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sábado, 27 de setembro de 2025

Discurso na tomada de posse: Marcelo Caetano, 27/9/1968

* Marcelo Caetano,


O Senhor Presidente da República resolveu, no seu alto critério e segundo as normas constitucionais, designar-me para a presidência do Conselho de Ministros. Afastado há bastante anos da vida pública essa escolha surpreendeu-me. Tenho a consciência do que valho e do que posso e nunca poderia considerar-me à altura das gravíssimas responsabilidades deste momento histórico.

Em todo o mundo e em qualquer país são hoje bem pesadas as funções do governo. Mas que dizer quando se trata de suceder a um homem de génio que durante quarenta anos imprimiu à política portuguesa a marca inconfundível da sua poderosíssima personalidade, dotada de excepcional vigor do pensamento, traduzida por uma das mais eloquentes expressões da nossa língua e senhora de uma vontade inflexível e uma energia inquebrantável que ao serviço do interesse nacional não tinha descanso nem dava tréguas?
Compreende-se bem que, sem falsa modéstia, eu tenha hesitado em aceitar o esmagador encargo. Mas a lúcida serenidade do Chefe do Estado que a Providência proporcionou ao País nesta hora, venceu os meus escrúpulos. A vida tem de continuar. Os homens de génio aparecem esporadicamente, às vezes com intervalos de séculos, a ensinar rumos, a iluminar destinos, a adivinhar soluções, mas a normalidade das instituições assenta nos homens comuns. O País habituou-se durante largo período a ser conduzido por um homem de génio; de hoje para diante tem de adaptar-se ao governo de homens como os outros.
Alguém teria de arcar com as dificuldades dessa nova fase da vida constitucional. Desde que nas presentes circunstâncias quem de direito me chamou a assumir as duras responsabilidades do momento, entendi não poder fugir a elas. Pensei no povo português que, bem o tem demonstrado pela sua exemplar conduta cívica nesta ocasião, anseia antes de tudo por que se mantenha a independência nacional, a integridade do território, a ordem que permita o trabalho e facilite a aceleração do progresso material e moral. Pensei particularmente na necessidade de não descurar um só momento a defesa das províncias ultramarinas às quais me ligam tantos e tão afectuosos laços e cujas populações tenho presentes no coração.   Pensei nas Forças Armadas que vigiam em todo o vasto território português e nalgumas partes dele se batem lutando contra um inimigo insidioso, em legítima defesa da vida, da segurança, e do labor de quantos aí se acolhem à sombra da nossa bandeira. Pensei na juventude a quem as gerações mais velhas têm de ajudar a preparar-se para vencer as árduas dificuldade de um futuro cheio de interrogações...

Não me falta ânimo para enfrentar os ciclópicos trabalhos que antevejo. Mas seria estulta a pretensão de os levar a cabo sem o apoio do País. Entre as fórmulas lapidares em que o Doutor Salazar concretizou um pensamento cuja riqueza iguala a perene actualidade, encontra-se aquela frase tão divulgada e tão verdadeira, bem adequada a esta hora: «Todos não somo de mais para continuar Portugal».
Esse apoio terá muitas vezes de ser concedido sob a forma de crédito aberto ao governo, dando-lhe tempo para estudar problemas, examinar situações, escolher soluções. Outras vezes será solicitado através da informação tão completa e frequente quanto possível, procurando-se estabelecer comunicação desejável entre o governo e a Nação.
Neste momento não se estranhará que a minha preocupação imediata seja a de assegurar a normalidade da vida nacional, garantir a continuidade da administração pública e, se possível, a aceleração do seu ritmo, reduzir ao mínimo os factores de crise de modo a podermos vencer vitoriosamente as dificuldades da ocasião.
Temos de fazer face a tarefas inadiáveis. Enquanto as Forças Armadas sustentam o combate na Guiné, em Angola e em Moçambique e nas chancelarias e nas assembleias internacionais a diplomacia portuguesa faz frente a tantas incompreensões, não nos é lícito afrouxar a vigilância na retaguarda. Em tal situação de emergência há que continuar a pedir sacrifícios a todos, inclusivamente nalgumas liberdades que se desejaria ver restauradas.

