Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Maria Bobone. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Maria Bobone. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Carlos Maria Bobone - Salazar, o prosador desconhecido



Salazar, o prosador desconhecido

arlos Maria Bobone

Texto

 Carlos Maria Bobone foi à procura do que há de literário nos "Discursos" recentemente reeditados. Encontrou referências que vão do Padre António Vieira a Alexandre Herculano.

11 mar. 2017, 15:526

Seria o único a resistir a tão encomiástico apodo da parte de António José Saraiva. “a mais perfeita e cativante prosa doutrinária que existe em língua portuguesa”, qualifica o Historiador. Salazar acima do estilo cuidado de Jerónimo Osório? Lido com maior prazer do que a sanha ideológica de José Agostinho de Macedo ou de Frei Fortunato de S. Boaventura? Estávamos em 1982, já Saraiva tinha deposto a casaca vermelha e adoptado a defesa do Salazarismo, pelo que o elogio poderia ser apenas o excesso de um entusiasmo político.

Só isso explica que, mesmo com a canonização do, já não sacerdote, mas autêntico Cardeal da crítica literária, a prosa de Salazar continue sem ser tida nem achada nos altares das letras. Estudos literários há poucos: um de Manuel Anselmo, outro de António Barahona e talvez mais um ou dois prefácios que tentem encabar uma leitura sistemática no ofício laudatório. E dado que, nos casos citados (não excluído António José Saraiva), junta-se à admiração literária um apreço pessoal e político, talvez o público tenha tomado as loas por juízos inquinados.

Das barricadas opostas, nem tugido nem mugido: nunca a obra de Salazar vem referida, seja para um louvor, seja para uma condenação, na sua perspectiva literária. É compreensível: para os Historiadores há tanto rincão fértil para estudar o Salazarismo que pegar nos seus aspectos literários pode parecer tão ridículo quanto, diante de um banquete, comer apenas o pão seco. Para os literatos, a tomada do monopólio literário pela poesia e pela ficção afasta a prosa doutrinária dos seus interesses. E para o resto dos nossos contemporâneos o hábito dos discursos políticos dessorados, tantas vezes lavrados por encomenda, sempre à procura do mais inofensivo lugar-comum, sempre apostados na formulação vaga que não ofenda eleitor nenhum, para quem está habituado a estes discursos quase burocráticos, a leitura de um discurso político é tão prazenteira quanto a leitura do diário da República.


A capa da reedição de “Discursos e Notas Políticas; 1928 a 1966; Oliveira Salazar” (Coimbra Editores)

Enquanto em França sempre foi ponto de honra um certo cuidado estilístico na forma de um governante se dirigir ao País, enquanto Léon Blum, De Gaulle ou Mitterrand engolfavam o papel dos discursos nas suas pretensões literárias, em Portugal o discurso saiu do âmbito da literatura para entrar no da publicidade. Daí que, se não quisermos aderir a teses conspiratórias contra o Estado Novo, possamos considerar normal que a obra de Salazar não tenha a atenção literária que merece.

Ora, a verdade é que houve, de facto, o cuidado literário nos Discursos, que justifica a atenção. Nem as suas são as palavras de um repentista que quadrasse melhor em anedotários do que em Histórias da Literatura, à Churchill, nem são as frases lacónicas de um burocrata em que por acaso se acharão certas feitiçarias involuntárias de bom estilo. É o próprio Salazar que lhes chama, no prefácio ao primeiro volume dos Discursos, “pedaços de prosa que foram ditos”, como que a mostrar que as suas intervenções são, antes de mais, para ser lidas – “pedaços de prosa”. Se a isto juntarmos o misterioso Ais, livro de poemas que terá publicado na sua mocidade, teremos confirmada, mesmo que exangue, uma veia literária em Salazar.

“Eram versos, mas não eram poesia”

Uma das mais cuidadas críticas literárias à sua obra parte, aliás, da sua curta vida de poeta. Na biografia de Salazar que escreveu, Franco Nogueira ressuscita por momentos o crítico literário que fora na mocidade e avalia os poemas que o jovem António, ainda seminarista, ia ensaiando. O veredicto é implacável: “candura literária, pobreza poética, monotonia de temas, indigência de imaginação, ingenuidade, romantismo imaturo”… Franco Nogueira assesta mesmo – “eram versos: mas não eram poesia”. Mesmo fora da poesia a sentença não é mais complacente: “estilo pessoal incaracterístico, que se procura sem se encontrar”, diz o Embaixador sobre uma palestra proferida num liceu. Ora, mesmo em tão larga gama de fraquezas é já possível encontrar certas características mais pertinazes que acompanharão (polidas, é claro) a vida do autor dos Discursos.

