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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Mistificações em torno do 25 de Novembro

 
* Ana Sousa

 ·
Da responsabilidade do esquerdismo no 25 de Abril não se fala. Não se fala de um Otelo que abandonou os seus e foi para casa. Não se fala das mistificações de Vasco Lourenço a tentar retocar a sua imagem para a posteridade . Não se fala do ElP , do MDLP e de um Carlucci maestro e financiador da contra revolução a mando do Império . 

Os ditos historiadores que participaram nos acontecimentos fazem a história pelas lunetas da sua facção, como é o caso de um Rosas ou de um  Pacheco Pereira  , no Público , no seu mal disfarçado anti comunismo , diz-nos que por alturas do 25 de Novembro eram as forças esquerdistas que dominavam as ruas de Lisboa..Coitado, nenhum oftalmologista  o consegue curar

...Até descobriu um inexistente discurso secreto de Álvaro  Cunhal que  certamente lhe terá sido dado por Zita Seabra que o terá descoberto numa das suas peregrinações ao Santuário de Fátima .

Dos mais recentes não posso deixar de citar o livro da brilhante estúpida Varela que no seu militantismo trotsquista avant lá lettre ainda não percebeu o que é a relação de forças ou a correlação de forças. Valha-nos Deus e a Santíssima Trindade 


26 Novembro 2025 
https://www.facebook.com/ 

sexta-feira, 14 de junho de 2024

Catarina Pires - O Álvaro Cunhal que poucos conhecem




HISTÓRIAS

O Álvaro Cunhal que poucos conhecem


por NOTÍCIAS MAGAZINE

12/11/2013


Texto de Catarina Pires

Não queria biografias, abominava endeusamentos, recusava o culto da personalidade. Sempre foi mal interpretada a sua vontade de manter privada a parte da vida que o era. Não o fazia para adensar mistérios, criar auras ou espalhar charme, mas por uma ética que lhe era intrínseca. Via-se como um homem simples, igual a todos os outros, cuja vida pessoal não deveria interessar a ninguém a não ser a si próprio e aos que lhe eram íntimos. Com estes não tinha reservas. Falava sobre tudo. Queria saber tudo.

Deve ser por isso que o meu Álvaro Cunhal é diferente daquele sobre quem por vezes leio em livros, grandes reportagens ou artigos de opinião. Deve ser por isso que a primeira vez que o reencontrei num escrito foi numa entrevista que a filha, Ana Cunhal, deu, em 2010, ao jornalista Nuno Tiago Pinto, na revista Sábado. Estava lá o Álvaro que conheci: afetuoso, atencioso, generoso, paciente, indulgente, com um enorme sentido de humor. O Álvaro que, aos 84 anos, encontrou espaço na sua vida para mais uma pessoa, uma miúda de 24 anos, com quem gostava de conversar, perceber que mundo era o dela, como o via e porque o via assim.

Álvaro Cunhal, que dedicou a vida a dar um novo sentido a esta frase, lutando para que todos tivessem circunstâncias que lhes permitissem ser aquilo que quisessem, contrariou-a. Escolheu o caminho mais difícil. O único possível. Nunca se arrependeu. E foi feliz.

É por esse Álvaro que escrevo este texto. Esse Álvaro que podia ter sido o que quisesse – e foi escritor, artista plástico, ensaísta, teórico, tradutor –, mas que aos 17 anos decidiu que o queria era juntar-se ao Partido Comunista Português e lutar por um projeto de sociedade que considerava ser o mais justo para o seu país. Por causa dessa luta sofreu prisões, torturas, a vida clandestina, longe daqueles a quem amava, a mãe, o pai, a irmã, a avó e mais tarde a filha. «O homem é ele próprio e as suas circunstâncias» dizia Ortega y Gasset. Álvaro Cunhal, que dedicou a vida a dar um novo sentido a esta frase, lutando para que todos tivessem circunstâncias que lhes permitissem ser aquilo que quisessem, contrariou-a. Escolheu o caminho mais difícil. O único possível. Nunca se arrependeu. E foi feliz.

Ainda consigo ouvir a voz incrédula da minha mãe, há 16 anos, com o auscultador do telefone a tremer-lhe na mão: «Catarina, é o Dr. Álvaro Cunhal. Quer falar contigo.» E depois a voz dele, bem humorada: «Sabes quem fala?». Era junho de 1997, creio, e a razão do telefonema era saber como estava e que nota tinha tido no trabalho que fiz sobre ele para a faculdade. Que o 17 podia ter sido melhor. Que continuasse a fazer coisas bonitas. «Até um dia destes.»

Na minha cabeça, ensaiava o que ia dizer, ensaiava a naturalidade com que ia fazê-lo. E eis que ele aparece. Não enorme, não sério, não distante. Afável. Estende-me a mão, sorri com aquele sorriso e trata-me por tu. Acho que foi aí que ficámos amigos

Uns meses antes, então estudante de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tinha pedido um encontro com ele. Queria a sua colaboração para o tal trabalho, que era sobre ele e a sua incursão pelas artes plásticas. Não o conhecia, a não ser da televisão e dos jornais e das histórias que o meu pai contava. O meu pai era, e é, militante do PCP. Não sei se isso teve importância na apreciação do meu pedido, mas este foi atendido.