Não quero ver os portugueses divididos entre si como inimigos e gostaria que se fosse generalizando um espírito de convivência em que a recíproca tolerância das ideias desfizesse ódios e malquerenças. Mas todos sabemos, pela dolorosa experiência alheia, que se essa tolerância se estender ao comunismo estaremos cavando a sepultura da liberdade dos indivíduos e da própria Nação. E que se vacilarmos perante certos ímpetos anárquicos, correremos o risco de nos vermos cercados de ruínas sobre as quais só um feroz despotismo poderá vir a reconstruir depois. Se queremos conservar a liberdade temos de saber defendê-la dos seus excessos, porventura os mais perigosos dos inimigos que a ameaçam.

 O desejo sinceríssimo de um regime em que caibam todos os portugueses de boa vontade não pode pois ser confundido com cepticismo ideológico ou tibieza na decisão. A ordem pública é condição essencial para que a vida das pessoas honestas possa decorrer com normalidade: a ordem pública será inexoravelmente mantida.

Disse há pouco da minha preocupação imediata em assegurar a continuidade. Essa continuidade será procurada não apenas na ordem administrativa, como no plano político. Mas continuar implica uma ideia de movimento, de sequência e de adaptação. A fidelidade à doutrina brilhantemente ensinada pelo Doutor Salazar não deve confundir-se com o apego obstinado a fórmulas ou soluções que ele algum dia haja adoptado.

O grande perigo para os discípulos é sempre o de se limitarem a repetir o Mestre, esquecendo-se que um pensamento tem de estar vivo para ser fecundo. A vida é sempre adaptação.

O próprio Doutor Salazar teve ensejo, durante o seu longo governo, de muitas vezes mudar de rumo, reformar o que ensaiara antes, corrigir o que a experiência revelara errado, rejuvenescer o que as circunstâncias mostravam envelhecido. Quem governa tem constantemente de avaliar, de optar e de decidir. A constância das grandes linhas da política portuguesa e das normas constitucionais do Estado não impedirá pois o governo de proceder, sempre que seja oportuno, às reformas necessárias.

Entro a exercer as árduas funções em que fui investido animado de uma grande fé. Fé na Providência de Deus sem cuja protecção são vãos os esforços dos homens. E fé no povo português que espero firmemente saberá corresponder ao apelo de quem, com absoluto desinteresse, apenas deseja servir a sua Pátria e fazer quanto possa para ajudar os seus concidadãos numa hora difícil a prosseguir no caminho penosamente trilhado da dignidade, da paz e da justiça social.

Temos de cerrar fileira, aquém e além-mar, para avançarmos juntos, com prudência, sim, mas seguramente. A divisão pode-nos ser fatal a todos. A dispersão enfraquecer-nos-á sem remédio. Saibamos ser dignos desta hora. O mundo tem os olhos postos em Portugal: a dignidade do Povo Português responderá a essa curiosidade ansiosa.


Infografia para Tv - Marcelo Caetano, Conversas em Família.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

DEPOIMENTO DE MARCELO À COMISSÃO DE INQUÉRITO DO PSD*

DEPOIMENTO DE MARCELO À COMISSÃO DE INQUÉRITO DO PSD*
SEXTA-FEIRA, 20 DE JANEIRO DE 2017
PUBLICADO POR ANTÓNIO SANTOS

O que as pessoas mais me perguntam é se sou mesmo como na televisão. Pode escrever aí que sim. Costumo dizer que o que nasce torto não se endireita. Bom, tenho esta memória de estar a brincar na quinta com os filhos da criadagem e vem de lá o papá apavorado, a levar-me dali ao colo, como se me resgatasse do cativeiro de canibais africanos, a dar-me um raspanete dos antigos, «Marcelo Nuno, não volte a enxovalhar a família, cada macaco no seu galho, percebeu?», a sacudir-me uma sujidade invisível da camisa, a explicar-me que o meu nome não é por acaso, a repetir-me «Marcelo Nuno, não volte a enxovalhar a família, cada macaco no seu galho, percebeu?». E não percebi. Mas percebi outra coisa mais importante: há mais do que um tipo de poder neste mundo.



