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domingo, 5 de janeiro de 2025

Miguel Esteves Cardoso - A Festa do «Avante!» chateia…

* Miguel Esteves Cardoso


 A Festa do «Avante!» é a maior iniciativa político-cultural do país. Ela é, como se sabe, o resultado do trabalho voluntário de milhares e milhares de militantes e simpatizantes comunistas. A forma como é tratada pela comunicação social dominante é um exemplo, dos mais evidentes, do silenciamento a é submetida nos jornais, revistas, rádios e televisões, toda a actividade do PCP. Uma actividade que, sublinhe-se, é maior do que a soma das actividades de todos os restantes partidos.

Quando não é o silêncio é a inverdade. Dizem-se muitas mentiras acerca da Festa do «Avante!»: que é irrelevante; que é um anacronismo; que é decadente; que é um grande negócio disfarçado de festa; que já perdeu o conteúdo político; que hoje é só comes e bebes.

As festas do «Avante!», por muito que custe aos anticomunistas reconhecê-lo, são magníficas. É espantoso ver o que se alcança com um bocadinho de colaboração. Não só no sentido verdadeiro, de trabalhar com os outros, como no nobre, que é trabalhar de graça. Mas não basta trabalhar: também é preciso querer mudar o mundo. E querer só por si, não chega. É preciso ter a certeza que se vai mudá-lo. Por isso o conceito do PCP de «colectivo partidário» parece provocar indisposições a muito comentador de serviço.

Porque os comunistas não se limitam a acreditar que a história lhes dará razão: acreditam que são a razão da própria história. É por isso que não podem parar; que aguentam todas as derrotas e todos os revezes; que são dotados de uma avassaladora e paradoxalmente energética paciência; porque acreditam que são a última barreira entre a civilização e a selvajaria.

Por isso sobre a construção da Festa cai um silêncio ensurdecedor.

Não há psicologias de multidões para ninguém: são mais que muitos, mas cada um está na sua. Isto é muito importante. Ninguém ali está a ser levado ou foi trazido ou está só por estar. Nada é forçado. Não há chamarizes nem compulsões. Vale tudo até o aborrecimento. Ou seja: é o contrário do que se pensa quando se pensa num comício ou numa festa obrigatória. Muito menos comunista. Todos os portugueses haviam de ir de cinco em cinco anos a uma Festa do «Avante!», só para enxotar estereótipos e baralhar ideias. Por isso, a Festa é um «perigo» que há que exterminar.

Assim se chega a outro preconceito conveniente. Dava jeito que a festa do PCP fosse partidária, sectária e ideologicamente estrangeirada. Na verdade, não podia ser mais portuguesa e saudavelmente nacionalista. Sem a orientação e o financiamento de Moscovo, o PCP deveria ter também fenecido e finado. Mas não: ei-lo. Grande chatice.

A teimosia comunista é culturalmente valiosa porque é a nossa própria cultura que é teimosa. A diferença às modas e às tendências dos comunistas não é uma atitude: é um dos resultados daquela persistência dos nossos hábitos. Não é uma defesa ideológica: é uma prática que reforça e eterniza só por ser praticada.

Enquanto os outros partidos puxam dos bolsos para oferecer concertos de borla, a que assistem apenas familiares e transeuntes, a Festa do «Avante!» enche-se de entusiásticos pagadores de bilhetes.

E porquê? Porque é a festa de todos eles. Eles não só querem lá estar como gostam de lá estar. Não há a distinção entre «nós» dirigentes e «eles» militantes, que impera nos outros partidos. Há um tu-cá-tu-lá quase de festa de finalistas. Por isso, ao Programa da Festa, anunciado em conferências de imprensa, são concedidas meia dúzia de linhas ou de segundos.

Ser-se comunista é uma coisa inteira e não se pode estar a partir aos bocados. A força dos comunistas não é o sonho nem a saudade: é o dia-a- dia; é o trabalho; é o ir fazendo; e resistindo, nas festas como nas lutas. Por isso a dimensão e o êxito da Festa chateiam. Põem em causa as desculpas correntes da apatia.

2006.09.03

In jornal "Público" - Edição de 3 de Setembro de 2010

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

António Santos - O Raul este ano teve de ir à festa

 OPINIÃO|FESTA DO AVANTE

 *António Santos

Era para não vir. Por causa da pandemia. Mas levou tanta pancada dos guardas que quando vê o Partido a levar pancada é como se fosse ele próprio outra vez naquela cela, a levar dos guardas, quase até à morte. 

Repouso após a jornada de trabalho. Construtores da festa no espaço do palco principal, a 3 de Setembro de 2020, um dia antes da abertura da Festa do Avante!, que este ano se realiza entre 4 e 6 de Setembro CréditosPaulo António

Atarefa do camarada era simples: esta quinta só entra nesta quinta quem tiver Entrada Permanente e cartão de serviço. «Não interessa se é da SIC ou da ASAE. Até podia ser o Jerónimo: antes da abertura, quem não tiver EP e cartão de serviço, não entra». Exagerada sentença que inventei eu agora, nanja consta que alguma vez tenha sido dita, pelo menos neste século, mas avante, que a isso já lá vamos. Se o camarada da portaria sonhasse como a simplicíssima tarefa estava prestes a ficar complicada, preferiria mil vezes a inflexível aplicação do igual tratamento estatutário, cortando o passo ao secretário-geral. Exageros à parte, o camarada estava ali com a inteira noção da importância da tarefa que lhe fora confiada, além do mais nestes tempos, tão propícios à provocação, à mentira e à infiltração que é como as excepções ou, como dizem os cabrões dos americanos, como a lata das minhocas: se deixas sair a primeira, logo a segunda escorrega. A anterior justifica sempre a seguinte e, quando damos por nós, esta merda parece a praia de Carcavelos. As orientações são gerais, são para todos e são para se cumprir, e esta já me disse mesmo o camarada, não estou a inventar, que se sentia ali responsável por manter seguros os portões da zona libertada, investido da autoridade colectiva de 50 mil militantes comunistas.

