Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 2 de agosto de 2026
Ângelo Alves - A 'invasão« de migrantes
quinta-feira, 30 de julho de 2026
Bruno de Carvalho - [Injluencers ... influenciados por Israel[
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Tiago Franco - OS AVENÇADOS DE ISRAEL |
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Vasco Cardoso - A água suja do anti-comunismo
sábado, 23 de maio de 2026
Gonçalo Portocarrero de Almada - Assim se vê como é o PCP!
* Gonçalo Portocarrero de Almada
Um partido ao serviço do
imperialismo da ex-URSS; cúmplice da ditadura em Cuba; e que não reconhece a
liberdade de pensamento e de expressão.
23 mai. 2026c
Anda meio mundo zangado com o
Partido Comunista Português (PCP), por três intervenções políticas em âmbito
parlamentar (ou, melhor dizendo, para lamentar …). Com efeito, este partido,
cuja representação na Assembleia da República está agora reduzida a uma troïka,
protagonizou três polémicas intervenções. A saber: por ocasião da recente
visita do presidente do Parlamento ucraniano a Portugal; a propósito da
caracterização política do regime de Cuba; e na sequência do recente
falecimento de um seu líder histórico, que presidiu ao seu grupo parlamentar e
foi seu candidato à presidência da República. Não obstante a multitudinária
desaprovação do modo como os comunistas portugueses reagiram a estes factos
recentes, o PCP está de parabéns.
A título de declaração de
interesses, devo esclarecer que sempre fui contrário à ideologia do PCP, por
tradição familiar, pela educação recebida e pelo meu modo de ser independente
e, portanto, incapaz de fazer parte de uma organização de pensamento único.
Subscrevo os princípios humanistas e democráticos que aquele partido, com
exemplar coerência, sempre repudiou. Graças à minha fé cristã, absolutamente
oposta ao ideário comunista, também não posso ter, como é óbvio, nenhuma
afinidade com o PCP.
Quando era liceal e jovem militante da juventude do então Partido Popular Democrático (PPD), participei activamente na vida política do Liceu Pedro Nunes, tendo concorrido, em lista com outros colegas da JSD, para o seu conselho de gestão. Depois, por exigência da minha formação universitária, fui para o estrangeiro e abandonei, por completo, a militância partidária. Com a ordenação sacerdotal, abdiquei também de qualquer actuação política, mas sem desistir da intervenção cívica como cidadão, sobretudo em defesa da vida, da dignidade e da liberdade humanas, segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja e com total independência de todos os partidos políticos.
O primeiro caso parlamentar
recente relativo ao PCP ocorreu quando, no passado dia 6, o presidente da
Assembleia da República recebeu o seu homólogo ucraniano. Os deputados
comunistas fizeram questão de se ausentar da sala do plenário na sessão de
boas-vindas, alegando que “Ruslan Stefanchuk é presidente de um
parlamento antidemocrático que é expressão de um poder suportado por forças
xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis.” Este pretexto não releva
os deputados do PCP da indelicadeza da sua atitude, que ofende a dignidade da
Assembleia da República e de Portugal, na medida em que esse órgão de soberania
representa o povo português.
Tem o seu quê de contraditório,
ou de anedótico, que o PCP proteste pelo facto de o Parlamento ucraniano não
ser democrático, pois não há nenhum regime comunista que tenha um parlamento
eleito livre e democraticamente. Por outro lado, mesmo que o Parlamento
ucraniano fosse, como dizem, “suportado por forças xenófobas,
belicistas, fascizantes e nazis”, mais belicista é, com toda a certeza, o
Estado que invadiu a Ucrânia, que se limitou a reagir em legítima defesa. Por
último, é muito infeliz a referência ao suposto carácter “nazi” dos
dirigentes ucranianos, pois foi a URSS que pactuou, pelo ignominioso tratado
Ribbentrop-Molotov, com o regime nacional-socialista de Hitler, acordando, a
23-8-1939, a invasão e partilha, por nazis e comunistas, da inocente e
martirizada Polónia.