Imaginam o que vale para um pobre diabo que nem a quarta classe tem, chegar o filho do Sr. Ministro, afilhado do Marcelo Caetano que manda na Nação e nos pretos e que agarra no telefone e é «Sr. General, arranque-me as unhas de fulano» ou «Sr. Comandante, mande beltrano para o Tarrafal» olhar para baixo, com cândida bondade, e perguntar assim: «como é que está a pneumonia, Sr. José?». Eu, a pedir-lhes a eles, a gente a que só se pedem mordomias e limpezas, a gentileza de nos deixar brincar com o filho? Bom, claro que isto nos confere um poder diferente, no meu entender maior, que a chibatada e a ameaça. Mas oiça, escreva isto: não é teatro. É genuíno. Sempre foi. Íamos jogar bridge ao Estoril com os filhos dos Ulrich e os irmãos Mello, com condes, baronesas, milionários, latifundiários e os criados que a eles baixavam a cabeça, subjugados, a mim respeitavam, sorriam. É isso que me dá prazer, sentir-me um anjo descido à terra, condescendente, misericordioso, tão simples, tão humilde e tão bom, apesar de tão poderoso que as pessoas nem acreditam.


Bom, uns anos mais tarde mandavam os desgraçados pequeninos, que entretanto se fizeram desgraçados crescidos, matar pretos em África e eu, que sendo filho de quem era nem precisava de me incomodar com uma palavrinha lá no Ministério, fazia questão de ir às despedidas, tristíssimas, sem jeito nenhum, dar um abraço aos desgraçados. E eles lá iam matar pretos mais consolados, cheios de orgulho nacional e brio civilizador por terem abraçado o filho do ministro, o afilhado do Presidente do Conselho. Isto ainda você não era vivo! Acha mesmo que é agora o Conselho de Jurisdição Nacional do PSD que me vai ensinar a ficar quietinho no meu galho? Escreva isto: não me basta o meu galho, eu quero a árvore inteira.

Bom, só com grande falta de visão é que o PSD pode achar que não sirvo os interesses do partido. Quem vota no PSD são os pobres diabos. Muitos nunca se sentaram numa cadeira de dentista, você sabe lá os hálitos, não ponha aí isso. Ninguém dá nada por eles, tratam-nos a pontapé em todo o lado. Sempre em filas, com um ar muito amarfanhado para receber o subsídio, a pensão, a senha para qualquer porcaria, até que chega a comitiva… e eles pasmam. Pasmam! Ficam a ver o cortejo, as bandeirolas, a GNR, os cavalinhos… o pobre sempre gostou de cortejos, há séculos! E de repente saímos do carro e eles, já prontos para se desfazerem em vénias ou receberem da GNR uma paulada na cabeça por estarem demasiado perto, mas não, é para lhes dar um abraço, uma palmadinha nas costas, brincar às brincadeiras deles nos cabeleireiros muito possidónios, às tabernas com copos mal lavados. É que eu venho cá abaixo, sabe? Nem sempre é fácil… com os pobres sempre a falar muito alto, a babar pus de pústulas infectadas, a cuspir esses na conjugação dos verbos, sem saúde, sem trabalho, sem casa, sem nada a não ser o nosso muito merecido afecto. Merecido afecto. Ponha isso aí. Porque eu sei o que vale para aquela gente poder dizer que ao menos um dia abraçou o Presidente, ou poder mostrar uma fotografia comigo. E o PSD também devia saber.


