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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Alfredo Barroso - Crimes de guerra não foram só os da Alemanha, da Itália e do Japão

 


LIVROS SOBRE O IMPERIALISMO OCIDENTAL, EUROPEU E AMERICANO, E A ARROGÂNCIA E GANÂNCIA DO PODER DOS ESTADOS-UNIDOS

- livros sugeridos por Alfredo Barroso, porque, se fossem lidos pela esmagadora maioria dos comentadores epecialistas das TV's privadas, eles perceberiam melhor os disparates que proferem ao falarem do «imperialismo Russo»...

Alfredo Barroso

2026 02 26

HISTÓRIA E LITERATURA FIDEDIGNAS SOBRE CRIMES DE GUERRA COMETIDOS PELO OCIDENTE DESDE A II GUERRA MUNDIAL

Para não ser apenas eu a fruir dos livros da minha biblioteca, aqui vão cinco sugestões de leitura sobre história e literatura fidedignas acerca dos crimes de guerra cometidos pelo Ocidente, sobretudo pelo Reino Unido, durante a II Guerra Mundial. E pelos Estados-Unidos da América desde então até à actualidade. Ei-las:

«DER BRAND. DEUTSCHLAND IM BOMBERKRIEG, 1940-1945» («EL INCÊNDIO. ALEMANIA BAJO LOS BOMBARDEOS, 1940-1945), por JÖRG FRIEDERICH (2002) – Os bombardeamentos que assolaram as cidades, vilas e aldeias alemãs durante os cinco anos da II Guerra Mundial não têm paralelo na história. Foram bombardeadas mais de mil urbes e localidades. Trinta milhões de civis – na sua maioria velhos, mulheres e crianças – foram vítimas de cerca de um milhão de toneladas de bombas incendiárias e explosivas. Morreram mais de um milhão de civis e perdeu-se para sempre grande parte do património urbanístico, modelado desde a Idade Média.

Até à publicação deste livro, em 2002, nenhum relato histórico tinha oferecido uma narrativa sobre a verdadeira dimensão dos factos e o destino real das vítimas. O historiador berlinense JÖRG FRIEDERICH veio colmatar essa falta com esta obra sobre a campanha de destruição que os britânicos e os norte-americanos planearam e executaram, de forma sistemática, contra as cidades alemãs.

Com base em numerosas fontes, o autor mostra-nos a evolução e aperfeioçoamento das bombas, o seu efeito devastador no terreno, a experiência traumática da população refuguada em “bunkers” e caves, as mortes por calor e asfixia, a brutal pressão do ar e os gases tóxicos e o desmoronar de uma herança cultural de incomensurável riqueza.

JÖRG FRIEDERICH (nascido em 1944) investigou os delitos de Estado do nazismo e os seus crimes de guerra. Colaborou na ‘Enciclopédia do Holocausto’ e produziu inúmeras séries de televisão sobre Criminologia da Guerra, tanto terrestre como aérea. Foi galardoado com diversas distinções internacionais em virtude dos seus trabalhos.

«LUFTKRIEG UND LITERATUR» («HITÓRIA NATURAL DA DESTRUIÇÃO»), por W. G. SEBALD (1999) – Através deste texto magistral, o grande escritor W.G.Sebald (1944-2001) revela como os bombardeamentos massivos do solo alemão pelas tropas aliadas, nos últimos meses da II Guerra Mundial, se tornaram um tabu no seio da sociedade e da literatura alemãs. Rejeitando o sentimento de culpabilidade dos intelectuais alemães, que falseia o seu julgamento tanto quanto a sua inspiração estética, W. G. Sebald preencheu a lacuna por uma evocação à sua maneira desses “raids de aniquilação total” que custaram a vida a cerca de um milhão de civis alemães.

«Da destruição como elemento da história natural» é uma obra incisiva e poderosa, ilustrada por fotos e documentos, que torna palpável o sofrimento do seu país, escrita por um dos mais notáveis escritores contemporâneos, W. G. Sebald, autor de várias obras marcantes como: “Os Emigrantes” (1999); «Os Anéis de Saturno» (1999); «Vertigens” (2001); e «Austerlitz» (2002).

