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domingo, 28 de outubro de 2018

Ferreira Gullar - Não há Vagas

* Ferreira Gullar


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

— porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Ferreira Gullar - Agosto 1964

* Ferreira Gullar


Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.
Volto do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

Digo adeus à ilusão
mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do horror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato
um poema
uma bandeira

domingo, 21 de outubro de 2018

Ferreira Gullar - Poema Sujo

* Ferreira Gullar

 Poema sujo
turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia


Trecho de Poema Sujo
https://www.revistabula.com/12068-os-10-melhores-poemas-de-ferreira-gullar/

domingo, 29 de janeiro de 2017

Quatro poemas de gatos de Ferreira Gullar

*  Ferreira Gullar


Gato pensa?


Dizem que gato não pensa

mas é difícil de crer.

Já que ele também não fala

como é que se vai saber?



A verdade é que o Gatinho

quando mija na almofada

vai depressa se esconder:

sabe que fez coisa errada.



E se a comida está quente,

ele, antes de comer,

muito calculadamente

toca com a pata pra ver.



Só quando a temperatura

da comida está normal

vem ele e come afinal.



E você pode explicar

como é que ele sabia

que ela ia esfriar?





O ron-ron do Gatinho



O gato é uma maquininha

que a natureza inventou;

tem pêlo, bigode, unhas

e dentro tem um motor.



Mas um motor diferente

desses que tem nos bonecos

porque o motor do gato

não é um motor elétrico.



É um motor afetivo

que bate em seu coração

por isso ele faz ron-ron

para mostrar gratidão.

(...)




Na cara



Gatinho, pra me acordar,

Não fica miando a esmo:

Mia bem na minha cara

Para ver se eu acordo mesmo.





Dono do pedaço



Para qualquer outro gato,

Gatinho não dá espaço.

Em nossa casa ele impera

– é o dono do pedaço.



Certa vez uma vizinha

– que era de fato uma tia –

pediu pra deixar seu gato

connosco só por um dia.



Mal o gato entrou na casa,

Gatinho se enfureceu,

pulou em cima do intruso

que, assustado, correu.



Gatinho saiu-lhe atrás

aos tabefes e às unhadas,

correram os dois pela casa

na mais louca disparada.



No quarto, em volta da cama,

por baixo e por cima dela,

rodaram como foguetes,

sumiram pela janela.



Só depois de muito esforço,

pude conter o Gatinho,

enquanto o outro fugia

pro apartamento vizinho.



Assim acabou-se a guerra

que me serviu de lição:

proíbo a entrada de gatos;

só gatas têm permissão.


http://oloboleitor.blogspot.pt/2012/06/quatro-poemas-de-gatos-de-ferreira.html

Poesia em torno dos gatos

 *   Pablo Neruda - Ode ao gato

Os animais foram
imperfeitos,
compridos  de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogara as moedas da noite

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na imterpérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundissimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insignia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
díscipulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalcullável,
a botânica,
o gineceu com os seus extrávios,
o pôr e o mesnos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos tem números de ouro.

(Navegaciones y Regresos, 1959)


* Mário Quintana - Onírica

Os gatos moles de sono 
rolam laranjas de lã.


* António Gedeão - Poema do Gato

Quem há-de abrir a porta ao gato 
quando eu morrer?
Sempre que pode 
foge prá rua, 
cheira o passeio 
e volta pra trás, mas ao defrontar-se com a porta fechada 
(pobre do gato!) 
mia com raiva desesperada.
Deixo-o sofrer 
que o sofrimento tem sua paga, 
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim 
como acorre a mulher aos braços do amante. 
Pego-lhe ao colo e acaricio-o 
num gesto lento, 
vagarosamente, 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos, 
olhos semi-cerrados, em êxtase, 
ronronando.
Repito a festa, 
vagarosamente. 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele aperta as maxilas, 
cerra os olhos, 
abre as narinas. 
e rosna. 
Rosna, deliquescente, 
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse


quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


* Bocage - Os dois gatos


Dois bichanos se encontraram 
Sobre uma trapeira um dia: 
(Creio que não foi no tempo 
Da amorosa gritaria).
De um deles todo o conchego 
Era dormir no borralho; 
O outro em leito de senhora 
Tinha mimoso agasalho.

