda, o ministro Oliveira Salazar começa um pacote de medidas
restritivas, com severos cortes orçamentais, inaugurando uma verdadeira
“política de austeridade” no país.
Qual regime?
Mas afinal o
que é o regime republicano, entre a monarquia constitucional finda em 1910 e a
Ditadura Militar de 1926? É, na síntese de César Oliveira, “um avanço limitado,
de carácter não estrutural, no ciclo das transformações burguesas que desde
1820 tiveram lugar na sociedade portuguesa”.
Não houve
resistência de vulto do movimento operário ao golpe de 28 de maio de 1926.
Exaurido por anos e anos de repressão na Primeira República, logra tornar a
República ingovernável, mas não consegue candidatar-se a governá-la ele.
A repressão
durante a República, fundamentalmente dirigida contra o movimento operário, tem
traços claramente bonapartistas, e que não se resumem às ditaduras de Pimenta
de Castro (1915) ou Sidónio Pais (1917-1918). Os republicanos obtiveram o
consentimento operário, mas pouco ofereceram aos trabalhadores além da coerção.
Houve violência contra o clero, sobretudo os jesuítas, “nunca contra os
detentores da propriedade, facto perfeitamente natural dado o Partido
Republicano não ser, na sua composição social, muito diverso dos partidos
monárquicos”.
A República
decapitou as suas tropas, os artesãos da Carbonária, os operários de Alcântara,
para finalmente parte das suas frações se reorganizarem em torno da Ditadura
Militar e depois no Estado Novo e, aí sim, criarem uma coisa e o seu contrário
– os monopólios e o proletariado, que saiu das Beiras para a Lisnave, da aldeia
nativa para as plantações da Cotonang, como trabalhadores forçados, em Angola.
Raquel Varela e
Roberto Della Santa trecho da nossa Breve História de Portugal (Bertrand).
Todas as referências estão no livro
terça-feira, 26 de maio de 2026
Rui Zink - MANUAL DO BOM FASCISTA
O BOM FASCISTA NÃO GOSTA DE SER CHAMADO FASCISTA
Acha que o retrato não lhe faz justiça. E a justiça é muito
importante para o bom fascista. Ele não suporta injustiças. E, afinal de
contas, o que significa "ser fascista"? Nada. Salazar, por exemplo.
Passam a vida a chamar-lhe fascista, mas «não era fascista» [sic — estas coisas
não se inventam]. Já muitos e bons doutores explicaram que Salazar não era
fascista. Fascistas eram Hitler e Mussolini. E Salazar era muito diferente de
Hitler e de Mussolini. Para começar, Hitler falava alemão e Mussolini italiano.
Ora, Salazar não falava nem alemão nem italiano, falava português. Para
terminar, Mussolini era gordo e careca e Hitler tinha bigode a Charlot. Já
Salazar, embora tivesse cabelo, não usava bigode. Só não vê quem não quer ver!
Haverá provas mais científicas de que nunca houve ditadura em Portugal? Ora
bem.
Depois, há todo um ror de infinitas e subtis (mas
significativas) diferenças. Salazar nao comia tagliatelle nem sauerkraut,
ele era patrioticamente mais aderente a dieta lusitana: bacalhau a Gomes de Sá,
arroz de cabidela, iscas com elas, chocos sem tinta.
Pimba.
E há mais:
«(...) Enquanto Mussolini, Hitler ou Franco discursavam e
apareciam em púbico em trajes militares, Salazar nunca o fez.»
Inteira razão, doutor Campos e Cunha, só não vê quem não
quer ver. Salazar era apenas, admitamos (sendo contemporizadores após este
momento de retórico triunfo), talvez "um bocadinho autoritário".
Mas isso era para o bem do país. E não enriqueceu. A prova é
que não deixou nada aos filhos nem pôs a empresa em nome da mulher.
*
O BOM FASCISTA NÃO SE ARMA EM ESQUISITO
O bom fascista alimenta-se de mentiras e distorções, é essa
a sua dieta favorita, mas, se não houver mais nada para comer, também não
desdenha a um facto. O bom fascista gosta de tasquinhar, e até acha graça à
ocasional verdade, desde que esses exóticos produtos chamados factos cumpram o
requisito fundamental: confirmarem aquilo que pensa.
Quando vê o noticiário, um bom fascista não se deixa
dispersar nem enganar: só escuta aquilo que já sabe. Um telejornal pode mostrar
golfinhos no Tejo, um incêndio em Los Angeles, uma entrevista um ministro
estrangeiro, greves em França, o julgamento dos separatistas em Espanha, uma
declaração do Papa sobre recentes escândalos, uma cimeira entre a Ucrânia e a
Rússia. Tudo isso o bom fascista vê com o ar adormecido de um velho crocodilo a
jogar bingo. Só quando sai o número certo — digamos, “cigano/muçulmano atacou
alguém" — é que o crocodilo lá abre um olho, subitamente alerta. E
comenta, satisfeito com a sua visão periférica:
«Eu sabia. Esta gente...»
