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terça-feira, 8 de abril de 2025

Cecília Meireles - Ou isto ou aquilo

* Cecília Meireles

Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo… e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo.

(Cecília Meireles, 1990)

in «Ou isto ou aquilo: escolhas, conflitos e saídas criativas»  https://blog.ijep.com.br/ou-isto-ou-aquilo-escolhas-conflitos-e-saidas-criativas/

sábado, 25 de novembro de 2017

Cecília Meireles - De que são feitos os dias?

Cecília Meireles


De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.
Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças.

Cecília Meireles, in 'Canções'

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Cecília Meireles - Dia de chuva

* Cecília Meireles


As espumas desmanchadas
sobem-me pela janela,
correndo em jogos selvagens
de corça e estrela.
Pastam nuvens no ar cinzento:
bois aéreos, calmos, tristes,
que lavram esquecimento.
Velhos telhados limosos
cobrem palavras, armários,
enfermidades, heroísmos...
Quem passa é como um funâmbulo,
equilibrado na lama,
metendo os pés por abismos...
Dia tão sem claridade!
só se conhece que existes
pelo pulso dos relógios...
Se um morto agora chegasse
àquela porta, e batesse,
com um guarda-chuva escorrendo,
e, com limo pela face,
ali ficasse batendo
— ali ficasse batendo
àquela porta esquecida
sua mão de eternidade...
Tão frenético anda o mar
que não se ouviria o morto
bater à porta e chamar...
E o pobre ali ficaria
como debaixo da terra,
exposto à surdez do dia.
Pastam nuvens no ar cinzento.
Bois aéreos que trabalham
no arado do esquecimento.


(in Cecília Meireles, Antologia Poética, Relógio d'Água)

domingo, 12 de novembro de 2017

Cecília Meireles -A bailarina

* Cecília Meireles

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.
Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá
Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.
Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.
Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.
Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Cecília Meireles - No mistério do sem-fim

* Cecília Meireles

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

outono na poesia e nas canções


foto Victor Nogueira - Cela (Coutos de Alcobaça) 
 pôr-do-sol na herdade que foi do General Humberto Delgado

Outono, dos contrastes: dias cálidos ou frígidos, soalheiros ou pluvientos, risonhos ou cinzentonhos, dos poentes tingidos de vermelho ou laranja e as árvores, despindo-se em tons de amarelo, atapetando ruas e jardins de melancólicas folhas secas, esquálidos e despidos ramos erguendo-se por aqui e por ali, com a noite crescendo à custa da diurna claridade minguando.

 Deixo-vos uma selecção do "outono na poesia e nas canções" 

Os poetas ...

Olavo Bilac - Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas 
Ricardo Reis - Quando, Lídia, Vier o Nosso Outono
Eugénio de Andrade - Outono
David Mourão-Ferreira - Outono
Fernando Pessoa - Uma névoa de Outono o ar raro vela
Miguel Torga - Outono
Mário Quintana - Outono
Cecília Meireles - Canção de Outono
José Afonso - Balada de Outono

... e as vozes
Eric Clapton
Yves Montand
Leo Ferré
Juliette Greco
Chet Baker e Paul Desmond 
Natalie Cole
José Afonso



* Olavo Bilac


Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas 
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto. 
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas 
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto... 

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas, 

Visitaste este mar inabitado e morto, 
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas, 
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto? 

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos 

A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos... 
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol! 

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste, 

E contemplo o lugar por onde te sumiste, 
Banhado no clarão nascente do arrebol... 

Olavo Bilac, in "Poesias" 

* Ricardo Reis

Quando, Lídia, vier o nosso outono 
Com o inverno que há nele, reservemos 
Um pensamento, não para a futura 
Primavera, que é de outrem, 
Nem para o estio, de quem somos mortos, 
Senão para o que fica do que passa 
O amarelo atual que as folhas vivem 
E as torna diferentes. 

Ricardo Reis, in "Odes" 


Heterónimo de Fernando Pessoa 

* Eugénio de Andrade

Outono

O outono vem vindo, chegam melancolias, 
cavam fundo no corpo, 
instalam-se nas fendas; às vezes 
por aí ficam com a chuva 
apodrecendo; 
ou então deixam marcas; as putas, 
difíceis de apagar, de tão negras, 
duras. 

Eugénio de Andrade, in 'O Outro Nome da Terra"

* David Mourão-Ferreira

Outono

Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono…Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará…)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo…

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto…

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo…?

