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sábado, 8 de agosto de 2026

(58) Friedrich Nietzsche - 'No Love, No Law'


Setúbal Praceta do Montalvão grafito 'No Love No Law' (Foto victor nogueira (IMG_4780)


* Gemini 

Friedrich Nietzsche encaixa com enorme precisão no espírito desse grafito, capturando a rejeição da moral tradicional, o niilismo e a rutura com as leis impostas:

Aqui estão as passagens mais alargadas no seu contexto original, retiradas diretamente das obras de Friedrich Nietzsche:

1. Para Além do Bem e do Mal (1886)

Seção IV: Epigramas e Intermédios — Aforismo 153

«Das que se fazem por amor acontecem sempre para além do bem e do mal. O amor verdadeiro transcende as valorações morais comuns da sociedade, pois não obedece a mandamentos externos nem à coação da lei; a sua própria natureza constitui a sua única e suprema legislação.»

(Nota: O aforismo 153 na sua formulação mais célebre e direta lê-se: «O que se faz por amor acontece sempre para além do bem e do mal.»)

2. Assim Falava Zaratustra (1883–1885)

Terceira Parte — «Das Velhas e Novas Tábuas», Capítulo 2

«Aqui estou eu e espero; rodeado de velhas tábuas quebradas e também de novas tábuas meio escritas. Quando virá a minha hora? — a hora do meu declínio e do meu declive: pois quero ir mais uma vez para junto dos homens...

Pois os homens assim o querem: e quem quer que deva ser um criador no bem e no mal tem de ser, em verdade, um destruidor primeiro e quebrar valores. Assim, o maior mal pertence à maior bondade: mas esta é a criadora.

Rompamos, rompamos as velhas tábuas, meus irmãos!»

3. A Gaia Ciência (1882)

Livro Terceiro — Aforismo 116: Herdado de novo

«Onde quer que encontremos uma moral, encontramos uma avaliação e uma hierarquia dos impulsos e das ações humanas. Estas avaliações e hierarquias são sempre a expressão das necessidades de uma comunidade e de um rebanho: aquilo que lhe é útil em primeiro lugar — e em segundo e terceiro — é também o padrão supremo para o valor de todos os indivíduos. Com a moral, o indivíduo é ensinado a ser função do rebanho e a atribuir valor a si próprio apenas enquanto função. Como as condições de preservação de uma comunidade foram muito diferentes das de outra, existiram morais muito diferentes; e considerando as transformações essenciais que os rebanhos e as comunidades, as nações e os Estados ainda têm de sofrer, pode profetizar-se que haverá ainda morais muito divergentes. A moralidade é o instinto do rebanho no indivíduo.»

Na perspetiva nietzschiana, "No Love, No Law" lê-se como a recusa de uma ordem moral externa que não nasça do próprio indivíduo ou da paixão vital.  (Gemini)

sábado, 6 de agosto de 2011

Pangloss - Why not the best?

Up@dawn

reflections caught at daybreak

Why not the best?

September 23, 2009
leibniz
bniz: this universe must be in reality better than every other
possible universe…Leibniz
This universe must be in reality better than every other possible universe:  Gottfried WilhelmLeibniz (1646-1716)
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Dr. Pangloss taught metaphysico- theologo- cosmolonigology. He could prove that there is no effect without a cause; and, that in this best of all possible worlds, the Baron’s castle was the most magnificent of all castles, and My Lady the best of all possible baronesses.
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“It is demonstrable,” said he, “that things cannot be otherwise than as they are; for as all
pangloss things have been created for some end, they must necessarily be created for the best end. Observe, for instance, the nose is formed for spectacles, therefore we wear spectacles. The legs are visibly designed for stockings, accordingly we wear stockings… Voltaire(1694-1778), Candide
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So she’s like all “problem of evil.” And I’m like, “theodicy, barmaid, theodicy!”


..if you wish for superficiality incarnate, you have only to read that charmingly written Theodicyof Leibniz, in which he sought to justify the ways of God to man, and to prove that the world we live in is the best of possible worlds… William James, Pragmatism 
wj



Philosopher Susan Neiman reminds us that eighteenth century thinkers like Voltaire saw the great Lisbon earthquake as a metaphysically game-changing event.
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For some, Lisbon lessened either God’s beneficence or his power.
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For others, the quake lessened their estimation of human reason  and a reasonable world. Nature, according to enlightened minds,  was a benign and intelligible force. Its well-oiled operation  reflected the intelligence and skill of a designer God. Could we,  though, retain our confidence in reason, and thus in God’s ways,  in the rubble of Lisbon?
voltaire
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Where are our Voltaires, spotlighting the suffering wrought by natural phenomena (Katrina, quakes, tsunamis, tornadoes et al) and the challenges they pose to any rational theist?


Well, there’s Bart Ehrman. (BTW: Ehrman is a former classmate of my colleague Mike Hinz. We hope to bring him to our fair campus next year.) He’s a respected Bible scholar at the University of North Carolina who until quite recently considered himself a devout Christian.
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The leading reason given by atheists and agnostics for their disbelief is the problem of suffering or evil. David Hume put it this way, in Dialogues Concerning Natural Religion: “Epicurus’ old questions are yet unanswered. Is God willing to prevent evil, but not able? Then he is impotent. Is he able, but not willing? Then he is malevolent. Is he both able and willing? Whence then is evil?”
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In God’s Problem, Ehrman joins the skeptics. He writes:  “the Bible fails to answer our most important question– why we suffer.” Suffering, he says, “is not only senseless, it is also random, capricious, and unevenly distributed… Why are the sick wracked with unspeakable pain? Why are babies born with birth defects? Why are young children kidnapped, raped, and murdered? Why does a child die  of hunger every five seconds?”
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That was Dostoevsky’s question too, in Brothers Karamazov (Book V, Ch. 4 – “Rebellion”), where Ivan asks:  ”Are you fond of children, Alyosha? I know you are, and you will understand why I prefer to speak of them. If they, too, suffer horribly on earth, they must suffer for their fathers’ sins, they must be punished for their fathers, who have eaten  the apple; but that reasoning is of the other world and is incomprehensible for the heart of man here on earth…
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dostoevsky
I renounce the higher harmony altogether. It’s not worth the tears of that one tortured child who beat itself on the breast with its little fist and prayed… to ’dear, kind God’! It’s not worth it, because those tears are unatoned for. They must be atoned for, or there can be no harmony.”


So is Ehrman the Christian-cum-agnostic in despair about evil? No. “The solution to life is to enjoy it while we
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ecclesiastes
 can, because it is fleeting. The idea that this life is all there is should not be an occasion for despair and despondency. It should be a source of joy and dreams—joy of living for the moment, and dreams of trying to make the world a better place… This means working to alleviate suffering.”


Finally, consider a somewhat banal analogy. “Suppose you found yourself at school in a dormitory. Things are not too good.  The roof leaks, there are rats, the food is almost inedible, some students in fact starve to death.
dorm
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There is a closed door, behind which is the management, but the management never comes out. You get to speculate what the management must be like. Can you infer from the dormitory as you find it that the management, first, knows… …exactly what conditions are like, second, cares intensely for your welfare, and third, possesses unlimited resources for fixing things? The inference is crazy. You would be almost certain to infer that either the management doesn’t know, doesn’t care, or cannot do anything about it. Nor does it make things any better if occasionally you come across a student who declaims that he has become privy to the mind of the management, and is assured that the management indeed knows, cares, and has resources and ability to do what it wants. The overwhelming inference is not that the management is like that, but that this student is deluded. Perhaps his very deprivations have deluded him.” Simon Blackburn, Think


And perhaps belief runs hotter in nice dorms. Should it?
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http://osopher.wordpress.com/2009/09/23/why-not-the-best/

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Logicomix, de Doxiadis, Papadimitriou, Papadatos e Di Donna




. Quem conhece Bertrand Russell, certamente o conhece mais por sua História da Filosofia Ocidental, por suas opiniões sobre assuntos como cristianismo e até casamento. Já quem conhece Ludwig Wittgenstein, certamente conhece Russel por este ter sido professor do primeiro em Cambridge, no início do século XX. Sendo Wittgenstein um dos maiores filósofos dos 1900s e Russell, um dos maiores lógicos, uma história com ambos dificilmente conseguiria ser desinteressante. E uma história em quadrinhos? Quadrinhos “adultos”, ou quadrinhos pretensamente adultos, foram uma obsessão no final do século XX, quando se tentava aproximar as HQs da literatura, das artes gráficas e do chamado “mundo adulto”. Quadrinhos como games ou blogs são o que são – e é perda te tempo desejar que sejam “outra coisa” (além do que são). Logicomix (WMF Martins Fontes, 2010) – se serve de consolo para leitores “não versados” em quadrinhos (e que precisam de bom um motivo para se arriscar na leitura) – tem sido considerada uma das melhores HQs de todos os tempos. E é, surpreendentemente, uma grande homenagem a Bertrand Russell, a seus empreendimentos no reino da lógica e da matemática (e, naturalmente, a seus “sucessores” como Wittgenstein). Largamente baseada na autobiografia de Russell e em outras biografias, como as de Ray Monk, a história de Logicomix é a da busca por bases mais sólidas para o pensamento, para a ciência e para o conhecimento humano. Quem já teve algum contato com Russell, não pode imaginar que o final de Logicomix não seja feliz, sendo o início tão auspicioso, com a ascensão de um jovem brilhante, filho da melhor elite da Inglaterra, desconcertando os maiores pensadores da Europa, e, justamente, abrindo caminho para nomes como Wittgenstein e Kurt Gödel... Ocorre que Russell revelou uma falha na lógica que, em anos de elaboração de seus Principia Mathematica, com Alfred Withehead, não conseguiu contornar. Perdeu os pais muito cedo, foi infeliz no casamento e teve um filho esquizofrênico. Para completar, sua incompreensão do Tractatus, de Wittgenstein, a princípio, transformou-o num desafeto de seu, outrora, pupilo... Contudo, se a história de Logicomix é a de uma vida humana com todas suas frustrações, é, também, a história de como a matemática e a lógica nos trouxeram a computação, os computadores... e a internet! O que Bertrand Russell, que morreu em1970, teria achado da Web? (É certo que Wittgenstein não perderia seu tempo com ela...) Nesse cenário, participam, de Logicomix, ninguém menos que Von Neumann, que defendia Russell dos ataques de Wittgenstein, e, claro, Alan Turing. O sonho do primado da razão pode não ter se concretizado, mas vivemos sob o domínio da computação ;-) Russell, Wittgenstein, Gödel e tantos outros, perderam a batalha... mas venceram a guerra? 
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Logicomix