*
O BOM FASCISTA NÃO SE METE EM POLÍTICA
Até porque a sua política é o trabalho.
E muito gosta o bom fascista do trabalho. Ao contrário dos
outros, que «não querem é trabalhar», o bom fascista quer
trabalhar. E não tem medo do trabalho. A sério, não tem. Consegue aproximar-se
do trabalho sem medo — desde que tenha um chicote, uma cadeira e, bem
entendido, o trabalho esteja devidamente açaimado e/ou acorrentado à parede.
Se o bom fascista tem um chicote e uma cadeira, e o trabalho
estiver devidamente açaimado, o trabalho que se cuide. Com ele não faz farinha.
Quando interrompe o trânsito e os carros de trás começam a
buzinar, o bom fascista ruge:
«Estou a trabalhar!»
E quando não o deixam passar, aí é o bom fascista que
carrega na buzina, e grita:
«Tira daí essa merda que tenho de ir trabalhar!»
Todavia, por vezes, o bom fascista também gosta de dizer,
rindo com gosto, que «o trabalho é bom é para o preto». Isto
é, aliás, por definição, o que faz rir o bom fascista: imaginar alguém a ser
pisado, maltratado, espezinhado. E a levar porrada no lombo, se refilar, para
aprender a da próxima vez ficar quietinho.
O bom fascista, quando ri, ri de cima para baixo.
O que nem sempre é fácil, convenhamos. Sobretudo quando
estamos cheios de trabalho.
O bom fascista gosta tanto de trabalhar que, quando não está
a trabalhar, finge que está a trabalhar.
*
O BOM FASCISTA TOLERA PRETOS, DESDE QUE SAIBAM O SEU LUGAR
Esta não é a terra deles, diz o mesmo bom fascista que antes
achava que a terra deles era "nossa". Esta terra é a nossa terra e se
não gostam voltem para a terra deles. Quem não está bem, muda-se. E calem-se.
Parem com a chinfrineira sobre o "colonialismo" e o “tráfico de
escravos”. Quem não está bem emudece.
Eles são eles e nós somos nós e assim é que é bonito. O bom
fascista desconfia do até do turismo: pode ser imigração encapotada. E
tecnicamente até é, só que imigração por pouco tempo —
tal como a imigração pode ser também vista como turismo prolongado.
De igual modo, aquilo a que chamam "tráfico de
escravos" pode ter sido apenas a invenção, ainda titubeante, do turismo
moderno. Afinal, quando levaram pretos de África para o Brasil, não estariam os
nossos gloriosos antepassados apenas a criar a primeira Agência Abreu da
História? Certo, as condições no porão talvez não fossem as melhores, mas os
lugares na Ryanair e na EasyJet também são apertados. E desde quando quem viaja
quase à borla (ou mesmo à borla, no caso dos escravos) tem direito a queixar-se?
O bom fascista nada tem contra os pretos, atenção, só acha é
que não têm a nossa cultura, não partilham os nossos valores e está mal se
vêm para cá surrupiar os nossos empregos e, com os seus mastodônticos
marsápios, ficar com as nossas mulheres.
O BOM FASCISTA NÃO TEM SAUDADES DE SALAZAR
Nem precisa. Por que raio precisaria se Salazar continua
vivo em nossos corações, fígados, bocas e mentes?
Factos são factos. Mesmo passado meio século, o bom homem
continua a polonizar-nos o imaginário, qual abelhinha redentora.
Qual santa da ladeira, continua a escutar e a reciclar os
nossos pecados.
Qual el-rei D. Sebastião em modo de rancho-melhorado, não
precisa de voltar numa noite de nevoeiro — pois ele mesmo é nevoeiro.
O bom fascista sabe que Salazar «sempre quis o
melhor para o país». E concede que (está bem, melga) aqui e ali terá
sido um bocadinho autoritário e que a PIDE terá feito coisas, das quais ele até
nem não sabia, porque não lhe diziam tudo. Agora fascista, Salazar? Isso não.
Foi o quê. então? Foi, digamos, um bocadinho
autoritário.
A verdade é que, vendendo volfrâmio aos alemães e
emprestando a base das Lajes aos americanos, «Salazar salvou-nos da
guerra». E fê-lo com a mesma camponesa manha com que acomodava espiões
aliados no Hotel Vitória (hoje, ó ironia, sede do PCP) e espiões nazis
no Tivoli (hoje, oh ironia, ainda um belo hotel).
