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sexta-feira, 14 de junho de 2024

Catarina Pires - O Álvaro Cunhal que poucos conhecem




HISTÓRIAS

O Álvaro Cunhal que poucos conhecem


por NOTÍCIAS MAGAZINE

12/11/2013


Texto de Catarina Pires

Não queria biografias, abominava endeusamentos, recusava o culto da personalidade. Sempre foi mal interpretada a sua vontade de manter privada a parte da vida que o era. Não o fazia para adensar mistérios, criar auras ou espalhar charme, mas por uma ética que lhe era intrínseca. Via-se como um homem simples, igual a todos os outros, cuja vida pessoal não deveria interessar a ninguém a não ser a si próprio e aos que lhe eram íntimos. Com estes não tinha reservas. Falava sobre tudo. Queria saber tudo.

Deve ser por isso que o meu Álvaro Cunhal é diferente daquele sobre quem por vezes leio em livros, grandes reportagens ou artigos de opinião. Deve ser por isso que a primeira vez que o reencontrei num escrito foi numa entrevista que a filha, Ana Cunhal, deu, em 2010, ao jornalista Nuno Tiago Pinto, na revista Sábado. Estava lá o Álvaro que conheci: afetuoso, atencioso, generoso, paciente, indulgente, com um enorme sentido de humor. O Álvaro que, aos 84 anos, encontrou espaço na sua vida para mais uma pessoa, uma miúda de 24 anos, com quem gostava de conversar, perceber que mundo era o dela, como o via e porque o via assim.

Álvaro Cunhal, que dedicou a vida a dar um novo sentido a esta frase, lutando para que todos tivessem circunstâncias que lhes permitissem ser aquilo que quisessem, contrariou-a. Escolheu o caminho mais difícil. O único possível. Nunca se arrependeu. E foi feliz.

É por esse Álvaro que escrevo este texto. Esse Álvaro que podia ter sido o que quisesse – e foi escritor, artista plástico, ensaísta, teórico, tradutor –, mas que aos 17 anos decidiu que o queria era juntar-se ao Partido Comunista Português e lutar por um projeto de sociedade que considerava ser o mais justo para o seu país. Por causa dessa luta sofreu prisões, torturas, a vida clandestina, longe daqueles a quem amava, a mãe, o pai, a irmã, a avó e mais tarde a filha. «O homem é ele próprio e as suas circunstâncias» dizia Ortega y Gasset. Álvaro Cunhal, que dedicou a vida a dar um novo sentido a esta frase, lutando para que todos tivessem circunstâncias que lhes permitissem ser aquilo que quisessem, contrariou-a. Escolheu o caminho mais difícil. O único possível. Nunca se arrependeu. E foi feliz.

Ainda consigo ouvir a voz incrédula da minha mãe, há 16 anos, com o auscultador do telefone a tremer-lhe na mão: «Catarina, é o Dr. Álvaro Cunhal. Quer falar contigo.» E depois a voz dele, bem humorada: «Sabes quem fala?». Era junho de 1997, creio, e a razão do telefonema era saber como estava e que nota tinha tido no trabalho que fiz sobre ele para a faculdade. Que o 17 podia ter sido melhor. Que continuasse a fazer coisas bonitas. «Até um dia destes.»

Na minha cabeça, ensaiava o que ia dizer, ensaiava a naturalidade com que ia fazê-lo. E eis que ele aparece. Não enorme, não sério, não distante. Afável. Estende-me a mão, sorri com aquele sorriso e trata-me por tu. Acho que foi aí que ficámos amigos

Uns meses antes, então estudante de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tinha pedido um encontro com ele. Queria a sua colaboração para o tal trabalho, que era sobre ele e a sua incursão pelas artes plásticas. Não o conhecia, a não ser da televisão e dos jornais e das histórias que o meu pai contava. O meu pai era, e é, militante do PCP. Não sei se isso teve importância na apreciação do meu pedido, mas este foi atendido.

