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terça-feira, 22 de abril de 2008

Na trilha de Macunaíma (7)



por Celio Turino*
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A redução da jornada de trabalho e a conquista de uma vida emancipada

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7- A influência da revolução russa na redefinição de um conceito de ócio

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Paradoxalmente, a importância do lazer no movimento comunista é relativizada exatamente no momento em que o operariado tem, pela primeira vez, a oportunidade de construir o seu modelo de sociedade, emancipando-se do trabalho forçado. Com a Revolução Russa em 1917, as tarefas da construção do socialismo exigiam, antes do lazer, a exaltação ao trabalho. E não apenas exaltação, como a que se apresenta nas obras do realismo socialista, mostrando trabalhadores felizes dirigindo tratores ou forjando o aço, mas de trabalho pesado, estafante. Não pretendemos fazer uma descrição minuciosa desse período, muito menos um julgamento. Mas, para entendermos melhor essa relação dialética entre ócio e trabalho e a postura dos comunistas em relação à preguiça, é necessário avaliar o que imediatamente após a Revolução Bolchevique.

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A Rússia estava isolada, invadida por exércitos estrangeiros, além da movimentação de diversos exércitos leais ao regime czarista que ainda atuavam em seu território. A solidariedade à revolução era intensa, em todo mundo pipocavam greves, inclusive no Brasil, onde os anos de 1917/18 foram considerados anos vermelhos e a greve de 1917 praticamente paralisou São Paulo. Mas a revolução não vingou em nenhum outro país além da Rússia, apenas na Hungria, por um breve período em 1919 e por uma série de circunstâncias particulares, instalou-se uma república bolchevique, liderada por Bela Kun que, em seu discurso de renúncia, acusava o próprio proletariado pela falta de sustentação política necessária, de modo que essa experiência não se mantivesse por mais de noventa dias. Por outro lado, o Exército Vermelho que, ao contrário do que se pensa, avançou para além da Rússia, procurando expandir ao máximo a revolução, foi derrotado na batalha de Varsóvia, em 1920 e teve que recuar. O embaixador britânico Lorde D´Abernon, considerou a vitória polonesa, ''a batalha decisiva da história do mundo''. Esse dado de realidade impôs à Rússia a tarefa de construir o socialismo apenas em suas fronteiras.

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Construir o socialismo sob intenso cerco capitalista era algo impensável nas previsões de Marx, mas não havia outra alternativa. Um milhão de russos morreram de fome, as indústrias e a infra-estrutura estavam destruídas, era preciso trabalho, muito trabalho; trabalho e mais trabalho. Em maio de 1919, Lênin convocou os trabalhadores para os ''Sábados Comunistas''. A instituição dos Sábados Comunistas deveria acontecer em função de uma excepcionalidade de guerra, mas foi muito utilizada em todo o período de construção do socialismo na URSS e consistia num apelo à ''autodisciplina voluntária'', muitas vezes convocada pela Cheka (Comissão Extraordinária para Todas as Rússias (Chekka) para ''combater a contra-revolução e a sabotagem'' ). Sobre esse momento, Eric Carr, autor da monumental História da Revolução Russa, constata que:

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''...milhares de trabalhadores em Moscou e Petrogrado se apresentaram como voluntários para trabalhar horas extras sem remuneração, a fim de intensificar o envio de soldados e suprimentos para as frentes de combate, e esse precedente foi seguido um ano mais tarde. A instituição dos udarnik, ou trabalhadores de choque, para realizar trabalho particularmente importante com grande rapidez, data desta época.'' [e que, provavelmente]''...sem essa combinação de dura coação e entusiasmo espontâneo a guerra civil não poderia ter sido vencida''.

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Durante toda a primeira fase da revolução russa, até a Segunda Guerra Mundial, a continuidade dessas convocações teve um papel estratégico (econômico e não apenas de mobilização ideológica) no desenvolvimento econômico da ''pátria socialista'' e certamente modificou a forma de ''ver'' e perceber o ócio e preguiça.

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Após a Revolução Russa, a circulação de O Direito à Preguiça é arrefecida, mas a cada novo fluxo revolucionário, ela aparece com toda a força. A obra de Lafargue foi um dos textos políticos mais lidos na República Espanhola em particular no período da guerra civil, tendo sido o único a ser apreciado tanto por anarquistas como por marxistas; na França foi publicado clandestinamente pela resistência e ao final da Segunda Guerra contou com diversas edições patrocinadas pelo Partido Comunista Francês, sendo uma de suas obras de maior circulação. Quando das revoltas estudantis de 1968 estava traduzido em quase todos os idiomas, tendo sido assumido por diversos movimentos esquerdistas em todo o mundo e desde então tem sido constantemente difundido. Também inspirou o surgimento do Movimento Situacionista (entre 1958 e 1969), na França, que adotando uma postura de subversão de códigos, hábitos e formas de pensar, de certa forma profetizou ''o Maio de 68'' em Paris com ‘A Sociedade do Espetáculo’ de Gui Debord, ao demonstrar que a mercadoria ‘contempla a si mesma em um mundo que ela própria criou''. No final do século 20, o grupo Krisis em seu Manifesto contra o trabalho (1996) retoma a herança de ''O Direito à Preguiça ao lembrar que ''...o que, para que e com que conseqüência se produz, no fundo não interessa nem ao vendedor da mercadoria força-de-trabalho nem ao comprador. Os trabalhadores das usinas nucleares e das indústrias químicas protestam veementemente quando se pretende desativar as suas ‘bombas-relógio’. E os ''empregados'' da Volkswagen, Ford e Toyota são os defensores mais fanáticos do programa suicida automobilístico''.

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No Brasil constantemente nos deparamos com situação semelhante: centrais sindicais como a CUT ou Força Sindical defendendo incentivos fiscais para a indústria automobilística, modelos de carro popular. Envergonhe-se proletariado! , diria Lafargue. Note-se que a França, onde Lafargue viveu a maior parte de sua vida e lá fundou o precursor do Partido Comunista Francês, sempre esteve presente nesses momentos de ressurgimento de O Direito à Preguiça, indicando que talvez não seja apenas uma coincidência o fato de ser esse o país que mais avançou nas ações pela redução da jornada de trabalho.

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Do mesmo modo que aconteceu no período anterior às revoluções burguesas, quando era preciso travar um duro combate contra o parasitismo da aristocracia do Antigo Regime, no século 20, o movimento operário associou a preguiça ao parasitismo burguês. A crítica marxista ao lazer ficou muito mais concentrada na questão do controle do tempo de não trabalho do que propriamente na defesa da preguiça. Trotski retomou o tema em Terrorismo e Comunismo, onde ele considerava o homem como ''naturalmente preguiçoso'' e que esta era uma qualidade do progresso humano, pois ''se o homem não tivesse procurado economizar suas forças, ele não teria propiciado o desenvolvimento da técnica nem a aparição da cultura social'' imaginando o homem comunista do futuro como um ''feliz e genial preguiçoso''. Mas para a luta imediata, era preciso identificar a ''indolência parasitária da burguesia'' em caricaturas onde gordos capitalistas fumavam charuto e sobreviviam às custas do trabalho alheio.

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''Come ananás, mastiga perdiz
Teu dia está prestes, burguês.''

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Dizia Maiakovski em seu conhecido poema. Esse conjunto de fatores, explica o motivo de O Direito à Preguiça ter sido traduzido tão tardiamente no Brasil. Entre nós, o Partido Comunista só foi formado em 1922, sob o impacto da construção do socialismo na Rússia e ao mesmo tempo, travando um duro combate em relação ao latifúndio improdutivo, as terras ociosas. E isso em um país que nem havia tomado contato com a cultura puritana do trabalho; até 1888 suar o rosto com trabalho era degradante, coisa de escravos, depois, de imigrantes, ''carcamanos'', gente suja, comedores de bucho de boi, por isso, bucheiros [comedor de víceras]. Antes de defender a preguiça, era necessário exaltar o trabalho.