No dia e hora marcados, lá estava eu, na sede do PCP, na Soeiro Pereira Gomes. Encaminhada para uma das salas de reuniões do piso térreo, tremia. Também não sou de endeusamentos, mas estava prestes a conhecer um herói, um homem cuja luta e ação moldaram a história do século XX português. E uma miúda de 22 anos, por mais lata que tenha, não é de ferro. Imaginava-o enorme, sério, distante. Na minha cabeça, ensaiava o que ia dizer, ensaiava a naturalidade com que ia fazê-lo. E eis que ele aparece. Não enorme, não sério, não distante. Afável. Estende-me a mão, sorri com aquele sorriso e trata-me por tu. Acho que foi aí que ficámos amigos, apesar de só muito tempo depois «oficializarmos» a coisa, no último diálogo do livro de conversas que «escrevemos» juntos: «Não sou apenas amigo de camaradas do meu partido. Sou-o e sou capaz de sê-lo de pessoas que têm opiniões muito críticas em relação a conceções e posições do PCP e naturalmente às minhas. Tive ao longo da vida, como uma das maiores riquezas, muitos e muitos amigos, a acompanhar-me, a estimularem-me na luta e na vida. Continuo a tê-los. E também, na medida em que vou conhecendo e conhecendo melhor pessoas que não havia conhecido passo a estimá-las e vejo que posso ganhá-las como amigos e de vir a ser amigo delas. De ti, por exemplo.» «Obrigada, igualmente».

Da segunda vez que o Álvaro Cunhal telefonou para casa dos meus pais, fui eu que atendi. Tinha-lhe pedido uma entrevista para a Notícias Magazine, onde entretanto estava a estagiar, e que ele tinha recusado. Não queria dar entrevistas. Mas, «Catarina, estive a pensar na tua proposta e se em vez de uma entrevista, fizéssemos uma série de conversas? Se saírem bem, publicamos um livro.» Silêncio. Como aceitar? Como recusar? Meses de preparação. Dezenas de encontros semanais na sala E da Soeiro Pereira Gomes. Cerca de dezoito horas de conversas. E o livro saiu. Cinco Conversas com Álvaro Cunhal. Era abril de 1999.

Recorrendo ao prefácio que escrevi para a segunda edição, de setembro de 2013, percebo agora que o tempo é a noção mais relativa, sinto que foi há uma eternidade e no entanto ao lê-lo, volto lá e é como se tivesse sido há bocadinho e o Álvaro não tivesse morrido e eu não tivesse crescido e nós estivéssemos no balcão do bar da sede do PCP, ele a explicar-me divertido o que são peixinhos da horta. E esse é o maior privilégio. Poder sempre voltar lá.

Poder sempre ler estas conversas e ouvi-las, adivinhar o que dissemos a seguir, ouvir-nos as vozes, a dele e a minha, ora serenas, ora exaltadas, ora divertidas, mas sempre de boa fé. Reconhecer nestas conversas, agora, 14 anos depois, a imensa generosidade e paciência do Álvaro para as minhas perguntas provocadoras, para as minhas dúvidas cheias de certezas, para as minhas opiniões, tantas vezes pueris. Descobrir-lhes, nele, o gosto de ouvir, de discutir, de partilhar e até de aprender; em mim, a capacidade de pensar, o atrevimento de perguntar, a vontade de descobrir.

Falámos de tudo, de história, de política, de ideias, de pessoas, do mundo, de livros, de pintura, de comida, de amizade, de amor, de sexo, de ódio, de vingança, da vida. E ao longo das conversas, não só pelo que diz, mas também pelo que não diz e sobretudo pela forma como faz uma coisa e outra, Álvaro Cunhal dá-se a conhecer melhor.

Da primeira vez que entrei em sua casa, pespineta, pensei que o tinha apanhado. Os óleos na parede assinados A. Cunhal [o Álvaro não assinou nem deu título a nenhum dos seus desenhos a carvão ou pinturas a óleo]. «Afinal, assinaste alguns!». O riso glorioso dele: «não, são do meu pai, Avelino Cunhal.».

As conversas continuaram. Ainda guardo o desenho que me fez com o mapa para chegar a sua casa, nos Olivais, assim como três dos muitos «desenhos das reuniões» que tinha guardados e que me ofereceu, para responder à minha exuberante curiosidade sobre eles. Durante os cinco anos seguintes visitei-o muitas vezes. Ao contrário da imagem pública que dele se tem, era um homem muito atencioso e carinhoso. Fazia questão de abrir a porta do elevador, à entrada e à saída e, com a convivência, o aperto de mão foi substituído por dois beijinhos. De vez em quando um abraço, quando o intervalo de tempo o pedia.

Da primeira vez que entrei em sua casa, pespineta, pensei que o tinha apanhado. Os óleos na parede assinados A. Cunhal [o Álvaro não assinou nem deu título a nenhum dos seus desenhos a carvão ou pinturas a óleo]. «Afinal, assinaste alguns!». O riso glorioso dele: «não, são do meu pai, Avelino Cunhal.». Já não me lembro do que falávamos. Não costumo tomar notas das conversas que tenho com amigos. Da minha vida, do meu trabalho, ele perguntava-me sempre se andava a fazer coisas bonitas. Do que se passava no país. Dos livros que ele ainda estava a escrever e de que me ia contando partes. De ciência, era um apaixonado por todas as novas descobertas científicas. Mas também de filmes, de programas de televisão. Nunca só de política.

Até porque, como ele revelou, com graça, a certa altura no nosso livro: «O convívio, que eu aprecio, não é só com caras sérias. É uma sensaboria se as pessoas só sabem funcionar no sério. Trabalhei sempre muito, estudei muito, a atividade política teve sempre uma grande intensidade, mas não gostava que fosse só isso a vida. E, por isso, estar por exemplo a comer e a falar de política, levantar e falar de política, ir para casa para junto dos filhos falar de política, para a mulher falar de política, para a avó falar de política, para o tio falar de política – não, isso não gostava nem gosto. A par do trabalho político intenso, gosto de um convívio livre e descontraído sobre as coisas simples da vida, do valor das pequenas coisas.»