Tem, é certo, um gosto heroico e a mesma admiração dos Integralistas pela forma como os Românticos reanimaram os tesouros pré-modernos. Mas herda também a estrutura frásica de Herculano, as frases longas de complexos contornos gramaticais que já não eram e não mais voltaram a ser moda.

Do Romantismo não aproveita apenas os temas, o elogio da organicidade medieval, os episódios que Herculano fixou fundamentais da nossa História, os heróis e a exaltação de nobres sentimentos empenhados na construção da pátria. Tem, é certo, um gosto heroico e a mesma admiração dos Integralistas pela forma como os Românticos reanimaram os tesouros pré-modernos. Mas herda também a estrutura frásica de Herculano, as frases longas de complexos contornos gramaticais que já não eram e não mais voltaram a ser moda. “A desproporção das forças em presença – 7.000 portugueses para mais de 30.000 inimigos — , o fulminante da vitória, as pesadíssimas perdas infligidas aos Castelhanos, a fuga do rei de Castela, a maneira como foi conduzida a batalha sob o aspecto puramente militar por esse extraordinário generalíssimo, assombroso de misticismo religioso e de génio guerreiro, que se chamou D. Nun’Álvares Pereira, fazem de Aljubarrota o ponto central da longa guerra havida com Castela e a vitória mais representativa do esforço dos nossos avós pela independência de Portugal.”, diz no discurso “Aljubarrota festa da mocidade”.

Numa frase, longa, claro, descreve a dificuldade da batalha, explica que consequências exacerbaram o seu simbolismo, troca o sujeito para um Nun’Álvares rapidamente biografado e volta ao primeiro para explicar a importância da batalha. A oração verbal (“fazem de Aljubarrota…”) surge no fim para, mesmo com a quantidade de apostos ao sujeito, conseguir manter o suspense. Se já soubéssemos que o elo de ligação entre a ladainha bélica estava na importância que dão a Aljubarrota, podíamos dedicar-nos independentes a elencar tudo o que julgamos essencial para fazer desta a verdadeira batalha da independência.

É o estilo narrativo dos românticos, que Salazar mescla com asserções curtas mais habituais nos discursos: “Compenetrados do valor, da necessidade na vida de uma espiritualidade superior, sem agravo das convicções pessoais, da indiferença ou da incredulidade sinceras, temos respeitado a consciência dos crentes e consolidado a paz religiosa. Não discutimos Deus”. É o próprio Franco Nogueira que atesta a influência. Em Coimbra, “Continuava fiel aos clássicos portugueses, ao Padre Manuel Bernardes, a Alexandre Herculano”. E é nestas leituras, recolhidas por Franco Nogueira, que podemos encontrar mais uma pista para o seu estilo.

~
Salazar a discursar em 1938

O biógrafo chamou “candura literária” àquilo que no Estado Novo se tornou uma espécie de vanguarda. Depois da moda do romance científico, das ilusões positivas em que Eça ou Teixeira de Queirós traduziram o romance de Zola, a literatura como que ressacou das suas ingénuas pretensões objectivas. Deixou de ser cozinhada em godés, descreu do futuro mirífico das Histórias Naturais e, farta das maravilhas da Civilização, agarrou-se aos restos de um mundo perdido. Não é preciso lembrar A Cidade e as Serras, o encanto de José Régio com a religiosidade popular ou Pessoa com o “Menino de sua Mãe”.