Uma Jornada Epica Em Busca Da Verdade

.ISBN: 8578272781
ISBN-13: 9788578272784
Livro em português
Brochura
 - 24 x 17 cm  - Peso 0,860 Kg 1ª Edição - 2010

352 pág.
Sinopse

Esta história em quadrinhos conta a vida do filósofo Bertrand Russell e seu objetivo de estabelecer os fundamentos lógicos dos princípios matemáticos. Nessa sua busca pela verdade absoluta, Russell cruzou com pensadores como Gottlob Frege, David Hilbert, Kurt Gödel e Ludwig Wittgenstein. 'Logicomix' é ao mesmo tempo um romance histórico e uma introdução às ideias do campo da Matemática e da Filosofia moderna. 
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Sobre o autor:

DOXIADIS, APOSTOLOS
Apostolos Doxiadis nasceu em 1953 na Austrália, mas foi criado em Atenas. Aos 15 anos, com um trabalho original de matemática, foi aceito na Universidade de Columbia, Nova York. Fez pós-graduação na École Pratique de Hautes Études de Paris, voltando-se mais tarde para o cinema e a literatura. Premiado no festival de Cinema de Berlim de 1988 com o filme ‘’Tetriem’’, Doxiadis também é autor de várias novelas.  
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Diderot, o enciclopedista, e sua História da Filosofia

Quarta-feira, 10/11/2010

Julio Daio Borges






Digestivo nº 473 >>> Não faz muito tempo, quando alguém resolvia atacar a Wikipedia, invocava, na hora, a tradição dos primeiros enciclopedistas, a saber: Diderot e D’Alembert. A Wikipedia era sempre acusada de imprecisão, de parcialidade e quase de “improbidade administrativa”. Mas, depois de ler Diderot, a pergunta que fica é: “Será que os acusadores da Wikipedia leram os primeiros enciclopedistas?”. Porque Diderot, ao contrário do que se poderia imaginar, é personalíssimo. Nesta continuação da sua História da Filosofia (que integra a famosa Enciclopédia, pela editora Perspectiva), ele não poupa elogios a Francis Bacon, quem nem é tão lembrado hoje, e desanca, por exemplo, Spinoza, porque, no alto do Iluminismo, Diderot não admitia um filósofo que não fosse minimamente religioso. O que é espantoso, mesmo para os padrões da Wikipedia ;-) Por incrível que pareça, o que há de mais saboroso nessa História da Filosofia são, justamente, as anedotas, as vidas dos filósofos, mais do que as filosofias propriamente ditas. Diverte-nos – outro exemplo – saber que Aristóteles, além de ser “A Inteligência”, na Academia de Platão, era um brincalhão, e tirava a concentração dos colegas, para a irritação do mestre. Diderot não se furta a colocar Leibniz nas alturas – mais um exemplo de personalismo –, afinal ele lançou as bases para a consagração do termo “enciclopédia”; mas, ao mesmo tempo, lamenta que, na França de sua época, se ensine mais “filosofia inglesa”, de Newton – embora não dedique ao precursor de Einstein nenhum capítulo... Objeções virão no sentido de considerar Newton um “físico” e não um filósofo propriamente dito, mas o capítulo extremamente elogioso sobre Galileu confirma que o nosso Diderot foi parcial, sim. (Jimmy Wales, pai da Wikipedia, talvez merecesse, como Galileu, a fogueira, a depender dos nossos inquisidores off-line...) Nomes como Thomasius, a quem Diderot consagra algumas dezenas de páginas, praticamente se perderam no limbo. E Malebranche, embora não esteja 100% esquecido, perdeu historicamente a influência. Por outro lado, suas apostas em Hobbes e Heráclito se revelam corretíssimas; o primeiro, por seu Leviatã, ensinado até hoje; e o segundo, por haver sido reabilitado, pela filosofia alemã. A propósito: nenhuma palavra, por parte de Diderot, sobre Kant, seu contemporâneo. Esse último dado talvez explique por que a História da Filosofia da modelar Enciclopédia se sirva (ainda) da escolástica, mesmo com alguns laivos de filosofia moderna... E ai de alguém que, a título de experiência, reproduzir um único (e escasso) verbete do mestre Diderot, na Wikipedia – será desancado através dos séculos... em nome da... da... Enciclopédia (não lida)!
>>> Diderot: Obras VI - O Enciclopedista - História da Filosofia I
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Diderot Obras VI - O Enciclopedista

Conceito do Leitor:  Seja o primeiro a opinar
Autor: GUINSBURG, J.
Autor: ROMANO, ROBERTO
Editora: PERSPECTIVA
Assunto: FILOSOFIA
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Julio Daio Borges
Editor

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Sobre o autor:

ROMANO, ROBERTO
Roberto Romano é professor de Filosofia na Universidade Estadual de Campinas e ensaísta com presença marcante no debate de idéias, no Brasil. Voltado sobretudo para os temas e problemas – contemporâneos ou clássicos – da ética, da política e da estética, seu pensamento crítico vem se traduzindo em larga colaboração na imprensa e em palestras e conferências, bem como em numerosos estudos e ensaios publicados em revistas especializadas ou em livros. É autor de 'Brasil, Igreja contra Estado'; 'Conservadorismo Romântico'; 'Corpo e Cristal. Marx Romântico'; 'Lux in Tenebris'; 'Silêncio e Ruído' e 'O Caldeirão de Medéia'.
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

El crepúsculo de los ídolos de Friedrich Nietzsche

Poemas del Alma

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Publicado por Julián Pérez Porto
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Algunos años después de haber creado el texto que, en idioma español, se conoció con el nombre de “Así habló Zaratustra. Un libro para todos y para nadie”, el filósofo alemán Friedrich Nietzsche utilizó sus conocimientos para darle forma a un libro que, pese a su antigüedad, aún puede llegar a generar interés en más de un admirador suyo: “El crepúsculo de los ídolos, o cómo se filosofa con el martillo”.
El crepúsculo de los ídolos.
Este material elaborado por el también autor de “Más allá del bien y del mal” entre 1888 y 1889 corresponde a los últimos tiempos de lucidez de este influyente pensador que perdió la vida el 25 de agosto de 1900 tras haber contraido neumonía.
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En él, Nietzsche consigue plasmar sus opiniones respecto al rol de ciertas personalidades que, por diversas razones, lograron convertirse en ídolos. Para explicar su postura y respaldar sus consideraciones con datos concretos, el autor construye en “El crepúsculo de los ídolos” un resumen vinculado a la filosofía, la moral y la religión de Occidente en el cual analiza tanto el comportamiento como el perfil de aquellas figuras que, a lo largo de la historia, fueron veneradas como dioses y terminaron por influir el modo de vida de muchas sociedades.
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Por haber sido escrito por un intelectual respetado a nivel mundial, este libro apunta a cautivar a aquellos seres humanos que sienten interés por el ámbito de la Filosofía o que, al menos, están dispuestos a destinar varias horas a la lectura de un texto que no es sencillo pero que, al ser comprendido, permite conocer los pensamientos de este poeta, músico y filósofo alemán y dispara reflexiones al respecto.
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Si les atrae la idea de conocer el contenido de obras que no representen sólo una simple opción literaria sino que, por sus características y complejidad, pongan a prueba la capacidad de interpretación y desafíen la comprensión, no duden en conseguir un ejemplar de “El crepúsculo de los ídolos”.