Era disso que falávamos, de grandes e pequenas coisas. E muitas vezes era nas pequenas coisa que se revelava. Lembro-me que depois de um presente de aniversário falhado, um livro, que aceitou, mas não tinha condições de ler porque os olhos já não permitiam, ofereci-lhe num Natal um pullover verde, que fez questão de trazer vestido no encontro seguinte.

A última vez que falámos foi uns meses antes da sua morte. Liguei a saber dele e quando podia apresentar-lhe o meu filho João, nascido há pouco tempo. Lamentou não estar em condições de nos receber. Perguntou por ele. Como era. Se se portava bem. Despedimo-nos. Senti que não voltaria a vê-lo. No dia 13 de junho de 2005 soube que não. Que não voltaria.

MEMÓRIA

Se Álvaro Cunhal fosse vivo, hoje almoçaria cozido à portuguesa com o seu amigo e camarada, o médico Ludgero Pinto Basto. Era isso que estava combinado. Quando fizessem cem anos, primeiro o Ludgero, quatro anos mais velho, depois o Álvaro, celebrariam juntos, à volta de um cozido. A morte, em 2005, com um mês de diferença, quebrou-lhes o compromisso.

https://www.noticiasmagazine.pt/2013/o-alvaro-cunhal-que-poucos-conhecem/historias/1635/


sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Poesia de Manuel Gusmão

* Manuel Gusmão



 aprende a falar – diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. Então falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue, de assombro em
assombro.
CANÇÃO PORQUE (NÃO) MORRES
Este é o último livro, prometia
como alguém que tivesse esquecido
que assim sempre tinha sido – aquele
era o último e depois que alguém viesse
fechar a porta contra o som do mar.
– Pagava por jogar no escuro
e por aqueles ardis já gastos
com que pensava e não pensava
enganar a morte branca e vermelha.
– Ah e não esqueças: – deitar fora a chave
Canção como não morres
se é a morte que em ti sobe até à fonte
do sangue, até à flor do sal queimando
os dedos; até à boca que por te cantar
se acende negra; até à copa
das árvores que distribuem o sol
sobre o corpo morto do amor
amante e desamado?
Ou antes: de que morres, por que morres
tu, canção já sem voz, já
sem o canto,
– já sem outro assunto
de momento, me despeço de todos vós-
quem falou agora? – Que importa quem falou?
– Que importa? Nada e nonada. E, sim, tudo
é tudo o que importa, para quem veio
mandado a que chamasses quem
tivesse chamado.
Canção, o teu sopro é quente
e têm sede os teus ventos, esses animais
do ar que por mil tubos sopram no corpo-músico
a verdade que calcinou os amantes que já o veneno
beijara até à flor do sangue.
depois, as palavras em que te perderas serão
cinzas sobre o mar e espuma suja
entre as rochas. Que atraso ou afecto
te prende ainda a esta margem
Por quem esperas tu
canção ainda
agora
que já por todo o céu
a terra nos esqueceu
Morresses, agora, canção
enquanto corres ainda pelo sangue
de quem escuta – e
morrerias no fulgor último
que ao fundo, no horizonte
da linguagem,
da própria linguagem
se afasta já, e abandonando vai
os seus bairros periféricos, despedindo-se
da tristeza dos migrantes derradeiros;
queimando página a
página
os últimos barcos.
ELOGIO DA TERCEIRA COISA
Entre mim e ti há a terceira coisa
aquela que nos põe ao alcance da mão
os nomes todos das coisas e as coisas sem nome
quando a multidão sagrada dos pronomes pessoais nos
permite dizer nos contra o tempo e o vento
Nós que aos cinco sentidos acrescentamos os outros
Nós a sensibilidade que imagina o comum
quando uma multidão deixa de ser
um rebanho de escravos para começar a ser
uma assembleia de humanos livres
de pé no chão da terra discutimos o que fazer
pelas mãos em concha bebíamos a água
onde a luz do sol cintila irisando-a
nós que para além de ti e de mim somos
a terceira coisa o fantasma o espectro
que lhes continua a assolar o mundo
a terceira coisa : a promessa sem garantias
a invenção do incomum que partilha o comum
o comunismo que vem connosco
e para além de nos recomeça.
Manuel Gusmão in Três Poemas em Memória de Álvaro Cunhal

terça-feira, 15 de agosto de 2023

DN - Entrevista a João Soares, por Pedro Cruz

 

João Soares: "Sócrates fez uma asneira porque quem foi líder de um partido, não se demite dele"

Artigo originalmente publicado a 14 de abril de 2023. O DN, durante o mês de agosto, republica algumas entrevistas marcantes e mais lidas desde o verão de 2022..

João Pedro Henriques e Pedro Cruz

15 Agosto 2023 

Filho do principal fundador do PS, João Soares, ex-deputado, ex-presidente da Câmara de Lisboa e ex-ministro de Costa, diz que todos os ex-líderes devem ser convidados para a festa dos 50 anos, inclusivamente Sócrates, apesar da "asneira" de ter deixado o partido.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973? Mário Soares e a mulher Maria Barroso estavam na Alemanha, na reunião da fundação do Partido Socialista. Maria Barroso é, aliás, a única mulher presente na fotografia que se tornou icónica e que marca o nascimento do partido. E os filhos, Isabel e João? João Soares tinha 23 anos. Hoje, com 73 anos, afastado da política depois de ter sido deputado, presidente da câmara de Lisboa e (muito esporadicamente) ministro (da Cultura), João Soares dá nesta entrevista DN/TSF a sua visão do que foi a fundação do PS.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973?