Estilo de época

A ruralidade, o povo e a infância, coisas exóticas num mundo cada vez mais urbano e aburguesado (e, demasiado óbvio mas para precaver de espertinhos, interpretado por adultos). Esta franja literária, porém, complexifica aquilo que eram já os temas base do romantismo. É que se o Romantismo também toma o povo como pretexto, não o toma como forma. A volúpia erudita de um Garrett ou de um Camilo contrastam com a forma de vida popular. Aquilo que Pessoa ou Régio já não têm e querem – a simplicidade do povo ou da infância – manifesta-se também na forma. Daí as Quadras ao gosto popular, daí, em parte, o “lirismo simples de António Correia de Oliveira” que Salazar admirava. O paternalismo brando dos discursos, o tom baixo, o elogio das virtudes quotidianas, tudo isto é já não “candura literária” mas um estilo de época.

Claro que Salazar também quer fugir à loquela tribunícia da Primeira República, adaptar o tom dos discursos à serenidade que quer ver no país, contrastar a sua com a prosa histriónica dos jornais da época; mas a forma ultrapassa a política e tem algumas das preocupações fundamentais da literatura.

A singeleza quadra com a personalidade, a estrutura dos discursos quadra com o próprio veículo, para obedecer à tese de Truman Capote de que a literatura é encontrar o tom adequado àquilo que se quer dizer. Salazar, nitidamente, encontrou-o: embora doutrinários, os discursos não têm um único conector lógico (logo, então, por conseguinte…) nem um raciocínio completo. É obviamente mais difícil seguir um raciocínio ouvido do que lido, pelo que a simplicidade – que melhor se diria clareza, já que a gramática é erudita e o vocabulário bastante rico – também se manifesta aqui. Manifesta-se nos temas, nas descrições e na estrutura, para se manifestarem também na personalidade. A “candura literária” já não é, nem inteiramente cândida, nem inteiramente falsa. A simplicidade, mais do que um engano, é um objectivo. Tanto em Salazar, como nos escritores considerados do seu tempo.

Mesmo nos tempos de maior euforia revolucionária, mesmo na crispação dos tempos de guerra, Salazar é bastante lacónico nos seus termos. Nunca faz comparações, não usa metáforas, tem um estilo absolutamente descritivo: empenha-se em caracterizar com precisão o estado das finanças, com as palavras mais certas e mais sóbrias, sem tomar de uns assuntos imagens que se pudessem aproveitar noutros.

Ora, os escritores do seu tempo, diz-nos Franco Nogueira, também eram lidos por Salazar na sua juventude. Não apenas ou já referido Correia de Oliveira ou Malheiro Dias – a literatura francesa, de Comte, Le Play ou Maurras (os primeiros mais antigos mas muito em voga na época) também terá corrigido a “indigência de imaginação” do Presidente do Conselho. Não que Salazar tenha alargado o seu campo de referências a misturas surrealizantes ou alegorias rebuscadas; mas aquilo que poderia de facto ser uma insuficiência literária – a falta de colorido – tornou-se um ex-libris da sua pena.

Mesmo nos tempos de maior euforia revolucionária, mesmo na crispação dos tempos de guerra, Salazar é bastante lacónico nos seus termos. Nunca faz comparações, não usa metáforas, tem um estilo absolutamente descritivo: empenha-se em caracterizar com precisão o estado das finanças, com as palavras mais certas e mais sóbrias, sem tomar de uns assuntos imagens que se pudessem aproveitar noutros. Esta “indigência”, porém, marca com o mesmo opróbrio o estilo de outros grandes prosadores. A falta de comparações é já uma reacção da Arcádia ao Barroco; mas o que José Agostinho e Bocage compensavam com a escolha de vocabulário erudito, grande elasticidade de temas e uma verve apaixonada está vedado a Salazar.

Por feitio não é apaixonado, por ofício trata de temas circunscritos e já estabelecidos. Salazar, tanto nas ideias como no estilo, aproxima-se assim de Maurras; esburgada a agressividade do Mestre da Action Française, tem a sua clareza e a sua aposta em fórmulas vigorosas e a dinâmica da prosa dada pela variedade verbal. É, de facto, nas palavras de acção que o vocabulário de Salazar mais foge do comum, na dinâmica verbal que há mais frescura. A riqueza verbal, aliás, característica do estilo clássico que Maurras tanto exalçava, traz à prosa a limpidez que não a torna imediatamente identificável como literária.