                         Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

in Obra Poética

* Fernando Pessoa

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta               [...]

5-11-1932
Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).  - 104.


*  Miguel Torga

​​Outono

Tarde pintada 
Por não sei que pintor. 
Nunca vi tanta cor 
Tão colorida! 
Se é de morte ou de vida, 
Não é comigo. 
Eu, simplesmente, digo 
Que há fantasia 
Neste dia, 
Que o mundo me parece 
Vestido por ciganas adivinhas, 
E que gosto de o ver, e me apetece 
Ter folhas, como as vinhas. 

in Diário X, s/editora, 1966, Coimbra

* Mário Quintana

Outono

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!


(Poema publicado originalmente no livro Canções, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 131) – contribuição de Sonia Regina Villarinho


* Cecília Meireles

Canção de Outono

Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles 
que não se levantarão...

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

in Poesia completa: Volume 2. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001

* José Afonso 

Balada de Outono

Águas passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar











terça-feira, 31 de maio de 2016

Cecília Meireles - Rimance

* Cecília Meireles


Onde é que dói na minha vida, 
para que eu me sinta tão mal? 
quem foi que me deixou ferida 
de ferimento tão mortal? 

Eu parei diante da paisagem: 
e levava uma flor na mão. 
Eu parei diante da paisagem 
procurando um nome de imagem 
para dar à minha canção. 

Nunca existiu sonho tão puro 
como o da minha timidez. 
Nunca existiu sonho tão puro, 
nem também destino tão duro 
como o que para mim se fez. 

Estou caída num vale aberto, 
entre serras que não têm fim. 
Estou caída num vale aberto: 
nunca ninguém passará perto, 
nem terá notícias de mim. 

Eu sinto que não tarda a morte, 
e só há por mim esta flor; 
eu sinto que não tarda a morte 
e não sei como é que suporte 
tanta solidão sem pavor. 

E sofro mais ouvindo um rio 
que ao longe canta pelo chão, 
que deve ser límpido e frio, 
mas sem dó nem recordação, 
como a voz cujo murmúrio 
morrerá com o meu coração... 

Cecília Meireles, in 'Viagem' 

http://www.citador.pt/poemas/rimance-cecilia-meireles

terça-feira, 22 de setembro de 2015

o outono na poesia

•     Olavo Bilac - Em Uma Tarde de Outono
•     Eugénio de Andrade - Outono
  • David Mourão-Ferreira Seria Outono aquele dia…
  • Mário Quintana - Canção de Outono
  • Cecília Meireles - Canção de Outono
  • Fernando Pessoa - Uma névoa de Outono o ar raro vela,
  • Alice Gomes -  Chegou o outono –
  • Miguel Torga – Outono
  • Ricardo Reis - Quando, Lídia, vier o nosso Outono
  • Paul Verlaine  -  chanson d'automne
  • Florbela Espanca - Outonal

·         Olavo Bilac
Em Uma Tarde de Outono

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas 
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto. 
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas 
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto... 

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas, 
Visitaste este mar inabitado e morto, 
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas, 
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto? 

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos 
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos... 
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol! 

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste, 
E contemplo o lugar por onde te sumiste, 
Banhado no clarão nascente do arrebol... 

Olavo Bilac, in "Poesias" 

·         Eugénio de Andrade
Outono

O outono vem vindo, chegam melancolias,
cavam fundo no corpo,
instalam-se nas fendas; às vezes
por aí ficam com a chuva
apodrecendo;
ou então deixam marcas; as putas,
difíceis de apagar, de tão negras,
duras.

Eugénio de Andrade, in 'O Outro Nome da Terra' 

·         David Mourão-Ferreira
Seria Outono aquele dia…

"Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono... Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará...)
E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo...
Mas o teu seio é que não quis:
tremeu demais sob o meu rosto...
Seria Outono aquele dia,
nesse jardim doce e tranquilo...?
Seria Outono...
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo."

David Mourão Ferreira 

·         Mário Quintana
Canção de Outono

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…
Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…
Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!


* Cecília Meireles
Canção de Outono

Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles 
que não se levantarão...

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão.
.
  
Cecília Meireles MEIRELES, C. Poesia completa: Volume 2. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.


·         Fernando Pessoa 
Uma névoa de Outono o ar raro vela,

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta               [...]