Eu e a minha irmã estávamos em Paris, curiosamente, mas estávamos evidentemente a par do que se ia passar na Alemanha. E até recebemos indicações para, no final dos trabalhos, mandar um telegrama para o Porto, para os irmãos Cal Brandão ou para o António Macedo, com um texto perfeitamente anódino e pré combinado que sinalizaria que as coisas tinham corrido bem e que o desfecho tinha sido aquele que todos eles esperávamos.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

As gorduras que temos de eliminar

 

  • Rui Mota 


Perante a realidade, como transformá-la? E de que lado queremos estar?
As gorduras que temos de eliminar
SUSANA MATOS

A menos de uma semana de comemorarmos o aniversário do 25 de Abril, olhamos para dois livros de Álvaro Cunhal dedicados aos leitores mais novos, publicados nos últimos meses. Um desses livros é Os Barrigas e os Magriços e traz-nos a história de um país de há muitos anos atrás. Um país onde havia uns homens conhecidos como os Barrigas — que comiam tanto, tanto que «o corpo dos Barrigas lá por dentro devia ser todo estômago»; e outros conhecidos como os Magriços — que à falta de trabalho ficavam «tão magrinhos, só pele e osso, magrinhos como carapaus secos».

Era um país injusto, onde uns trabalhavam para outros enriquecerem, onde faltava a liberdade e se enchiam as prisões. Mas aconteceu numa Primavera os Magriços juntarem-se aos soldados para dizerem «ao mais barrigudo dos Barrigas» que «Isto não pode continuar assim». E sem medo avançaram para as terras e para as fábricas, desenvolveram o País, distribuíram a riqueza por todos e tornaram-se assim senhores do seu próprio destino. Como nos diz no texto, «quando se fala no 25 de Abril, é dessa revolta dos Magriços e do que foram capaz de realizar que se fala».

Ao longo do texto, Álvaro Cunhal vai interpelando os leitores, colocando importantes questões. Questões que são para todos os tempos, e para leitores de todas as idades: «Se algum de vocês fosse um Magriço, o que fazia?» «Se tivesses vivido nessa época, com quem estarias tu?» Ao celebrar Abril de olhos postos no futuro, são estas as questões a colocar: perante a realidade, como transformá-la? E de que lado queremos estar nessa transformação?

É exactamente sobre os lados em que estamos que nos fala a História de Um Gordo Chinês Que Estava de Barriga para o Ar, publicado no início deste mês. Este conto, escrito durante a Guerra Civil de Espanha para ser lido na Rádio Peninsular, retrata a descoberta de Manuel e Mariazinha, duas crianças travessas e rabinas de visita à China, que não conseguiam perceber por que razão Pung-Chung, um senhor chinês muito rico e gordo, dono de muitas terras, passava o tempo de barriga para o ar. Pung-Chung explicou-lhes que trabalhava, e muito, e que se as crianças achavam fácil que se pusessem de barriga para o ar para ver como cansa. Foi um pobre camponês que trabalhava nos nas terras de Pung-Chung que explicou às duas crianças o que realmente se passava.

Este conto confirma essa análise à sociedade burguesa presente no Manifesto do Partido Comunista: «os que nela trabalham não ganham, e os que nela ganham não trabalham».

Estes dois livros de Álvaro Cunhal, agora publicados com ilustrações originais de Susana Matos, vão ser apresentados neste sábado, às 18 horas, no Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, no final do colóquio «Literatura Neo-Realista para a Infância» que se realiza integrado na exposição «Miúdos, a vida às mãos cheias – A infância do Neo-Realismo português».

http://www.avante.pt/pt/2316/argumentos/149578/As-gorduras-que-temos-de-eliminar.htm

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Maria Eugénia Cunhal - Quando vieres -



* Maria Eugénia Cunhal

Quando vieres 
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.


Maria Eugénia Cunhal in "Silêncio de Vidro", Lisboa, 1962

Álvaro Cunhal, 14 anos mais velho que a irmã, estivera na prisão durante 11 anos e fugira 2 anos antes do Forte de Peniche, em 1960. Forçado a sair de Portugal, fez parte da Direcção do PCP no exterior (Moscovo e Paris), regressando em 1974. Torturado na prisão, esteve encarcerado em 1937, 1940 e 1949-1960, num total de 15 anos, oito dos quais em completo isolamento.

GRAVURA - Álvaro Cunhal - Desenhos na prisão

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Álvaro Cunhal no Museu do Aljube

  • Manuel Augusto Araújo 



O Museu do Aljube continuou um ciclo de encontros sob o tema Intelectuais e Artistas da Resistência, cujo objectivo é a «evocação da vida e obra de artistas, de homens de letras e de cientistas que se opuseram pela vida e a obra, à ditadura fascista».

O primeiro, a 29 de Abril, foi Manuel Tiago/ Álvaro Cunhal. Seguir-se-ão José Afonso, 27 de Maio, Bento Jesus Caraça, 17 de Junho e Maria Lamas, 1 de Julho.

A referência a Manuel Tiago/Álvaro Cunhal percebe-se pela maior notoriedade e divulgação da obra literária de Álvaro Cunhal, ainda que seja algo redutora no contexto do seu trabalho intelectual que decorreu em paralelo com a sua intensa actividade política, prática e teórica, onde se afirma como um dos maiores e mais influentes pensadores do marxismo-leninismo. Uma constatação que é uma evidência ao ler as suas Obras Escolhidas, onde se revelam textos cuja autoria a clandestinidade obrigou ao anonimato ou ao recurso a pseudónimo e se sistematizam os produzidos depois do 25 de Abril.

