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segunda-feira, 1 de maio de 2023

Miguel Esteves Cardoso - Um café no Primeiro de Maio


* Miguel Esteves Cardoso 

OPINIÃO

O trabalho está quase todo escondido, para não perturbar a doçura do nosso prazer

1 de Maio de 2023


Não há prazer sem trabalho. O prazer é seu. O trabalho é dos outros.

Hoje é dia do trabalhador e o mínimo que pode fazer quem trabalha é pensar naqueles que trabalham mais e por menos dinheiro do que nós.

Não há prazer sem trabalho. O prazer é seu. O trabalho é dos outros.

O mínimo que se pode fazer é pensar que se está a trocar o nosso trabalho, na forma do dinheiro que pagamos por um serviço, pelo trabalho dos outros.

Mas quantos minutos de trabalho lhe custou esse café? E quantos minutos tem de trabalhar o empregado que lhe serviu esse café para ganhar a mesma quantia?


Quando bebemos um café no dia 1 de Maio, a primeira coisa que procuramos saber é "o que é que está aberto?" Ou, por outras palavras, "quem é que está a trabalhar? Quem é que não teve direito a feriado, neste dia do trabalhador?"

Os feriados foram uma conquista sindical. Os fins-de-semana foram uma conquista sindical. As semanas de 40 horas foram uma conquista sindical. E digo conquista no sentido mais medieval: muitas pessoas morreram, muitas pessoas levaram pancada, muitas pessoas passaram fome, muitas pessoas morreram desiludidas e fracassadas para poder conquistar essas horas e esses dias, que hoje encaramos como se fossem tão naturais como o nascer e o pôr-do-sol.

Quando bebemos um café no 1 de Maio, o mínimo que podemos fazer é perguntar "quem apanhou este café? Quanto receberam por esse trabalho? Em que país foi? Que protecção têm os trabalhadores nesse país? Há trabalho infantil? Do preço que paguei pelo café, quanto é que receberam as pessoas que apanharam, lavaram, secaram e transportaram o café?

O problema é que o trabalho está quase todo escondido, para não perturbar a doçura do nosso prazer com o amargo da culpa: o lucro do café é quase todo dos países sem café que importam o café por tuta-e-meia.

O trabalho atrás do nosso prazer é repetitivo e chato, mal pago e mal-agradecido.


O mínimo que podemos fazer é pensar nisso.

E reconhecê-lo.


Colunista


https://www.publico.pt/2023/05/01/opiniao/opiniao/cafe-maio-2047979

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Ficar em casa mata o amor

 Abril de Novo Magazine -  15/05/2020   Manifesto74

O primeiro de maio é um dia de esperança. Claro que vem de longa história marcada pelo sangue dos mártires anarquistas de Chicago, claro que a bandeira vermelha que depois se levantou nas mãos dos operários de todos o mundo representa também o sangue que estes têm sempre de derramar quando lutam, claro que não há história de vitória sem que milhares tenham tombado na soma de derrotas que, por vezes, a compõem.

O primeiro de maio é um dia de luta, não é um dia de protesto. Não é um dia de festa. Mas é de esperança e confiança no futuro. Não é uma celebração como quem assinala que passou mais um ano desde Haymarket, nem um desfile de memorabilia e nostalgia pelos gloriosos anos de avanço operário no sistema socialista mundial. É um dia em que os trabalhadores de todo o mundo assinalam o mundo que pretendem construir.

Haverá sempre os que, como a UGT, pretenderão fazer do primeiro de maio um dia inócuo de concertos e bifanas para a malta vir à capital na camioneta paga pelo “sindicato”. Haverá sempre os que, como os do BE, achem que o primeiro de maio só pode ser assinalado se for para fazer boa figura na comunicação social burguesa. Mas felizmente, por todo o mundo ainda há os que têm um inquebrável compromisso com a libertação daqueles que representam, com os trabalhadores.

O primeiro de maio, por ser o nosso dia de esperança, é o dia da agonia da burguesia. Agonizam as redacções dos seus jornais, das suas rádios e televisões, agonizam os seus dirigentes partidários da esquerda à direita, agonizam os comentadores, os colunistas, os reaccionários, os anticomunistas e os donos disto tudo, mesmo que cada um seja dono de um bocadinho disto tudo.

Em plena pandemia provocada pelo Sars-CoV-2, em que os trabalhadores de todo o mundo estão sujeitos a uma pressão sobre os seus postos de trabalho e mais elementares direitos, os mesmos que sempre gritaram que não havia solução nem alternativa, que tens de baixar a bolinha e que isso de primeiro de maio é demodée e coisa do passado, que o capitalismo é que é modernaço (apesar de o primeiro de maio ser mais novo que o capitalismo) juntamente com outros que sempre acharam que o primeiro de maio é só um desfile de festa para mostrar umas pinturas fixes na cara e umas fatiotas criativas com palavras de ordem tiradas da poesia de 68, vieram dizer-nos que não era o momento de ir para a rua.

