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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

(89) Representações de Álvaro Cunhal 03 - A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche

 

Setúbal  - Memorial comemorativo do centenário do nascimento de Álvaro Cunhal (2013), (Foto victor nogueira  IMG_1522)

Poetas da Imprensa Clandestina (Avante! e O Militante)

  • Contexto: Nos anos 50 e 60, circulavam no boletim A Voz das Camaradas e no jornal Avante! dezenas de poemas assinados sob pseudónimo ou anonimato por militantes e operários.

  • Temática: Muitos destes versos eram dedicados a "Duarte" ou "Arnaldo" (os nomes clandestinos de Cunhal) e focavam-se na sua libertação da prisão de Peniche, comparando a sua fuga a uma "brecha na noite" do fascismo.


Euma poética de resistência militante, escrita por anónimos, operários e comunistas na clandestinidade (ou durante a prisão), dedicada a Álvaro Cunhal  e à lendária fuga do Forte de Peniche a 3 de janeiro de 1960.

1. A Imprensa Clandestina e a Fuga de Peniche (Janeiro de 1960)

Nos dias imediatamente a seguir à evasão do Forte de Peniche, versos escritos à pressa por militantes anónimos circularam em edições clandestinas do Avante! e em panfletos distribuídos nas fábricas da Margem Sul e do Porto. Neles, o nome «Duarte» (com o qual Cunhal era conhecido na organização clandestina) surgia como metáfora da própria resistência:

  • Excerto de poema anónimo militante (circa 1960):

«Caiu a grade, quebrou-se o muro,

rasgou-se o vento na noite fria.

O Duarte volta ao nosso lado, 

traz a promessa de um novo dia.

 

Peniche ruiu na sua vaidade, 

a maré alta não guardou a prisão: 

quem tem o povo na sua voz 

nunca esteve preso na amplidão.»

2. O Boletim «A Voz das Camaradas» (Anos 50)

O boletim interno A Voz das Camaradas era redigido e distribuído clandestinamente por e para as mulheres da organização comunista (muitas delas companheiras de militantes presos ou operárias na clandestinidade). Durante os mais de dez anos em que Cunhal esteve preso (1949–1960), era frequente a publicação de poemas de solidariedade dirigidos aos dirigentes encarcerados:

  • Versos de uma militante operária (assinado como «Uma Camarada», anos 50):

«Na cela fria onde o tempo para, 

não vergam a fibra do teu pensar.

Escreves no escuro, Duarte irmão, 

aquilo que o povo há de cantar.

 

A tua ausência é presença viva 

na nossa jornada contra a dor, 

por cada grade que te prende a carne, 

cresce no peito o nosso amor.»

3. José Dias Coelho e os Artistas na Clandestinidade

José Dias Coelho (esculptor e militante clandestino assassinado pela PIDE em 1961) e a sua companheira Margarida Tengarrinha produziam ilustrações e textos para a imprensa clandestina. Na sequência da fuga de Peniche, multiplicaram-se as estrofes populares escritas para serem cantadas ou declamadas em reuniões clandestinas, celebrando o feito:

  • Quadras populares clandestinas (1960):

«Peniche já não é fortaleza,

uma porta que se abriu, o camarada 

 Duarte passou e a noite do fascismo tremeu.

 

Guardavam-no torres e marés,  

guardavam-no armas e sentinelas, 

mas a vontade de um povo livre 

consegue saltar todas as janelas.»

(Gemini) 

(88) Representações de Álvaro Cunhal 02 - Pablo Neruda - 'A làmpada marinha'


.Palmela - Mural  da JCP 'Não ao aborto clandestino' (Foto victor nogueira  IMG_8596)


 * Pablo Neruda

Portugal,
volta ao mar, a teus navios,
Portugal, volta ao homem, ao marinheiro,
à tua razão livre no vento,
de novo
à luz matutina
do cravo e a espuma.
Mostra-nos teu tesouro,
teus homens, tuas mulheres.
Não escondas mais teu rosto
de embarcação valente
posta nas avançadas do oceano.
Portugal, navegante,
descobridor de ilhas,
inventor de pimentas,
descobre o novo homem,
as ilhas assombradas,
descobre o arquipélago no tempo.
A súbita
aparição
do pão
sobre a mesa,
a aurora,
descobre-a,
descobridor de auroras.
 
Como é isto?
 
Como podes negar-te
ao céu da luz, tu, que mostraste
caminhos aos cegos?
 