Ao primeiro o dono humilde 
Espinhas apenas dava; 
Com esquisitos manjares 
O segundo se engordava.

Miou, e lambeu-o aquele 
Por o ver da sua casta; 
Eis que o brutinho orgulhoso 
De si com desdém o afasta.

Aguda unha vibrando 
Lhe diz: ''Gato vil e pobre, 
Tens semelhante ousadia 
Comigo, opulento, e nobre?

Cuidas que sou como tu? 
Asneirão, quanto te enganas! 
Entendes que me sustento 
De espinhas, ou barbatanas?

Logro tudo o que desejo, 
Dão-me de comer na mão; 
Tu lazeras, e dormimos 
Eu na cama, e tu no chão.

Poderás dizer-me a isto 
Que nunca te conheci; 
Mas para ver que não minto 
Basta-me olhar para ti.''

''Ui! (responde-lhe o gatorro, 
Mostrando um ar de estranheza) 
És mais que eu? Que distinção 
Pôs em nós a Natureza?

Tens mais valor? Eis aqui 
A ocasião de o provar.'' 
''Nada (acode o cavalheiro) 
Eu não costumo brigar.''

''Então (torna-lhe enfadado 
O nosso vilão ruim) 
Se tu não és mais valente, 
Em que és sup'rior a mim?

Tu não mias?'' - ''Mio.'' - ''E sentes 
Gosto em pilhar algum rato?'' 
''Sim.'' - Eo comes?'' - ''Oh! Se como!...'' 
''Logo não passa de um gato.

Abate, pois, esse orgulho, 
Intratável criatura: 
Não tens mais nobreza que eu; 
O que tens é mais ventura.''

                                                     

in BOCAGE Poemas, Editora Nova Fronteira S/A, 1987 
Envio: Sérgio Gerônimo



* Millôr Fernandes

Gato ao crepúsculo
Poeminha de louvor ao pior inimigo do cão

Gato manso, branco, 
Vadia pela casa, 
Sensual, silencioso, sem função.

Gato raro, amarelado, 
Feroz se o irritam, 
Suficiente na caça à alimentação.

Gato preto, pressago, 
Surgindo inesperado 
Das esquinas da superstição.

Cai o sol sobre o mar.

E nas sombras de mais uma noite, 
Enquanto no céu os aviões 
Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde, 
Terminam as diferenças raciais.

Da janela da tarde olho os banhistas tardos 
Enquanto, junto ao muro do quintal, 
Os gatos todos vão ficando pardos.


*   Ferreira Gullar - O ronron do gatinho

O gato é uma maquininha 
que a natureza inventou; 
tem pêlo, bigode, unhas 
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente 
desses que tem nos bonecos 
porque o motor do gato 
não é um motor elétrico. 

É um motor afetivo 
que bate em seu coração 
por isso faz ronron 
para mostrar gratidão.

No passado se dizia 
que esse ronron tão doce 
era causa de alergia 
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito, 
calúnias contra o bichinho: 
esse ronron em seu peito 
não é doença - é carinho.

     
* Charles Baudelaire - O Gato (Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux)


   Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço; 
   Guarda essas garras devagar, 
   E nos teus belos olhos de ágata e aço 
   Deixa-me aos poucos mergulhar.
   Quando meus dedos cobrem de carícias 
   Tua cabeça e o dócil torso, 
   E minha mão se embriaga nas delícias 
   De afagar-te o elétrico dorso,

   Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo 
   Como o teu, amável felino, 
   Qual dardo dilacera e fere fundo,

   E, dos pés a cabeca, um fino 
   Ar sutil, um perfume que envenena 
   Envolvem-lhe a carne morena. 
  


Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux; 
Retiens les griffes de ta patte, 
Et laisse-moi plonger dans tes beaux yeux, 
Mêlés de métal et d'agate.
Lorsque mes doigts caressent à loisir 
Ta tête et ton dos élastique, 
Et que ma main s'enivre du plaisir 
De palper ton corps électrique,

Je vois ma femme en esprit. Son regard, 
Comme le tien, aimable bête, 
Profond et froid, coupe et fend comme un dard,

Et des pieds jusques à la tête, 
Un air subtil, un dangereux parfum, 
Nagent autour de ton corps brun.



* Charles Baudelaire - Le Chat (Dans ma cervelle se promène) 


Dans ma cervelle se promène, 
Ainsi qu'en son appartement, 
Un beau chat, fort, doux et charmant. 
Quand il miaule on l'entend à peine,

Tant son timbre est tendre et discret; 
Mais que sa voix s'apaise ou gronde, 
Elle est toujours riche et profonde. 
C'est là son charme et son secret.

Cette voix, qui perle et qui filtre, 
Dans mon fonds le plus ténébreux, 
Me remplit comme un vers nombreux 
Et me réjouis comme un philtre.

Elle endort les plus cruels maux 
Et contient toutes les extases; 
Pour dire les plus longues phrases, 
Elle n'a pas besoin de mots;

Non, il n'est pas d'archet qui morde 
Sur mon coeur, parfait instrument, 
Et fasse plus royalement 
Chanter sa plus vibrante corde,

Que ta voix, chat mystérieux, 
Chat séraphique, chat étrange, 
En qui tout est, comme en un ange, 
Aussi subtil qu'harmonieux!

- De sa fourrure blonde et brune 
Sort un parfum si doux, qu'un soir 
J'en fus embaumé, pour l'avoir 
Caressée une fois, rien qu'une.

C'est l'esprit familier du lieu; 
Il juge, il préside, il inspire 
Toutes choses dans son empire; 
Peut-être est-il fée est-il dieu?

Quand mes yeux, vers ce chat que j'aime 
Tirés comme par un aimant, 
Se retournent docilement 
Et que je regarde en moi-même,

Je vois avec étonnement 
Le feu de ses prunelles pâles, 
Clairs fanaux, vivantes opales, 
Qui me contemplent fixement.

                                                                  *                

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar - João Boa Morte Cabra Marcado para Morrer

* Ferreira Gullar

Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho, 
só mata cabra da peste, 
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.
Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.
João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa, 
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais, 
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."
Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram, 
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer, 
vai tomar chá de sumiço".

http://www.casadobruxo.com.br/poesia/f/joao.htm

Ferreira Gullar . Dois e dois: quatro

* Victor Nogueira


Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

Ferreira Gullar - Subversiva

* Ferreira Gullar


A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
E promete incendiar o país

Ferreira Gullar - Cantada

* Ferreira Gullar

Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana 

Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar - Poema Sujo

* Ferreira Gullar

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos

menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia


http://noticias.universia.com.br/destaque/especial/2014/09/22/1111855/10/conheca-leia-10-melhores-poemas-ultimos-200-anos/melhores-poemas-poema-sujo-ferreira-gullar.html

sábado, 7 de novembro de 2015

Urariano Mota: Dom Quixote, o aniversário do maior clássico

6 de novembro de 2015 - 12h25 


O mundo culto celebra neste 2015 os 400 anos da publicação da segunda parte do Dom Quixote. A primeira edição foi publicada em 1605, a segunda em 1615. Na wikipédia o resumo das simplificações na internet se escreve:


Arquivo
 




O Dom Quixote é considerado a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas européias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola.” 

É muita modéstia para um dos maiores gênios que já houve. Ele é o expoente de toda literatura moderna. 

