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sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Manuel Loff - Um ano de completa impunidade

 * Manuel Loff  

Até ontem, os países NATO, um após o outro, exortavam Israel a não invadir o Líbano e enviavam a este país aviões... para recolher o seu pessoal diplomático e os cidadãos que queiram e, num país onde um milhão de pessoas (uma em cada cinco) tiveram de fugir de casa, consigam sair. Mas não enviaram aviões de combate para reforçar as Forças Armadas libanesas contra o invasor israelita, como fizeram com a Ucrânia. O que vale para a Ucrânia não vale para o Líbano. Num ano inteiro não valeu para Gaza, a Cisjordânia, territórios invadidos não há dois, mas há 67 anos. Num ano morreram incomparavelmente mais civis em Gaza do que em mais de dois anos e meio na Ucrânia — e Biden e Von der Leyen pedem aos países árabes a mesma desescalada e diplomacia cujo oposto praticam intensamente há anos na Ucrânia.

É insólito este medo de uma guerra generalizada na boca de quem governa deste lado do mundo. Ontem mesmo, Biden deu as ordens necessárias para comprometer (mais ainda) os EUA nas guerras de agressão israelitas. Depois de terem justificado a chuva de mísseis sobre Beirute como uma merecida punição do Hezbollah, os EUA substituíram-se aos israelitas na interceção dos mísseis iranianos para proteger Netanyahu e os genocidas que o acompanham. E disponibilizam para a guerra os 43 mil soldados que, por vezes contra a vontade dos respetivos governos, têm na região. E assim se procura “evitar a guerra”...

A discussão da dualidade de critérios não é apenas moral. Ela tem implicações diretas nas vidas de milhões de pessoas. A dualidade mata. Em Gaza, na Cisjordânia, Israel comporta-se como um dos ocupantes mais sinistros da história, perpetrando represálias sobre a população civil em termos que reproduzem as represálias nazis sobre as populações dos países ocupados na II Guerra Mundial, ou as dos norte-americanos no Vietname, dos franceses na Argélia. Neste momento, com o fluxo imparável de material bélico ocidental, Israel dispara (e mata) em todas as direções: Irão, Síria, Iémen, e agora, sobretudo o Líbano. Por enquanto ordena deslocações de populações; depois passará diretamente às deportações, seguindo o exemplo de Gaza. Bombardeia cidades e campos de refugiados – dos milhões de palestinianos que na Nakba de 1948 expulsaram das suas casas, dos sírios que procuraram fugir da guerra que o Estado Islâmico e as guerrilhas que a Turquia (membro da NATO) e os EUA armaram em 2011.

Os EUA e Israel são há muito aquilo que no glossário imperial se tem chamado “Estados párias”: sequestros em prisões ilegais, tortura sistemática, assassinatos contrariando qualquer forma de direito, nacional ou internacional. Israel é o Estado do planeta que mais resoluções da ONU incumpre, o seu chefe de governo tem um mandado de captura internacional, ataca estruturas e instalações das agências da ONU e assassina os seus funcionários (e médicos, e jornalistas, e crianças...). E, contudo, aí estão os governos UE a proibir por “antissemitas” manifestações de solidariedade com as vítimas palestinianas e exigindo boicote e sanções a Israel.

Somos um mundo de impunidade e de desigualdade, lembrou há dias Guterres, onde muitos governos “podem invadir outro país, devastar sociedades inteiras ou ignorar totalmente o bem-estar do seu próprio povo” e passar por cima de “decisões dos tribunais internacionais”. Não vale a pena é imaginar que a impunidade imperial dos nossos dias é nova. O que é nova é a coerência desta “necropolítica”, deste exercício do poder de “ditar quem pode e não pode viver” como “expressão máxima de soberania” (Achille Mbembe), com esta narrativa tipicamente fascista e colonial que nos fazem das guerras expansionistas de Israel. Não somente tratando os povos árabes da região como “animais humanos”, mas contando tudo nos mesmos termos socialmilitaristas com que no Brasil se narra a entrada da polícia militar numa favela ou como na imprensa nazi se falava da “bestialidade” dos ciganos, dos judeus e dos eslavos que “ameaçavam a existência da Alemanha”.

As guerras israelitas, a sua necropolítica genocida, as décadas de ocupação impune, aplaudida, justificada, dizem tudo do que é hoje o Ocidente. A nossa posição perante elas diz tudo de cada um de nós.


2 de Outubro de 2020

sábado, 18 de maio de 2024

Miguel Sousa Tavares - Quando os alarmes soam

 