E Salazar foi sempre humilde e discreto. Certo, viveu
quarenta anos num palácio — mas acaso era seu? Ah, bom. Tava a ver. E, modesto
e humilde, nunca foi agarrado ao poder. O poder é que se lhe agarrou às mãos
como um irritante adesivo se cola aos dedos. Acaso uma pessoa é culpada por um
adesivo se lhe colar aos dedos?
Ná, o bom fascista não tem saudades de Salazar. Acha apenas
que Portugal precisa de um outro Salazar. Alguém que pusesse isto no eixo.
(“Manual do Bom Fascista”, Rui Zink. Ideias de Ler, 2019)
Caricaturas de João Abel Manta (1928-2026, Lisboa)
quarta-feira, 20 de maio de 2026
Fernando Serrano - O Sr. Ventura falou...falou...falou...
* Fernando Serrano
14
de abril de 2026
O Sr. Ventura
falou...falou...falou...
Mas negou a
verdade, que talvez saiba, mas não quis dizer...
Primeiro
escondeu que o Povo Português deu a Salazar, seu ídolo, 13 anos para que
fizesse a descolonização bem feita, e Salazar não a fez. Salazar não soube, ou
não quis fazer. Salazar falhou.
Mesmo depois do
desastre da Índia, não aprendeu nada. Nem ele, nem os seus sequazes.
Salazar tratou
os heróis da Índia como traidores, negando-se a trazê-los para Portugal.
Salazar negou os seus soldados. Salazar desprezou os filhos das Mães de
Portugal. Salazar não tinha filhos. Nunca ninguém lhe chamou pai. Não tivesse
sido a ONU ainda hoje ali estariam...
Puniu,
humilhou, severamente, o general Vassalo e Silva e o brigadeiro António Leitão
porque se negaram a sacrificar os filhos das mães de Portugal numa luta
impossível de vencer.
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O Sr. Ventura
mentiu quando diz que o retornados foram abandonados.
O Sr. Ventura
não conhece o célebre decreto de Mário Soares que dava prioridade absoluta na
colocação aos retornados que fossem funcionários públicos, e aos outros se a
estes lugares que concor ressem?!
Só depois de
todos os retornados terem sido colocados, os portugueses de Portugal teriam
direito a concorrer. V.Exª, senhor Ventura, não tem conhecimento disto?
Os portugueses
de Portugal receberam os retornados muito bem.
Tivesse sido o
contrário, os portugueses de Portugal a terem de procurar refúgio em Angola ou
Moçambique e a música seria bem diferente.
Basta que se
saiba a forma como éramos olhados, mesmo quando estávamos ali para lhes
defender os interesses...Total desprezo...Eles eram uma raça superior e nós os
animais domésticos...
Não fazíamos lá
falta, e só lá íamos para encher os bolsos… Diziam
eles.
O Sr. Ventura
não sabe isto...Não passou por lá. O Sr. Ventura fala do que não conheceu, nem
conhece.
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Uma
descolonização não se faz em dois anos, nem em três, nem em quatro...
Uma
descolonização bem feita teria de levar, pelo menos, mais 10 anos a fazer.
Estaria o Povo
Português disposto a suportar uma guerra por mais 10 anos?
Eu não
estava... 80% dos que lá fomos não estávamos. A guerra tinha que acabar.
O tempo de ser
negociada a descolonização tinha passado....Salazar falhou.
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Quanto aos
presos políticos.
48 anos de
repressão…a PIDE ...de prisões...de
mortes…Aljube...Peniche...Caxias...Tarrafal...
Catarina
Eufémia- Dias Coelho- Humberto Delgado e tantos outros…
«A morte saiu à
rua num dia assim...»
Comparar este
tempo- 48anos - com 1ano e 6 meses...é desonesto, Sr. Ventura...Muito
desonesto.
O Sr. Ventura
quer destruir o 25 de Abril e baralha tudo. O Sr. Ventura quer comparar os
Homens de Abril com a canalha da extrema esquerda, igual à extrema direita, que
durante 18 meses lançou a desordem nesta terra. A bandalheira acabou com o 25
de Novembro, que veio restaurar a pureza de Abril, conspurcado pelos referidos
grupelhos de extrema direita e extrema esquerda.
E sabe,
Sr.Ventura, os autores desta miséria eram rapazotes da extrema esquerda. Sem
princípios nem valores…Tal como a extrema direita que o Sr representa, e basta
ver como se comporta na AR.
Após o 25 de
Novembro de 1975 as coisas entraram na ordem...
Não houve mais
um preso político...Hoje, posso responder ou contrariar a opinião dos políticos
que me governam sem ter medo de ser preso, se o fizer com elevação. Até quando,
não sei. Sabê-lo-ei no dia em que o sr.Ventura tiver poder, se ainda for vivo, espero
que não, pois uma vez chega.