O coro da classe dominante juntou-se finalmente e colocou de lado as aparentes divergências entre os partidos burgueses de esquerda e burgueses de direita. Veio tudo chamar aos dirigentes sindicais da Intersindical uns irresponsáveis. Os dirigentes da CGTP passaram a ser “portugueses de primeira” enquanto que os que não podem ir visitar a avó passaram a “portugueses de segunda”. Um coro de escandalizados pôs as mãos à cabeça e escreveu capas inteiras de jornais – porque a falta de espaço mediático é uma cena que não lhes assiste – falou nas tvs e acusou os comunistas de terem abusado. O secretário-geral do PCP passou de velhinho simpático (como ultimamente o vinham caracterizando) a vil e virulento privilegiado do estado comunista que deu livre-trânsito aos dirigentes sindicais para espalharem o caos e a desordem com um vírus chinês.

Inadmissível, dirão. Que numa altura em que nos dizem #ficaemcasa e que #vamosficartodosbem haja quem ouse mostrar que se pode animar o nosso espírito colectivo de forma combativa e igualmente responsável. Quão diferentes seriam as notícias, pelos vistos – essas sim – verdadeiras, se no dia primeiro de maio e seguintes os cabeçalhos fossem “notável organização da CGTP coloca milhares de trabalhadores na rua por um futuro melhor” ou “com os devidos cuidados, a luta da CGTP e dos trabalhadores não para”, ou ainda “obrigado CGTP, por nos mostrares que mesmo nos tempos mais escuros, podemos acender a luz da esperança”. Nenhum destes títulos seria mais propagandístico do que o permanente ataque à CGTP e à luta dos trabalhadores e seria, como agora se comprova, muito mais verdadeiro.

É que os que acusavam a CGTP de estar irresponsavelmente a espalhar o vírus devem olhar agora para os números da pandemia e reconhecer que afinal de contas, a CGTP não colocou em risco nenhum cidadão. Bem pelo contrário, a intersindical fez questão de cumprir os cuidados que nenhum patrão deste país cumpre ao amontoar trabalhadores nos transportes públicos, ao negar-lhes acesso a higiene e segurança no trabalho (não só em época de COVID) e demonstrar que não é o nosso destino acatar um “fica em casa” indiscriminado, um “vai ficar tudo bem” pateta e sorver lixo informativo dias inteiros pela TV.

Mesmo em situação de pandemia, somos seres humanos, seres eminentemente sociais e não estamos em condições de acatar um mundo em que os ricos se refugiam nos seus resorts com todos os luxos do mundo enquanto as máquinas lhes produzem tudo o que querem e nós trabalhamos em computadores através de casa para lhes garantir esses caprichos. Mesmo, ou até mais, nas situações de dificuldade é que a força dos trabalhadores não pode enconchar-se, nem recolher-se. A CGTP deu afinal de contas a prova contrário do que o coro de ofendidos queria mostrar. A CGTP não mostrou irresponsabilidade: mostrou que há outro caminho, um caminho de responsabilidade mas de esperança, de convívio, de sorrisos e de luta.

No momento em que deprimimos em casa diariamente, isolados, já quase nem um arquipélago somos, em que os de sempre e os que aparecem agora a fazer o papel dos de sempre, vêm colocar os que estão em casa contra os que vão à rua, vêm virar negros contra brancos, banhistas contra ciclistas, velhos contra novos, todos contra os ciganos e o mundo contra os chineses.

Ficar em casa mata o amor.


Enquanto perdemos tempo nesses ódios todos, escapa-se-nos quem está a instilar-nos o veneno, os que beneficiam com o nosso ódio entre irmãos: os que estão no iate, no condomínio fechado de luxo, no resort, no golf, nas mansões a puxar os cordelinhos de todos esses capatazes das redacções e dos dirigentes políticos dos partidos da burguesia.

O pânico e o ódio que lançaram, gratuitamente e sem sustentação científica, contra a CGTP, contra os dirigentes sindicais e contra os comunistas, foi baseado exclusivamente na ideia de que a central sindical estava a colocar em risco o controlo da pandemia e na ameaça de que iria causar um novo pico no surto que ainda decorre. Tendo falhado essa ameaça, tendo o terrorismo falhado porque não controlavam a bomba, resta-lhes dizer que foi tudo uma encenação terrorista e que a CGTP fez o que cabe a uma grande organização fazer: representar os seus membros e defender os seus direitos, no quadro social, político e, no caso, sanitário, existente.

Hoje, dia 15 de Maio, foram libertados os dados de novas infecções por COVID no dia 14 de Maio. Ficámos a saber que desde o dia 1 de Maio até hoje não houve qualquer pico e que está finalizado o período de incubação. Sair à rua não mata. O ódio sim.

Eles nunca vão reconhecer, mas o que a CGTP fez foi mostrar-nos que a luta é mais urgente do que nunca e que nenhum contexto, por mais duro que seja, pode impedi-la de continuar, mesmo que adaptada às exigências do momento. O que a CGTP fez foi abrir no horizonte de quem ficou em casa a certeza de que há quem lute pelos seus direitos e de que o futuro é de liberdade e de que o confinamento não pode ser pretexto para o assalto e para o fim dos direitos. O que a CGTP fez foi dizer a todos: “eis-nos dispostos a alterar todas as formas para garantir o conteúdo, para vos defender, para mostrar que o futuro a nós pertence”. A CGTP rasgou um sorriso num país triste num dia de luta.