 


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Más allá del bien y del mal de Friedrich Nietzsche

 

Poemas del Alma

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Publicado por Verónica Gudiña
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Aunque, en la actualidad, la expresión “más allá del bien y del mal” sea utilizada en la vida cotidiana para describir a una persona que no tiene interés en diferenciar actitudes y que resulta indiferente a todo tipo de parámetros, esa frase tiene más de dos siglos de antigüedad y fue impuesta por el filósofo alemán Friedrich Nietzsche.
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Más allá del bien y del mal Tras elaborar el contenido de “Así habló Zaratustra. Un libro para todos y para nadie”, este pensador elaboró un texto que, con los años, se convirtió en una de las bases de la filosofía del siglo XIX.
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El material, titulado “Más allá del bien y del mal. Preludio de una filosofía del futuro”, comenzó a difundirse en 1886 y, pese a que por ese entonces no obtuvo una trascendencia significativa, logró desafiar al paso del tiempo y a las fronteras. Hoy en día, este trabajo aún es leído y consultado por cientos de personas que no sólo desean conocer las teorías de Nietzsche sino que también desean comparar con el presente algunas cuestiones vinculadas a la moral.
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Si bien “Más allá del bien y del mal” desarrolla ideas que también fueron abordadas por el autor en “Así habló Zaratustra”, en esta ocasión el tratamiento de los datos es más preciso, pesimista y destructivo. Por esta postura aplicada por Nietzsche, la obra que nos convoca en esta oportunidad es un texto donde los símbolos están reemplazados por los conceptos, la poesía le deja espacio a la psicología, se critica a los autodenominados moralistas y se impone la sospecha por sobre la confianza.
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Resumen de Así habló Zaratustra
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terça-feira, 27 de outubro de 2009

Dizer Mal dos Outros, Ouvir Falar Mal de Nós - Bertrand Russell




Boa Noite
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(foto de JP)

Dizer Mal dos Outros, Ouvir Falar Mal de Nós
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Uma das formas mais universais de irracionalidade é a atitude tomada por quase toda a gente em relação às conversas maldizentes. Muito poucas pessoas sabem resistir à tentação de dizer mal dos seus conhecimentos e mesmo, se a ocasião se proporciona, dos seus amigos; no entanto, quando sabem que alguma coisa foi dita em seu desabono, enchem-se de espanto e indignação. Certamente nunca lhes ocorreu ao espírito que da mesma forma que dizem mal de não importa quem, alguém possa dizer mal deles. Esta é uma forma atenuada da atitude que, quando exagerada, conduz à mania da perseguição. Exigimos de toda a gente o mesmo sentimento de amor e de profundo respeito que sentimos por nós próprios. Nunca nos ocorre que não devemos exigir que os outros pensem melhor de nós do que nós pensamos a respeito deles e não nos ocorre porque aos nossos olhos os méritos são grandes e evidentes ao passo que os dos outros, se na realidade existem, só são reconhecidos com certa benevolência. Quando o leitor ouve dizer que alguém disse qualquer coisa desprimorosa a seu respeito, lembra-se logo das noventa e nove vezes que reprimiu o desejo de exprimir, sobre esse alguém, a crítica que considerava justa e merecida, e esquece-se da centésima vez em que, num momento de desatenção, afirmou a respeito dele o que julgava ser a verdade. Esta é a recompensa, perguntará a si próprio, de toda a minha longa indulgência? O problema, visto do lado oposto, apresenta-se de uma forma diferente: ele nada sabe das noventa e nove vezes em que o leitor se calou, conhece apenas a centésima vez em que falou.•
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Bertrand Russell, in 'A Conquista da Felicidade' 
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TEM UM BOM FIM DE SEMANA VICTOR. ABRAÇO.
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Enviado por J.P.  (hi5)
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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Pensamento de Epicuro

"O homem sereno procura serenidade para si e para os outros" Fonte: "Exortações" Autor: Epicuro ATOMO Pictures, Images and Photos
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Enviado por Carmen (hi5)
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Sobre Epicuro ver -

Epicuro - Wikipédia, a enciclopédia livre

Epicuro de Samos foi um filósofo grego do período helenístico. Seu pensamento foi muito difundido e numerosos centros epicuristas se desenvolveram na Jônia, ...
Vida - Filosofia e obra
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Epicuro

Origem: Wikiquote, a coletânea de citações livre.

Epicuro
Epicuro
Veja também...
Wikipedia-logo.png Biografia na Wikipédia
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Epicuro de Samos, do grego Επίκουρος (341 a.C.-270 a.C.), foi um filósofo grego.


  • "A necessidade é um mal, mas não há necessidade algum de viver com necessidade."
- Fonte: Exortações, 9.
  • "As enfermidades duradouras proporcionam à carne mais prazer que dor."
- Fonte: Máximas capitais, IV.
  • "Nada é suficiente para quem o suficiente é pouco."
- Fonte: Exortações, 68.
  • "Não tema deus,
Não se preocupe com a morte
O que é bom é fácil de ter, e
O que é terrível é fácil agüentar.
- Fonte: O “Tetrapharmakos" [τετραφάρμακος], ou “A quarta parte da cura”, de Epicuro, do “Papiro de Herculano”, 1005, 4.9-14, de Philodemo, como traduzido em The Epicurus Reader: Selected Writings and Testimonia (1994) editado por D. S. Hutchinson, p. vi
  • "A vida do justo é pouco perturbada por inquietações, a do injusto é cheia das maiores inquietações."
- Máximas Soberanas, 17

Carta a Meneceu

  • "Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou que já passou a hora de ser feliz."
  • "Em primeiro lugar, considerando a divindade como um ente imortal e bem-aventurado, como sugere a percepção comum de divindade, não atribuas a ela nada que seja incompatível com a sua imortalidade, nem inadequado à sua bem-aventurança; pensa a respeito dela tudo que for capaz de conservar-lhe felicidade e imortalidade."
  • "Acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações. A consciência clara de que a morte não significa nada para nós proporciona a fruição da vida efêmera, sem querer acrescentar-lhe tempo infinito e eliminando o desejo de imortalidade."
  • "Não existe nada de terrível na vida para quem está perfeitamente convencido de que não há nada de terrível em deixar de viver."
  • "O sábio, porém, nem desdenha viver, nem teme deixar de viver; para ele, viver não é um fardo e não-viver não é um mal."
  • "Nunca devemos nos esquecer de que o futuro não é nem totalmente nosso, nem totalmente não-nosso, para não sermos obrigados a esperá-lo como se estivesse por vir com toda a certeza, nem nos desesperarmos como se não estivesse por vir jamais."
  • "Convém, portanto, avaliar todos os prazeres e sofrimentos de acordo com o critério dos benefícios e dos danos. Há ocasiões em que utilizamos um bem como se fosse um mal e, ao contrário, um mal como se fosse um bem."
  • "Habituar-se às coisas simples, a um modo de vida não luxuoso, portanto, não só é conveniente para a saúde, como ainda proporciona ao homem os meios para enfrentar corajosamente as adversidades da vida: nos períodos em que conseguimos levar uma existência rica, predispõe o nosso ânimo para melhor aproveitá-la, e nos prepara para enfrentar sem temor as vicissitudes da sorte."
  • "Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que consistem no gozo dos sentidos, como acreditam certas pessoas que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor dos peixes ou das outras iguarias de urna mesa farta que tomam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda escolha e de toda rejeição e que remova as opiniões falsas em virtude das quais uma imensa perturbação toma conta dos espíritos."
  • "De todas essas coisas, a prudência é o princípio e o supremo bem, razão pela qual ela é mais preciosa do que a própria filosofia; é dela que originaram todas as demais virtudes; é ela que nos ensina que não existe vida feliz sem prudência, beleza e justiça, e que não existe prudência, beleza e justiça sem felicidade."
  • "Porque as virtudes estão intimamente ligadas à felicidade, e a felicidade é inseparável delas."
  • "O prazer é o princípio e o fim de uma vida feliz."
  • "A morte é uma quimera: porque enquanto eu existo, não existe a morte; e quando existe a morte, já não existo."
- Variante: "A morte, temida como o mais horrível dos males, não é, na realidade, nada, pois enquanto nós somos, a morte não é, e quando esta chega, nós não somos."