Bom, ainda no outro dia, estava um frio de rachar, fui alimentar pobres. Deviam ter visto: eu a querer levá-los para o abrigo, como se leva um gatinho para o gatil, preocupado com o frio dos bichanos, e eles, valha-nos Deus, nem isso percebem. É preciso chamá-los com um ensopado sofrível (disse que estava óptimo) para se virem aquecer um bocadinho ao pé das câmaras. O PSD tem que entender uma coisa, se as pessoas não vão ter dinheiro para se aquecerem no Inverno, convém aconselhá-las a se aquecerem bem: «vista muitas camadas de roupa e proteja-se do frio!», compreende a lógica? Ou então acabamos todos numa salgalhada como em 74. Bom, é este o meu condão, dom e vocação: dar abrigo aos sem-abrigo para que não sejam gente a querer casas. Dar os restos dos restaurantes que podiam ir para o lixo com igual prejuízo aos pobrezinhos, para nunca sejam trabalhadores a querer dignidade. O meu lema é: todos os sem abrigo merecem um abrigo, todos os pobres merecem uma sopa, todos os portugueses merecem um abracinho. Enxergam a diferença? Tratam as pessoas a pontapé e elas andam para aí aos gritos a exigir habitação, direitos, trabalho e o diabo a sete quando no fundo bastava serem um bocadinho simpáticos e andavam os Zés e as Marias todos contentes, com abrigos, restos e abraços.

E a prova de que tenho razão é que saí limpinho do Estado Novo. E agora vêm uns miúdos, dizer-me, a mim, que estou a fazer o jogo da esquerda? Porque, ao contrário deles, tenho dois dedos de testa e sei construir o momento? A mim, que era criança e descobri que não me chamava «menino» no dia em que me começaram a tratar por «sua excelência». A mim, que aos doze anos jogava ténis com oficiais franquistas no chalé do Estoril e aos catorze brincava com a pistola que o Hitler deu ao duque de Windsor, que deu aos Espírito Santo? A mim, que ao longo da minha vida política só vos dei benesses, cortes salariais, isenções fiscais, privatizações, revisões constitucionais? A mim, que durante anos andei praticamente sozinho a preparar a presidência, a fazer a propaganda que o possidónio de Massamá (coitado, nisso é como os pobres) nunca teve jeitinho nenhum para fazer?


O Passos nunca poderá compreender isto. Esta liderança trata com o povo como o papá tratava com os pretos: acha que dando-se-lhes a mão a beijar e eles querem lambuzar o braço todo. Confundem afectos com bolchevismo. Mas logo a seguir ao 25 de Abril e foram todos para o chilindró ou para o exílio, era eu que ia fazer visitinhas aos Espírito Santo na prisão, era eu que andava a arriscar o couro, a pedir aos amigos estrangeiros para darem um jeitinho lá no banco, de embaixada em embaixada a diligenciar pelo futuro deles. E agora chamam-me esquerdista… A mim, que trocava cartinhas com o chefe da Nação para ver como se havia de fazer com os comunistas? A mim, que sou presidente vitalício da Casa de Bragança porque a direita charmosa é toda monárquica, só o possidónio de Massamá é que não percebe isto. A mim, que faço mais pela direita sozinho que PSD e CDS juntos, ou acham que quando quiserem fazer a revisão constitucional é ao Santana Lopes que vão pedir ajuda? Deixem-me rir. A mim, que passo a vida no meio de gente a tresandar a chulé para no final do dia vos promulgar o descontozinho da TSU? A mim, eleito com 50% dos votos de 50% dos portugueses? A mim, que se gozavam com a Santa Madre Igreja era eu que vinha logo pedir censuras, cabeças e flagelações? A mim, que em 69 não traí o Américo, Deus o tenha, quando foi de pregar um susto aos estudantes? Não escreva esta parte. A mim, que passava férias explêndidas com o Salgado no Brasil e tratava por tu a alta finança até eles começarem a fazer asneiras vistosas? A mim, que depois de dez anos com o Cavaco moribundo e comatoso dei mais uma presidência ao partido?


Os senhores da Comissão de Inquérito perguntem lá ao Conselho de Jurisdição, à Comissão Política, a quem quiserem: não querem partir a espinha aos sindicatos? Então ajudem-me a sarar as feridas sociais de tanta greve e tanta manifestação. Não querem privatizar a Saúde? Então parem de fazer cara de mau e venham vender rifas comigo para ajudar os leprosos. Não querem baixar os salários? Então preparem-se para se sujarem, que os afectos trazem piolhos. Não escreva isso, escreva antes isto: esbanjem nos afectos e poupem nos salários.

