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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Eugénio de Andrade - [Foi para ti que criei as rosas]

* Eugénio de Andrade

Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.

Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas · As Mãos e os Frutos · Os Amantes sem Dinheiro

sábado, 21 de janeiro de 2023

Eugénio de Andrade - Poema XVIII

 * Eugénio de Andrade

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.
Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

quarta-feira, 17 de março de 2021

As palavras na poesia de Eugénio de Andrade


* Eugénio de Andrade e as palavras

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Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas Rato (1923 - 2005), foi um poeta português. vencedor do Prémio Camões em 2001.
.
Urgentemente
.
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
é urgente destruir certas palavras.
odio, solidão e crueldade,
alguns lamentos
muitas espadas.
.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras
.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
.
*****
.
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
.
Adeus
.
*****
.
RETRATO ARDENTE
.

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha. .
.
*****
.
As palavras
.
.
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?.
.
*****
.
Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula. Ignorada.
Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.
.
Do fundo do tempo,
martelava.
contra o muro.
.
Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.
.

As Palavras Interditas
.
.
Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.
.
Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.
.
Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.
.
As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.
.
Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos noturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.
.
E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.
.

sábado, 18 de abril de 2020

José Pacheco Pereira - A música venceu Salvatore Quasimodo


OPINIÃO
A música venceu Salvatore Quasimodo
Nestes tempos de peste, leiam o Eugénio de Andrade e, melhor ainda, ouçam as suas músicas.
18 de Abril de 2020, 6:15

Penso que já contei esta história, mas em tempos de peste ouve-se às vezes melhor lá fora do que cá dentro. Algum pássaro a transportará passando por cima do cavaleiro do apocalipse que nos assalta hoje.

Entre o Ostinato Rigore publicado em 1964 e o Obscuro Domínio de 1971, Eugénio de Andrade escreveu muito pouca poesia. Traduziu e editou poetas e preparou várias antologias de prosa para a Inova, a sua editora nos últimos anos de ditadura. Foram também os anos em que o nosso convívio foi mais intenso, partilhado pela Rosa, o José Rodrigues, o Ângelo de Sousa, o Manuel Dias da Fonseca, o Jorge Peixinho e, numa visita memorável e esporádica, pelo Jorge de Sena. Essa visita merece ser contada, mas fica para depois.

O Eugénio estava com aquilo que hoje se chama writer’s block, uma sinistra expressão para um poeta, ou seja, estava com uma crise de escrita. Recordo-me de uma longa conversa com o Eugénio sobre isso que começou na Rua de Palmela, 111, em que no andar de baixo vivia a Rosa e no de cima o Eugénio. Era uma casa bastante modesta e muito pequena, cozinha, sala partilhada entre uma mesa em que escrevia junto à janela e também comia, e uma pequena sala de estar, uma dispensa cheia de livros, e um longo corredor para o quarto de banho e o quarto do lado oposto da casa, virado para as árvores da rua. Os passeios nocturnos começavam muitas vezes aí e tinham uma paragem obrigatória no Café S. Lázaro, junto da Biblioteca Municipal e de um dos mais belos jardins românticos do Porto.

Nesse dia, saímos do Café bastante cedo e seguimos em direcção à Ribeira pela Rua de S. António (que a ditadura impediu que se chamasse 31 de Janeiro), depois pela Rua Mouzinho da Silveira, até ao rio e depois ao longo do rio. Era uma daquelas conversas que incluem muitos silêncios que não incomodavam ninguém, pela sua naturalidade. (Outro poeta que tinha também essa capacidade de silêncio como parte da conversa era o Vasco Graça Moura.) Eugénio dizia que já não conseguia escrever poesia, as suas palavras nos poemas tinham atingido um estado de depuração e contenção, que não conseguia ultrapassar essa forma exígua e contida. Dava o exemplo de Salvatore Quasimodo e dos seus poemas como também tendo chegado a uma forma tão condensada de escrita, “como uma pedra”. Não se podia passar dali. A conversa e o passeio terminou num pequeno estaleiro que havia à beira-rio. Era uma noite escura e os barcos tinham uma sombra sinistra, embora a noite fosse amena. Saídos da Ribeira havia muito pouca gente na rua, a não ser alguns pescadores. Para quem conhece o Porto, sabe que o passeio foi muito longo, e o regresso duplicou-o.