Nós agradecemos-lhe.

*fotografia por João Porfírio



Via: Manifesto74 https://bit.ly/2X3hHSM

terça-feira, 5 de maio de 2020

José Diogo Quintela - A desconfina flor


* José Diogo Quintela

Bizarramente os meus compatriotas optaram por fazer fila em cabeleireiros e barbearias em vez de se dirigirem, como eu, à sede da CGTP. Um processo de filiação que vale bem mais que um corte de cabelo
05 mai 2020, 00:1025

Como todos os portugueses que passaram as últimas semanas em quarentena, saí ontem de manhã preparado para enfrentar as bichas à porta do sítio onde toda a gente queria ir depois de quase dois meses de confinamento.

Bizarramente, ao chegar lá, não tinha ninguém à frente. Os meus compatriotas optaram por fazer fila em cabeleireiros e barbearias, em vez de se dirigirem, como eu, à sede da CGTP. Um processo de filiação que vale muito mais que um corte de cabelo. A trunfa espera bem mais dois ou três dias, eu já estou treinado a não olhar para espelhos. Mesmo importante é não perder os benefícios de pertencer à Intersindical. Nunca se sabe se não volta o Estado de Emergência. Prefiro ser um guedelhudo e passear por onde me apetece, do que um penteadinho que tem de cumprir escrupulosamente todas as regras do isolamento social.

Obviamente, o segundo local onde me dirigi foi ao médico. Depois de 52 dias em casa com uma mulher, 4 crianças e um cão, fui a um o otorrinolaringologista. Neste momento, estou surdo e não consigo falar sem ser aos berros. Sinto-me como um idoso que é capataz numa serração. Que opera dentro de um Hércules C-130. Onde estão a tocar os Moonspell. Com a Dulce Pontes como convidada especial.

O curioso é que, cá em casa, não notámos que estávamos a gritar muito uns com os outros. Só nos apercebemos no dia em que a polícia veio avisar que não podíamos fazer uma festa àquela hora da noite, quando eu só estava a embalar o meu filho com uma canção e umas palmadinhas na fralda.

(Por falar no bebé, tenho pena que, apesar do que a Ministra da Saúde disse, a Igreja mantenha o plano de festejar o 13 de Maio sem peregrinos, por causa do coronavírus – ou seja, desta feita, em vez de trazer pessoas a Fátima, um ser invisível afasta pessoas de Fátima. É que gostava de lá ir prestar homenagem. Nesta quarentena, desenvolvi uma admiração especial por Nossa Senhora. Também ela criou um filho que não tinha crianças com quem brincar. Maria, por causa de Herodes, que mandou matar todos os bebés até dois anos. Eu, por causa desta quarentena que tirou o miúdo da creche e me obriga a passar as 24 horas do dia com ele.

Não aconselho, aturar um pirralho que não tem amiguinhos da sua idade com quem se entreter. É que o meu filho está mesmo a imitar Jesus. Julga que eu sou Deus, porque parece achar que a minha paciência é infinita. E, de certa forma, também transforma água em vinho: desde que fiquei confinado com ele, é raro não estar com um copo de tinto na mão).

Apesar dos gritos, não se julgue que a quarentena foi um mau período familiar. Pelo contrário. Acho que tanto tempo juntos, ainda mais do que o costume, fortaleceu as relações entre todos. Especialmente, devo dizer com surpresa, a minha relação conjugal. Sinto que saímos deste período com um casamento ainda mais sólido. Na adversidade, conseguimos desenvolver uma cumplicidade que está ao alcance de poucos casais. No início, foi difícil. Qualquer coisa que um de nós dizia servia para iniciar uma discussão.

– O que vai ser o jantar?
– “O que vai ser o jantar?”, não é?
– Sim, qual é o problema?
– Podias perfeitamente ter perguntado “o que é o jantar?”, mas tinhas de enfatizar que é no futuro, não é? “O que vai ser”. Vai ser, porque esta preguiçosa ainda não fez nada. Se calhar nem vai fazer, a calona.
– Mas interessa a forma como eu conjugo?
– Ah! “Eu com jugo”! Lá está o menino a fazer-se de vítima. Tem uma canga pendurada, é?
– Não foi nada disso que eu disse.
– Fui eu que ouvi mal. Sou surda, querem ver?
– Não és nada surda.
– Então sou mentirosa. É isso?

Depressa percebemos que assim não íamos durar muito. E, ao longo das semanas, evoluímos. Deixámos de discutir por qualquer coisa que alguém dissesse. Começámos a entendermo-nos, já sabíamos o que o outro estava a pensar. De maneira que passámos a discutir quando ninguém dizia nada.

– O que foi isto?
– Eu não disse nada.
– Não disseste, mas a tua barriga fez barulho. Aí, a roncar de fome, como quem pergunta “o que é que vai ser o jantar?” “O que vai ser”, não é?