O segundo caso respeita à
situação de Cuba. Num despacho de 8 de Maio, a Agência Lusa noticiou: “O
PCP agendou para hoje um debate sobre a situação política e social de Cuba, que
atravessa uma grave crise económica e social, acentuada nos últimos meses pelo
bloqueio petrolífero imposto pela administração norte-americana de Donald
Trump, que ameaça uma ação militar contra a ilha. O projeto de resolução
comunista, que condenava a ‘escalada de agressão e de ameaças dos EUA contra
Cuba’ e propunha a ‘exigência do respeito da soberania e dos direitos do povo
cubano’ foi chumbado, tal como uma iniciativa do Bloco de Esquerda ‘sobre a
crise humanitária em Cuba e a necessidade de Portugal assumir uma posição
activa pelo fim das sanções unilaterais e pela proteção da população civil
cubana’.”
É significativo que o regime
comunista cubano, depois de sessenta e sete anos de revolução, não consiga
garantir ao seu povo condições mínimas de sobrevivência. Em nome do bem-estar
da população, o comunismo defende e pratica a supressão das liberdades políticas
dos cidadãos, impondo um regime ditatorial que, em princípio, deveria resultar
numa sociedade justa e igualitária. Não se conhece, contudo, nenhum país que,
tendo feito esta experiência, tenha conseguido sequer chegar a uma situação
minimamente eficiente em termos socioeconómicos. Ajudar a população cubana não
passa, pois, por financiar o regime que a oprime, mas pela aposta na sua
reforma política, que se espera que possa acontecer quanto antes, se possível
por meios pacíficos e sem intervenção estrangeira. Qualquer apoio prestado ao
regime comunista cubano traduz-se, necessariamente, em cumplicidade com o
vigente sistema repressivo.
Como era expectável, “o
projeto de resolução comunista (…) foi chumbado (…). Por outro lado, os
deputados aprovaram em plenário resoluções do Chega, a recomendar ao Governo
‘que realize todos os esforços políticos e diplomáticos no sentido de
pressionar o regime cubano e conduzir à plena democratização da República de
Cuba’; da Iniciativa Liberal, a propor ao executivo que ‘defenda o povo cubano
e promova o respeito pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais em
Cuba’, e do CDS-PP, ‘em defesa do povo cubano contra a tirania do regime
comunista’.”
Em terceiro lugar, foi deplorável
a atitude do PCP em relação a um seu líder histórico, cuja memória nem sequer
respeitou por ocasião da sua morte, a 7 de Maio passado. Felizmente, o voto de
pesar, por unanimidade, da Assembleia da Republica, prestou-lhe a homenagem de
que o partido em que militou tantos anos não foi capaz.
Apesar de estas três atitudes
deploráveis do PCP, por curiosa coincidência ocorridas nos dias 6, 7 e 8 de
Maio de 2026, o partido está de parabéns porque, se fosse a favor da Ucrânia,
defendesse a democracia em Cuba, e lamentasse o falecimento de um seu líder
histórico, não obstante a sua divergência política, poder-se-ia pensar que é um
partido anti-imperialista, democrático e humanista quando, pelo contrário,
continua a ser o que sempre foi. Com efeito, é uma força política ao serviço do
imperialismo da ex-URSS, pois a sua líder parlamentar teve até a infelicidade
de declarar, na Assembleia da República, que “a União Soviética,
infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente porque de facto foram
anos extraordinários para o povo”. É também um partido cúmplice da
ditadura cubana e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão.