 
Ofereci então ao Eugénio um dos poucos discos que tinha, com quartetos de Haydn e ele comprou um pick up caro, e depois não largava a música. Contava com dois grandes melómanos para o aconselhar, Manuel Dias da Fonseca e Óscar Lopes, antes de ficar quase surdo

Lembrei-me então da música e sabia que o Eugénio ouvia muito pouca música em casa. Não era por falta de referências musicais nos seus poemas, nem pelo convívio semanal com a tertúlia do Manuel Dias da Fonseca em Matosinhos, nem sequer quando Jorge Peixinho e Clotilde Rosa irromperam neste círculo de amizades. Mas o Eugénio era em grande parte um autodidacta, “feito” não só pelo seu génio poético, mas também pelo convívio que desde Coimbra, e ainda mais no Porto, tinha com muita gente da arte, da música, do teatro, da cultura em sentido lato. Era também um grande e selectivo leitor, cujos livros estavam cheios de sublinhados e pontuações, traduzindo o impacto que alguns textos tinham nele. E “feito” também pelas suas paixões, num tempo em que eram proibidas e perseguidas.

Eu tinha muito poucos discos, que eram caros, e ia muitas vezes ouvir música a pretexto de comprar discos numa loja na Rua de S. António. Tinha feito, no Liceu Alexandre Herculano e depois no Rainha S. Isabel, umas sessões de comentário a músicas e estudara piano e composição, embora mais tarde tivesse interrompido as aulas. Ofereci então ao Eugénio um dos poucos discos que tinha, com quartetos de Haydn, e ele comprou um pick up caro, e depois não largava a música. Contava com dois grandes melómanos para o aconselhar, Manuel Dias da Fonseca e Óscar Lopes, antes de ficar quase surdo. Comprava e ouvia essencialmente música de câmara, Haydn, Beethoven, Mozart, e os ciclos de canções de Schubert, Wagner, Strauss. Gostava de Mahler, mas passava pouco daí. Tinha um disco de música electrónica com um poema de Henri Michaux, que o Jorge Peixinho lhe tinha dado, e que ele me fez ouvir, mas era o poema que lhe interessava e não a música.

Mais tarde reconheceu que fora pela música que começara de novo a escrever, e é possível encontrar nalguns poemas posteriores referência muito mais precisas a peças musicais. A música vencera Salvatore Quasimodo. Nestes tempos de peste, leiam o Eugénio de Andrade e, melhor ainda, ouçam as suas músicas.

Como nesta página não entra a covid-19, para a semana há mais.



quarta-feira, 11 de março de 2020

Eugénio de Andrade - Havia uma palavra no escuro.

* Eugénio de Andrade

Havia
uma palavra
no escuro.
Minúscula. Ignorada.
Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.

Do fundo do tempo,
martelava.
contra o muro.

Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.

sábado, 26 de outubro de 2019

Um poema duas traduções – HANS MAGNUS ENZENSBERGER

Hans Magnus Enzensberger


RAJADA

há palavras
leves
como sementes de álamo
erguem-se
levadas pelo vento
e voltam a cair

difícil agarrá-las
porque se afastam muito
como sementes de álamo

há palavras
que mais tarde talvez
removerão a terra

que espalharão sombra
uma sombra delgada
ou talvez não


HANS MAGNUS ENZENSBERGER
(tradução de Eugénio de Andrade
in Trocar de Rosa, idem)

ventogesto

algumas palavras
leves
como sementes de álamo

sobem
viradas pelo vento
mergulham

difíceis de aprender
levam longe
como sementes de álamo

algumas palavras
soltam a terra
talvez mais tarde

lancem uma sombra
uma sombra subtil
ou talvez não

HANS MAGNUS ENZENSBERGER

(tradução de Almeida Faria,
in Poemas Políticos,
publicações Dom Quixote, 1975) 






quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Eugénio de Andrade - Elegia das Águas Negras para Che Guevara

* Eugénio de Andrade

Atado ao silêncio, o coração ainda
pesado de amor, jazes de perfil,
escutando, por assim dizer, as águas
negras da nossa aflição.