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Rita Rato - Quanto mais a gente se baixa, mais se vê o cu

Quanto mais a gente se baixa, mais se vê o cu
RITA RATO 4.5.20

Desde que isto tudo começou só vê ainda mais gente desgraçada. Vida fácil nunca teve, sair de casa de noite e noite chegar nunca foi um sonho. Tantas vezes exausta, a impaciência a pôr-lhe os nervos em franja, ainda inventar alguma coisa para o jantar com o que sobra na dispensa, cerelac e cereais já os miúdos deitam pelos olhos. E torcer para que sobre para o almoço amanhã, massa com milho já enjoa. Mas como diz a outra senhora, bifes todos os dias não é pra quem quer, é pra quem pode. Ah, peixe então não o cheiram há meses, douradinhos marca branca e cavala, que o atum tem estado ao preço da lagosta. Chama-se roda das necessidades, aprendida na escola como roda dos alimentos. E quase a adormecer no sofá lembra-se de confirmar se os miúdos fizeram os trabalhos, ou pelo menos se viram as professoras na televisão, que computador em casa não há, houve um subsidio de férias que guardou para isso, mas depois o frigorífico estragou-se e pronto, dinheiro não é elástico, não resiste às primeiras duas semanas do mês.

Nunca deixou de ir trabalhar, desde que tudo isto começou, mesmo quando a chefe disse que não tinham ainda chegado as máscaras nem as luvas. Mesmo quando o autocarro ia tão cheio como num dia normal, porque agora não passam tantos e vamos como gado. Desconfio que há gado que é transportado em melhores condições, mas a gente é gado de segunda. Põe os filhos em risco porque não tem com quem os deixar, custa-lhe, mas não tem escolha.

O telemóvel toca o dia todo, colegas a dizerem que não recebem há mais de um mês e meio, que não podem deixar os filhos pequenos sozinhos, que lhos podem tirar, mas que não têm dinheiro pra nada. Outras a dizer que estão fartas de ouvir dizer que as máscaras estão a chegar, mas já se passaram semanas e nem vê-las. Outras a dizer que os maridos estão em casa e não as deixam ir trabalhar naquelas condições, que não conseguem aturar os miúdos e fazer comida, mas beber o dia todo conseguem. Queixas ao sindicato já fez mais de 20, de empresas diferentes, cortes nos subsídios sem razão, colegas despedidas por SMS, salários que não entram na conta, desespero em forma de mensagens do Facebook. O advogado do sindicato está a tratar, tens que esperar, já fizemos de tudo, a senhora dos recursos humanos diz que vai responder até sexta-feira.

Trabalhar mais de 10h, seis dias por semana, pra levar nem chega a 600 euros pra casa, já é um risco em situações normais. Agora é o risco elevado ao quadrado, sobreviver no limiar da pobreza e sujeita a infectar-se a ela e aos filhos. Em troca de quê? Ainda lhe chamam ingrata, que isto anda aí muita gente que dava tudo pra ter a oportunidade que ela tem.

Andam há anos a dizer que merecem o subsídio de risco, lavar a roupa dos hospitais sujeitas a apanhar doenças não é risco? Nunca tiveram resposta dos recursos humanos. Já pararam e fizeram greve, prometeram negociações e têm engonhado a ver se as cansam.

Amanhã é o Primeiro de Maio e tenho que lá ir. Tenho que arranjar maneira, por mim e por elas, pelos delas e pelos meus. Nesta altura em que as coisas estão tão más é que temos mesmo que lá estar. Tanta porrada levamos da vida, quanto mais a gente se baixa, mais se vê o cu, sempre vi acontecer.

Qual quê filha, estava tudo organizado, o pessoal dos sindicatos não brinca em serviço, quem me dera a mim ter aquelas condições todos os dias quando vou trabalhar. O senhor da televisão está a dizer isso, ó filha manda-o ir trabalhar comigo uma semana, é como a outra dos recursos humanos, a largar postas de pescada são uns artistas, sobreviver ao quadrado é que nunca precisarão.

https://manifesto74.blogspot.com/2020/05/quanto-mais-gente-se-baixa-mais-se-ve-o.html

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Adalberto Monteiro: Primeiro de Maio



1 de maio de 2017 - 15h34 


Divulgação

 Recorte de mural de Diego Rivera exposto no Palácio Nacional do México

Fonte: Fundação Maurício Grabois
http://www.vermelho.org.br/noticia/296259-1

CGTP - a história da festa do 1º de maio

* Maria Virgínia (texto) e Cristina (desenho)






quinta-feira, 4 de abril de 2013

José António Gomes ~ O Óscar, para quem sempre existiu o tu

  • José António Gomes


«Refere Máximo Gorki, não sem espanto, que em Lénine, no meio de tanta preocupação, havia ainda lugar para a bondade – permitam-me que diga o mesmo de Óscar Lopes. E também sem espanto.»
O Óscar, para quem sempre existiu o tu