No dia e hora marcados, lá estava eu, na sede do PCP, na Soeiro Pereira Gomes. Encaminhada para uma das salas de reuniões do piso térreo, tremia. Também não sou de endeusamentos, mas estava prestes a conhecer um herói, um homem cuja luta e ação moldaram a história do século XX português. E uma miúda de 22 anos, por mais lata que tenha, não é de ferro. Imaginava-o enorme, sério, distante. Na minha cabeça, ensaiava o que ia dizer, ensaiava a naturalidade com que ia fazê-lo. E eis que ele aparece. Não enorme, não sério, não distante. Afável. Estende-me a mão, sorri com aquele sorriso e trata-me por tu. Acho que foi aí que ficámos amigos, apesar de só muito tempo depois «oficializarmos» a coisa, no último diálogo do livro de conversas que «escrevemos» juntos: «Não sou apenas amigo de camaradas do meu partido. Sou-o e sou capaz de sê-lo de pessoas que têm opiniões muito críticas em relação a conceções e posições do PCP e naturalmente às minhas. Tive ao longo da vida, como uma das maiores riquezas, muitos e muitos amigos, a acompanhar-me, a estimularem-me na luta e na vida. Continuo a tê-los. E também, na medida em que vou conhecendo e conhecendo melhor pessoas que não havia conhecido passo a estimá-las e vejo que posso ganhá-las como amigos e de vir a ser amigo delas. De ti, por exemplo.» «Obrigada, igualmente».

Da segunda vez que o Álvaro Cunhal telefonou para casa dos meus pais, fui eu que atendi. Tinha-lhe pedido uma entrevista para a Notícias Magazine, onde entretanto estava a estagiar, e que ele tinha recusado. Não queria dar entrevistas. Mas, «Catarina, estive a pensar na tua proposta e se em vez de uma entrevista, fizéssemos uma série de conversas? Se saírem bem, publicamos um livro.» Silêncio. Como aceitar? Como recusar? Meses de preparação. Dezenas de encontros semanais na sala E da Soeiro Pereira Gomes. Cerca de dezoito horas de conversas. E o livro saiu. Cinco Conversas com Álvaro Cunhal. Era abril de 1999.

Recorrendo ao prefácio que escrevi para a segunda edição, de setembro de 2013, percebo agora que o tempo é a noção mais relativa, sinto que foi há uma eternidade e no entanto ao lê-lo, volto lá e é como se tivesse sido há bocadinho e o Álvaro não tivesse morrido e eu não tivesse crescido e nós estivéssemos no balcão do bar da sede do PCP, ele a explicar-me divertido o que são peixinhos da horta. E esse é o maior privilégio. Poder sempre voltar lá.

Poder sempre ler estas conversas e ouvi-las, adivinhar o que dissemos a seguir, ouvir-nos as vozes, a dele e a minha, ora serenas, ora exaltadas, ora divertidas, mas sempre de boa fé. Reconhecer nestas conversas, agora, 14 anos depois, a imensa generosidade e paciência do Álvaro para as minhas perguntas provocadoras, para as minhas dúvidas cheias de certezas, para as minhas opiniões, tantas vezes pueris. Descobrir-lhes, nele, o gosto de ouvir, de discutir, de partilhar e até de aprender; em mim, a capacidade de pensar, o atrevimento de perguntar, a vontade de descobrir.

Falámos de tudo, de história, de política, de ideias, de pessoas, do mundo, de livros, de pintura, de comida, de amizade, de amor, de sexo, de ódio, de vingança, da vida. E ao longo das conversas, não só pelo que diz, mas também pelo que não diz e sobretudo pela forma como faz uma coisa e outra, Álvaro Cunhal dá-se a conhecer melhor.

Da primeira vez que entrei em sua casa, pespineta, pensei que o tinha apanhado. Os óleos na parede assinados A. Cunhal [o Álvaro não assinou nem deu título a nenhum dos seus desenhos a carvão ou pinturas a óleo]. «Afinal, assinaste alguns!». O riso glorioso dele: «não, são do meu pai, Avelino Cunhal.».