No encontro no Museu do Aljube, a tónica incidiu no trabalho de Álvaro Cunhal na área das artes visuais e da literatura que foi conhecido em circunstâncias especiais. O escritor Manuel Tiago desoculta-se quando se sabe que um académico especulava sobre quem seria a pessoa que usava esse criptónimo e o iria atribuir a outro que não Álvaro Cunhal, o que o compeliu a reivindicar a autoria dos romances e novelas, só conhecido por um grupo restritíssimo de camaradas. Os desenhos da prisão, organizados em duas séries, foram editados com o objectivo declarado de angariar fundos para o Partido. Nenhum estava assinado, nenhum foi assinado. Só mais tarde, no contexto das celebrações do seu centenário, é que na XVIII Bienal das Artes Plásticas da Festa do Avante! se conheceram pinturas e desenhos de alguém que, confrontado com o seu talento, dizia que gostaria de ter tido tempo para «aprender a pintar».

No debate, um dos intervenientes levantou a questão de haver comunistas escritores, como Álvaro Cunhal ou Soeiro Pereira Gomes e escritores comunistas como José Saramago ou Alves Redol. Um ponto de vista interessante para a análise crítica de obras em que a actividade política é central na actividade intelectual. De facto, tanto a obra literária como a obra pictórica de Álvaro Cunhal têm sempre como referência realidades bem conhecidas pelo autor no seu percurso político. Esse conhecimento é bem presente mesmo na tradução do Rei Lear de Shakespeare, nas notas que explicam opções linguísticas e enquadramentos históricos e sociais.

A diferença maior entre as duas áreas criativas onde Álvaro Cunhal imprimiu as suas aptidões está nos ambientes onde decorrem as acções. Nos desenhos, os lugares não são passíveis de reconhecimento, são abstractos. São raros os elementos arquitectónicos, quando existem não dão indicações sobre os lugares. O espaço tem a função de conferir profundidade e liberdade ao movimento das figuras, às situações. Na literatura os espaços são descritos nos elementos visíveis que até os tornam identificáveis o que se contrapõe aos espaços abertos dos desenhos em oposição ao espaço a que o autor estava confinado.

Nos romances é surpreendente, para quem não conhecia Álvaro Cunhal, a multifacetada riqueza humana das personagens. Nenhuma é linear nas suas grandezas e nas suas fraquezas. Mesmo os politicamente mais indiferentes, de duvidosos princípios éticos, são capazes de um súbito gesto de desprendimento como o passador de Cinco Dias, Cinco Noites.

Nas intervenções introdutórias e no debate sublinhou-se o profundo humanismo e a enorme dimensão intelectual e política de Álvaro Cunhal que o tornam uma das personalidades mais marcantes e mais fascinantes da História de Portugal. O artista e escritor que Álvaro Cunhal não foi o que poderia ter sido porque, como escreveu no prefácio de A Arte, o Artista e a Sociedade, «o absorvente empenhamento noutra direcção de actividade impediu a realização do projecto. Por razões óbvias, o que não foi possível já não o será». O projecto era rever e actualizar esse ensaio. Aplica-se a toda a obra artística que nos legou independentemente da qualidade alcançada.

http://www.avante.pt/pt/2215/argumentos/140296/

quinta-feira, 24 de março de 2016

Domingos Lobo Esteiros, 75 anos depois


  • Domingos Lobo
Quando o real se transformou
em arte socialista




1941, ano da publicação de Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, é, apesar da desregulação social e política que a guerra estabelece, e da opressão generalizada, um período de alguma agitação no meio político e literário, tanto pelo agudizar das contradições que o conflito vem instalar nas relações entre as diversas classes sociais, manifestando-se de forma mais incisiva nas zonas industriais e de latifúndio, quer pela ameaça real de a guerra se expandir para Leste (a Alemanha preparava-se para invadir a URSS), quer pela contínua resistência que as forças progressistas travam contra o fascismo luso, a partir de acções de massas, na denúncia do agravar da repressão, do desemprego, das condições de vida e de trabalho e o flagelo da fome que atingia sobretudo as classes economicamente mais frágeis.


Os alemães, fazendo pressão sobre o governo de Salazar, tendo por causa o volfrâmio, torpedeiam o cargueiro Ganda e os vapores Corte Real e Cassequel; com mais subtileza, mas prefigurando a mesma intenção de cerco e influência, a Universidade de Oxford, obedecendo a uma «sugestão» do governo inglês, atribui a Salazar o título de doutor honoris causa; há greves de estudantes e dos operários têxteis da Covilhã. O País sofre a acção de um ciclone devastador.


No campo da acção e intervenção cultural, nesse ano de 1941, Alves Redol publica Marés, Fernando Namora Terra, Bento de Jesus Caraça Conceitos Fundamentais da Matemática, João José Cochofel Sol de Agosto, Joaquim Namorado Aviso à Navegação, Manuel da Fonseca Planície, Mário Dionísio Poemas e Sidónio Muralha Beco; inicia-se a publicação dos cadernos de poesia Novo Cancioneiro. Livros que vêm contribuir, face ao comprometimento social que expressam, para uma mais apurada, interventiva e abrangente reflexão sobre as complexidades relacionais entre a arte literária e o real avassalador desses dias de brasa; o mundo objectivo do trabalho e da exploração que o envolve, fazendo com que essa relação se torne mais clara, dialéctica e consciente, impondo uma visão humanista do mundo e uma linguagem que se opunha aos desvarios modernistas de Marinetti e D’Annúnzio, que os escribas salazarentos de serviço adoptariam como modelo de intervenção literária e filosófica (António Ferro, Augusto de Castro, Fernanda de Castro, João Gaspar Simões, António Quadros, Álvaro Ribeiro, Orlando Vitorino, etc.), e às confusões estético/conservadoras dos presencistas, que correspondiam «a um certo ambiente de cepticismo quanto aos ideais oitocentistas e republicanos de progresso que se relaciona com o colapso do liberalismo em 1926, e por isso os presencistas aspiram, em geral, a uma literatura e uma arte desarticuladas, se não mesmo alheadas, de qualquer doutrina directamente interventora».1 Pressupostos teóricos, estéticos e políticos em tudo opostos aos do neo-realismo.

