sábado, 26 de agosto de 2023

Carlos Matos Gomes - Truanismo — o regime de falsificação da história e dos valores



* Carlos Matos Gomes

2023 08 26

A propósito da atuação de Marcelo Rebelo de Sousa na presidência da República, António Barreto escreveu na sua coluna no Público (26/08/23) — Grande angular: «O regime está mudar». “O Presidente vetou tudo. Não por motivos constitucionais, jurídicos e constitucionais, mas por razões políticas e programáticas.” (…) “Além do tradicional, o Presidente parece agora desempenhar vários papéis. O de fiscal da ação política, provedor do cidadão, colegislador, responsável pelas políticas públicas.” (…) “ Estamos a assistir a uma mudança de regime” E exalta como exemplo da virtuosidade da ação de Marcelo Rebelo de Sousa e da mudança de regime a patética visita a Kiev para marcar o ponto: “ O Presidente da República desempenhou na Ucrânia, com garbo (hirto a marchar com os braços colados ao corpo em direção ao mural de Bucha) e competência (sic), cultural (sic — deve ter sido quando falou ucraniano) e afetuosamente (é um distribuidor de afetos ambulante, sabe-se), com brilho e distinção” (é uma nota de um examinador amigo).

A António Barreto salta a boca para a verdade e para a contradição quando afirma (para fazer a quadratura do círculo): “Ultrapassou (sic) as tradições de cerimónia. Dentro das margens estabelecidas pela Constituição (definidas por Barreto), foi um verdadeiro Chefe de Estado (uma figura não contemplada na Constituição) e chefe da política externa” (outro pé fora da Constituição).

As contradições no raciocínio de A Barreto são antigas e evidentes. É evidente que Marcelo Rebelo de Sousa subverte a natureza do regime que foi votado pelos portugueses e que está fixado na Constituição. A primeira conclusão a tirar é a de que estamos perante um abuso de poder exercido por quem se arroga do exercício de um cargo em seu proveito e à margem da lei. A António Barreto não interessa referir o pormenor de que a mudança de regime que ele diz estar em curso coloca a velha e decisiva questão de todos os regimes de saber quem julga os juízes! Nos Estados Unidos os presidentes vão a tribunal!

Estes casos de abuso de poder são tão mais perversos e de chocante desonestidade porquanto são praticados pelos que foram eleitos para respeitar os limites dos outros poderes, o que implica serem particularmente exigentes consigo e com os seus. Não é, manifestamente o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, nem do seu apoiante António Barreto, que interpretam a lei segundo o seu interesse, sem limites. Que se colocam permanentemente na posição do soberano atrevido e do truão irresponsável.

A importância e o foco da mudança de regime que o artigo de António Barreto evoca no título não reside, contudo, apenas na corrupção constitucional e no abuso de poder de Marcelo Rebelo de Sousa que, sendo graves, são uma consequência de uma prática que se tem vindo a impor nas chamadas democracias liberais do Ocidente, cada vez menos democracias, menos liberais e mais totalitárias, iliberais e populistas.

Regimes que têm sido definidos, à falta de melhor, por democracias iliberais — em que os cidadãos votam para uma assembleia que os devia representar, mas em que o poder de facto reside noutras instâncias, capturado por “presidentes”, presidentes de estados, de corporações financeiras e da indústria, de instituições, por manipuladores de opinião, civis e religiosos.

Marcelo Rebelo de Sousa é mais um na linha desse tipo de políticos populistas que incluem personagens como Reagan, como Bush jr, Obama, Blair, Boris Johnson, como João Paulo II ou o bispo da IURD, como Trump, ou, recentemente, como Ursula Von Den Leyen e Zelenski.

É o surgimento destas novas personagens como figuras de efetivo e real poder que carateriza os regimes políticos no espaço civilizacional que reuniu a tradição e a filosofia grega, inglesa e francesa que eram, sublinhe-se, regimes aristocráticos, em que o soberano (mesmo que formalmente presidente de uma república) se deificava, exercia o seu magistério de forma distante, raramente sujava as mãos e se expressava através de vassalos, o mais eficaz dos quais era o truão. O truão, uma palavra de origem provençal, era sustentado pelos reis, pago para fazer passar com zombarias e bobagens, sem tumulto e de forma indolor, as ações mais subtis e perversas do exercício do poder real.

Os novos poderes, os novos regimes a que A. Barreto associa Marcelo Rebelo de Sousa, têm como novidade essencial a tomada do poder pelos truões. Os truões deixaram de ter um soberano para quem trabalhavam e passaram a ter eles o poder. Um processo que já havia sido previsto por George Orwell em O Triunfo dos Porcos e que tem levado vários atores ao poder real, Reagan, Trump, Johnson, Zelenski. Marcelo Rebelo de Sousa era, recorde-se, um popular comentador político nas televisões!

O truanismo de Marcelo Rebelo de Sousa manifestou-se em pelos menos três casos exemplares. O primeiro na triste viagem de salamaleques a Londres para celebrar o Tratado de Aliança Luso-Britânico. O tratado é tudo menos merecedor de hinos e cortesias de dobra da espinha por parte de Portugal. O tratado serviu os interesses dos ingleses, que utilizaram Portugal continental como base de combate a Napoleão e passaram a ter direito ao comércio do Brasil. O tratado transformou (ou oficializou) Portugal numa colónia inglesa, o que não é motivo para os ademanes de Marcelo Rebelo de Sousa perante uma outra figura de decoração, Carlos III, ademanes, vénias e sorrisos que transmitem a mensagem que Portugal e os portugueses se sentem muito bem, felizes, como fiéis servidores e vassalos de suas majestades britanicas. Marcelo Rebelo de Sousa pode ter o dorso moldado para servir de montada, mas não essa atitude não consta do cartão do cidadão.