* Miguel Sousa Tavares 

(EXPRESSO 2024 05 18)
2 - Em 24 de Fevereiro de 2022 a Rússia invadiu a Ucrânia naquilo a que Vladimir Putin chamou uma “operação militar espe­cial”. Para trás tinham ficado meses de infrutíferas negociações destinadas a evitar a guerra, envolvendo sobretudo a Alemanha e a França, enquanto Inglaterra se mantinha ao largo e a NATO e os Estados Unidos se limitavam a dizer que a invasão estava iminente e nada faziam para a evitar. Num muito mediatizado encontro com Putin no Kremlin, o Presidente francês, Emmanuel Macron, saiu dizendo que estabelecera com o Presidente russo as bases para um acordo, retomando os princípios do Acordo Minsk II. Interrogado sobre esta declaração, Putin disse, no dia seguinte, mais ou menos isto: “Sim, com ele estamos de acordo. O problema é que não é ele quem manda na NATO, mas sim os Estados Unidos.” Pouco depois da invasão, logo em 10 de Março, os ministros dos Negócios Estrangeiros da Rússia e da Ucrânia reuniram-se para conversações de paz em Antalya, na Turquia, com mediação turca e israelita. Aí ficou estabelecido um acordo em 15 pontos, prevendo desde logo um cessar-fogo e a retirada russa, mas, quando tudo parecia pronto para ser assinado, Zelensky recuou. Segundo contou depois o então PM israelita Naftali Bennett, o acordo falhou porque Boris Johnson e Joe Biden convenceram Zelensky a não assinar, garantindo-lhe todo o apoio militar necessário para uma vitória sobre os russos. E em Abril, quando a possibilidade de novo acordo estava em cima da mesa, Boris Johnson voou para Kiev para de novo dissuadir Zelensky de o assinar. De então para cá cessaram todas as tentativas de parar a guerra e os poucos que se atreveram a falar de paz, incluindo o Papa, foram tratados como “amigos de Putin”. Hoje, o ex-PM inglês ganha centenas de milhares de euros a fazer conferências pelo mundo fora pregando a necessidade de apoiar a Ucrânia indefinidamente. E o complexo militar industrial inglês e americano ganha milhares de milhões a vender armas para a guerra da Ucrânia, pagas pelos contribuintes desses países e dos países europeus.
Entretanto, no campo de batalha passou-se alternadamente do medo de uma rápida vitória russa para a euforia prematura de uma vitória ucraniana e daí para a situação actual: o avanço consistente e continuado dos russos e a iminência de uma derrota ucraniana. As linhas vermelhas no apoio militar fornecido foram sendo sucessivamente ultrapassadas — em tanques, aviões, sistemas de defesa anti-aérea e mísseis de longo alcance, incluindo até a presença de “conselheiros militares” —, tornando claro que esta não é apenas uma guerra da Ucrânia contra a Rússia, mas da Ucrânia e da NATO contra a Rússia. Porém, mesmo o fornecimento, em qualidade e em quantidades impensáveis, de armamento ocidental à Ucrânia está a tornar-se impotente face a um último e decisivo factor: o factor humano. A Ucrânia está a ficar sem homens para a defender: os que estão fora não querem voltar, os que estão dentro tudo fazem para não ir para a frente. Para evitar a derrota da Ucrânia falta então dar o último passo, aquele que Macron — outrora mediador da paz — agora propõe: o envio de tropas ocidentais para combater na Ucrânia contra a Rússia. A Terceira Guerra Mundial.
Sejamos claros: a derrota da Ucrânia será uma catástrofe. Uma catástrofe para a Ucrânia, primeiro que tudo, e para os ucranianos, que já sofreram mais do que lhes podem exigir. E seria também uma séria ameaça para a Europa. É fácil, ironicamente fácil, compreender a dimensão do que seria a ameaça de ver a Rússia de novo uns milhares de quilómetros adentro das fronteiras da Europa “livre”: basta imaginar a ameaça que os russos sentem ao verem a NATO avançar paulatinamente em direcção às suas fronteiras desde 1991. Viver em segurança ou em estado de ameaça latente não mudou hoje em relação ao que era no tempo da “Guerra Fria”: mede-se nos minutos que leva o míssil disparado pelo outro a atingir uma grande cidade nossa, dando-nos ou não tempo para ripostar de igual forma. Chama-se “equilíbrio do terror” e tudo passa, portanto, pela demarcação de fronteiras entre os dois lados. Quando Putin avisa que vai reposicionar mísseis nucleares junto à fronteira com a Finlândia e a imprensa ocidental logo noticia que “Putin volta a ameaçar com a guerra nuclear”, o que ele está a fazer é simplesmente a repor o equilíbrio alterado pela adesão da Finlândia à NATO e pelos mil quilómetros de fronteira com a Rússia assim acrescentados.
Porém — e isto é uma tese que vale o que vale —, eu acredito que Putin não tem nada a ganhar com a ocupação de uma Ucrânia derrotada e hostil, nem sequer para efeitos de propaganda interna. De volta a Macron, dizia ele — o Macron pró-paz e quando a guerra não corria tão bem a Putin — que era preciso ajudar a Rússia a sair da Ucrânia sem ser humilhada. A frase, embora ele já não a subscreva, continua actual, porque só há duas maneiras de acabar com uma guerra: ou pela derrota e humilhação de um dos lados ou por um acordo de paz. Ao contrário do que afirma o nosso actual ministro da Defesa, nem as eleições europeias nem a política europeia se resumem a escolher entre “os amigos da Ucrânia e os amigos de Putin”. Os verdadeiros amigos da Ucrânia querem que a Ucrânia deixe de ser massacrada e que Putin saia da Ucrânia, e isso consegue-se negociando um acordo de paz em que ambas as partes terão de ceder e os únicos que sairão a perder são os amigos da guerra.
MIGUEL SOUSA TAVARES ESCREVE DE ACORDO COM A ANTIGA ORTOGRAFIA