Graças a estas suas tão desastradas intervenções, o PCP afirma, de forma
inequívoca, o que sempre foi e é e, por isso, está de parabéns. Em formato
de slogan, que não destoaria na festa do Avante!,
poder-se-ia dizer que assim se vê como é o PCP!
quarta-feira, 13 de maio de 2026
O anticomunismo serôdio e as exemplares mistificações dos ilusionistas liberais, até dizer ...chega
terça-feira, 14 de abril de 2026
Em tormo do 25 de Abril, entre Pacheco Pereira e André Ventura
Uma palmatória, comparações
"absurdas" e "traições à pátria": o debate entre Pacheco
Pereira e Ventura sobre presos políticos
Uma frase de Ventura que levou os deputados constituintes a abandonarem uma sessão no Parlamento levou a um debate tenso, longo, com relatórios pelo meio e até uma palmatória.
Mariana Lima Cunha. Texto
14 abr. 2026
A premissa era simples: contrariar
a ideia, lançada por André Ventura na sessão solene pelos 50 anos da
Constituição portuguesa, de que houve mais presos políticos a
seguir ao 25 de Abril do que (imediatamente) antes. O repto foi lançado por
Pacheco Pereira, Ventura aceitou, e o que se seguiu foi 1h20 de debate (e
alguns gritos) em que os dois discutiram as prisões, a descolonização e a
corrupção durante a ditadura portuguesa, com diferentes armas: muitos livros,
um dossiê com relatórios e uma palmatória, levada por Pacheco
Pereira para ilustrar as torturas levadas a cabo pelos portugueses nas antigas
colónias.
O debate organizado pela CNN andou
sempre à volta da mesma ideia: André Ventura queria defender que houve prisões
políticas e tortura no período da transição para a democracia, o que
significaria que nem tudo na democracia é bom e “nem tudo [na ditadura] foi
mau”; Pacheco Pereira considerava a comparação “absurda”, uma vez
que punha em confronto as prisões, torturas e outras restrições às liberdades
que aconteceram durante 48 anos de ditadura e a “turbulência própria” dos meses
seguintes, a que se pôs termo com a normalização do regime democrático.
O líder do Chega explicou
inicialmente que o que “quis dizer” no dia da sessão da Constituição foi que
especificamente no dia 24 de Abril de 1974 havia menos presos
políticos em Portugal do que haveria uns meses depois, referindo-se também aos
expatriados que foram “perseguidos pelos novos donos de sistema”. Falou da
forma como cresceu em Mem Martins, sem “privilégio”: “Estou à vontade para dizer:
o sistema anterior errou mas o que veio não trouxe naqueles meses tudo de bom.
Eu gostava era de ter uma democracia plena, em que não houvesse
presos políticos e torturados e expropriações”.
Ouça
aqui a reportagem da Rádio Observador
Além disso, Ventura arrancou o
debate contestando a ideia de que todas as pessoas presas nas colónias fossem
presos políticos, mostrando as imagens de bebés mortos pela UPA em 1961 e
defendendo que alguns presos o foram por estarem a “atacar os
nossos militares”.
“Você mete-se em cada sarilho…”,
cometou Pacheco Pereira, lembrando o número de presos a 24 de Abril — 127 em
Portugal continental, 4249 nas colónias — e lembrando também que o número de
guerrilheiros presos era relativamente baixo, até porque muitos eram
executados; grande parte dos presos seriam “enfermeiros, funcionários dos
correios, pastores protestantes, professores, estudantes aliciados a
regressarem a Portugal”. Além disso, argumentou, quem se defendia da “ocupação
portuguesa” deveria ser considerado preso político. “Se Espanha invadisse
Portugal o que fazia? É uma atitude política”, frisou. “Como bom
nacionalista que é, admite que estavam a lutar pelo seu país”.
Por entre ataques vários — “hoje
não tem aqui a Alexandra Leitão, é o André Ventura”; “Eu gosto muito do meu
país, em muitos aspetos mais do que o André Ventura” — os debatentes foram
comparando números e também os castigos corporais que
existiram, em muito maior número durante o Estado Novo. “Trouxe uma palmatória
que era usada nos castigos corporais”, mostrou Pacheco Pereira, lendo
descrições de torturas da PIDE em Moçambique: “Violação anal com
garrafas, mutilação do pénis com queimaduras, choques elétricos, suspensão do
tecto de cabeça para baixo, Sabe qual é o problema? É que estes são pretos.