n


Salazar com António Ferro

Como se fossem sermões

É por não abundarem as repetições consentidas, os jogos de palavras e as referências discretas a passagens anteriores que a prosa é limpa. Não tem aliterações, tem apenas uma variedade discreta que lhe dá grande parte da elegância. Não será fácil extrair exemplos de uma característica que é própria de conjunto, mas as frases “A fraqueza dos regimes liberais está essencialmente em que, por imposição da sua própria doutrina – porque também eles a têm – se vêem forçados em muitas circunstâncias a parecer que não a possuem. Sempre para se sustentar têm de se contradizer” são um eco daquilo que ensejávamos demonstrar. Para um só tema – a existência de doutrinas liberais – sete verbos diferentes em duas frases. A mostrar que Maurras não é mestre apenas nas ideias de Autoridade e Hierarquia e que só não o é na violência do humor.

Ora, a serenidade tão característica de Salazar poderia fazer desconfiar de uma tese apresentada por António José Saraiva no texto de que tirámos a primeira destas linhas. Diz Saraiva que Salazar, educado na escola do século de Pascal, na prosa seiscentista, era grande leitor e seguidor do Padre António Vieira. Pela sua formação eclesiástica, pelo tom brando tão ao género do Pão partido aos pequenitos, pelo uso constante do superlativo absoluto sintético de inspiração latina, seria normal associar Salazar a Manuel Bernardes, Frei Luís de Sousa e toda essa gama de frades prosadores – Manuel Anselmo fá-lo e Barahona também. Agora, ao Padre António Vieira? Ao grande exibicionista das possibilidades da língua, ao verdadeiro barroco estilístico, ajoujado de jogos de palavras e malabarismos gramaticais? É certo que Salazar não usa os atavios do Jesuíta, mas o olho arguto de António José Saraiva não se engana: o ditador deve-lhe alguma coisa na estrutura da prosa.

A coabitação de contrários – “Tão frágil que a brisa ameaçava tombá-lo, tão forte que uma revolução o não podia subverte” (a propósito de Carmona) – o manejar simultâneo de duas ideias diferentes, tantas vezes em confronto, é tão característico dos sermões de Vieira como dos Discursos de Salazar. Vieira terá, é certo, a imaginação e a fabulosa capacidade de, a partir de uma doutrina conhecida, encontrar formas originais e divertidas de a transmitir. Salazar não terá a mesma destreza, mas também não a procura. É tão sóbrio quanto o outro é alegre, tão contido quanto o outro é exuberante.

Não podemos, porém, dizer que à sua elegância modesta falta originalidade. Entre a abstracção labiríntica dos tratadistas morais e a chã narrativa dos Historiadores, entre o Leal Conselheiro e a História de Herculano, Salazar conseguiu ter um discurso que fala das virtudes com o exemplo do país e em que eleva o país à aspiração da virtude. E isso poucos, mesmo entre os grandes doutrinadores, poucos conseguiram, menos ainda com tamanho donaire. Se, como diz Saraiva, será “o melhor”, não sabemos. Mas é com certeza um grande prosador. Estranhamente, talvez entre todos, e nesta matéria, o mais ilustre desconhecido.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

https://observador.pt/especiais/salazar-o-prosador-desconhecido/


sábado, 3 de outubro de 2020

Cem anos de Hercule Poirot: a história e o legado do genial detetive



*  Carlos Maria Bobone
 
Picuinhas, guloso, sensível e vaidoso até ao limite. Ao mesmo tempo, anormalmente inteligente e perspicaz, Poirot, criação perfeita de Agatha Christie, é referência obrigatória da literatura policial.

04 out 2020, 18:06

A 6 de Agosto de 1975 o New York Times abria com um estranho obituário. Agatha Christie tinha acabado de publicar Curtain: Poirot’s last case e o famoso detetive, que se deixara morrer no desenlace do mistério, tem direito a um elogio fúnebre nas páginas do jornal.

Esta despedida dá ideia do lugar que o pequeno detetive ocupou no imaginário contemporâneo: nunca personagem alguma tivera direito a um obituário no New York Times e mais nenhuma voltou a ter. Poirot, o grande detetive, conquistou o seu lugar entre as pessoas de carne e osso graças a umas brilhantes células cinzentas e à resolução dos mais intrincados mistérios.