Tu, doce e férreo e velho,
estreito e largo pai
do horizonte, como
podes trancar a porta
aos novos cachos
e ao vento com estrelas do Oriente?
 
Proa da Europa, busca
na corrente
as ondas ancestrais,
a marítima barba
de Camões.
Rompe
as teias de aranha
que cobrem teu fragrante arvoredo,
e então
a nós os filhos de teus filhos,
aqueles para os quais
descobriste a areia
até então obscura
da geografia deslumbrante,
mostra-nos que podes
atravessar de novo
o novo mar escuro
e descobrir o homem que nasceu
nas ilhas maiores da terra.
Navega, Portugal, a hora
chegou, levanta
tua estatura de proa
e entre as ilhas e os homens volta
a ser caminho.
Nesta idade conjuga
tua luz, volta a ser lâmpada:
 
aprenderás de novo a ser estrela.


(87) Representações de Álvaro Cunhal 01 - Eugénia Cunhal - 'Quando vieres'



Palmela Mual de homenagem a Álvaro Cunhal -(foto victor nogueira   em 2021 12 18 Canon 199_12)IMG_8593) 

Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.
Maria Eugénia Cunhal in "Silêncio de Vidro", Lisboa, 1962

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Mistificações em torno do 25 de Novembro

 
* Ana Sousa

 ·
Da responsabilidade do esquerdismo no 25 de Abril não se fala. Não se fala de um Otelo que abandonou os seus e foi para casa. Não se fala das mistificações de Vasco Lourenço a tentar retocar a sua imagem para a posteridade . Não se fala do ElP , do MDLP e de um Carlucci maestro e financiador da contra revolução a mando do Império . 

Os ditos historiadores que participaram nos acontecimentos fazem a história pelas lunetas da sua facção, como é o caso de um Rosas ou de um  Pacheco Pereira  , no Público , no seu mal disfarçado anti comunismo , diz-nos que por alturas do 25 de Novembro eram as forças esquerdistas que dominavam as ruas de Lisboa..Coitado, nenhum oftalmologista  o consegue curar

...Até descobriu um inexistente discurso secreto de Álvaro  Cunhal que  certamente lhe terá sido dado por Zita Seabra que o terá descoberto numa das suas peregrinações ao Santuário de Fátima .

Dos mais recentes não posso deixar de citar o livro da brilhante estúpida Varela que no seu militantismo trotsquista avant lá lettre ainda não percebeu o que é a relação de forças ou a correlação de forças. Valha-nos Deus e a Santíssima Trindade 


26 Novembro 2025 
https://www.facebook.com/ 

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Catarina Pires - O Álvaro Cunhal que poucos conhecem




HISTÓRIAS

O Álvaro Cunhal que poucos conhecem


por NOTÍCIAS MAGAZINE

12/11/2013


Texto de Catarina Pires

Não queria biografias, abominava endeusamentos, recusava o culto da personalidade. Sempre foi mal interpretada a sua vontade de manter privada a parte da vida que o era. Não o fazia para adensar mistérios, criar auras ou espalhar charme, mas por uma ética que lhe era intrínseca. Via-se como um homem simples, igual a todos os outros, cuja vida pessoal não deveria interessar a ninguém a não ser a si próprio e aos que lhe eram íntimos. Com estes não tinha reservas. Falava sobre tudo. Queria saber tudo.

Deve ser por isso que o meu Álvaro Cunhal é diferente daquele sobre quem por vezes leio em livros, grandes reportagens ou artigos de opinião. Deve ser por isso que a primeira vez que o reencontrei num escrito foi numa entrevista que a filha, Ana Cunhal, deu, em 2010, ao jornalista Nuno Tiago Pinto, na revista Sábado. Estava lá o Álvaro que conheci: afetuoso, atencioso, generoso, paciente, indulgente, com um enorme sentido de humor. O Álvaro que, aos 84 anos, encontrou espaço na sua vida para mais uma pessoa, uma miúda de 24 anos, com quem gostava de conversar, perceber que mundo era o dela, como o via e porque o via assim.

Álvaro Cunhal, que dedicou a vida a dar um novo sentido a esta frase, lutando para que todos tivessem circunstâncias que lhes permitissem ser aquilo que quisessem, contrariou-a. Escolheu o caminho mais difícil. O único possível. Nunca se arrependeu. E foi feliz.