Eram tratados como sub-homens. Vários deles desapareceram. Estas
violências eram sistemáticas e aconteceram durante todo o período do império
colonial”.
Já Ventura leu as descrições de
torturas que aconteceram já depois do 25 de Abril, incluindo de “carpinteiros,
comerciantes, advogados e reformados, pessoas que discordavam da
extrema-esquerda”, e ironizou: se a ditadura era “tão feroz”, não
poderiam existir apenas “cento e tal presos em Lisboa” (número que se referia
apenas à véspera do 25 de Abril).
“Podemos concordar que tudo o que
é tortura é mau, mas não me venham com a história de que a violência de direita
é má e a de esquerda é boa”, foi repetindo o líder do Chega, enquanto o
historiador defendia que há “comparações que são elas próprias mentira“,
como a que Ventura faz entre 48 anos de ditadura e os dois anos posteriores. “É
tão pontual que é incomparável”, disse, frisando que não nega que tenha havido
violência e tortura já no período da liberdade, mas que a da ditadura foi “sistemática”.
“Sabe o que são 48 anos de tortura sistemática, de humilhação das pessoas
comuns, de violência, de censura? Isso cria uma situação em que a transição
portuguesa, mesmo com esses casos, foi relativamente pacífica. Deixou uma
enorme herança de vingança e ressentimento“.
Inevitavelmente, a
discussão passou por nomes particularmente controversos — Pacheco Pereira
descreveu Marcelino da Mata como um “assassino” que se
“gabava” de matar homens, mulheres e crianças, Ventura respondeu que Otelo
Saraiva de Carvalho é que era “um assassino e um bandido”. Ventura
defendeu que PCP e UDP deviam pagar as “expropriações erradas” do pós-25 de
Abril e que em toda a ditadura não se encontra uma ordem de Salazar ou Marcelo
Caetano para mandar prender alguém — não precisavam, já que
tinham uma polícia política ao dispor, contrapôs o historiador.
Houve ainda tempo, num debate com
mais meia hora do que o anunciado, para falar da descolonização,
que Ventura considerou “criminosa” (“Queriam tanto a independência e hoje estão
a vir para cá viver”) e para Pacheco Pereira concluir que o interlocutor
“justifica a ditadura”. “Com esse tipo de afirmação de extrema-direita, [o
Chega] é um partido fascista“. “Eu nasci em 1983, não quero saber
da ditadura para nada”, respondeu Ventura. “É a história da Humanidade, temos
de estar do lado da nossa pátria”, exclamou, confrontado com o número de
pessoas mortas na guerra colonial.
Com Pacheco Pereira a culpar
Salazar pelos erros na descolonização, Ventura acusou-o de “trair a
sua pátria”. “Devíamos ter tido uma transição democrática, não comunistas a
assaltar o poder. Os senhores, incluo-o a si, estavam tão cheios de chama do
espírito de comunista não olharam a meios. Por isso Portugal está na cauda da
Europa”. “Essa ‘revolução miserável’ deu a liberdade a Portugal e para dizer o
que diz. Quem lutou contra a ditadura lutou por Portugal. Eu amo o
meu país”, respondeu Pacheco Pereira.
A discussão passou ainda pelos
grupos terroristas de extrema-esquerda e extrema-direita após o 25 de Abril,
tendo a ELP “beneficiado” da condescendência “gigantesca” das
autoridades e sido, como as FP-25, “amnistiada com a ideia de
que se ia pacificar a sociedade”. Os últimos, frisou Pacheco Pereira, chegaram
a ser condenados porque “a democracia nessa altura estava a funcionar”.