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O fato de a nossa primeira edição de O Direito à preguiça no Brasil ter sido tão tardia, com uma circulação relativamente restrita, menos de 20.000 exemplares em um total de 6 edições, de 1980 até os dias de hoje, não tira a atualidade e a importância deste manifesto. Longe de ter sido superado ''...ele pode resgatar a dignidade e o auto-respeito dos trabalhadores quando, em lugar de se sentirem humilhados, ofendidos e culpados pelo desemprego, se erguem contra os privilégios da apropriação privada da riqueza social e contra a barbárie contemporânea porque podem conhecê-la por dentro e aboli-la. Lutarão não mais pelo direito ao trabalho, e sim pela distribuição da riqueza e pelo direito de fruir todos os seus bens e prazeres'', são as palavras precisas de Marilena Chauí no prefácio a O Direito à Preguiça.

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(continua)

Próximo capítulo: A preguiça sob a lógica do capitalismo

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*Celio Turino, Historiador, atualmente exerce o cargo de Secretário de Programas e Projetos Culturais (Ministério da Cultura) e responsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho - 31 DE MARÇO DE 2008 - 16h32
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terça-feira, 15 de abril de 2008

Na trilha de Macunaíma (6)


por Celio Turino*

A redução da jornada de trabalho e a conquista de uma vida emancipada


6 - Os comunistas e o direito ao ócio

Lafargue, militante da Associação Internacional dos Trabalhadores, membro da Comuna de Paris, fundador do Partido Operário Francês e da Segunda Internacional Socialista, foi contundente em sua crítica aos proletários da França. De certa forma essa contundência deve ter surtido efeito, pois a França é o país que mais editou O Direito à Preguiça sendo a nação que mais avançou no debate e na aplicação de uma efetiva redução da jornada de trabalho. Na série de artigos, depois publicados na forma de um pequeno livro, ele insiste na denúncia à armadilha do louvor ao trabalho e, com força poética, encadeando palavras, vai desmascarando a própria ideologia capitalista:

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''Os próprios operários, ao cooperarem para a acumulação de capitais produtivos, contribuem para o fenômeno que, cedo ou tarde, irá privá-los de parte de seu salário.[...]

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Trabalhem, trabalhem proletários, para aumentar a riqueza social e suas misérias individuais, trabalhem, trabalhem para que, tornando-se mais pobres, tenham mais razões para trabalhar e para ser miseráveis. Essa é a lei inexorável da produção capitalista. [...]

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Os proletários, embrutecidos pelo dogma do trabalho, não compreendem que o excesso de trabalho que eles se infligiram durante o tempo da propensa prosperidade é a causa de sua miséria atual.''

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Seu manifesto, no entanto, não é um ataque cego ao trabalho, conceito caro ao marxismo, a começar por um artigo de fundamental relevância, escrito por Engels, ''O papel do trabalho na transformação do macaco em homem''. Pelo contrário, o que ele prega é distribuição dos benefícios do trabalho, em uma vida não alienada, que rompa com a divisão entre trabalho intelectual e manual, cheio de sentidos, que libere e emancipe o indivíduo. E essa forma de trabalho, que não tenha por objetivo o lucro do capitalista, pode ser executada em uma jornada bem menor. Lembra Lafargue:

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''o trabalho só se tornará um condimento do prazer da preguiça, um exercício benéfico para o organismo humano e uma paixão útil para o organismo social quando for sabidamente limitado a um máximo de três horas por dia.''

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Para conquistar essa situação é preciso inverter a lógica dominante, procedendo do mesmo modo que a burguesia fez quando, com a Revolução Francesa, assumiu até mesmo o controle do tempo, abolindo feriados, substituindo a semana bíblica de sete dias pela semana de dez, libertando os ''operários do domínio da Igreja para melhor dominá-los através do trabalho''. Assim como assumir o controle do tempo é fundamental, também é preciso assumir o controle da tecnologia, distribuindo os seus benefícios para todos, pois, do contrário, no lugar de trazer alívio, as máquinas aprisionarão e empobrecerão cada vez mais o trabalhador:

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''A paixão cega, perversa e homicida pelo trabalho transforma a máquina libertadora em instrumento de escravização dos homens livres: sua produtividade os empobrece.''

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Posteriormente, em um apêndice de seu manifesto, Lafargue encontra em Aristóteles a justificativa para essa inversão de lógica, tendo por objetivo um mundo sem senhores ou escravos:

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''Se cada instrumento pudesse realizar seu trabalho obedecendo ou antecipando a vontade de outros, como as estátuas feitas por Dédalo, ou os trípodes giratórios de Hefesto, os quais, diz o poeta,''sozinhos entravam na assembléia dos deuses; se, da mesma maneira, a lançadeira do tear tecesse sozinha e a palheta tocasse a lira, os manufatureiros não precisariam de trabalhadores, nem os senhores precisariam de escravos''

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''O sonho de Aristóteles é nossa realidade. [...] a máquina é a redentora da humanidade, o Deus que resgatará o homem das sórdidas artes e do trabalho assalariado, o Deus que lhe trará lazer e liberdade''

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Essa parte do livreto reflete muito bem o pensamento da época, independente de ideologias, a crença na tecnologia e no que viria a ser a automação industrial, mas ele faz isso sem deixar de lado a necessidade fundamental do controle sobre essas mesmas máquinas que só pode acontecer a partir do controle coletivo dos meios de produção, pois, do contrário, no lugar de liberar energias humanas elas reduzem-se a um mero instrumento de concentração e lucro para o capitalista.

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O Direito à Preguiça identifica na exploração fabril uma nova forma de escravidão e sua publicação foi um instrumento, uma ferramenta para a práxis política e estava em profunda sintonia com o movimento operário da época. Desde o Congresso de Genebra, da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), em 1866, a questão da redução da jornada de trabalho, com a limitação da jornada diária de 8 horas, assim como a supressão do trabalho noturno e a regulamentação do trabalho infantil, assumem vital importância e o Primeiro de Maio é expressão desse movimento.

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No Brasil, essa bandeira é colocada pela primeira vez no Congresso Operário Brasileiro, em 1906 e em 1907 houve a primeira greve geral pelas 8 horas. Francisco Foot Hardman, autor de Nem pátria, nem patrão, ao analisar a vida operária e a cultura anarquista no Brasil, identifica várias citações a Lafargue na imprensa operária em sua fase anterior a 1920, sendo que a primeira é de 1896, no jornal socialista, A Questão Social, de Santos, estado de São Paulo; no jornal de número 44, à página 3, há um resumo de outro popular panfleto escrito por Lafargue: A religião do Capital, demonstrando uma relativa sincronia entre o movimento socialista brasileiro e o movimento operário europeu. Porém, a primeira tradução de O Direito à Preguiça no Brasil só acontece em 1980, Foot Hardman identifica esse atraso no fato de que os textos ''...são incômodos não só para a consciência burguesa, mas também para as ideologias conciliatórias do ''sacrifício para todos'', da abnegação ao ofício, do ''apertar'' o cinto, todas elas afinadas com a impostura de um consenso esquisito e arbitrário e apoiadas numa ética do trabalho, conservadora e puritana''.

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A questão da preguiça, ou do lazer, no movimento operário sempre esteve dialeticamente ligada ao combate à exploração capitalista. Basta lembrar que um conceito central de O Capital é a redução da taxa de Mais-Valia, ou seja, do sobre trabalho. Quanto mais tempo liberado do trabalho, menor a taxa de exploração. Engels via na ampliação do tempo do lazer o impulso que faltaria à emancipação dos trabalhadores e a superação do capitalismo. Ele acreditava que com mais lazer, os trabalhadores se reuniriam mais, teriam a possibilidade de aprofundar a sua organização, aumentando a consciência coletiva e a sua capacidade de mobilização. A realidade do século 20 demonstrou que as motivações para a prática política são muito mais complexas. No entanto essa é uma indicação de como os revolucionários do século 19 percebiam a importância estratégica do lazer e do tempo liberado do trabalho, bem como de sua identificação com ideais libertários, humanistas:

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''Nos dias de grande alegria para o povo, quando os comunistas e os coletivistas fizerem desaparecer as garrafas, correr os presuntos e revoar os copos [...]
No regime da preguiça, para matar o tempo que nos mata a cada segundo, haverá sempre espetáculos e representações teatrais''.