É por esse Álvaro que escrevo este texto. Esse Álvaro que podia ter sido o que quisesse – e foi escritor, artista plástico, ensaísta, teórico, tradutor –, mas que aos 17 anos decidiu que o queria era juntar-se ao Partido Comunista Português e lutar por um projeto de sociedade que considerava ser o mais justo para o seu país. Por causa dessa luta sofreu prisões, torturas, a vida clandestina, longe daqueles a quem amava, a mãe, o pai, a irmã, a avó e mais tarde a filha. «O homem é ele próprio e as suas circunstâncias» dizia Ortega y Gasset. Álvaro Cunhal, que dedicou a vida a dar um novo sentido a esta frase, lutando para que todos tivessem circunstâncias que lhes permitissem ser aquilo que quisessem, contrariou-a. Escolheu o caminho mais difícil. O único possível. Nunca se arrependeu. E foi feliz.

Ainda consigo ouvir a voz incrédula da minha mãe, há 16 anos, com o auscultador do telefone a tremer-lhe na mão: «Catarina, é o Dr. Álvaro Cunhal. Quer falar contigo.» E depois a voz dele, bem humorada: «Sabes quem fala?». Era junho de 1997, creio, e a razão do telefonema era saber como estava e que nota tinha tido no trabalho que fiz sobre ele para a faculdade. Que o 17 podia ter sido melhor. Que continuasse a fazer coisas bonitas. «Até um dia destes.»

Na minha cabeça, ensaiava o que ia dizer, ensaiava a naturalidade com que ia fazê-lo. E eis que ele aparece. Não enorme, não sério, não distante. Afável. Estende-me a mão, sorri com aquele sorriso e trata-me por tu. Acho que foi aí que ficámos amigos

Uns meses antes, então estudante de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tinha pedido um encontro com ele. Queria a sua colaboração para o tal trabalho, que era sobre ele e a sua incursão pelas artes plásticas. Não o conhecia, a não ser da televisão e dos jornais e das histórias que o meu pai contava. O meu pai era, e é, militante do PCP. Não sei se isso teve importância na apreciação do meu pedido, mas este foi atendido.

No dia e hora marcados, lá estava eu, na sede do PCP, na Soeiro Pereira Gomes. Encaminhada para uma das salas de reuniões do piso térreo, tremia. Também não sou de endeusamentos, mas estava prestes a conhecer um herói, um homem cuja luta e ação moldaram a história do século XX português. E uma miúda de 22 anos, por mais lata que tenha, não é de ferro. Imaginava-o enorme, sério, distante. Na minha cabeça, ensaiava o que ia dizer, ensaiava a naturalidade com que ia fazê-lo. E eis que ele aparece. Não enorme, não sério, não distante. Afável. Estende-me a mão, sorri com aquele sorriso e trata-me por tu. Acho que foi aí que ficámos amigos, apesar de só muito tempo depois «oficializarmos» a coisa, no último diálogo do livro de conversas que «escrevemos» juntos: «Não sou apenas amigo de camaradas do meu partido. Sou-o e sou capaz de sê-lo de pessoas que têm opiniões muito críticas em relação a conceções e posições do PCP e naturalmente às minhas. Tive ao longo da vida, como uma das maiores riquezas, muitos e muitos amigos, a acompanhar-me, a estimularem-me na luta e na vida. Continuo a tê-los. E também, na medida em que vou conhecendo e conhecendo melhor pessoas que não havia conhecido passo a estimá-las e vejo que posso ganhá-las como amigos e de vir a ser amigo delas. De ti, por exemplo.» «Obrigada, igualmente».

Da segunda vez que o Álvaro Cunhal telefonou para casa dos meus pais, fui eu que atendi. Tinha-lhe pedido uma entrevista para a Notícias Magazine, onde entretanto estava a estagiar, e que ele tinha recusado. Não queria dar entrevistas. Mas, «Catarina, estive a pensar na tua proposta e se em vez de uma entrevista, fizéssemos uma série de conversas? Se saírem bem, publicamos um livro.» Silêncio. Como aceitar? Como recusar? Meses de preparação. Dezenas de encontros semanais na sala E da Soeiro Pereira Gomes. Cerca de dezoito horas de conversas. E o livro saiu. Cinco Conversas com Álvaro Cunhal. Era abril de 1999.

