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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Nascimento de Jesus, Um Cordel sobre o Natal - Euriano Sales


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euriano | 23 de Dezembro de 2008 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 4 utilizadores que não gostaram deste vídeo
O Nascimento de Jesus, Um Cordel sobre o Natal.
Textos: Euriano Sales - Ilustrações: Meg Banhos - Locução e Edição: Euriano Sales -  Trilha: Sa Grama

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

João de Calais: do cordel à literatura de quadrinhos

Notícias

Vermelho - 19 de Novembro de 2010 - 9h45

Cantam nautas choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
(Augusto dos Anjos. Barcarola)

Cordel Câmara Cascudo inclui este romance entre os “Cinco Livros do Povo”.
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A história de João de Calais pertence ao ciclo de cordel denominado “morto agradecido”. Câmara Cascudo inclui este romance entre os “Cinco Livros do Povo”, juntamente com “Donzela Teodora”, “Imperatriz Porcina”, “Roberto do Diabo” e “Princesa Megalona”.

A origem de João de Calais é francesa. Atribui-se à Madeleine Angélique Poisson a autoria da história. Casando-se com um espanhol, a escritora passou a ser conhecida como Madame de Gómez. No Brasil, a história de João de Calais foi divulgada por Câmara Cascudo ( prosa) e pelos cordelistas (poesia).

Na década de 1990, a editora Scipione publicou oito contos tradicionais de literatura popular, reescritos e ilustrados por Ricardo Azevedo e Ciça Fittipladi. “João de Calais” integra essa coleção.

Em 2010, a editora FTD lançou “História do navegador João de Calais e de sua amada Constança”, versão de Arievaldo Viana. Os textos da Scipione eram em prosa, a nova edição da FTD alia o cordel (sextilhas) à literatura de quadrinhos.

Arievaldo Viana, conhecido cordelista cearense, criou o texto verbal e Jô Oliveira fez as ilustrações. Nos dados biográficos do cordelista e do ilustrador, aparecem essas informações: Arievaldo Viana nasceu em uma fazenda do Ceará nas proximidades de Quixeramobim e sua diversão de criança era ouvir a avó Alzira ler os folhetos de cordel. Jô Oliveira nasceu em Pernambuco, mas passou parte de sua infância em Campina Grande, Paraíba. Nos idos de 1950, envolveu-se com quadrinhos e cordel e esse gosto, adquirido na infância, perdura até hoje. Depois dessas informações, caminhemos em direção ao livro de Arievaldo Viana e Jô Oliveira.

Para escrever a história de João de Calais, Arievaldo partiu do texto em prosa apresentado por Câmara Cascudo e procurou uma maneira fácil de ser compreendido por leitores de “qualquer idade... dos oito aos 80 anos” (o cordel). Quando criança, teve contato com a versão de Severino Borges da Silva, uma edição da Luzeiro do Norte, folheteria de João José da Silva.

A história quadrinizada se inicia com invocação às musas e o poeta pede a proteção divina para falar sobre João de Calais. Embora o texto original tenha vindo da França, o cordelista prefere a pronúncia portuguesa – Calais e não Calé.

Dirigindo-se aos leitores, afirma que vai falar do amor de Constança e das batalhas de João. Dois motivos quase universais aparecem na história – “o morto agradecido” e a “esposa resgatada”.

No universo dos personagens, destacam-se: João de Calais, Constança e a prima Isabel, o pai de João de Calais, o rei de Palermo, pai de Constança, e o sobrinho do rei – Florimundo, “um jovem mau e egoísta/ sujeito péssimo e imundo” e um morto insepulto.

É uma história marcada por aventuras marítimas, pirataria, traições e ciúmes.

O traço vigoroso de Jô Oliveira captou os momentos de tensão e os personagens revelam aflição no olhar, medo diante das adversidades e assombro perante fatos estranhos. As cores fortes, com predomínio do amarelo e vermelho, condizem com o sol tropical do Nordeste.

Este folheto tem despertado a atenção dos estudiosos da literatura de cordel. A professora Neuma Fechine Borges, na década de 1970, analisou-o à luz da semiótica na sua dissertação de mestrado na Universidade Federal da Paraíba. O trabalho da professora Neuma Fechine foi apresentado em diversas cidades brasileiras, em Portugal e na França (Universidade de Poitiers).

Neuma Fechine não teve a oportunidade de conhecer a versão de Arievaldo Viana, partiu antes do tempo, mas, certamente, iria gostar de saber que o folheto de Severino Borges foi revisitado por um cordelista jovem que imprimiu uma nova feição à velha história de João de Calais.
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renanbpf | 19 de Setembro de 2007 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 5 utilizadores que não gostaram deste vídeo
A TODOS QUE QUISEREM, PODER USAR DESTE VIDEO PARA TRABALHOS OU QUALQUER OUTRA APRESENTAÇÃO, SEM PROBLEMAS, BOM SABER QUE GOSTARAM DO TRABALHO !!! Foi um trabalho para o seminario de Português instrumental I da UNICAP, curso de DIREITO
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Oswald Barroso: Sertão de Poesia

Notícias

Vermelho - 18 de Dezembro de 2010 - 0h01

O Cedro que eu conheci no início dos anos oitenta do século passado ainda era o município de pequenos sitiantes produtores de algodão, com a usina de sua cooperativa agrícola, a escola técnica e várias indústrias em pleno funcionamento, além de um comércio muito ativo, ares de antigo centro ferroviário, lugar próspero, onde corria algum dinheiro na zona rural e se podia contratar um cantador de viola ou um sanfoneiro dos bons para uma noitada inteira.

Por Oswald Barroso*

Talvez por isso, guardasse marcas da pequena Atenas cabocla que fora, espécie de São José do Egito cearense(1) , ou de Assaré de Patativa, já que naqueles sítios, apesar da faina intensa sobrava tempo para ouvir rádio e sonhar poesia.

 
Imagino que ali, durante a primeira metade do século 20, quando Idalzira nasceu, o cabra em vez de nascer chorando, como costuma acontecer, já nascia cantando, porque versejar era como falar. Então, veja lá, havia dentro de casa o pai João Bezerra, exímio poeta, e Joan ainda fala de um “Tio Clóidio” que na certa por ali andava. Além do mais, é preciso lembrar, o Cedro não por acaso ser berço de Geraldo Amâncio, um dos maiores cantadores brasileiros da atualidade, nascido exatamente nos meados dos mil e novecentos. Poesia, portanto, no meio em que Idalzira foi criada, era patrimônio familiar e comunitário, pra lá de literatura e arte, assunto cotidiano, jogo e divertimento, motivo para disputa, exibicionismo, duelo e desafio.

Sob inspiração das musas eram organizados torneios, festivais, com gêneros diversos de disputas, que incluíam perguntas e advinhas. Provas nas quais os contendores, homens ou mulheres, careciam mostrar poderes mágicos com as palavras, através de arranjos intrincados de sons, e arrotar valentia, como se estivessem manejando espadas invisíveis. Conforme o caso, precisavam fazer tremer o inimigo com versos indecifráveis e rimas terríveis, ou comover o coração das mais resistentes donzelas com a narrativa de romances enternecedores.
 
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Talvez, principalmente, da intimidade do lar se nutrisse aquela poética, porque naqueles sítios de então, a vida se completava em rima. Digo pela forma como Idalzira fala de sua própria experiência: “Eu rimo quando estou triste/Para as mágoas espantar/Rimo quando tenho saudades/Pois é muito feio chorar/Rimo quando estou contente/Rimo quando estou ausente/Querendo te abraçar.” E de jogos e brincadeiras, as rimas se espalhavam por afetos, sentimentos, desejos, angústias, saudades, aflições, em conversas de salas, cozinhas, alcovas e alpendres principalmente. Demoravam-se em sessões nas quais a palavra falada, cantada de preferência, medida, exata, bem escolhida, era cultivada e cultuada, debulhada em cordéis, fabulada em histórias que narravam desde os mitos da origem dos tempos até a última novidade apregoada na feira ou ouvida no rádio.