Sentado numa cadeira de espuma esventrada, ao som do velho rádio a pilhas que só tosse Antena 2, o camarada aguentava a portaria com a inquebrantável disciplina da canção dos Inti-Illimani: Tun tun, quem é? Uma rosa e um cravo… Abra-se a muralha! Tun tun, quem é? O sabre do coronel.... Feche-se a muralha. E fechava mesmo. Quando era preciso, aquela portaria parecia Espanha em 36: «Não passarão!» Outro exagero, naturalmente, mas quem faz turnos de quatro horas militantes depois de oito horas assalariadas, aguenta-se melhor imaginando estas doces comparações desproporcionadas: «temos cabeça dura, os do corpo de engenheiros!». E a verdade é que a implantação da Festa do Avante! é muito assim como a reconstrução da catedral ardida de São Paulo em Londres: era o ano de 1671 e o arquitecto, de nome Christopher Wren, pergunta a um velho que varria o chão qual era a sua tarefa, ao que cantoneiro responde apocrifamente: «eu faço catedrais». O camarada da portaria, preservemos o seu anonimato, é um construtor de catedrais de tubo à face do sonho, um reconstrutor do mundo ardido, e alto lá, que aquilo com ele parece a ponte dos franceses, «mamita mia, que bem te guardam! Querem passar os fascistas? Não passa ninguém!». Com esse sentido de missão histórica ora se levantava ora se tombava a cancela «boa noite camarada!» como quem cantaria «Se me quiseres escrever, já sabes o meu paradeiro: terceira brigada mista, primeira linha de fogo». Que, por sua vez, é outra forma de dizer que, se fosse preciso, defendia-se aquela entrada com todos os meios disponíveis «mesmo que nos espere a dor e a morte, contra o inimigo nos chama o dever! O bem mais precioso é a liberdade: há que defendê-la com fé e com valor. Para as barricadas!» «Nada podem bombas onde sobra coração», mas nada, mesmo nada, poderia tê-lo preparado para o que aconteceu a seguir.

O camarada da portaria nunca tinha visto nada assim. Viu-o mal dobrou ali a esquina do Lidl: subia sozinho. Vinha tão devagar que houve tempo de pensar serenamente. Talvez seja por isso que os alentejanos são sempre mais calmos que, por exemplo e sem ofensa, os transmontanos, que vendados pelas montanhas, são desde tempos imemoriais mais facilmente surpreendidos pelo invasor. A genética dos povos pedinornitos dispensa esse estado de alerta permanente: ainda vai a centúria em Mérida e já a gente a topou do atalaião com a antecedência de construir albarradas e preparar o cerco.

Bem, mas de nada serviu a calma ao camarada da portaria. Quando o homem finalmente chegou ao portão, o camarada saudou-o como se fosse o Jerónimo em pessoa.

- Boa noite camarada, EP e cartão de serviço.

Sem uma palavra, o homem levantou a cabeça muito devagar. Tinha barba de dias por fazer. Uma grande ferida crostada abaixo do olho e, na cara suja, uns olhos esverdeados e baços, que pareciam de alumínio polido. Do alforge saiu uma EP muito amachucada e quase decapitada pelo domingo mas, ainda assim, válida.

- Precisas do cartão de serviço, camarada.

- O que é isso?

- O cartão de serviço é… é o cartão que têm os camaradas que vêm trabalhar. A festa para os visitantes só abre amanhã.

- Eu sei, camarada.

Tranquilizou-o ouvi-lo dizer assim a palavra camarada: os comunistas, para quem não sabe, reconhecem-se pela forma como só eles pronunciam a palavra camarada.

- Então... e eu venho para trabalhar.

Não tinha máscara. A camisa, ensebada e rasgada no ombro, caia-lhe sobre as calças demasiado largas. O camarada da portaria pensou que podia ser um louco. Não, era provavelmente um indigente.

- Ó camarada, desculpa lá… Isto não é assim. Qual é a tua organização?

- Boa Fé, Évora.

- Então e vieste sozinho?

O homem respirou fundo como se tentasse recompilar vários detalhes de uma resposta complexa.

-Vim. Vim na carreira até Setúbal e depois fui andando, andando…

-Vieste a pé desde Setúbal?

- Vim. - E do bornal mostrou um mapa que de tão dobrado parecia feito de guardanapo. Perdi-me aqui - e apontava toscamente - na Serra da Arrábida porque lá ninguém pára o carro.

O camarada da portaria não acreditava, claro.

- É pá. Grande esticão. Quanto tempo é que demoraste?

- Cinco dias, cinco noites. Fui dormindo onde calhava. Ia comendo e bebendo pelos cafés. E já cá estou. Posso-me sentar?

Está mais que provado que «Quem corre por gosto não cansa» é, entre todos os bordões do almanaque, o mais falso e o mais injusto. Tudo cansa, tudo se desfaz. Até as coisas que amamos, ou não fosse o mundo dialéctico e não estivessem até as pedras em perpétua erosão.

O camarada da portaria foi buscar a cadeira esventrada e disse-lhe para esperar. Marcou a extensão da Comissão de Campo, explicou a situação e, com todo o detalhe, descreveu o homem. Os camaradas da Comissão de Campo também não sabiam o que fazer e acharam melhor ligar para os camaradas da Direcção da festa. Os camaradas da Direcção da festa mostraram-se apreensivos: podia ser uma armadilha para denegrir a festa ou romper a disciplina sanitária. Decidiram por isso, ligar para o camarada responsável pela Boa Fé, que estava naturalmente na Festa, e que não acreditou no que estava a ouvir. Esse camarada é o Raul, explicou. Estava muito afastado há anos. Comprava o Avante!, é certo, mas pouco mais podia. Há uma semana, a mulher morreu de cancro: o camarada não está bem.