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E essa tradição libertária e humanista, podendo parecer utópica ou romântica, não estava dissociada do marxismo em sua preocupação científica, racional, estando profundamente identificada com a gênese do pensamento de Marx e Engels. Em um dos poucos momentos em que eles trataram do que viria a ser a sociedade comunista, nos seus manuscritos de juventude, uma idéia muito semelhante à que vimos já estava expressa:

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''...na sociedade comunista, onde cada um não tem uma esfera de atividade exclusiva, mas pode aperfeiçoar-se no ramo que lhe apraz, a sociedade regula a produção geral, dando-me assim a possibilidade de hoje fazer tal coisa, amanhã outra, caçar pela manhã, pescar à tarde criar animais ao anoitecer, criticar após o jantar, segundo meu desejo, sem jamais me tornar caçador, pescador, pastor ou crítico'' (A Ideologia Alemã – p. 47 – Ed. Grijalbo -1977)

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Para eles, a questão da superação da exploração do trabalho e a emancipação humana com a conquista de um tempo efetivamente livre, entendido como liberdade e capacidade de escolha em relação ao que cada um pode e deve fazer com o seu tempo, estavam diretamente relacionadas à ruptura com a alienação do trabalho (a passagem do reino da necessidade para o reino da liberdade). Sendo que essa alienação está intimamente relacionada à divisão social do trabalho onde ''...divisão do trabalho e propriedade privada são expressões idênticas''

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Na época, o lazer ainda era estruturado pelas próprias entidades sindicais e culturais do proletariado, ou então por círculos intelectuais ligados à social democracia ou aos anarquistas. Ou seja, o lazer era inerente à auto-organização da classe trabalhadora, que programavam seus passeios, piqueniques, festivais, ''teatro social'', espetáculos, jogos e festas. A questão do controle externo sobre o tempo do lazer em uma sociedade administrada será analisada posteriormente, pelos teóricos da Escola de Frankfurt; àquela época, a industria cultural ainda dava os primeiros passos, não tendo assumido o (quase) pleno controle dos meios e veículos do lazer e da cultura.

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(continua)

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No próximo capítulo: A influência da revolução russa na redefinição de um conceito de ócio

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*Celio Turino, Historiador, atualmente exerce o cargo de Secretário de Programas e Projetos Culturais (Ministério da Cultura) e responsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho -
24 DE MARÇO DE 2008 - 16h17
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Na trilha de Macunaíma (5)

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por Celio Turino*

A redução da jornada de trabalho e a conquista de uma vida emancipada


5- A recuperação da idéia grega de ócio


A recuperação da idéia grega de ócio, assim como de outros povos antigos, não é obra de Lafargue, mas a sua difusão, sem dúvida, é conseqüência da ampla repercussão alcançada por O Direito á Preguiça. Foi a partir dele que pesquisadores puderam avançar na análise etimológica do ócio, bem como de todos os sentidos e significados daí decorrentes. Até então, prevalecia a versão da Encyclopédie, organizada por Diderot, no século 18:

''Os egípcios, os espartanos e os lucanos tinham leis contra o ócio. Os atenienses eram ainda mais atentos em prevenir o ócio. Não podendo obrigar todos os cidadãos a ocupar-se de coisas similares, por causa da desigualdade de seus dotes, eles faziam com que abraçassem profissões de acordo com as faculdades de cada um. Com esse objetivo ordenavam aos mais pobres da república que se voltassem para a agricultura e ao comércio, uma vez que sabiam que o ócio é a mãe da pobreza e que a pobreza é a mãe do crime. Para os ricos, prescreviam que se dedicassem à arte da equitação, à caça e à filosofia, estando convencidos de que, deste modo, eles poderiam ser excelentes em qualquer uma destas artes, afastando-se assim de muitas formas de desordem''.

''Proletários embrutecidos pelo dogma do trabalho, escutem a linguagem desses filósofos'', conclamava Lafargue que, referenciando-se em Heródoto, apresentava uma outra interpretação:

''Não saberia afirmar se os gregos herdaram dos egípcios o desprezo pelo trabalho, porque encontrei o mesmo desprezo entre os trácios, citas, persas e lídios. Em suma, porque, na maioria dos povos bárbaros, aqueles que aprendem o artesanato mecânico e mesmo seus filhos, são olhados como cidadãos de última classe. Todos os gregos foram educados segundo esses princípios, sobretudo os lacedemonianos''.

Em 1840, o livro de Da Abolição da Escravidão Antiga no Ocidente, também apresentava esse ponto de vista:

''Em Atenas, os cidadãos eram verdadeiros nobres, que deviam ocupar-se apenas da defesa e da administração da comunidade, assim como faziam os guerreiros selvagens dos quais descendiam. Encarregavam os escravos do trabalho para que, no interesse da república, seu tempo ficasse livre para cuidarem do intelecto e do corpo.''

Xenofonte, afirmava que ''o trabalho retira todo o tempo e não dá lugar para a república e os amigos'', acreditando, inclusive, que as pessoas que fazem trabalhos manuais estavam...

''...condenadas a permanecer sentadas durante o dia inteiro, sendo que algumas ficam continuamente junto ao fogo, não podem deixar de sofrer alterações no corpo e é muito difícil que o espírito não se ressinta disso .''

Foi na Grécia antiga que os pensadores e pesquisadores dos séculos 18 e 20 encontraram a fonte para reconstruir os valores do ócio. E é exatamente no uso do tempo livre dedicado ao ócio que os fundamentos da cultura, da ética e da moral ocidental foram definidos. Sebastian DeGrazia percebia nesse ideal grego de ócio ''um elemento diferente, um tom ético, uma insinuação de que o tempo livre malbaratado não é lazer''; para em seguida afirmar que ''...O lazer é uma condição ou um estado – o estado de estar livre da necessidade do trabalho'' admitindo que o lazer independe do momento histórico, existindo em todas as civilizações. Dumazedier concorda em parte com essa afirmação, no entanto, para ele ''...o lazer possui traços específicos, característicos da civilização nascida na Revolução Industrial'' e deve ser analisado dentro de um contexto histórico.


Johan Huizinga, autor de Homo Ludens, acrescenta mais um aspecto nesta concepção helênica, onde o ócio estava associado à aprendizagem, ao cultivo do ''eu'' e era diferente da simples definição de tempo livre. Originalmente, scholé, significava ''parar'', ''cessar'', ou seja, parar para ter tempo disponível, tempo para si, sendo a raiz etimológica tanto de ócio como de escola:


''A sabedoria e a ciência dos gregos não eram produtos da escola, no sentido que atualmente damos à palavra. Ou seja, não eram produtos secundários de um sistema educacional destinado a preparar os cidadãos para funções úteis e proveitosas. Para os gregos, os tesouros do espírito eram fruto do ócio e para o homem livre todo o tempo durante o qual não lhe era exigida qualquer prestação de serviços ao Estado, à guerra ou ao ritual era tempo livre.[...] A palavra escola tem por trás dela uma história curiosa. Originalmente significava ‘ócio’, adquirindo depois o sentido exatamente oposto de trabalho e preparação sistemática''

Atualmente, o grande propagador deste conceito é o sociólogo do trabalho, Domenico de Masi. Ele propõe um novo modelo que uniria trabalho, estudo e lazer de modo que as pessoas seriam educadas a partir da satisfação de necessidades radicais, como a introspecção, a amizade, o amor, as atividades lúdicas e a convivência. A esse novo modelo de educação e organização social, considerado muito mais produtivo e adequado às necessidades da sociedade pós-industrial, ele dá o nome de Ócio Criativo. Ao final do capítulo retornaremos a esta questão, sob o ponto de vista dos desafios atuais, mas antes disto é preciso recuperar o posicionamento dos dois campos ideológicos fundamentais para a compreensão do século 20.