Pálidas vozes procuram-te na bruma;
de prado em prado procuram
um potro mais livre, a palmeira mais alta
sobre o lago, um barco talvez
ou o mel entornado da nossa alegria.

Olhos apertados pelo medo
aguardam na noite o sol do meio-dia,
a face viva do sol onde cresces,
onde te confundes com os ramos
de sangue do verão ou o rumor
dos pés brancos da chuva nas areias.

A palavra, como tu dizias, chega
húmida dos bosques: temos que semeá-la;
chega húmida da terra: temos que defendê-la;
chega com as andorinhas
que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.

Cada palavra tua é um homem de pé,
cada palavra tua faz do orvalho uma faca,
faz do ódio um vinho inocente
para bebermos, contigo
no coração, em redor do fogo.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Eugénio de Andrade - Os Amigos

Eugénio de Andrade


Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.


Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

domingo, 11 de junho de 2017

Um Homem na Revolução e 2 poemas

Vasco dos Santos Gonçalves (3/5/1922 – 11/6/2005) - Um Homem na Revolução e 2 poemas - Armando Silva Carvalho e Eugénio de Andrade

* Armando Silva Carvalho - NOME DE VASCO - 
A tua voz excessiva tornava-os mais pequenos.
Eles exigiam-te palavras untuosas,
as secas flores da jactância,
seu sono e alimento.
A verdade saía da tua boca iluminada
e eles tinham os ouvidos postos na mentira
no bocejo intrigante, na fala camuflada.
A tua voz recuada na origem não se perdia
nos afazeres verbais da litigância
não sabia a ganância.
Era o vento dos pobres sobre os metais do luxo.
Não te punhas a embalar o povo
como à criança que tarda a adormecer.
Atiravas-lhe à cara as palavras abruptas
um rosto incorruptível por marés de ferrugem
e gestos de morrer.
A tua fronte vasta tornava-os mais pequenos.
Nela despertava o susto das mães familiares,
o trigo parco dos homens nas tabernas
que te olhavam ingénuos vendo a seara crescer.
Ao colo dos pais os meninos sorriam
e os velhos viam coisas saltar dos teus cabelos.
Mas eras tu que soltavas a vida
amarrada a um poste como um burro de carga
a vida desavinda que os enraivecia
e que lhes dava um coice na pança saciada.
Aqui perde-se o tempo a trabalhar as lendas.
Mas o teu rosto não pode adormecer
sobre a toalha tépida que tece a tua ausência
onde derramo o choro e os outros vão beber.
Porque o teu pulso não suportava a febre
e erguia-se no ar como um pássaro agudo
que respirasse os ventos antes de partir.
Sobre o ladrar dos cães a tua voz alteia
como a papoula que o tempo não desfolha
a coluna de fogo que cai sobre a alcateia.
És o lagar imenso onde as uvas fermentam
sob os pés descalços e vivos da memória.
És a boca que a História utilizou por boca
o corredor onde o orvalho cresce entre a juventude
e os homens se passeiam com trigo na cintura.
Neste lugar de Inverno lembramo-nos de ti
como quem desperta.
Ninguém aqui precisa de recuar no tempo
nem das sereias que engolem o nevoeiro.
Ninguém aqui suporta que tu voltes
como um Desejado
com o seu cortejo de rotas feiticeiras
que gritem pelo teu nome junto aos becos do mar
com as suas luas gordas de saudade e preguiça.
Teu nome está de pé como um mastro
de cal rubra.
Estás aqui, entre nós, no meio do teu País.
Connosco vais contigo porque o povo assim o quis.