A Direcção acabou por decidir que o camarada poderia entrar e que lhe devia ser dada uma máscara. Um camarada ficou de tratar da tenda e outro ficou de pedir emprestado um saco-cama. Mas o camarada, que tem nome e efectivamente se chama mesmo Raul, não queria ir dormir nem ir ao posto médico. Queria ajudar.

Tanto insistiu que sentaram-no numa carrinha descapotada a cortes de rebarbadora e levaram-no para a Cidade da Juventude. Porquê para a Cidade da Juventude? Porque à meia noite o camarada fazia anos, explicaram os camaradas que deram a orientação. Não sei o que mais vos diga, foi o que a organização decidiu, camaradas; e eu também não perguntei porquê: às vezes os desígnios da organização são misteriosos.

Quem achar difícil acreditar que isto realmente se pudesse ter passado na Quinta da Atalaia, no dia 3 de Setembro de 2020, nem sonha o que veria se pudesse, do alto dos tempos medievais em que aqui havia mesmo uma torre de atalaia, ver o que esta quinta já viu. Imaginemos nós que tínhamos de explicar aos monges jerónimos que aqui plantaram vinha, que um dia a vinha seria de monges dominicanos, que daqui seriam corridos a pontapé por uma revolução republicana. Imaginemos se tivéssemos de explicar aos Condes de Atalaia, oriundos de outra Atalaia, a de Vila Nova da Barquinha, que ganharam estas terras como compensação por traírem a pátria ao serviço dos Filipes de Espanha, que um dia esta terra não voltaria nunca mais às mãos de mais nenhuma família aristocrática. Imaginemos que tínhamos de explicar aos trabalhadores do senhor Reynolds, patrão da Lisbon Fresh Water Suply, que daqui extraía a cristalina água mineral Águanave, que um dia toda esta terra seria da classe operária e dos comunistas? Pois: a descrença seria mútua. 

Conclusão do mural «JCP- O futuro tem partido», no espaço da Festa do Avante!, na Quinta da Atalaia, Amora, Seixal, a 3 de setembro de 2020. A Festa do Avante! decorre entre 4 e 6 de Setembro. Créditos José Sena Goulão / LUSA

O camarada da JCP que estava responsável pela implantação é que não achou tanta graça ao mistério. Mas que ajuda é que alguém assim poderia dar? Os camaradas decidem assim as coisas e depois os outros que se desenrasquem, não é? A 24 horas da abertura, a cidade estava atrasada e não havia tempo para estas brincadeiras do oxigénio em pó, do empalmo de 7 vias ou do nivelador de toldos. Mas a orientação é para cumprir, pá, e lá teve o camarada responsável da JCP, contrafeito, de dar uma tarefa ao bizarro camarada.

- Ó camarada, ficas aqui com esta malta. Ponham-no a trabalhar.

E ele, de facto, lá ia ajudando no que sabia. Segurava nas tábuas, passava parafusos, dava opiniões, nem sempre colhidas, ao enxame a fremir de jovens apressados que forravam com contraplacados as paletes do chão.

- Raul, não é? Então vieste a pé desde Setúbal? - era estranho, mesmo para os comunistas, tratá-lo por tu, mas depressa a distância se evaporou. O Raul era operário agrícola, mas até se safava com a madeira. Também tinha estado toda a vida precário. Às vezes sem contrato, sem descontos, sem nada. Entre os que estavam ali da jota a meter chão, havia mais quatro também assim, não operários agrícolas, mas a recibos verdes, com contratos de um ano ou sem contrato nenhum.

- É fodido, pá, se ficas doente, quando envelheces, como é que é? - A pergunta do jovem era retórica, claro está, mas o Raul deu-lhe razão.

Contou-lhes que, quando era puto, guardava os porcos dos senhores para os putos de hoje guardarem os porcos dos netos dos senhores. É a luta de classes. O resto é conversa. Depois tinha andado maltês, a trabalhar de braceiro por esse país fora, a dormir onde calhasse, a viver de côdeas, porra, a ser despedido por dá cá aquela palha e a malta concordou que ainda hoje é esse quero posso e mando. Só com o 25 de Abril é que isto melhorou e até isso nos querem tirar, protestou. E como nós não deixamos, eles, os patrões, detestam-nos. Se nos pudessem ilegalizar, ilegalizavam. Se tivessem de nos matar, matavam.

O discurso do Raul estava a dar cabo dos planos do camarada responsável para terminar a cidade a tempo. À sua volta tinha-se juntado um perigoso aglomerado anti-sanitário de irresponsáveis jovens, alguns sem máscara, todos tisnados de óleo, serradura, tinta e dulcíssimos suores de trabalho militante.

O Raul, disse-lhes, tinha andado a vida toda a combater o fascismo. Tinha estado preso com o Jaime Rebelo, que, tirando partido de ser analfabeto, cortou a própria língua para não poder denunciar os camaradas à PIDE. O Raul contou-lhes que, antes do 25 de Abril, os comunistas ficavam com a vida toda destruída: a carreira, a família, a casa, a liberdade. Tiravam-lhes tudo menos a dignidade. O Raul confessou-lhes que se não fosse a mulher, que ficou com os filhos quando ele esteve preso, e trabalhava de sol a sol para dar de comer às crianças, também não sabia se não teria de ter cortado a própria língua. Quem é que se oferece para explicar ao Raul que isto dos riscos da pandemia são um axioma absoluto e que mais nada importa a não ser ficar em casa?