(Edição portuguesa da TEOREMA)

«HIROSHIMA», por JOHN HERSEY (1946 e 1986) – Este é o livro mundialmente mais conhecido do jornalista e escritor norte-americano John Hersey (1914-1993). Publicado pela primeira vez em quatro capítulos pela revista ‘New Yorker’, em 1946, John Hersey acrescentou um quinto capítulo em 1986. Este livro publica a versão integral.

Quando a bomba atómica alcunhada ‘Little Boy’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, a menina TOSHIKO SASAKI, funcionária do departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, estava a conversar com uma colega. O dr. MASAKAZU FUJII, proprietário e único médico de um hospital, acabara de instalar-se com todo o conforto no seu alpendre. A senhora HATSUIO NAKAMURA, viúva, estava à janela a observar uma cena estranha. O padre WILHELM KLEINSORGE, sacerdote alemão, lia uma revista jesuíta. O jovem cirurgião TERUFUMI SASAKI caminhava pelo corredor dum hospital com uma amostra de sangue destinada a um teste Wassermann. O reverendo KIIOSHI TANIMOTO, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, preparava-se para descarregar o conteúdo de um carro de mão numa casa dos subúrbios da cidade.

«A bomba atómica [de Hiroshima] matou cem mil pessoas, e estas seis contavam-se entre os sobreviventes. E ainda se interrogam como foi possível sobreviverem quando tantas outras pereceram».

Ao mesmo tempo que o holocausto produzido pelo nazismo está presente na memória social, ‘o outro holocausto’ seu contemporâneo parece ter-se diluído na existência irreal dos homens. E, no entanto, o emprego da arma atómica contra duas cidades japonesas [a bomba atómica ‘Fat Man’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Nagasaki em 8 de Agosto de 1945] constitui uma denegação de sentido equivalente aos extermínio das «raças inferiores» pelos nazis. Auschwitz e Hiroshima são duas marcas do terror absolutamente contíguas, constituindo as figuras máximas da descivilização no século XX: os campos da morte e o emprego militar da energia atómica.

(Edição portuguesa da ANTÍGONA)

«CHAIN OF COMMAND» («DOMMAGES COLLATÉRAUX. LA FACE OBSCURE DE LA “GUERRE CONTRE LE TERRORISME”), por SEYMOUR HERSH (2004) – Nesta obra impressionante, o grande jornalista norte-americano Seymour Hersh deslinda para nós o complicado feixe de manipulações e de manobras que conduziram ao ataque contra o World Trade Center e ao escândalo das torturas na prisão do Exército dos EUA em Abu Ghraib, no Iraque. Alimentado por inúmeras confidências de «fontes» altamente colocadas, o relato de Seymor Hersh faz-nos mergulhar no próprio coração do poder americano. Quer se trate das manigâncias da ‘Cabala’, o pequeno grupo de neo-conservadores que ‘fabricaram’ a guerra no Iraque; quer se trate do relatório confidencial de 2002 denunciando as torturas em Guantanamo Bay, prefiguração directa do que iria acontecer em Abu Ghraib; quer se trate da operação ‘Anaconda’, durante a qual os ‘GI’, por incompetência do seu comando, deixaram escapar Ossama Bin Laden…

Vale a pena salientar que nem uma das informações reveladas neste livro por Seymor Hersh foi desmentida pela Administração, cuja única resposta foi: «Seymour Hersh é um mentiroso».

Este livro lê-se como um antídoto à desinformação.

SEYMOUR M. HERSH (nascido em 1937) é já uma lenda do jornalismo de investigação. Durante quatro décadas, foi uma ‘pedra no sapato’ de todos os Presidentes que se sucederam na Casa Branca, por causa das suas investigações exemplares. Foi ele que revelou o terrível massacre de My Lai, cometido em Novembro de 1969 por tropas dos EUA durante a Guerra do Vietnam. Jornalista independente, trabalhou muitos anos para o ‘New York Times’ e foi grande repórter da revista ‘New Yorker’. Publicou vários livros sobre as suas investigações e foi galardoado com o Prémio Pulitzer (de Jornalismo).