https://expresso.pt/opiniao/2024-05-16-quando-os-alarmes-soam-1dc1f354

Pedro Almeida Vieira - Um irresponsável populista chamado Gouveia e Melo


* Pedro Almeida Vieira
/ Maio 15, 2024

Gouveia e Melo andou em ‘conspirações de maledicência nos corredores militares‘ – irrelevantes e inúteis para a sociedade nacional e internacional – até lhe cair no colo a tarefa logística de vacinar contra a covid-19 até o periquito, incluindo, claro, crianças e jovens que jamais integravam grupos de risco.
A ‘medalha’ foi a sua ascensão, primeiro ao posto mais elevado do Almirantado da Marinha e depois ao cargo, para nosso encargo, de Chefe do Estado-Maior da Armada. E à boleia veio a peregrina ideia de ser ele um putativo candidato a Presidente da República, sustentada e promovida por jornais como o Diário de Notícias, que se transformou no seu órgão oficial, tanto é o palco que lhe concedem.
Desde aí, Gouveia e Melo, um especialista em submarinos, aproveita qualquer oportunidade para vir à tona mostrar a sua existência – e, hélas, tentar-nos convencer da suposta necessidade de o termos por perto, mesmo se ele tem vontade de mandar alguns de nós – presumo, os mais novos – morrer longe.
Em mais uma entrevista publicada hoje no Diário de Notícias, em parceria com a TSF (do mesmo grupo de media) somos confrontados com tiradas populistas e irresponsáveis, o que não admira porque vem de um irresponsável populista. Gouveia e Melo nada mais faz do que instigar um conflito grave. Fala das habituais passagens de navios russos na nossa gigantesca Zona Económica e Exclusiva (a quinta maior da Europa) – que deve ser fiscalizada com naturalidade – como se estivessem associadas a preparativos de uma invasão ou de um iminente conflito mundial. E, perante um conflito localizado geograficamente nos confins da Europa, face à nossa posição, e que deve ser tratado sobretudo pela via diplomática, e não por militares sedentos de bacoco protagonismo, destapa a sua veia – ou variz – bélica, prometendo insensatamente ‘carne lusa para canhão’.
Não é minimamente aceitável que em Portugal, em modelo democrático e em pleno século XXI, venha uma alta patente militar, como Gouveia e Melo, dizer estas duas simples frases a pretexto de um conflito armado grave, humanamente lastimável, mas que se circuscreve à mesma região há mais de dois anos: “E podem ter certeza absoluta de que se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para defender a Europa, que é a nossa casa comum. Afinal, estamos a defender o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia“.
“Defender o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia” não se faz, primeiro, através de uma organização militar a EXIGIR o que quer que seja a um povo, ainda mais ao povo de um país soberano com quase 900 anos de existência. A ideia de ‘carne para canhão’ não se conjuga bem como o ‘nosso modo de vida’ no século XXI.


Não se defende “o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia” PROMETENDO que “vamos morrer onde tivermos de morrer”, sobretudo quando o senhor que assim promete não é o Mel Gibson a armar-se em romântico William Wallace – que, na realidade, foi enforcado e esquartejado por alta traição aos 35 anos – mas sim um homem de 63 anos, almirante e Chefe do Estado-Maior da Armada de um país da NATO, antevendo-se assim que, ficando tudo torto, ficará ele no recato do lar ou no conforto do seu gabinete a esquadrinhar estratégias e tácticas militares enquanto a gente (jovem) que ele enviou está a morrer onde tiver de morrer – e a matar. Tudo para supostamente se defender a Europa, como se fosse uma angélica pomba da paz.
Aliás, a ideia de “defender a Europa, que é a nossa casa comum”, colocando a Europa como um modelo, constitui uma pérola do populismo, ainda mais por meter a Rússia como pária. E nem é por a Rússia e a Ucrânia serem nações consideradas europeias, e nem é por ambos os países lamentavelmente não saberem o que é uma democracia, mas sim por o almirante Gouveia e Melo querer fazer-nos de parvos.
Se há um Continente do Mundo que é belicista, esse é a Europa, com conflitos seculares, mais ou menos duradouros, mais ou menos grotescos nas causas. Antes das chamadas Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), já houvera muitos mais conflitos armados à escala planetária, e se as duas do século XX foram marcantes deve-se sobretudo à capacidade tecnológica de letalidade e de afectar mais vidas de civis. E em todos esses conflitos de grande dimensão, não me parece ter sido a Rússia a má da fita.


Se erro histórico houve para que a Europa não tenha evoluído nas últimas décadas em conjunto com os mesmo valores – aproveitando a Queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética – foi o ostracismo a que se botou a Rússia – para agradar aos Estados Unidos –, não promovendo, por outro lado, através de vias diplomáticas, a resolução de evidentes disputas territoriais, como as da Crimeia e do Donbass.
A forma como se permite que militares se interponham em querelas que devem antes ser diplomáticas é um erro crasso. Ouvir um chefe militar anunciar alegremente que “vamos morrer onde tivermos de morrer para defender a Europa, que é a nossa casa comum” é um ultraje, porque uma guerra é a pior das formas de se atingir a paz.
Acham que foi melhor, por exemplo, a compra da Louisana aos franceses em 1803 ou seria preferível uma guerra franco-americana?
Acham que foi melhor, por exemplo, o Tratado de Montevideu em 1828 que consagrou a independência do Uruguai ou seria preferível antes dirimir uma anexação oportunista de Portugal aos territórios da Cisplatina antes ocupados por Espanha através de uma guerra entre o então recém-independente Brasil e os independentistas uruguaios?
Acham que foi melhor, por exemplo, os milhares de acordos e tratados para se resolverem os milhares de disputas territoriais a nível mundial ou seria preferível que milhares de Gouveias e Melos por este Mundo fora enviassem milhares de inocentes para morrerem (e matarem) em nome de uma suposta “casa comum”?