A segunda exibição truanesca ocorreu com a visita do Papa, durante a Jornada da Juventude: ver um Presidente a fazer de sacristão não é um bom estímulo para nós, enquanto portugueses, nos interrogarmos sobre o papel das várias instituições na nossa sociedade. A beatice de Marcelo pode ser-lhe confortável, mas revela falta de respeito pela responsabilidade individual dos portugueses que decidem por si, segundo o seu livre arbítrio. Os que não pertencem a um rebanho e dispensam pastores não se revêm nestas atitudes.

Por fim, esta risível (talvez seja o melhor qualificativo) visita a Kiev. Em termos políticos é uma prova de vassalagem, de truanismo: o presidente de Portugal está com os Estados Unidos, como Durão Barroso já estivera com Bush na invasão do Iraque e Santos Silva havia estado com Trump a apoiar Guiadó na Venezuela. A visita está nessa linha de vassalagem de um truão. E, não satisfeito com essa tarefa, Marcelo Rebelo de Sousa atribui o colar da Ordem da Liberdade a Zelenski! O qual, suprema ironia, recusa porque é modesto e não quer ficar como único responsável pelo desastre que se prevê venha a ser o futuro da Ucrânia. Nem com a glória, na versão otimista. Por fim, declara que as suas palavras e atitudes comprometem Portugal e os portugueses no seu todo e para sempre! Assim nega o presidente que exerce a função num regime de liberdade, logo de pluralidade, o direito à diferença. A mudança de regime detetada por António Barreto não parece trazer nem liberdade, nem responsabilidade, nem senso das realidades, nem respeito pelos direitos dos cidadãos.

Mas o truanismo, a farsa da atribuição da Ordem da Liberdade a Zelenski nem assenta na personagem Zelenski, nem no processo que o levou ao poder, e que ali o mantém, nem na natureza do regime ucraniano, mas sim na corrupção feita por Marcelo Rebelo de Sousa do conceito de Liberdade que a atribuição (falhada ou não) da Ordem significa a vários títulos. O primeiro dos quais é o presidente da República Portuguesa, professor doutor, constitucionalista e político de relevo desde a mais tenra idade, confundir Liberdade — um valor ético — com Independência — um valor político.

Na Ucrânia o regime no poder luta pelo que entende ser a Independência política e pelos interesses a ela associada. Não luta pela Liberdade. O regime ucraniano e os seus dirigentes não clamam por liberdade (que abafaram): clamam por integração em instituições multinacionais que lhe retiram liberdade sob a forma de parcelas de soberania. Em última estância, o presidente português ofende os ucranianos (não colocando como exigência da perda de soberania que eles se pronunciem livremente) e confunde os portugueses com o abuso da entrega da Ordem da Liberdade a quem pede sujeição, mesmo com o pretexto de se defender de uma invasão, esquecendo o que fez ou não fez para a provocar ou para a evitar. As causas da guerra são não temas para os fiéis que cumprem o seu dever de presença.

A contradição final: Quem impede que a Ucrânia e Zelenski entrem para NATO e para a União Europeia não é a Rússia, são a NATO e a União Europeia que negam a liberdade da Ucrânia, não a recebendo. Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de um Estado membro da NATO e da U E, outorga a Ordem da Liberdade a um Estado a que os seus parceiros negam a liberdade de aderir a esses dois esteios da Liberdade! E depois ri-se tira uma selfie. Em que gaveta, caixote ou armário ucraniano estará metido neste momento o colar da Ordem da Liberdade?

O truanismo segue impante e sem se deter com ninharias.

https://cmatosgomes46.medium.com/truanismo-o-regime-de-falsifica%C3%A7%C3%A3o-da-hist%C3%B3ria-e-dos-valores-fd18edb2ea09

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Sophia de Mello Breyner - Pelo negro da terra e pelo branco do muro

* Sophia de Mello Breyner Andresen

 10 de Agosto de 2002, 0:00

Há uma beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas. Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham. A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria. Diz S. Tomás de Aquino que a beleza é o esplendor da verdade. Pela qualidade e grau de beleza da obra que construímos se saberá se sim ou não vivemos com verdade e dignidade. A obra do homem é sempre um espelho onde a consciência se reconhece. Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e - ai de nós! - para durar. Feias as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à regra de fealdade são raras. Costuma dizer-se que a nossa pobreza é a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo exibicionista - quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura e sem sensibilidade. Isto é especialmente triste quando comparamos o presente com o passado: de facto olhando os antigos solares de pedra e cal vemos que a nossa arquitectura soube criar nobreza sem riqueza. Daí a pureza e a dignidade de tantas casas antigas. Agora não se trata evidentemente de copiar o passado: a arquitectura é uma arte e a arte é criação e não imitação. Continuar não é imitar e imitar é sempre ofender e trair aquilo que é imitado. Mas é necessário que exista aquela consciência do passado e do presente a que chamamos cultura. Somos um país antigo. Dizem-nos que somos um país pobre. É estranho que destas coordenadas resulte uma arquitectura de novos ricos. A construção da cidade moderna traz problemas difíceis de resolver: problemas de espaço e de circulação. Mas entre nós estes problemas só existem em Lisboa e no Porto. No resto do país os problemas são quase unicamente problemas de humanidade, de bom senso, e de bom gosto ou seja problemas de moral, de inteligência e de sensibilidade e cultura. A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro. Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz claríssima. É preciso não destruir estas coisas. É preciso que aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe.  arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura. Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve. Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura: ali temos uma paisagem e uma luz que pedem "arquitectura", ali encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna, uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade. Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que existem no nosso país. Mas é urgente evitar os seguintes perigos:- A incompetência- O saloísmo- As especulações com os terrenos- Os maus arquitectos- O falso tradicionalismo- A mania do luxo e da pompa- As obras de fachada Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor. De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.