Em sítios assim, orgulho maior é ser membro de uma prole de poetas, trovadores, repentistas ou especialistas outros do verso, como a família Bezerra de Idalzira. Não por acaso, Erivan, o caçula, perde completamente a modéstia para seguir a tradição, quando afirma sua pertença a esse clã. Diz ele, numa bela quadra: “Eu sou a pedra turquesa/Minha mãe é uma safira/Sou filho de Idalzira/Poeta por natureza.” E não está mentindo, pois se trata de uma família onde o cultivo da arte poética é bem herdado, estando justificada a admiração recíproca, embora, como afirma com autoridade Joan, o filho mais velho, a mestra indiscutível seja a mãe.

xxx

Visitei o Cedro, quinze anos depois de haver lá morado, dessa vez como repórter, e também Morada Nova, outro município onde havia do mesmo modo trabalhado como educador em cooperativas de pequenos produtores de algodão. Outra era a realidade. Distritos e sítios esvaziados, plantações abandonadas. Comércio mais ativo só no dia de pagamento dos aposentados. A população envelhecera, o interior definhara. No Cedro as poucas indústrias, casas de comércio maiores e centros educacionais haviam fechado. A juventude emigrara. Nos sítios, principalmente, estabelecera-se um sentimento de abandono na fala dos velhos.

Talvez por isso, a sensação que me veio ao ler a carta de Idalzira para Joan sobre o mote: “De uma casa cheia de gente/Só resta um gato e um cancão”, foi o de estar frente a uma nova “Triste Partida”, de um canto social, como o de Patativa do Assaré. Um canto de tristeza dos que ficaram e, porque não dizer também, dos que partiram. De uma família de sitiantes que vê seus filhos irem-se, um a um, às vezes para nunca regressarem. Por isso, o canto de Idalzira é geral e dói além de sua dor particular. É a dor do migrante e de sua terra, é a dor de dois terços do mundo. É a dor de um coração partido.

Mas a dor de Idalzira é também só dela e única, porque se foi Joan e depois, tão menino ainda, Erivan, o caçula. Logo ele. Nem adiantou o consolo da visita à residência universitária e o conselho ao filho, de colocar na parede uma gravura do sol brincando com a lua, no lugar da foto de uma mulher nua (na certa por causa da rima, pois ela queria certamente era que o filho colasse a gravura de uma santa). Nada preenche o vazio na casa após a partida dos filhos. Nem os bichos: “O cancão, meu grande amigo/Canta e pula sem parar/O gato fica a miar/Pensando que não lhe ligo/Porém baixinho lhe digo/Não tenha ciúme não/Que é grande meu coração/Amo a todos igualmente./De uma casa cheia de gente/Só resta um gato e um cancão...”

Se para quem fica o vazio não tem tamanho, para quem vai a dor tem a mesma proporção, como mostram esses versos antológicos de Joan: “Volto a pegar no papel/Pra mais uma vez escrever/Tentar assim combater/Esta saudade cruel/Que amarga como fel/Corrói o peito da gente/Dá uma dor tão pungente/Que quase eu dou razão/A quem mata a solidão/Em um copo de aguardente.”
"O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente".
Fernando Pessoa
E o que é tão grande para uma mãe quanto o vazio de uma casa sem os filhos? Um vazio que nem a zoada de um cancão e de um gato, de madrugada pedindo comida, abala? O que pode preencher a espera de uma mãe solitária enquanto sonha em reunir a família no final do ano? A poesia, Sultão! Responderia a princesa Sherazade.

A maga Idalzira também é iniciada nesse segredo. Para preencher o vazio de seu mundo, armou uma dimensão de versos e rimas. Fez-se aranha rainha, lançou suas linhas e estendeu sua teia entre os caibros, ligando filhos e netos. Dor e solidão, distância e separação, espera e abandono tratou de encantar em poesia. Por carta novamente a prole dos Bezerra deu corpo ao Cedro do velho João. Fez reviver os romances de amor, o lirismo dos trovadores, mas também os torneios cavaleirescos, os desafios, as disputas, os repentes, o humor corrosivo, o sarcasmo até, a valentia, a pabulagem, a briga, a dor, a traição, o ciúme, a intriga (por que não?), todos eles ingredientes indispensáveis para uma cantoria cheia de suspense ou para um cordel repleto de imprevistos.

Na correspondência mantida entre Idalzira, filhos e neta, a vida se faz arte e a realidade se encanta em ficção. Entre afetos e notícias trocados por mãe e filhos, os poetas inserem ingredientes propositalmente artísticos. Primeiro são os filhos que, brincando, fingem querer suplantar a mãe na arte poética. Ela como resposta lhes dá um puxão de orelha: – Respeita Januário! Depois, Joan e Erivan disputam a atenção e o amor de Idalzira simulando brigar por ela. Tudo para impressionar a mãe. E saem por aí, trocando rima, se exibindo para Idalzira, travando desafios, fingindo que a luta é só de brincadeira, pra mãe não se chatear com a arenga dos filhos. Em seguida, vêm os desafios lançados dos filhos à mãe e aceitos para saudar com versos cada neto que nasce, cada filho que casa, cada novo acontecimento na família. Mais adiante, é Joan que, para chamar atenção, se mostra escandalizado com o casamento da irmã e inventa de fazer graça, transformando aquilo num fato extraordinário.

A verdade é que nessa correspondência poética, não se sabe em que direção vai o fingimento, se no sentido de fazer a dor parecer maior para torná-la mais eficazmente artística, ou se no sentido de fazê-la artística para que se torne mais suportável. Não se pode precisar se a queixa da mãe é um pretexto para fazer poesia ou se fazer poesia é uma forma da queixa não se tornar aborrecida (porque sempre com muito bom humor), ou seja, da queixa poder ser feita reiteradamente, isto é, de fingir estar usando o pretexto da queixa para fazer poesia, quando a mãe quer mesmo é se queixar da falta de notícias do filho. Daí vem o dito de Fernando Pessoa colocado na abertura desse texto.

Muitas são cartas comuns como as de mãe orientando o filho, aconselhando o filho que se candidatou a vereador, ou a do filho consolando a mãe saudosa, outras da mãe com críticas e comentários políticos, mas há até mesmo cartas inusitadas como a do filho dando conselhos à mãe, escrita por ele como se aconselhasse uma filha, com muito humor e descontração. Depois entra a neta Geórgia na conversa e mantém o nível poético da correspondência, agora entre avó, filhos e neta.

Afinal, são cartas que ajudam a transformar a saudade em arte, a dor em vida, a solidão em beleza. Cartas que viraram atração entre os amigos de Joan e Erivan, lidas para o coletivo de estudantes. Cartas que, acima de tudo, revelam um imenso amor entre os três, agora quatro, sentimento bem traduzido nesses versos de Erivan para a mãe: “Me despeço de antemão/Já com saudade no peito/Mas sinto que é o jeito/Pois o tempo é um balão/Voando de hora em hora/Minha vontade era agora/Lhe mandar meu coração.”

Por tratar-se de um livro de correspondência poética, entre uma mãe e os seus, a obra já teria assegurado seu interesse e sua originalidade. De quebra, Idalzira ainda nos brinda com uma série de sonetos e outros poemas, em que fala de sua vida, de seus sentimentos, de sua família, de seus alunos e de sua terra, o Cedro. Trata-se, além do mais, de uma crônica do cotidiano rural, de um rico testemunho dos costumes, da política, da vida nos sítios, dos valores morais e do imaginário de uma vila sertaneja, onde ainda havia tempo e espaço para traduzir o mundo em poesia.