Ainda houve tempo para uma breve
incursão pelo tema da corrupção, com Ventura a dizer que na
ditadura “havia corrupção como agora há” — “Então porque é que não pôs um
cartaz a dizer 100 anos de corrupção?”, questionou Pacheco Pereira,
referindo-se ao cartaz em que o Chega diz que já lá vão “50 anos de corrupção”
— isto é, referindo-se apenas ao tempo de democracia. Ventura acabou por dizer
que “Sócrates roubou muito mais do que Salazar” e que o “sistema
está podre de corrupção”, acabando por prometer que se tivesse nascido mais
cedo, no tempo da ditadura, lá estaria também a lutar contra o problema.
A troca de acusações final teve a
ver com cristianismo — “eu sou ateu”, disse Pacheco Pereira; “faz mal”,
respondeu Ventura”; “o seu partido é o mais anticristão. Não há uma
declaração dos dois últimos Papas que não seja diretamente contra as posições
do Chega na imigração”, atirou o historiador; “Não me dá lições de cristianismo
porque fazemos (…) luta contra a islamização”, respondeu o líder partidário.
Teriam continuado por ali fora, mas já não havia mais tempo.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Nate Bear - MENTIRAS POR OMISSÃO
Martin Jay - Bond está de volta
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Manuel Augusto Araújo - BOA EDUCAÇÃO, MÁ EDUCAÇÃO
▪️Manuel Augusto Araújo
O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias.
As eleições presidenciais, ultrapassada a primeira volta, com algumas notas que merecem referência, entre os candidatos do consenso neoliberal – como o classificou certeiramente António Filipe, ainda que esse consenso seja variável e tenha vários matizes –, a segunda volta entre um candidato pouco entusiasmante, coleccionador de banalidades atérmicas ditas consensuais e um outro que é um demagogo manipulador sem escrúpulos, provocou um sobressalto entre barões assinalados de vários quadrantes políticos, que porém não demoveu partidos políticos como o PSD, CDS, IL de se entricheirarem numa neutralidade entre os dois candidatos, apesar de um ser manifestamente contra a democracia como está inscrita na Constituição, no que é acolitado pela IL, com o objectivo indisfarçado de a rever para recuperar os três salazares, o estado de sítio do salazarismo-fascista actualizado aos ventos da história.
Como vivemos um tempo dominado pelas máquinas mediáticas difundidas e controladas pelas oligarquias que favorecem as direitas, o seu avanço transnacional conquista cada vez mais espaço e relevância, por todo o mundo e por esta nossa periferia. Nesse ambiente, em linguagem modernaça nesse ecossistema, multiplicam-se os debates entre os candidatos mas o que mais se sobreleva são os comentadores que nas suas inúmeras chalras procuram um vencedor e um perdedor, em que a argumentação política de cada um dos intervenientes, muitas vezes intencionalmente condicionada a favor de um dos contendores pelos moderadores, é atirada para segundo plano, numa simulação de que se está a discutir política quando de facto o que se promove é a despolitização afundada no destaque concedido à capacidade argumentativa mesmo que utilize as mais evidentes mentiras, meias verdades, manipulações factuais, todo o arsenal sobretudo de políticos dispostos a os usarem sem pejo. A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.
A persistência desta situação amplifica-se com uma inusitada surgência de politólogos, cientistas (?) políticos, investigadores (?) de comunicação política e afins que florescem entre as hordas dos encartados, há sempre um a cada esquina. Uma dessas personagens consegue entrever, no último debate entre os dois candidatos frente a frente na segunda volta «que não houve neste debate nenhuma posição que seja insanável em termos de convívio futuro (…) provavelmente, estas duas figuras vão encontrar-se no futuro e trabalhar juntas mas em circunstâncias diferentes – e, muito provavelmente, com Seguro como Presidente da República e talvez ainda com Ventura como primeiro-ministro. De facto, vemos que há essa noção ali implícita». De facto o confronto foi temperado, até por via dos hibernados moderadores, mas apesar da baixa temperatura e do mal-estar da democracia que está a degenerar, que se está a auto-corroer pelos vírus fascistas, pelos autoritarismos que saem debaixo dos tapetes, que entram pelas suas frinchas, o que para esta não sei quê politóloga configura uma normalidade futura, ainda que não seja expectável no imediato que o Chega alcance uma maioria, ou uma maioria numa qualquer espúria coligação, que coloque André Ventura em primeiro-ministro.