(Publicado em Janeiro de 1963, no nº 21 da "Távola Redonda")

https://www.publico.pt/2002/08/10/jornal/pelo-negro-da-terra-e-pelo-branco-do-muro-173555

sábado, 19 de agosto de 2023

Camo Afonso A franqueza de Eduardo Catroga e a pobreza dos portugueses

 OPINIÃO -, 

* Carmo Afonso
18 de Agosto de 2023

Ainda bem que Catroga teve um percurso de sucesso e que foi sempre bem remunerado. Terá sido excelente. Mas estranha-se a falta de noção

Li neste jornal uma entrevista a Eduardo Catroga feita pela jornalista Helena Pereira. Rui Gaudêncio foi o repórter fotográfico. Destaco nomes porque considero que foi um trabalho bem conduzido e bem conseguido.

A propósito do convite para ser ministro das Finanças Eduardo Catroga disse: “Quando essa oportunidade apareceu, estava com 50 anos, tinha autonomia financeira para fazer o sacrifício de ir para o Governo.” Mais adiante, ainda esclareceu que pode investir nessa experiência (de ser ministro das Finanças) porque “já tinha uma acumulação de capital privado” que lhe “permitia manter o nível de vida” que já tinha dado à sua família.

Eduardo Catroga não se coibiu de ser franco. Essa falha não lhe pode ser apontada. Mas na sua franqueza podemos observar que, em Portugal, existem dois mundos socioeconómicos separados por aquilo a que devemos chamar “um fosso”. A maioria dos portugueses considera o salário de um ministro um patamar de riqueza ao qual não pode aspirar. Não é só uma impressão. É absolutamente real e os números falam por si. Aproximadamente um milhão de trabalhadores portugueses ganha o salário mínimo nacional. Se aprofundarmos e detalharmos a informação disponível, temos que 66% dos trabalhadores ganham abaixo dos 1000 euros mensais e 27% ganham entre 1000 e 2499 euros. Apenas 4% ganham entre 2500 e 4999 euros. Acima dessa remuneração, estão apenas 0,7% dos trabalhadores.

Um ministro em Portugal ganha mais de 5000 euros mensais. Não estou a dizer que é muito e ainda menos que é demasiado. O que estou a dizer é que, no contexto socioeconómico nacional, um ministro ganha aquilo que apenas uma ínfima minoria dos portugueses ganha. A situação não era muito diferente no tempo em que Eduardo Catroga foi ministro.

O ex-ministro da Finanças revelou que só aceitou viver, durante um período da sua vida, com um salário, que é para a maioria dos portugueses altíssimo, porque tinha umas economias que lhe permitiram, e à sua família, não baixar o nível de vida nesse período.

Ainda bem que Catroga teve um percurso de sucesso e que foi sempre bem remunerado. Terá sido excelente. Mas estranha-se a falta de noção quando está a dar uma entrevista que vai ser lida pela generalidade dos portugueses. Estamos a falar de uma pessoa que desempenhou funções públicas importantes.

Um ex-ministro partilhou com os portugueses uma perspectiva da vida, que é a sua, que os coloca na cauda da pura insignificância. Aquilo que poderiam sonhar ganhar num mundo ideal corresponde ao que Catroga ganhou por ter aceitado fazer um sacrifício pessoal.

Eduardo Catroga não se distinguiu por ter combatido as desigualdades sociais e é certo que desempenhou funções em que poderia ter feito alguma diferença nessa área. Fez o oposto. Como ministro introduziu uma “moderação salarial” na função pública. O nome indica o que está em causa. Também baixou a TSU para as empresas e aumentou a taxa de IVA, prejudicando os que ganhavam menos. Destacou-se ainda a equilibrar as contas públicas, o que tem um conhecido impacto negativo nos rendimentos dos trabalhadores.

Dá tanta importância ao salário e ao dinheiro que, passados todos estes anos, ainda destacou ter feito um sacrifício financeiro para ser ministro. Mas conviveu bem com a imposição, aos portugueses, de apertarem o cinto até doer. Estamos a falar de portugueses que viviam numa situação infinitamente pior.
Não pretendo evidenciar falhas morais de Eduardo Catroga. O que tem aqui interesse, e digo interesse político, é que as desigualdades socioeconómicas em Portugal são gritantes e algumas das pessoas que integram a minoria privilegiada estão confortavelmente instaladas no seu privilégio sem ao menos acusar a consciência da gravidade política dessa situação. Reparem que injustiça social nunca foi o berço da paz.