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O Sr. André não
viveu o antes de Abril, mas eu vivi. O Sr. André não foi à guerra, mas eu fui.
O Sr André não
viu camaradas morrerem, mas vi morrer dois nos meus braços.
O Sr. André não
chorou de dor e de revolta, mas eu chorei de dor, de revolta, de saudade e
desespero.
O Sr.André
Ventura foi desonesto e Pacheco Pereira não soube acabar-lhe com o
«cacarejar...
Quanto aos
massacres da UPA... Sr. André Ventura, tem razão...
E o rebola a
bola que a bola é cabeça de preto em Angola?
E o Napalm na
Guiné?!...
E Wiryamu em
Moçambique?
E os
guerrilheiros mortos no momento da rendição?
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Ó senhor
Ventura, deixe de falar nos antigos combatentes...
Se estamos
abandonados o seu querido Salazar é culpado. Mandava-nos para a guerra e nem
sequer nos assegurava o regresso...Muito menos condições de adaptação ao fim de
30 meses de guerra, à nova situação...
Um combatente
eu vi que entrar no Hospital Militar num sábado, acabado de regressar, doente
com doença adquirida em serviço, mas porque já tinha passado à disponibilidade
ser expulso, na segunda-feira, da Medicina 3 do HMP, pelo director do mesmo.
O médico que
lhe deu entrada e o enfermeiro que o recebeu foram repreendidos, porque o
aceitaram...
Hoje, 50 anos
depois de Abril, esse homem seria tratado com respeito e carinho em qualquer
hospital militar.
Salazar foi o
tal que abandonou os seus soldados.
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56 anos depois
de regressar da guerra- repare que eu digo 56 anos depois de regressar da
guerra onde foi severamente ferido em combate, um ex-combatente, viu ser-lhe
reconhecido o direito a uma indemnização por deficiência de 34%, e vai receber
uma pensão que é devida desde 1970, porque Salazar não quis saber dos
estilhaços que tem espalhados por todo o corpo...Os estilhaços estão lá,
provocam dores, mas não o impediam de trabalhar... logo não tinha direito a
nada... Antes de Abril, não teve direitos...Depois de Abril, sim. Abril não
esqueceu os antigos combatentes... Salazar, sim.
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O senhor
Ventura não sabe que a dita guerra do ultramar não começou em 1961...Em 1961
recomeçou...
Não esqueça as
campanhas africanas que acabaram com a prisão do Gungunhana e sobre as quais
Salazar mandou fazer o célebre filme« CHAIMITE»...Para propaganda do regime,
onde os maus eram os negros, que perderam sempre… Marracuene…
Coolela…Magul…Macontene…Mas não foi bem assim.
Entre 1910 e
1961 houve sempre uma paz aparente. Os negros sempre que podiam acertavam-nos o
passo, como dizer sói…
Em 1961 a
guerra recomeçava. Desta vez os negros tinham aprendido muito e já não
avançavam para o quadrado a peito descoberto. Começava uma guerra de
guerrilha…Eu estive nesta guerra.
E sabe por quê?
Por amar a minha Pátria, por amar a minha família, por amar a minha noiva.
Se não fosse
Salazar tirava-me o direito se ser Português, proibia-me de ver a minha
família, proibia-me de amar uma portuguesa. Ou ia, ou Salazar prendia-me, ou
exilava-me. Salazar fazia chantagem com os jovens de Portugal.
O senhor
Ventura mentiu quando disse que Salazar nunca mandou prender ninguém. Mentiu
por ignorância ou por maldade?!
Salazar ordenou
a Silva Pais, o patrão da PIDE-DGS, que prendesse todos os que se negassem ir
pra a guerra. Não me diga que não sabia isto?! Então fique a saber…
Eu sei como as
coisas se passavam, porque estive lá. Eles jogavam às escondidas connosco.
Leia...informe-se
e talvez compreenda que uma guerra contra um Povo que luta ela sua liberdade,
só é ganha, se se exterminar esse Povo.
Recorde-1143-1385-1640…E
Junot…Soult…Massena ( o filho querido da vitória), que o digam.
Salazar enganou
os nossos colonos. Prometeu-lhes aquilo que não podia dar-lhe. Garantiu-lhes
que Angola, Moçambique e Guiné eram terras de Portugal e, na verdade, não eram.
Eram colónias e o tempo das colónias tinha os dias contados. Bastava saber ler
os ventos da História…
Diz o Povo…«Se
vires as barbas do teu vizinho a arder…põe as tuas de molho.»
Espanha
descolonizou…Inglaterra descolonizou…França descolonizou…Bélgica
descolonizou…Holanda descolonizou…
Salazar, « O
Grande »…Levou-nos ao que levou. Orgulhosamente, sós! O país mais pobre da
Europa Ocidental…
Uma taxa de
analfabetismo de 45%. Acesso a uma Escola Superior só para elites com dinheiro.