- Quantos anos estiveste preso?

- Seis, mais qualquer coisa.

Mas foi na prisão que aprendeu a ler. Com os outros, com os camaradas. Haverá prenda mais bonita? Os presos faziam jornais lá dentro e ensinavam uns aos outros. Uma vez foi apanhado, isto no Forte de Peniche, com imprensa do Partido e levou tanta pancada, apontava para a zona dos rins, que achava que morria, mas não morreu. Então este ano teve de vir à festa. Era para não vir. Por causa da pandemia. Mas levou tanta pancada dos guardas que quando vê o Partido a levar pancada é como se fosse ele próprio outra vez naquela cela, a levar dos guardas, quase até à morte. Disse assim à mulher «Olha, agora é que vou mesmo» e a mulher, claro, mandou-o ter juízo. Ela, coitada, acabou por não poder vir mesmo.

É meia-noite. A malta da JCP poisou as ferramentas, parou de trabalhar, pôs-se toda de pé. Uma brisa do Norte lambe-lhes suavemente as frontes suadas, transcendendo a realidade. Cerraram-se agora muitos punhos contra o céu estrelado e a juventude canta ao Raul os «Parabéns a você», mas com a melodia da Internacional. O Raul achou graça àquilo e riu-se alto, com alegria verdadeira, como se não tivesse acabado de fazer 95 anos.

POR ANTÓNIO SANTOS SEXTA, 04 DE SETEMBRO DE 2020

https://www.abrilabril.pt/cultura/o-raul-este-ano-teve-de-ir-festa

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Adriano Miranda - A roda gigante do Avante!

* Adriano Miranda -

OPINIÃO - 3 de Setembro de 2020, 10:49

Muitas vezes a roda da vida leva-nos para encontros e desencontros. A Festa que eu sempre frequentei e onde sempre me senti bem. A Festa que não devia acontecer este ano. Estamos desencontrados.

As laranjeiras estão altas. Há também pereiras e uma camélia enorme. Uma carroça de bois, uma adega e uma casa térrea. Ao fundo, a terra sempre cultivada, uma eira e uma casa pequena. José e outros, levantam-se cedo. Deitam a semente à terra. Depois desaparecem. Encerram a porta da casa pequena. Os pássaros pintam o céu. Não há que ter medo. Nunca se ouviu falar que um pássaro fosse bufo. José e os outros, constroem textos com letras de chumbo. Dobram papel fino. Rolam rolos vestidos a tinta negra. As horas passam e o homem da bicicleta descasca uma laranja. Saboreia. Bebe água do poço. A porta abre-se. José abraça o homem da bicicleta. No quadro, com um arame improvisado, um cesto com couves é pendurado. Cai a noite e a bicicleta rola. A lua ajuda.

Ainda o sol não deu os bons dias e já uma matilha de esfarrapados se faz à rua. Trabalhadores de fábrica. Trabalhadores de terra. Pelas pedras espreitam papéis. Saíram clandestinamente do ventre das couves. No adro da igreja espreitam papéis. Nos paralelos da calçada espreitam papéis. São amachucados, escondidos em sapatos ou algibeiras. E quando for possível, longe dos olhares dos abutres, grupos de homens e mulheres rodeiam o papel fino tingido a letras de chumbo. Quem souber juntar letras é o eleito para ler. É necessário aumentos na jorna. Melhores condições na fábrica. Escola para os filhos. Salário igual entre homens e mulheres.

Cidadania e Desenvolvimento: onde os alunos aprendem a “não roubar, não estragar, não andar à pancada”
José e os outros descansam os corpos em colchão de palha. Os cães ladram. A porta é arrombada. A polícia de defesa do estado intervém para bem da nação. Aos socos e pontapés, levam José e os outros para as salas bafientas com Salazar e Carmona a olharem. Sorrisos de hiena estampados em molduras pesadas. José e os outros são espancados, torturados. O hálito do agente é ácido. Quem vos mandou fazer os avantes? Foram vocês que montaram a porra da tipografia clandestina? Aquela merda veio de Moscovo? Quem são os vossos chefes? Quem colocou a merda dos avantes na aldeia? Filhos de uma cabra. Comunas de merda. Não vão ficar cá para contar a história. José e os outros não abriram a boca. Cada soco, cada estalada, cada hora de estátua eram anos de silêncio. Levem os gajos. Só comem daqui a três dias. Odeio comunas.  

Pela manhã os avantes estavam novamente na vila. O agente de hálito ácido volta a espancar José e os outros. Se não falam, mato-vos. Silêncio e silêncio. José e os outros foram libertados para sempre. De vez. Em abril. 

José e os outros continuam a gostar de laranjeiras. Por vezes ainda lançam a semente à terra. Não perderam o jeito nem o gosto. Muito menos a firmeza. José, os outros e tantos outros, lutaram pela liberdade. Combateram como ninguém a escuridão. O medo. A opressão. Lutaram para chegarmos todos até aqui. Um país livre. Livre como o vento ou como um catavento. Um país também de ingratidão. José e os outros resistiram aos socos e à estátua. À fome e à sede. Ao agente de hálito ácido. Também resistem agora. O hálito anda no ar. Cheira-se. Sente-se. Na conversa de café. No comentador limitado. No líder (adoram esta palavra) bafiento. No truque. Na mentira. Na manipulação. Até no pedido de desculpas. Sente-se o agente de hálito ácido a querer pendurar os sorrisos de hiena.

José e os outros, estão cá para os enfrentar. E há muitas pedras para colocar os papéis. Não julgue o agente de hálito ácido que desta vez será fácil. Talvez até seja impossível, enquanto houver quem teime em lutar.