(continua)

No próximo capítulo: Os comunistas e o direito ao ócio





*Celio Turino, Historiador, atualmente exerce o cargo de Secretário de Programas e Projetos Culturais (Ministério da Cultura) e responsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho - 17 DE MARÇO DE 2008 - 16h00
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sexta-feira, 11 de abril de 2008

Na trilha de Macunaíma (4)

Na trilha de Macunaíma (4)


por Celio Turino*

A redução da jornada de trabalho e a conquista de uma vida emancipada


4-O direito à preguiça

''Preguiça mãe das artes e das virtudes nobres,
seja o bálsamo das angústias humanas!''

È desta forma que Paul Lafargue, genro de Marx, encerra o seu panfleto, ''O Direito à Preguiça''. Texto preciso em seus argumentos é, ao mesmo tempo, persuasivo e comovente, um clássico da literatura panfletária, podendo ser lido como instrumento de análise, crítica e, sobretudo, de ação revolucionária. Até o inicio do século 20, a publicação desta obra entre o movimento socialista internacional só foi inferior à circulação do Manifesto Comunista; na Rússia, ela foi traduzida antes mesmo que o Manifesto de Marx e Engels, sendo que entre 1905-1907, contou com 17 edições. Laura Marx e Paul Lafargue praticaram eutanásia, injetando veneno nas veias, morreram com sessenta e cinco e setenta anos. Em uma nota em O Direito à Preguiça, Lafargue, de certa forma, antecipa esta sua decisão: ''Os índios das tribos belicosas do Brasil matam seus inválidos e velhos; demonstram sua amizade pelo atingido pondo fim a uma vida que não se alegra mais com os combates, festas e andanças. Todos povos primitivos deram aos seus estas provas de afeto'', trinta anos depois, a carta escrita pelos dois dizia algo muito semelhante: ''São de corpo e de mente, eu me sinto antes que a velhice impiedosa, que me retirou um por um os prazeres e as alegrias da existência e que me privou dos recursos físicos e intelectuais, paralise a minha energia e destrua a minha vontade, fazendo com que eu me torne um peso para mim mesmo e para os demais''. O discurso no funeral de Paul e Laura Lafargue, foi proferido em 3 de dezembro de 1911, por Lênin, o líder da Revolução Russa, atestando a importância de Lafargue para o movimento comunista internacional:

''Os operários conscientes e todos os social-democratas da Rússia aprenderam a estimar Lafargue profundamente como um dos divulgadores mais dotados e mais profundos do marxismo, cujas idéias foram tão brilhantemente confirmadas pela experiência da luta de classes na revolução e contra revolução russas. [...] Para nós que tivemos a felicidade de buscar, nas obras de Lafargue e seus amigos, o conhecimento direto da experiência e do pensamento revolucionários dos operários europeus, é-nos agora particularmente evidente que o triunfo da causa, a cuja defesa Lafargue dedicou sua vida, aproxima-se rapidamente''.

De fato, seis anos depois, o mundo presenciaria a vitória da revolução proletária na Rússia e muitos dos líderes da revolução foram iniciados no marxismo lendo O Direito à Preguiça. É mérito desse manifesto recuperar o sentido grego de ócio e assim travar o primeiro combate aos ideais burgueses de trabalho e preguiça. Sua obra foi publicada na forma de artigos e começa com a seguinte constatação:

''Uma estranha loucura tomou conta das classes operárias [...] Essa loucura trouxe consigo misérias individuais e sociais que há dois séculos torturam a triste humanidade. Essa loucura é o amor ao trabalho, levada até o esgotamento da energia vital do indivíduo e de seus filhos. [...] Na sociedade capitalista, o trabalho é a causa de todas as degenerações intelectuais, de todas as deformações orgânicas''.

Seu estilo literário é irônico, direto e ao mesmo tempo sagaz e elegante, dirigindo seus ataques não somente à ordem burguesa como também à hipocrisia cristã. Logo no início ele caracteriza a santificação do trabalho como uma ''aberração mental'' e toda sua argumentação desconstrói a idéia da preguiça como pecado capital. Declarando-se não cristão, ele apresenta o sermão da montanha, proferido por Jesus, como um louvor à preguiça:

''Contemplai os lírios dos campos: não trabalham ou tecem, porém eu vos digo que Salomão, em toda sua glória, jamais esteve mais nobremente vestido'' (Evangelho segundo São Mateus, cap. VI)

Ou então invoca à própria conduta de Deus, que:

''...deu aos seus adoradores o exemplo supremo de preguiça ideal: após seis dias de trabalho, descansou por toda a eternidade''

De fato, a Igreja Católica, prega a preguiça como pecado apenas para os fiéis; para eles próprios, os monges e cléricos, o ideal máximo para se aproximar de Deus é a vida em mosteiro, o estado de contemplação, mesmo que frugal. ''Nos tempos medievais, as interpretações cristãs de Aristóteles atribuíam uma índole sagrada à contemplação, à sabedoria e à beleza que deveriam ser cultivadas pelos monges dentro dos mosteiros. Nesse ambiente, o trabalho manual só era permitido depois da quietude alcançada pela contemplação da divindade''. (Uribe Ortega, Graciela – Identidade Cultural, território e lazer – in Lazer numa sociedade globalizada – WorldLeisure – 2000)


Essa é uma prática comum a todas as outras religiões que buscam se ‘religar’ com Deus isolando-se de todas e quaisquer preocupações mundanas, com exceção do protestantismo, como apontou Max Weber e que retomaremos um pouco à frente. Sebastian de Grazia aponta que São Tomás de Aquino, na Summa Theológica, via no trabalho uma necessidade da natureza que, porém, em havendo condições para que as pessoas pudessem viver sem trabalhar, a sociedade (ou parte dela) estaria desobrigada de faze-lo. Para São Tomás de Aquino:

''...a atividade religiosa está por cima da atividade secular, porém a contemplação está por cima de tudo mais, coroando o homem da mais alta faculdade – o poder de conhecer a verdade – regozijando a quem a realiza. O homem contempla porque ama a verdade, porque quer conhece-la e entende-la. O fim do homem é contemplar Deus cara a cara, ato que o faria totalmente feliz; contempla-lo, considera-lo em sua mente lhe proporciona um brilho de verdadeira felicidade'' .

Ao apontar a contradição filosófica de colocar o ócio [a contemplação é um estado de ócio] como pecado capital, Lafargue também não é indulgente com os trabalhadores, e alerta:


''E, no entanto, o proletariado, a grande classe que abarca todos os produtores das nações civilizadas, a classe que, ao se emancipar, emancipará a humanidade do trabalho servil e fará do animal humano um ser livre, o proletariado, traindo seus instintos, desconhecendo sua missão histórica, deixou-se perverter pelo dogma do trabalho. Seu castigo foi rude e terrível. Todas as misérias individuais e sociais nasceram de sua paixão pelo trabalho''

Ele lembra que a lógica do trabalho, além de produzir riquezas usufruídas apenas pelos detentores do capital, é uma lógica do controle sobre o povo que trabalha. ''Quanto mais meu povo trabalhar, menos vícios terá'', escreveu Napoleão e até hoje tantos outros escrevem, ou repetem frases semelhantes. Para Lafargue, as fábricas modernas tornaram-se as ''prisões ideais'', formas de ''dobrar os sentimentos de orgulho e de independência que [a preguiça] traz consigo''. Mais uma vez, ele faz um alerta ao proletariado, particularmente o francês, defendeu a lei de doze horas de trabalho, como uma conquista republicana:

''Vergonha para o proletariado francês! Apenas escravos teriam sido capazes de tamanha baixeza. [...] Eles entregaram aos barões da indústria suas mulheres. Com suas próprias mãos, demoliram seu lar. Com suas próprias mãos, demoliram suas casas e secaram o leite de suas mulheres. Com suas próprias mãos estragaram a vida e o vigor de seus filhos.