«DIRTY WARS, THE WORLD IS A BATTLEFIELD» («DIRTY WARS, LE NOUVEL ART DE LA GUERRE») por JEREMY SCAHILL (2013) – Um Exército secreto. Uma Missão sem fronteiras. Uma Guerra sem fim. A leitura desta obra-prima do jornalismo de investigação tem o efeito dum electrochoque. Jeremy Scahill leva-nos longe das frentes oficiais, lá onde bem poucos jornalistas conseguem chegar e onde o Estado toma o gosto por práticas inconfessáveis. E o Presidente dos EUA Barak Obama (2009-2017), com os seus ‘drones’ assassinos, foi um dos mais flagrantes exemplos.

Nesta impressionante investigação que assume a forma de um ‘thriller’, Jeremy Scahill foca o projector nas manobras clandestinas do Joint Special Operations Command (JSOC), esse corpo de exército colocado directamente sob as ordens da Casa Branca, munido de uma autorização para matar com toda a impunidade, e para o qual o mundo não passa dum campo de batalha. Do Afeganistão ao Yémen, passando pelo Paquistão, pela Somália e pelos Estados-Unidos, o jornalista dá a palavra às vítimas dessa guerra suja (‘dirty war’), às famílias destruídas, homens e mulheres que têm de escolher entre a dor resignada e a ‘djihad’ contra uma América deveras sanguinária.

JEREMY SCAHILL é jornalista de investigação e correspondente de guerra da revista americana ‘The Nation’. É também autor de “Blackwater: a ascensão do exército privado mais poderoso do mundo”. Depois de ter participado na revelação do escândalo ‘Prism’, com os jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, Jeremy Scahill fundou ‘The Intercept’, uma revista on-line que difunde nomeadamente as informações reveladas por Edward Snowden.

Este seu livro foi considerado um dos 10 melhores livros do ano de 2013 nos Estados-Unidos da América pela “Publishers Weekly”.

Campo d’Ourique, 26 de Fevereiro de 2026 (e 29 de Julho de 2022)

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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Portugal, 1975: seis livros para compreender o 25 de Novembro

 

Manuel Moura/Lusa

A situação como estava não podia continuar: essa é a certeza que uma série de livros recentes confirma. O que, 50 anos depois, sabemos sobre o 25 de Novembro?  

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06 novembro 2025 20:59

Luís M. Faria

Jornalista

Só nas semanas imediatamente anteriores ao 25 de Novembro, tinha havido um cerco à Assembleia Constituinte, ataques (alguns à bomba) a sedes (“centros de trabalho”) do PCP pelo país fora, greves e manifestações mais ou menos diárias, a entrada em greve do próprio Governo, dissensões marcadas e públicas dentro das Forças Armadas, rumores insistentes de golpes de várias tendências...

DO 25 DE ABRIL DE 1974 AO 25 DE NOVEMBRO DE 1975: EPISÓDIOS MENOS CONHECIDOS

Irene Flunser Pimentel

Temas e Debates, 2024, 472 págs., €20,90


Enquanto isso, a economia portuguesa era atingida não só pelas greves e outras movimentações que levaram importantes empresas, estrangeiras e não só, a deixar o país, como por uma conjuntura internacional grave em consequência do boicote petrolífero decretado em 1973 pelos países árabes. Tudo parecia jogar contra as promessas de uma melhoria de vida enunciadas no programa do MFA (um dos três ‘D’ do programa era desenvolver, a par com descolonizar e democratizar).

