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quinta-feira, 19 de abril de 2018

As gorduras que temos de eliminar

 

  • Rui Mota 


Perante a realidade, como transformá-la? E de que lado queremos estar?
As gorduras que temos de eliminar
SUSANA MATOS

A menos de uma semana de comemorarmos o aniversário do 25 de Abril, olhamos para dois livros de Álvaro Cunhal dedicados aos leitores mais novos, publicados nos últimos meses. Um desses livros é Os Barrigas e os Magriços e traz-nos a história de um país de há muitos anos atrás. Um país onde havia uns homens conhecidos como os Barrigas — que comiam tanto, tanto que «o corpo dos Barrigas lá por dentro devia ser todo estômago»; e outros conhecidos como os Magriços — que à falta de trabalho ficavam «tão magrinhos, só pele e osso, magrinhos como carapaus secos».

Era um país injusto, onde uns trabalhavam para outros enriquecerem, onde faltava a liberdade e se enchiam as prisões. Mas aconteceu numa Primavera os Magriços juntarem-se aos soldados para dizerem «ao mais barrigudo dos Barrigas» que «Isto não pode continuar assim». E sem medo avançaram para as terras e para as fábricas, desenvolveram o País, distribuíram a riqueza por todos e tornaram-se assim senhores do seu próprio destino. Como nos diz no texto, «quando se fala no 25 de Abril, é dessa revolta dos Magriços e do que foram capaz de realizar que se fala».

Ao longo do texto, Álvaro Cunhal vai interpelando os leitores, colocando importantes questões. Questões que são para todos os tempos, e para leitores de todas as idades: «Se algum de vocês fosse um Magriço, o que fazia?» «Se tivesses vivido nessa época, com quem estarias tu?» Ao celebrar Abril de olhos postos no futuro, são estas as questões a colocar: perante a realidade, como transformá-la? E de que lado queremos estar nessa transformação?

É exactamente sobre os lados em que estamos que nos fala a História de Um Gordo Chinês Que Estava de Barriga para o Ar, publicado no início deste mês. Este conto, escrito durante a Guerra Civil de Espanha para ser lido na Rádio Peninsular, retrata a descoberta de Manuel e Mariazinha, duas crianças travessas e rabinas de visita à China, que não conseguiam perceber por que razão Pung-Chung, um senhor chinês muito rico e gordo, dono de muitas terras, passava o tempo de barriga para o ar. Pung-Chung explicou-lhes que trabalhava, e muito, e que se as crianças achavam fácil que se pusessem de barriga para o ar para ver como cansa. Foi um pobre camponês que trabalhava nos nas terras de Pung-Chung que explicou às duas crianças o que realmente se passava.

Este conto confirma essa análise à sociedade burguesa presente no Manifesto do Partido Comunista: «os que nela trabalham não ganham, e os que nela ganham não trabalham».

Estes dois livros de Álvaro Cunhal, agora publicados com ilustrações originais de Susana Matos, vão ser apresentados neste sábado, às 18 horas, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, no final do colóquio «Literatura Neo-Realista para a Infância» que se realiza integrado na exposição «Miúdos, a vida às mãos cheias – A infância do Neo-Realismo português».

http://www.avante.pt/pt/2316/argumentos/149578/As-gorduras-que-temos-de-eliminar.htm

quinta-feira, 24 de março de 2016

Rui Mota - O livro é um coração vermelho




  • Rui Mota 



O livro é um coração vermelho
Assinalou-se pela primeira vez a 26 de Março de 1988, por iniciativa da Sociedade Portuguesa de Autores, o Dia do Livro Português. A data escolhida remete para a impressão do primeiro livro em Portugal, o Pentateuco, em 1487, e teve como objectivo valorizar o livro e os autores nacionais. Passados que estão quase 30 anos sobre a primeira comemoração, qual é a situação hoje do livro em Portugal?


Alguns exemplos ajudam a ilustrar. Hoje, o mercado é dominado por dois grandes grupos editoriais (o Grupo Porto Editora e a LeYa), que detêm 30 editoras ou chancelas, com o facto acrescido de dominarem a chamada literatura geral, dominando também a edição dos livros escolares, tendo assim condições para determinar as regras do jogo, desde as pequenas mas não menos significativas, como espaços distintos na Feira do Livro de Lisboa, até outras bem maiores e que fazem com que o jogo acabe quando levam a bola para casa, colocando limitações na própria distribuição comercial dos livros, dificultando o seu acesso a centenas de pequenas editoras, muitas delas destinadas a encerrar pouco depois de começar.


Essa concentração da edição, e essas imposições, põem em causa a diversidade. Como a árvore que cai na floresta sem ninguém a ouvir, muito do que se cria em Portugal não chega a estar verdadeiramente disponível, apesar do esforço de autores e editores para romper as barreiras da mercantilização. O comércio livreiro é também objecto da concentração, com um número reduzido de empresas a concentrar a larga maioria das vendas. Acrescendo à concentração da distribuição na Fnac e nas chamadas grandes superfícies, vale a pena referir que as livrarias Bertrand, o Círculo de Leitores e a Wook pertencem ao Grupo Porto Editora. As restantes livrarias, incapazes de impor as margens comerciais que essas grandes empresas conseguem para si, encontram-se em evidente desvantagem,e muitas têm acabado por encerrar, mesmo livrarias históricas, como amiúde se pode ver nas notícias. O livro é só mais um produto, exposto apenas enquanto houver expectativa de o vender.


Esta realidade coexiste com avanços tecnológicos que tornaram a publicação de um livro muito mais barata, ao possibilitar a tiragem de um número mais reduzido de exemplares com custos unitários similares aos de tiragens maiores. Isso ajuda a explicar o facto de se continuar a publicar muito (cerca de 15 mil livros em 2014 foram registados), criando a ilusão de que não há problema nenhum de diversidade.


Os livros que têm sucesso comercial, salvo raras excepções, devem grande parte da sua difusão a outros factores externos ao próprio livro – e às próprias livrarias –, com evidente destaque para o papel que a televisão desempenha na promoção dos «seus» autores. Também dessa forma se cria o «gosto» do «público», se limita a diversidade e se impõe balizas ideológicas.


Sucessivos governos têm também contribuído, de diferentes formas, para agravar esta situação, cortando apoios financeiros, limitando os orçamentos das bibliotecas, alterando legislação que contribui para acelerar a concentração, dificultando assim gravemente a promoção do livro e da leitura.


É então com este contexto altamente adverso e complexo que quem escreve, edita e comercializa do lado de cá da luta de classes se confronta: com as décadas de política de direita da responsabilidade de PS, PSD e CDS, brutalmente agravada com a acção do governo PSD/CDS, que, espalhando o desemprego e a pobreza, roubando nos salários e nos rendimentos, destruindo postos de trabalho e serviços públicos, maltratando a cultura, procurou garantir que o livro não desse o seu contributo no processo libertador do Homem.


Quando se comemorou o primeiro Dia do Livro Português, com um conjunto de iniciativas que incluía uma feira do livro, encontro com autores, cinema e música, foram recebidos milhares de textos de crianças de vários níveis de escolaridade sobre o livro e a leitura. Um deles, de uma criança de 9 anos, apresentava esta definição: «um livro para mim é um coração novo muito vermelho». Precisão científica. De facto, o livro, carregado de vermelho, pode trazer consigo um coração novo. Coração que bate mais forte quando bate com outros na mesma cadência.

http://avante.pt/pt/2208/argumentos/139582/