Atentamente,
Marcelo Rebelo de Sousa
Militante n.28051928 do PPD-PSD


*Este texto é improvavelmente fictício

PUBLICADO POR ANTÓNIO SANTOS

HTTP://MANIFESTO74.BLOGSPOT.PT/2017/01/DEPOIMENTO-DE-MARCELO-COMISSAO-DE.HTML


quinta-feira, 1 de julho de 2010

Marcelo Caetano - discurso do sucessor de Salazar e a Revolução dos Cravos

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No dia 26 de Setembro de 1968, às 20:00, Américo Tomás anunciou a substituição de Salazar por Marcelo Caetano, num curto e tétrico discurso que aqui se reproduz.
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No dia seguinte, às 17:00, tomou posse o novo governo e começou a chamada «Primavera Marcelista».
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Das reacções que se seguiram, retenho um dossier especial da revista O Tempo e o Modo, publicado pouco depois, durante o quarto trimestre de 1968. Para além de um «Filme dos Acontecimentos» entre 7 de Setembro («Sua Excelência foi operado esta noite de um hematoma») e 6 de Outubro («O estado clínico do Presidente continua estacionário»), este nº 62-63 da revista contém depoimentos de várias pessoas que aceitaram responder à pergunta «Como encara o actual momento político?». [1] Talvez por ter sido uma delas, me recorde tão bem de como testámos as novas liberdades anunciadas, no habitual jogo de gato e rato com a censura, bem patente no último parágrafo do texto de Nuno Bragança:
«”Não me falta ânimo para enfrentar os ciclópicos trabalhos que antevejo”, disse o Prof. Marcello Caetano. Referir-se-ia ele ao gigantismo dos cíclopes ou à característica monocular dos mesmos? Creio que foi de António Sérgio a conhecida e terrível frase: “O drama de Portugal não está em que nele reine quem tiver um olho só, mas no facto de alguns arrancarem um dos olhos para poder reinar”
E reinou. Durante cinco anos e meio.

[1] Este dossier foi republicado em O Tempo e o Modo – Antologia, Fundação Calouste Gulbenkian / Centro Nacional de Cultura, Lisboa, 2003, pp. 613-648.
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Depoimentos de António Alçada Baptista, Eduardo Prado Coelho, Francisco Balsemão, Joana Lopes, Jorge Sampaio, Luís Moita, Manuel Roque, Nuno de Bragança e Raul Rego.
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http://caminhosdamemoria.wordpress.com/2008/09/26/ha-40-anos-o-inicio-do-marcelismo/
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MoteparaMotim | 7 de novembro de 2007
O Início da Guerra do Ultramar.

1º excerto do programa "Prós e Contras" dedicado à Guerra do Ultramar e transmitido a 15 de Outubro de 2007 na RTP1.
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Conversas em Família

Programa televisivo, estreado na RTP a 8 de Janeiro de 1969, da responsabilidade de Marcello Caetano. Numa altura em que o Estado Novo se encontrava já fragilizado, o então presidente do Conselho decidiu, 2.º o parecer de Ramiro Valadão, homem forte da RTP, comunicar com o povo via televisão, contando-lhe os factos do seu ponto de vista e, assim, desfazer boatos. Num dispositivo de conversa unívoca, sem intermediações, Caetano pretendia dar um ar de modernidade ao sistema político, enquanto doutrinava as pessoas. Num estilo que oscilava entre o professoral e o coloquial, Marcello explicava as opções políticas do regime e falava das "ciclópicas tarefas" que existiam pela frente. Na 16.ª e última emissão, a 28 de Março de 1974, surgiu num tom amargo como que a adivinhar o fim próximo, falando do triste episódio da sublevação militar das Caldas da Rainha e do mundo selvagem em que se vivia. Foi aqui usado pela primeira vez um teleponto na televisão portuguesa.