Atribuídas

Question book-3.svg Este artigo ou secção não cita as suas fontes ou referências. Ajude a melhorar este artigo providenciando fontes fiáveis e independentes.
  • "A morte nada é para nós, pois aquilo que já foi dissolvido não possui mais sentimentos. Aquilo, porém, que não possui mais sentimentos, não nos importa."
  • "Faz tudo como se estivesses a ser contemplado."
  • "O apogeu do prazer será alcançado quando todas as dores forem eliminadas. Pois onde entrou o prazer não existem, enquanto ele reinar, nem dores nem padecimentos, ou até ambos."
  • "Quanto à sensação de segurança perante os homens, o poder e o domínio são bens dados pela natureza, a partir dos quais podemos proporcionar-nos segurança."
  • "Se aquilo que ocasiona prazer aos libertos eliminasse os receios do espírito, dos fenômenos da natureza, da morte e das dores, e se ainda ensinasse o conhecimento da limitação das ânsias, nada teríamos a desaprovar nessas pessoas."
  • "A riqueza exigida pela natureza é limitada e facilmente arranjada; aquela, pelo contrário, que ambicionamos possuir num tolo desejo, chega ao infinito."
  • "A segurança, perante os homens, pode ser fortificada, até um certo grau, pelo poder e pela riqueza; aquela, porém, que é conferida pela vida na tranqüilidade e no retiro da massa dos homens é certamente mais genuína."
  • "Verdade é que o homem sensato não evita o prazer, e quando finalmente as circunstâncias o obrigam a deixar a vida, ele não se comporta como se esta ainda lhe devesse algo para a suprema existência."
  • "A faculdade de granjear amizades é de longe a mais eminente entre todas aquelas que contribuem para a sabedoria da felicidade."
  • "O mesmo conhecimento a que devemos o consolo de que nenhum terror é eterno ou que dure muito tempo, também nos deixa compreender que durante o terror, de duração limitada, a verdadeira segurança nos é proporcionada pela amizade."
  • "Dentre os desejos, alguns são dependentes da natureza e necessários; outros são dependentes da natureza, porém não necessários; outros, ainda, nem são dependentes da natureza nem necessários, mas oriundos duma vã ilusão."
  • "Injustiça por si só não é um mal. O verdadeiro mal reside no receio desconfiado de que o ato possa vir a ser escondido do juiz competente."
  • "Nascemos uma única vez; uma segunda vez não nos é dada, e não nasceremos mais por toda a eternidade."
  • "Se não podemos ver-nos, trocar idéias, nem estar em companhia um do outro, o sentimento do amor evaporar-se-á em pouco tempo."
  • "Toda amizade, por mais desejável que seja por si mesma, é, no fim das contas, contruída sobre o proveito próprio."
  • "Ávidos pelos bens distantes, não devemos desprezar os bens próximos; lembremo-nos de que estes últimos também, outrora, foram ansiosamente desejados."
  • "Quem exige ajuda constante, e, do mesmo modo, quem nunca a presta, não é amigo. O primeiro quer comprar o nosso esforço com o seu afeto; o segundo nos rouba, para todo o futuro, a esperança consoladora."
  • "Soube que a apetência da tua carne te impele exageradamente às relações sexuais. Segue-a, conforme o teu desejo, mas trata de não infringires as leis, não ofenderes a decência, não magoares algum amigo teu, não abalares a tua saúde e não desperdiçares a tua fortuna. É difícil, porém, não ficar emaranhado numa dessas dificuldades. O gozo do amor não traz proveito, devemos até ficar contentes se não for prejudicial."
  • "Cada um sai da vida do mesmo modo como se tivesse acabado de nascer."
  • "Devemos indagar por ocasião de todos os desejos: o que há de acontecer quando o meu apetite for satisfeito, e o que acontecerá se ele não o for?"
  • "Nada faças na vida algo que te cause medo se teu vizinho vier a sabê-lo."
  • "Nada é suficiente para quem julgar o suficiente demasiadamente pouco."
  • "É sem valor pedir aos deuses aquilo que nós mesmos podemos realizar."
  • "Não provamos nosso sentimento ao amigo, compartilhando as suas lamentações, mas sim com a nossa ajuda ativa."
  • "O fruto mais saboroso da auto-suficiência é a liberdade."
  • "Pelo medo de ter de se contentar com pouco, a maioria dos homens se deixa levar a atos que aumentam mais ainda esse medo."
  • "Muitos que alcançaram a riqueza não conseguiram um remédio contra seus males, mas apenas os trocaram por males ainda piores."
  • "As leis existem para os sábios, não para que não pratiquem injustiças, mas para que não as sofram."
  • "Aquele que inspira medo aos outros não está, ele próprio, livre desse medo."
  • "Se queres a verdadeira liberdade, deves fazer-te servo da filosofia."
  • "Deus deseja prevenir o mal, mas não é capaz? Então não é onipotente. É capaz, mas não deseja? Então é malevolente. É capaz e deseja? Então por que o mal existe? Não é capaz e nem deseja? Então por que lhe chamamos Deus?"
  • "A justiça é a vingança do homem em sociedade, como a vingança é a justiça do homem em estado selvagem."
  • "Não podemos viver felizes se não formos justos, sensatos e bons; e não podemos ser justos, sensatos e bons sem sermos felizes."
  • "Das coisas que a sabedoria proporciona para tornar a vida inteiramente feliz, a maior de todas é uma amizade."
  • "Na discussão, o vencido obtém maior proveito, pois aprende o que ainda não sabia."
  • "Não há o que temer na morte. Pode-se alcançar a felicidade e suportar a dor."
  • "Nenhum prazer é em si um mal, porém certas coisas capazes de engendrar prazeres trazem consigo maior número de males que de prazeres."
  • "O homem é rico desde que se familiariza com a pobreza."
  • "O impossível reside nas mãos inertes daqueles que não tentam."
  • "O prazer de fazer o bem é maior do que o de recebê-lo."
  • "O prazer é o primeiro dos bens. É a ausência de dor no corpo e de inquietação na alma."
  • "Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e tempestades."
  • "Os prazeres do amor jamais nos serviram. Devemos nos considerar felizes se não nos aborrecerem."
  • "Somente o justo desfruta de paz de espírito."
  • "Tu, que não és senhor do teu amanhã, não adies o momento de gozar o prazer possível! Consumimos nossa vida a esperar e morremos empenhados nessa espera do prazer."
  • "Quem não considera o que tem como a maior riqueza, será sempre desditoso, ainda que seja dono do mundo."
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

VANITAS VANITAS ET VANITATEM VANITAS VANITATUM

* LUÍS CALHEIROS

Entradas para um Dicionário de Estética

VANITAS VANITAS ET VANITATEM

VANITAS VANITATUM

VANITAS VANITATIS ET OMNIA VANITAS


O que são as VANITAS?

As VANITAS (vaidades) são as expressões artísticas que traduzem, de maneira simbólica e num registo eloquente, sibilino, a nossa relação conflituosa com a morte. São formas artísticas históricas, datadas no tempo (e no entanto de sentido intemporal), que nos confrontam com a maior doença colectiva da humanidade, que é a angústia que resulta da consciência aguda da mortalidade.

São uma espécie particular, muito específica e típica, emblemática, de natureza-morta. São pinturas de genere peculiares, com uma temática de grande efeito e afirmação de diferença. Género singular de natureza-morta intensamente expressiva e de complexa significação, de óbvia alusão filosófica (acentuada muitas vezes pelas legendas eruditas) e de comentário a um tempo sarcástico e cínico, macabro, pretendendo expressar edificante sabedoria moral e imperativo aviso para reflexão radical, em que é feita a comparação por contraste total, entre a precaridade efémera dos prazeres mundanos, o vazio das ostentações vaidosas do Homem, o engano pelo apego excessivo pelas riquezas materiais de que se rodeia; e a realidade ameaçadora do triunfo final da morte tudo nivelando num nada fáctico, sendo representada a "mofina" em evidência perturbadora, pelo seu emblema mais imediato e certeiro - a caveira - o crânio humano.

Modelo paradigmático muito recorrente e prolixo, particular forma de encenação retórico-alegórica, foi tema "na moda" pelos fins do século XVI e por todo o século XVII, e mesmo ainda glosado tardiamente no início do século XVIII, por toda a Europa. Teve o género uma enorme divulgação, enquanto "ilustração intelectual" em voga, nos países-baixos pelos idos de 1620 e seguintes, interpretado de maneira muito singular pelos artistas da Escola de Leyden.

As mais remotas vanitas, ou melhor o seu "antepassado directo", os memento mori (recorda a morte), a representação solitária da caveira, são ainda do século XV, flamengos, executadas em geral no verso dos volantes dos trípticos, sendo depois acrescentadas com os objectos mundanais em sugestivas composições (já verdadeiras vanitas), com a sua grande divulgação posterior ao Concílio de Trento e às convulsões reformistas/contra-reformistas, meados e finais do século XVI, correspondendo também ao ambiente da terribilitá nascido do exemplo edificante que foi o monumental Juízo Final, de Miguel Ângelo Buonarroti Simoni, da Capela Sistina, do Vaticano, tendo-se desenvolvido o seu gosto estranho, que atravessa os vários estilos (o tenebrismo, o maneirismo e finalmente os primórdios do barroco) por toda a Europa - Alemanha, França, Espanha, Itália, Flandres, Países-Baixos.

O seu período áureo foi o do século XVII, aliás o grande século das naturezas-mortas como género de excelência nos repertórios pictóricos. Essas naturezas-mortas, veristas e ilusórias, em minuciosa técnica de trompe-l'oeil, são mesmo justificadas nos textos críticos legitimadores, os tratados, como um alegado regresso desejado às lendas miméticas dos antigos pintores da Grécia Clássica - Apeles, Zêuxis e Parrácios - citados expressamente, inúmeras vezes.

O significado directo e último das vanitas, explícitas que são na sua referencialidade óbvia, é sobretudo o de uma advertência séria, severa, um verdadeiro aviso, uma repreensão lapidar sobre a ignorante leviandade das vaidades mundanas, a inconsciência alheada dos excessos e finitudes várias do Homem - os seus vícios e horrores, as suas paixões desonestas, desvairadas de cegas, funestas, os seus apetites venais insaciáveis, as suas perigosas irracionalidades, as suas pulsões inconfessáveis -; e, em geral, uma distância circunspecta por tudo o que se aprecia, sem freio e pudor, com desbragado hedonismo, neste mundo de carnalidades e materialismos primários, doentiamente consumista e fetichista, inundado pelos prazeres mais desatinados. Que têm um fim! - é esse o aviso.

A eficácia da advertência e aviso é conseguida pelo efeito de contraste violento estabelecido entre o crânio humano, a caveira, às vezes também as tíbias, mesmo o inteiro esqueleto, sinais escatológicos manifestos do ameaçador fim dos fins, colocados em evidência de primeiro plano, em recorte contrastante com os objectos que os rodeiam, de ostentação e aparato, de erudição e estudo, de pompa e fausto, dispostos em minuciosa e verista composição formal, de apurado sentido lumínico-cénico e forte carga dramática.