Uma das coisas mais absurdas destes tempos modernos é a desmesurada vontade de muitos responsáveis políticos e militares em levarem toda a Europa para uma guerra fratricida, que é regional, e que assim deve continuar até que surja uma paz moderada pela diplomacia e bom senso.
E o bom senso inclui permitir que o almirante Gouveia e Melo falar opine sobre o envio de ‘carne para canhão’ contra a Rússia, mas não que o faça como Chefe do Estado-Maior da Armada. Sem funções militares, pode ele mandar as postas de pescadas que assim quiser como comentador de assuntos militares. Ser-me-á indiferente. Mas tê-lo assim, nesta postura, como alta patente militar, assusta-me mais do que os mísseis russos.

https://paginaum.pt/2024/05/15/um-irresponsavel-populista-chamado-gouveia-e-melo/

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Pedro Tadeu - Os nossos políticos são cobardes?

OPINIÃO
21 fevereiro 2024

* Pedro Tadeu
Jornalista

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, imitando o que outros ministros europeus fizeram na sequência da morte, tremendamente suspeita, de Alexei Navalny, opositor do presidente russo Vladimir Putin, chamou o embaixador da Rússia ao seu ministério para que fossem prestados esclarecimentos... Muito bem!

O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, João Gomes Cravinho, que se saiba, ainda não chamou ao seu ministério o embaixador de Israel no nosso país para pedir esclarecimentos sobre a morte de 10 mil a 30 mil civis (conforme as fontes) e o valor de quase dois milhões de deslocados, imensas vítimas inocentes provocadas pela retaliação de Israel ao ataque do Hamas de 7 de outubro que, por seu lado e perante indignação geral, matou 1200 pessoas... Muito mal!

Note-se que, no caso da Palestina, aos mortos e deslocados acrescenta-se uma situação humanitária catastrófica em Gaza: faltam ali medicamentos, comida, água, combustível e os hospitais estão em colapso, como vemos, todos os dias, nas TV.

A União Europeia (e Portugal por arrasto) está a tornar banal a utilização contraditória do argumento da Defesa dos Direitos Humanos para tornar efetivas as decisões políticas mais desumanas da sua história, contrariando claramente a sua retórica oficial.

Para além das sanções e das denuncias de violações de Direitos Humanos só se fazerem se forem cometidas pelos “inimigos do Ocidente” e se ignorarem ou escamotearem as que são cometidas por “Aliados” - e o caso da brandura inconsequente com que os Governos europeus analisam o que Israel tem feito é o exemplo mais pungente de como a hipocrisia política mata -, a própria União Europeia começa a tornar legal, dentro do seu próprio território, a violação de Direitos Humanos.

Temos agora o exemplo noticiado há dias de um texto que está pronto para ser aprovado em abril pelo Parlamento Europeu e que preconiza uma série de medidas severas para conter a imigração.

Uma dessas medidas chega ao ponto de prever que crianças, de qualquer idade, acompanhadas ou não pelas famílias, e que sejam requerentes de asilo, podem ser presas durante três meses desde que os estados que as recebam as declarem “perigos para a segurança nacional”, numa violação que a muita gente parece clara da Convenção das Nações Unidas para os Direitos das Crianças.

Numa notícia sobre isso que li no jornal Público diz-se que esse Pacto sobre Migração e Asilo prevê ainda a recolha de dados biométricos, como impressões digitais, a partir dos 6 anos de idade, e permite o recurso à “coação” contra crianças que se recusem a deixar recolher os seus dados.

Mais: as crianças podem ser devolvidas livremente ao país de origem desde que ele seja considerado um “país seguro” e nessa lista incluem-se países com problemas de perseguição a minorias ou com situações de violência social frequente, como a Tunísia, Turquia, Albânia ou Índia.

Outro dado inaceitável: os irmãos já não contarão para figurar em processos de reunificação de famílias, só os pais - se estes não estiverem presentes, os irmãos podem ser separados.

Estamos, portanto, a autorizar que um dia possa haver na União Europeia campos de concentração de crianças refugiadas ou requerentes de asilo... o antigo presidente norte-americano Donald Trump deve estar a rir-se do que os europeus disseram dele quando tentou fazer algo similar na fronteira com o México.

É tristemente significativo que nos debates eleitorais das últimas semanas as grandes questões internacionais, apesar de o mundo estar a arriscar-se a um conflito global, tenham ficado quase completamente ausentes das discussões entre líderes partidários - o medo de analisar seriamente o desvario atual é a prova da reduzida estatura política da maioria dos intervenientes.