Recorrendo ao prefácio que escrevi para a segunda edição, de setembro de 2013, percebo agora que o tempo é a noção mais relativa, sinto que foi há uma eternidade e no entanto ao lê-lo, volto lá e é como se tivesse sido há bocadinho e o Álvaro não tivesse morrido e eu não tivesse crescido e nós estivéssemos no balcão do bar da sede do PCP, ele a explicar-me divertido o que são peixinhos da horta. E esse é o maior privilégio. Poder sempre voltar lá.

Poder sempre ler estas conversas e ouvi-las, adivinhar o que dissemos a seguir, ouvir-nos as vozes, a dele e a minha, ora serenas, ora exaltadas, ora divertidas, mas sempre de boa fé. Reconhecer nestas conversas, agora, 14 anos depois, a imensa generosidade e paciência do Álvaro para as minhas perguntas provocadoras, para as minhas dúvidas cheias de certezas, para as minhas opiniões, tantas vezes pueris. Descobrir-lhes, nele, o gosto de ouvir, de discutir, de partilhar e até de aprender; em mim, a capacidade de pensar, o atrevimento de perguntar, a vontade de descobrir.

Falámos de tudo, de história, de política, de ideias, de pessoas, do mundo, de livros, de pintura, de comida, de amizade, de amor, de sexo, de ódio, de vingança, da vida. E ao longo das conversas, não só pelo que diz, mas também pelo que não diz e sobretudo pela forma como faz uma coisa e outra, Álvaro Cunhal dá-se a conhecer melhor.

Da primeira vez que entrei em sua casa, pespineta, pensei que o tinha apanhado. Os óleos na parede assinados A. Cunhal [o Álvaro não assinou nem deu título a nenhum dos seus desenhos a carvão ou pinturas a óleo]. «Afinal, assinaste alguns!». O riso glorioso dele: «não, são do meu pai, Avelino Cunhal.».

As conversas continuaram. Ainda guardo o desenho que me fez com o mapa para chegar a sua casa, nos Olivais, assim como três dos muitos «desenhos das reuniões» que tinha guardados e que me ofereceu, para responder à minha exuberante curiosidade sobre eles. Durante os cinco anos seguintes visitei-o muitas vezes. Ao contrário da imagem pública que dele se tem, era um homem muito atencioso e carinhoso. Fazia questão de abrir a porta do elevador, à entrada e à saída e, com a convivência, o aperto de mão foi substituído por dois beijinhos. De vez em quando um abraço, quando o intervalo de tempo o pedia.

Da primeira vez que entrei em sua casa, pespineta, pensei que o tinha apanhado. Os óleos na parede assinados A. Cunhal [o Álvaro não assinou nem deu título a nenhum dos seus desenhos a carvão ou pinturas a óleo]. «Afinal, assinaste alguns!». O riso glorioso dele: «não, são do meu pai, Avelino Cunhal.». Já não me lembro do que falávamos. Não costumo tomar notas das conversas que tenho com amigos. Da minha vida, do meu trabalho, ele perguntava-me sempre se andava a fazer coisas bonitas. Do que se passava no país. Dos livros que ele ainda estava a escrever e de que me ia contando partes. De ciência, era um apaixonado por todas as novas descobertas científicas. Mas também de filmes, de programas de televisão. Nunca só de política.

Até porque, como ele revelou, com graça, a certa altura no nosso livro: «O convívio, que eu aprecio, não é só com caras sérias. É uma sensaboria se as pessoas só sabem funcionar no sério. Trabalhei sempre muito, estudei muito, a atividade política teve sempre uma grande intensidade, mas não gostava que fosse só isso a vida. E, por isso, estar por exemplo a comer e a falar de política, levantar e falar de política, ir para casa para junto dos filhos falar de política, para a mulher falar de política, para a avó falar de política, para o tio falar de política – não, isso não gostava nem gosto. A par do trabalho político intenso, gosto de um convívio livre e descontraído sobre as coisas simples da vida, do valor das pequenas coisas.»

Era disso que falávamos, de grandes e pequenas coisas. E muitas vezes era nas pequenas coisa que se revelava. Lembro-me que depois de um presente de aniversário falhado, um livro, que aceitou, mas não tinha condições de ler porque os olhos já não permitiam, ofereci-lhe num Natal um pullover verde, que fez questão de trazer vestido no encontro seguinte.