O aparecimento de Esteiros, edição que exibia uma belíssima e expressiva capa desenhada por Álvaro Cunhal, vem aprofundar o caminho de descoberta e denúncia social, iniciado com Gaibéus, de Redol, incidindo a obra de Soeiro e a sua especulação político-social sobre os universos da exploração do trabalho infantil, cujas coordenadas mais abjectas escapavam às consciências burguesas e a grande parte da intelectualidade urbana.


Soeiro Pereira Gomes introduz no discurso literário deste exemplar romance, dados sociológicos novos, uma linguagem sensível e arguta que mergulha fundo nesse nicho de desprezível exploração, dado que exercida sobre os mais indefesos elementos da base social, levando o leitor a tomar consciência dessa realidade, da vida agreste desse núcleo sobre o qual o fascismo exercia toda a sua inumana brutalidade, exibindo sem disfarce a infâmia ideológica e funcional que o estruturava – essas vulneráveis ilhas humanas, ainda não inscrito no corpo diegético do neo-realismo: o mundo da infância e da pré-adolescência, da miséria que invade, desde o berço, esse território que queríamos de descoberta e construção do ser, invadido de forma violenta pela ganância que vai destruindo sonhos, capacidades, modos outros de crescimento e realização pessoal e colectiva; um mundo do desenrasca, da luta quotidiana por um naco de pão para enganar a maligna, do trabalho escravo nos telhais, da rebeldia, da ternura, do companheirismo, da aventura e da transgressão – esse universo épico, que o verbo dorido e sensitivo de Soeiro Pereira Gomes trata e percorre com objectividade e plena maturidade formal e sintáctica; a expressiva utilização do linguajar das gentes da beira Tejo, doseando de modo exemplar o drama e o jocoso popular com a agudeza de análise das contradições da burguesia, o gradual cinismo que os títeres em presença estabelecem entre si, Castro vs. Zé Vicente, para melhor definirem os campos da usura e o espaço que a ambos cabe na refrega da cupidez. Castro usando, sabido e matreiro, controlada impudência; Zé Vicente, exercendo sem rebuços a violência física e económica sobre os assalariados, que dependiam da parca jorna, ganha de sol a sol nos telhais, para iludir a fome: «Se eu pudesse baixar, um escudo que fosse, àquela gente...», pensa Zé Vicente, a pressentir-se já apeado da pileca e da pose afidalgada de outrora – intuindo a ameaça que a Fábrica Grande representa para os seus modos de vida e de exploração. Zé Vicente, espoliado do espaço em que assenta o seu telhal, regressará à condição de pobreza e à proletarização; Castro, vendo partir para a Fábrica os braços que tanta falta lhe fazem nos campos, pressente que outros tempos virão, que o progresso social que a Fábrica representa, começará a invadir o seu espaço, que o medo, a cobiça, o seu sorriso enigmático e cínico, e o seu modo de exploração feudal poderão ter os dias contados.2


Uma galeria mínima, mas exemplar, de senhores deste microcosmos da margem Norte do Tejo, que Soeiro Pereira Gomes caracteriza de forma acutilante, juntando-lhe um bando de subalternos menores que contribuem, sujando as mãos e traindo a classe a que, por origem, pertencem, para que a exploração perdure e se torne norma: mestre Zarolho, o Cabo de Mar, os rendeiros da Quinta Alta e a GNR, braço armado do poder fascista.


Soeiro cria, com Esteiros, um fresco denunciador da sordidez que o fascismo luso exibia nas suas invisíveis margens (onde os tiques da ignomínia foram mais profundos e duradouros), na análise que constrói, ancorado nos traços significantes da matéria social e histórica que dominava a Europa – o feroz capitalismo ungido no terror –, no modo como elabora, a partir das personagens principais (Gineto, Gaitinhas, Maquineta, Sagui) a representação realista e modelar desse período, das circunstâncias atípicas em que a sua acção (partindo do particular para o colectivo) nele se desenvolve, marcando as componentes teóricas que condicionaram o desenvolvimento do País nessa fase histórica (1930/40), fazendo-o através do narrador e da coerência ideológica com que este intervém na diegese, num permanente e eficaz registo crítico, autodiegético, expondo dialecticamente o conflitual evoluir do discurso literário. Soeiro é, em Esteiros e, mais tarde em Engrenagem, um intelectual, como o definia Gramsci, que conseguiu juntar teoria e prática, transformando a sua escrita em processo histórico real.

Inventariando as condições de vida e de trabalho de uma comunidade, a dos putos dos telhais e dos seus progenitores, em circunstâncias específicas (a da aprendizagem, por métodos extremos, do modo de exploração capitalista), Soeiro Pereira Gomes diz-nos da luta que é necessário travar contra o poder burguês, a sua visão do mundo, desse modo estabelecendo parâmetros para a superação dos cercos impostos por uma política de terror, despótica e discricionária que lhe dá guarida, suporte e protecção.