Se a promessa inicial de liberdade após meio século de ditadura fora saudada por grande parte da população portuguesa, a divergências que se foram acentuando ao longo do ano e meio seguinte, não apenas entre esquerda e direita como dentro da esquerda — onde havia socialistas, gente do PCP, otelistas e grupos sortidos de extrema-esquerda, alguns com um grau de influência real que hoje parece insólito — tinham provocado já várias situações de enfrentamento potencialmente perigosas. No imediato, a ameaça viera da direita. Logo nos primeiros meses da Revolução, o então presidente da República, o general António de Spínola, que não participara no 25 de Abril nem integrava o MFA mas foi por este escolhido como figura política superior, tentara uma manobra para impor eleições presidenciais diretas em poucos meses, ao arrepio do que estava previsto. Falhado esse golpe palaciano — onde estava em causa não só uma ambição de poder do general como as suas ideias sobre o que deveria acontecer ao império colonial português — foi tentado um outro a 28 de setembro, com a projetada manifestação da “maioria silenciosa”, conceito importado da América. A manifestação acabou por ser impedida, mas a 11 de março do ano seguinte veio um golpe mais real, com aviões militares a sobrevoar Lisboa e a atacar um regimento, provocando um morto e dezena e meia de feridos. Também esse golpe falhou, e deu pretexto para a instituição política formal do MFA num órgão chamado Conselho da Revolução.

OTELO, O HERÉTICO: DO 25 DE ABRIL ÀS FP 25

Carlos de Matos Gomes

Tinta-da-china, 2025, 224 págs., €17,90


Outra consequência foi desencadear uma onda de nacionalizações e o chamado Verão Quente, durante o qual a influência do partido comunista, exercida através de figuras como o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, atingiu o seu auge, antes de começar a regredir sob o efeito da resistência de parte substancial do país, sobretudo no centro e norte, bem como da resistência política civil dirigida por figuras como Mário Soares, e da própria resistência da instituição militar, com as fações moderadas dentro do MFA a ganharem progressivamente ascendente a partir de meados de agosto.

Conforme revela Rodrigo Sousa e Castro, um capitão de Abril que também participou no 25 de Novembro — o seu importante livro de memórias intitula-se justamente “Capitão de Abril, Capitão de Novembro” — aquilo que se designa por 25 de Novembro não foi um evento único, mas um processo. Teve início formal com a aprovação do Documento dos Nove (assim chamado por ter origem num grupo de nove militares no Conselho da Revolução) a 7 de agosto, prosseguiu decisivamente com o pronunciamento de Tancos em setembro, quando houve uma recomposição do Conselho da Revolução e foi recusada a nomeação do primeiro-ministro demissionário Vasco Gonçalves para chefe do Estado-Maior do Exército. A conclusão a 25 de Novembro, com o movimento militar a que ficou associada a figura de António Ramalho Eanes, o futuro primeiro Presidente livremente eleito do país, não foi mais do que a conclusão desse processo, o qual por sua vez deu por terminado o chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso), embora não a supervisão da política pelos militares, a qual se prolongaria até à primeira revisão constitucional, em 1982, que extinguiu o Conselho da Revolução.

António Ramalho Eanes (à dir.), na altura tenente-coronel, explica aos capitães Vasco Lourenço (à esq.) e Marques Júnior (de pé) a operação que dirigiu a partir do quartel-general da Amadora

Rui Ochoa

Os pontos de interrogação

Dos livros que agora surgem no 50º aniversário do 25 de Novembro, cobrindo o 25 de Abril e o PREC até ao golpe, é justo dizer que nenhum tem a envergadura histórica do de Sousa e Castro (ou, lá por isso, daquele que Otelo Saraiva de Carvalho escreveu sobre o golpe que dirigiu em 1974, “Alvorada em Abril”). Editado na Guerra e Paz, “Capitão de Abril, Capitão de Novembro” merecia bem uma reedição, talvez revista. Enquanto isso não acontece, surgem obras de tipo diverso, desde sínteses históricas de produção nacional até um livro com quase meio século escrito por um jornalista australiano em tempos famoso. Redescoberto após um paciente trabalho de busca e edição, “O Golpe dos Capitães” (ed. Edições 70), de Wilfred Burchett, é um extenso trabalho de reportagem onde ganham voz tanto figuras políticas como cidadãos comuns. Uma preciosidade cujo interesse ultrapassa em muito o arqueológico.