Como referenciar este artigo:
Conversas em Família. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-07-01].
Disponível na www: .
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bbbazaar | 21 de Janeiro de 2009
5º ano de Design de Comunicação, Faculdade de Belas Artes, Universidade de Lisboa
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realso | 6 de Março de 2007
Conversas em Família sobre a Revolta das Caldas da Rainha. Prof. Marcello Caetano.
Discurso do prof. Marcello Caetano em Março de 1974.
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realso | 25 de Julho de 2006
Discurso do prof. Marcello Caetano em Março de 1974.
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fjordep | 5 de Fevereiro de 2008
A censura e a pide no tempo de Salazar
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rm57071 | 25 de Abril de 2008
Alunos do 6º-A da Escola D.Afonso, IV Conde de Ourém
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realso | 6 de Março de 2007
Revolução de Abril de 1974, ruas de Lisboa.Cerco ao Quartel do Carmo.





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djmacris | 5 de Julho de 2007
25 de Abril
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CuernodeChivo1313 | 22 de Abril de 2008
Revolución de los claveles - Revolução dos Cravos - 25 de Abril de 1.974
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

SALAZAROFILIA / SALAZAROFOBIA - José Pacheco Pereira




29.12.08
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SALAZAROFILIA / SALAZAROFOBIA



Na semana do Natal, na secção de História de Portugal da livraria da FNAC do Colombo, havia 38 livros expostos. Desses 38, 12 tinham Salazar na capa, em desenho, em fotografia ou no título. Se somarmos a esses volumes outros livros que são sobre o período do Estado Novo e sobre as suas instituições simbólicas, como a Mocidade Portuguesa, quase 50 por cento dos livros sobre História de Portugal que competem no precioso espaço de uma banca natalícia são sobre os 48 anos de ditadura. E, na sua maioria, já não são sobre a oposição à ditadura, mas sobre a ditadura, o ditador Salazar (Marcelo Caetano também está representado, mas com menos sucesso) e as suas instituições. Uma parte destes livros, se bem que pequena, é puramente apologética e uma parte maior é nostálgica, mesmo quando crítica. Na secção dos DVD também Salazar está representado, na sua vera efígie a negro, numa série documental. Na realidade, como todos os editores sabem, Salazar vende bem e, em tempos de crise, venderá ainda melhor.

Nas gerações que conheceram o regime do Estado Novo, a salazarofobia é mais forte do que a salazarofilia, pelo menos nas classes "altas", até porque é esse o discurso politicamente correcto que legitima a vida pública depois do 25 de Abril e porque o turnover geracional faz com que, na sua maioria, esses grupos sociais sejam constituídos pelos ex-jovens dos anos 60, a geração menos atingida pela doutrinação salazarista e mais insubordinada ao sistema de valores que a alimentava. Os jovens dos anos 30 e 40, a lei da morte foi-lhes diminuindo o peso na vida pública e na opinião. Com eles foi a salazarofilia de regime, parente pobre e menos coreográfico dos regimes totalitários de Itália e Alemanha, que nunca ultrapassou os anos 30 e deixou, depois do fim da guerra, instituições moribundas e anacrónicas como a Legião Portuguesa ou a Mocidade Portuguesa. A salazarofilia dos anos 50 era já mais da guerra fria do que a da "guerra civil europeia" dos anos 30 e, por isso, mais compatível com a democracia e com a "livre Inglaterra". A guerra colonial resumiu e deu algum alento a todas as salazarofilias anteriores, mas os tempos já estavam a mudar e, mesmo que Salazar odiasse a modernidade, o mundo estava já mais moderno, mais solto, menos estável, mesmo por detrás da formidável barreira da censura.
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Por outro lado, fora das elites, tem crescido depois do 25 de Abril uma salazarofilia popular e não é só na figura emblemática do motorista de táxi que brada contra o mundo e que funciona, para quem não conhece o povo, como a vox populi. Esta salazarofilia é em grande parte uma reacção antipolítica, demagógica e justicialista relativamente a muitos aspectos da democracia política, aos partidos, aos "políticos", à corrupção existente e imaginada, à ineficácia e custo da democracia. Esta salazarofilia comunica à esquerda com o populismo anti-sistema, forte nos simpatizantes comunistas e na parte do PS que é popular e urbana e de "baixo". A comunicação social, pelo modo cínico como relata a política, sendo ela própria salazarofóbica, porque alinhada à esquerda, alimenta a salazarofilia popular com muita eficácia e não é só no 24 Horas, esse híbrido esquerda-direita que enche os olhos dos leitores de primeiras páginas nas bancas.