Mas com uma
moeda fortíssima, sim. Com muito ouro nos cofres, sim. Ouro roubado aos
mineiros moçambicanos da África do Sul. Sabia, Sr. Ventura?!
Um Povo
Explorado até ao tutano. Os servos da gleba e duas classes de altos
privilégios- Clero e Nobreza.
O Sr. Ventura
sabe que a guerra acabou em 1945, mas em 1951 ainda havia racionamento em
Portugal?
Salazar
obrigava o Povo Português a passar fome. Salazar obrigava os Povo Português a
emigrar a salto, arriscando a vida, mas depois ficava-lhe com o dinheiro que
para cá mandava e servia-se desse dinheiro, não para desenvolver as regiões de
onde os emigrantes eram naturais, mas para investir nas colónias.
Salazar
explorava o Povo Português em favor das colónias.
Claro que não
sabe? O Sr. Já nasceu depois de Abril…
Esse Abril que
nos ofertou a Liberdade. Prenda que eu duvido que o senhor mereça.
Respeitosamente,
Um Português de
Portugal, Patriota.
Antigo
combatente que ama o seu país e a liberdade.
25 de Abril sempre…
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Marta Pinho Alves - “Estado Velho”
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Carlos Esperança - O medo…
domingo, 26 de abril de 2026
Graça Castanheira - E o porco gosta
A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.
A frase de Bernard Shaw que se associou ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura é mais interessante do que a sua leitura moral sugere. Quem a cita fica-se geralmente pelo primeiro movimento — não lutes com um porco, porque te sujas — e esquece o segundo, que é decisivo: e o porco gosta. Gostar, aqui, significa que o terreno da lama é o habitat do adversário, aquele em que ele se move com desenvoltura e onde qualquer gesto do antagonista, mesmo o mais justo, se dissolve no lamaçal.
O problema não é só a sujidade, é a impossibilidade de enquadramento. É aqui que a questão se torna cinematográfica. Há uma diferença de dispositivo entre o combate e o retrato. O combate é um campo-contracampo, exige duas presenças, uma alternância que produz equivalência mesmo quando as posições são assimétricas. Foi este o princípio que o cinema entendeu desde cedo: ao alternar dois planos, o espectador é levado a ler as duas figuras como termos comparáveis de uma mesma equação, independentemente daquilo que cada uma diz. O debate televisivo herda esta gramática, e por isso, antes de qualquer conteúdo, concede ao adversário metade do que ele precisa, que é o estatuto de interlocutor legítimo — e é exatamente esta concessão que se critica a Pacheco Pereira. A alternativa que o cinema conhece é o plano-sequência, e em particular o plano fixo, que obriga a figura a habitar sozinha o enquadramento até a retórica se desmontar pela duração. É a estratégia de muitos documentários observacionais, e a extrema-direita tende a receá-los porque precisa da contracena para a poder interromper e sabotar.
Acontece que o retrato exige condições que se foram perdendo: um espectador disponível para a duração, uma pedagogia do olhar, um espaço de escuta. Num sistema que premeia o fragmento contra a duração, o plano fixo do porco não compete pela atenção política em tempo real. Quem defende o plano sustentado contra o combate televisivo está a defender um recurso cultural que em escala pública já não existe. Entre dois dispositivos imperfeitos, o combate tem pelo menos a virtude de ocupar o terreno; o retrato, na atual paisagem política, corre o risco de não passar de uma forma elegante de desdém.
Foi a forma como André Ventura reagiu — as torções, as fugas, as falsas equivalências, a invenção de uma história sem PIDE, os bebés mortos como licença para a brutalidade colonial, a ridícula acusação de o seu interlocutor estar contra as Forças Armadas — que produziu o conteúdo que circulou a seguir. E é aqui que está o ganho real do debate: na revelação involuntária que o dirigente do Chega fez de si próprio, sob a pressão de ter de defender em tempo real o seu ponto de vista. A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — no campo-contracampo, na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa. À saída do debate, esses momentos tornaram-se cultura pop, contraditório partilhável, companhia argumentativa. Duas semanas passadas, abriram-se discussões laterais que de outro modo não teriam acontecido — a reflexão sobre a crueldade como linguagem política foi uma delas, e não a menor.
A frase de Shaw é uma observação de classe: pressupõe a possibilidade de nos mantermos limpos. E essa hipótese, hoje, em democracias sob pressão como as nossas, é precisamente o privilégio de que se deve duvidar. Pacheco Pereira ter-se-á enlameado, mas transformou a sujidade em prova pública — a lama como revelador fotográfico.
26 de Abril de 2026
domingo, 19 de abril de 2026
O pecado original de Pacheco Pereira
Pacheco
Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje,
repetiria”
Em
declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de
desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera
que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um
erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o
líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.