Algumas das pessoas que integram a minoria privilegiada estão confortavelmente instaladas no seu privilégio sem ao menos acusar a consciência da gravidade política dessa situação

As pessoas costumam dizer que “quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão”. Nesta frase está implícito um profundo descrédito na ideia de que somos todos tratados como iguais. Na verdade, não somos e esta consciência de classe faz mesmo falta aos portugueses. O mar está muito bravo.
A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

Advogada

https://www.publico.pt/2023/08/18/opiniao/opiniao/franqueza-eduardo-catroga-pobreza-portugueses-2060533 

terça-feira, 15 de agosto de 2023

DN - Entrevista a João Soares, por Pedro Cruz

 

João Soares: "Sócrates fez uma asneira porque quem foi líder de um partido, não se demite dele"

Artigo originalmente publicado a 14 de abril de 2023. O DN, durante o mês de agosto, republica algumas entrevistas marcantes e mais lidas desde o verão de 2022..

João Pedro Henriques e Pedro Cruz

15 Agosto 2023 

Filho do principal fundador do PS, João Soares, ex-deputado, ex-presidente da Câmara de Lisboa e ex-ministro de Costa, diz que todos os ex-líderes devem ser convidados para a festa dos 50 anos, inclusivamente Sócrates, apesar da "asneira" de ter deixado o partido.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973? Mário Soares e a mulher Maria Barroso estavam na Alemanha, na reunião da fundação do Partido Socialista. Maria Barroso é, aliás, a única mulher presente na fotografia que se tornou icónica e que marca o nascimento do partido. E os filhos, Isabel e João? João Soares tinha 23 anos. Hoje, com 73 anos, afastado da política depois de ter sido deputado, presidente da câmara de Lisboa e (muito esporadicamente) ministro (da Cultura), João Soares dá nesta entrevista DN/TSF a sua visão do que foi a fundação do PS.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973?

Eu e a minha irmã estávamos em Paris, curiosamente, mas estávamos evidentemente a par do que se ia passar na Alemanha. E até recebemos indicações para, no final dos trabalhos, mandar um telegrama para o Porto, para os irmãos Cal Brandão ou para o António Macedo, com um texto perfeitamente anódino e pré combinado que sinalizaria que as coisas tinham corrido bem e que o desfecho tinha sido aquele que todos eles esperávamos.

Fernanda Câncio - Clericalismo e anticlericalismo, uma introdução

 OPINIÃO

* Fernanda Câncio 

15 Agosto 2023 

Mais de um século após a 1ª República e no ano em que finalmente se revelou a diabólica dimensão dos crimes de abuso na Igreja Católica portuguesa, descobrimos que um furor clerical tomou conta dos representantes do Estado e das autarquias, e que ser anticlerical é descrito como ódio e fobia. Há coisas do demónio.

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Achava que já tinha escrito que chegasse a propósito da Jornada Mundial da Juventude, mas a possessão beata dos representantes do Estado e autarquias portuguesas não permite mudar de assunto.

Não bastou, portanto, torrar dezenas de milhões de euros numa semana de propaganda religiosa de uma igreja, nem vermos o primeiro-ministro a determinar, definitivo e autocrático, como "absurdas essas polémicas" - as sobre os gastos - assegurando de seguida que o tal retorno incrível que ia haver de todo esse investimento é "imaterial" (em lugares no céu?). Não chegou termos a conversão televisiva do presidente da Câmara de Lisboa em porta-cruzes. Não chegou termos todos os canais de televisão trasladados em canção da boa-nova ou lá como se chama aquilo. Não chegou sermos setenta vezes sete vezes esbofeteados com a certificação de que como "80% do país é católico porque Censos" quem não for católico ou quem, sendo-o, defenda a laicidade tem mais é de ficar bem caladinho e perguntar se querem mais um café ou um copo de água ou umas dezenas de milhões de euros, por obséquio.

Não: tínhamos ainda de ver uma autarquia - a de Oeiras - mandar retirar, na véspera da chegada do papa, um cartaz que, custeado por um crowdfunding de 300 cidadãos, lembrava e honrava, à guisa do memorial prometido que não aconteceu, as 4800 vítimas estimadas de abuso sexual na Igreja Católica portuguesa desde 1950. Tínhamos de ver uma autarquia - a de Loures - "convidar para a missa" os seus munícipes, como se uma missa, católica ou de outro culto qualquer, fosse uma espécie de concerto do Tony Carreira ou dos Xutos oferecido pelo município para alegrar os cidadãos. Tínhamos de ver um autarca - Moedas, de novo - a anunciar que decidira nomear um equipamento público, a ponte sobre o rio Trancão, "Cardeal Dom Manuel Clemente", calcando as regras municipais para a toponímia que implicam não apenas votação camarária e apreciação pela comissão criada para esse efeito como, por regra, só atribuir o nome de quem tenha morrido há pelo menos cinco anos (isto para não falar da genuflexão daquele "Dom"). E tínhamos ainda de ver a conta Twitter oficial da Câmara de Lisboa a "ocultar" (censurar, portanto) respostas a esse anúncio que se limitavam a reproduzir o cartaz com o número de vítimas de abuso, chegando até a bloquear quem assim respondia. Uma conta oficial de uma autarquia a tratar como difamação, insulto ou calúnia os números da comissão nomeada pela própria Igreja Católica.

sábado, 12 de agosto de 2023

António Rodrigues - É a dignidade, estúpido!