Por outro lado, o fechar de olhos e a recusa em vetar os cada vez mais frequentes abusos da União Europeia em matéria de Direitos Humanos - com que a mesma UE enche a boca para condenar o resto do mundo - é a demonstração da cobardia prevalecente nos palácios do poder, nossos e da restante Europa “democrática”.

https://www.dn.pt/5001258510/os-nossos-politicos-sao-cobardes/

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

Pedro Tadeu - Um pacifista é um energúmeno?

 OPINIÃO

*  Pedro Tadeu
 
Se comentarmos que o Hamas cometeu um crime contra a Humanidade com os ataques de 7 de outubro passado, somos humanistas.

Se enunciarmos que o Governo de Israel não tem o direito de matar indiscriminadamente civis palestinianos na Faixa de Gaza, somos nazis.

Se nos indignarmos pelos 1400 mortos assassinados pelo Hamas, estamos do lado do bem.

Se nos revoltarmos com as 6500 pessoas mortas pelas Forças de Defesa de Israel, estamos do lado do mal.


Se afirmarmos que o povo judeu foi vítima do Holocausto, somos elogiados por não esquecermos a História.

Se dissermos que os palestinianos são vítimas de opressão e liquidação sistemática há 75 anos, estamos a justificar o terrorismo.


Se chorarmos a morte das crianças israelitas mortas, somos boas pessoas.

Se nos indignarmos com o muito maior número de crianças palestinianas liquidadas, somos uns selvagens.


Se referirmos que a Faixa de Gaza está sob bloqueio terrestre, aéreo e marítimo desde 2005, perguntam-nos qual a relevância disso.

Se aludirmos ao ataque suicida de 2001 à discoteca Dolphinarium em Telavive, que matou 21 pessoas, somos pertinentes.

Se condenarmos a invasão russa da Ucrânia por violar a Carta das Nações Unidas, somos uns democratas.

Se indicarmos as múltiplas violações da Carta das Nações Unidas cometidas por Israel, somos extremistas.

Se apoiarmos a acusação do Tribunal Internacional Penal a Vladimir Putin, somos pela Justiça.

Se sugerirmos uma investigação do mesmo tribunal a Benjamin Netanyahu, somos maluquinhos.

Se condenarmos o bombardeamento russo de um centro comercial numa cidade ucraniana, somos pela civilização.

Se apontarmos o dedo à morteirada mortal de um hospital na Faixa de Gaza, estamos a fazer o jogo do inimigo.

Se qualificarmos o corte de água, eletricidade e combustíveis a dois milhões de pessoas em Gaza como um crime de guerra, não compreendemos, burros, a complexidade da situação.

Se citarmos a lista de ataques armados e as centenas ou milhares de mortos que desde 2014 o Governo Ucraniano cometeu sobre as populações civis das regiões russófonas do seu país, estamos, na melhor das hipóteses, a complicar aquilo que é simples ou, alternativamente, a mentir descaradamente.

Se exigirmos a retirada imediata das tropas russas da Ucrânia, estamos do lado certo da História.

Se apelarmos a um cessar-fogo em Gaza para permitir a entrada de ajuda humanitária, levamos com a suspeita de cumplicidade com o fundamentalismo islâmico.

Se reivindicarmos a libertação imediata dos reféns capturados pelo Hamas, somos bestiais.

Se pedirmos a libertação do jornalista Pablo González, preso há 20 meses na Polónia sem acusação formal, somos umas bestas.

Se salientarmos o voto a favor de 120 países, contra de 14 e mais 41 abstenções de uma resolução da Assembleia-Geral da ONU a pedir um cessar-fogo em Gaza, temos a visão geopolítica errada.

Se sublinharmos que a mesma Assembleia-Geral da ONU aprovou, com 141 votos a favor, 7 contra e 32 abstenções a exigência de retirada russa da Ucrânia, temos a visão geopolítica certa.

Se aceitarmos acriticamente aquilo que o poder norte-americano entende dever ser a organização do mundo, somos inteligentes.

Se criticarmos toda esta esquizofrenia bipolar que nos está a levar para uma guerra mundial, somos estúpidos - aliás, quem hoje em dia defende a paz é mesmo crismado de coisas piores... mas podem pôr-me nessa lista de energúmenos.

Jornalista

https://www.dn.pt/opiniao/um-pacifista-e-um-energumeno-17263531.html

sábado, 21 de outubro de 2023

Relatora da ONU para a Palestina: “A operação militar viola os princípios da distinção, da precaução e da proporcionalidade”

GUERRA ISRAEL-HAMAS  18 OUTUBRO 2023

Relatora da ONU para a Palestina: “A operação militar viola os princípios da distinção, da precaução e da proporcionalidade”

Muito crítica do que crê ser benevolência excessiva da comunidade internacional para com Israel, Francesca Albanese aponta crimes de guerra e contra a Humanidade. A seu ver, os palestinianos estão indefesos

 

Tomás Guerreiro

Francesca Albanez concedeu esta entrevista ao Expresso enquanto viajava para os Estados Unidos da América, horas antes do chumbo da resolução de cessar-fogo no Conselho de Segurança das Nações Unidas. A relatora especial da ONU para os territórios palestinianos ocupados condena a operação de Israel por perpetuar violações sistemáticas do direito humanitário internacional e da Convenção de Genebra. Denuncia a política de ocupação e o regime de apartheid imposto ao povo palestiniano. Advoga pela urgência de um cessar-fogo para se travar “uma catástrofe humanitária de dimensões olímpicas”, com nuances de “limpeza étnica” e de “crime contra a Humanidade”.