16 Abr 2026,
“Estou muito
contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende
sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as
críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente
transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter
insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do
que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou
publicamente como uma “comparação absurda”.
“Sim, tem
mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia
de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa
posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos
destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.
O historiador
respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e
comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”,
fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o
líder do Chega, com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente
acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.
Mas o antigo
dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos
tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A
história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente
Nacional, esse caminho, inicialmente seguido, foi depois revertido por
uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”
Para Pacheco
Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse
tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo
intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com
eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas
pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito
significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante
para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas que
não se sentem representadas.”
Segundo o
historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de
vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter
comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não
se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o
confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.
Pacheco
Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta:
"expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E
só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o
debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do
Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O
mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse,
inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.
O pecado
original de Pacheco Pereira
Paulo Guinote, Professor do
Ensino Básico
16 Abr 2026
Não sou dos que
acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André
Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do
que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o
universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e
mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e,
nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.
André Ventura
só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam
vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de
financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou
menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de
polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical),
nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com
grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo
inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora,
qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com
mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.
O “verdadeiro
fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas
um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para
consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando
se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma
curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder?
Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de
interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.
Pacheco Pereira
sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como
fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria
para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem
muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade
mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate
foi, pois, a CNN Portugal.
Ao desafiar
Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu
interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou
menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível
uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso
impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama
retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo
significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação
variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não
reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e
exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a
emoção encenada. Enganou-se.
Todos cometemos
erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má
avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter
percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi
esse o seu pecado original.
Escreve sem
aplicação do novo Acordo Ortográfico
https://www.blogger.com/blog/post/edit/7624295442706210520/3893848410623296261
Ventura sabe que mentiu?
Pedro Tadeu, Jornalista
17 Abr 2026,
No debate,
segunda-feira na CNN, com Pacheco Pereira, André Ventura disse que os políticos
“do sistema” não admitem os crimes políticos do pós-25 de Abril e citou
conclusões do Relatório da Comissão de Averiguação de
violências sobre presos sujeitos às autoridades militares”, o chamado
“Relatório das Sevícias” – mas ao fazê-lo desmentiu-se a si próprio.
Esse relatório,
publicado em julho de 1976, foi elaborado por indicação do Conselho da
Revolução no rescaldo do 25 de Novembro de 1975. Este facto foi omitido por
Ventura.
O documento foi
um instrumento político dos vitoriosos desse último golpe e muito do que lá se
diz não está devidamente sustentado, nem inclui a defesa das pessoas e
instituições acusadas de serem autoras das ditas sevícias. É parcial e
duvidoso, mas, sem dúvida, também conterá verdades.
O ponto central
para esta discussão não é esse. O ponto é que, ao contrário do argumento de
Ventura, o regime democrático que o 25 de Abril criou em 1974 já discutia
abertamente, a nível oficial e menos de dois anos depois, os abusos que o
próprio regime teria cometido, coisa que durante 48 anos de fascismo português
nunca aconteceu – de resto, o dito relatório está disponível, para toda a
gente, no site da Presidência da República, não está escondido.
Portanto,
quando André Ventura afirma que em 50 anos de democracia a classe política
dominante não admitiu a existência de abusos de Direitos Humanos no pós-25 de
Abril está a mentir e contradiz-se quando apresenta como prova um relatório que
até foi elaborado por alguns atores do dia 25 de Abril de 1974, como, por
exemplo, o jornalista Francisco Sousa Tavares.
Outra
manipulação de André Ventura é a de dizer que nunca Salazar e Caetano assinaram
ordens de prisão, o que só teria acontecido no pós-25 de Abril.
Nem Salazar,
nem Caetano precisavam de escrever ordens de prisões políticas porque as davam
verbalmente. Por exemplo, Silva Pais, que foi diretor da PIDE a partir de 1962,
aparece mencionado 119 vezes nas agendas de audiências individuais de Salazar,
que saiu do poder seis anos depois. Dá quase 20 vezes por ano.
Ventura
queixou-se de que houve três mil presos políticos a seguir ao 25 de Abril e que
30 mil pessoas fugiram do país.
Em 1974,
segundo a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, havia 3000 agentes da polícia
política e mais de 20 mil informadores (os chamados “bufos”). Se a isto
somarmos vários militares, polícias, membros da Legião Portuguesa, muitas
outras autoridades como governadores civis, ministros, secretários de Estado,
altos funcionários públicos, quadros das comissões de censura, juízes dos
tribunais plenários e alguns outros milhares de pessoas que participavam
ativamente, mesmo de forma indireta, nas estruturas de repressão política do
regime fascista, teremos de perguntar: “Poderia uma revolução que deita abaixo
um regime repressor manter as pessoas que exerciam essa repressão em
liberdade?”