As conversas continuaram. Ainda guardo o desenho que me fez com o mapa para chegar a sua casa, nos Olivais, assim como três dos muitos «desenhos das reuniões» que tinha guardados e que me ofereceu, para responder à minha exuberante curiosidade sobre eles. Durante os cinco anos seguintes visitei-o muitas vezes. Ao contrário da imagem pública que dele se tem, era um homem muito atencioso e carinhoso. Fazia questão de abrir a porta do elevador, à entrada e à saída e, com a convivência, o aperto de mão foi substituído por dois beijinhos. De vez em quando um abraço, quando o intervalo de tempo o pedia.

Da primeira vez que entrei em sua casa, pespineta, pensei que o tinha apanhado. Os óleos na parede assinados A. Cunhal [o Álvaro não assinou nem deu título a nenhum dos seus desenhos a carvão ou pinturas a óleo]. «Afinal, assinaste alguns!». O riso glorioso dele: «não, são do meu pai, Avelino Cunhal.». Já não me lembro do que falávamos. Não costumo tomar notas das conversas que tenho com amigos. Da minha vida, do meu trabalho, ele perguntava-me sempre se andava a fazer coisas bonitas. Do que se passava no país. Dos livros que ele ainda estava a escrever e de que me ia contando partes. De ciência, era um apaixonado por todas as novas descobertas científicas. Mas também de filmes, de programas de televisão. Nunca só de política.

Até porque, como ele revelou, com graça, a certa altura no nosso livro: «O convívio, que eu aprecio, não é só com caras sérias. É uma sensaboria se as pessoas só sabem funcionar no sério. Trabalhei sempre muito, estudei muito, a atividade política teve sempre uma grande intensidade, mas não gostava que fosse só isso a vida. E, por isso, estar por exemplo a comer e a falar de política, levantar e falar de política, ir para casa para junto dos filhos falar de política, para a mulher falar de política, para a avó falar de política, para o tio falar de política – não, isso não gostava nem gosto. A par do trabalho político intenso, gosto de um convívio livre e descontraído sobre as coisas simples da vida, do valor das pequenas coisas.»

Era disso que falávamos, de grandes e pequenas coisas. E muitas vezes era nas pequenas coisa que se revelava. Lembro-me que depois de um presente de aniversário falhado, um livro, que aceitou, mas não tinha condições de ler porque os olhos já não permitiam, ofereci-lhe num Natal um pullover verde, que fez questão de trazer vestido no encontro seguinte.

A última vez que falámos foi uns meses antes da sua morte. Liguei a saber dele e quando podia apresentar-lhe o meu filho João, nascido há pouco tempo. Lamentou não estar em condições de nos receber. Perguntou por ele. Como era. Se se portava bem. Despedimo-nos. Senti que não voltaria a vê-lo. No dia 13 de junho de 2005 soube que não. Que não voltaria.

MEMÓRIA

Se Álvaro Cunhal fosse vivo, hoje almoçaria cozido à portuguesa com o seu amigo e camarada, o médico Ludgero Pinto Basto. Era isso que estava combinado. Quando fizessem cem anos, primeiro o Ludgero, quatro anos mais velho, depois o Álvaro, celebrariam juntos, à volta de um cozido. A morte, em 2005, com um mês de diferença, quebrou-lhes o compromisso.

https://www.noticiasmagazine.pt/2013/o-alvaro-cunhal-que-poucos-conhecem/historias/1635/


domingo, 2 de junho de 2019

Quando os grandes romances nasciam nos jornais


Catarina Pires

25 Maio 2019 — 06:21


"Não há nada mais poderoso do que uma boa história", disse Tyrion, o anão de A Guerra dos Tronos, no último episódio da série que há oito anos prende milhões de espectadores. Os jornais perceberam isso há dois séculos e foi assim que nasceram os folhetins e muitos dos grandes romances dos séculos XIX e XX. É o caso de O Mistério da Estrada de Sintra, de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, engendrado nas páginas do Diário de Notícias.

A ideia chegou-lhes numa noite de verão, no passeio público [atual Avenida da Liberdade, em Lisboa], em frente de duas chávenas de café. Os dois amigos, Eça de Queirós, então com 24 anos, e Ramalho Ortigão, de 33, estavam aborrecidos, "penetrados pela tristeza da grande cidade que cabeceava de sono".