Como lembra a jornalista Sylvia Colombo:

“Esta segunda parte, que se celebra agora, traz a particularidade de levantar questões em torno do conceito de ‘autor’ e ‘personagem’, assim como sobre o significado a autoria naqueles tempos em que releituras e apropriações eram tão comuns. É preciso lembrar que Cervantes não tinha intenção de escrever esse segundo volume do Quixote até que o sucesso do primeiro provocasse uma enxurrada de obras apócrifas protagonizadas por seu herói. Quando veio à tona a de um Alonso Fernández de Avellaneda, publicada em 1614, fazendo imenso sucesso, Cervantes se incomodou e contra-atacou com a sua versão da continuação das aventuras do cavaleiro. Nela, denunciava de maneira irônica a versão apócrifa dentro da própria narrativa. A Espanha que surge nessa segunda parte também já é uma Espanha diferente, menos rural e migrando para as cidades.”

E aqui eu cito o maior criador da literatura que já houve, quando faz o seu personagem criticar a falsificação do Dom Quixote

“... seu dia de São Martinho há de chegar, como o chega a todo porco, pois as histórias inventadas tanto têm de boas e deleitosas quanto mais se aproximam da verdade ou de sua semelhança; e as verídicas, quanto mais verdadeiras, melhores são.” Que belo pensamento e lição literária, que alcança todas as falsificações literárias até hoje, em escritores vazios de experiência mas cheios da pretensão de possuírem uma fantasia imensa. As histórias inventadas são boas quanto mais próximas forem da verdade. 

Mas espero que por favor se evitem, no grande aniversário da segunda parte do Dom Quixote, as linhas de Cervantes recontadas, um crime não faz muito cometido por Ferreira Gullar. Como declarou Gullar ao Estadão: “Os diálogos longos e as descrições foram enxugadas”. Isso lembra mais um copidesque na velha redação do jornal. Brincadeira. A pretexto de um didatismo que pressupõe incapacidades, penso que não se deve adaptar um clássico para versões em quadrinhos ou a leituras mais simplificadas. Será o mesmo que furtar uma riqueza, na vã presunção de que um adolescente não entenda a imensa diversão que é ler Cervantes. E teremos um crime de falsificação, enfim. Todo jovem que ler essa adaptação pensará que conhece o Dom Quixote. 

No original de Cervantes, por exemplo, está escrito: 

“y más cuando llegaba a leer aquellos requiebros y cartas de desafíos, 
donde en muchas partes hablaba escrito: La razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi razón enflaquece, con que con razón me quejo de la vuestra fermosura. Y también cuando leía: los altos cielos que de vuestra divindad divinamente con las estrellas os fortifican y os hacen merecedora del merecimiento que merece la vuestra grandeza. Con estas razones perdía el pobre caballero el juicio. .”

Mas em Ferreira Gullar para o mesmo trecho:

“Encantado com a clareza da prosa e os volteios do estilo, o pobre cavaleiro foi perdendo o juízo”. 

Viram? Perderam-se a graça e a ironia magnífica de Cervantes. 

E aqui lembro o que observei uma vez sobre as adaptações de Machado de Assis para jovens: 

“Adaptar um clássico é o mesmo que esconder dos jovens o melhor do escritor, porque não se acredita que um adolescente seja tão inteligente quanto o indivíduo que adapta. Imaginem, é exatamente o contrário. Note-se que o problema não é só de forma, de linguagem, dos dribles, firulas e recursos de linguagem, é da visão de mundo enformada nessa prosa, inseparável.”

Quem assim age é semelhante ao personagem da anedota em que Einstein foi solicitado por um repórter, que insistente pedia A Teoria da Relatividade mais palatável. O paciente cientista se pôs então a explicar a sua teoria em palavras mais simples, recorrendo a imagens do cotidiano. E perguntava:

– Entendeu?

E o repórter respondia:

– Doutor Einstein, eu, sim. Mas os leitores… não haverá um modo mais simples na Relatividade? 

E o cientista voltava com novos recursos de imagens, para perguntar depois de bom tempo:

– Entendeu?

E o repórter, finalmente satisfeito:

– Sim, agora, sim.

E o grande Einstein desalentado:

– É, mas já agora não é a Teoria da Relatividade. 

Ou seja, o Dom Quixote recontado pode ser tudo, mas já não será o Dom Quixote. Espero que a celebração entre nós se dê pelo original, que é impagável.