Nas determinantes estéticas e conceptuais de Esteiros, para além do preclaro alinhamento com a corrente neo-realista sendo, na produção literária do movimento, uma das suas obras de referência, e do qual Soeiro é um dos principais obreiros, revela-se a determinante eficácia com que consegue superar as contradições herdadas do realismo burguês, refazendo alguns tiques estéticos do naturalismo, introduzindo no discurso um vigoroso e assertivo exercício de análise social; as circunstâncias e consequências das contradições sociais da burguesia, clarificando opostas concepções da vida e do mundo, os critérios de classe que se expressam através dos códigos da linguagem (o filho do Castro é Arturinho ou o menino, o Gaitinhas, que com ele brinca, é apenas o João ou o rapaz) recorrendo aos métodos analíticos do marxismo3 e aos princípios filosóficos e humanistas do realismo socialista, que Soeiro, com hábil sageza, inscreve no corpo textual.


Também os afectos, a cumplicidade, as condições económico-sociais como entrave a que os sonhos se cumpram, mesmo os sonhos mais ingénuos que se derretem pelos declives da impotência, atravessada de raiva e de ternura: – E o teu pai? – perguntou Gineto.


O filho de Madalena olhou a névoa que ensombrava o horizonte...


– Está muito longe. – E a medo, como se revelasse um crime: – Queria que eu fosse doutor.


A voz de Gaitinhas era de lágrimas cristalizadas. E Gineto teve pena que ser doutor não fosse coisa que se roubasse.

«A consciência do homem não só reflecte o mundo objectivo, mas cria-o»4 É a partir desta consciência, da encenação do real e das suas circunstâncias, as atmosferas e as tipicidades de um determinado tempo e lugar e da ideologia que lhe dá suporte – em Esteiros a componente estético/ideológica tem uma das suas expressões mais representativas –, que Soeiro parte para a tarefa de criar esse universo em que pode espelhar a sua particular reflexão sobre o mundo e idealizá-lo melhor e mais justo, desenhando nos sonhos de Gaitinhas-cantor, que irá pelo mundo à procura do pai, esse supremo desígnio: voltar, dar liberdade ao Gineto e mandar para a escola aquela malta dos telhais. Ou seja, encenando a matriz social em que as necessidades materiais vivam a par com as necessidades lúdicas, físicas e culturais, que permitam aos oprimidos libertar-se do jugo dos opressores. Soeiro tem plena consciência do papel activo e crítico que cabe ao escritor que quer agir sobre o real como contributo para a tarefa comum de transformar a vida.


Os grandes escritores do neo-realismo, ou a ele ligados por laços de companheirismo militante, inscreveram em alguns textos a condição social dos jovens, a partir das suas raízes de classe, elo mais fraco na cadeia de exploração capitalista, fazendo-o com ductilidade, lirismo, expressivo afecto. Os meninos pobres ou, como as sacrossantas almas neoliberais propagam, useiras e vezeiras em criar módulos semânticos que diluam a realidade, filhos de famílias desfavorecidas, como se a ganância capitalista fosse um jogo de roleta e a pobreza um contínuo jogo de azar, percorrem, com maior ou menor grau de intervenção crítica dos seus autores, alguns títulos do melhor que a literatura em português produziu no século XX: Capitães da Areia, de Jorge Amado; Bonecos de Luz, de Romeu Correia; Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol e Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira.


Em Micropaisagem, do livro O Aprendiz de Feiticeiro, Carlos de Oliveira deixa-nos este impressivo testemunho: A paisagem da infância não é nenhum paraíso perdido mas a pobreza, a nudez, a carência de quase tudo. É desta certeza, desta nudez e da carência de quase tudo, da situação social dos putos da beira Tejo, que o autor de Contos Vermelhosnos diz com extrema serenidade discursiva, mas atingindo o cerne do sistema que conduz a este estado de coisas – daí a sua recorrente actualidade.


Soeiro traz para a literatura portuguesa, inscrevendo-a na modernidade, um modo singular de abordagem dos fenómenos estruturais da usura capitalista, um estilo que dilui no discurso ficcional os propósitos sócio-políticos que a determinam, fazendo-o com hábil sagacidade, com evidente optimismo, não escamoteando os aspectos sórdidos da realidade que descreve, penetrando esse universo cercado dos homens, mulheres e crianças que do rio e suas margens tiram o parco sustento, abordando com pertinaz sensibilidade as linhas definidoras de um onirismo infantil e da prática adulta da sobrevivência.


Soeiro Pereira Gomes traz para Esteiros problemas novos, que a estética de afirmação libertária amplia, que configuram a representação de agentes singulares, esse coro de meninos/homens, que actuam na trama romanesca como intérpretes de um período histórico imoral e violento: crianças sujeitas a escravidão de classe num tempo de terror. Os jovens protagonistas de Esteiros são heróis positivos, dado que vítimas de uma engrenagem social poderosa que eles, com a rebeldia dos verdes anos tentam, no modo ingénuo de fugir ao cerco, subverter com pequenas, marginais tropelias. Personagens que agem e respiram dentro do seu espaço e do seu meio social: o rio, os telhais, os becos e os casebres onde habitam, os pomares que assaltam, o lodo dos esteiros. Um mundo onde as suas pequenas espertezas de meninos não fariam eco, não fora o facto de terem nascido em condições adversas, de extrema pobreza, e num tempo injusto e, por essa circunstância, estarem vulneráveis, sujeitos a todas as formas de espoliação e cerco. É a análise fecunda, a arguta sensibilidade que implica ao descodificar a particularidade social e política que descreve, o modo narrativo, o lírico/épico como envolve no discurso este núcleo de homens e crianças, que vivem e lutam por sobreviver num mundo e num tempo que lhes é hostil, que torna Soeiro Pereira Gomes um dos autores mais relevantes do período intenso e estrutural do nosso neo-realismo, o seu dinâmico humanismo, na vertente do realismo dialéctico, trazendo a literatura, a sua voz ficcional, como mais tarde o fará Manuel Tiago, para o vasto território da luta de classes e das mais justas expectativas políticas e sociais do nosso povo.