A seu modo músico e poeta, senhor de um pensamento-feito-prosa, escrita ou oral, que era autêntica poesia, o Óscar pensava e escrevia coisas fulgurantes como esta: «Nós falamos quase sempre como quem usa frases, palavras. Às vezes, e de repente, sentimos que, pelo contrário, estão as frases, as palavras, a utilizarem-nos, como se fôssemos nós, e não elas, a servir de veículos para um certo sentido. As palavras, quando usadas, servem-nos de mãos, mãos de mil dedos invisíveis, que enredam as coisas e de algum modo as manejam. Quando são elas, vivas, a usarem-nos, não há fora delas quaisquer coisas situadas ou a situar: a fala e o mundo consubstanciam-se num mundo só, e parece que renascemos. Trabalha-nos um novo senso do real e do humano» (Óscar Lopes, Uma Espécie de Música).
O Óscar. Todos diziam, todos dizem «o Óscar», naquele centro de trabalho. Todos sabiam que tinham um génio ali à mão, quase do outro lado da rua. Um génio da Língua, da História e da Crítica Literárias, da Filosofia e da Cultura Clássica, da Matemática e até da Física. Um corajoso humanista à antiga, um clássico-moderno de insaciável curiosidade e sede de saber. Alguém com uma superior inteligência do mundo e da linguagem. E que no entanto tratava os camaradas por tu e por tu era tratado. Fossem operários, empregados, sindicalistas, fossem intelectuais, eleitos comunistas, gente com responsabilidades de direcção. Recordo o saudoso Sérgio Teixeira, antigo operário, evocando uma viagem para Lisboa, com o Óscar a falar-lhe de Camões.
Ele era, ele será sempre, para nós, «o Óscar», o intelectual por excelência, incomparável e incapaz de trair – ao contrário de outros – o compromisso que, desde a juventude, desde 1944, o vinculou à classe trabalhadora, aos oprimidos, ao projecto comunista. E pelos quais sofreu, antes de Abril, sem disso vir a fazer gala: a prisão fascista, a perseguição, a apreensão de obras suas pela PIDE, a proibição de ensinar na Universidade, de se deslocar ao estrangeiro para participar em seminários para os quais era convidado, de assinar artigos com o seu nome.
Era, além do mais, um génio da fraternidade, da solidariedade, da empatia com o seu semelhante, da capacidade de escutar o outro. Alguém que olhava a vida, o futuro, a sua própria presença no mundo como uma aventura sem limites. E que, por isso, disse algures: «Nós só conhecemos uma fracção mínima da realidade, estamos no início de uma grande aventura cósmica.»
 
Sempre presente
 
Para todos nós, o Óscar era, será sempre, um exemplo para os dias por vir – e não apenas pelo seu saber imenso. Era-o também para outros, muito distantes de nós. Uma mensagem electrónica, no dia da sua partida: «O ser humano e o intelectual mais brilhante, mais sábio e mais simples que tive o privilégio de ter como Professor na minha vida académica» – palavras de uma colega, de direita, sua antiga aluna de mestrado.
Na última etapa de uma vida de estudo e de luta, na sua casa da Boavista, bem perto do centro de trabalho, já afectado pela crueldade do tempo, da doença e do silêncio em que mergulhara, o Óscar era o camarada despojado e modesto, sempre disponível para a partilha do saber, para a solidariedade, para colaborar na angariação de fundos, para juntar convictamente o seu nome ao nosso, quando necessário: num abaixo-assinado, num manifesto, numa edição do Sector Intelectual. (E há generosidades militantes do Óscar que nem sequer aqui se podem contar.)
Animada de ternura e daquela amizade comunista que é tão sua, a nossa querida Lina visitou-o sempre, prestando o apoio necessário ao Óscar, à família. (Todos te conhecem, Lina, és um esteio, o sorriso e o amparo de que todos precisam nestes dias difíceis.) E, por isso, nesse fim de tarde em que velávamos o camarada, estavas tão triste e comovida, ali, no salão secular da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto (de que o Óscar era um dos mais antigos sócios), a urna ladeada por duas coroas belíssimas. Vermelho de flores sobre verde. Vermelho. Sobre verde. E depois contavas como, enquanto os dias lhe permitiam ainda sair de casa e deslocar-se, o Óscar pedia por vezes à senhora que dele cuidava: «Olhe, vamos antes por ali.» E, apoiado no seu braço, «obrigava-a» a atravessar a rua para o passeio do centro de trabalho. E a fazia continuar até chegarem à entrada. E ela dizia: «Ai, que o senhor é um maroto. Queria mas era vir até aqui.» É que o Óscar gostava do centro de trabalho, gostou sempre, enquanto as forças lho consentiram, de rever e conviver com os camaradas.
Por tudo isto – e por todo o resto, que é muito – nos dói muito a partida do Óscar. Que sabíamos ali ao lado, sempre presente nos momentos difíceis, nos momentos necessários, com a sua cortante ciência do mundo, da literatura e da linguagem. O Óscar, para quem sempre existiu o tu. E que por isso escreveu, no único poema seu que até hoje veio a lume, numa antologia organizada pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto:
 