Envergonhe-se proletariado!


[...] Dizem que nossa época é o século do trabalho. Na verdade é o século da dor, da miséria e da corrupção.''

(continua)

Próximo capítulo: A recuperação da idéia grega de ócio





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in Vermelho -
10 DE MARÇO DE 2008 - 15h54
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Na trilha de Macunaíma (3)

Na trilha de Macunaíma (3)


por Celio Turino*

A redução da jornada de trabalho e a conquista de uma vida emancipada


3- O elogio ao ócio

Poucos autores trataram do tema com tanta profundidade e clareza de raciocínio como o filósofo, matemático e pacifista, Bertrand Russel. Um dos grandes pensadores do século 20, ganhador do premio Nobel, não por uma área específica do conhecimento, mas pelo conjunto de sua obra, Bertrand Russel conclui que ''a crença nas virtudes do trabalho produz males sem conta e a moral do trabalho é ''uma moral de escravos''. Inicialmente ele procura definir o que é o trabalho, identificando dois tipos de trabalho:


a) o que modifica a posição dos corpos na superfície da terra ou perto dela, relativamente a outros corpos;


b) o que manda que outras pessoas façam o primeiro.


Lembrando que o primeiro tipo é desagradável e mal pago e o segundo muito bem pago e agradável, conclui que, para o segundo tipo:

''...além daqueles que dão ordens, há os que dão conselhos a respeito das ordens que devem ser dadas. Geralmente dois tipos opostos de conselhos são dados simultaneamente por dois grupos organizados, a isso se chama de política. A qualificação necessária para esse tipo de trabalho não é o conhecimento do tema a respeito do qual se dão conselhos, mas o conhecimento da arte de falar e escrever convincentemente, isto é, da propaganda.''.

Ele também faz uma distinção para uma terceira classe de pessoas, os grandes proprietários de terra que, por meio de um direito de herança e de suas propriedades, fazem com que as outras pessoas ''paguem pelo privilégio de poder existir e trabalhar''. Neste momento do texto, encontramos uma obra prima na arte da oratória. Utilizando-se da fina ironia das classes altas inglesas, Bertrand Russel provoca no leitor uma completa inversão de valores, os nobres e grandes proprietários de terra, acostumados a ter tratamento de primeira classe, agora são apontados como uma terceira classe de pessoas. Com uma única ironia, ele inverte uma representação social construída durante séculos e desmonta um dos pilares da ideologia dominante. Esses proprietários são classificados como ociosos, e ele alerta que a esse ócio não dedica elogio, pois...:

''...o seu ócio só é possível devido ao trabalho dos outros e, na verdade, a sua aspiração a um ócio confortável é, historicamente, a origem de todo o evangelho do trabalho. A última coisa que essa gente jamais desejou é que os outros seguissem o seu exemplo.''

Essa ética transformou ócio e preguiça em pecado apenas para os outros, invertendo o próprio sentido de trabalho e ócio. Até a Revolução Industrial, o excedente produzido por um único homem era pouco mais do que o necessário para sua própria manutenção e de sua família. A apropriação deste excedente está na origem do Estado, que era imposta pela força das armas (os guerreiros responsáveis pela defesa da tribo logo tornaram-se os coletores de impostos), ou pela força da crença religiosa (os sacerdotes adoravam receber seus tributos). Quando não havia excedente, a coleta continuava e os que não tinham força para extrair a parte dos outros, eram condenados à fome:

''Pouco a pouco, porém, descobriu-se que era possível induzi-los a aceitar uma ética segundo a qual era sua obrigação trabalhar duro, mesmo que uma parte desse trabalho fosse para sustentar o ócio dos outros. [...] A idéia do dever, historicamente falando, foi um meio usado pelos detentores do poder para convencer os demais a dedicarem suas vidas ao benefício de seus senhores''.



Bertrand Russel demonstrou que essa era uma forma ''invertida'' de consciência, em que ''...os detentores do poder escondem tal fato de si mesmos, procurando acreditar que seus interesses particulares são idênticos aos interesses maiores da humanidade''. Em seguida ele conclui:

O lazer é essencial à civilização e, em épocas passadas, o lazer de uns poucos só era possível devido ao trabalho da maioria. Esse trabalho era valioso não porque o trabalho é bom, mas porque o lazer é bom. E com a técnica moderna, seria possível a justa distribuição do lazer sem nenhum prejuízo para a civilização''.



É claro que essa mudança de enfoque implicaria numa mudança no controle dos meios de produção, envolvendo muito mais interesses do que uma reflexão filosófica, por mais clara e precisa que seja...

''A idéia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos''[...]''Quando alguns abelhudos vieram afirmar que a jornada era longa demais foi-lhes dito que o trabalho mantinha os adultos longe da bebida e as crianças afastadas do crime''.

Um discurso e postura que se mantém presentes até os dias atuais. Assim, a ''necessidade de manter os pobres aplacados, levou os ricos a pregarem, durante milhares de anos, a dignidade do trabalho, enquanto tratavam de se manter indignos a respeito do mesmo assunto. O trabalho é um meio para se atingir a felicidade e não um fim em si mesmo. Um ''...instrumento capaz de tornar o homem capaz de viver'', disse Aristóteles que já apontava para um futuro em que as máquinas poderiam substituir a necessidade do trabalho, tornando desnecessária a escravidão (ou a exploração do trabalho alheio, se preferirmos transportar esse conceito para os dias atuais) e possibilitando o desenvolvimento de uma vida elevada, cheia de sentidos, o oposto da alienação gerada pelo culto ao tecnicismo e a busca desenfreada do lucro, o que é ''uma completa inversão da ordem das coisas''. Uma ética que tenha por princípio a emancipação da humanidade precisa superar uma existência de escravos, sejam eles (sejam nós) assalariados ou ''ininpregáveis'', pois ''...movimentar a matéria em quantidades necessárias à nossa existência não é, decididamente, um dos objetivos da vida humana; se fosse, teríamos que considerar qualquer operador de britadeira superior a Shakespeare''. Para Bertrand Russel, ...pensamos demais na produção e de menos no consumo. Por isso, acabamos dando pouca importância ao desfrute e à felicidade e deixamos de avaliar a produção pelo desfrute que ela proporciona''.
Independente da crítica ao ócio explorador, desfrutado por uma minoria, que é objeto de denúncia, tanto de Bertrand Russel como vários autores, como Paul Lafargue, as vantagens desfrutadas por uma pequena classe ociosa, foram fundamentais para contribuir...

''...com quase tudo o que hoje chamamos de civilização. Ela cultivou as artes e descobriu as ciências, escreveu os livros, inventou as filosofias e aperfeiçoou as relações sociais. Mesmo a libertação dos oprimidos foi geralmente iniciada a partir de cima. Sem a classe ociosa, a humanidade nunca teria saído da barbárie''.

No entanto, passados os anos, com a hereditariedade de bens, essas mesmas classes sem qualquer obrigação social, geraram um enorme desperdício. Para cada Darwin que produziram também geravam ''...dezenas de milhares de proprietários rurais que jamais pensaram em coisas mais inteligentes do que caçar raposas e punir invasores de propriedades''.


Esse papel criativo do ócio (no sentido da liberação da necessidade de um trabalho ligado à subsistência mais imediata de modo a permitir o desenvolvimento do estudo e da pesquisa) deveria ser preenchido, nos tempos atuais, pelas Universidades. Porém, uma reflexão mais crítica, leva a uma constatação diferente:

''Hoje, espera-se que as universidades produzam de modo mais sistemático aquilo que a classe ociosa produzia apenas acidentalmente, como mero subproduto. Trata-se de um grande avanço, mas que tem seus inconvenientes. A vida universitária é tão diferente do mundo exterior que, no meio acadêmico, as pessoas tendem a ficar alheias às preocupações e problemas dos homens e mulheres comuns. Além disso, elas utilizam um jargão de tal forma especializado que em geral as opiniões que expressam deixam de exercer a influência que deveriam ter sobre o público em geral. Outra desvantagem é que os estudos universitários são estruturados de tal forma que alguém que conceba uma linha original de pesquisa freqüentemente se sente desencorajado. As instituições acadêmicas, por mais úteis que sejam, não são os guardiões adequados dos interesses da civilização num mundo em que todos os que vivem fora de seus limites estão ocupados demais para dar atenção a atividades não utilitárias.''