Temas apocalípticos milenaristas, dramaticamente ameaçadores, mais escatológicos que teleológicos (mostrando mais o fim do que eventual redenção), são alegorias terríveis de eficácia significativa, composições muito elaboradas, mas com explícito artifício de citação retórico-moralista, que conseguem invulgar eloquência ao expressar, de modo artístico simbólico, pela pintura, gémea da poesia (dizia Horácio), um comentário categórico sobre a sabedoria irónica do "trabalho" da morte, finando cerce a ilusão posta nas vaidades terrenas. Um apelo ao instante arrependimendo que tarda, pela vacuidade da vida guiada pela mais leviana ilusão, ao aproximar-se, com o triunfo derradeiro da morte, o severo fim para as frivolidades mundanas.

São histórias contadas visualmente, narrativas exemplares, com um recorte moral fortíssimo, um registo severo de recriminação ética, com um alcance filosófico que poderemos chamar mesmo de proto-existencialista.

Pretende-se com estas naturezas-mortas de particularíssimo sentido patético, traduzir o discurso melancólico-ascético, contemplativo, estóico, puritano, saído das convulsões ideológicas e religiosas do século XVI, um discurso condenador das materialidades mais apelativas do viver mundano, e ainda das actividades predadoras e hieraquizadoras do viver social com todo um rol de evidentes iniquidades, a injustiça revelada na desigualíssima distribuição dos bens e riquezas, a roda da fortuna separando implacavelmente os poderosos, que tudo possuem, dos expoliados que nada têm de seu, morrendo igualmente todos e tudo deixando, muito uns, outros pouco, (justiça final, ironia última do fim dos tempos!), das satisfações cegas dos prazeres mais primários e sórdidos, dum hedonismo fetichista cada vez mais generalizado - sinal dos tempos - a modernidade do capitalismo emergente.

Mórbidos, fúnebres, macabros, tétricos, são bodegones intemporais, porque anunciam a verdade mais radical de todos os tempos, de sempre - a Morte - o fim súbito e derradeiro do epicurismo instante de todos os tempos, que aproveita com sofreguidão a precaridade escassa dos momentos agradáveis e felizes da existência, as raras oportunidades de gozo, e deleite, dos chamados "pecados veniais" (os cabalísticos sete vícios). Para os "pecadores" a honesta volúpia dos prazeres (infelizmente) demasiado efémeros.

Os elementos mais constantes do repertório habitual das vanitas são de três ordens:

1 - Objectos aludindo à vida terrestre espiritual e contemplativa (as ciências, as letras e humanidades, as artes, citadas ao modo alegórico por meio dos seus objectos/signos: livros, quadros, esculturas, máscaras, instrumentos musicais, máquinas e mecanismos científicos), ou, por outro lado, figurando a vida terrestre mais materialista e de prosaico hedonismo, mais voluptuosa e sensual (a citação canónica dos cinco sentidos, ou objectos de amor profano como espelhos de dama, colares, pérolas, jóias e outros adornos femininos, e ainda flautas e charamelas, símbolos fálicos e rotundos, que representam os prazeres libidinais e a luxúria), a citação directa da fortuna (moedas de ouro e prata, objectos preciosos, coisas de grande aparato, de ostentação e fausto, ricos panos de armar com as suas borlas de ouro fino, panejamentos drapeados dos mais requintados tecidos, veludos, sedas e brocados, desdobrando os seus bordados de ornato rico) e do poder (a coluna de ordem clássica, o trono de potestade, os símbolos das hierarquias seculares, coroas, tiaras, mitras, medalhas e outros adereços de honra, ou ainda armas, armaduras, elmos, escudos, emblemas heráldicos, e toda a panóplia de instrumentos bélicos e sinais de subida hierarquia). O que se perde. A glória e a fortuna, os prazeres que são deixados para trás com a derrota que a morte impõe, provando que sobre os maiores poderes do mundo, um poder maior, cósmico, sobre tudo impera e comanda.

2 - Objectos evocando a brevidade da vida física dos prazeres mundanos finados pela velocidade fágica do tempo que tudo traga e envelhece de maneira implacavelmente vil (ampulhetas e diversificados relógios, cronómetros, clepsidras), explicitando enfaticamente a degradação da matéria (flores, elas próprias símbolos imediatos da efemeridade e finitude, perdendo as pétalas e definhando, frutos apodrecendo, folhas secando e murchando, pedras desgastadas e rachadas, gretadas, velas apagando-se, cachimbos pousados, ainda e fumegar, taças de vinho tombadas). Aquilo em que as coisas se tornam. A efemeridade da vida que mal se mostra exuberante de beleza e cor e de excelência de aroma logo murcha e se fina.

3 - Os objectos de maior protagonismo simbólico no todo das composições - a caveira, as tíbias, às vezes o esqueleto completo, erguendo este muitas vezes um gadanho, uma arrepiante foice segadora. E inscrições de aviso cruel sobre o fim dos fins, quase todas retiradas do livro Eclesiastes. A morte representando-se como derradeira vencedora. Tudo acabando com o passamento que provoca.

A carga simbólica de grande impacto das vanitas, muitas vezes com expressas legendas escritas, têm como referência erudita segura as escrituras sagradas, o Antigo Testamento. São citações literais das sentenças de recorte edificante, sarcásticas e destemperadas, do mais radicalmente crítico dos textos bíblicos - um dos Livros Sapienciais - o Eclesiastes.

O nome genérico vanitas vem portanto directamente do espírito da máxima bíblica VANITAS VANITATUM ET OMNIA VANITAS (Ecc.1:2) - vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

Julian Gallego sugeriu que o género vanitas poderia nomear-se, de maneira mais precisa e certeira como "desengano", palavra chave para os grandes pensadores do pessimismo espanhol, Quevedo e Gracian.

O termo hebraico que traduz a palavra vaidade, Qohelet, significa etimológica e literalmente "vapor de água". Faz parte com água, sombra, fumo, aragem, brisa, nuvem, do repertório inefável dos vocábulos que nomeiam imagens de substância efémera, que ilustram eficazmente a ideia de "fragilidade humana", patente nos múltiplos momentos do pensamento hebraico antigo.

O tema "vaidades" é, por excelência, o de Eclesiastes, o texto bíblico que mais claramente acentua o vazio das coisas humanas. Nele se afirma: "Assim como saiu nu do ventre da sua mãe, do mesmo modo sairá desta vida, sem levar consigo nada do que adquiriu" (Ecc. 5:15), ou "onde estão agora as brilhante insígnias do consulado? Onde estão os aplausos, os coros, os banquetes, os festins? Todas estas coisas passaram, foram noite e sonho". (Ecc. 10:17), nele se faz alusão ao entorpecimento pelos prazeres mundanais, um embriagamento que anula a reflexão serena, a lucidez, a clarividência, e se avisa que o tempo na terra é limitado - "todas as coisas têm o seu tempo" (Ecc. 3:1).

A origem iconográfica mais remota das vanitas na arte da pintura encontra-se, seguramente, na eleição como tema nobre do ambiente frugal e mitigado de clausura anacoreta, do retrato de S. Jerónimo eremita, os livros e folhas volantes, símbolos da especulação intelectual de Doutor da Igreja, o crânio humano e a ampulheta, lembrando ao homem de carne e osso que ele não é nada face ao poder aniquilador do tempo.

E um desses memento mori/vanitas primeiros, exuberante indício dessa futura moda, foi o original desaparecido do retrato de "S. Jerónimo", do flamengo Jan Van Eyck, obra datável da terceira década do século XV (de que o "S. Jerónimo" do Institute of Arts of Detroit seria cópia mais ou menos fiel, ou variante). Essa obra foi o modelo fundador de uma iconografia prolixa, interpretada nos diversos estilos dos séculos XV, XVI, XVII, por numerosos artistas (Colantonio, Antonelo de Messina, Carpaccio, Lourenzo Lotto, Petrus Christus entre muitos outros). Excelente variante é o "S. Jerónimo" meditando melancolicamente sobre a caveira, da autoria do mestre alemão Albrecht Dürer (1521), oferecido que foi a Rui ou Rodrigo Fernandes de Almeida, o fidalgo português que foi Embaixador do nosso Rei D. João III, e que nas suas viagens pelo norte-europeu terá conhecido pessoalmente aquele grande artista. Está hoje, como uma das preciosidades do acervo, no Museu Nacional de Arte Antiga, vulgo - Museu das Janelas Verdes -, em Lisboa.

Claramente inspirado neste S. Jerónimo que lhe serve de modelo, é outro retrato do santo, da oficina dos discípulos de Quentin Massys, que acrescenta uma visão nostálgica do mundo com belíssima paisagem a que o eremita volta ostensivamente as costas, e com um letreiro numa cartela sobre a sua cabeça melancólica, com o dito latino COGITA MORI (Reflecte Sobre a Morte).

O género nasce da dupla filiação ideológica. Por um lado dos círculos humanistas centro-europeus e italianos dos séculos XV e XVI, revisitadores das antigas alegorias memento mori dos latinos clássicos (sendo a mais conhecida o mosaico de Pompeia), e por outro lado, da atmosfera intelectual e religiosa de Leyden, bastião calvinista, que condena com severidade puritana tudo o que é considerado excessivamente hedonista e mundano.

As vanitas são a expressão de uma curiosa identificação epocal, do diverso sincrónico, pois cruza transversalmente o universo contraditório das mentalidades, num século de grande cisma religioso, o cinquecento, reforma e contra-reforma subitamente irmanando-se numa severa atitude moral condenadora dos excessos de ostentação material da mundanidade mais despudorada.