“Se em vez de um 25 de novembro tivesse acontecido um 25 de janeiro ou de fevereiro, o país tinha ido para a extrema-direita de imediato”, diz Vasco Lourenço em “Breve História do 25 de Novembro”

A extensa cronologia (mais de 60 páginas) fornecida por Rui Cardoso em “Breve História do PREC” (ed. Oficina do Livro) pode ser usada para verificar pontos em particular ou simplesmente para ir debicando aqui e ali, refrescando a memória ao sabor do acaso. Nascido em 1953, o autor foi jornalista, primeiro no “Diário Popular” e depois no Expresso, durante décadas. Inevitavelmente, no seu texto há elementos de recordação pessoal — sobre imprensa, mas não só — que o valorizam. Em relação ao 25 de Novembro, ele socorre-se em parte da obra de um outro (e muito mais novo) ex-jornalista do Expresso, Filipe Garcia, que explorou o 25 de Novembro em artigos desenvolvidos para este jornal, entrevistando participantes-chave. Entre eles, o coronel Vasco Lourenço, que lembra como o 25 de Novembro não se limitou a conter extremismos à esquerda.

BREVE HISTÓRIA DO PREC

Rui Cardoso

Oficina do Livro, 2025, 224 págs., €15,90


“Se em vez de um 25 de novembro, tivesse acontecido um 25 de janeiro ou de fevereiro, o país tinha ido para a extrema-direita de imediato”, diz Lourenço em “Breve História do 25 de Novembro” (ed. Ideias de Ler). “Não tenho dúvida nenhuma. A situação estava a degradar-se de tal maneira, nós a perder o controlo e a extrema-direita a impor-se de tal maneira que, se não tivesse acontecido o que aconteceu, em janeiro ou fevereiro não sei se teríamos tido condições para responder a uma tentativa de golpe à direita.” Uma ideia entretanto confirmada pelo cónego Melo, um líder do movimento contrarrevolucionário a norte que ficou associado a múltiplas ações violentas.

Entre as sínteses recentes merece ainda menção “A Revolução dos Cravos” (ed. Relógio D’Água), de Alex Fernandes, autor de uma geração mais recente, que vive em Londres. Quem quiser entrar nessa história tem por onde escolher, portanto. Contudo, permanecem questões em aberto. Pesem as investigações oficiais e as obras académicas, não ficou completamente esclarecido o que se passou a 25 de novembro. Quando os paraquedistas ocuparam as bases aéreas de Tancos, Montijo e Monte Real (houve ações paralelas de militares do RALIS e da EPAM, bem como na Polícia Militar), o que pretendiam fazer? Um golpe de estado? Uma sublevação militar? Ligada a essa questão está a de quem o dirigiu. Também aí, mesmo a esta distância, encontramo-nos longe de ter atingido clareza absoluta, ao ponto de a historiadora Irene Flunser Pimentel, no seu livro “Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975: Episódios Menos Conhecidos” (ed. Temas e Debates), publicado em 2024, falar num efeito Rashomon, expressão usada para referir situações cujas testemunhas são total ou parcialmente infiáveis e não permitem descobrir o que realmente aconteceu.

Tropas da Escola Prática de Cavalaria, com o capitão Salgueiro Maia, na autoestrada do Norte, a 25 de novembro de 1975 

Rui Ochoa

A interpretação de Cunhal

Existe hoje um certo consenso de que a ação dos paraquedistas não visava atacar diretamente as estruturas centrais de poder em Portugal. Mesmo historiadores associados à direita como Rui Ramos falam de uma “demonstração de força” por parte de militares (in “História de Portugal”), não de um golpe de Estado. Motivados pelo que viam como ameaças à sua situação profissional, e talvez também por uma certa vontade de redenção após o seu papel em algumas ações anteriores vistas como antirrevolucionárias, os revoltosos não tomaram medidas tradicionalmente associadas aos golpes de Estado, como o assalto aos centros de poder político. Ainda que esperassem que outras unidades e quartéis pelo país fora se associassem a eles, não havia nada que se assemelhasse a um plano ou um comando unificado.