Como descreve a situação humanitária em Gaza?
Há uma catástrofe humanitária de dimensões olímpicas. Já antes de 7 de outubro Gaza estava sob bloqueio ilegal há 16 anos. Não há recursos, sete em cada dez pessoas dependem de auxílio humanitário, metade da população está desempregada, há muita mortalidade infantil, todos os indicadores demonstram quão devastador é o bloqueio. É uma punição coletiva e enquadra-se num crime de guerra. O território está ocupado mesmo sem a permanência do exército, Israel controla entradas e saídas. Desde 7 de outubro, mais de 2800 palestinianos foram mortos, dos quais 700 eram crianças e 500 mulheres. Há 50 mil grávidas em risco. Esta população já enfrentou guerras de grande escala com Israel em 2008, 2009, 2012, 2014, 2021 e 2022. Antes de 7 de outubro foram mortos pelo conflito em Gaza 4200 adultos e 1200 crianças. Agora, cerca de 100 escolas abrigam um milhão de deslocados, dezenas de milhares de habitações estão destruídas, hospitais saturados e sem medicamentos. Sem água, os palestinianos bebem a do mar, salinizada e contaminada. Israel impede a entrega de ajuda humanitária, os bombardeamentos terraplanam áreas civis. Independentemente da legitimidade de autodefesa de Israel contra o Hamas, sob o artigo 51 da Carta das Nações Unidas, esta operação militar viola os princípios da distinção, precaução e proporcionalidade. Deram a ordem de evacuação a um milhão pessoas no Norte da Faixa de Gaza, mas o Sul está a ser bombardeado e não tem hospitais. Há ocupação de grandes franjas do território palestiniano, 60% da Cisjordânia está anexada e o resto é controlado “de facto” por Israel, Jerusalém foi conquistada, agora pressupõe-se que será a Faixa de Gaza. Apesar de a limpeza ética não ser conceito jurídico, encapsula elementos legais, como atrocidades e intenções genocidas. Há precedente no Tribunal Penal Internacional para a Jugoslávia. Antes da fundação do Estado de Israel, os palestinianos foram deslocados à força pelo Mandato Britânico da Palestina. Israel já deslocara 350 mil entre maio e novembro de 1948, antes da guerra com os países árabes. Seguiram-se mais 400 mil. Quando se assinou o armistício em 1949, com o Líbano, Jordânia, Síria e Egipto, havia 750 mil palestinianos refugiados. Antes do Mandato Britânico, só 10% da população nesse território era judia. A limpeza étnica sob pretexto de guerra aconteceu em 1949, mas também em 1967, com a ocupação da Cisjordânia, Jerusalém Leste e a Faixa de Gaza, resultando na expulsão de 350 mil palestinianos que nunca puderam regressar. Agora, há esta ordem de evacuação dada a 1,1 milhões de pessoas para o Sul de Gaza. Porque não se abrem corredores humanitários através de Israel ou da Cisjordânia? Os palestinianos temem a continuação da Nakba. Métodos menos visíveis de ocupação têm sido usados por Israel: recusa de vistos de residência a palestinianos, expropriações de terra ou a violência dos colonos. Há vilas inteiras despovoadas.

Regressando ao presente conflito. Como avalia as posições políticas da comunidade internacional, das Nações Unidas, dos Estados Unidos e da União Europeia?
O secretário-geral tem a obrigação jurídica, moral e política de apelar a um cessar-fogo, é o coração das Nações Unidas, humanitarismo sem “mas”. Os Estados Unidos sempre foram um pilar de defesa e apoio de Israel em detrimento dos palestinianos e do bem-estar da região. Protegendo de escrutínio um empreendimento colonial, legitima-se a violência estrutural. Há uma linguagem desumanizante e sem precedentes contra os palestinianos. A tendência americana pró-Israel bloqueia resoluções da ONU e concede apoio incondicional, alheio às violações dos Direitos Humanos e do direito humanitário internacional. A União Europeia tem menos envolvimento no processo político da Palestina, só desde os Acórdãos de Oslo, e muitos Estados têm posições individuais. No entanto, as instituições europeias desenvolveram um mantra conjunto: a solução de dois Estados. Esta desmoronou-se debaixo dos seus olhos. É impossível quando um Estado insiste em colonizar o outro. A História impede estados europeus de condenarem Israel, sem compreenderem que o “nunca mais” se aplica a todos os povos. A comunidade internacional descobriu o valor do direito internacional na Ucrânia, com a anexação ilegal, os colonatos, a violação do direito de autodeterminação, o crime de agressão… nada disto se aplica aos palestinianos?

Relatora da ONU para a Palestina: “A operação militar viola os princípios da distinção, da precaução e da proporcionalidade” 

Considera que essas violações do direito internacional estão a ocorrer, agora, na Palestina?
Israel viola o direito humanitário internacional e as convenções de Genebra. Os colonatos são crime de guerra, a transferência forçada de população é crime de guerra, a não conceção de julgamentos justos e detenções arbitrárias em massa são crimes de guerra. Quando estas violações são integradas numa motivação mais ampla e sistemática, configuram um crime contra a Humanidade. Por exemplo, o cerco militar é uma punição coletiva e, se resultar numa crise de fome, é um crime de guerra; intencionalmente provocada, é um crime contra a Humanidade. O caso de genocídio contra a população palestiniana deve ser considerado.