A forma de romper com esse processo de alienação e auto-alienação em todos os seguimentos da sociedade seria a construção de uma nova sociedade do lazer. Sociedade em que o trabalho deixa de ser um fim para se transformar em meio para a conquista da plena realização humana onde os bens produzidos pelo trabalho sejam eqüitativamente distribuídos, permitindo a redução da jornada de trabalho e o aprofundamento dos estudos, da consciência e dos sentidos verdadeiramente humanos. Bertrand Russel era um humanista que chamava à reflexão os homens de seu tempo (e os do nosso tempo também e, infelizmente, daqueles que virão depois do nosso tempo):

''Num mundo em que ninguém tenha que trabalhar mais do que quatro horas diárias todas as pessoas poderão saciar sua curiosidade científica(...), todo pintor poderá pintar seus quadros, sem passar por privações, independente da qualidade de sua arte. Jovens escritores não precisarão buscar a independência econômica indispensável às obras monumentais. Pessoas que em seu trabalho profissional se tenham interessado por alguma fase da economia ou da política poderão desenvolver suas idéias sem aquele distanciamento acadêmico. [...]
O trabalho exigido será suficiente para tornar agradável o lazer, mas não levará ninguém à exaustão. E como não estarão cansadas nas horas de folga, as pessoas deixarão de buscar diversões exclusivamente passivas e monótonas. Uma pequena parcela dedicará, com certeza, o tempo não gasto na ocupação profissional a atividades de alguma utilidade pública, e, como não dependerão dessas atividades para a sua sobrevivência, não terão a originalidade tolhida e nem a necessidade de se amoldarem aos padrões estabelecidos pelos velhos mestres''.

O elogio ao ócio, manifesto de um homem que acreditava na humanidade. Bertrand Russel viveu quase um século e publicou O Elogio ao ócio com mais de sessenta anos de idade, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, em 1935. Após essa publicação, ele assistiu à Guerra Civil Espanhola, o bombardeio de Guernica, o Holocausto, as bombas de Hiroshima e Nagasaki, a guerra da Coréia, a batalha de Argel...o Vietnã. Poderíamos chamar essa pequena grande obra de ''Uma utopia do lazer''. Pena que tão poucos a leram.

(continua)

No próximo capítulo: O direito à preguiça





*Celio Turino, Historiador, atualmente exerce o cargo de Secretário de Programas e Projetos Culturais (Ministério da Cultura) e responsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho - 3 DE MARÇO DE 2008 - 15h48
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terça-feira, 8 de abril de 2008

Na trilha de Macunaíma (2)



por Celio Turino*


A redução da jornada de trabalho e a conquista de uma vida emancipada

2- Ócio e Trabalho
Ausência de malícia, recursos abundantes, despreocupação em estocar riquezas ou alimentos. Porque um povo que vivia nestas circunstâncias iria preferir o trabalho ao descanso? A própria organização da vida social prescindia de um corpo estatal, inexistindo um poder político que pudesse coagi-los a abandonar sua vida em ócio. Para os recém chegados europeus, era inaceitável que aquelas pessoas vivessem tão perto da felicidade e que isso acontecesse com tão pouco esforço. Mesmo com a recorrente comparação ao Paraíso (...a inocência desta gente é tal, que a Adão não seria maior, quanto a vergonha), a missão que eles se auto-colocaram foi a de salvar essa gente do pecado (como se houvesse pecado no Paraíso):

''...o melhor fruto que nela se pode fazer, me parece que será salvar essa gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar''

Claro que antes de sugerir a salvação dos moradores do Èden, Caminha descreve mais uma vez as riquezas da terra, sempre presentes nas intenções de todos que cruzaram o Oceano à procura do Novo Mundo:

''...um deles pôs olho no colar do capitão, e começou a acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata''


''Isto tomávamos nós por assim o desejarmos''. Ao menos Caminha foi sincero nos propósitos do Reino que, para realizar seus desejos, como que cumprindo uma ordem divina, desde então repetiu os versos do Gênesis para todo aquele povo que ainda vivia como Adão:


''Maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de sua vida. Com o suor do teu rosto comerás teu pão.'' (Gênesis, 3:17-9).

Estas palavras marcariam para sempre o destino dos moradores do continente que seria chamado de América, assim como marcaram o destino dos descendentes de Adão e Eva. Desde a expulsão do Paraíso o trabalho surge como pena divina a redimir uma vida em pecado e ligada indissoluvelmente à preguiça. A vida ociosa e feliz do paraíso transforma-se em promessa que só será reconquistada após a morte e como prêmio para uma existência de virtudes e sacrifícios. Após a carta de Caminha, a terra de Vera Cruz deixou de ser Paraíso integrando a história dos homens.


Obter o sustento sem sacrifício não mais seria possível, até porque os índios não trabalhariam apenas para suas tribos. Era preciso domesticar aqueles selvagens, salvando-lhes a alma, mesmo que isso significasse a destruição de seu corpo e de suas mentes. O que se seguiu àquele primeiro encontro, em que houve espaço até para a dança, foi uma história de horror e extermínio. Os índios teriam que aprender a lidar com os rigores do trabalho, mesmo que Caminha tivesse atestado que ''a terra em si é de mui bons ares'', o que não exigiria o armazenamento de alimentos para os rigorosos tempos de inverno ou estiagem. Mas apesar de dispor de uma produção que já era suficiente para todos, atendendo até mesmo aos visitantes mais inesperados, era preciso produzir mais.



Trabalho para purgar os pecados, mesmo representando um castigo, torna-se virtude. Marilena Chauí chama atenção ao paradoxo do que significa o desprezo à preguiça e a valorização do trabalho, pois ele surge como castigo divino e está presente ''...em quase todos os mitos que narram a origem das sociedades humanas como efeito de um crime cuja punição será a necessidade de trabalhar pra viver''. A origem da palavra trabalho é encontrada no latim tripalium, instrumento de tortura para empalar escravos, derivado de palus, estaca. O exército de escravos liderados por Espártacus, depois de derrotado por Roma, teve esse destino: a morte por empalamento, no tripalium. Da mesma forma, labor, que significa dobrar-se sobre o peso de uma carga, dor, sofrimento.



A etimologia do trabalho nos auxilia a perceber a contradição entre virtude e pecado como atribuições sociais desdobradas em preconceitos, condutas e mentalidades e por isso é importante que a levemos em consideração. Mas esta é uma construção ocidental de trabalho e seria um equivoco atribuir-lhe uma dimensão negativa em si.