BREVE HISTÓRIA DO 25 DE NOVEMBRO

Filipe Garcia

Ideias de Ler, 2025, 248 págs., €18,85


Citado por Pimentel, Vasco Lourenço continua convencido de que a ordem partiu do Copcon, o comando operacional dirigido por Saraiva de Carvalho, e que o líder deste, a quem tinha acabado de ser retirado o comando da região militar de Lisboa — outra alegada motivação da ação dos paraquedistas — tinha de estar informado. Quanto ao PCP, segundo a interpretação de Lourenço, “Costa Gomes deve ter encostado Cunhal à parede. Que era a guerra civil, que estava contra e ia oferecer resistência, tendo convencido Cunhal a recuar”. Vasco Lourenço elogiou nesse sentido o líder comunista: “Percebeu e não avançou. E com isso evitou a guerra civil.” O mesmo elemento do Grupo dos Nove lembrou que “o major Tomé e outros gritam ainda hoje que quem fez o golpe fomos nós e não eles”, contrapondo com a afirmação: “Quem vai desencadear uma ação militar, quem vai ocupar as bases são eles!”

A narrativa muitas vezes repetida, e que recentemente voltou a ser reforçada por declarações de Zita Seabra, na altura dirigente do PCP, é que por parte desse partido houve uma instrução para avançar que a seguir foi anulada quando se percebeu que não havia armas suficientes para triunfar. Um telefonema de um alto responsável do partido para uma unidade militar foi horas depois seguido por outro telefonema do mesmo responsável a mandar recuar. Neste último telefonema, o dito responsável terá passado a palavra ao secretário-geral do PCP, o qual reiterou a segunda ordem ao militar, explicando que se tratava de evitar uma guerra civil.

Para Cunhal, a explicação do 25 de Novembro é mais simples. Em “A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril” (ed. Avante, 1999), escreve: “Está mais que provado, assumido e confessado, que se tratou de um golpe militar contrarrevolucionário há muito em preparação num turbulento processo de arrumação e rearrumação de forças.” O então líder do PCP garante que a preparação do 25 de Novembro “começou muito antes das insubordinações e sublevações militares do Verão Quente e de outubro e novembro de 1975”. Reconhecendo a grande diversidade de entidades militares e políticas envolvidas, resume: “Todas estavam aliadas para pôr fim à influência do PCP e ao processo revolucionário, restabelecer uma hierarquia e disciplina nas forças armadas e extinguir o MFA insanavelmente em vias de destruição pelas suas divisões e confrontos internos.”

O GOLPE DOS CAPITÃES

Wilfred Burchett

Edições 70, 2025, 348 págs., €25,11


Cunhal cita uma posterior entrevista de Melo Antunes, membro do Grupo dos Nove e um dos envolvidos: “Além das ações legais ou semilegais a que deitámos mão para obter a supremacia militar, também desenvolvemos ações clandestinas para nos prepararmos para uma confrontação que eu julgava inevitável. (…) Tínhamos uma organização militar em marcha.” A preparação do golpe “para pôr fim a uma situação insustentável” vinha pois de longe. Foi ulteriormente dado a conhecer que, no Verão Quente, muitos Comandos “deixaram os postos civis e se alistaram de novo para estarem operacionais”, diz Cunhal.

Ainda que a operação contrarrevolucionária estivesse prevista há muito — e é forçoso admitir que nenhum exército no mundo pode tolerar uma situação de caos durante um período prolongado — os paraquedistas forneceram-lhe o pretexto perfeito. Em teoria, eles estavam a responder à substituição de Otelo por Vasco Lourenço, bem como a algumas evoluções nas suas unidades. O que pretendiam, segundo Rodrigo e Castro, “era um reequilíbrio político-militar, a conseguir mediante nova recomposição do Conselho da Revolução, após a purga de quatro oficiais afetos à linha PCP, sendo que para isso era fulcral demonstrar a sua força militar aos Nove”.