A banalização dos tiques fascizantes do Chega, também até mais da IL, essa pela via das etiquetas de boas maneiras e tiques corporativos, transparece como uma evidência nos copiosos grupos de falantes com acento fixo ou variável nos meios de comunicação social, em que uma boa parte são professores(as) universitários(as) com vários doutoramentos e pós-graduações, como actualmente é costumeiro e vezeiro nas misérias académicas, sobretudo nas áreas das ciências humanas, que proliferam nas universidades por todo o mundo e arredores onde nos situamos, em que é dominante a esterilidade do pensamento político reduzido a uma quase paródia, como tem sido exposto pelo que subsiste de pensadores sólidos da elite democrática e progressista como Georges Steiner, Noam Chomsky, Russell Jacoby, Edward Bernays, Domenico Losurdo, Edward W. Said, Sheldon S. Wolin, Zachary Karabell, Chris Hedge, Julien Benda ou István Mészaros.1
«A generalidade dos comentadores classifica as performances, não a validade dos argumentários, pelo que não espanta que em relação a André Ventura até se tenha ouvido elogiar a sua eficácia em fixar o seu eleitorado, mesmo angariar alguns nos terrenos da direita, ainda que tenha repetido sem um segundo de intervalo a mesma cassete bem ornada de falsificações, como é seu timbre.»
Outra das reacções a uma segunda volta das presidenciais entre António José Seguro e André Ventura, foi a da rejeição do segundo, com até declarado apoio ao primeiro, por muitos independentes mas também, como já se referiu, por muitos dos barões assinalados dos partidos que declararam neutralidade. Houve quem embandeirasse em arco e muito fogo de artifício, afirmando mesmo um habitual escriba de um jornal dito de referência, queira o que queira isso dizer ou não, que também é presença assídua nos ecrãs televisivos onde tartamudeia lugares comuns como se fossem detalhadas cerebralizações, proclamando que chegamos ao tempo em que a direita deixou de ser «fascista», acrescentando quase orgasticamente que «a direita democrática, ou a área "não-socialista", dá uma bofetada com luva branca à esquerda panfletária que a continua a olhar como "fascista". Quando, e se, a qualidade da democracia voltar a estar em causa, sabemos que há portugueses de bem a dar a cara para os defender». É a leitura mais mediocremente simplista em que subjaz uma básica conjectura direitolas.
O que será a «esquerda panfletária»? Não devemos errar muito, pelo andar da carruagem da figura, que, sem muita coragem para o nomear, se esteja a referir ao PCP, o qual chama fascista ao que é fascista, reaccionário ao que é reaccionário, direita ao que é direita, extrema-direita ao que é extrema-direita, não se deixa enrodilhar no linguajar pós-moderno dos populismos, das democracias iliberais, mas sempre soube e assim o demonstrou ao longo da sua longa história de luta pela democracia e pelas amplas liberdades, distinguir mesmo entre os reaccionários e os de direita não os metendo indistintamente no mesmo saco. O que ele não entende – é o problema da escassez das tão celebradas por Poirot celulazinhas cinzentas –, porque atesta de forma parvóide a morte do fascismo. Escasseia-lhe entendimento para perceber os avisos de Umberto Eco que explicava que o fascismo não é um sistema fechado, é um fenómeno psicológico e cultural — o «Ur-Fascismo» – que pode ressurgir sob novas roupagens, mesmo em tempos de democracia, e que quando voltar fascismo não dirá «eu sou o fascismo», dirá «eu sou a liberdade». Tal como não ouviu um personagem do filme de João César Monteiro, Le Bassin de John Wayne, 1997, com uma frase premonitória, de uma implacável lucidez: «hoje, os novos fascistas apresentam-se como democratas».