(1) Município do Alto Sertão do Pajeú pernambucano, berço de tantos poetas e cantadores famosos, entre os quais Rogaciano Leite e os irmãos Batista, Lourival, Dimas e Otacílio.

* Oswald Barroso é professor universitário, poeta, dramaturgo e pesquisador da cultura popular
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domingo, 19 de dezembro de 2010

Correspondências poéticas: Cordel Umbilical

Cultura

Vermelho - 18 de Dezembro de 2010 - 0h03

Em 2010, as correspondências — em forma de poesia de cordel — trocadas entre Dona Idalzira, Joan Edesson e Zerivan foram selecionadas e publicadas no livro: Cordel Umbilical. Além de revelar o universo e as sensações vivenciadas por seus autores, as cartas também declaram o imenso amor que existe entre eles. Posteriormente, a neta Geórgia também passa a participar da troca de cartas, e mantém o nível poético das cartas. Acompanhem abaixo algumas destas correspondências poéticas.

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Carta de Idalzira para Joan

Minha casa era hospedagem
Dos que moravam por fora
Homem, criança e senhora
Faziam camaradagem
Todos fizeram viagem
Em busca de outro torrão
Deixando meu coração
Cheio de saudades somente
De uma casa cheia de gente
Só resta um gato e um cancão

Foram embora meus cunhados
Meus sobrinhos, meus amigos
Foram enfrentar os perigos
Que existe em outros estados
Hoje estão espalhados
Me dando recordação
Vivo nesta solidão
Velha, cansada e doente
De uma casa cheia de gente
Só resta um gato e um cancão

Fomos quatro irmãos unidos
Todos morando por perto
Porém Jesus achou certo
Que ficássemos divididos
Por isto fomos escolhidos
Para esta separação
A mana do coração
Foi embora primeiramente
De uma casa cheia de gente
Só resta um gato e um cancão

Também um filho casado
Minha nora carregou
Meus netos também levou
Acabou o meu passado
Vi o mundo fracassado
Cheio de tanta ilusão
Pus a caneta na mão
Escrevi rapidamente
De uma casa cheia de gente
Só resta um gato e um cancão

Evandy saiu primeiro
Para fora trabalhar
Depois pôde carregar
Joan que é rapaz solteiro
Erivam foi derradeiro
Todo cheio de razão
Edvany disse: assim não
Vou casar ligeiramente
De uma casa cheia de gente
Só resta um gato e um cancão

Primeiro foi Evandy
Que era meu braço direito
Porém Deus achou bem feito
Levá-los todos daqui
Erivan, Joan, Edvany
Foi grande a separação
Só que não suporto não
De todos ficar ausente
De uma casa cheia de gente
Só resta um gato e um cancão

O cancão, meu grande amigo,
Canta e pula sem parar
O gato fica a miar
Pensando que não lhe ligo
Porém baixinho lhe digo
Não tenha ciúme não
Que é grande meu coração
Amo a todos igualmente
De uma casa cheia de gente
Só resta um gato e um cancão

Hoje é meu aniversário
Mas me sinto muito triste
Não sei como se resiste
Um viver tão solitário
Tá parecendo um calvário
Sexta-feira da Paixão
Porém a ressurreição
Pode chegar de repente
De uma casa cheia de gente
Só resta um gato e um cancão

Cedro, 20 de agosto de 1990


Carta de Joan para Idalzira

Sei que muito bom seria
Se nós pudéssemos viver
No mais completo prazer
Na mais repleta alegria
Eu de casa não saía
Não deixava o meu sertão
Pra viver na solidão
Neste lugar tão pacato
Dê lembranças ao seu gato
E um abraço em seu cancão

A gente não abandonou
Nossa casa por vontade
Mas porque a necessidade
É mais forte e nos obrigou
Tanto que a gente chorou
Quando da separação
Doeu nosso coração
Para fazer esse ato
Dê lembranças ao seu gato
E um abraço em seu cancão

Lembre-se Mamãe querida
Que um dia também deixou
A casa do meu avô
Para viver sua vida
Mesmo chorando a partida
Soube agir com a razão
Foi triste a separação
Mas consumou-se o fato
Dê lembranças ao seu gato
E um abraço em seu cancão

Se Edivam foi embora
Foi pra vida melhorar
Portanto não vá botar
A culpa na sua nora
Eu sei bem que a senhora
Tem muita recordação
De que o nosso torrão
Foi com ele muito ingrato
Dê lembranças ao seu gato
E um abraço em seu cancão

Edvany, na verdade
Foi cumprir a sua sina
Já não era mais menina
E queria a felicidade
Aí ou em outra cidade
Se for embora ou não
Deixando o nosso rincão
Não vai perder o contato
Dê lembranças ao seu gato
E um abraço em seu cancão

Eu, Erivan e Didi
Não esquecemos da senhora
Mas é que chegou a hora
De nós sairmos daí
Erivan e Evandy
Buscam outra posição
Melhorar de situação
Eu acho isso exato
Dê lembranças ao seu gato
E um abraço em seu cancão

Sua irmã e seus conhecidos
Tiveram que se afastar
Mas por isso não vá pensar
Que eles estão esquecidos
Dos bons momentos vividos
Aí em nosso torrão
Eu sei que o seu coração
Também sofre com o mau trato
Dê lembranças ao seu gato
E um abraço em seu cancão

Lembre, o meu padecimento
É parecido com o seu
Fique sabendo que eu
Vivo no maior tormento
Pois todo dia lamento
Esta minha situação
Pra aliviar a solidão
Não tenho nem seu retrato
Nem a companhia de um gato
Muito menos de um cancão

Acaraú, 23 de agosto de 1990


Mote glosado por Erivan

Nasci em setenta e três
Em um quatro de abril
Nesse dia o céu floriu
O sol mudou sua tez
Relato agora a vocês
Podem ter toda certeza
Ganhei o dom da beleza
E não quis o da mentira
Sou filho de Idalzira
Poeta por natureza

Desde pequeno provei
Toda minha inteligência
Sempre tive consciência
De mentir nunca gostei
Sempre, sempre procurei
Me comportar com presteza
Para provar com clareza
De que braços eu saíra
Sou filho de Idalzira
Poeta por natureza

Não me meto em confusão
Nunca fiz pirataria
Não gosto de valentia
Nunca soltei palavrão
É herança de vovô João
Que nunca teve afoiteza
Nem gostou de safadeza
Porém no toque da lira
Sou filho de Idalzira
Poeta por natureza

Nunca ninguém me avistou
Com intriga ou com zuada
Nunca fui de palhaçada
Pois mamãe já me avisou
Que eu mostrasse o meu valor
Trabalhando com firmeza
E que na vida a nobreza
Fosse sempre minha mira
Sou filho de Idalzira
Poeta por natureza

Não gosto de arruaça
Bagunça nunca gostei
Os Bezerra sempre honrei
Sem nunca fazer pirraça
Meu rumo levo na raça
No verso tenho destreza
Na poesia sou alteza
Sou rifle que muito atira
Sou filho de Idalzira
Poeta por natureza

Trago no sangue a poesia
Herança do meu avô
Minha mãe me repassou
Essa nobre primazia
E eu recebi com alegria
Esta sua gentileza
Tenho hoje esta certeza
Minha mãe é quem me inspira
Sou filho de Idalzira
Poeta por natureza

Rimo em quadra e em quadrão
Em martelo e em galope
Minhas rimas dão ibope
Em qualquer celebração
Rimo amor com coração
E rimo dor com tristeza
Rimo sertão com pobreza
E gente ruim com mentira
Sou filho de Idalzira
Poeta por natureza

Minha mãe é orgulhosa
De ter um filho poeta
Que faz poesia correta
E rimas maravilhosas
Que tira motes e glosas
Com maestria e firmeza
Eu sou a pedra turquesa
Minha mãe é uma safira
Sou filho de Idalzira
Poeta por natureza