Segunda pessoa
 
Alguém diz tu. Alguém sem nome.
É a terra e o corpo e é o rasto de um sentido.
Alguém diz tu à imagem que se esgarça,
à certeza de uma longínqua razão.
Longe. O passado. Nomes, errados nomes de desejo.
Cego de insónia, nem lembrar te posso.
Nem mesmo em sonho saberia ver-te.
És só o pronome, tu, a ondular-me na boca,
norte magnético num desespero em surdina.
És a sílaba que dói a dor solar de um sentido.
A história avança na cabra-cega sem rostos,
e eu vivo em ti o tu mais só da minha vida.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Daniel Filipe - Pátria, lugar de exílio





Neste ano de 1962
não como Hazim Hikmet no avião de pedra
mas na minha cidade
livre de ir onde quiser
e no entanto prisioneiro
neste ano de 1962
exactamente
em Lisboa
Avenida de Roma número noventa e três
às três horas da tarde

Neste ano de 1962
encostado a uma esquina da estação do Rossio
esperando talvez a carta que não chega
um amor adolescente
meu Paris tão distante
minha África inútil
aqui mesmo
aqui de mãos nos bolsos e o coração cheio de amargura
cumprindo os pequenos ritos quotidianos
cigarro após o almoço
café com pouco açúcar
má-língua e literatura

Aqui mesmo a mão sei quantos graus de latitude
e de enjôo crescente
solitário e agreste
invisível aos olhos dos que amo
ignorado por ti pequeno empregado de escritório preocupado
com um erro de contas
incapaz de dizer toda a minha ternura
operária de fábrica com três filhos famintos

Aqui mesmo envolto na placidez burguesa
higienicamente limpo e com os papéis em ordem
vestido de nylon dralon leacril
com acabamentos sanitized
e lugar marcado junto ao aparelho de TV
eu
enjoado de tudo e contemporizando com tudo
eu
peça oleada do mecanismo de trituração
eu
incapaz de suicídio descerrando um sorriso-gelosia
eu
apesar de tudo vivo apesar de tudo inquieto
eu
neste ano de 1962
exatamente
não ontem mas precisamente às três horas da tarde
pela hora oficial
exilado na pátria

1ª Canção

De ti sabes o nome
a hora exacta o martelo no relógio
a escassa visão do tempo novo, a vida
sempre imatura e entanto desejada

De ti sabes a calma citadina
a distância entre a casa e o emprego o perfil
da amante
o sabor do café matinal
a maresia súbita.

De ti sabes a idade a altura o peso e o vigor
dos músculos a suave atracção
da porta do cinema
a misteriosa voz lunar palavras soltas
gagarine vostok estação espacial

De ti sabes os sinais característicos
quando pode ser escrito medido registado
em fichas passaportes cartões de identidade
Só não sabes da bala da pólvora da arma
só não sabes das mãos como as tuas plebeias
erradas mãos do povo
só não sabes do medo do ódio da terrível  impotência

Só não sabes da morte antes do tempo
exilado na pátria numa tarde de Maio

Pergunto. poderia cantar de modo alheio
dizer outras palavras como quem diz bom dia
poderia acaso ignorar o tempo a tortura a prisão
Bernardino e a pequena rosa
vermelha e orvalhada
insólita no tablier do automóvel azul
.
Poderia falar dos dias impossíveis
das manhãs sem revolta. do xadrez matemático
jogado interminavelmente
das virgens, dos poentes, do mar da minha infância
.
Poderia escrever meu amor e pensá-lo
Sem mais nada. sem a rubra mancha de sangue na parede da cela
Sem um nome ou um grito

2ª canção

Três balas detiveram companheira
meu rio em seu humano curso
Não bastou a primeira
para dobrar-me a rigidez do torso

Mísero dia, esse ! Só na morte
cumpro inteiro o destino desejado:
impassível e forte,
juvenil e alado

Três balas como um sopro de agonia,
não minha ! não da pátria ! mas dos seres
desconhecidos da zoologia,
que recebem da infâmia os seus podere.

Aqui nesta tarde de Maio
canto obsessivamente a minha pátria
Canto-a como quem ama ou sonha com o lar e refúgio
calmo braseiro fértil jardim litoral merecido
Canto-a de dentro para fora ignoto
descobri da ilha antes do mar viciosa
esperança lúbrico entardecer
Canto dizendo pátria olhos despertos
fecundado de amor
ó pátria local do único abandono
possível antes da hora
liberdade serena consentida
visão paradisíaca renascer da amizade

Canto e à minha volta o rio humano flui
adolescentes entram nos cafés
discutem-se negócios conquista-se duramente o pão quotidiano
ama-se
telefona-se
murmuram-se boatos e promessas de emprego

Aqui neste ano de 1962
primeiro de Maio
às três horas da tarde

E de novo pergunto poderei acaso dizer outras palavras
falar do tempo do relógio de ponto dos passeios aos domingos
cerrar os olhos à coreografia da violência
diariamente aprendida por entre o sal das lágrimas

Poderei esquecer como se não me pertencessem
seus nomes usuais
a decisão alegre e corajosa
que sombreia de medo o sono dos carrascos
Uma mulher desliza
meus olhos vão com ela presos ao ondular das suas ancas