O agente de hálito ácido é todo ele ódio. Tem sede de vingança. José e os outros, pintam letras às cores na Quinta da Atalaia. Não perderam a firmeza. Lutam novamente contra o medo. Pela liberdade. O agente de hálito ácido semeia calhaus em terra de pandemia.

Conheço o José e os outros. A todos eles, dou um abraço de gratidão maior que o mundo. Muitas vezes a roda da vida leva-nos para encontros e desencontros. Como agora. A Festa do Avante. A Festa que eu sempre frequentei e onde sempre me senti bem. A Festa que não devia acontecer este ano. Estamos desencontrados. Mas os dias vão passando e afinal, os socos, as bofetadas, a estátua, as torturas ainda não acabaram. O agente de hálito ácido ainda grita – morte aos comunas! Não posso esquecer o lado da barricada em que estou. Pela amizade e pela solidariedade com homens e mulheres íntegros, José, os outros e tantos outros, estarei na Quinta da Atalaia. No cimo da roda gigante levantarei o punho, em silêncio, como tu José, contra o medo e pela liberdade.

tp.ocilbup@adnarima

https://www.publico.pt/2020/09/03/opiniao/opiniao/roda-gigante-avante-1930191

domingo, 9 de setembro de 2018

Adriano Miranda - O relógio da Festa


CRÓNICA
O relógio da Festa
Ao jantar, ainda antes de o relógio ser guardado na gaveta, disse ao meu pai e à minha mãe que queria ajudar a construir a Festa. Ir trabalhar para o Avante!.
9 de Setembro de 2018, 12:43


Com dez anos, naquele mês de Setembro, pensei que toda a população do mundo estava junto ao rio Tejo, em Lisboa. Nunca tinha visto e sentido tanta gente. Por vezes não se conseguia andar. Olhava para cima, na tentativa de alertar os adultos par o facto de estar ali. Sentia-me apertado. Quase esmagado. Aquela massa compacta de gente estava feliz. Invadiam todos os lugares da antiga FIL. Eram milhões de conversas, milhares de sorrisos, infinitos abraços. E no domingo à tarde o comício teve de vir para a rua. A grande nave era pequena de mais.
Era a primeira edição da Festa do Avante!. Estávamos em 1976. Nunca se tinha visto nada igual. Foi a primeira vez que vi um palco gigante. Que vi músicos a sério. Sentia-me bem. A palavra que mais se ouvia era “camarada”. A segunda, “liberdade”. Tudo era novidade. Corredores de política. Corredores de comida. Corredores de música. Corredores de arte. Mas o espaço que ficou gravado na minha memória, porque passei lá imenso tempo, era o Espaço Internacional. Milhares de pessoas queriam ver o pavilhão da União Soviética, da RDA ou da Checoslováquia. Ali estavam os países socialistas e os partidos irmãos. Ali estava o imaginário.

Os países socialistas ofereciam livros, cartazes, harmónicas, chapéus, palas para o sol, emblemas, balões, bandeiras e até relógios de bolso made inDDR. Algumas coisas consegui no meio de tantos braços esticados. Não me lembro o quê. Excepto o famoso relógio de bolso. Uma proeza. Uma prova de que a persistência dá frutos. Durante anos, o relógio de horas certas embelezou a minha mesa-de-cabeceira. Todos os dias lhe dava corda num ritual quase mecânico. Tinha orgulho naquele pequeno relógio de algibeira conseguido a pulso. Com o tempo o relógio perdeu importância. Parou um dia nas seis e seis. Foi depositado numa gaveta.
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Ao jantar, ainda antes de o relógio ser guardado na gaveta, disse ao meu pai e à minha mãe que queria ir trabalhar. Não sei que idade tinha. Ficaram espantados. Tinha idade ainda para estudar. Era novo, muito novo. Disse-lhes que queria ajudar a construir a Festa. Ir trabalhar para o Avante!. De mochila às costas, apanhei o comboio e fui. Amigos iam para as vindimas ou para a paragem da Celulose. Ganhavam dinheiro. Eu optei por ir para a Festa. Voluntário. Gastar dinheiro aos meus pais. Foi um mês alucinante. Conheci tanta gente. Fiz tanta coisa. E depois naquele fim de tarde da sexta-feira mágica, os portões abriram-se e a maré humana invadiu tudo o que tínhamos construído. Ficou a sensação do dever cumprido. A sensação de que a persistência dá frutos. Antes de sair de casa, pedi ao meu pai para todos os dias dar corda ao relógio!

Foram anos seguidos a cumprir o meu voluntariado. A Festa ficou-me no sangue. Cresci a ver a Festa crescer. Preguei milhares de pregos. Coloquei tubos. Pintei murais. Reguei a relva. Recolhi o lixo. Desenhei letras. Serrei madeira. Dancei. Abracei. Beijei. Ali, naqueles metros quadrados a perder de vista, sentíamo-nos bem. Sentíamos paz. Dávamos sentido à vida. Éramos solidários. Éramos amigos. Ali, era outro mundo. Um mundo sonhado e desejado. Um mundo difícil de conseguir. Um mundo possível. Humanista. Era o electricista, o canalizador, o arquitecto, a costureira, o cozinheiro, o pintor, o artista, o técnico de som, o jardineiro, o médico, a enfermeira, o bombeiro, o reformado, o estudante... eram tantos e sempre tão poucos. Era tão gigante aquela tarefa colectiva. Ambiciosa. Construir uma cidade em três meses para durar três dias. A Festa começava com um esqueleto de tubos ao alto. Ia sendo construída, levantada do chão. Gostava de adivinhar as formas. Crescia todos os dias. E depois das paredes ao alto, artistas plásticos davam vida ao contraplacado castanho-claro. A Festa ganhava cor e mensagem. E quando as centenas de mastros se engalanavam com bandeiras de várias cores, a sexta-feira mágica aproximava-se. Eram três dias de sã loucura. Uma maravilha.