Os neo-fascistas dispensam os desfiles militarizados dos camisas negras, castanhas, azuis, verdes, mesmo quando exibem motoserras não tiram as gravatas, dispensam o arregaçar as mangas, mantêm intactos os seus sinistros objectivos, a tipologia dos seus financiadores destacados capitalistas, muitos deles com negócios obscuros, alguns sob a alçada da justiça, apesar de bem se saber que o direito é sempre o direito dos mais fortes à liberdade. Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.
A difusão do neofascismo, mais puro e duro ou mais difuso, está a marcar o nosso tempo e com ele a alargar a imparável mancha de óleo do filisteísmo, do farisaísmo, das banalidades estereotipadas e quotidianas, das falsas notícias instituídas como norma, a mais completa submissão aos poderes que se dizem querer subverter, com o truque de se apresentarem como anti-sistema, quando são os mais radicais defensores do sistema para que este se torne ainda mais presente e activo em atendimento das especulações do grande capital. Sistema mais ou menos brutal conforme as circunstâncias. Decretar a morte do fascismo é cegar-se voluntariamente, na realidade é pago para isso, perante a desmesurada presença do gauleiter do Chega na comunicação social escrita, televisiva, radiofónica, para sustentar a sua tese de que «o que está em jogo, nisso têm razão os apologistas de Ventura, não é uma ameaça do fascismo (...) Nada em André Ventura ou no Chega se conjuga para impor um programa totalitário com milícias de camisa negra ou castanha a marchar no compasso das coreografia marciais. No que não têm razão é negarem que André Ventura e o seu programa são apenas uma manifestação normal da democracia». Aqui entronca uma questão de fundo que é perante o risco de Ventura se eleger Presidente da República concluir que «a direita democrática esteve à altura das suas responsabilidades num momento crítico da democracia.» Mais uma simplificação, em boa verdade não se lhe pode exigir mais. O momento é crítico para a democracia tal como António Guerreiro, numa das suas crónicas no Ypsilon, sublinhou: « o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).
A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário». Quando por cá se permite a construção de um partido que é declaradamente contra a Constituição, que reiteradamente não cumpre decisões do Tribunal Constitucional, há que questionar este súbito despertar democrático.
«Na praça pública, em que a comunicação social cada vez mais nas mãos das oligarquias lhes concede excessivo tempo de antena, continuam seguidores das principais palavras de ordem dos fascismos históricos, reactivadas, assimiladas e actualizadas pelas exigências e modas contemporâneas, com variantes em conformidade com a sua inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia ser ou não associada ao ódio aos ciganos.»
Coloque-se uma hipótese: se em vez de André Ventura o adversário de António José Seguro fosse Cotrim Figueiredo, o repúdio desses barões assinalados seria o mesmo? No entanto tanto Ventura como Cotrim pugnam por uma profunda revisão constitucional, chegaram mesmo a propor um pacto com esse objectivo, que aplainasse a democracia tal como está instituída, preconizando formas mais autoritárias. Ambos são favoráveis à privatização do que ainda resta por privatizar e nisso Cotrim até é mais vocal. Os direitos sociais, económicos e políticos são para Ventura esmurrar e Cotrim motoserrar. Cotrim poderia eventualmente ter contra ele um alegado e não provado caso de assédio sexual, que no Portugal coutada do macho ibérico, como um ilustre juiz despachou num julgamento de violação de duas jovens estrangeiras que estavam a pedi-las, qualquer mulher só por ser mulher está sempre a pedi-las, não lhe deveria desgastar substancialmente os apoios. Se fosse Cotrim em vez de Ventura haveria algum similar sobressalto democrático? Cotrim que, não passando à segunda volta, também não se demarcou de extrema-direita, preferindo avisar sobre os riscos de se ter um presumível perigoso socialista em Belém.