A última vez que falámos foi uns meses antes da sua morte. Liguei a saber dele e quando podia apresentar-lhe o meu filho João, nascido há pouco tempo. Lamentou não estar em condições de nos receber. Perguntou por ele. Como era. Se se portava bem. Despedimo-nos. Senti que não voltaria a vê-lo. No dia 13 de junho de 2005 soube que não. Que não voltaria.

MEMÓRIA

Se Álvaro Cunhal fosse vivo, hoje almoçaria cozido à portuguesa com o seu amigo e camarada, o médico Ludgero Pinto Basto. Era isso que estava combinado. Quando fizessem cem anos, primeiro o Ludgero, quatro anos mais velho, depois o Álvaro, celebrariam juntos, à volta de um cozido. A morte, em 2005, com um mês de diferença, quebrou-lhes o compromisso.

https://www.noticiasmagazine.pt/2013/o-alvaro-cunhal-que-poucos-conhecem/historias/1635/


sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Poesia de Manuel Gusmão

* Manuel Gusmão



 aprende a falar – diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. Então falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue, de assombro em
assombro.
CANÇÃO PORQUE (NÃO) MORRES
Este é o último livro, prometia
como alguém que tivesse esquecido
que assim sempre tinha sido – aquele
era o último e depois que alguém viesse
fechar a porta contra o som do mar.
– Pagava por jogar no escuro
e por aqueles ardis já gastos
com que pensava e não pensava
enganar a morte branca e vermelha.
– Ah e não esqueças: – deitar fora a chave
Canção como não morres
se é a morte que em ti sobe até à fonte
do sangue, até à flor do sal queimando
os dedos; até à boca que por te cantar
se acende negra; até à copa
das árvores que distribuem o sol
sobre o corpo morto do amor
amante e desamado?
Ou antes: de que morres, por que morres
tu, canção já sem voz, já
sem o canto,
– já sem outro assunto
de momento, me despeço de todos vós-
quem falou agora? – Que importa quem falou?
– Que importa? Nada e nonada. E, sim, tudo
é tudo o que importa, para quem veio
mandado a que chamasses quem
tivesse chamado.
Canção, o teu sopro é quente
e têm sede os teus ventos, esses animais
do ar que por mil tubos sopram no corpo-músico
a verdade que calcinou os amantes que já o veneno
beijara até à flor do sangue.
depois, as palavras em que te perderas serão
cinzas sobre o mar e espuma suja
entre as rochas. Que atraso ou afecto
te prende ainda a esta margem
Por quem esperas tu
canção ainda
agora
que já por todo o céu
a terra nos esqueceu
Morresses, agora, canção
enquanto corres ainda pelo sangue
de quem escuta – e
morrerias no fulgor último
que ao fundo, no horizonte
da linguagem,
da própria linguagem
se afasta já, e abandonando vai
os seus bairros periféricos, despedindo-se
da tristeza dos migrantes derradeiros;
queimando página a
página
os últimos barcos.
ELOGIO DA TERCEIRA COISA
Entre mim e ti há a terceira coisa
aquela que nos põe ao alcance da mão
os nomes todos das coisas e as coisas sem nome
quando a multidão sagrada dos pronomes pessoais nos
permite dizer nos contra o tempo e o vento
Nós que aos cinco sentidos acrescentamos os outros
Nós a sensibilidade que imagina o comum
quando uma multidão deixa de ser
um rebanho de escravos para começar a ser
uma assembleia de humanos livres
de pé no chão da terra discutimos o que fazer
pelas mãos em concha bebíamos a água
onde a luz do sol cintila irisando-a
nós que para além de ti e de mim somos
a terceira coisa o fantasma o espectro
que lhes continua a assolar o mundo
a terceira coisa : a promessa sem garantias
a invenção do incomum que partilha o comum
o comunismo que vem connosco
e para além de nos recomeça.
Manuel Gusmão in Três Poemas em Memória de Álvaro Cunhal

terça-feira, 15 de agosto de 2023

DN - Entrevista a João Soares, por Pedro Cruz

 

João Soares: "Sócrates fez uma asneira porque quem foi líder de um partido, não se demite dele"

Artigo originalmente publicado a 14 de abril de 2023. O DN, durante o mês de agosto, republica algumas entrevistas marcantes e mais lidas desde o verão de 2022..

João Pedro Henriques e Pedro Cruz

15 Agosto 2023 

Filho do principal fundador do PS, João Soares, ex-deputado, ex-presidente da Câmara de Lisboa e ex-ministro de Costa, diz que todos os ex-líderes devem ser convidados para a festa dos 50 anos, inclusivamente Sócrates, apesar da "asneira" de ter deixado o partido.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973? Mário Soares e a mulher Maria Barroso estavam na Alemanha, na reunião da fundação do Partido Socialista. Maria Barroso é, aliás, a única mulher presente na fotografia que se tornou icónica e que marca o nascimento do partido. E os filhos, Isabel e João? João Soares tinha 23 anos. Hoje, com 73 anos, afastado da política depois de ter sido deputado, presidente da câmara de Lisboa e (muito esporadicamente) ministro (da Cultura), João Soares dá nesta entrevista DN/TSF a sua visão do que foi a fundação do PS.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973?

Eu e a minha irmã estávamos em Paris, curiosamente, mas estávamos evidentemente a par do que se ia passar na Alemanha. E até recebemos indicações para, no final dos trabalhos, mandar um telegrama para o Porto, para os irmãos Cal Brandão ou para o António Macedo, com um texto perfeitamente anódino e pré combinado que sinalizaria que as coisas tinham corrido bem e que o desfecho tinha sido aquele que todos eles esperávamos.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

As gorduras que temos de eliminar

 

  • Rui Mota 


Perante a realidade, como transformá-la? E de que lado queremos estar?
As gorduras que temos de eliminar
SUSANA MATOS

A menos de uma semana de comemorarmos o aniversário do 25 de Abril, olhamos para dois livros de Álvaro Cunhal dedicados aos leitores mais novos, publicados nos últimos meses. Um desses livros é Os Barrigas e os Magriços e traz-nos a história de um país de há muitos anos atrás. Um país onde havia uns homens conhecidos como os Barrigas — que comiam tanto, tanto que «o corpo dos Barrigas lá por dentro devia ser todo estômago»; e outros conhecidos como os Magriços — que à falta de trabalho ficavam «tão magrinhos, só pele e osso, magrinhos como carapaus secos».

Era um país injusto, onde uns trabalhavam para outros enriquecerem, onde faltava a liberdade e se enchiam as prisões. Mas aconteceu numa Primavera os Magriços juntarem-se aos soldados para dizerem «ao mais barrigudo dos Barrigas» que «Isto não pode continuar assim». E sem medo avançaram para as terras e para as fábricas, desenvolveram o País, distribuíram a riqueza por todos e tornaram-se assim senhores do seu próprio destino. Como nos diz no texto, «quando se fala no 25 de Abril, é dessa revolta dos Magriços e do que foram capaz de realizar que se fala».

Ao longo do texto, Álvaro Cunhal vai interpelando os leitores, colocando importantes questões. Questões que são para todos os tempos, e para leitores de todas as idades: «Se algum de vocês fosse um Magriço, o que fazia?» «Se tivesses vivido nessa época, com quem estarias tu?» Ao celebrar Abril de olhos postos no futuro, são estas as questões a colocar: perante a realidade, como transformá-la? E de que lado queremos estar nessa transformação?

É exactamente sobre os lados em que estamos que nos fala a História de Um Gordo Chinês Que Estava de Barriga para o Ar, publicado no início deste mês. Este conto, escrito durante a Guerra Civil de Espanha para ser lido na Rádio Peninsular, retrata a descoberta de Manuel e Mariazinha, duas crianças travessas e rabinas de visita à China, que não conseguiam perceber por que razão Pung-Chung, um senhor chinês muito rico e gordo, dono de muitas terras, passava o tempo de barriga para o ar. Pung-Chung explicou-lhes que trabalhava, e muito, e que se as crianças achavam fácil que se pusessem de barriga para o ar para ver como cansa. Foi um pobre camponês que trabalhava nos nas terras de Pung-Chung que explicou às duas crianças o que realmente se passava.

Este conto confirma essa análise à sociedade burguesa presente no Manifesto do Partido Comunista: «os que nela trabalham não ganham, e os que nela ganham não trabalham».

Estes dois livros de Álvaro Cunhal, agora publicados com ilustrações originais de Susana Matos, vão ser apresentados neste sábado, às 18 horas, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, no final do colóquio «Literatura Neo-Realista para a Infância» que se realiza integrado na exposição «Miúdos, a vida às mãos cheias – A infância do Neo-Realismo português».

http://www.avante.pt/pt/2316/argumentos/149578/As-gorduras-que-temos-de-eliminar.htm