Poirot teve direito a uma biografia escrita por Anne Hart e a uma imensa quantidade de adaptações televisivas. Tudo porque se há detetive que encarna na perfeição as delícias da literatura policial, esse detetive é Hercule Poirot.

Agatha Christie, na sua Autobiografia, conta que Poirot — que apareceu pela primeira vez no livro The Mysterious Affair at Styles, publicado em outubro de 1920 .. é escrito na esteira da literatura policial mais clássica: um detetive excêntrico, apressado na resolução dos casos pela competição com um inspetor da polícia menos capaz mas com mais meios ao seu dispor, e ajudado por um ingénuo seguidor que, como um provedor do leitor, obriga constantemente o herói a explicar os seus raciocínios.




[alguns dos melhores momentos de David Suchet como “Poirot”, na série televisiva feita a partir das histórias de Agatha Christie:]


Nisto, não é Poirot muito diferente do mais clássico dos clássicos, o detetive Sherlock Holmes; Agatha Christie, no entanto, dota o seu próprio detetive de uma subtileza que o torna, em certa medida, o oposto de Sherlock Holmes. Holmes é, nas obras de Conan Doyle, um positivista; Chesterton, num dos seus ensaios sobre literatura policial, já denuncia os limites de Sherlock Holmes: na verdade, não precisamos que o cérebro com as capacidades dedutivas mais exercitadas de que há memória seja ainda um apóstolo da ciência e da pura lógica sensível; não só a personagem se torna, mais do que coerente, redundante, como o próprio método diminui os mistérios. Não há nada de lógico em relevar pormenores desconsiderados; a notícia do mais vulgar, daquilo que escapa aos outros, é na verdade mais próprio de um cérebro imaginativo do que de um cérebro dedutivo. Agatha Christie percebeu isto ao fazer do seu detetive um homem ao mesmo tempo picuinhas e guloso, hiper-sensível e vaidoso até ao limite.


O que está em questão na vaidade é precisamente o exacerbar daquilo que aparentemente tem pouca importância. O orgulho de Poirot no seu cérebro torna-se ao mesmo tempo ridículo e interessante porque é uma variação pouco óbvia da personalidade interessada pelo pormenor. Da mesma maneira que Miss Marple é até um pouco aborrecida e tacanha, como se concentrasse a atenção naquilo que já não interessa, Poirot é um esteta dedicado aos pequenos prazeres – com uma óbvia ligação com a ideia de importância dada aos pormenores – e um vaidoso, isto é, alguém que remói os seus feitos (como os indícios) por mais tempo do que à partida seria necessário.

A vida de Poirot tem uma coerência surpreendente para uma personagem de ficção a quem a autora nunca dedicou uma biografia de facto. Embora Christie diga que já nos primeiros livros o imaginava velho, característica que as longas décadas de mistérios obrigaram a matizar, a verdade é que é possível traçar uma biografia coerente de Poirot sem grandes contradições entre os livros. Um antigo inspetor da polícia belga, refugiado em Inglaterra depois da invasão alemã na primeira guerra mundial, Poirot instala-se primeiro em Styles, lugar do seu primeiro mistério, e vai ganhando fama e dinheiro com a resolução de novos crimes. Começa por trabalhar para o governo, mas é como detetive privado que ganha a folga financeira que lhe permite viver com o requinte que deseja.

Poirot disserta várias vezes sobre os tipos de crimes e sobre a psicologia dos criminosos, sobre os tipos de arma usados nos crimes premeditados e nos crimes passionais, sobre os meios tipicamente femininos ou masculinos, mas pouco tem a dizer sobre a moral.

Com o passar dos anos, a galeria de personagens vai-se tornando mais complexa: Hastings, Miss Lemon, todos vão cumprindo os seus papéis no mundo de Poirot; o processo, no entanto, é sempre parecido e é esse que torna os livros de Poirot uns dos mais interessantes no que toca ao enredo policial propriamente dito. Pode haver detetives mais complexos, como Perry Mason ou o espião George Smiley; mas não histórias policiais com um enredo tão bem montado quanto as de Poirot.