·         ALICE GOMES
CHEGOU O OUTONO –

Chega o outono!
As andorinhas
despedem-se das outras avesinhas
e vão pelos ares fora
vão-se embora
embora?
Não!
Que voltam, voltarão...
Quando a bela estação
da Primavera
que antecede ao Verão
oferecer melhor vida.
Não têm agasalhos nem comida,
vão para terras quentes
à procura do sol que as consola
Mas nós, crianças,
nós,
todos contentes
partimos para a escola.

ALICE GOMES


* Miguel Torga
Outono

Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor...
... Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.


  
* Ricardo Reis 
Quando, Lídia, vier o nosso Outono


Quando, Lídia, vier o nosso Outono
Com o Inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
Primavera, que é de outrem,
Nem para o Estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa
O amarelo actual que as folhas vivem
E as torna diferentes.

Odes

Paul Verlaine
CHANSON D'AUTOMNE

Les sanglots longs
Des violons
     De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
     Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
     Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
     Et je pleure.
Et je m'en vais
Au vent mauvais
     Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la

     Feuille morte.



Florbela Espanca
Outonal

Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago…

Veludos a ondear… Mistério mago…
Encantamento… A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago…

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor…


(Florbela Espanca, «Charneca em Flor», in «Poesia Completa»)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Cecília Meireles - De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias, 
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças.

Cecília Meireles, in 'Canções'
 — com Flora Machado.
1

Cecília Meireles - Mapa de anatonia: o Olho

Mapa de anatonia: o Olho

O Olho é uma espécio de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globobrilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaços,
miniaturas marinhas, areias, rochas,
naufrágios e peixes de ouro.

Mas por dentro há outras pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do mundo,
outras são invetadas.

O Olho é um teatro por dentro.
E às vezes, sejam atores, sejam cenas,
e às vezes, sejam imagens, sejam ausências,
formam, no Olho, lágrimas.



Cecília Meirelles/WinKy


domingo, 24 de novembro de 2013

o domingo na poesia segundo vários escritores - 18 - os bobos e truões - 03


24 de Novembro de 2013 às 22:43
* Cecília Meireles - Dia de Chuva
* Charles Baudelaire - A Tampa
* Charles Baudelaire - A Morte dos Artistas
* Paulo Henriques Britto - O funâmbulo
* Jean Genet - E a tua ferida, onde está?
* Kahlil Gibran - O Louco

~~~~~~~~~~

* Cecília Meireles

Dia de Chuva

As espumas desmanchadas
sobem-me pela janela,
correndo em jogos selvagens
de corça e estrela.

Pastam nuvens no ar cinzento:
bois aéreos, calmos, tristes,
que lavram esquecimento.

Velhos telhados limosos
cobrem palavras, armários,
enfermidades, heroísmos...

Quem passa é como um funâmbulo,
equilibrado na lama,
metendo os pés por abismos...

Dia tão sem claridade!
só se conhece que existes
pelo pulso dos relógios...

Se um morto agora chegasse
àquela porta, e batesse,
com um guarda-chuva escorrendo,
e, com limo pela face,
ali ficasse batendo
— ali ficasse batendo
àquela porta esquecida
sua mão de eternidade...

Tão frenético anda o mar
que não se ouviria o morto
bater à porta e chamar...

E o pobre ali ficaria
como debaixo da terra,
exposto à surdez do dia.

Pastam nuvens no ar cinzento.
Bois aéreos que trabalham
no arado do esquecimento.

(in Cecília Meireles, Antologia Poética, Relógio d'Água)
~~~~~~~~~~


* Charles Baudelaire


A Tampa (Le Couvercle )

Onde quer que ele vá, ou sobre mar ou terra,
Sob um clima de chama ou sol branco,
Servidor de Jesus, cortesão de Citera,
Mendigo tenebroso ou Creso rutilante.

Cidadão, camponês, vagabundo, sedentário
Que seu pequeno cérebro seja ativo ou lento,
Em todo lugar o homem sofre o terror do mistério,
E olha ao alto senão com olhar trêmulo.

Acima, o Céu! o muro da cova que sufoca,
Teto iluminado para uma ópera bufa
Onde cada histrião pisa um chão de sangue;

Terror do devasso, esperança do tolo eremita;
O Céu! Tampa escura da grande marmita
Onde se confina a sutil e vasta Humanidade.