Soeiro transporta para Esteiros alguns elementos definidores da arte realista, encenando no seu corpo discursivo uma análise objectiva, crítica e duríssima sobre o tempo histórico que ficciona; no rigor com que olha e descreve a realidade que percepciona, na linguagem que utiliza para expressar e combater a intolerância e a ignomínia, no modo sensitivo como percorre os quotidianos sofridos da malta dos telhais, seus desesperos e medos, os seus parcos dias de festa, na Feira, lugar de sonho e de respiração, o tempo breve da felicidade em que se tornam, por escassos momentos, de novo meninos fascinados pelas luzes do carrossel, pelos ruídos mágicos que envolvem o terreiro, pelos bolos ou pelos olhos solares da Rosete, e os dias sofridos no Telhal Grande, de sol a sol, descalços, pisando brasas e vertendo sangue, ao mando das vozes cavernícolas do Má-Cara e do Carraça: – Traz mais bolas, filho dum boi! Se vou aí, inté te borras todo; Langão!, Carreguem-lhe no peso.... É um olhar fecundo, humano, que o autor de Engrenagem verte sobre este mundo agreste, no modo seguro como estrutura este seu primeiro romance – Soeiro tinha 32 anos à data da sua publicação –, no apuro oficinal como a denúncia de um tempo social e de um regime político opressor nele se incorporam; nos sintagmas estilísticos, na abordagem esquemática do seu ordenamento fabular, na relação que estabelece entre a literatura e a realidade histórica – é já o realismo socialista, pontuado por uma hábil, inventiva voz lírica, que nesta obra-prima desponta.


Obra que devolve, como nenhuma outra, à nossa consciência colectiva, o tempo da rebeldia e da ternura, as falhas de carinho, o medo, o companheirismo, os traços de uma infância perdida na lama dos esteiros, o mágico-simbólico dos sonhos crepusculares, esse território oculto das crianças a quem roubaram os melhores anos da vida: o crescimento harmónico, a arte de brincar, de saber escrever as cartas de amor para as Rosetes que nos acasos da vida nos sobressaltam; compreender os mecanismos que fazem andar o mundo e proceder à sua paulatina aprendizagem. Gineto, Sagui, Malesso, Guedelhas, Maquineta, Coca, Gaitinhas, rapazes a descobrirem a vida, sós e aflitos, pelos caminhos cruzados do medo, da miséria, da violência dos mandantes, «Se não se calam, racho um!», o lado sórdido de um futuro pardo, minguado de horizontes: Gineto marinheiro, fugitivo dos telhais e dos açoites das sombras, salteador de laranjais, a quem o pai nem sonhar deixava; Gaitinhas que queria ser doutor e não pôde concluir a escola primária para ir trabalhar no Telhal Grande; Sangui que dormia na Capela Velha e brincava com o seu infortúnio para espantar o medo: «agora sou um santo»; a mulher que perdeu o filho nas cheias e continuava com os braços dobrados sobre o peito a engalhar o vento; a luz que de noite se acende no lugar onde as águas tragaram o Malesso; Maquineta que se quedava extasiado com o ruído das máquinas da Fábrica Grande, não sabendo que ela representava uma mais sofisticada forma de exploração; a ternura pela Doida e a sua colectiva, solidária defesa; o relógio de Maria do Bote, esse sonho antigo a desfazer-se nas mãos do agiota em troca de um naco de pão.


Mas há sempre, na literatura como na vida, cadinhos de sol, uma luz que se acende na noite: Gineto que espera, face encostada às grades da enxovia, o regresso à vida livre – afinal, foi preso por roubar laranjas, ou um pão, tanto faz. Sonha que o Gaitinhas, o Maquineta, o Sagui ou o Tom-Mix dos filmes, o virão libertar e ele possa, uma vez mais, ir à Feira e debruçar os olhos sedentos de ternura nos olhos da Rosete; Gineto sonha mas não sabe que Gaitinhas anda já pelo mundo em busca dessa estranha, misteriosa coisa que faz os homens maiores que a sua altura, e quando a encontrar é ele que virá libertá-lo e mandar para a escola aquela malta dos telhais – moços que parecem homens e nunca foram meninos.



Apoios:

Obras Completas de Soeiro Pereira Gomes – Publicações Europa-América/1972

Soeiro Pereira Gomes e o Futuro do Realismo em Portugal, de Álvaro Pina – Editorial Caminho/1977

Literatura e Luta de Classes, de Augusto da Costa Dias – Editorial Estampa/1975

Ilse Losa: Vida e Obra, de Ramiro Teixeira – AJHLP/2015

No Centenário do nascimento de Soeiro Pereira Gomes (2009), de Vítor viçoso, in Nova Síntese, nº.4



História da Lit. Portuguesa, de Óscar Lopes e António José Saraiva, pág. 1091, 8ª. edição/1975, Porto Editora

2 Redol traria a seu modo, estes medos (o da emancipação dos oprimidos face à opressão monarco-feudal exercida sobre eles) dos senhores da terra, os Relvas deste mundo, opondo o trabalho rural à esperança que a industrialização representava, para o romance Barranco de Cegos.

3 O conjunto das relações de produção constitui a estrutura económica da sociedade, a base concreta sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política e às quais correspondem formas de consciência social determinadas. O modo de produção da vida social condiciona, na sua generalidade, o processo da vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, é, inversamente o seu ser social que determina a sua consciência. In “Contribuição para a Crítica da Economia Política” Karl Marx

4 Lénine, Cadernos Filosóficos

http://avante.pt/pt/2208/temas/139581/