A grande força dos enredos de Christie-Poirot está na montagem de uma galeria de personagens cheia de segredos, muitas delas dispostas a sacrificar reputações para proteger aqueles que amam, muitas outras a viver segundas vidas incógnitas, de tal maneira que os segredos se intrometem no crime e dificultam a sua resolução. O processo passa, assim, pela resolução de um encadeado de mal-entendidos e mistérios paralelos que tornam a História mais do que a resolução de um momento. Aquele que é o grande defeito da literatura policial – o facto de ser uma literatura concentrada num momento, de tal modo que toda a história funciona apenas como uma ferramenta para alcançar uma resolução – é nas histórias de Poirot ultrapassado pelo complexo de tramas paralelas que obscurecem a visão do detetive.

Agatha Christie tem sempre a preocupação de, não apenas encontrar um criminoso plausível, mas de encontrar o único criminoso possível. Ora, esta preocupação retira alguma arbitrariedade ao jogo de enganos e compromete o leitor com a história. A necessidade de termos aquele criminoso e não outro faz com que a resolução não se torne uma escolha da autora, a que o leitor assiste passivo, mas sim uma espécie de consequência necessária da história, que o leitor pode por isso descobrir.


▲ Os mistérios de Poirot são prova da capacidade de Agatha Christie resistir à cristalização do seu modo de raciocinar e implicam uma montagem que é, só por si, um tratado de engenharia

À medida que a mestria de Agatha Christie se foi aprimorando os casos foram, do ponto de vista técnico, ganhando cada vez mais complexidade. Dos casos em que um jogador de Bridge é assassinado numa sala fechada, tornando suspeitos apenas os 3 jogadores vivos, ao caso em que a culpa do narrador é escondida até ao fim, Agatha Christie vai explorando a sua capacidade inventiva num jogo de possibilidades cada vez menores, em que as possibilidades de resolução se vão tornando cada vez mais apertadas.

Dos grandes detetives que a ficção nos trouxe, Poirot é provavelmente aquele em que o magnetismo do crime produz menos efeito ao longo da vida. É certo que Poirot admira a “inteligência” de alguns crimes; no entanto, a ideia de impunidade para aqueles capazes de perceber as estruturas dos grandes crimes, a tentação do outro lado, tudo isso parece em Poirot – pelo menos até à sua morte – algo distante. A estrutura moral de Poirot, um refugiado, a quem o despeito de se encontrar sem emprego antes de abrir a sua agência podia levar para lados mais negros, é por isso bastante curiosa. Poirot disserta várias vezes sobre os tipos de crimes e sobre a psicologia dos criminosos, sobre os tipos de arma usados nos crimes premeditados e nos crimes passionais, sobre os meios tipicamente femininos ou masculinos, mas pouco tem a dizer sobre a moral.

Mais do que os mistérios, porém, fica a personagem. Poirot é ainda hoje o protótipo do detetive, a suprema demonstração do poder da inteligência, capaz de ver ao mesmo tempo com o máximo pormenor e a maior largueza.

A ideia de justiça em Poirot é bastante sui generis. Poirot não é propriamente um detective amoral, no sentido em que, ao contrário de Holmes, por exemplo, sofre com os crimes, mas é sobretudo um detective à maneira iluminista, isto é, alguém que acredita que o bem está no esclarecimento. Mais do que o bem, Poirot quer a verdade, e é dessa verdade que virá o bem. Juntam-se os pares amorosos tornados suspeitos pelos segredos, reconciliam-se pais e filhos, numa ideia de que o segredo e a ocultação acabam por provocar o mal, de um modo que a clareza impede.

Há casos de Poirot verdadeiramente ontológicos, prodígios de inventividade da parte da criadora e provas excecionais de inteligência da parte do detetive. Os crimes do ABC, Roger Ackroyd, o Crime do Expresso do Oriente, Cartas na Mesa, todos estes mistérios são prova da capacidade de Agatha Christie resistir à cristalização do seu modo de raciocinar e implicam uma montagem que é, só por si, um tratado de engenharia.

Mais do que os mistérios, porém, fica a personagem. Poirot é ainda hoje o protótipo do detetive, a suprema demonstração do poder da inteligência, capaz de fazer de uma figura de palmo e meio, de bigode levantado e sotaque carregado, um grande Homem, capaz de ver ao mesmo tempo com o máximo pormenor e a maior largueza.

observador.pt/especiais/cem-anos-de-hercule-poirot-a-historia-e-o-legado-do-genial-detetive/