António Rodrigues

4 ESQUINAS -  

11 de Agosto de 2023 (Público)

O mundo que se conta a partir do que se diz.

“Quando pedimos trabalho, pedimos dignidade, porque o trabalho faz a dignidade da pessoa”, bispo Oscar Ojea, presidente da Conferência Episcopal Argentina

“Guerra aos pobres”

O Governo italiano, liderado pela pós-fascista Giorgia Meloni, avisou, a 31 de Julho, 169 mil agregados familiares que vão deixar de receber o equivalente italiano do rendimento social de inserção. Com uma simples mensagem do Instituto Nacional de Previdência Social italiano, enviada por telemóvel no fim de Julho, ficaram a saber que já não poder contar com os 780 euros mensais do “rendimento de cidadania”, atribuídos desde 2019 e destinados sobretudo a pessoas no desemprego.

O instituto garante na mensagem que o corte não é generalizado, distinguindo aquilo que são “as pessoas empregáveis e aquelas que o não são”, incluindo nesta última categoria as famílias com pessoas portadoras de deficiência, com menores a seu cargo ou de mais de 60 anos. Para estas haverá um subsídio de 500 euros mensais. Os outros passam a receber 350 euros e apenas durante um ano.

Num país onde não há salário mínimo, a mensagem do executivo é simples: o pobre que não quiser morrer de fome terá de aceitar qualquer tipo de emprego, por mais mal remunerado que este seja.

A oposição apelidou a medida do Governo italiano como “uma guerra aos pobres”.

“Esta decisão não irá fazer mais do que aumentar a pobreza e o desemprego em plena inflação”, dizia esta semana o economista Henri Sterdyniak ao jornal francês l’Humanité. É o “triunfo da ideologia neoliberal, com a ideia subjacente de que, se as pessoas são pobres, a culpa é delas.”

A medida do Governo, prometida na campanha eleitoral de Outubro e anunciada com simbolismo no Dia do Trabalhador, agregada com a promoção de contratos de curta duração, transforma-se num maná para as empresas que podem assim relativizar o valor do trabalho nos seus custos fixos, ao mesmo tempo que a precariedade dos trabalhadores lhes permite esmagar ainda mais o pagamento por esse trabalho.

O poderoso cobarde de Peshawar

Em Peshawar, no Leste do Paquistão, um líder político local galvanizava a multidão com um discurso ultraconservador, agressivo, desafiador. Estávamos a poucos dias da invasão do Afeganistão pelas forças aliadas com os Estados Unidos à cabeça, no Outono de 2001, em resposta ao ataque terrorista contra o World Trade Center e o Pentágono.

Quem o via de longe no seu estrado, entusiasmado com o seu radicalismo de apoio aos taliban e de ataque ao imperialismo corrupto, teria dele uma ideia de líder corajoso, disposto a encabeçar uma multidão contra o demónio ocidental com a faca entre os dentes.

Finda a manifestação, a polícia interveio. As pessoas dispersaram, os oradores dispersaram, a imprensa dispersou, até que um dos jornalistas se viu de repente perante um agente da autoridade brandindo com raiva o pingalim e pensou que iria sentir na pele os lanhos abertos por essa herança do Império Britânico. Só quando sentiu nas costas uma mão se apercebeu de que, atrás de si, chorando, dobrado de medo, balbuciando desculpas, estava o mesmo orador que, minutos, no contrapicado do palco, parecia um gigante vociferador.

Cada vez que se ouve a extrema-direita expelindo perdigotos contra os migrantes como os grandes causadores de todos os males do mundo, é preciso recordar a imagem do poderoso cobarde de Peshawar. Esta semana, veio-me à memória o episódio quando o vice-presidente do Partido Conservador britânico, Lee Anderson, usou linguagem colorida para dizer aos requerentes de asilo que se não gostam de ser metidos na “prisão flutuante” que o Governo de Rishi Sunak lhes arranjou, “they should fuck off back to France”.

Como escreve Andrew Stroehlein, director dos media europeus da Human Rights Watch, estamos perante “a mais preguiçosa forma de política”, praticada pelos “políticos sem escrúpulos” que estão sempre prontos a aproveitar-se da fragilidade alheia para ganho pessoal. Até porque “atacar os vulneráveis é simples; resolver problemas é difícil”.

Mãe migrante

A década de 1930 transformou a América. Foram anos duros. De pobreza extrema, fome, exploração. Foram os anos de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck (prémio Pulitzer em 1940), das famílias de agricultores que perderam as terras, por causa da seca e das tempestades de pó, e partiram em busca de trabalho à jorna nas terras dos outros.

Foi também a década do New Deal, de Roosevelt, ambicioso programa de projectos públicos e reformas legislativas destinadas a aquecer a economia americana depois do desastre da Grande Depressão. A agência encarregada de promover o programa, a Farm Security Administration, contratou na altura 15 fotógrafos de renome para documentar o êxodo dos agricultores em busca de trabalho nas plantações.

Entre eles estava Dorothea Lange, que já tinha fotografado as condições dos desempregados e sem-tecto da Califórnia. Do trabalho comissionado a Lange saiu uma das imagens mais icónicas dessa época e da história da fotografia, o retrato Mãe Migrante, de 1936. Uma das imagens da série que a fotógrafa fez com Florence Owens Thompson, num acampamento em Nipomo, Califórnia.