Deixei de ajudar a construir a Festa no ano em que coloquei o relógio na gaveta. O rumo da vida assim o quis. Continuo a admirar o empenho e a dedicação que homens e mulheres entregam naquela quinta ajoelhada perante o Tejo. Lugar de liberdade. Lugar de cultura e saber. Lugar fraterno. O mundo necessita de muitos lugares assim. Nunca faltei à chamada. Nunca faltei a uma Festa. São já 42 edições. Existem amigos que só se abraçam uma vez no ano. É na Festa. Outros já partiram e ficaram no coração. A Festa do Avante! é um caldo de emoções. Ao fim do dia, a brisa combate o calor. Gosto de me sentar na relva e olhar para aquela cidade que cada vez está maior. Penso como é possível. De onde continua a vir tanta força para planear, organizar e dar vida a um dos maiores acontecimentos políticos da Europa. Não encontro uma resposta mas muitas respostas.

A propósito desta crónica tirei o relógio da gaveta. Continuava nas seis horas e seis minutos. Dei corda e os ponteiros começaram no seu ritual como se o tempo não tivesse andado. Talvez o relógio made in DDR ainda não saiba que o Muro de Berlim caiu. Que perdeu a nacionalidade. Que agora é alemão unificado. Mas os ponteiros teimam em trabalhar. Numa luta por um tempo novo. O velho relógio alemão ainda não morreu.


sábado, 8 de setembro de 2018

Catarina Pires - Um dia no Avante!

*  Catarina Pires
08 Setembro 2018 — 12:59


Um dia no Avante!: "Talvez o meu pai tenha razão e eu tenha ido bebé de colo"

Ontem, Jerónimo de Sousa declarou aberta a 42ª edição da Festa do Avante!, depois de agradecer, como de costume, aos construtores da festa, camaradas e amigos, que, com o seu trabalho militante e voluntário, a ergueram, para desfrute de todos nós, os visitantes. "Mais ninguém te faz festas com esta", lê-se numa t-shirt à venda no stand do Porto. E é bem capaz de ser verdade.


Chegar à Quinta da Atalaia, Amora, Seixal (temos sempre que acrescentar Amora, Seixal, porque há mais Amoras na terra), na primeira sexta-feira de setembro, com o sol a descer, é como voltar a casa. Não se explica muito bem. Entra-se ali e está-se em casa.
A caminho da festa, o meu pai garantia-me que fui ao Jamor, pequenina, ainda de colo, e que era só calor e pó e a minha mãe, pouco dada a festas e militâncias, não durou lá muito tempo comigo e o meu irmão, quase da mesma idade.
O meu pai foi a todas. Eu não sei. Talvez à Ajuda, também calor e pó, dessa tenho uma vaga lembrança. E depois só já crescida (já a festa tinha conquistado a Quinta da Atalaia há uns tempos), aos 24 anos, por causa de um livro que escrevi com o Álvaro Cunhal, aos 28, em trabalho, como jornalista, e desde então, sempre.
Este ano, falhei o discurso de abertura, ouvi-o ao longe, da porta da Quinta da Princesa, como ouvi ao longe o Avante Camarada, sem poder juntar a minha voz à deles, abraçada, à moda alentejana, a pessoas que não conheço, e a terra sem amos, a Internacional. Quando não falho, as lágrimas também não e são outra coisa que me custa explicar. Talvez seja da justeza dos ideais e da luta, da luta a sério, por eles. Talvez seja disso, a emoção.
Anteontem, pediram-me um texto sobre a festa e então eu, que ia só por voltar a casa, pela primeira vez, nos últimos 15 anos, percorri aqueles quilómetros todos, de uma ponta à outra, de olhos diferentes, a ver o que nunca tinha visto. E foi um espanto.
Talvez o meu pai tenha razão e eu tenha ido bebé de colo, porque há tanta gente com bebés de colo e em cadeirinhas, há miudagem que farta, em magote ou com os pais, pré-adolescentes e adolescentes, como os meus filhos, pós-adolescentes e malta da minha idade, malta da idade do meu pai (a geração de Abril) e mais velhos, bengalas. E estão todos em todo o lado. São muitos (quando levo amigos meus de direita à Festa do Avante!, a piada é sempre a mesma: "são muitos, medo"). Ninguém com pressa. Minto, quando começa a Carvalhesa a avisar que vai abrir o Palco 25 de Abril, aparece gente a correr de todas as artérias da festa. Os comunistas (e os outros todos, que não há só comunistas na festa) gostam de dançar. Sobretudo a Carvalhesa. De resto, ninguém com pressa.
É bonito isso na festa. É um lugar onde se está. E tanto se pode estar no palco 25 de Abril a ouvir um pedaço da nona sinfonia de Beethoven [Sinfonia n.° 9 Coral op. 125 (4.° andamento: Finale-Presto)], interpretado pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa e o Coro Sinfónico Lisboa Cantat, como no palco 1º de Maio a dançar com os cabo-verdianos Tubarões. Tanto pode estar-se a assistir a um combate de boxe como a ver 1936, O Ano da Morte de Ricardo Reis, pel'A Barraca, no Avanteatro. Tanto pode estar-se a jogar futebol como a ver a exposição do Pavilhão Central "Capitalismo - Génese, natureza, contradições". Tanto pode estar-se a ver o filme Luz Obscura, de Susana Sousa Dias, no CineAvante, como a beber copos, comer e conversar numa qualquer esplanada do mundo ou do país (da China a Leiria, da Madeira à Venezuela, de Beja ao Brasil, de Lisboa a Cuba, é escolher - podia continuar, mas acho que já se percebeu a ideia).
E ainda há os debates. Muito debatem os comunistas. Há debates em todo o lado e a toda a hora. E há a feira do disco e a do livro. Fui espreitar. Estive para comprar o Casei com um Comunista, do Philip Roth, mas resisti.
Quando acabei a volta, sozinha (é tão raro estar na festa sozinha) percebi finalmente porque volto lá sempre e me sinto em casa. É um lugar onde toda a gente trata toda a gente toda por igual (e por camarada), onde cantei com o Sérgio Godinho e o Jorge Palma, onde me desiludi com o Fausto, onde fiz as pazes com o Paulo de Carvalho, onde chorei com a Estrela da Tarde cantada pelo Carlos do Carmo e com a Desfolhada na voz de Simone de Oliveira e onde perdi a vergonha de saltar com os Xutos & Pontapés. É um lugar onde posso tudo o que quiser. É um lugar de liberdade.