Vai daí deliberaram reagir e "acordar tudo aquilo a berros, num romance tremendo, buzinado à Baixa das alturas do Diário de Notícias" [que à época se situava no Bairro Alto], contam eles no prefácio à terceira edição do folhetim em livro.

Um em Leiria (Eça), outro em Lisboa (Ramalho), munidos apenas da sua imaginação, de uma resma de papel, da sua alegria e da sua audácia, puseram mãos à obra e ter-se-ão divertido à brava naqueles dois meses em que enganaram o bom povo que lia o jornal e avidamente acompanhava as cartas ao "Sr. redator do Diário de Notícias", publicadas a partir de 24 de julho de 1870.

Estas, provenientes de diferentes protagonistas da aventura, todos anónimos, narravam misteriosos acontecimentos passados algures entre Sintra e a capital, que envolviam um oficial inglês morto com ópio, e iam formando um puzzle deslindado apenas a 27 de setembro, data em que os autores se deram a conhecer e revelaram a natureza ficcional do folhetim.

A trama, urdida para criar suspense dia após dia, obedecia à lógica folhetinesca, mas ao mesmo tempo subvertia-a na medida em que durante os dois meses em que foi publicada, só os autores e Eduardo Coelho, diretor do jornal e amigo de Ramalho Ortigão, saberiam que tudo aquilo existia apenas na imaginação dos dois escritores. Uma carta, assinada por Z. e antecedida de uma nota do próprio Diário de Notícias, é particularmente deliciosa, se lida a esta luz.

"Senhor redator do Diário de Notícias. - Lisboa, 30 de Julho de 1870. - Escrevo-lhe profundamente indignado. Principiei a ler, como quase toda a gente em Lisboa, as cartas publicadas na sua folha, em que o doutor anónimo conta o caso que essa redação intitulou O Mistério da Estrada de Sintra. Interessava-me essa narrativa e (...) ia-me parecendo ter diante de mim o ideal mais perfeito, o tipo mais acabado do roman-feuilleton, quando inesperadamente encontro no folhetim publicado hoje as iniciais do nome de um homem - A.M.C. - acrescentando-se que a pessoa designada por estas letras é estudante de Medicina e natural de Viseu! O acaso não podia reunir tudo isto. Havia, portanto, o intuito de fazer cobardemente uma insinuação infamíssima. Isto não é lícito a romancista nenhum.

"A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tédio. Saindo de casa pouco depois da leitura do seu periódico, procurei o meu amigo, para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr-me à sua disposição no caso de que precisasse de mim para pedir, quanto antes, à redação do Diário de Notícias a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam decerto recusar a semelhante agravo. Em casa do meu amigo acabo, porém, de saber, cheio de confusão e de surpresa, que ele desapareceu e que é ignorado o seu destino!"

Era ao povo e à burguesia - às massas - que os folhetins se dirigiam. Eram estas que os jornais queriam atrair, não só para ganharem leitores - e ganhavam - como para as influenciarem, educarem, entreterem, prenderem. Nelas estava o futuro dos jornais.

A.M.C., que na verdade era tão inventado como Z., andava nas bolandas que fariam dele personagem fulcral para o desfecho da história de amor, ciúme, adultério e morte que apaixonou (e fez crescer) os leitores do Diário de Notícias. Uma história sem vilões, apenas trágicos e humanos enganos, na qual, pelo meio, Eça e Ramalho - é também um mistério quem escreveu o quê - vão já espetando umasFarpas, quando dão voz ao estudante de Medicina, e até teorizando sobre a volatilidade feminina e as (evitáveis?) fatalidades da paixão, fazendo lembrar Flaubert e a sua Madame Bovary, também ela publicada primeiro em folhetim - na revista Revue de Paris, em 1856 -, quando a condessa de W faz a sua confissão.

Era ao povo e à burguesia - às massas - que os folhetins se dirigiam. Eram estas que os jornais queriam atrair, não só para ganharem leitores - e ganhavam - como para as influenciarem, educarem, entreterem, prenderem. Nelas estava o futuro dos jornais.