“Vi e aproximei-me de uma mãe faminta e desesperada, como se tivesse sido atraída por um íman. Não me lembro como lhe expliquei a minha presença ou a minha câmara, mas lembro-me de que não me fez qualquer pergunta”, contou, anos mais tarde, a fotógrafa, citada no site do MoMA.

Mãe Migrante e as cinco outras imagens que fez de Florence e dos filhos são parte importante da exposição que lhe é dedicada em Turim, Dorothea Lange. Racconti di Vita e Lavoro, em exibição no Camera – Centro Italiano para a Fotografia, até 8 de Outubro.

Um jornalista localizou a mulher 40 anos depois, a viver num parque de atrelados em Modesto, Califórnia. Sentia-se envergonhada por essa imagem que a transformara em ícone de uma época de desesperança. Os filhos dela tinham outra perspectiva, viam na imagem a dignidade de uma mulher em tempos de adversidade e angústia.

A angústia e o aviso

São Caetano é o padroeiro do pão e do trabalho. A cada 7 de Agosto, pobres e desempregados passam pelas igrejas para pedir ao santo que lhes traga emprego e comida. Em situações de profunda crise económica, como a que a Argentina hoje atravessa (a inflação chegou, em Junho, a 115,6%), as filas de crentes multiplicam-se.

O trabalho “não é um objecto de compra e venda, não é um objecto de consumo”, afirmava esta semana o presidente da Conferência Episcopal Argentina, Oscar Ojea, ao diário Página/12. “Quem não trabalha sente que sobra, que não vale nada; sente-se ferido na sua dignidade.”

Entre quem não tem emprego, quem é explorado no trabalho ou não consegue chegar ao fim do mês, a angústia generaliza-se. Com a existência cada vez mais fragilizada, o elo mais fraco no mercado laboral torna-se presa fácil na luz maximizada dos faróis empresariais: coelhos atordoados a que se pode oferecer até a ilusão de uma cenoura em troca de trabalho.

“Quando falamos de paz, falamos de justiça”, explicava o bispo. “Quando falamos do pão, falamos de um direito universal de todos os seres humanos.” E deixava o aviso: “Quando lutamos verdadeiramente para que todos possam ter trabalho e para que sejam respeitados todos os trabalhadores, mesmo aqueles que não podem viver na plenitude dos seus direitos”, estamos a trabalhar em prol da paz.

“Na verdade, quando pedimos ao santo do pão e do trabalho pão e trabalho, estamos a pedir paz”, porque a paz não é uma coisa abstracta, uma palavra com significado teórico sem realização física. “A paz constrói-se no concreto, no amor do concreto”, sublinhava o bispo. Não esqueçamos que 85% das pessoas que passam fome hoje no mundo vivem em países afectados por guerras e conflitos.

https://www.publico.pt/2023/08/11/mundo/cronica/dignidade-estupido-2059877


António Guerreiro . Deus ex Media

 * António Guerreiro

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA  

11 de Agosto de 2023 (Público)

A relação entre os media e a religião, ou antes, entre os media e o catolicismo romano, é um ângulo de análise imperativo para perceber o acontecimento da Jornada Mundial da Juventude. Ali, até os confessionários foram concebidos e “instalados” (no sentido em que se fala de uma instalação artística) para serem telegénicos e resultarem numa “bela” exibição fotográfica e televisiva: eis o eloquente emblema da negociação entre o público e o privado, em que o primeiro goza de grandes vantagens. Esta mediatização, de preferência sob a forma da televisualização, é um fenómeno aceite e promovido nas cerimónias cristãs, mas não é uma prática judaica nem islâmica.

O filósofo Jacques Derrida dedicou a este assunto uma longa intervenção, num colóquio em Paris, em 1997, que teve por título “Surtout pas de journalistes!” (“Sobretudo nada de jornalistas!). Tal injunção, imagina Derrida recorrendo a uma óbvia anacronia, teria sido aquela que Deus, do Velho Testamento, inculcou tacitamente em Abraão, quando o mandou subir ao monte onde deveria sacrificar Isaac, o seu único filho. Para designar o fenómeno fundamentalmente cristão da mundialização televisiva da religião, Derrida engendra um neologismo que evoca a sede romana: “mundialatinização”. No entanto, esta “mundialatinização” está sempre ligada, na sua produção, a fenómenos nacionais. Isso tornou-se muito óbvio na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa. Derrida sugere até que o tão famoso “regresso do religioso” tem de ser avaliado e compreendido em função destas manifestações eminentemente mediáticas.

Como não podia deixar de ser, há um preço a pagar por isto, que a televisão, sobretudo, cobra com juros altíssimos. Consistem esses custos no triunfo do Kitsch. É conhecida uma frase do gramático Pierre Fontanier (1765-1844), no seu tratado sobre as figuras do discurso, sobre os tropos, onde ele diz, ecoando uma afirmação de Boileau, que se produzem mais figuras de estilo, num só dia, no mercado parisiense de Les Halles, do que em toda a Eneida. Do acontecimento religioso da semana passada podemos dizer o mesmo: produziu-se mais Kitsch, em Lisboa, durante uma semana, do que em décadas de produção literária e artística.