A influência do teólogo reformista J. Rivet, Professor de Filosofia e Ética de 1620 a 1632 em Leyden, é detectada nas obras de pintores como David Bailly. Aquela cidade dos países baixos é, por esses idos, um centro importante de estudos filosóficos, emblemáticos/alegóricos, e também anatómicos.

Na mesma altura, o fervor religioso da contra-reforma foi também favorável à extensão e recorrência desse género que explicitava a imediata meditação sobre a inevitabilidade fatal da morte.

A reflexão sensata sobre a vaidade das coisas terrenas é uma constante do pensamento humano, mas podemos balizar etapas, a partir da representação da tête de mort, o crânio humano, a caveira.

O exemplo conhecido mais remoto é o já citado mosaico pompeiano, que é do século I da nossa era.

Na história da pintura, isto é, na exacta passagem da pintura anónima (dos primitivos) para a pintura de autoria (pintura dos grandes mestres, os protagonistas), um dos primeiros exemplos de memento mori/vanitas é o verso dum volante do "Tríptico Braque", de Roger Van Der Weyden (de 1450).

Do início do século XVI é o memento mori de Jan Gossaert, dito Mabuse, no verso do volante esquerdo do "Díptico de Carondelet" (de 1517), uma nature morte à la tête de mort, com uma tarja com os dizeres latinos atribuídos a S. Jerónimo: FACILE CONTEMNIT OMNIA QUI SE SEMPER COGITAT MORITURUM (Aquele que considera sempre a proximidade da morte aceita facilmente tudo), algo próximo do lema que mais tarde, com algum cepticismo metafísico, tomou o pintor Caravaggio, Miguel Ângelo Merisi ou Amerighi: "Perdida a Esperança, Perde-se o Medo":

Do primeiro quartel do mesmo século é também um belíssimo memento mori de Albrecht Dürer, (de cerca de 1528, ano da morte do pintor), também com legenda, em alemão arcaico de belos caracteres góticos que ameaça: "Não existe nenhum escudo que vos possa defender da morte; quando chegar a vossa vez morrereis, crede em mim".

Mas só a partir do segundo quartel do século XVII o género mais particularmente se tipifica e se consagra. David Bailly pintará em 1651 uma grande composição reunindo o seu auto-retrato, com o pitoresco do seu (outro) retrato (no retrato) "envelhecido" e uma exuberante vanitas, com todos os tradicionais objectos constantes.

Contemporaneamente aderem ao género os irmãos Harmen e Pieter Steenwyck, e ainda Pieter Claez, que fixam o estilo: tom geral de paleta fechada, de ocres e terras queimadas, luz razante de forte contraste, desordem complexa (mas muito estudada) de livros, cachimbos, búzios vazios, velas, relógios, vasilhas com flores, taças vertidas, e os crânios salientando-se, segundo um esquema de composição com predominância de leitura diagonal.

Muitos pintores flamengos e dos países-baixos irão produzir variadas vanitas, em que irão aparecer outros diversos elementos, outros objectos figurando o poder, a guerra ou o conhecimento erudito, a saber: armaduras, couraças, espadas, elmos, estandartes, livros e aparelhos científicos, globos terrestres, etc.

Exemplos excelentes são também as vanitas de J.D. de Heem, de Anvers (1621), as de W. de Poorter e de G. Dou, e mais tardiamente, num estilo de grande pompa, ostentação e aparato, anunciando já a grandiosidade do século XVIII, as de M. Withoos.

A vanitas foi introduzida em França pela importante comunidade flamenga de Saint-Germain de Prés. Philippe de Champaigne chegou a pintar uma vanitas, hoje de paradeiro incerto, que se conhece por uma gravura. O género irá desenvolver-se concorrentemente com o tema dos cinco sentidos. Entre os grandes pintores franceses, ou trabalhando na França, podem citar-se os nomes de J. Linard, Baugin, Sébastian Stoskopff (Grand vanitas, 1641), os pintores de Anvers, N. Peschier e S. Bonnecroy, ou ainda Simon Renard de Saint André e Nichollas de Largillierre (com uma vanitas da 1677, obra de juventude).

O tema é mais raro em Itália. Aparece, contudo, na obra de Salvatore Rosa, que pintará mesmo uma verdadeira natureza-morta em vanitas, ou ainda em Giuseppe Recco.

Em Espanha, António Pereda pintará várias vanitas. A mais conhecida é "o sonho do cavaleiro" (cerca de 1670) que apresenta um jovem gentil-homem adormecido nos braços de um cadeirão, a cabeça apoiada na mão. O resto da composição representa uma verdadeira vanitas, (conjunto caótico, e contudo de bem ordenada composição formal), de objectos variados, símbolos do orgulho mundano, tudo envolvido pelo tom carregado de trevas. Livros, partituras, uma pistola, um globo, uma couraça e braçais de armadura, flores, jóias, cartas de jogar, moedas, uma máscara, um livro aberto, uma vela apagada, um relógio e dois crânios, (um frontal, muito iluminado, o outro rolado e visto por baixo, da mesma forma que vem representado nas gravuras do tratado do anatomista Andrea Vesallius, De Humani Corporis Fabrica, 1568). Por fim um anjo estende uma legenda que diz: ÆTERNE PUNGIT

CITO VOLA ET ACCIDIT (a glória eterna esvai-se como um sonho). O motivo é um paralelo pictórico próximo na iconografia de uma passagem do drama de Calderón de la Barca, "La Vida es Sueño".

É ainda conhecida a "Alegoria da Caducidade", outra vanitas com os mesmos elementos, o anjo apontando o globo terrestre, e segurando um camafeu com o perfil de Carlos V, e todos os outros elementos; e quatro crânios em destaque de composição e luz. Pintado em 1640, é um comentário ácido ao "começo do fim" do Império dos Habsburgos, o Reino de Espanha de Filipe IV perdendo e posição hegemónica no mundo, após a separação de Portugal e da Catalunha, e ameaçado pelas guerras independentistas da Flandres e dos Países Baixos, com a adivinhada degradação económica que se aproxima.

Igualmente cultor das vanitas, Juan de Valdés Leal fará grandes composições, as famosas "Alegorias", obras de grande impacto e sentido de monumentalidade, para o Hospital de la Caridad, de Sevilha. Já Francisco de Zurbaran tinha citado o género, como pormenor no todo, do retrato de "Frei Gonçalo de las Illescas" (1639).

O tema, agora tratado como redundância da morte no tema da natureza morta, ressurge apenas na modernidade, com Paul Cézanne ("três crânios"), Georges Braque ("Crânio, colar e crucifico", 1938) e Pablo Picasso ("Crânio com alho francês e vasilhas de cozinha", 1942). Este último pertencendo ao acervo do Museu do Caramulo, Portugal.

A última grande exposição antológica sobre as vanitas foi apresentada em 1990, no Museu de Caen, e também no Museu do Petit Palais, em Paris.

Harmen Stennwyck (c.1580-1649) Escola Flamenga, Séc. XVII, Vanitas, (as Vaidades da Vida Humana), cerca de 1645, 39x51 cm, óleo s/madeira de carvº, National Gallery, Londres.

Pieter Claesz (1590-1661), Vanitas, óleo s/madeira, 1645, 39x61 cm. Colecção Particular.

David Bailly (1584-1657), Auto-retrato com símbolos de Vanitas, 1651, 89,5x122 cm, óleo s/madeira de carvalho, Stedelijk Museum De Lakenhal, Leyden.

António de Pereda (1608-1678) "O Sonho do Cavaleiro", (1638), 152x217cm, óleo s/madeira de carvalho, Real Academia de S. Fernando, Madrid.

António de Pereda (1608-1678) Alegoria da caducidade, cerca de 1640, 139,5x174, óleo s/madeira de carvalho, Kunsthistorisches Museum, Viena.

Jacques Linard (1600-1645) Vanitas (vaidades) 1645, óleo s/tela, 31x39 cm, Museu do Prado, Madrid.

Juan de Valdés Leal (1622-1690), Finis Gloriae Mundi, 1671, óleo s/tela, 216x220 cm, Hospital de la Caridad. Sevilha.

Géneros iconográficos afins

(A arte representando a Morte como fatalidade irremediável dos homens).

Foram géneros iconográficos afins, pertencentes à mesma família simbólica que poderemos nomear de "Iconografia Escatológica", além dos mais próximos, os memento mori, os "Apocalipses" e os "Juízos Finais", e sobretudo as "Danças Macabras" e os "Triunfos da Morte", as "Procissões de Esqueletos e Condenados", as "Mascaradas da Morte", as "Três idades e a Morte", as "Degradações dos últimos tempos", que foram temas que marcaram a Alta Idade Média e os primórdios do Renascimento.

Foram formas de representar a morte, realidade omnipresente por esses idos, devastados por pestes e insuficiências médicas e sanitárias, subnutrição, promiscuidade e falta de higiene, tudo potenciando o "trabalho" eficaz do espectro final. Os quatro Cavaleiros do Apocalipse – a Guerra, a Fome, a Peste... e a Morte.

Tempos que despertam para a realidade quotidiana da "grande mofina" que vai ceifando vidas metodicamente, dizimando multidões de "almas" de todas as classes e idades, sem excepções nem contemplações, aceitando no seu seio maldito, a igual dignidade de mortais que existe na mais desvairada diversidade da espécie humana, que nos une a todos, para lá de todas as diferenças - credo, ideal, tradição cultural, nação, etnia, tribo, clã, casta, linhagem, classe (condição social), raça, sexo, idade, idiossincrasias, loucuras, excessivas normalidades...