https://www.dn.pt/pais/interior/um-dia-no-avante-talvez-o-meu-pai-tenha-razao-e-eu-tenha-ido-bebe-de-colo-9817976.html

Maria Morgado - Foi uma vez no Alto da Ajuda....


* Maria Morgado 
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Fez ontem 32 anos foi sábado. Ainda não tinha 40 anos, podia tudo e o Mundo era meu. E calçava uns ténis all star...

A Festa no Alto da Ajuda, no ano em que houve raios laser sobre o Palco 25 de Abril. Que nesse ano foi do lado direito da avenida que subia até lá acima. Entrei de serviço na quinta feira, dia 5, a fazer logo de manhã o que era necessário. Sabia que me esperava uma noite de 'segurança' à 'máquina' dos laser, um cilindro enorme, cor de laranja, resguardado num grande rectângulo feito com estacas e corda à volta. Nunca tinha feito segurança a uma máquina!!!!! Mas lá fiquei, eu e outros Camaradas, toda a noite.

Na manhã de sexta feira vim a casa tomar duche e mudar de roupa, voltei a calçar os ténis, fui buscar uma madrilena a Sta. Apolónia e voltei para a Festa. Não sei que tarefas fiz nesse dia, sei que estive na Madeira (onde me chamaram para provar a poncha) e antes da Festa abrir ainda fui comprar tapetes de trapos e outras peças de artesanato para decorar o restaurante das delegações internacionais. Depois foi um duche rápido, com água fria, vestir roupa lavada e... calçar os all star.

Sete ou oito horas depois cheguei a casa, éramos bastantes, uns oito ou dez. Banho para todos. Comer qualquer coisa. Conversar um pouco. Os primeiros a terem sono (três) ocuparam a cama. Os outros, com sacos cama, foram-se aconchegando em colchões de campismo pelo chão da sala.

No dia seguinte, dia 7, tinha um turno de segurança num dos pontos da rede que rodeava a Festa. Levantei-me, mas não conseguia andar. Os pés tinham o triplo do tamanho. Tinham sido cerca de 40 horas com os all star calçados.... e foi a única vez que fui para a Festa de chinelos turcos!

Fez 32 anos ontem, e era sábado. Ainda não tinha 40 anos, podia tudo e o Mundo era meu...

Bom dia, boa Festa!

https://www.facebook.com/maria.morgado.50/posts/10211970870376897?__xts__%5B0%5D=68.ARBr6PaOj4KPmEMv4wbPkBeSp8UqMiatUKripUKRRTN4iwz-CLF5a6ZuQmP-a6FQ7eh8oWntnpMRNlax8xmuriDxnI0D3a5vGaEm_NGoQPDxmXJa_dgRETcHMOBsmjqp8A_6vWBGPCjF5Eravll_gtXCRusj8bCUGAKOQWG4-vZqJ6MynS770wVzURS-1Lfgk8XTAouUp8CtFGrly4B8qBnkRE-3XIp2oSS_VEjTNA&__tn__=-R

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Alves Redol e Manuel da Fonseca nasceram há 100 anos



Festa do Avante! evoca escritores comunistas


Num ano em que a exposição política do Espaço Central da Festa do Avante! é dedicada ao 90.º aniversário do Partido, Liberdade, Democracia, Socialismo: um Projecto de Futuro, são evocados dois expoentes da cultura nacional e que são, ao mesmo tempo, parte integrante da história do PCP – Alves Redol e Manuel da Fonseca, ambos nascidos há 100 anos.

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Nomes maiores do neo-realismo português, Alves Redol e Manuel da Fonseca afirmaram-se justamente como nomes maiores da literatura e da cultura portuguesas – o primeiro essencialmente como romancista e dramaturgo e o segundo como romancista, poeta e cronista. Apesar disso, é muito o que os une. Ambos iniciaram muito jovens a sua actividade literária como colaboradores de jornais e revistas – VérticeO DiaboSeara NovaSol Nascente – contribuindo com crónicas e contos. Como cenário do que escreviam estava o Ribatejo e o Alentejo, as suas gentes, as suas vidas, as suas lutas.
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A uni-los está também a opção antifascista que fizeram muito jovens, aderindo, ambos, ao Partido Comunista Português – a única força nacional que se opunha ao regime fascista e o enfrentava, que organizava e dirigia a resistência, que se batia pela liberdade, pela democracia, pelo progresso e pela justiça social. Um e outro mantiveram-se fiéis a esta opção até ao fim das suas vidas.
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Nesses anos, décadas de 30 e 40 do século passado, a maioria dos intelectuais portugueses participava activamente, com a sua obra, na luta antifascista, assumindo-se como porta-voz da resistência popular. Com o movimento neo-realista, que viria a marcar impressivamente a literatura portuguesa no século XX, a actividade dos escritores passa a ser parte integrante da luta de massas e as suas obras expressão dos anseios e aspirações dos trabalhadores e do povo. É precisamente do neo-realismo que Alves Redol e Manuel da Fonseca se tornam expoentes maiores. O primeiro, com o seu romance de estreia, Gaibéus, publicado em 1939, é justamente considerado o seu iniciador.
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O primeiro livro de poemas de Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, e Planície, publicados respectivamente nos anos 1940 e 1941, são os primeiros passos da poesia neo-realista.