Na verdade, até
seria de esperar que houvesse mais prisões e mais fugas, mas, apenas 17 meses
depois, tal como André Ventura acabou por dizer, quase todos estavam livres ou
começavam a voltar. E isso demonstra a tolerância do 25 de Abril.
Mais de 30 mil
resistentes e patriotas não tiveram essa sorte durante o fascismo. Álvaro
Cunhal, por exemplo, amargou mais de 11 anos na cadeia e só se libertou porque
fugiu do Forte de Peniche. Esteve 14 anos fora do seu país... até ao 25 de
Abril.
Como é que se
pode comparar uma coisa com a outra?!
terça-feira, 14 de abril de 2026
Em tormo do 25 de Abril, entre Pacheco Pereira e André Ventura
Uma palmatória, comparações
"absurdas" e "traições à pátria": o debate entre Pacheco
Pereira e Ventura sobre presos políticos
Uma frase de Ventura que levou os deputados constituintes a abandonarem uma sessão no Parlamento levou a um debate tenso, longo, com relatórios pelo meio e até uma palmatória.
Mariana Lima Cunha. Texto
14 abr. 2026
A premissa era simples: contrariar
a ideia, lançada por André Ventura na sessão solene pelos 50 anos da
Constituição portuguesa, de que houve mais presos políticos a
seguir ao 25 de Abril do que (imediatamente) antes. O repto foi lançado por
Pacheco Pereira, Ventura aceitou, e o que se seguiu foi 1h20 de debate (e
alguns gritos) em que os dois discutiram as prisões, a descolonização e a
corrupção durante a ditadura portuguesa, com diferentes armas: muitos livros,
um dossiê com relatórios e uma palmatória, levada por Pacheco
Pereira para ilustrar as torturas levadas a cabo pelos portugueses nas antigas
colónias.
O debate organizado pela CNN andou
sempre à volta da mesma ideia: André Ventura queria defender que houve prisões
políticas e tortura no período da transição para a democracia, o que
significaria que nem tudo na democracia é bom e “nem tudo [na ditadura] foi
mau”; Pacheco Pereira considerava a comparação “absurda”, uma vez
que punha em confronto as prisões, torturas e outras restrições às liberdades
que aconteceram durante 48 anos de ditadura e a “turbulência própria” dos meses
seguintes, a que se pôs termo com a normalização do regime democrático.
O líder do Chega explicou
inicialmente que o que “quis dizer” no dia da sessão da Constituição foi que
especificamente no dia 24 de Abril de 1974 havia menos presos
políticos em Portugal do que haveria uns meses depois, referindo-se também aos
expatriados que foram “perseguidos pelos novos donos de sistema”. Falou da
forma como cresceu em Mem Martins, sem “privilégio”: “Estou à vontade para dizer:
o sistema anterior errou mas o que veio não trouxe naqueles meses tudo de bom.
Eu gostava era de ter uma democracia plena, em que não houvesse
presos políticos e torturados e expropriações”.
Ouça
aqui a reportagem da Rádio Observador
Além disso, Ventura arrancou o
debate contestando a ideia de que todas as pessoas presas nas colónias fossem
presos políticos, mostrando as imagens de bebés mortos pela UPA em 1961 e
defendendo que alguns presos o foram por estarem a “atacar os
nossos militares”.
“Você mete-se em cada sarilho…”,
cometou Pacheco Pereira, lembrando o número de presos a 24 de Abril — 127 em
Portugal continental, 4249 nas colónias — e lembrando também que o número de
guerrilheiros presos era relativamente baixo, até porque muitos eram
executados; grande parte dos presos seriam “enfermeiros, funcionários dos
correios, pastores protestantes, professores, estudantes aliciados a
regressarem a Portugal”. Além disso, argumentou, quem se defendia da “ocupação
portuguesa” deveria ser considerado preso político. “Se Espanha invadisse
Portugal o que fazia? É uma atitude política”, frisou. “Como bom
nacionalista que é, admite que estavam a lutar pelo seu país”.
Por entre ataques vários — “hoje
não tem aqui a Alexandra Leitão, é o André Ventura”; “Eu gosto muito do meu
país, em muitos aspetos mais do que o André Ventura” — os debatentes foram
comparando números e também os castigos corporais que
existiram, em muito maior número durante o Estado Novo. “Trouxe uma palmatória
que era usada nos castigos corporais”, mostrou Pacheco Pereira, lendo
descrições de torturas da PIDE em Moçambique: “Violação anal com
garrafas, mutilação do pénis com queimaduras, choques elétricos, suspensão do
tecto de cabeça para baixo, Sabe qual é o problema? É que estes são pretos.