Fortaleza, 30 de outubro de 1991


Carta de Idalzira para Erivan

Bom dia filho querido
Como é que vai você
Trinta dias sem te ver
É um tempo muito comprido
Faz-me mudar o sentido
E me dar perturbação
Me transtorna o coração
Mas aproveito o espaço
Para mandar-te um abraço
E a minha saudação

Mando também um beijão
E votos de felicidades
Fico com muitas saudades
Pois tenho minha razão
Aqui nesta solidão
Não tenho mais alegria
Me recordando o dia
Que me deixaste sozinha
Hoje mando esta cartinha
Deixando a segunda via

Esta natureza cria
Muita coisa diferente
Carrega os filhos da gente
Deixando na nostalgia
Só as mães sofrem agonia
Por verem os filhos distante
Mesmo sendo estudante
Procurando a melhora
Porém a mãe sempre chora
Sem esquecer um instante

Eu vejo no teu semblante
A falta do próprio lar
Como eu queria te dar
O meu convívio constante
Porém vivo bem distante
Já com pouca esperança
Pois ainda era criança
Quando daqui foste embora
Mas peço a nossa senhora
Que te dê perserverança

Com a fé tudo se alcança
Assim o provérbio diz
Eu quero te ver feliz
Cheio de paz e esperança
A vida é uma balança
Pendendo de lado a lado
Você é um felizardo
Tem uma mãe que te adora
Que muita vez até chora
A falta do filho amado

Eu sempre tive o cuidado
De lhe dar o bom conselho
De lhe servir de espelho
Lhe mostrando o meu passado
Quem respeita é respeitado
Nisto pode acreditar
Só aprende se estudar
Só vence quem quer vencer
E você precisa ter
Um futuro programado

Cedro, 17 de novembro de 1992


Carta de Idalzira para Joan

Joan meu querido filho
Recebi tua cartinha
Onde jogava pra fora
Toda angústia que tinha
Me fez tantos elogios
Só não me chamou rainha

Me chamou de vaidosa
Me chamou de egoísta
Só porque fui ao jornal
Para dar uma entrevista
Zombou da minha velhice
Sou velha mas sou artista

A velhice é coisa boa
Precisa se respeitar
Criei vocês com amor
Com amor devem pagar
Pois parte da minha herança
Reservei para te dar

O verso que me pediu
Eu fiz com todo respeito
Mas se você não gostou
Se não saiu do seu jeito
Peço para desculpar
Pois insulto eu não aceito

Parabenizei o Inácio
Da forma que merecia
Fiz votos para o Guilherme
No correr do dia a dia
Por favor você responda
O que é que mais queria?

Empreguei rima bonita
Em cada quadra que fiz
Nascimento de um filho
Faz sempre um casal feliz
Casamento sem ter filhos
É como árvore sem raiz

É comum se ter inveja
Quando nasce uma criança
Vocês ficaram com raiva
Mataram minha esperança
Para que trabalhar tanto
Sem ter a quem dar herança?

Diz que a casa é pequena
Dá somente para dois
Foi esta a sua desculpa
Que na carta me propôs
Depois pra me conformar
Disse os filhos vêm depois

Estava de mala arrumada
Já querendo viajar
Mas você me escreveu
Apenas para avisar
Que a casa era pequena
Pensei, assim não vai dar

Betinha me convidou
Mas fiquei encabulada
Porque você repetia
Que a casa era apertada
Mas pra Inácio e Chico Lopes
Ela serviu de pousada

Perdi minha esperança
De conhecer o Sobral
Lá só vai gente famosa
Da Assembléia Estadual
Mas eu só recebo crítica
Porque saí no jornal

Porém como sou humilde
Veja a minha recompensa
Deixo aqui o meu abraço
Muitos votos e minha benção
Aumente um pouquinho a casa
Pelo menos uma despensa

Cedro, 24 de junho de 2000


Carta de Erivan para Idalzira

Minha mamãe adorada
Eu vim restabelecer
A nossa correspondência
Que estamos a nos dever
Aproveito este momento
Logo após o lançamento
Para uma carta escrever

Vou de pronto agradecer
Por sua grande coragem
De sair do nosso Cedro
Nesta distante viagem
Para comigo encontrar
E além disso me brindar
Com sua linda homenagem

Eu falo sem pabulagem
Me orgulho em ser seu filho
E agradeço esta herança
Que me deu com tanto brilho
Espero seguir seu passo
Com calma e sem embaraço
Pra nunca sair do trilho

Vou de ladrilho em ladrilho
Seguindo esta longa estrada
Tentando ser um bom pai
Bom amigo e camarada
Com muito amor e alegria
No jardim da poesia
Vou fazer minha morada

Eu sei que é longa a jornada
Qu’inda vou ter pela frente
Sei também que este mundo
Enlouqueceu de repente
Aproveito e neste verso
Peço ao Rei do universo
Que clareie a minha mente

Peço ao Pai onipotente
Pra minha casa guardar
Cuidar da minha família
Meu caminho preparar
Dos males me proteger
Me ajudar a resolver
Os problemas que encontrar

Espero reencontrar
Em breve com a senhora
No Natal se Deus quiser
Não vejo chegar a hora
Vou arrumar a bagagem
Preparar nossa viagem
Ligeiro sem ter demora

Dona Mônica, sua nora
Lhe envia um grande abraço
Sua neta manda um beijo
Decorado com um laço
E eu aqui se pudesse
Se a inspiração viesse
De carta mandava um maço

Sem poder mando um pedaço
Com a minha admiração
Os meus agradecimentos
Por sua dedicação
O mais que na carta vai
O meu abraço em papai
E também minha benção

Finalizo a narração
Com muita felicidade
Mandando uma saudação
Ao povo desta cidade
Diga a todos por ai
Que Zerivan está aqui
Se acabando de saudade

Fortaleza, 25 de setembro de 2003.


Carta de Idalzira para Erivan

Erivan eu recebi
Bonita cartinha sua
Com as notícias de Mônica
E bom carinho da Lua
A lembrança daquela festa
Que é tudo que me resta
Mas a vida continua

Vejo que na mesma rua
Ou mesmo em toda cidade
O seu grupo de amigos
Provaram grande amizade
Naquela movimentação
Foi bonita a união
Que trouxe da faculdade

Eu via que na verdade
Todos queriam ajudar
O Mário escapou da morte
Pois precisava ficar
Porque naquele momento
Ia haver o lançamento
De um livro tão exemplar

A banda que veio tocar
Para animar o povão
As músicas muito saudáveis
Mexiam com o coração
Confesso, não esperava
Tanta gente que lotava
De lado a lado o salão

Admirei com razão
Este Centro Cultural
Que nos deu as boas vindas
Acolhendo o pessoal
Funcionários e gerente
Todo mundo competente
Recebendo de igual a igual

Você aí na capital
Mesmo como professor
Deu prova de bom amigo
Mostrando assim seu valor
Só teve o que mereceu
Graças a Deus que escolheu
Um ótimo orientador

Trate a todos com amor
Justiça, esperança e fé
Veja que eu escolhi
O seu nome de José
Companheiro de Maria
Que te levou naquele dia
Para o Centro Oboé

Me sinto feliz até
Pela brisa mansa e fria
Que me levou junto a ti
Declamar uma poesia
Que fiz durante a viagem
Pra te prestar homenagem
De minha própria autoria

Ouviu aí a verdade
Pois não gosto de mentira
Receba com amor e saudade
Um abraço de Idalzira

Cedro, 08 de outubro de 2003.