São tempos que despertam, com uma lúcida melancolia, para o sentimento trágico da vida, para a amarga pena que é o viver diário, e também, pela primeira vez, para o problema da individualidade irrepetível de cada alma, para o sujeito humano uno e diferente, só consigo e com a sua incontornável circunstância, em que toda a consciência de "si" é uma forma extrema de solidão, lucidez acrescida da separação do eu individual do inteiro solidário da colectividade. Forma de consciência última de que o ser (único) é a ausência do outro-connosco.

São tempos de uma grande reflexão sobre a finitude humana e os mundos desconhecidos, os físico-geográficos que vão sendo desbravados com as recentes descobertas, os metafísicos efabulados - o nascimento do Purgatório - Inferno e Paraíso, últimas comarcas, Hades redescoberto, Thanatos triunfante... e mil e uma panaceias repetidas pela enésima vez do nosso medo, o constante recomeço dos discursos de redenção confortante, aberturas ao espiritual, apelos à reflexão metafísica e ontológica, existencial... salvações desejadas, danações temidas, visão receosa do desconhecido, ... medo do nada!

As alegorias da morte abundam, tanto no brumoso norte europeu como no soalheiro sul mediterrânico.

Na Bretanha armoricana levanta-se o Ankon, condutor dos mortos das danças macabras, que vemos desfilar nas tábuas terríveis de Hieronymus Bosch Van Acken ou Pieter Brueghel Van Breda, o Velho, o seu grandioso "Triunfo da Morte" uma obra-prima do género.

Aparecem amiúde também nas obras dos grandes mestres da velha escola alemã: Mathias Grünewald, Lucas Cranach, Nicholas Manoel Deutsch, Hans Baldung Grien ou Joaquim Patinir; revisitados pela modernidade expressionista, por autores como James Ensor, Félicien Rops, Edward Munch, Egon Schielle, Gustav Klimt, Oscar Kokoschka, Georges Grosz, Emil Nolde, Max Beckmann, ou ainda pelos pintores tenebristas novecentistas da Espanha Negra, José Gutierres Solana e Ignácio Zoluaga. Impressionante é o "Casal de insepultos - os amantes trespassados" - dois velhos amortalhados, trespassados por serpentes e cobertos de vermes, da autoria de Mathias Grünewald. Requintadas são as gravuras da série Dança Macabra, de Hans Holbein, o moço.

A par destas expressões da pintura erudita, a escatologia iconográfica perpetua-se também nas Alminhas ("espanta diabos" lhe chama o povo), tábuas votivas com temática post-mortem, com representação das penas do purgatório, diabos e morte representadas em evidência, dominando as chamas purificadoras (?!) onde vão penando as almas dos mais díspares pecadores, representadas que são, invariavelmente, todas as classes sociais, os "estados seculares" (Papa, Imperador, Rei, nobres, burgueses, plebeus, monges, freiras...). Forma muito característica de hagiografia popular, pequenas pinturas de grande tradição cultural folclórica, apareceram também nos idos do século XVII, as mais antigas ainda do século XVI, denunciando o mesmo discurso crítico social cáustico que se conhece do teatro vicentino - a passagem de todas as personagens da comédia humana para as barcas de Caronte - do célebre "Auto das Barcas", de Gil Vicente.

São ainda exemplares iconográficos da mesma família os retratos com o registo doloroso e de reflexão ascética de santos anacoretas, eremitas, mártires ou monges contemplativos, todos identificados com a "maligna", pela presença macabra da caveira: o já citado S. Jerónimo, sapientíssimo Doutor da Igreja, eremita do deserto; Stª Maria Magdalena, Maria de Magdala, pecadora arrependida; S. Francisco de Assis, o herói cristão do despojamento; Stº Antão, abade do deserto; ou ainda S. Bruno, Stª Margarida de Cortona ou S. Francisco de Borja.

Ainda semelhantes na composição simbólica são inúmeros túmulos de Papas, cardeais e príncipes da Igreja, que vemos em templos italianos, de que o magnífico túmulo do Bispo D. Manuel de Moura Manoel da Igreja de Nª Srª da Penha de França, da Vista Alegre, em ílhavo, será o melhor exemplo aplicado no nosso país.

Por fim, as "capelas de reflexão contemplativa penitente" feitas com ossos de mortos - tíbias e caveiras - as "capelas dos ossos" dos mosteiros franciscanos (magnífica a do Convento de S. Francisco, de Évora) com os seus letreiros de ameaça cruel: "Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos" ou "Tu és o que nós já fomos e serás o que nós somos".

Esta última legenda é uma citação seguramente copiada do dito lapidar, anunciador de inevitabilidade ameaçadora da morte, adornando o túmulo com esqueleto, que faz a pedrela do fresco "A Santíssima Trindade" com figuras de "pé da cruz" e doadores (Lourenço Leni e sua mulher) da Capela Brancacci (de cerca de 1425) de Florença, pintada por Giovanni Guidi de Mone, dito Masaccio - IO. FV. GA. QUEL. CHE. VO: E. TE. EQUEL. CHISON. VOI. ACC. SARETE (Sentença em italiano arcaico que diz algo como: eu fui o que vós sois; e igual ao que sou também vós sereis).

Por último a morte é representada pelo canónico esqueleto munido com a foice gadanha com que ceifa a vida, e acompanhado da ampulheta que lhe marca o tempo do "trabalho", no tema do arcano ligado ao número 13 (número do azar) do Baralho de Tarôt. Representa a fatalidade do Destino. Apela a uma reflexão questionadora dos vícios e defeitos, propõe o arrependimento, o desprendimento, o aperfeiçoamento e a transformação radical e superação de tudo o que está ultrapassado, obsoleto e decadente.

E todas estas são expressivas representações simbólicas iconográficas do Mórbido, do Tétrico, do Macabro.

Alegoria da morte num mosaico encontrado em Pompeia,

memento mori, Séc. I D.C.

Albrecht Dürer(1471-1528), memento mori (Pensa na Morte), óleo s/tela, 37x29 Cm, assinado com o monograma, não datado, Museu do Ermitage, S. Petesburgo. Russia


Albrecht Dürer (1471-1528), S. Jerónimo, óleo s/tela, 59,5x48,5 cm, não datado.

Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.


Oficina dos discípulos de Quetin Massys, "S.Jerónimo", 1520, 77x105 cm, óleo s/madeira, Kunsmuseum, Düsseldorf

Pieter Brueghel, o Velho (1525-1568), "Triunfo da Morte", óleo s/madeira, não datado,117x162 cm, Museu do Prado, Madrid.

Michael Wolgemut, "Dança Macabra", ilustração da Weltchronik (crónica mundial), de Hartmann Schedel, Nuremberg, 1493.

Hans Holbein, o Moço, (1497-1543), Série de Gravuras "A Dança Macabra".

VANITAS... (a sua razão!)

comentário final, talvez oportuno.

O Homem, apregoada maravilha suprema da natureza, não passa, afinal, de um ser finito e limitado, efémero e passageiro, incompleto. Acabado paradoxo.

O ser mais capaz de gozar plenamente o prazer de viver é, também, (talvez por isso mesmo), o mais carente de vida. Escassa e curta que ela é, manifestamente curta!

O Homem é o único animal de toda a criação que se descobre absolutamente infeliz. E a sua infelicidade resulta, precisamente, da mais-valia da sua condição- a razão, a consciência de si. Fado insuportável!

Criatura Superior(?!), não vive naturalmente só, alegremente apenas, numa felicidade inconsciente, como todos os animais, no seio livre e generoso da natureza, da sua mãe geradora. Não vive feliz, simplesmente, ... como todas as demais criaturas. Os seus raros momentos de felicidade plena duram pouco, são fugazes, breves instantes... momentâneas iluminações numa penumbra continuada.

Vive, ... mas vive "acompanhado" da consciência cabal da frágil condição da sua existência... macaco nu e desamparado!

Vive, ... mas vive revoltado, amargurado, inconformado, perante a impotência de não comandar o seu devir, e, sobretudo, perante a lucidez de visão desolada da (sem) razão última da vida... que vive uma única vez.

Vive, ... mas vive dolorosamente o sem-sentido absurdo que retira, pesados todos os momentos, do estranho drama, trágico-cómico, que é a sua vida entre a dos outros, seus iguais em condição.

O homem vive em constante estado de insatisfação existencial, angustiado pela clarividência da sua breve perenidade, amedrontado e inquieto pela consciência do breve fim. É o único animal, do diverso da criação conhecida, com a visão cruel da sua finitude - os seus curtos limites. É a única criatura, depois do big-bang (e antes de outro qualquer cataclismo) com a consciência lúcida, desencantada, desesperada, de que não é mais do que a mera sombra de um sonho alheio... (de alguma ficção suprema, quimera desconhecida!). Ao arrepio da sua grande ambição feita ganância desonesta, vã glória de mandar, ... ao arrepio dos seus desvarios de grandezas, impérios a ganhar... puro engano!

O Homem é uma ilusão feita de carne e osso, pequeno formato.

Frágil marioneta de deuses loucos, dramaturgos de uma qualquer peça dum grand-gignol cósmico.

O Homem é uma criatura precária, demasiado precária! Um ser provisório, com termo súbito (mas esperado!). Com apertado prazo de validade!