Cartoon de João Abel Manta
* Eugénio de Andrade - a Vasco Gonçalves
Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias lábios, tudo ardia.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Eugénio de Andrade - As mãos e os frutos

* Eugénio de Andrade

Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa teu canto
o silêncio é todo meu.


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Eugénio de Andrade- As amoras



*  Eugénio de Andrade 


O meu país sabe as amoras bravas

no verãoà
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


in O Outro Nome da Terra

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

outono na poesia e nas canções


foto Victor Nogueira - Cela (Coutos de Alcobaça) 
 pôr-do-sol na herdade que foi do General Humberto Delgado

Outono, dos contrastes: dias cálidos ou frígidos, soalheiros ou pluvientos, risonhos ou cinzentonhos, dos poentes tingidos de vermelho ou laranja e as árvores, despindo-se em tons de amarelo, atapetando ruas e jardins de melancólicas folhas secas, esquálidos e despidos ramos erguendo-se por aqui e por ali, com a noite crescendo à custa da diurna claridade minguando.

 Deixo-vos uma selecção do "outono na poesia e nas canções" 

Os poetas ...

Olavo Bilac - Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas 
Ricardo Reis - Quando, Lídia, Vier o Nosso Outono
Eugénio de Andrade - Outono
David Mourão-Ferreira - Outono
Fernando Pessoa - Uma névoa de Outono o ar raro vela
Miguel Torga - Outono
Mário Quintana - Outono
Cecília Meireles - Canção de Outono
José Afonso - Balada de Outono

... e as vozes
Eric Clapton
Yves Montand
Leo Ferré
Juliette Greco
Chet Baker e Paul Desmond 
Natalie Cole
José Afonso



* Olavo Bilac


Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas 
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto. 
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas 
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto... 

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas, 

Visitaste este mar inabitado e morto, 
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas, 
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto? 

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos 

A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos... 
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol! 

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste, 

E contemplo o lugar por onde te sumiste, 
Banhado no clarão nascente do arrebol... 

Olavo Bilac, in "Poesias" 

* Ricardo Reis

Quando, Lídia, vier o nosso outono 
Com o inverno que há nele, reservemos 
Um pensamento, não para a futura 
Primavera, que é de outrem, 
Nem para o estio, de quem somos mortos, 
Senão para o que fica do que passa 
O amarelo atual que as folhas vivem 
E as torna diferentes. 

Ricardo Reis, in "Odes" 


Heterónimo de Fernando Pessoa 

* Eugénio de Andrade

Outono

O outono vem vindo, chegam melancolias, 
cavam fundo no corpo, 
instalam-se nas fendas; às vezes 
por aí ficam com a chuva 
apodrecendo; 
ou então deixam marcas; as putas, 
difíceis de apagar, de tão negras, 
duras. 

Eugénio de Andrade, in 'O Outro Nome da Terra"

* David Mourão-Ferreira

Outono

Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono…Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará…)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo…

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto…

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo…?

                         Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

in Obra Poética

* Fernando Pessoa

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta               [...]

5-11-1932
Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).  - 104.


*  Miguel Torga

​​Outono

Tarde pintada 
Por não sei que pintor. 
Nunca vi tanta cor 
Tão colorida! 
Se é de morte ou de vida, 
Não é comigo. 
Eu, simplesmente, digo 
Que há fantasia 
Neste dia, 
Que o mundo me parece 
Vestido por ciganas adivinhas, 
E que gosto de o ver, e me apetece 
Ter folhas, como as vinhas. 

in Diário X, s/editora, 1966, Coimbra

* Mário Quintana

Outono

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!


(Poema publicado originalmente no livro Canções, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 131) – contribuição de Sonia Regina Villarinho


* Cecília Meireles

Canção de Outono

Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles 
que não se levantarão...

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

in Poesia completa: Volume 2. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001

* José Afonso 

Balada de Outono

Águas passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar