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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Carta aberta às televisões generalistas nacionais

OPINIÃO

Como cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

23 de Fevereiro de 2021, 0:30

Sabemos que há uma pandemia – e que o SARS-CoV-2, em vez de se deixar ficar a dizimar pessoas no chamado Terceiro Mundo, resolveu ser mais igualitário e fazer pesadas baixas em países menos habituados a essas crises sanitárias.

Sabemos que não há poções mágicas – as vacinas não se fazem à velocidade desejada e as farmacêuticas são poderosas entidades mercantis.


Sabemos que, mesmo cumprindo os cuidados tantas vezes repetidos – distância física, máscara a tapar boca e nariz, lavagem insistente das mãos, confinamento máximo –, qualquer um de nós, ou um dos nossos familiares e amigos, pode ser vítima da doença e que isso causa medo a todos, incluindo a jornalistas, fazedores de opinião e responsáveis de órgãos de informação.

Sabemos também que os média estão em crise, que sofrem a ameaça das redes sociais, a competição por audiências, as redações desfalcadas, os ritmos de trabalho acelerados impostos aos que nelas restam, a precariedade laboral de muitos jornalistas.

Mas mesmo sabendo tudo isto, assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro.

Sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo

Mesmo sabendo a importância da informação sobre a pandemia, não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o “caos” nos hospitais, a “catástrofe”, a “rutura” sempre anunciada, com a hipotética “escolha entre quem vive e quem morre”, a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes, a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar, o tempo de antena dado a falsos especialistas, as entrevistas feitas a pessoas que nada sabem do assunto, as imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em corredores e salas de hospitais. Para não falar das mesmas imagens repetidas constantemente ao longo dos telejornais do mesmo dia ou até de vários dias, ou da omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessados em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia.

Enfim, sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo.

Consideramos inaceitável a agenda política dos diversos canais televisivos generalistas, sobretudo no Serviço Público de Televisão.

Como cidadãs e cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

Subscritores
Abílio Hernandez, Professor universitário; Alberto Melo, Dirigente associativo; Alfredo Caldeira, Jurista; Alice Vieira, Escritora; Ana Benavente, Professora universitária; Ana Maria Pereirinha, Tradutora; António Rodrigues, Médico; António Teodoro, Professor universitário; Avelino Rodrigues, Jornalista; Bárbara Bulhosa, Editora; Diana Andringa, Jornalista; Eduardo Paz Ferreira, Professor universitário; Elísio Estanque, Professor universitário; Fernando Mora Ramos, Encenador; Graça Aníbal, Professora; Graça Castanheira, Realizadora; Helder Mateus da Costa, Encenador; Helena Cabeçadas, Antropóloga; Helena Pato, Professora; Isabel do Carmo, Médica; J.-M. Nobre-Correia, Professor universitário; Jorge Silva Melo, Encenador; José Rebelo, Professor universitário; José Reis, Professor universitário; José Vítor Malheiros, Consultor de Comunicação de Ciência; Luís Farinha, Investigador; Luís Januário, Médico; Manuel Carvalho da Silva, Sociólogo; Manuela Vieira da Silva, Médica; Maria do Rosário Gama, Professora; Maria Emília Brederode Santos, Pedagoga; Maria Manuel Viana, Escritora; Maria Teresa Horta, Escritora; Mário de Carvalho, Escritor; Paula Coutinho, Médica intensivista; Pedro Campiche, Artista multidisciplinar; Rita Rato, Directora do Museu do Aljube; Rui Bebiano, Professor universitário; Rui Pato, Médico; São José Lapa, Actriz; Tiago Rodrigues, Encenador; Vasco Lourenço, Capitão de Abril

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2021/02/23/opiniao/opiniao/carta-aberta-televisoes-generalistas-nacionais-1951298

domingo, 2 de agosto de 2020

dois poemas de Mário Castrim

* Victor Nogueira
A crítica de televisão escrita por Mário Castrim (1920 / 2002)  no Diário de Lisboa, dia-após-dia, ano-após-ano era uma janela aberta por onde passava a brisa do mar ou da montanha, uma lúcida e por vezes corrosiva visão do país cinzento, agrilhoado, espartilhado, oprimido, estilhaçado pela censura e pela repressão. A sua crónica era a 1ª secção a ler por muitos de nós, como hoje se procura a tira do "Calvin e Hobbes" ou o "Bartoon"

Para além de jornalista, Mário Castrim foi escritor, de poesia e de livros para a infância. Dele ficam estes dois poemas:

No retrato velho hoje cinzento
estava toda a família reunida. – Este aqui és tu. Este tu era eu – três anos, caracóis, calções colete, botas. Este sou eu. É preciso guardar as provas. Os documentos. Se um dia me fecharem as cancelas e não me deixarem passar, aponto logo: – Este sou eu. – Passe – dirá o guarda que deve haver na eternidade – e boa viagem, sim? – Claro – dirá o menino que entretanto busca em mim as sete diferenças como costuma fazer no desenho do suplemento do jornal ~~~~~~~~~~~~~~~~ Deste ponto do hotel vê-se qualquer coisa que logo desde o início se entendeu não poder ser outra coisa além do Cabo da Roca. Daqui donde estou se vê que o Cabo é perfeitamenhte ocidental o mais ocidental possível. Mais do que ele, só os nossos olhos. Eles, para quem a terra não acaba nunca. Eles, que tocam o ponto exacto onde um sol de fogo prova que ela é redonda. Mário A única diferença é o farol. Mas se fores tu de noite a olhar o mar, os barcos podem ir à confiança.


segunda-feira, 27 de julho de 2020

Inês N. Lourenço - Perry Mason: retrato do advogado enquanto detetive malcomportado



A famosa personagem criada por Erle Stanley Gardner regressa ao pequeno ecrã com um requintado estilo noir. Nesta nova aposta da HBO, Matthew Rhys veste a pele de Perry Mason, numa atuação muito diferente do original e digna de se lhe tirar o chapéu.
22 Junho 2020 — 00:41

A ilustre figura de Raymond Burr como advogado de defesa criminal na série televisiva Perry Mason (1957-1966) é para esquecer quando, na nova série homónima da HBO, vemos um Matthew Rhys pouco polido, sempre de chapéu e cigarro na boca, a comprar uma gravata na morgue, roubada a quem já não vai precisar dela. Entenda-se: essa personagem nascida do fenómeno literário de Erle Stanley Gardner é o ponto de referência mas não funciona como piscadela de olho para um exercício respeitoso de nostalgia. Pelo contrário, a ideia dos criadores Rolin Jones e Ron Fitzgerald foi reinventar a postura do protagonista dentro do seu universo, rodeado de nomes que são familiares a quem leu os livros ou assistiu ao sucesso da CBS (em Portugal, passou na RTP), e introduzir uma carga sombria que se espalha ao longo dos oito episódios.

Desde logo, o Perry Mason de Rhys (The Americans) vive em plena Grande Depressão, e nos primeiros momentos da série ainda não é um advogado de renome. Sem um tostão no bolso, ele faz pela vida trabalhando como detetive privado no rasto de intrigas de Hollywood, acompanhado de uma pequena máquina fotográfica e de um cúmplice que alinha nos seus métodos muito pouco ortodoxos. Mora numa quinta decadente, separado da mulher e do filho, bebe que se farta (à sombra da Lei Seca) e enquanto veterano da Primeira Guerra é frequentado por memórias que volta e meia o atormentam. Quando lhe chega o convite de um amigo advogado, E.B. Jonathan (comovente John Lithgow), para investigar um caso mediático de sequestro e homicídio, Mason não perde tempo a pôr o seu faro apurado em ação, seguindo por atalhos pouco recomendáveis e, claro, sem fazer cerimónia no que toca à recolha de provas.


Firmada no espírito da Los Angeles de 1932, esta séria acaba por ser uma história das origens da personagem, com traços de revisionismo que a aproximam de uma certa respiração atual. Veja-se, por exemplo, o polícia negro (Chris Chalk) que aqui dá rosto ao conhecido Paul Drake, futuro detetive privado que auxilia Mason, ou a incansável secretária Della Street (Juliet Rylance), que esconde uma relação lésbica. Tanto o racismo como a homofobia atravessam o retrato de uma sociedade que está igualmente espelhada nas miudezas do caso investigado.

A dar mais robustez à trama deste Perry Mason surge ainda a líder de uma igreja evangélica, Irmã Alice (Tatiana Maslany) - cuja presença vigorosa é quase uma narrativa paralela - e todo um sistema de corrupção que procura distorcer as linhas da verdade, entre perseguições, assassínios e cadáveres à mercê. Porém, no cerne de praticamente tudo está algo muito pouco policial: a dureza que define as relações familiares. Será legítimo dizer que esta primeira temporada, com ares de continuação, serve de lente para observar os dilemas interiores das personagens. Cada uma à sua maneira, tenta descobrir um caminho pessoal.

Coproduzida por Tim Van Patten (Boardwalk Empire), realizador da maior parte dos episódios, e pelo ator Robert Downey Jr., que esteve para interpretar Perry Mason, a série brilha não só nos detalhes da reprodução de época, mas também, e sobretudo, no requinte e disposição noir, que faz da solidão do protagonista um veículo para explorar o lado pútrido da cidade. Matthew Rhys personifica com muita segurança esse misto de desmazelo e força moral de Mason. É uma espécie de cão rafeiro com hora marcada para trocar as voltas ao destino, contando com uma pequena ajuda dos amigos.

Apesar do cenário de crime, Perry Mason contraria o ritmo frenético e programado de muitas séries policiais. Cada episódio presta uma atenção adulta aos diferentes contextos domésticos que traduzem a realidade da vida em Los Angeles, e essa paciente construção de uma intimidade é a alma do negócio narrativo. Este, por si só, não propriamente genial em termos de suspense, mas maduro na abordagem. Talvez porque o mais importante são as personagens e a sua ressonância emocional. Para avançar é preciso conhecê-las bem, perceber a melancolia que está por detrás de uma gravata suja de mostarda, substituída por outra comprada numa morgue.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Mário Castrim (1920-2002)

Morreu Mário Castrim

O nosso camarada Mário Castrim, escritor, jornalista e crítico televisivo, faleceu na madrugada de terça-feira, no Hospital dos Capuchos, em Lisboa, onde estava internado desde o início de Agosto. Com 82 anos, Mário Castrim encontrava-se nos cuidados intensivos do Hospital dos Capuchos, sofrendo de pneumonia.
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Mário Castrim, pseudónimo de Manuel Nunes da Fonseca, foi o primeiro crítico de televisão em Portugal. Militante do PCP, era o mais antigo e regular colaborador do Avante!, enviando os seus poemas semanalmente e até ao fim.
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O Secretariado do Comité Central do PCP manifestou de imediato o seu pesar. Compartilhando a dor da família e enviando um abraço fraternal de solidariedade à esposa do jornalista, a escritora Alice Vieira, e aos seus filhos, André e Catarina Fonseca, o Secretariado «presta homenagem a esta destacada figura da vida cívica e cultural do país nos últimos 50 anos, ao militante comunista com muitas décadas de corajosa e coerente intervenção, ao crítico de televisão, escritor e intelectual que tanto contribuiu para a formação democrática e humanista de muitas gerações».
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O Secretariado apelou aos militantes comunistas e a todos os cidadãos progressistas para participar no funeral do jornalista, que teve lugar ontem de manhã, no Cemitério de Benfica. Carlos Carvalhas, secretário-geral do PCP, José Casanova e Vítor Dias, ambos membros da Comissão Política, estiveram presentes.
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Carlos Carvalhas enviou, anteontem, um telegrama de condolências à família. «Recebendo com grande tristeza a notícia do falecimento do Mário, envio-vos a expressão do meu profundo pesar, evocando com respeito e admiração a figura de Mário Castrim como comunista com muitas décadas de acção dedicada e coerente, como homem bom, vertical e generoso, como cidadão com uma relevante contribuição para a formação cívica e política de várias gerações, como um artista e criador solidamente vinculado aos ideais humanistas», lê-se no telegrama.
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Também o Sindicato dos Jornalistas manifestou o seu pesar, salientando que o desaparecimento de Mário Castrim «empobrece o panorama da comunicação social portuguesa na dupla vertente dos que aproduzem e dos que a interpelam».
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«Mário Castrim há-de permanecer como referência histórica do género e exemplo a considerar por sucessivas gerações de críticos, mas também ficará na nossa memória como homem culto e lúcido, cidadão comprometido com o seu tempo e fiel às suas convicções», sublinha o sindicato.


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Até sempre!
Desculpa, Mário, mas nesta hora triste, ao evocar-te, lembro-me de mim. É assim, presumo, que os amigos são mais fortemente lembrados. Pelo que eles pesaram na vida de cada um de nós, pelo rumo a que nos solicitaram, pelas perspectivas que abriram. Lembro-me de um dia assim em Outubro, já lá vão uns quarenta e cinco anos, subia eu as velhas escadas do Diário de Lisboa, na Luz Soriano, com uns papéis na mão (desenhos, poemas, um conto?). E no patamar vou encontrar-te sorrindo ao puto que subia entre os azulejos que forravam as paredes, mostrando tesouras e rolhas, os objectos torturantes da censura que, logo aprendi, não escolhia idades mas ideias para cortar. E tu, a sorrir por detrás dos óculos, paciente e bondoso, disposto a mostrar como era o mundo aos jovens desse tempo que contigo aprenderam que a palavra não era vã, a ideia não era de somenos. Nesse Diário de Lisboa Juvenil uma geração inteira fez pelo menos essa aprendizagem. Que deu frutos. Alguns povoam hoje outros pomares, bem sei, mas tu construías apenas uma coisa bem grande - a de ter opinião contra o silêncio, a de exercer a liberdade em tempo de prisões, a de tomar a responsabilidade. Lembro-me dos teus textos, dos teus nomes, da prosa ágil, do largo espaço que, com o Augusto da Costa Dias e com o Tossan, abriste, não sem risco, nesse jornal. Lembro-me do teu gosto pela poesia, da conversa ao café, quando disseste que andavas apaixonado pela poesia do Fernando Pessoa. Mais tarde, muito mais tarde, e já no exílio, da crítica de televisão, uma voz a convidar o leitor a que pensasse com independência em frente ao pequeno ecrã. E, apesar de hoje e com justiça, te chamarem crítico de televisão - afinal o primeiro, a referência em relação à qual os outros todos, bem ou mal, achavam lugar e voz - sabemos de ti muito mais. O pedagogo, o poeta, o crítico, o jornalista, o escritor. E, finalmente, talvez primeiro que tudo: o camarada e o amigo que só não perdemos porque persistes nas nossas memórias e nos nossos corações.
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Leandro Martins    

«Avante!» Nº 1507 - 17.Outubro.2002
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"O Lugar do Televisor" de Mário Castrim

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Apresentação do III volume no dia em que o autor faria 83 anos

Foi mais do que uma apresentação de um livro. Foi a homenagem ao seu autor que, neste dia 31 de Julho de 2003 completaria 83 anos. A sua ausência emocionou editores, leitores e amigos. Um deles, Mário Zambujal, declarou, mal pôde, que se tornava embaraçoso apresentar um livro de um “amigo íntimo” quando ele já não está entre nós. Arlindo Pinto que, recordou, recebeu a notícia do seu falecimento em Nampula, onde actualmente é missionário, não escondeu as emoções incontornáveis do momento.
Trata-se do Terceiro Volume de “O lugar do Televisor”. São crónicas, escritas a pensar na juventude, pelo autor que fundou o “DL Juvenil” (Diário de Lisboa Juvenil). Eram aliás desses tempos muitos dos amigos que se reuniram no auditório dos missionários combonianos para recordar “o amigo”.
“A todos tratava por amigos”. A garantia é do Pe. Arlindo Pinto. Foi, aliás, nos tempos em que ele era director da Audácia e da Além-Mar que Mário Castrim começou a publicar as crónicas, agora editadas em livro (já lá vão três volumes). E se a decisão de o fazer “colaborador” da revista Audácia foi clara e rápida (bastou um encontro com o autor), já a sua aceitação não foi tão pacífica: o Pe. Arlindo lembrou comentários que lhe fizeram confrades e amigos, que viam apenas o crítico de tudo e todos.
Os textos publicados desde Setembro de 1993, todos os meses na Revista Audácia, demonstram, no entanto, que Mário Castrim sabe estar atento também à vida dos homens e mulheres, apontando valores necessários à educação das novas gerações. Prova disso é outro livro de Mário Castrim que, adiantou o actual director das revistas dos missionários combonianos, Pe. José Rebelo, era para ser publicado também neste dia. São comentários aos salmos da Bíblia, elaborados pelo mesmo autor de muitas críticas a quem aparecia na televisão.
Mário Zambujal tem dúvidas se é o escritor ou o jornalista que escreve estas crónicas. Garantiu, no entanto, que Mário Castrim agrupa a beleza e a nobreza do trato com a língua portuguesa, qual grande escritor, com a atenção ao realismo da vida, próprio dos grandes repórteres.
“O lugar do televisor - III Volume” revela “o talento e a ternura de um contador da vida” – escreve Mário Zambujal na apresentação – que todos os amigos presentes faziam questão de afirmar, seja durante a sessão formal de apresentação do livro, seja durante o convívio informal que se lhe seguiu. Por parte dos missionários combonianos, palavras de muito reconhecimento ao Mário Castrim, que escreveu e “ainda não fez contas”. Disse, após as primeiras crónicas escritas ao director da altura: “eu vou escrevendo; vocês publicam, se assim o entenderam. Depois veremos quem deve a quem”.
A homenagem estendeu-se à família, que estava presente. Com filhos e netos, Alice Vieira, sua mulher, agradeceu. Agradeceu também o apoio que os missionários combonianos lhe continuam a prestar.
Agora, é ela a colaboradora mensal da Audácia.
Nacional | Paulo Rocha | 2003-07-31 | 23:05:00 | 2932 Caracteres | Combonianos
 http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=2168
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quinta-feira, 10 de abril de 2008

TV digital: melhores imagens e só

ENSAIOS

Segunda-feira, 31/3/2008

Sérgio Augusto
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Ela primeiro chegou a São Paulo. Oficialmente no dia 2 de dezembro de 2007, com direito à festa no arraial paulistano e a presença do presidente Lula. Daqui a três semanas, será a vez do Rio de Janeiro; provavelmente no dia 20 de abril, por desejo da Rede Globo, que pretende aproveitar seu aniversário para estender os recursos da TV digital de alta definição, vulgo HDTV, aos 17 municípios da Região Metropolitana do Rio. Em São Paulo, as redes inauguraram o sistema juntas. No Rio, a Globo sairá na frente, sem que se saiba em que datas a Bandeirantes, o SBT, a Record e a Rede TV! darão tchau ao analógico.

Mas parece certo que, ainda neste semestre, será possível apreciar com maior nitidez e melhor sonoridade a brejeirice de Márcia Goldschmidt e Sonia Abraão, a breguice de Hebe, Gugu, Otavio Mesquita e Raul Gil, os ademanes de Gasparetto e os púlpitos e pátios dos milagres de todos os bispos e pastores da Rede TV! e da Record. Pérolas aos porcos.

Para quê imagens com maior definição se o que elas em geral exibem não merece mais do que um jurássico televisor em preto & branco? Para nos emburrecermos letalmente diante de um televisor ("amusing ourselves to death", na feliz expressão de Neil Postman sobre a vampirização da humanidade pelo vídeo), a transmissão analógica basta. Se o olhar do observador altera o objeto observado, o foco perfeito não melhora a qualidade intrínseca do objeto focalizado.

A questão fundamental, portanto, não diz respeito a monitores de plasma ou cristal líquido, com 1.080 linhas, miríades de pixels e conversores integrados ou periféricos, mas a formas & conteúdos tão ou mais ultrapassados que um tubo de raios catódicos.

Com raríssimas e escasseantes exceções, a televisão brasileira anda muito ruim, quase italiana, só um pouco acima da mexicana. Tecnicamente, avançamos bastante; chegamos até a impor um padrão internacional de teledramaturgia, mas até nessa seara estacionamos; ou melhor, regredimos, caindo num esquematismo, numa mesmice de dar dó. E que até os comerciais já contaminou, sobretudo os de automóveis, cervejas e produtos de beleza, a maioria deplorável.

Suposta salvação da lavoura, a TV a cabo e por satélite, no Brasil, revelou-se uma decepção. Pouco importa que, devido ao número insatisfatório de usuários, nossa TV paga não possa ter cumprido suas promessas ("Programas exclusivos!", "Sem intervalos comerciais!", "Somente filmes legendados!" etc.) nem baixado os preços da assinatura a níveis mais compatíveis com o bolso do brasileiro médio. A Sky fala muito em interação com o telespectador, mas não lhe possibilita montar um pacote razoavelmente ajustado às suas preferências.

Mesmo o cliente que, persuadido a contratar um pacote de 98 canais, optou por outro de, digamos, 78, para evitar uns 20 sem o menor interesse para ele, teve de engolir um chorrilho de inutilidades. Ou levamos o filé de 200 gramas de carne e 30 quilos de osso, ou nada feito.

Experimente abrir mão dos sete ou oito canais de programação infantil, perfeitamente dispensáveis para quem não tem filhos. Se conseguir livrar-se de todos eles, na certa perderá outros de seu particular interesse, compulsoriamente atrelados aos puericanais recusados.

Zapeando pela grade da Net ou da Sky Net+Directv, um assinante não vidiota se detém, no máximo, em dez canais. O que não quer dizer que na maioria deles permaneça mais de alguns segundos, tempo suficiente para uma estimativa do tédio ou do insulto à inteligência que o aguarda. Sei de gente (com uma quantidade razoável de neurônios e afeita a diversificadas formas de lazer & cultura) que salta direto da Globo para os dois canais Sportv, desprezando cerca de 34 (trinta e quatro!) emissoras intermediárias, invariavelmente enxundiadas por cultos religiosos, camelôs eletrônicos, videoclipes de rock, fofoquinhas de celebridades, desenhos desanimados e leilões de gado, jóias e ouropéis.

Ok, o canal de golfe é bônus. O Speed também. Bônus, do latim "bonus" (bom), é sinônimo de prêmio e vantagem. Para quem despreza golfe e veículos em alta velocidade, tais bonificações não são um prêmio, mas uma usurpação de espaço. Nestes e noutros, ocupados por canais como Managementv, Canção Nova, Terra Viva, LBV etc., poderiam estar, franqueados ou com desconto, um ou dois HBOs, um Cinemax, um Maxprime (que, aliás, está exibindo a melhor telessérie dos últimos tempos, A Escuta).

Até por dever profissional, sou freguês assíduo da Globo News (e com maior entusiasmo quando Ana Paula Couto comanda o Em Cima da Hora), visitante bissexto do GNT (ele é de Vênus, eu sou de Marte, certo?), freqüentador constante do Universal (por conta de House, Law & Order S.V.U. e Monk) e eventualmente da CNN. Ando cada vez mais alheio às sessões dos Telecines, pois até o melhor deles, ex-Classics, adotou nome mais elástico (Cult) para justificar os abacaxis que praticamente passaram a monopolizar suas sessões.

Abandonei o Sony desde que de sua programação desapareceu o C.S.I. Las Vegas, banido para o AXN. Assinei, esperançoso, o TCM, que já se acomodou ao que Graciliano Ramos chamava de "gosto rombudo das massas", atravancando seu horário nobre com as nostálgicas baboseiras (Chaparral etc.) antes confinadas ao nicho vespertino. O Eurochannel costuma ser um tédio à altura das cinematografias que representa. O Hallmark Channel é uma tapeação, com a agravante de que não ensinaram ao locutor que promove seus filmes a pronúncia correta de Hallmark: é "Rolmarque", e não "Carimaqui", como ele persiste em dizer, como se estivesse nos oferecendo uma nova variedade de sushi.

Como cobram R$ 200,00 de mensalidade por 93 canais, cada um custa em torno de R$ 2,15 por mês, uma pechincha para quem usufrui de todos eles. Para quem não tem o hábito de assistir a mais de 10 canais desse pacote, a conta, no fim do mês, chega a R$ 20,00 por canal. Seria um preço razoável se os 10 canais nos enchessem as medidas ― e, acima de tudo, se ganhássemos em dólar, que, embora até aqui deliqüescente, ainda vale quase o dobro do real.

Minto: nem assim. A Digital Cable de Nova York cobra US$ 61.50 por mês por um pacote de 225 canais. Por cada canal, o assinante desembolsa cerca de 27 centavos de dólar (mais ou menos 50 centavos de real).

Há muito virou pó a esperança de que, quanto mais assinantes a TV paga amealhasse, maior qualidade poderia oferecer. Num país como o nosso, apinhado de ignorantes, tal lógica não funciona. Aqui, quanto mais o consumo de algo se horizontaliza, mais se amplificam a mediocridade e o desleixo. A programação da Globosat maiamizou-se inteiramente, inclusive por ser, em grande parte, comandada de Miami. Esto tiene un precio. Até com chamadas em portunhol somos, ocasionalmente, agredidos, quando não surpreendidos por chamadas e documentários com legendas em espanhol, como o que o TNT exibiu há tempos sobre o ator Roger Moore.

As inopinadas alterações na localização de canais na grade, que a inúmeros assinantes tanto irrita, são de somenos. Mais graves são as insistentes reprises e os erros ditados pela incompetência dos tradutores de narrações e legendas: erros crassos de português e identificação (o cineasta Irving Rapper já virou "Ralph Rhaper"; o ator James Garner ganhou um Gardner de sobrenome; a famosa delicatéssen nova-iorquina Balducci virou "Valduchi"; e acho que não preciso esclarecer quem, num documentário sobre Shirley Temple, apareceu, nas legendas, como "Adolphe Mangiou" e "Darry F. Sanik"). Por anos a fio, em todo filme ou seriado policial aparecia um personagem chamado Coroner. Coincidência ou falta de imaginação dos roteiristas americanos? Não, ignorância dos nossos tradutores. Coroner não é nome de gente, mas profissão: médico legista, figura onipresente em qualquer intriga policial.

Volta e meia somos agredidos, nos rodapés da Sky, com batismos apócrifos impostos a filmes antigos, cuja identificação exige uma certa perícia da parte do telespectador, e também por qualificações absurdas, como enquadrar uma comédia musical da Metro na categoria "drama de tribunal" (sim, era "Les Girls", de George Cukor). Nem os mais ridículos títulos aqui dados a filmes estrangeiros deveriam ser mudados pelo capricho ou pela ignorância de nossos programadores. Nem mesmo East of Sumatra, lançado no Brasil em 1954, com o inexplicável título de Ao Sul de Sumatra, deveria ser corrigido pela Net.

Crescentemente nivelada por baixo, repetindo filmes ad nauseam (Quatro Casamentos e Um Funeral, O Reverso da Fortuna, Legalmente Loura, Risco Duplo, Homicídios Ocultos), a TV paga acabou se rendendo até ao filme dublado, essa invenção fascista cujo incentivo deveria ser expressamente proibido pelo Ministério da Educação. O antigo Telecine Comédia foi rebaixado a Pipoca justamente para fomentar, com sua programação dublada, o nosso contingente de analfabetos.

Legendas erradas, o ouvido experiente corrige. Mas as asneiras da dublagem passam impunes. Só os muito espertos sacaram que a "mamãe assobiadora", por quem um dos protagonistas da versão dublada de Uma Loura Por Um Milhão (Fortune Cookie, de Billy Wilder) jura como quem jura pela mãe mortinha, era ninguém menos que a veneranda Anna Whistler, mãe do pintor James Whistler, celebrizada no famoso quadro Whistler's Mother, pintado por seu filho em 1871. Se tivessem traduzido "Whistler's Mother" por "mãe do assobiador", em vez de "mamãe assobiadora", apenas uma mancada teria sido cometida. Desgraçadamente, em matéria de defeitos, nossa TV paga não se contenta com menos.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado n'O Estado de São Paulo, no dia 15 de março de 2008.

Sérgio Augusto
Rio de Janeiro, 31/3/2008
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