Assim, o rodapé da primeira página, designado de folhetim, onde iam parar os assuntos mundanos, as piadas, as receitas e os diz-que-diz, passou a ser ocupado por romances em série, os tais romans-feuilletons de que falava Z. na sua carta ao senhor redator do Diário de Notícias.

Honoré de Balzac foi um dos pioneiros do género, no jornal La Presse, em 1836, com A Solteirona, Alexandre Dumas fez render a sua pena com O Conde Monte CristoOsTrês Mosqueteiros, entre outros, mas o grande fenómeno aconteceu com Os Mistérios de Paris, de Eugène Sue, publicado no Journal des Débats entre junho de 1842 e outubro de 1843.

O escritor, filho do médico de Napoleão e frequentador dos salões da alta burguesia, desce ao bas fond parisiense e as histórias que resultam dessa incursão são de tal forma poderosas que não só atraem a atenção de milhares de leitores como o transformam também a ele, que de aspirante a dandy passa a ativista na defesa dos direitos do povo. O jornal ganhou leitores, a fórmula espalhou-se mundo fora - Inglaterra, Estados Unidos, Rússia, Brasil - e o folhetim conquistou um lugar de destaque na literatura mundial.

É certo que muita da produção literária impressa em páginas de jornal não ficou para a história, mas também tornou possível romances intemporais, como "Crime e Castigo".

Na senda de Os Mistérios de Paris, e ainda antes do disruptivo Mistério da Estrada de Sintra, Camilo Castelo Branco publicou, no diário portuense O NacionalOs Mistérios de Lisboa, em 1853, e muitas cidades e jornais do mundo tiveram os seus mistérios, atrás do sucesso de Eugène Sue.

É certo que muita da produção literária impressa em páginas de jornal não ficou para a história, mas o facto de permitir aos escritores uma renda regular, que lhes dava tempo e espaço para escrever, tornou possível romances intemporais, como Crime e Castigo, de Dostoievski, ouAnna Karénina, de Tolstoi; Ulisses, de James Joyce, ou os vários Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle; todos os romances de Charles Dickens ou A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe; A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells, ou As Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, entre muitos outros.

No século XX, ao contrário do que talvez se possa pensar, o aparecimento da rádio e depois da televisão não mataram os folhetins. Um Adeus às Armas, de Heming­way,Terna É a Noite, de Scott Fitzgerald, ou A Sangue Frio, de Truman Capote, foram impressos primeiro em jornais ou revistas. E, enfim, as tramas seriadas foram conquistadas pelos microfones radiofónicos e ecrãs de televisão. As novelas e séries, que continuam a prender-nos, não são mais do que descendentes dos velhos folhetins.



sábado, 8 de setembro de 2018

Catarina Pires - Um dia no Avante!

*  Catarina Pires
08 Setembro 2018 — 12:59


Um dia no Avante!: "Talvez o meu pai tenha razão e eu tenha ido bebé de colo"

Ontem, Jerónimo de Sousa declarou aberta a 42ª edição da Festa do Avante!, depois de agradecer, como de costume, aos construtores da festa, camaradas e amigos, que, com o seu trabalho militante e voluntário, a ergueram, para desfrute de todos nós, os visitantes. "Mais ninguém te faz festas com esta", lê-se numa t-shirt à venda no stand do Porto. E é bem capaz de ser verdade.