Para os povos do oriente, o conceito é outro:


''A idéia de trabalho no ocidente é construída (...) em oposição ao lazer e ao ócio. Por isso o trabalho associa-se, freqüentemente, à obrigação e mobiliza os sentimentos de castigo, sofrimento, pena, cruz que carrega, ao passo que o não trabalho se vincula ao ideário da recompensa, descanso, prêmio, etc... No oriente, a idéia de trabalho funda-se na oposição entre trabalho intelectual e manual. Neste sentido, o trabalho dignifica a vida se possibilitar o desenvolvimento da criatividade, inventividade e da capacidade cognitiva humana em suas múltiplas dimensões'' (BLASS, Leila Maria da Silva, in. Desafios da Globalização – Otávio Ianni (org), pg. 150)


A noção de trabalho como sinônimo de escravidão é produto da expropriação do trabalho alheio, bem como da alienação imposta ao trabalhador expropriado, que se vê destituído do usufruto do resultado de seu trabalho e do próprio processo de produção, que é compartimentado e abstrato. Mas na perspectiva de uma sociedade emancipada, livremente regulada, o trabalho, ou um novo tipo de trabalho, continuará tendo uma função social vital. Deverá haver, isso sim, uma relação de maior equilíbrio entre o tempo de trabalho e o de não trabalho e neste caso, a humanização da vida social levaria por humanizar o próprio trabalho. Sobre o tema, Ricardo Carlos Gaspar, em recente publicação, apresenta uma significativa contribuição:

''A caracterização do ser humano livre como sendo aquele homem sem obrigação de trabalhar, cuja generalização coletiva supostamente caracterizaria a utopia comunista, parece-nos equivocada, não apenas por identificar exclusivamente o trabalho à necessidade – portanto, a atividade trabalho seria ontologicamente incompatível com a liberdade, o que contraria a legítima interpretação de Luckács acerca da ontologia marxiana do trabalho, na qual este aparece como domínio do indivíduo genérico sobre sua própria singularidade particular e, enquanto tal, modelo de toda a liberdade-, como por diluir as diferenças que sempre prevalecerão – embora não mais de caráter antagônico- entre a atividade produtiva socialmente regulamentada e o ócio, nas suas diferentes formas de manifestação'' (GASPAR, Ricardo Carlos – As Fronteiras do possível: trabalho, lazer e civilização – pg. 128 – Ed. Germinal, 2003)

''Mãe dos vícios!'', ''Morada do demônio'', ''Preguiçoso como um índio'' (depois, como um negro, ou nordestino, ou pura e simplesmente como um pobre, um despossuído vítima de si mesmo), são imagens recorrentes da preguiça, onde ''o laço que ata preguiça e pecado é um nó invisível que prende imagens sociais de escárnio, condenação e medo'' (CHAUÍ, Marilena – Prefácio a O Direito à Preguiça – pg. 10 – Ed HUCITEC – 2000). Este modo de perceber a preguiça está incorporado ao cotidiano da sociedade e vai muito além de uma visão religiosa. Analisando o dicionário de língua portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda percebemos cinco diferentes significados para o ócio:

1. Descanso do trabalho, folga, repouso;
2. Tempo que se passa desocupado, quietação, lazer;
3. Falta de trabalho, desocupação, ociosidade;
4. Preguiça, indolência, moleza;
5. Trabalho mental ou ocupação suave, agradável.


A representação mais comum, no entanto, relaciona preguiça à indolência, um valor negativo, pecaminoso.

''O diabo sempre inventa uma maldade para quem está de mãos vazias''

Diz o ditado. Como se a ocupação e o trabalho possuíssem ''a virtude milagrosa de transformar todos em virtuosos, maduros, livres, dignos de mérito e felizes'', e o ócio, em oposição, seria ''promotor do enfraquecimento das virtudes, como a antecâmara de todas as perversões, como ocasião de tédio, violência e uso de drogas'' (DE MASI, Domenico – A Economia do ócio – pg. 22 – Ed. Sextante – 2001). Penetrando no imaginário, nas pequenas atitudes, brincadeiras e comentários, essa percepção do ócio tem um efeito direto na vida prática, no comportamento familiar, educacional e social, bem como na definição de políticas públicas em áreas como: lazer, cultura, esportes, educação e a própria formação para o trabalho.



Jacques Derrida demonstrou que os aspectos mais básicos da identidade humana podem ser encontrados na estrutura da linguagem que usamos para expressa-los, onde a disputa pelo conceito em torno das palavras é, sobretudo, uma questão política, de poder e controle social. Assim também acontece em relação ao ócio, à preguiça ou ao lazer. E esta disputa de idéias e conceitos começou na Europa, a partir do século 19, com a intensificação da luta entre proletários e capitalistas. Primeiro o genro de Karl Marx, Paul Lafargue, escrevendo ''O direito à preguiça'' (que analisaremos mais à frente); depois, na década de 1930, o grande pensador britânico, Bertrand Russel, com ''O elogio ao ócio''.

(continua)

No próximo capítulo: O elogio ao ócio






*Celio Turino, Historiador, atualmente exerce o cargo de Secretário de Programas e Projetos Culturais (Ministério da Cultura) e responsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in vermelho - 25 DE FEVEREIRO DE 2008 - 18h20
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Na trilha de Macunaíma (1)


por Celio Turino*

Celio Turino estréia hoje, como colunista do Vermelho e escreverá às segundas-feiras.


Apresentação

Esta série, com 16 artigos, faz parte do livro Na Trilha de Macunaíma – ócio e trabalho na cidade (Ed. SENAC, 2005), de autoria de Célio Turino, e trata a preguiça, como um elemento da própria identidade brasileira, um ócio criativo, gingado e inovador. O objetivo é contribuir na luta pela redução da jornada de trabalho no Brasil, subsidiando sindicalistas, militantes e pessoas de mente aberta a re-questionarem valores como ócio e trabalho e inserindo este debate para além da fronteira estritamente economicista.


Está autorizada a reprodução destes artigos para fins não comerciais, desde que citada a fonte (nome do autor, livro e site Vermelho).

O autor

Célio Turino - mestre em história pela Unicamp, autor de diversos ensaios e livros é militante comunista desde 1978. Atualmente exerce a função de Secretário Nacional de Programas e Projetos – Ministério da Cultura, sendo responsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura em todo o Brasil.

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A redução da jornada de trabalho e a conquista de uma vida emancipada

1- Encontro com o Paraíso

''Além do rio, andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então além do rio, Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito'' (Pero Vaz de Caminha, TERRA DE VERA CRUZ, abril de 1500)

Aos primeiros dias na terra que viria a ser o Brasil dá-se um alegre encontro entre os povos da terra e aqueles que haviam chegado do mar; e o coletor de impostos, almoxarife Diogo Dias, homem gracioso e de prazer, meteu-se com os índios a dançar. Essa foi a primeira troca simbólica do país que começava a nascer; nenhuma palavra foi dita, apenas gestos e sons. Mas antes deste encontro, os povos que habitavam o lugar, viviam em festa, obtendo seu sustento com pouco esforço, pois a terra lhes oferecia tudo que fosse necessário. ''Primeiras sociedades do lazer, primeiras sociedades da abundância'', este foi o mundo que os portugueses encontraram ao cruzar o Atlântico. A impressão é de que haviam chegado ao Éden.
À época de Colombo, muitas foram as discussões a este respeito. Mapas indicavam a localização do Paraíso, cosmógrafos ajustavam suas cartas, teólogos debatiam o Gênese. O próprio Cristóvão Colombo dá a entender que chegou à porta do Paraíso por especial graça de Deus:

''Já disse, aquilo que achava deste hemisfério e da sua feiúra, e creio, se passasse por debaixo da linha equinocial, que ali chegando, neste lugar mais alto, achara maior temperança e diversidade nas estrelas e nas águas, não porque acredite que onde se acha a altura extrema seja possível navegar-se ou seja possível subir até lá, pois creio que lá está o Paraíso Terrestre, onde ninguém pode chegar, salvo por vontade divina...'' (in. Visão do Paraíso, pg. 194).

Sérgio Buarque de Holanda parte do imaginário medieval do Paraíso, encontrado no Gênese para compreender esse deslumbramento com o mundo que se descortinava:

''...o Senhor Deus, tendo criado o homem, em quem insuflou o fôlego da vida e o fez assim alma vivente, plantou para sua habitação um horto ‘da banda do Oriente’. Ali espalhou por toda parte, plantas agradáveis à vista e boas para comida...''