Ah mas que também o amor me não distraia
que eu possa manter-me lúcido e desperto
ávido
estátua imóvel de proa
terrível como a angústia
neste primeiro de Maio de 1962
às três horas da tarde
precisamente não antes nem depois
não ontem amanhã ou dia incerto de qualquer mês e ano
mas HOJE
às TRÊS HORAS EXACTAS
numa esquina da estação do Rossio

Que nada possa calar o meu ódio e desprezo
nem sequer tu Amada companheira

E no entanto lembro o nosso primeiro encontro
retiro dele a força indispensável
para seguir cantando
atento ao mudo apelo do pequeno vendedor de jornais
aos olhos tristes da prostituta grávida
ao passo arrastado do carregador da estação

De mãos dadas
no jardim sob a chuva
reinventando o amor
ou
no primeiro andar de um autocarro
através da cidade sem destino preciso

Recordo o calor de Julho e o aroma dos pinheiros
amámo-nos sobre a terra
eram três horas da tarde como agora
tínhamos pouco dinheiro
e havia um barco à nossa espera inevitavelmente

Com tudo isso teço o meu próprio disfarce
com a ternura grave que me dás
alimento também certa rosa vermelha

3ª canção

Pátria, lugar de exílio,
geométrico afã
ou venenoso idílio
na serena manhã.

Pátria, mas terra agreste;
terra, apesar da morte.
Pátria sem medo a leste.
Lugar de exílio a norte.

Pátria, terra, lugar,
 cemitério adiado
com vista para o mar
e um tempo equivocado.

Terra, débil lamento
na temerosa  noite.
 Sobre os carrascos, vento,
desfere o teu açoite!

Anjo de fogo
pressinto a tua vinda
o gládio necessário erguido
sobre a cidade dominada
e digo-vos senhores é findo o vosso tempo
o jogo terminou ainda que o não pareça

Goivos que hão-de florir a vossa humana morte
são já semente adormecida à espera
de um outro Maio
luminoso e quente

Aqui às três da tarde
posso olhar-vos sem medo
e dizer-vos aqui estou
O Poeta é um operário
(MaiaKovski)
aprendei depressa a matar-nos
o poeta é o inimigo.
Mergulhamos as raízes na terra desventrada
confundimo-nos com ela 
as nossas mãos florescem
e o vento leva a toda a parte o nosso desafio

Contra isto nada podem as armas a polícia os exércitos
a prisão a tortura
somos mais fortes do que tudo
somos a alegria
mesmo no fundo das masmorras cantamos
os pássaros aprendem as nossas palavras de esperança
descem com elas sobre o vosso sono
e ensinam-me o terror das noites solitárias

Tendes jornais
usai-os
tendes exércitos
usai-os
tendes polícia
usai-a
tendes juízes
usai-os 
usai-os contra nós 
procurai esmagar-nos
cantando resistimos
Somos a alegria o corpo o sal da terra
o sol das manhãs férteis a música do outono
a própria essência do amor a força das marés
somos o tempo em marcha

Esta é a única verdade
sabemos que vos é difícil aceitá-la
envoltos como estais em suborno e usura
bancos alta finança empréstimos externos
E no entanto esta manhã um pássaro
pousou à vossa beira embora
inutilmente

A pequena dactilógrafa matou-se
nós sabemos porquê.

Um carpinteiro desempregado rasgou a roupa
e saiu cantando para a rua
nós sabemos porquê.

Uma noite
a jovem costureira não voltou para casa
nós sabemos porquê.

Um poeta
Roeu as unhas enquanto foi possível
mas faltou-lhe a coragem no momento derradeiro


Nós sabemos porquê.

NÓS SABEMOS PORQUÊ.


E no entanto é doce dizer pátria
sonhar a terra livre e insubmissa
inteiramente nossa
Sonhá-la como se pedra a pedra a construíssemos,
Como
se nada houvesse antes de nós
e desde as fundações a erguêssemos completa
pura alegre acolhedora virgemde medos,
mortos insepultos
.
Regresso pelo tempo ao dia de hoje
primeiro de Maio de 1962
hora segunda da meditação

Ganho de novo consciência do lugar
Chegam comboios há mais gente na rua
Como se o rio humano recebesse
O agreste tributo de outra nascente

Vêm com o rosto de todos os dias
o olhar de todos os dias
as mãos e os pés de todos os dias
cansados de preencher impressos
moldar metais
afeiçoar madeiras
rodar motores e válvulas
sujos de óleo e poeira
deslumbrados de sol
operários    empregados de escritório    vendedores de porta
a porta
dir-se-ia que cantam

De súbito   a cidade parece banhada de alegria
estamos juntos meu Amor
possessos da mesma ira justiceira
Damos as mãos como dois jovens namorados
e sorrimos felizes
à doce primavera acontecida
no magoado coração da pátria

Vêm de toda a parte sem idade
Redes cobrem palavras esquecidas
e no silêncio cúmplice desfraldam
um novo e claro amanhecer do mundo

Vêm de mãos vazias. nem flores simbólicas
nem ramos de oliveira
Entre os seus dedos apenas desabrocha
o obscuro desejo de apertar outras mãos
como as suas. nervosas. sujas, proletárias.