A comunidade internacional baseia-se no direito de autodefesa de Israel para legitimar a operação. Este direito elimina o cumprimento dos outros?
Os ataques, assassínios e raptos de civis pelo Hamas são crimes de guerra hediondos. Os crimes do Hamas foram bárbaros e não representam os palestinianos. Israel impõe um regime de apartheid que segrega os palestinianos de Gaza dos da Cisjordânia, há uma violação do direito de autodeterminação, o direito desse povo de ser livre e digno. Os colonos e os soldados israelitas exercem violência contínua contra o povo palestiniano: 400 pessoas foram assassinadas nos primeiros seis meses do meu mandato. É evidente, que o Hamas cometeu crimes de guerra e Israel tem o direito a defender-se, mas que significa autodefesa? O uso de força deve ser justificado pela necessidade. Terraplanar Gaza não é legitimo, é desproporcional, não respeita o principio da distinção, é desnecessário e brutal. Em nenhum país seria possível o bombardeamento de edifício atrás de edifício. O Hamas surgiu 20 anos após a ocupação de Israel e teve a sua conivência para enfraquecer a Fatah. Há declarações políticas genocidas contra a Palestina há anos. “Animais, selvagens” é a narrativa padrão de Israel.

Adania Shibli, escritora

 

Considera que o uso de poderio militar de Israel contra a Palestina tem intenções secundárias?
Sim, é necessário ler este acontecimento num contexto. Os políticos israelitas querem terra sem pessoas, é uma questão demográfica. Não só lançaram a violência de guerra atrás de guerra, mas também a dos colonatos, a do exército, a dos burocratas, a dos assassínios diários. Há um milhão de palestinianos deslocados entre 1949 e 1967, que nunca receberam visto de residência. Como é que o bombardeamento de Gaza elimina o Hamas? Depois das guerras em 2008, 2012, 2014, o Hamas ficou enfraquecido? Venceu as eleições sob observação da União Europeia e ninguém se pronunciou. Os bombardeamentos distinguem os militantes do Hamas da população civil? Ou são atacados todos pela mesma medida?

Dada a situação em Gaza, qual é o ambiente na Cisjordânia?
Horrível, na última semana, 55 palestinianos foram assassinados por colonos acompanhados pelo exército. Os palestinianos são mortos e detidos arbitrariamente todos os dias. Há mais de 1200 em centros de detenção sem acusações formais, sem julgamento ou garantias de direito. Os dirigentes europeus veem em Israel a única democracia do Médio Oriente. É democracia para os judeus, mas é um Estado de apartheid para os árabes. Nos territórios ocupados da Palestina há uma ditadura militar.

Qual é a importância de um cessar-fogo?
É tudo, é essencial. As Nações Unidas têm de pedir um cessar-fogo e a comunidade internacional deve acompanhar essa posição. Depois, é preciso trabalhar a opressão do povo palestiniano, não há forma de paz sem parar a impunidade de Israel, é apartheid por definição: enquanto colonatos ilegais estão sob a lei civil, os palestinianos estão sob a lei militar. A obrigação da comunidade internacional é garantir o cumprimento do direito internacional, é o único instrumento que pode delimitar as ações políticas, a correção de abusos. O caso da Palestina é distópico.

 https://expresso.pt/politica/2023-10-19-Israel-Hamas-as-ligacoes-historicas-do-PCP-e-a-dificuldade-do-Bloco-em-ler-tentativas-de-clivagem-64b3846a


sábado, 23 de setembro de 2023

Sergei Lavrov - Discurso no Conselho de Segurança da ONU

 *  Sergei Lavrov [*


Sr. Presidente,
Senhor Secretário-Geral,
Colegas

A atual ordem internacional foi construída sobre as ruínas e na sequência da colossal tragédia da Segunda Guerra Mundial. Baseou-se na Carta das Nações Unidas, uma fonte fundamental do direito internacional moderno. Em grande parte graças à ONU, foi possível evitar uma nova guerra mundial, prenhe de uma catástrofe nuclear.

Infelizmente, após o fim da Guerra Fria, o "Ocidente coletivo", liderado pelos Estados Unidos, arrogou-se arbitrariamente o lugar de árbitro dos destinos de toda a humanidade e, dominado por um complexo de exclusividade, começou a ignorar cada vez mais o legado dos pais fundadores da ONU.

Hoje em dia, o Ocidente refere-se às normas e aos princípios estatutários de forma seletiva, de tempos a tempos, exclusivamente em função das suas necessidades geopolíticas egoístas. Isto conduz inevitavelmente ao enfraquecimento da estabilidade global, à exacerbação das atuais e ao incitamento de novos focos de tensão. Os riscos de conflito global também estão a aumentar. É precisamente para os travar, para encaminhar os acontecimentos numa direção pacífica, que a Rússia insistiu e insiste em que todas as disposições da Carta das Nações Unidas sejam respeitadas e aplicadas, não de forma seletiva, mas na sua totalidade e interligação, incluindo os princípios da igualdade soberana dos Estados, da não ingerência nos seus assuntos internos, do respeito pela integridade territorial e do direito dos povos à autodeterminação. As ações dos Estados Unidos e dos seus aliados indicam um desequilíbrio sistemático dos requisitos consagrados na Carta.