A sua existência é parca, transitória, pouco duradoura, uma passagem, leve brisa, pelo vale lacrimoso do mundo terreno.

Em direcção certa ao não-ser.

Os seus passado, presente e futuro são a véspera, o hoje e o amanhã duma récita de curta duração: Uma novela biográfica da qual conhece antecipadamente o desenlace... a última página. Escusado desprazer.

O presente passa tão veloz que não parece dar nítida certeza que exista. Os prestes dias que passam a galope no pouco que vive, breve estadia terrena de superfície, fazem dele o louco perdido de sentido, um tonto alienado condenado ao absurdo de um drama que não comanda. Porque o destino imprevisível vence a vontade mais indómita. As contingências da vida não dependem dele, ultrapassam-no.

O seu último destino, futuro fatal, brutal, derradeiro, conclusivo, e anunciado como uma maldição desde o berço, é a morte, voraz predadora. Só ela é definitiva e irreversível - uma ameaçadora entrada no mistério insondável da eternidade.

A morte é a comarca final, enigma ameaçador, porque imensamente desconhecido e inteiramente indecifrável, e por isso efabulado por uma filosofia meta-humana, e ainda assim demasiado humana, melancólica de esperança. A morte provoca uma ontologia amargurada pelo desespero e a mágoa.

Perante a morte, como perante a vida, e o amor, é impossível, imperdoável, incontornável, ficar indiferente. É difícil permanecer incólume ao abeirar desse território terrível de medonho.

A morte marca-nos irremediavelmente, com o trago amargo do desencanto mais lúcido e da revolta mais impotente.

A morte é feita de sucessivas perdas que fazem a enorme angústia omnipresente dos homens, tristes mortais.

Porque o que fica, fica indelevelmente marcado como um lugar incompleto, ... magoado de falta, onde a única verdade imediata é o pesado e pungente silêncio do vazio, da perda, da ausência..., do "nunca mais", lamento irreparável pela saudade "dos que vão indo" (à nossa frente!). Porque o que fica é o lugar onde ficamos "mesmo" a sós connosco, e com essa imensa dor humana, indizível de tamanha! E nada temos que nos conforte, nada temos que anule esta angústia que nos fina e nos consome. Nada temos que nos subtraia do mecânico trabalho da ceifeira maldita que nos vai levando uns após os outros.

E a morte é o único e irrepetível momento da existência que é feito de absoluta individualidade. Nascemos acompanhados (pelo menos pela mãe), vivemos sempre com os outros... (mesmo se excluídos os eremitas, ... mesmo esses seguiram a vocação solitária depois da experiência do "outro", a mais das vezes por causa dessa própria experiência!)... mas morremos sozinhos. Irremediavelmente!

A morte é também, finalmente, o momento das certezas últimas, ou melhor, da grande e cabal certeza que responde inteiramente ao nosso eterno questionar: quem somos, donde vimos, para onde vamos. O elucidativo momento em que as duas hipóteses absolutamente antagónicas e excluidoras do nosso devir existencial se transformam numa só resposta: - ou matéria que se transforma em matéria (e já não haverá disso consciência, pois ela se irá fundir no todo!); ou um puro espírito que animará um "além", que agora apenas pode ser sonhado pela esperança efabuladora, e nunca afirmado racionalmente, isto é pela vivência esclarecedora e confirmadora da experiência. Tudo ou nada! Deus ou um escuro sem fim! Um paraíso eterno de luz junto de um pai divino que nos abraça no fim... reconfortante quimera, (que bom que fosse verdade!) ...ou pó juntando-se ao pó maior da terra.

Certo é haver morte depois da vida, como incerto é haver vida depois da morte.

Certa é a morte de cada homem. Ninguém escapa!

"Animal transcendental" acossado pela revelação de que é pródigo apenas na imensa solidão cósmica e no confirmado abandono da providência (exista ela ou não!), o Homem é um ser condenado "a caminhar a sua vida", pena irreversível, a caminhar sempre para o fim - a morte certa... a hora incerta!

O Homem é pequeno e efémero. De uma pequenez insignificante. De excessiva finitude. É tudo menos eterno. De ciência certa se sabe que tudo o que é humano e terreno se fina e acaba.. num instante! Na terra nada é eterno, tudo é fogo-fátuo, extinção súbita... ou reconversão, reciclagem! Sucessivos eternos-retornos do nada ao nada! IN TERRIS NIHIL ÆTERNUS EST foi o escrito lapidar, sentença irrefutável, mas também tradução de estado de alma melancólico, patético, pois foi encontrado numa parede de uma casa de Pompeia, grafito nervoso e contudo sereno, talvez escrito por um romano lúcido, iluminado pela hora amarga, em derradeiro instante de verdade, imediatamente anterior à morte intempestiva nas lavas vulcânicas do Vesúvio.

"O Homem não passa de barro, pó, cinza". Eis o juízo edificante que encontramos em todos os textos mais antigos e sagrados das mais diversas comunidades humanas.

Mas a filosofia, a poesia, a arte, virtuosas gnoses, quando veículos da reflexão serena e dasapaixonada sobre a finitude do Homem, ensinam-lhe a sabedoria do desapego sensato das coisas e dos bens de que se rodeia - a elevação moral do despojamento -, e também, lucidez acrescida, a bondade do coração na generosa disposição para a fraternidade. "Estamos todos no mesmo barco, ... a mesma sorte; somos iguais marinheiros, ... irmãos de navegação!"

A filosofia, a poesia, a arte, ensinam-no a substrair-se da continuada condição de escravo cego do cansativo existir sobrio de todos os dias, do rotineiro e constante recomeço de guerras e escaramuças que movemos uns contra os outros, ... como se de obrigatória Tarefa de Sísifo se tratasse... outros Caim e Abel danados e amaldiçoados, mil gerações após.

Ensinam-no a escolher entre a idolatria interesseira, de primário hedonismo, que comanda o generalizado fetichismo triunfante, as ganâncias avulsas por mesquinhas colecções de pertences privados, que na essência nada valem, prescindíveis que são, caprichosamente egoístas; e a autêntica e genuína alegria, a inegável satisfação, que se retira da partilha de tudo com todos, do gozo irmanado de todos os bens postos em comum com todos os outros, "terra da cocanha" feita paraíso terreal. "Saudades do futuro" é a feliz expressão que traduz a constante nostalgia do paradigma perdido, a "terra prometida", comarca da abundância final, lenda, ficção, utopia.

Mais de trezentos e cinquenta anos após, mas ainda (e cada vez mais) actualíssima, é a sentença condenatória a esse apego cego pelas materialidades - o monetarismo sacralizado, a prostituta universal que é o dinheiro travestido de supremo bem - feita pela Padre António Vieira: "Os antigos adoravam o bezerro de ouro, os modernos adoram o ouro do bezerro".

Diziam os estóicos latinos, na esteira dos cínicos gregos, de Diógenes: QUI DIVES? - QUI NIHIL CUPIT! QUI PAUPER? - AVARUS! (Quem é rico? - aquele que nada cobiça! Quem é pobre? - o avarento, o ganacioso insatisfeito!)

A contemplação de horizonte poético-filosófico sobre a existência física do Homem, aponta para o desprendimento parcimónico, circunspecto, das coisas de que se rodeia, por mais tentadoras e preciosas que pareçam, tão precárias quanto ele! No extremo, a sabedoria ascética do total despojamento de si! Outra vez mais os estóicos: "Mais vale salvar a alma, mesmo perdendo-se os bens. O mais importante é salvaguardar a integridade do nosso ser mais genuíno, a nossa serenidade do espírito e a dignidade última que a nós próprios devemos".

A fama, vaidade máxima do Homem dura um "ai". Andy Warhol dixit: "15 minutos de fama"... quinze parcos minutos!

É precário tudo o que é humano.

E a filosofia aponta essa precaridade, essa escassez, que nos tabela e iguala inteiramente no fim do caminho. Fama, Glória, Fortuna são deixadas cá... ao pó dos tempos vindouros. (Sótãos desolados... memórias desbotadas, esmaecidas!... ou antigalhas para ostentação dos filhos e dos filhos dos filhos... novos enganos!).

Bens e riquezas são banalidades terrenas, trivialidades, vaidades, apenas! tudo acaba um dia!

Tudo passa... SIC TRANSIT GLORIÆ MUNDI.

Porque um pó, apenas pó, barro, terra, nos volvemos, todos iguais, no fim dos fins!

Acrescente-se, agora, algum alento que ameniza a dureza azeda e cruel destas irrefutáveis verdades, mórbidas e escatológicas que são, a reflexão naturante, panteísta, réstia de moderada satisfação cósmica-de Baruch Spinoza: "Os Homens são os modos finitos da Substância Infinita".

Remate final, andante presto deste retrato da tragédia humana, visto ao modo optimista prudente. Siga-se à letra o lema horaciano: CARPE DIEM (aproveita o dia). Vive o teu dia intensamente! Como se fora o primeiro, ou o último, ... o único!

Dá assim um passado vivido ao teu futuro!

Ou como diz o povo, na sua sabedoria inata ancestral: "Goza o teu dia, goza-o bem, que esta vida são dois dias! Goza a vida enquanto és vivo, pois vais ter muito tempo para estar morto!"

L.C. 1/1999

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* Pintor, Professor e Investigador de Teoria da Arte. cal@esev.ipv.pt

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