.
Trad. livre: Leonardo de Magalhaens
~~~~~~~~~~

* Charles Baudelaire

A Morte dos Artistas  -  La Mort des Artistes (CXXIII)

Quantas vezes é preciso sacudir meus guizos
E beijar tua fronte baixa, morna caricatura?
Para furar o alvo, de mística natura,
Quantos, ó meu cesto, perder de dados?

Usaremos nossa alma em sutis complôs,
E destruiremos muita pesada armadura,
Antes de contemplar a grande Criatura
Cujo infernal desejo enche-nos de dor!

Não há quem não conheça seu ídolo,
E esses escultores condenados, em afronta,
Que vão se golpeando o peito e a fronte,

Sem uma esperança, estranho e sombrio Capitólio!
É que a Morte, tal um novo sol a planar
As flores de seus cérebros fará desabrochar!

.
Trad. livre: Leonardo de Magalhaens
~~~~~~~~~~

* Paulo Henriques Britto

O funâmbulo

Entre a palavra e a coisa
o salto sobre o nada.

Em torno da palavra
muitas camadas de sonho.
Uma cebola. Um átomo.
Uma cebola ávida.
Entre uma e outra camada
nada.

Saltam sobre o abismo
tomam o vazio de assalto.
De píncaro a píncaro
projetam-se, impávidas,
epifânicas, esdrúxulas,
teimosas e dançarinas.

O salto é uma dança,
a teima é uma doença.
Em torno da cebola
o ar é tenso de lágrimas.

(1951)

~~~~~~~~~~

* Jean Genet

E a tua ferida, onde está?

Pergunto onde fica,
em que lugar se oculta a ferida secreta
para onde foge todo o homem
à procura de refúgio
se lhe tocam no orgulho, se lho ferem?

Esta ferida
— que fica assim transformada em foro íntimo —
é que ele vai dilatar, vai preencher.

Sabe encontrá-la, todo o homem,
ao ponto de ele próprio ser a ferida,
uma espécie de secreto
e doloroso coração.

Se observarmos o homem ou a mulher
que passam com olhar rápido e voraz
— e também o cão, o pássaro, uma panela —
a velocidade do olhar é que nos mostra,
ela própria e com rigor máximo,
que ambos são a ferida
onde se escondem mal sentem o perigo.

O quê?
Já lá estão, já os conquistou
— deu-lhes a sua forma —
e para ela a solidão:
lá estão inteiros no retesar de ombros
em que passam a concentrar-se,
com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca,
e contra a qual nada podem nem querem,
pois dela é que sabem esta solidão absoluta,
incomunicável — este castelo da alma —
para serem a própria solidão.

È visível no funâmbulo que refiro,
no olhar triste
que deve reportar-se às imagens de uma infância miserável,
inesquecível,
em que ele teve consciência
de ser abandonado.

(...)

jean genet
o funâmbulo
trad. de aníbal fernandes
hiena editora
1984

~~~~~~~~~~

* Kahlil Gibran

O Louco

Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim: um dia, muito tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas
as minhas máscaras tinham sido roubadas
- as sete máscaras que eu havia
confeccionado e usado em sete vidas  –
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando:
"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

Homens e mulheres riram de mim e alguns
correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado,
um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:
"É um louco!".

Olhei para cima, pra vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.

E, como num  transe, gritei:
"Benditos, bendito os ladrões que
roubaram minhas máscaras!"

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade
como segurança em minha loucura:
a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele desigual que nos
compreende escraviza alguma coisa em nós.

------------

Ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa, cujos escritos, eivados de profunda e simples beleza e espiritualidade, alcançaram a admiração do público de todo o mundo. (1883-1931)


vem de o domingo na poesia segundo vários escritores - 17 - os bobos e truões - 02

Retrato do Louco olhando através de seus dedos Atribuído a 'Maître de 1537

Retrato do Louco olhando através de seus dedos Atribuído a 'Maître de 1537


Bufão ou bobo - Gravura de J.A.Beauce et Rouget

Bufão ou bobo - Gravura de J.A.Beauce et Rouget


17th-century engraving of Will Sommers, Henry VIII's jester

17th-century engraving of Will Sommers, Henry VIII's jester


Peter Brueghel - Loucos brincando - 1642

Peter Brueghel - Loucos brincando - 1642


Um casal de bufões.[bobos] Desenho de Hans Sebald Beham

Um casal de bufões.[bobos] Desenho de Hans Sebald Beham