Chegar à Quinta da Atalaia, Amora, Seixal (temos sempre que acrescentar Amora, Seixal, porque há mais Amoras na terra), na primeira sexta-feira de setembro, com o sol a descer, é como voltar a casa. Não se explica muito bem. Entra-se ali e está-se em casa.
A caminho da festa, o meu pai garantia-me que fui ao Jamor, pequenina, ainda de colo, e que era só calor e pó e a minha mãe, pouco dada a festas e militâncias, não durou lá muito tempo comigo e o meu irmão, quase da mesma idade.
O meu pai foi a todas. Eu não sei. Talvez à Ajuda, também calor e pó, dessa tenho uma vaga lembrança. E depois só já crescida (já a festa tinha conquistado a Quinta da Atalaia há uns tempos), aos 24 anos, por causa de um livro que escrevi com o Álvaro Cunhal, aos 28, em trabalho, como jornalista, e desde então, sempre.
Este ano, falhei o discurso de abertura, ouvi-o ao longe, da porta da Quinta da Princesa, como ouvi ao longe o Avante Camarada, sem poder juntar a minha voz à deles, abraçada, à moda alentejana, a pessoas que não conheço, e a terra sem amos, a Internacional. Quando não falho, as lágrimas também não e são outra coisa que me custa explicar. Talvez seja da justeza dos ideais e da luta, da luta a sério, por eles. Talvez seja disso, a emoção.
Anteontem, pediram-me um texto sobre a festa e então eu, que ia só por voltar a casa, pela primeira vez, nos últimos 15 anos, percorri aqueles quilómetros todos, de uma ponta à outra, de olhos diferentes, a ver o que nunca tinha visto. E foi um espanto.
Talvez o meu pai tenha razão e eu tenha ido bebé de colo, porque há tanta gente com bebés de colo e em cadeirinhas, há miudagem que farta, em magote ou com os pais, pré-adolescentes e adolescentes, como os meus filhos, pós-adolescentes e malta da minha idade, malta da idade do meu pai (a geração de Abril) e mais velhos, bengalas. E estão todos em todo o lado. São muitos (quando levo amigos meus de direita à Festa do Avante!, a piada é sempre a mesma: "são muitos, medo"). Ninguém com pressa. Minto, quando começa a Carvalhesa a avisar que vai abrir o Palco 25 de Abril, aparece gente a correr de todas as artérias da festa. Os comunistas (e os outros todos, que não há só comunistas na festa) gostam de dançar. Sobretudo a Carvalhesa. De resto, ninguém com pressa.
É bonito isso na festa. É um lugar onde se está. E tanto se pode estar no palco 25 de Abril a ouvir um pedaço da nona sinfonia de Beethoven [Sinfonia n.° 9 Coral op. 125 (4.° andamento: Finale-Presto)], interpretado pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa e o Coro Sinfónico Lisboa Cantat, como no palco 1º de Maio a dançar com os cabo-verdianos Tubarões. Tanto pode estar-se a assistir a um combate de boxe como a ver 1936, O Ano da Morte de Ricardo Reis, pel'A Barraca, no Avanteatro. Tanto pode estar-se a jogar futebol como a ver a exposição do Pavilhão Central "Capitalismo - Génese, natureza, contradições". Tanto pode estar-se a ver o filme Luz Obscura, de Susana Sousa Dias, no CineAvante, como a beber copos, comer e conversar numa qualquer esplanada do mundo ou do país (da China a Leiria, da Madeira à Venezuela, de Beja ao Brasil, de Lisboa a Cuba, é escolher - podia continuar, mas acho que já se percebeu a ideia).
E ainda há os debates. Muito debatem os comunistas. Há debates em todo o lado e a toda a hora. E há a feira do disco e a do livro. Fui espreitar. Estive para comprar o Casei com um Comunista, do Philip Roth, mas resisti.
Quando acabei a volta, sozinha (é tão raro estar na festa sozinha) percebi finalmente porque volto lá sempre e me sinto em casa. É um lugar onde toda a gente trata toda a gente toda por igual (e por camarada), onde cantei com o Sérgio Godinho e o Jorge Palma, onde me desiludi com o Fausto, onde fiz as pazes com o Paulo de Carvalho, onde chorei com a Estrela da Tarde cantada pelo Carlos do Carmo e com a Desfolhada na voz de Simone de Oliveira e onde perdi a vergonha de saltar com os Xutos & Pontapés. É um lugar onde posso tudo o que quiser. É um lugar de liberdade.

https://www.dn.pt/pais/interior/um-dia-no-avante-talvez-o-meu-pai-tenha-razao-e-eu-tenha-ido-bebe-de-colo-9817976.html

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Catarina Pires - Quanto é que levas ?