Carta de Joan para Idalzira

Dona Idalzira, o meu
Bom dia queira aceitar
Eu estou lhe escrevendo
Pras novidades contar
E lhe dizer que Erivan
Veio aqui me visitar

Chegou aqui sexta-feira
Do ônibus vinha enjoado
Lhe recebi muito bem
Com especial cuidado
Levei-o pra passear
Após ele ter jantado

Fui com ele à beira-rio
Um lugar especial
Mas ele só reclamava
Que não estava legal
Dizia que a viagem
Tinha sido infernal

Ligou logo pros amigos
E por lá mesmo ficou
Voltei pra casa sozinho
Comigo ele não voltou
Mesmo assim ele mais tarde
Lá em casa pernoitou

No outro dia o levei
Pra cumprir sua missão
Ministrar sua oficina
Que eu arranjei de antemão
Lhe apresentei a todos
Como sendo meu irmão

Terminado o seu trabalho
Apressou-se em partir
A procura de uns amigos
Com quem queria sair
Não voltou pra minha casa
Nem sei onde ele foi dormir

Lá em casa apareceu
Na tarde do outro dia
Somente para avisar
Que apressado partia
Nem aceitou a merenda
Que Betinha oferecia

Nem sequer agradeceu
Minha hospitalidade
Não disse nem se gostou
Aqui da minha cidade
Aliás, eu lhe vi pouco
Para falar a verdade

E eu que vendi seus livros
Fiz a maior propaganda
Do lucro que ele teve
Não recebi uma banda
Nem um agradecimento
Aquele ingrato me manda

Mas o pessoal parece
Que gostou da oficina
Pois elogiaram muito
O jeito como ele ensina
E o cordel é uma coisa
Que a todo mundo fascina

Gostaram de suas cartas
Que ele leu e mostrou
Dizendo pra todo mundo
Ter sido quem começou
A escrever em cordel
Até isso inventou

O Diogo é que do tio
Na mesma hora gostou
Desde a rodoviária
O pé dele não largou
E pelo tio Erivan
Ainda hoje perguntou

Por isso estou escrevendo
Para o fato narrar
Pra que a senhora saiba
A história sem errar
Antes que outra versão
Erivan vá lhe contar

Receba um beijo meu
Do João Pedro e do Diogo
Betinha manda um abraço
E eu vou encerrando o jogo
Que é quase meio-dia
E este Sobral é um fogo

Sobral, 26 de setembro de 2005


Carta de Erivan em resposta a Joan

Ô raça da língua grande
Já vi que nenhum escapa
Bastou eu virar as costas
Pra se descobrir a capa
E o irmão ciumento
Descortinar o seu mapa

Inda mais é fuxiqueiro
Conta aos outros sua história
Que ele do jeito dele
Faz parecer ilusória
Parece até por maldade
Ou por falta de memória

Eu cheguei mesmo cansado
Pois a viagem é ingrata
Cinco horas de buracos
Qualquer pessoa maltrata
E mesmo eu não possuo
Bunda e coluna de lata

Mas mesmo estando cansado
Depressa um banho tomei
E a sopa da Betinha
Com muito gosto jantei
Fui lá para a beira rio
Com meus sobrinhos fiquei

Brinquei muito com os dois
Correndo pra todo lado
Escorregando na grama
Com o Diogo sentado
Tanto é que o menino
Ficou por mim fascinado

João Pedro também gostou
Dessa minha brincadeira
Ainda ensinei pra ele
O jogo da capoeira
E o pai deles sentado
Feito burro em fim de feira

Depois saí realmente
Fui uma amiga encontrar
Porque é conveniente
Quando se vai passear
Querer rever os amigos
E a saudade matar

No outro dia o trabalho
Que fiz com o maior prazer
Levando o cordel àqueles
Que desejam conhecer
E um pouco de poesia
Pra quem queira aprender

O curso foi muito bom
Eu disse pro meu irmão
E também agradeci
Pela consideração
Ou ele se fez de surdo
Ou já não gira bem não

Ele mesmo quem chamou
Alguns amigos da gente
Quando terminou a aula
Miguel já estava presente
Fomos para um botequim
Conversar alegremente

Ainda ligou pro Sávio
E também o convidou
Pra ir lá nos encontrar
Sávio logo confirmou
Não ficamos muito tempo
Joan pra casa voltou

Aí eu pedi a ele
Pra me deixar num lugar
Pois novamente eu iria
Com Andréa me encontrar
E na casa do Fernando
Nós fomos para jantar

Dormi lá na casa deles
De manhazinha voltei
De novo com os meninos
Outro tanto eu brinquei
Depois fui a Meruoca
Com o Fernando almocei

Fui conhecer a família
Desse grande amigo meu
E logo depois do almoço
Da serra a gente desceu
Eis o relato completo
De tudo que aconteceu

Ainda presenteei
Esse mal-agradecido
Umas polpas de goiaba
E abacaxi escolhido
Que a mãe do meu amigo
Havia me oferecido

Agora aproveito a carta
Para aqui reafirmar
Só tenho a agradecer
De nada vou reclamar
Minha viagem foi ótima
Espero breve voltar

Eis aí mamãe querida
Toda minha narração
Pode em tudo acreditar
Que eu falo de coração
O resto tudo é fuxico
E intriga do meu irmão

Fortaleza, 27 de setembro de 2005


Resposta de Idalzira para os dois filhos

Joan Edessom e Erivan
Estamos no fim do mês
Estou cansada de ouvir
Esta briga de vocês
Não vou deixar pra depois
Se a briga era de dois
Porém agora é de três

Garanto por minha vez
Não fiz filho diferente
Porque nunca pulei cerca
Sou uma mulher decente
Vivo da minha labuta
E vocês estão nesta luta
Manchando a imagem da gente

Se Joan é inteligente
Veja, ele nasceu primeiro
Você tem que respeitar
Porque nasceu derradeiro
Mas veja que eu sou capaz
De nunca ficar pra trás
Conheço melhor o roteiro

Vocês podem ter dinheiro
Mas eu tenho competência
Quando nasci neste mundo
Deus me deu inteligência
Não sou uma velha pateta
Vim de família poeta
Honro a minha descendência

Erivan que estuda ciência
Está fazendo doutorado
Não menospreze o Joan
Que faz apenas o mestrado
Eu que sou analfabeta
Sendo mãe dos dois poetas
Não quero ficar de lado

O recado já foi dado
Veja se ninguém reclama
Lutei pra criar vocês
Estudaram pra ter fama
Veja o que aconteceu
Cospem no prato que comeu
Mas a mãe sempre lhes ama

Cedro, 28 de setembro de 2005


Carta de Geórgia para Idalzira

Minha vozinha querida
Que trago no coração
Vou lhe contar novidades
Que vão causar-lhe emoção

Agora eu sei fazer versos
Tal e qual o seu exemplo
Que transformou a poesia
Em belo e sagrado templo

Seguindo seus passos vou
Rimar por aí afora
Até que os versos prestem
Lá se vai mais de uma hora

Fortaleza é muito quente
O calor está matando
Faça chuva ou faça sol
É eu aqui só suando

Carnaval está aí
Vou passear na terrinha
Para matar as saudades
Da querida vovozinha

Aqui vou me despedindo
Sem fazer muito sermão
Beijos e abraços a todos
Te amo de coração

Fortaleza, 13 de fevereiro de 2009


Resposta de Idalzira para Geórgia

Geórgia o meu abraço
Muitos beijos e um bom dia
Com saudades estou lendo
Sua primeira poesia

Nós temos nossas raízes
Temos que levar em frente
Desenvolver a cultura
Que está na alma da gente

Adorei sua poesia
Parecida com as minhas
Achei que estavam perfeitas
Suas primeiras quadrinhas

Dos 11 aos 12 anos
Fiz a primeira experiência
Hoje com 84
Tenho a mesma inteligência

Me sinto muito feliz
Tenho dois filhos poeta
Agora pra completar
É poetisa minha neta

Agradeço ao Criador
Pela arte e a cultura
Devagar chegamos lá
Amando a literatura

Sua poesia é linda
Tem uma rima correta
É uma jovem estudiosa
E eu sou quase analfabeta

Ame a seu pai e sua mãe
Mas não esqueça sua avó
Meus filhos casaram todos
Hoje me vejo quase só

Cedro, 17 de fevereiro de 2009


Carta de Geórgia para Idalzira

Olá! Dona Idalzira
Como está a senhora
Não lhe falo há um bom tempo
Mas estou falando agora
Eu não sou desnaturada
Só estou é maltratada
Pelo estudo de três horas

Agora eu lhe pergunto
Quando por aqui vai vir
Poesias não são bastante
Para a saudade dormir
Sua neta manda o aviso
Consulte o seu juízo
Venha me fazer sorrir

Eu bem sei que a poesia
É nosso maior tesouro
Mas o amor de uma avó
Vale mais que todo ouro
Porque ele é infinito
E também o mais bonito
Porque é mais duradouro

Já ia me esquecendo
De pedir-lhe pra parar
Com essa sua história
"Não vou mais muito durar"
Nunca se dê por vencida
Pois a vida é uma corrida
Em que se tem de lutar

E quanto a dor nos joelhos
É inveja da idade
Ela não sabe rimar
Daí ter tanta ruindade
Pense na sabedoria
Nunca deixe a poesia
Essa é a finalidade

Mando beijos para todos
Na véia, no véio e em vovô
Pense com muita clareza
Me faça esse favor
Me despeço com saudade
Desejo felicidade
De Geórgia com amor.

Fortaleza, 23 de maio de 2009


Resposta de Idalzira para Geórgia

O meu pai trouxe nas veias
Sangue de família artista
Gostava da poesia
Era um grande repentista
A mim deixou como herança
Adorei esta conquista

Meu avô está na lista
Da primeira geração
Meu pai ficou na segunda
Na terceira eu pus a mão
A quarta é dos dois caçulas
Foi bem feita a divisão

As netas do coração
Ficaram em quinto lugar
Com as suas poesias
Me fazem até chorar
Inteligência é uma herança
Que ninguém pode tomar

Geórgia e Lua vão ficar
Pra levar o barco em frente
Estão na quinta geração
No estudo são competente
Clarice veio ajudá-las
Pois é muito inteligente

João Pedro ficou doente
Porque nele não falei
Diogo falou baixinho
Garanto que não liguei
Pois são eles os dois heróis
Da história que narrei

Cedro, 28 de maio de 2009
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  • Aos cordelistas umbilicais

    19/12/2010 18h13
    Queridas/os cordelistas Adorei esse cordel que se diz umbilical Gostaria de também ter inspiração de "repente", prá me colocar como igual Sei que não é para todos ter esse dom natural... e se eu insistir muitas vezes? conseguirei, mesmo não sendo genial? Parabéns pela poesia e um abraço prá vocês Mará
    Mará
    São Paulo - SP
    .
    .

Joan e Zerivan de Oliveira: Algumas e outras palavras

Notícias

Vermelho - 18 de Dezembro de 2010 - 0h02

Os irmãos Joan e Zerivan tomaram contato desde a infância com a poesia. O mérito é de Dona Idalzira, cearense do Cedro, professora, mulher de muita labuta e leituras. Ainda hoje, aos 86 anos, faz versos todos os dias, podendo-se afirmar que a poesia é sua grande companheira cotidiana. Acompanhe essa história através dos textos de Joan e Zerivan.

Algumas palavras

Joan Edesson de Oliveira

A poesia foi algo sempre presente em nossa casa. Desde pequeno acostumei a ver a minha mãe, Dona Idalzira, fazer os seus versos. Por qualquer coisa lá vinha uma poesia. Era o pranto por alguém que morria, era um casamento, um batizado, uma novidade qualquer, uma brincadeira, era a poesia sem motivo algum.

Havia ainda os versos do meu avô, João Bezerra, contados por minha mãe, com os quais eu me deliciava. Uma dessas estrofes carrego até hoje na memória, por causa principalmente da sua carga de humor e ironia.

Há quatro coisas no mundo
Que para mim não se faz
É mulher chamada Ana,
É homem chamado Brás
Calça de bolso na bunda
Paletó lascado atrás

Havia ainda o meu pai, verdadeiro “viciado” nas cantorias no rádio, as quais eu acompanhava atento em sua companhia. Era um rádio Semp, daqueles bem antigos, cujo cordão de sintonia vez por outra quebrava e lá ia eu pra alguma mercearia qualquer atrás de comprar “linha zero” para colocar novo cordão (o rádio era presença obrigatória na sala das casas de então). As cantorias eram diárias, na Rádio Iracema de Iguatu e na Rádio Difusora de Cajazeiras, salvo engano, sempre à tardinha. De longe, o meu cantador favorito era Antonio Maracajá, embora tantos outros gigantes do repente tenham feito morada na minha memória desde então. Meu pai tinha ainda um caderno com poesias de um tio seu, Tio Clóidio, meu tio-avô, refinadíssimas poesias que, infelizmente, perderam-se.

E havia, por fim, a coleção de cordéis de minha tia Maria Bezerra, Mãinha, também infelizmente extraviados, cordéis que foram minha primeira leitura, e a partir dos quais o mundo mágico, encantado, da cultura nordestina, se abriu para mim. Foi um clássico da literatura de cordel, o Romance do Pavão Misterioso que, se a memória não permite precisar como minha primeira leitura foi, no entanto a que mais me marcou.

Num ambiente como este seria impossível não me apaixonar pela poesia.

Poetas, cantadores, cegos de feira, foram uma constante em minha infância e em minha adolescência, tendo uma importância muito grande na minha formação cultural.
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No ano de 1990, morando na cidade do Acaraú, fustigado pela saudade, e lembrando das cartas em poesia que meu avô fazia, relatadas por minha mãe, resolvi escrever para ela nesta forma. Erivan, o irmão caçula, foi quem mandou a resposta, pois Dona Idalzira estava adoentada. Iniciamos aí a nossa correspondência em cordel, que dura até hoje, quase vinte anos depois, quando Dona Idalzira chega aos oitenta e seis anos e ainda rima muito melhor que eu e o Erivan juntos. Erivan é, aliás, o legítimo herdeiro, tendo se dedicado tanto à feitura quanto ao estudo do cordel, objeto do seu mestrado em literatura na Universidade Federal do Ceará.

A jornalista Janaína de Paula, em matéria sobre essa correspondência, chamou-a de “cordel umbilical”. Creio que é isso mesmo, é o laço que nos liga a Dona Idalzira, é o cordão umbilical jamais cortado, perpetuado nestas cartas rimadas onde brincamos, rimos, lamentamos nossas angústias e choramos nossas dores.

Mas uma ligação dessas, quem teria coragem de cortar? Pelo contrário, nós a temos reforçado desde então. A poesia, neste caso, tem servido também para imortalizar o nosso afeto.
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Há, nesse livro, parte da produção de Dona Idalzira. Há quase toda a correspondência trocada entre nós (eu e Erivan) e ela, há os sonetos, há outros poemas. Há muita coisa fora daqui, não havia espaço para tudo. A correspondência poética deste livro confirma os versos do poeta Manoel Caboclo (1916/ 1996).

Porque cordel não é aquele
que está pendurado num cordão
é aquele que é feito
com as cordas do coração.

PS: Quando finalizávamos esse livro fomos surpreendidos pelas poesias de Geórgia, neta de Dona Idalzira, de 14 anos, que resolveu “ingressar no negócio” de cartas em cordel. São, assim, cinco gerações de poesia desde o meu bisavô.


Outras palavras

Zerivan de Oliveira

Quando em junho de 1990, alguns dias depois de uma festa do chitão, saí do Cedro e fui embora para Fortaleza, não imaginava ainda a dimensão total daquele ato, que me levaria, entre outras coisas, à constituição de minha família, do meu doutoramento e da minha constituição enquanto ser. Também não passava pela minha cabeça que o bichinho da saudade iria se apossar do meu peito e lá fazer morada, com casinha e tudo, qual João de Barro num pé de juazeiro.

Aos dezessete anos e iniciando na vida adulta, pensava que tudo que eu precisava era sair debaixo da asa dos meus pais e alçar meus próprios vôos. Voei certo de não estar deixando nada para trás. Ledo engano. A saudade logo me pegou no laço e chorava feito bezerro desmamado longe da minha família.

No entanto, o consolo veio cedo. E chegou pelas mãos de um carteiro, como meu velho pai, que um dia também ajudou a encurtar a distância entre as pessoas. E o consolo veio rimado por Idalzira, minha mãe, que escrevia para também se consolar da lonjura do seu caçula:

O mundo é como uma bola
girando pra todo lado
ora é leve ora é pesado
tem eixo mas não tem mola
maltrata mas não consola
faz nossa mente esquecida
numa luta desmedida
nos matando de cansaço
levaram o último pedaço
do resto da minha vida

Hoje eu vivo quase só
do mundo sem esperança
mas com fé tudo se alcança
com paciência de Jó
amarrando e dando o nó
para não ser esquecida
nem dar passada perdida
e nem desmanchar o laço
levaram o último pedaço
do resto da minha vida

Lida em voz alta para os colegas da Casa do Estudante (creio que muitos ali se sentiam abraçados pelas palavras da minha mãe), aquela cartinha inaugurou uma correspondência fértil que permanece até hoje como marca e símbolo do quanto a literatura em sua variada gama de possibilidades pode estabelecer vínculos, materializar a memória e traduzir pensamentos.

Com ela e com Joan, migrante para as terras longínquas do Acaraú, comecei a me corresponder usando o cordel. Já se vão quase vinte anos desde que essa brincadeira familiar que agora é transformada em livro começou, unindo nossa família e consolidando nossa trajetória de poetas de cordel.

Lembro de uma vez, poeta letrado que eu já imaginava que era, quis ensinar-lhe a fazer um soneto, iniciando minha aula com a clássica regra “são dois quartetos e dois tercetos”. Minha mãe riu pra mim e falou: “Ah! soneto é isso?” E sacou um pacote de uma gaveta com pelo menos cinquenta sonetos. Quase caio pra trás.

Lembro também, ainda que vagamente, das manhãs de sábado, dia de feira, nos quais nossa casa se transformava, pois recebia a visita dos parentes e aderentes que moravam nos sítios e vinham à procura das cartas que chegavam aos cuidados do meu pai. A maioria dessas pessoas não sabia ler ou escrever e minha mãe cumpria o papel de transmissora dessas notícias de parentes que moravam distante, migrantes nordestinos espalhados pelo mundo. Ao término, muitas vezes entre prantos, as pessoas ditavam a resposta e Idalzira pacientemente traduzia sentimentos em palavras. Muitas dessas cartas terminavam com uma estrofe em cordel.

Relendo nossas cartas hoje, vejo como elas são mais do que simples missivas familiares. Elas constituem um registro precioso da nossa história, de certa forma situa a história do Cedro num contexto mais geral e acima de tudo mantém acesa a chama da poesia popular, que se encaminha para a quinta geração, mais de cem anos de poesia em família.

Idalzira não é uma poetisa comum. Herdou do pai, João Bezerra das Chagas, e do avô, a herança que deixou para mim e meu irmão, que quiçá vá mais longe ainda nos netos e netas dela. Sua verve poética é indomável, por mais que ela viva dizendo que não sabe mais rimar, que está velha, basta um pequeno fato, um acontecimento corriqueiro qualquer, para que ela corra ao papel e transforme um ato simples em um ato mágico. Basta uma saudade inesperada para que ela transforme lágrimas em poesia.

Joan tem plena razão. Aos oitenta e seis anos Idalzira é capaz de rimar melhor do que eu e ele juntos. Esse “cordel umbilical” que nos une não será cortado jamais.
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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Trava-Línguas de Luísa Costa Gomes

Trava Línguas
Escrito por Mariana e André    . .
9789722031271
Trava-Línguas, Luísa Costa Gomes
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Trava-Línguasde Luísa Costa Gomes
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Trava-Línguas (ou destrava-línguas) são pequenos textos, em prosa ou em verso, que jogam sobretudo com os sons das palavras e que se distinguem por serem normalmente difíceis de dizer. Se forem ditos muito depressa, é quase impossível pronunciá-los sem tropeçar. Neste livro procurou-se que todos eles contassem uma história simples.
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Ora vamos tentar:
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Num ninho de nafagafos
Há sete nafagafinhos.
Quando a nafagafa sai
Ficam os nafagafos sozinhos.
Coitadinhos!
Onde foi a nafagafa?
Foi a Faro em fraca
Fragata francesa
Que havia num frasco.
Comprou farinha,
Farelo, farófia,
Frescas travessas de fruta,
E truta.
Esfalfada a nafagafa
Voltou num voo veloz
Prós sete nafagafinhos.
Com tantos tantos presentes
Ficaram todos contentes!
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http://www.cortegaca.pt/pt/opinioes-e-sugestoes/literatura
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quarta-feira, 14 de julho de 2010

As lendas só são lendas porque acreditamos nelas

Ípsilon

Trasno - Colecção do Museu do Prado
Encontro internacional

As lendas só são lendas porque acreditamos nelas

17.06.2010 - Paulo Moura

Três dezenas de especialistas internacionais em lendas reuniram-se na casa do marquês de Fronteira, em Ponte de Sor. E concluíram: as lendas são histórias verdadeiras e não pertencem a um mundo perdido. Estão vivas e continuamos a acreditar nelas
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Os especialistas em lendas estão reunidos à volta de uma mesa e o marquês vai moderando a discussão, com uma campainha. Falam em várias línguas românicas embora esteja presente um alemão que não percebe nada. É de propósito. Ele é o "inimigo". Poderiam exprimir-se em inglês, língua que ele entenderia. Mas não. Usam o castelhano, o francês, o português, o galego ou o catalão. Inglês - é ponto de honra - nunca.



"Mesdames et messieurs, la discussion est ouvert", diz, num tanto autoritário, o 11.º marquês da Fronteira, D. Fernando Mascarenhas, tocando o sininho. A galega Camiño Noia Campos, catedrática da Universidade de Vigo, acabou de expor as suas conclusões sobre o que caracteriza uma lenda, por oposição ao conto. E em suma era isto: a lenda é verdade. Um conto surge da imaginação, consiste numa história ficcionada. No caso da lenda, a história aconteceu mesmo. Quem a conta, pelo menos, não tem dúvidas sobre isso. Conta-a como tendo acontecido e, em muitos casos, acontecido consigo próprio, ou com alguém de confiança. Se o contador da história já não acredita na sua veracidade, então já deixou de ser uma lenda. Parece simples: mas não é. Porque a verdade aparece sob diferentes formas. Há vários tipos. Há a verdade normal e a verdade estranha, ou sobrenatural. Camiño, que se exprimiu em galego, que todos compreenderam (menos Hans, o alemão), socorreu-se da tipologia de Tzetan Todorov sobre a literatura fantástica. Mas para os presentes as coisas são mais complexas do que parecem. Qual é realmente a diferença entre fantástico, estranho, maravilhoso, imaginário? "Quando a fantasia faz parte do imaginário das comunidades, isso é realidade", diz um dos participantes do encontro.



"É o caso dos milagres", exemplifica outro.



"Se é uma história que se assume como sucedida, apesar de ser maravilhosa ou sobrenatural, então é uma lenda, não um conto", responde um perito. E outro acrescenta: "O maravilhoso rege-se por leis próprias. O estranho não. Porque faz parte do real. Há histórias em que não se sabe em que mundo estamos."