A reorganização e os passeios no Tejo



Image 8303


Na década de 40, o PCP reorganizava-se e afirmava-se como um grande partido nacional, vanguarda da classe operária e partido da resistência e da unidade antifascistas. No seu IV Congresso, realizado em 1946, contava com seis mil militantes e mais de quatro mil simpatizantes e células organizadas em todas as principais empresas do País. Desempenhando um papel determinante no desenvolvimento da luta, o PCP gozava de enorme influência não apenas junto da classe operária como dos intelectuais.
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Eram os tempos dos célebres «passeios» de fragata, no Tejo, que mais não eram senão formas disfarçadas de os intelectuais militantes e simpatizantes do Partido se reunirem fora das vistas da polícia fascista. Alves Redol, juntamente com Soeiro Pereira Gomes e António Dias Lourenço, era um dos seus organizadores e Manuel da Fonseca presença assídua.
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Vigiados e perseguidos pela PIDE, tanto pelo que escreviam como pela sua actividade política, Alves Redol e Manuel da Fonseca (como tantos outros intelectuais) conheceram a brutalidade dos interrogatórios e dos cárceres fascistas. Manuel da Fonseca morreu a 11 de Março de 1993. Alves Redol já não chegou a conhecer a liberdade que o 25 de Abril trouxe ao povo português – faleceu a 29 de Novembro de 1969. Ao seu funeral compareceram milhares de pessoas, que o acompanharam ao cemitério de Vila Franca de Xira, numa imensa manifestação de apreço pela sua vida e pela sua obra.
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Para ambos, o PCP foi o seu partido de sempre e as suas obras perduram como referências incontornáveis na história da literatura portuguesa.
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Nomes maiores do neo-realismo português, Alves Redol e Manuel da Fonseca afirmaram-se justamente como nomes maiores da literatura e da cultura portuguesas – o primeiro essencialmente como romancista e dramaturgo e o segundo como romancista, poeta e cronista. Apesar disso, é muito o que os une. Ambos iniciaram muito jovens a sua actividade literária como colaboradores de jornais e revistas – VérticeO DiaboSeara NovaSol Nascente – contribuindo com crónicas e contos. Como cenário do que escreviam estava o Ribatejo e o Alentejo, as suas gentes, as suas vidas, as suas lutas.
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A uni-los está também a opção antifascista que fizeram muito jovens, aderindo, ambos, ao Partido Comunista Português – a única força nacional que se opunha ao regime fascista e o enfrentava, que organizava e dirigia a resistência, que se batia pela liberdade, pela democracia, pelo progresso e pela justiça social. Um e outro mantiveram-se fiéis a esta opção até ao fim das suas vidas.
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Nesses anos, décadas de 30 e 40 do século passado, a maioria dos intelectuais portugueses participava activamente, com a sua obra, na luta antifascista, assumindo-se como porta-voz da resistência popular. Com o movimento neo-realista, que viria a marcar impressivamente a literatura portuguesa no século XX, a actividade dos escritores passa a ser parte integrante da luta de massas e as suas obras expressão dos anseios e aspirações dos trabalhadores e do povo. É precisamente do neo-realismo que Alves Redol e Manuel da Fonseca se tornam expoentes maiores. O primeiro, com o seu romance de estreia, Gaibéus, publicado em 1939, é justamente considerado o seu iniciador.
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O primeiro livro de poemas de Manuel da Fonseca, Rosa dos Ventos, e Planície, publicados respectivamente nos anos 1940 e 1941, são os primeiros passos da poesia neo-realista.

A reorganização e os passeios no Tejo



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Na década de 40, o PCP reorganizava-se e afirmava-se como um grande partido nacional, vanguarda da classe operária e partido da resistência e da unidade antifascistas. No seu IV Congresso, realizado em 1946, contava com seis mil militantes e mais de quatro mil simpatizantes e células organizadas em todas as principais empresas do País. Desempenhando um papel determinante no desenvolvimento da luta, o PCP gozava de enorme influência não apenas junto da classe operária como dos intelectuais.
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Eram os tempos dos célebres «passeios» de fragata, no Tejo, que mais não eram senão formas disfarçadas de os intelectuais militantes e simpatizantes do Partido se reunirem fora das vistas da polícia fascista. Alves Redol, juntamente com Soeiro Pereira Gomes e António Dias Lourenço, era um dos seus organizadores e Manuel da Fonseca presença assídua.
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Vigiados e perseguidos pela PIDE, tanto pelo que escreviam como pela sua actividade política, Alves Redol e Manuel da Fonseca (como tantos outros intelectuais) conheceram a brutalidade dos interrogatórios e dos cárceres fascistas. Manuel da Fonseca morreu a 11 de Março de 1993. Alves Redol já não chegou a conhecer a liberdade que o 25 de Abril trouxe ao povo português – faleceu a 29 de Novembro de 1969. Ao seu funeral compareceram milhares de pessoas, que o acompanharam ao cemitério de Vila Franca de Xira, numa imensa manifestação de apreço pela sua vida e pela sua obra.
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Para ambos, o PCP foi o seu partido de sempre e as suas obras perduram como referências incontornáveis na história da literatura portuguesa.
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Avante
N.º 1968
18.Agosto.2011