E eu limpo, eu meticulosamente barbeado
eu de papéis em ordem
eu vestido de nylon dralon leacrileu rigorosamente asséptico
eu mergulhado até às virilhas na placidez burguesa
vou convosco cantando companheirosi
rmãos em pátria
em sonho em sofrimento

Ah riso aberto, coração do povo
cálice, flor, inesperado aroma
doce palavra antiga
liberdade


4ª canção

Roga por nós, ó pátria, ó sonho sem fronteira!,
por nós, a quem recusam a alegria,
a liberdade, o pão de cada dia
a vida verdadeira!

Ó pátria canta! Do teu presepe imaginário,
ergue a voz dulcíssima, magoada,
e estilhaça de esperança as paredes do aquário,
ó pacífica pomba engaiolada.

Contigo iremos pela noite fora,cantando.
« Erguendo rútilas bandeiras
por sobre aldeias, campos, sementeiras,
como os arcanjos portadores da aurora».
                                                      
Como lobos de súbito
irrompem na planície citadina
carregados de morte
.
Seu nome é violência
Trazem nas mãos mortíferos sinais
e de órbitas vazias
.
caminham em silêncio
envoltos na terrível solidão
do crime encomendado
.
Marginam as esquinas
escondem o rosto sob o aço liso
dos negros capacetes
.
e anónimos ocultos
pela espessa cortina de ódio e névoa
como robots avançam
.
A morte engatilhada
espera o momento de partir Agora
Cumpra-se o ritual
.
Uma voz grita  Viva
a liberdade, O coro lhe responde
pontuado de tiros
.
Canalhas Temos fome
Arranquemos as pedras da calçada
Ó meu amor resiste
.
Resiste de olhos secos
Sem lágrimas  Sem medo  Só talhada
no silex da ira
.
Pronta a dar corpo ao sonho
e entanto testemunha do martírio
companheira e amante
.
De mãos dadas cantando
abrimos flores às balas assassinas
merecemos a vida


5ª canção

Ó sonho acontecido e decisivo !
Ó frio tempo de terror, ó duro
Ofício de manchar de sangue vivo
As esquinas de pedra onde o futuro
Se conjuga no modo imperativo !

Recusa a face, solidão errada !
Ébrio de esperança e juventude assomas
- Ó coração da pátria, mina amada ! –
Ao meu olhar, por ntre riso e aromas
De mirto e rosa-chá desabrochada.

Neste ano de 1962
primeiro de maio
ao começo da noite
podemos finalmente olhar no espelho a nossa muda imagem
sem temor nem vergonha
.
Na solidão do quarto, meu Amor
podemos pela primeira vez
deixar de recear futuros julgamentos
e as perguntas silenciosas nos olhos dos vindouros
esquecer a humilhação, o insulto sem resposta
que foi o nosso pão quotidiano e áspero
.
Agora poderemos ser de novo homens
livres, ainda que presos
mastigando a comida sem o sabor a lágrimas
antes com o sal da esperança
merecido tempero, paga justa da luta
.
Renegamos o passado maculado de angústias
esquecemos as pequenas diárias covardias
os negócios onde tudo se perde e até a honra
.
Neste primeiro de Maio de 1962
podemos finalmente sorrir sem amargura




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Luis Cília - "Pátria, lugar de exílio" do disco "Contra a ideia da violência (*)" (LP 1973)

http://www.youtube.com/watch?v=Pwb8lotiWCE

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Merecemos mais Daniel Filipe... (Sérgio Ribeiro)

... e não só A Invenção do Amor. Por isso - e por razões pessoais - aqui lhe vou dedicar uns momentos, neste blog de livros e leituras, antes de, a partir do 1º fim-de-semana de Setembro, me dedicar a outro livro. Elecompreenderia.

Pátria, lugar de exílio é um poema - que dá o título ao livro - que conta um dia, o dia 1º de Maio de 1962. Que foi um dia especial (de luta!) para ele e para mim. Nesse dia - o 1º de Maio não era feriado! -, saímos mais cedo do gabinete (ou nem lá fomos...) onde trabalhávamos os dois, com as justificações que cada um arranjou para o director comum. Cada um para as suas tarefas. Adivinhando-nos, mas nada nos dizendo. Era a pátria em que estávamos exilados, na nossa semi-clandestinidade.

Termina assim o poema, depois da 5ª canção, fechando a história de um dia, de um ingresso (ou de um regresso) à luta:

.

Neste ano de 1962
primeiro de maio
ao começo da noite
podemos finalmente olhar no espelho a nossa muda imagem
sem temor nem vergonha


(.,..)

Neste primeiro de Maio de 1962
podemos finalmente sorrir sem amargura

POSTADO POR SÉRGIO RIBEIRO ÀS 20:16 
MARCADORES: PÁTRIA - LUGAR DE EXÍLIO





Sobre o 1º de Maio de 1962


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