O alvoroço, o que os transtorna, é a eventualidade de verem sentado no Palácio de Belém um demagogo manipulador sem escrúpulos e sem os tiques de falsa erudição de Cotrim para mascarar as suas demagogias. O que os perturba e assusta é a eventualidade de, num jantar num qualquer Palácio da Ajuda, abancar um Presidente da República que se desbrague em discursos carregados de impropérios, que confunda os talheres de carne com os de peixe, não distinga copos de vinho tinto dos de vinho branco, que no limite até limpe os beiços com a gravata. Por detrás do pano de fundo deste vasto bater de tambores, da direita à esquerda, com declarados apoios a Seguro, os partidos políticos em que se inscrevem o façam entricheirando-se numa neutralidade oportunista, não vá o diabo tecê-las e muitas dessas tessituras até se encontram.
Uma última e muito reveladora observação é o silêncio desses partidos e personalidades sobre a Operação Irmandade da PJ que investigou o grupo neo-nazi 1143, a qual não lhes provocou grande indignação pública, tal como nem timidamente invectivaram o candidato presidencial Ventura que acaba por considerar essa bandidagem seus eleitores, apoiantes, mesmo companheiros de estrada, como foi evidente na sua última entrevista na RTP. O que se poderá concluir? É que o muito festejado e celebrado consenso entre direitas e esquerdas em torno da escolha que está em causa está muito mais ancorado entre a má educação de um candidato e a boa educação do outro do que na defesa da democracia tal como a vivemos, com todos os défices acumulados em anos de governos PS, PSD, CDS. Um candidato à direita, com os mesmos princípios e objectivos, mas mais palatável que Ventura, não produziria esta sucessão de declarações, o que de algum modo implode a pulsão democrática que tanto excita essa turbamulta de comentadores e jornalistas. Há que enfatizar que, depois de anos e anos a perorar sobre o desaparecimento de direitas e esquerdas, agora lembram-se que essa diferenciação sempre existe e está para durar, a que se adicionam todos os outros que, quando declaram não ser de direita nem esquerda, são obviamente de direita.
Merece ainda destaque as intranquilidades dos intelectuais orgânicos na hipótese de André Ventura ter o apoio de um em cada quatro portugueses depois de se ter comemorado os 50 anos do 25 de Abril, interrogando-se mesmo onde é que se terá falhado! Não sabem? Há muito para lembrar-lhes, sem colocar qualquer dúvida sobre o seu empenho democrático, principalmente porque nestes 50 anos ocuparam lugares importantes nas instituições democráticas e foram dos que mais presença assídua tiveram nos meios de comunicação social. É bom auxiliarmos a sua memória.
▪️1.Refiram-se, entre outros, Russell Jacoby, The Last Intellectuals: American Culture in the Age of Academe, Basic Books, 1987; Edward Bernays, Propaganda, Comment Manipuler l'Opinion en Democratie, La Découverte, 2007; Zachary Karabell, What's College For? The Strugle to Define the American Higher Education, Basic Books, 1998; Edward W. Said, Des Intellectuels et du Pouvoir, Seuil, 1996; Noam Chomsky, Mudar o Mundo, Bertrand, 2014; Domenico Losurdo, Critique de l’apolitisme. La leçon de Hegel d’hier à nos jours, Delga 2014; Frank Furedi, Where are the Intellectuals Gone? Cofronting 21th century Philistinism, Continuum, 2004; Sheldon S. Wolin, Democracy Incorporated: Managed Democracy and the Specter of Inverted Totalitarianism, Princeton University Press, 2008; István Mészáros, A teoria da alienação em Marx, Boitempo, 2016, Chis Hedges, La Mort de l'Élite Progressiste, Lux Futur Proche, 2012.
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«Golconda», de Rene Magritte, 1953Créditos/ The Menil Collection, Houston
03 de Fevereiro de 2026
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