Kitsch monumental esteve bem patente nos palcos-altares e em toda a parafernália para ser tele-vista. Quem conhece os gostos e os instrumentos do Kitsch ideológico, encontrava ali material para frutuosas comparações. Mas se quisermos analisar o acontecimento quanto ao fluxo de Kitsch produzido, temos de ir além da concepção tradicional que vê esse conceito por um prisma meramente estético que usamos para identificar os objectos de uma arte de massa, estereotipada, de “mau gosto”. Devemos uma noção de Kitsch muito mais alargada, que não se fica pelas propriedades formais de certos objectos, ao escritor vienense Hermann Broch, que foi ao ponto de elaborar filosoficamente o que seria o Kitsch como “modo de vida”, abrindo assim essa noção ao registo mais vasto da atitude existencial e a um tipo de actividades e experiências humanas. Aquela emoção estética a que assistimos, a satisfação emocionada com que cada imagem, cada testemunho, cada relato, cada comentário, cada citação, diziam uma única coisa, “vejam como é belo e emocionante!”, é um gesto que consiste em olhar-se ao espelho do embelezamento, fazendo surgir imediatamente a mentira do Kitsch.

Este “vejam como é belo!” ou “vejam como nos satisfazemos de emoção pela emoção que nós próprios produzimos” é uma ilustração perfeita do modo como Broch definiu o Kitsch: a subversão da ética pelo efeito estético. Não é o acontecimento em si que é Kitsch, não estou a sugerir que um acontecimento religioso como aquele que teve lugar em Lisboa tem, em primeiro lugar, um vínculo necessário com o Kitsch.

Kitsch é a sua encenação, o modo como ele é produzido e reproduzido pelos media, isto é, o discurso e as imagens de segundo grau que ele engendra e que, muito embora fazendo parte da lógica da mediatização cristã, muito facilmente vão para além dos seus próprios fins. Há momentos em que o Kitsch se pode tornar uma coisa nauseabunda e é difícil imaginar que a própria hierarquia da Igreja não o reconheça e não se sinta incomodada por ela. A vida Kitscht visa fazer coincidir a esfera do ideal com a esfera da realidade, aquilo a que Broch chamou “a ligação entre o céu e a terra”. Momentos desses, sobretudo nas televisões, fluíram ao longo da semana numa torrente imparável. Foi um dilúvio.

Livro de recitações

“Cada um fala a sua língua, mas entendemo-nos todos porque é a linguagem do amor”
In Expresso online, 3/08/2023

Tomo, um pouco ao acaso, este título de uma breve reportagem do Expresso onde se citam as declarações de um “peregrino” a uma jornalista. Kundera, que seguiu a lição de Hermann Broch, para a analisar o “Kitsch ideológico” dos regimes totalitários, concluindo que no mundo idealizado do Kitsch “a merda não existe”, deu este exemplo: uma criança a correr feliz atrás de uma bola num prado florido não tem em si nada de Kitsch. O Kitsch nasce a partir do momento em que alguém diz ou representa assim esse acontecimento: “Vejam como é belo uma criança a correr atrás de uma bola num prado florido!”. Este redobramento, que visa relatar uma verdade emocionante, através do embelezamento, da mentira da linguagem emocional estereotipada e portanto induzida, é aquele que podemos ver neste título (a não ser que ele tenha um sentido irónico), que é apenas uma gota no vasto oceano do Kitsch produzido ao longo de uma semana pela

https://www.publico.pt/2023/08/11/culturaipsilon/cronica/deus-ex-media-2059609

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

Carlos Matos Gomes - A religião do Ocidente não é a deste papa

 * Carlos Matos Gomes

2023 08 07

Ese algum ou alguma dos e das coristas que matraquearam vulgaridades e sopraram bolas de sabão sobre a Jornada Mundial da Juventude tivesse perguntado qual a causa pela qual os jovens participantes estariam dispostos a lutar?

Os grandes eventos devem suscitar interrogações. Conta-se que quando Moisés desceu do Sinai com a tábua dos 10 Mandamentos, anunciando que estes lhe haviam sido entregues por Deus, um dos assistentes lhe terá perguntado porque não viera Deus em pessoa transmiti-los. A história não relata o que aconteceu ao interpelante.

As religiões são sempre a transmissão de uma mensagem através de um mensageiro. Os céticos consideram que os mensageiros são os autores das mensagens. e procuram decifrar as mensagens. Os crente acreditam no que os reconforta, o mensageiro é apenas um cantor de canções de embalar. As suas palavras são meros sons que lhes ameniza as angústias. Nas religiões das sociedades mais complexas os crentes que constituem a massa não têm direito de fazer perguntas incómodas aos grandes mensageiros. Resta-lhes ouvir e acreditar no que já acreditavam. Mas há, ou haveria a possibilidade de perguntar o que pensa quem está a meu lado. Não ouvi nem vi alguém a perguntar.

Eu perguntaria o que pensam os jovens católicos (em particular dos franceses) dos jovens suburbanos que participaram nos incêndios e conduziram os motins de há um mês nas cidades francesas. E o que pensam os jovens católicos (em particular os norte-americanos) do embargo a Cuba, da invasão do Iraque, do Afeganistão, e da Síria, esta que até tem uma respeitável comunidade cristã, e o que pensam os jovens italianos sobre os migrantes do norte de África, e aos jovens de África perguntaria o que pensam da extração de matérias-primas dos seus territórios por grandes companhias ocidentais e assim por diante, incluindo o que pensam os sul-americanos da desflorestação da Amazónia ou do genocídio dos indígenas. Havia tantas perguntas a fazer aos jovens que vieram a Lisboa!