Eram tratados como sub-homens. Vários deles desapareceram. Estas
violências eram sistemáticas e aconteceram durante todo o período do império
colonial”.
Já Ventura leu as descrições de
torturas que aconteceram já depois do 25 de Abril, incluindo de “carpinteiros,
comerciantes, advogados e reformados, pessoas que discordavam da
extrema-esquerda”, e ironizou: se a ditadura era “tão feroz”, não
poderiam existir apenas “cento e tal presos em Lisboa” (número que se referia
apenas à véspera do 25 de Abril).
“Podemos concordar que tudo o que
é tortura é mau, mas não me venham com a história de que a violência de direita
é má e a de esquerda é boa”, foi repetindo o líder do Chega, enquanto o
historiador defendia que há “comparações que são elas próprias mentira“,
como a que Ventura faz entre 48 anos de ditadura e os dois anos posteriores. “É
tão pontual que é incomparável”, disse, frisando que não nega que tenha havido
violência e tortura já no período da liberdade, mas que a da ditadura foi “sistemática”.
“Sabe o que são 48 anos de tortura sistemática, de humilhação das pessoas
comuns, de violência, de censura? Isso cria uma situação em que a transição
portuguesa, mesmo com esses casos, foi relativamente pacífica. Deixou uma
enorme herança de vingança e ressentimento“.
Inevitavelmente, a
discussão passou por nomes particularmente controversos — Pacheco Pereira
descreveu Marcelino da Mata como um “assassino” que se
“gabava” de matar homens, mulheres e crianças, Ventura respondeu que Otelo
Saraiva de Carvalho é que era “um assassino e um bandido”. Ventura
defendeu que PCP e UDP deviam pagar as “expropriações erradas” do pós-25 de
Abril e que em toda a ditadura não se encontra uma ordem de Salazar ou Marcelo
Caetano para mandar prender alguém — não precisavam, já que
tinham uma polícia política ao dispor, contrapôs o historiador.
Houve ainda tempo, num debate com
mais meia hora do que o anunciado, para falar da descolonização,
que Ventura considerou “criminosa” (“Queriam tanto a independência e hoje estão
a vir para cá viver”) e para Pacheco Pereira concluir que o interlocutor
“justifica a ditadura”. “Com esse tipo de afirmação de extrema-direita, [o
Chega] é um partido fascista“. “Eu nasci em 1983, não quero saber
da ditadura para nada”, respondeu Ventura. “É a história da Humanidade, temos
de estar do lado da nossa pátria”, exclamou, confrontado com o número de
pessoas mortas na guerra colonial.
Com Pacheco Pereira a culpar
Salazar pelos erros na descolonização, Ventura acusou-o de “trair a
sua pátria”. “Devíamos ter tido uma transição democrática, não comunistas a
assaltar o poder. Os senhores, incluo-o a si, estavam tão cheios de chama do
espírito de comunista não olharam a meios. Por isso Portugal está na cauda da
Europa”. “Essa ‘revolução miserável’ deu a liberdade a Portugal e para dizer o
que diz. Quem lutou contra a ditadura lutou por Portugal. Eu amo o
meu país”, respondeu Pacheco Pereira.
A discussão passou ainda pelos
grupos terroristas de extrema-esquerda e extrema-direita após o 25 de Abril,
tendo a ELP “beneficiado” da condescendência “gigantesca” das
autoridades e sido, como as FP-25, “amnistiada com a ideia de
que se ia pacificar a sociedade”. Os últimos, frisou Pacheco Pereira, chegaram
a ser condenados porque “a democracia nessa altura estava a funcionar”.
Ainda houve tempo para uma breve
incursão pelo tema da corrupção, com Ventura a dizer que na
ditadura “havia corrupção como agora há” — “Então porque é que não pôs um
cartaz a dizer 100 anos de corrupção?”, questionou Pacheco Pereira,
referindo-se ao cartaz em que o Chega diz que já lá vão “50 anos de corrupção”
— isto é, referindo-se apenas ao tempo de democracia. Ventura acabou por dizer
que “Sócrates roubou muito mais do que Salazar” e que o “sistema
está podre de corrupção”, acabando por prometer que se tivesse nascido mais
cedo, no tempo da ditadura, lá estaria também a lutar contra o problema.
A troca de acusações final teve a
ver com cristianismo — “eu sou ateu”, disse Pacheco Pereira; “faz mal”,
respondeu Ventura”; “o seu partido é o mais anticristão. Não há uma
declaração dos dois últimos Papas que não seja diretamente contra as posições
do Chega na imigração”, atirou o historiador; “Não me dá lições de cristianismo
porque fazemos (…) luta contra a islamização”, respondeu o líder partidário.
Teriam continuado por ali fora, mas já não havia mais tempo.