Nessa terra de muito bons ares, a comida estava ao alcance das mãos, bastava extrair frutos, plantar -pois ''dar-se-á de tudo, por bem das águas que tem'', caçar ou pescar. Santo Isidoro de Sevilha , chamou as terras encontradas de Ilhas Afortunadas (Insulae Fortunatae) e assim o fez por considerar que possuem todos os bens necessários a uma vida feliz e ditosa:

''Espontaneamente dão muito rico fruto nas árvores; os bosques cobrem-se espontaneamente de vides; em vez de ervas há ali messes: de onde aquele erro dos gentios, e dos versos dos poetas quando julgam que tais ilhas, pela fecundidade do solo, constituem o Paraíso. Situam-se no Oceano, do lado esquerdo da Mauritânia, próximas do Ocidente e separadas dela pelo mar'' (Visão do Paraíso, pg. 195).

Na carta de Caminha há uma primeira descrição sobre a ida à terra firme em busca de água e comida:

''Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água (...). Ali ficamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dela, entre esse arvoredo, que é tanto, tamanho, tão basto e de tantas prumagens, que homem as não pode contar. Há entre ele muitas palmas, de que colhemos muitos e bons palmitos''

Beber e folgar ao mesmo tempo em que se busca o alimento, esse era o cotidiano de trabalho encontrado nas terras de Pindorama. Os índios sabiam extrair da terra aquilo que ela lhes oferecia e assim que conseguiam o suficiente podiam se dedicar à arte, às brincadeiras e à festa. Na verdade, a arte, as brincadeiras e a festa estavam misturadas com a busca do sustento. O sentido do trabalho em um ambiente como este, certamente era diferente da realidade da Europa medieval e os portugueses da frota cabralina que foram buscar água e comida, por este arvoredo até uma ribeira grande e de muita água, também se deixaram folgar pelo caminho e mesmo assim, colheram muitos e bons palmitos. E essa percepção de um reino da abundância, não foi apenas dos portugueses, um anônimo inglês deixou o seguinte relato:

''...aqueles que lá estiveram são acordes, sem exceção, que viram os melhores e mais verdes prados e campinas, os outeiros mais aprazíveis, cobertos de árvores e frutas de toda casta, os mais formosos vales, os mais deleitosos rios de águas frescas, providas de infinitas variedades de peixes, as florestas mais densas, sempre verdejantes, cheias de frutos, que possam exibir no mundo inteiro''

Mas no mesmo tempo que a riqueza natural da terra deslumbrou os visitantes, ela também despertou a cobiça e, quase que na mesma seqüência, a inveja em relação àqueles povos que prescindiam do trabalho para levar as suas vidas. Prescindiam do trabalho e também do Estado, dois dos principais axiomas da civilização ocidental. A falta da necessidade de um trabalho duro estava presente não apenas entre povos nômades, como também em relação aos agricultores tupis-guaranis; portugueses, franceses ou espanhóis não admitiam uma realidade assim, a ociosidade nativa os chocava. O antropólogo Pierre Clastres faz a seguinte descrição do ritmo de trabalho destes povos:

''Uma mesma área de cultivo era utilizada por um período ininterrupto de quatro a seis anos. Em seguida era abandonada, por esgotar-se o solo (...) O grosso do trabalho efetuado pelos homens consistia em arrotear, por meio de um machado de pedra e com o auxílio do fogo, a superfície necessária. Essa tarefa no fim da estação das chuvas, mobilizava os homens durante um ou dois meses. Quase todo o resto do processo agrícola – plantar, mondar, colher -, em conformidade com a divisão sexual do trabalho, era executado por mulheres.''

Cabe ressaltar que a tradição atribuída aos índios de atear fogo para abrir plantações, já era conhecida dos portugueses e utilizada na Ilha da Madeira em dimensões muito maiores do que a queimada localizada dos Tupis. Um relato de 1455, de João Gonçalves Zarco, sobre a queimada na Ilha da Madeira, ou seja, de antes da chegada dos portugueses ao Brasil, descreve a experiência dos portugueses na transformação da Ilha:

''...não havia ali um palmo de terra que não fosse coberto por árvores grandíssimas. Para cultiva-la, tiveram os primeiros povoadores de recorrer ao sistema que depois usariam no Brasil, de destruir a mata deitando-lhe fogo. O qual fogo andou lavrando pela ilha grande espaço de tempo, e foi tamanho, que os moradores com suas mulheres e filhos, tiveram-se que acolher-se à água do mar, e assim estiveram com ela até o pescoço dois dias e duas noites, sem comer nem beber, pois de outro modo teriam morrido queimados. Desaparecendo por essa forma o bosque, tudo se tornou um terreno para cultivo, além das canas doces, de vinhas e trigo'' (Visão do Paraíso, pg. 188).

A queimada localizada é uma prática indígena; mas a queimada em proporções dantescas, antes de representar uma prova da preguiça nativa, é resultado da ganância e da busca do lucro sem medir conseqüências. Clastres conclui que, para os homens havia a necessidade de apenas dois meses de trabalho duro a cada quatro anos, o tempo restante era passado em ocupações como a pesca e a caça que, apesar de proverem a comunidade de alimentos, não eram consideradas penosas e sim como prazer, estando misturadas, como dissemos, com festas e brincadeiras. Cabe lembrar, no entanto, que, entre os tupi-guaranis, a divisão de trabalho existia na diferença entre homens e mulheres. Engels e Marx, em uma concepção um tanto quanto romântica, conforme aponta Herbert Marcuse, devem ter se inspirado neste modelo de comunismo primitivo ao fazerem sua conhecida descrição da futura sociedade comunista: ''onde cada um não tem uma esfera de atividade exclusiva, mas pode aperfeiçoar-se no ramo que lhe apraz, a sociedade regula a produção geral, dando-me a possibilidade de hoje fazer tal coisa, amanhã outra, caçar pela manhã, pescar à tarde, criar animais ao anoitecer, criticar após o jantar, segundo meu desejo, sem jamais tornar-me caçador, pescador, pastor ou crítico'' (A ideologia Alemã – pg. 47).

Mesmo entre os índios da atualidade, a presença do trabalho na vida cotidiana é bastante reduzida. J. Lizot, antropólogo que viveu vários anos entre os yanomami da Amazônia venezuelana, estudou o tempo que os adultos dedicavam ao trabalho, marcando todas as atividades necessárias para o cumprimento da tarefa. Em qualquer situação esse tempo nunca ultrapassou três horas diárias. Pierre Clastres, mesmo sem uma contagem exata do tempo, constatou que em sua experiência pessoal no contato com os índios guaiaquis, do Paraguai, o tempo que eles dedicavam ao trabalho nunca superou metade do dia ''...passavam pelo menos metade do dia em quase completa ociosidade, uma vez que a caça e a coleta se efetuavam, e não todos os dias, entre, mais ou menos, 6 e 11 horas da manhã''. A lógica destas sociedades não é exatamente da recusa do trabalho; eles trabalham pouco é verdade, mas enfrentam suas obrigações, a diferença [em relação aos europeus] é que param no momento que suas necessidades são satisfeitas. Ou seja, dependendo das condições ecológicas, podem trabalhar mais ou menos, no entanto, o sentido de suas vidas é encontrado no lazer, na busca do significado das coisas e não na acumulação de riquezas materiais. Essa foi a diferença encontrada pelos portugueses há quinhentos anos.

''Águas são muitas; infinitas'', de forma poética, Vaz de Caminha descreveu a realidade vista por ele em que a abundância de recursos naturais parecia inesgotável. Lamentavelmente essa idéia de que as riquezas naturais do Brasil são infinitas está presente até os dias de hoje, fazendo com que os recursos da terra sejam extraídos como se nunca acabassem. Até que um dia acabam. Inclusive as águas, que já foram muitas. Foi um encontro com o Paraíso:

''A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso tem tanta inocência como em mostrar o rosto. (...) Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas ta altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha''.

(continua)

No próximo capítulo: Ócio e Trabalho

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in vermelho - 18 DE FEVEREIRO DE 2008 - 19h14

*Celio Turino, Historiador, atualmente exerce o cargo de Secretário de Programas e Projetos Culturais (Ministério da Cultura) e responsável pelo conceito e implantação dos Pontos de Cultura.

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