* Catarina Pires

«Prostitutas das nove às cinco.» Era este o título de uma reportagem que ficou por escrever quando eu era pouco mais do que estagiária, já lá vão quase vinte anos. Uma manhã, fui para o Intendente. Almirante Reis acima, Almirante Reis abaixo, antes de ganhar coragem para falar com aquelas que me tinham levado ali.

A certa altura, um homem, velho, sujo, pequeno: «Quanto é que levas?» Eu, de repente, depois do espanto, a coragem: «Sou jornalista, podemos conversar?» Não pudemos. Ele fugiu a correr. Queria perguntar-lhe o que procurava, o que fazia com as mulheres a quem pagava por sexo, como as tratava, era de igual para igual?, quanto pagava?, que idades preferia?, usava preservativo?, era casado?, tinha filhas?, e, se sim, como encararia se, em vez de mim ou das mulheres a quem recorria para ter sexo a troco de dinheiro, fosse a filha dele ali, Almirante Reis acima, Almirante Reis abaixo. Fiquei sem respostas.

É sempre aquele homem que me vem à cabeça quando oiço falar na legalização da prostituição. «Quanto é que levas?»

Sou mulher. Sou feminista. Defendo a liberdade de cada um fazer o que quer da sua vida. Defendo que no meu corpo mando eu. Luto todos os dias pela igualdade de género. E sou contra a legalização da prostituição. Não aceito que, por ser mulher, um homem assuma que eu existo para lhe satisfazer as necessidades sexuais e me pergunte: «Quanto é que levas?»

O primeiro argumento apresentado pela Juventude Socialista para a legalização da prostituição é o de que esta deve ser encarada como uma questão de liberdade de escolha individual e do direito de as pessoas poderem dispor do seu próprio corpo como bem entenderem. Quase me convenciam. É um facto que algumas pessoas se prostituem por opção. E podem fazê-lo. A prostituição não é crime. A lei portuguesa não atenta, pois, contra essa liberdade.

No entanto, a esmagadora maioria das pessoas que se prostituem ou são prostituídas – esmagadora maioria essa feita sobretudo de mulheres – não o fazem por liberdade de escolha, mas sim por falta dela. É esta maioria que precisa de respostas. Não precisa que lhe perguntem: «Quanto é que levas?»

Por isso é que sou contra a legalização da prostituição. Melhor dizendo, sou contra a legalização do lenocínio, que é, na prática, a grande mudança que a legalização da prostituição trará. É feia a palavra lenocínio. E a sua prática é crime. De acordo com o artigo 169º do Código Penal, «quem, profissionalmente ou com intenção lucrativa, fomentar, favorecer ou facilitar o exercício por outra pessoa de prostituição é punido com pena de prisão de seis meses a cinco anos». Pena agravada caso o crime seja cometido «por meio de violência ou ameaça grave; através de ardil ou manobra fraudulenta; com abuso de autoridade resultante de uma relação familiar, de tutela ou curatela, ou de dependência hierárquica, económica ou de trabalho; ou aproveitando-se de incapacidade psíquica ou de situação de especial vulnerabilidade da vítima».

Legalizar a prostituição não protege as pessoas que se prostituem ou são prostituídas, antes converte chulos e proxenetas criminosos em respeitáveis empresários ou empresárias; não combate o tráfico de seres humanos (96 por cento do qual se destina à prostituição), antes lhe abre ainda mais as portas (e não me venham falar da Nova Zelândia, cujo modelo de legalização inspira a proposta da JS. É uma ilha isolada e com menos de cinco milhões de habitantes, não comparável a Portugal, ponto estratégico de confluência entre os continentes americano, africano e europeu); não resolve problemas de saúde pública nem promove a educação sexual, antes normaliza a ideia de sexo enquanto serviço (desde que paguem, podem servir-se), perpetuando as relações assimétricas de género e a violência contra as mulheres.

Se fosse hoje, aquela pergunta – quanto é que levas? – não teria ficado sem resposta.


Catarina Pires, jornalista e autora do livro Cinco Conversas com Álvaro Cunhal.

https://www.tsf.pt/delas/interior/amp/quanto-e-que-levas-prostitutas-das-nove-as-cinco-8944828.html