"Então e o milagroso? Em que categoria é que o incluímos?"



"Ah, isso é o maravilhoso de origem divina, não pagã."



Uns falam em francês, outros em castelhano, outros em catalão. Alguém dá outros exemplos: "O achamento de tesouros, a aparição de fantasmas de mortos, bruxas com poderes, isso são coisas que acontecem."



"Claro, por isso são lendas."



A enorme mesa rectangular tem à volta vitrinas com porcelanas, pratos decorados com pássaros, uma lareira com lenha e uma colecção de caçarolas de cobre sobre a chaminé. Estamos numa casa aristocrática, entre as lezírias do Alto Alentejo, na herdade de Torre das Vargens, próxima de Ponte de Sor e propriedade de Fernando Mascarenhas, marquês de Fronteira. Foi ele que convidou os especialistas de lendas para a sua casa, por ser ele próprio um entusiasta do tema e amigo de longa data de Isabel Cardigos.



Isabel é a coordenadora de um projecto de catalogação do corpus lendário português, no âmbito da Fundação para a Ciência e Tecnologia, do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, da Universidade Nova de Lisboa, e do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Universidade do Algarve. O catálogo, que foi apresentado neste encontro, tem cerca de 2200 lendas, entre as quais as Lendas etiológicas (de topónimos, flores, fontes, lagos, rios, animais...), Lendas sagradas (milagres, fundação de capelas, punições divinas, santos, aparições, fuga para o Egipto...), Lendas urbanas (um fantasma que pede boleia, roubo de órgãos, xenofobias, assassínios...), Lendas históricas (povoações desaparecidas, romanos, mouros e cristãos, invasões francesas, castelhanos, batalhas, tomada de castelos, piratas, descobertas...) e Lendas do sobrenatural, que envolvem vampiros, sereias, procissões de almas, tesouros, diabo, bruxas, lobisomens, mouras e trasgos (o equivalente português aos trasnos galegos).



Mas é um trabalho ainda incompleto. A compilação das lendas, tal como dos contos, é aliás um processo que dificilmente se pode alguma vez considerar concluído. Há sempre lendas a acrescentar, e outras a excluir, à medida que deixam de ser lendas, ou seja, quando deixa de haver alguém que acredite nelas. Nessa circunstância, passam a ser mencionadas como lendas mortas.



Os contos do Sul




Mas antes das lendas, o que Isabel Cardigos e os seus colegas se dedicavam a estudar e coligir eram os contos populares. Começaram a fazê-lo, em relação ao Sul da Europa, em reacção ao esforço que já se tinha iniciado no Norte do continente. Foi lá, na Alemanha e na Escandinávia, desde o século XIX, que os contos se tornaram relevantes para a cultura erudita, e começaram a ser reunidos.



Um dos principais obreiros desse esforço, na nossa época, é o alemão Hans-Jorg Uther, que editou um catálogo de todos os contos populares europeus, ou melhor, dos seus "tipos", ou, melhor ainda, dos contos que surgem, sob diferentes versões, nos vários países e regiões da Europa. São 2800 tipos de contos, que tinham começado a ser reunidos em 1910, em alemão, e depois em 1961, em inglês.



Acontece que, desde há cinco anos, alguns dos especialistas da Europa do Sul consideraram que aos catálogos elaborados no Norte faltava uma dimensão específica da cultura popular da Europa do Sul. Isto explicam eles. Os especialistas do Norte acham que o problema foi o inglês ter-se tornado na língua dominante dos encontros internacionais. A verdade é que os sulistas se reuniram em Toulouse uma primeira vez, e depois mais quatro vezes, incluindo esta, em Ponte de Sor, de terça-feira, 8 de Junho, a sábado, 12.



Trata-se do Grupo de Reflexão Europeu sobre Narrativa Oral (GRENO), em cujas reuniões não se fala inglês. Mas Hans está presente todos os anos. "Convidamos sempre o "inimigo"", diz Isabel. E ele vai, porque ainda está a concluir o seu catálogo, "que só estará pronto em 2015 e inclui todos os tipos de contos da Europa", explica ele. Contos que "existem em pelo menos três países, sob pena de serem excluídos da edição seguinte do catálogo".



No salão do marquês, os peritos estão agora todos a contar lendas que descobriram em vários lugares. Umas incluem bruxas, que surgem em encruzilhadas, outras o diabo, a quem é chamado todos os nomes menos esse ("o das unhas grandes", o "calças", o "cabeludo"), outras, em território português, têm mouras encantadas e a Virgem, personagens que não surgem noutros lugares, onde são substituídos por figuras locais, representando embora papéis semelhantes, em histórias que são basicamente as mesmas.



É esse um dos temas em discussão nesta fase do encontro: como viajam as lendas de um lugar para o outro? O facto é que "a mesma história pode surgir em Portugal e na China", diz Isabel Cardigos. E está demonstrado que não é por geração espontânea: as lendas viajam. "Principalmente devido aos peregrinos."



A "menina do Kadoc"




Durante a semana que durou o encontro, os cerca de 30 especialistas de vários países falaram sobre lendas não apenas nas sessões propriamente ditas, mas também às refeições, nos passeios pelos jardins e ao serão, no palácio de D. Fernando, onde todos ficaram hospedados, por convite da Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. O ambiente é propício e as discussões são por vezes intermináveis e indisciplinadas, para desespero do anfitrião e moderador.



Alexandre Parafita, que pertence também à equipa do Arquivo e Catálogo do Corpus Lendário Português, falou das lendas do vale do Douro e suscitou controvérsia com as suas distinções entre lenda, conto e mito. Nos seus exemplos, mostrou imagens de monumentos antigos ou formações geológicas que deram origem a lendas, como forma popular de os explicar. Certas rochas situadas no topo de montes, por exemplo, suscitaram lendas diversas, correspondentes às diferentes perspectivas visuais que delas têm as várias aldeias.



Mas o tema que mais apaixonou os especialistas no último dia de trabalhos foi o das lendas urbanas. O único especialista português na matéria, porém, é relutante em classificá-las desse modo. José Joaquim Dias Marques, da Universidade do Algarve, referiu-se a algumas dessas "lendas urbanas". A do tráfico de órgãos, por exemplo, ou a dos chineses que não morrem, ou ainda a da "menina do Kadoc".



Dias Marques submeteu cada uma destas histórias que correm e em que as pessoas acreditam, hoje em dia, aos critérios de análise e classificação habituais, para concluir que elas não são "lendas urbanas", mas apenas lendas.



A da "menina do Kadoc", que circula no Algarve, conta que uma rapariga foi uma vez à discoteca Kadoc, na zona de Loulé, e, à saída, pediu boleia a dois rapazes, para ir para casa. Mas durante o caminho foi violada e morta. Depois disso, uma rapariga surge certas noites a pedir boleia à porta do Kadoc. Dão-lhe boleia, mas, num determinado local, ela diz: "Foi aqui que eu morri." E quando, nesse momento, o condutor olha para ela, não vê ninguém. A rapariga desapareceu.



Ora o investigador encontrou versões desta história noutros locais. A mais antiga foi numa revista da Califórnia onde, em 1942, se conta a lenda do "Vanishing Hitchiker". Mas ela existe muito antes, no século XV, quando não havia automóveis para dar boleias. Um rapaz foi a um baile e dançou com uma bela rapariga toda a noite. No fim levou-a a casa, mas no dia seguinte, quando a procurou, disseram-lhe que ela morrera anos antes.



É a mesma lenda, e não tem nada de urbana. Evoluiu, adaptou-se aos tempos e continuam a acreditar nela. Continua verdadeira e viva, o que, agora sabemos, só prova uma coisa - não é um conto, é uma lenda.

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