Um bom exemplo é este comentário deixado no Público sobre o que escrevi.
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Charlatão! Por Anónimo - Lisboa
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Ó cahralatãozinho: - então tem crescido uma salazarofilia depois do 25 de Abril? Não vês, ó charlatão, que é exactamente o contrário? Não vês que os charlatães, como tu, têm cultivado no povo uma salazaroFOBIA, charlatão? E agora o povo, já desenganado de vocês, aldrabões e charlatães, espoliado e na miséria, o que precisa mesmo é encontrar uma solução para as suas vidas? As vidas de cada um de nós estão muito difíceis e vocês, aldrabões e charlatães, têm também muita culpa nisso. CHARLATÃO! E publiquem este comentário, se forem gente honesta,... e tiverem valentia para isso.
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Nos mais novos, com uma presença forte nos blogues, o que aflige na salazarofilia intelectual que por lá emerge é o grande peso da ignorância tomada como sendo a ausência de complexos sobre o passado e antiesquerdismo. Na verdade, é mais ignorância do que ideologia, a que depois o estilo de boutade e de comparação absurda para épater le bourgeois dá circulação. Um dia se fará uma antologia das mais estapafúrdias comparações dos blogues e nelas a salazarofilia chique terá o seu papel.
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Relatório da Censura
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Mas a grande fonte da salazarofilia nunca pronuncia o nome de Salazar e nem sequer tem consciência de até que ponto vem dele e dos 48 anos do Estado Novo. Essa fonte é a desconfiança da política, a obsessão do consenso, o nojo pelos "partidos" enquanto "partes", a vontade de um mundo higiénico em que todos se entendem, todos são "construtivos", todos fogem da polémica, todos pretendem passar pelos pingos da chuva democrática, para não aparecerem molhados e menores junto da multidão que louva os que habitualmente nunca sujam as mãos em nada. Ser polémico em Portugal é um óbice sério a singrar na vida, como essa frase exclusora inventada no interior dos partidos traduz: "Ele não serve porque tem anticorpos." Na verdade, como no tempo de Salazar, o pano de fundo desta subserviência instituída em "consenso" é a escassez de bens, recursos e lugares e a enorme dificuldade em se ser independente em primeiro lugar do Estado omnipresente, e depois dos partidos, dos grupos e das coteries em segundo, terceiro, quarto e enésimo lugar. É por isso que ainda somos mais salazaristas do que democráticos, no fundo da nossa maneira de ser em público. É por isso que esta salazarofilia involuntária, mas real, atravessa a nossa vida pública de cima abaixo, da esquerda para a direita e vice-versa, enche a política, a comunicação social, o establishment literário e cultural.
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Precisávamos de mais liberdade, de muito mais crítica, de muito mais duro e persistente escrutínio, de muito mais rupturas, e estamos todos apaziguados com a nossa mediocridade. Salazar considerava que esse apaziguamento era o "viver habitualmente", na pobreza e no remediamento, com um chefe benevolente que nos protegia do mundo exterior e que dava uns "safanões a tempo" para nos proteger dos maus de dentro.
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Até por causa da crise, da crise real e da "crise" que é usada para esconder o real, precisávamos de um grande abanão, mas nem para isso parece haver forças endógenas. O país estagnou há muitos anos e agora afunda-se pouco a pouco, sem sequer haver muita preocupação com isso. Parece que só os pessimistas, esses tenebrosos seres que "não trabalham e só criticam", "não fazem nada de construtivo e só dizem mal", na boca do tandem Sócrates-Santos Silva, se mostram, pelos vistos exageradamente, preocupados.
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(Versão do Público de 27 de Dezemebo de 2008.)
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http://abrupto.blogspot.com/2008_12_01_abrupto_archive.html
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