Mas no. Os grandes meios de comunicação não estão interessados nas causas das coisas, mas no espetáculo das coisas. Reduziram a interpretação de um grande acontecimento social e político ao mais rasteiro folclore. À semelhança, aliás, do que fazem com o futebol, outro grande fenómeno social, um fenómeno social total, como as religiões, motivador de emoções, gerador de grandes negócios, de interesses de toda a ordem e que é reduzido pelos fabricantes de alienação a qualquer coisa do género: vinte e dois tipos/as de calções a correr atrás de uma bola. Perguntar a um jovem participante nas JMJ porque veio a Lisboa e ficar todo contente ao ouvir a resposta: Ver o papa, equivale a interpelar um adepto do futebol e perguntar-lhe porque veio e ele responder: Vim ver o Ronaldo. As horas em que as câmaras de televisão seguiram o carro do papa são as mesmas em que seguem o autocarro das equipas de futebol a caminho do estádio! Não é um acaso, é uma estratégia de neutralização de questões.

Não existe inocência nas abordagens que a comunicação social de massas faz aos grandes eventos, nem sequer a da incompetência dos repórteres e diretores de comunicação. O primarismo das questões é deliberado, nem é novo, aliás. Comparar o papa da Igreja Católica a uma estrela do futebol até tem antecedentes anedóticos aqui em Portugal, na figura do comendador Santos da Cunha, governador civil de Braga, beato e queirosianamente populista, que numa celebração do 28 de Maio de 1926 se virou para Salazar e lhe atirou com esta pérola: «Vossa Excelência é o Eusébio do governo!» Os atuais comunicadores, com Marcelo Rebelo de Sousa à cabeça não desmerecem de Santos da Cunha bem poderiam ter dito: Vossa santidade é o Messi da nossa Igreja!

Mas a JMJ foi e é mais do que aquilo que as instituições de poder político e religioso pretendem que os cidadãos dela se apercebam. A mensagem do papa esteve e está em contra corrente da ideologia dominante no Ocidente. Daí tudo ter sido feito para a silenciar debaixo do ruído dos fait divers, das bênçãos das criancinhas e dos atiradores nos telhados.

A mensagem do papa Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude centrou-se no “outro”, nos outros, na ideia de aceitar os outros, de servir os outros, numa proposta de generosidade. Esta mensagem é herética, porque a ideologia dominante no Ocidente é centrada no “eu”, no individualismo. Por isso a mensagem centrada no outro foi diluída pelos intérpretes numa calda de vulgaridades e de ridículo que começou logo com a sacudidela de Marcelo à chegada. Estava dado o mote pelo mais alto magistrado da Nação Católica aos jovens católicos. O papa é um boneco. Pensem no papa como uma representação do vosso mundo e não como um estímulo para questionarem os seus fundamentos.

Gostaria de perguntar o que pensam os jovens vindos para JMC do facto de Adam Smith, o filósofo considerado o pai das teorias económicas do capitalismo liberal, a religião dominante à escala global imposta pelo Ocidente cristão, autor de «A causa da riqueza das nações» considerar que o egoísmo das pessoas redunda no bem comum. Que o egoísmo é, então, o motor da sociedade cristã!

Adam Smith não se ficou pela simples enunciação do valor cristão do egoísmo. Explicitou as virtudes do individualismo e do egoísmo: “Na verdade, o indivíduo geralmente não tem intenção de promover o interesse público, nem sabe o quanto o promove. Ao preferir sustentar a atividade doméstica e individual que a destinada à sociedade exterior, ele tem em vista apenas a sua própria segurança; e, ao dirigir essa atividade de maneira que a sua produção seja a de maior valor possível, ele tem em vista apenas o seu lucro. O indivíduo é guiado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção.”

Isto é, para o grande teorizador do capitalismo em que vivemos, que tem por referência moral o cristianismo nas suas várias igrejas, incluindo a católica romana, “o facto de este fim (o lucro da sociedade) não fazer parte da intenção dos indivíduos nem sempre é o pior para a sociedade. Ao procurar o seu próprio interesse, o indivíduo frequentemente promove o da sociedade de maneira mais eficiente do que quando realmente tem a intenção de promovê-lo.”

Em resumo, o modelo de sociedade que os cristãos — Adam Smith era um cristão fervoroso — impuseram o mundo enaltece o egoísmo como meio de realização individual e o bem da sociedade apenas é considerado um eventual ganho complementar. As faculdades de economia das universidades católicas e cristãs em geral assentam as suas lições na teoria do egoísmo de Adam Smith e não na generosidade.

O que pensam estes jovens católicos do modelo de sociedade fundado por Adam Smith e que até ao presente tem aprimorado e radicalizado os seus princípios de lei da selva e de fé na “mão invisível”, a metáfora que se tornaria a figura mais famosa do liberalismo económico, da concorrência, da vitória dos mais fortes e com menos escrúpulos?


https://cmatosgomes46.medium.com/a-religi%C3%A3o-do-ocidente-n%C3%A3o-%C3%A9-a-deste-papa-c018f5a01245