À credibilidade limitada dos partidos recém-criados, Otelo contrapunha algo consonante com uma embriaguez de liberdade, que não queria voltar a submeter-se imediatamente a estruturas institucionais de tipo convencional

O resultado foi o oposto. “O 25 de Novembro põe termo à degradação da situação militar e confere mais espaço, mas também maior responsabilidade aos partidos políticos, para repensarem as suas relações e assumirem a correlação de forças no terreno. Isto, recorde -se, enquanto procuravam, na Assembleia Constituinte, cinzelar o novo modelo de organização da sociedade portuguesa”, diz Rodrigo Sousa e Castro. Fazendo uma ressalva: “Não se pode falar de uma vitória da sociedade política sobre a sociedade militar, porque os partidos políticos vivem à sombra dos militares durante todo o Verão Quente e até ao desencadeamento das operações militares do 25 de Novembro. Isto é absolutamente inequívoco. Ninguém fazia nada que não fosse de acordo com o seu grupo de pressão militar.”

Em relação ao papel de Otelo e à sua personalidade, não faltam opiniões categóricas. Vasco Pulido Valente, sempre rápido a desprezar a perspicácia alheia, considera-o “um mitómano pouco inteligente, que muitas vezes roçava o patológico”, e afirma que nele “é inútil procurar um pensamento racional. A sua própria ideologia, aliás (se meia dúzia de slogans merecem o nome), o encorajava a esperar a salvação da iluminada iniciativa do ‘povo’ e do tumulto ‘criador’ que ele eventualmente produzisse”.

Movimento de militares nas ruas a 25 de novembro de 1975 

Rui Ochoa

O papel de Otelo

Outra forma de ver isto é notar que, face à incerteza quanto ao tipo de regime a criar e ao estado ainda incipiente — e portanto, à credibilidade limitada dos partidos recém-criados, Otelo contrapunha algo mais consonante com uma certa embriaguez de liberdade reencontrada, que não queria voltar a submeter-se imediatamente a estruturas institucionais de tipo convencional. É a perspetiva de Carlos de Matos Gomes, o recentemente falecido Capitão de Abril, historiador e romancista, em “Otelo, o Herético” (ed. Tinta-da-china). Para ele, o instinto de Otelo, “mais do que a deliberada e consciente transformação de uma utopia em realidade, abriu caminho a manifestações apelativas de formas de organização de poder popular e de democracia. (...) Do fim do projeto bonapartista de Spínola até a 25 de novembro de 1975 irão confrontar-se duas conceções incompatíveis de governo. O projeto e a prática de Otelo propunham um regime democrático, enquanto os partidos do sistema e os seus dirigentes pretendiam um regime republicano”.

A REVOLUÇÃO DOS CRAVOS: O DIA EM QUE CAIU A DITADURA PORTUGUESA

Alex Fernandes

Relógio D’Água, 2025, 376 págs., €22


Se para Pulido Valente a conduta errática do chefe do Copcon nas semanas e meses que precederam o 25 de Novembro (distribuição de armas a civis, passividade antes ações como o cerco do parlamento, o assalto à embaixada de Espanha, politização crescente de unidades do exército e apelos abertos à insurreição armada) ameaçava “um paroxismo de violência e desordem de consequências quase incalculáveis”, Matos Gomes sugere algo diferente. “Todo o seu percurso de vida revela uma personalidade racional, ética, multicultural, e não há qualquer prova de um repentino e radical distúrbio de personalidade”, escreve no livro agora publicado. “Não existem provas de que a participação de Otelo no processo político que conduziu ao 25 de Abril de 1974 e ao seu desenvolvimento tenha sido uma campanha particular ou pessoal, uma cruzada missionária após uma revelação para implantar um programa messiânico, juntamente com um grupo de apóstolos, como algumas obras ao longo destes 50 anos o têm apresentado, algures entre um profeta, um excêntrico e um fanático.”

Filipe Garcia sintetiza: no 25 de Novembro, Otelo “viria a ser considerado um traidor pelos que o viram ir para casa dormir, conversar com Costa Gomes e recolher, mas será sempre um herói para outros, os que lhe agradecem Abril e os que lhe gabam a sensatez de, em novembro, ter recusado sempre avançar”.

 

https://expresso.pt/revista/culturas/2025-11-06-portugal-1975-seis-livros-para-compreender-o-25-de-novembro-cb1afa1a