Desde o colapso da URSS e a formação de Estados independentes no seu lugar, os Estados Unidos e os seus aliados têm interferido de forma grosseira e aberta nos assuntos internos da Ucrânia. Como a secretária de Estado Adjunta dos EUA, Victoria Nuland, admitiu publicamente e até com orgulho no final de 2013, Washington gastou 5 mil milhões de dólares para alimentar políticos obedientes ao Ocidente em Kiev.

Todos os factos da "engenharia" da crise ucraniana são conhecidos há muito tempo, mas eles estão a tentar de todas as formas possíveis silenciar, "cancelar" toda a história até 2014. Por conseguinte, o tema da reunião de hoje, proposto pela Presidência albanesa, é muito oportuno e permite-nos recuperar a cadeia cronológica dos acontecimentos, e insere-se no contexto da atitude dos principais atores em relação à implementação dos princípios e objetivos da Carta das Nações Unidas.

Em 2004-2005, o Ocidente, com o objetivo de levar um candidato pró-americano ao poder, sancionou o primeiro golpe de Estado em Kiev, forçando o Tribunal Constitucional da Ucrânia a tomar uma decisão ilegal de realizar uma terceira volta de eleições não prevista na Constituição do país. Uma ingerência ainda mais descarada nos assuntos internos manifestou-se durante a segunda Maidan, em 2013-2014, quando toda uma série de voyageurs ocidentais encorajaram diretamente os participantes nas manifestações anti-governamentais a ações violentas. A mesma V. Nuland discutiu com o embaixador dos EUA em Kiev a composição do futuro governo, que será formado pelos golpistas. Ao mesmo tempo, indicou à União Europeia o seu verdadeiro lugar na política mundial, do ponto de vista de Washington. Todos nos lembramos da sua frase escabrosa de duas palavras. É significativo que a União Europeia a tenha "engolido".

Em fevereiro de 2014, as personagens selecionadas pelos americanos tornaram-se participantes-chave na sangrenta tomada do poder, organizada, recordo, um dia depois do acordo alcançado entre o Presidente legitimamente eleito da Ucrânia, Viktor Yanukovych, e os líderes da oposição, sob as garantias da Alemanha, Polónia e França. O princípio da não ingerência nos assuntos internos foi repetidamente espezinhado.

Imediatamente após o golpe, os golpistas declararam que a sua prioridade absoluta era restringir os direitos dos cidadãos ucranianos de língua russa. E os habitantes da Crimeia e do sudeste do país, que se recusaram a aceitar os resultados da tomada inconstitucional do poder, foram declarados terroristas, tendo sido lançada uma operação punitiva contra eles. Em resposta, a Crimeia e o Donbass realizaram referendos em plena conformidade com o princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos, consagrado no nº 2 do artigo 1.

Os diplomatas e políticos ocidentais, em relação à Ucrânia, fecham os olhos a esta norma mais importante do direito internacional, num esforço para reduzir todo o contexto e a essência do que está a acontecer à inadmissibilidade de violar a integridade territorial. A este respeito, gostaria de recordar que a Declaração das Nações Unidas de 1970 sobre os Princípios do Direito Internacional relativos às Relações Amistosas e à Cooperação entre os Estados, em conformidade com a Carta das Nações Unidas, adotada por unanimidade, estipula que o princípio do respeito pela integridade territorial é aplicável aos "Estados que observam nas suas ações o princípio da igualdade de direitos e da autodeterminação dos povos (...) e, consequentemente, têm governos que representam (...) todas as pessoas que vivem no território". O facto de os neonazis ucranianos que tomaram o poder em Kiev não representarem a população da Crimeia e do Donbass não precisa de ser provado. E o apoio incondicional das capitais ocidentais às ações do regime criminoso de Kiev não é mais do que uma violação do princípio da autodeterminação na sequência de uma interferência grosseira nos assuntos internos.

Na sequência do golpe de Estado durante o reinado de Petr Poroshenko e depois de Vladimir Zelensky, a adoção de leis racistas que proibiam tudo o que era russo – educação, meios de comunicação social, cultura, destruição de livros e monumentos, proibição da Igreja Ortodoxa Ucraniana e confiscação dos seus bens – constituiu uma violação desafiadora do n.º 3 do artigo 1.º da Carta das Nações Unidas sobre o respeito dos direitos humanos e das liberdades fundamentais para todos – sem distinção de raça, sexo, língua ou religião. Para não falar do facto de estas ações contradizerem diretamente a Constituição da Ucrânia, que consagra a obrigação do Estado de respeitar os direitos dos russos e de outras minorias nacionais.

Quando ouvimos apelos à aplicação da "fórmula de paz" e ao regresso da Ucrânia às fronteiras de 1991, coloca-se a questão: será que aqueles que apelam a esta medida estão familiarizados com as declarações dos dirigentes ucranianos sobre o que vão fazer com os habitantes dos respectivos territórios? Ameaças de extermínio legal ou físico são-lhes repetidamente dirigidas publicamente, a nível oficial. O Ocidente não só não reprime os seus protegidos em Kiev, como também encoraja entusiasticamente as suas políticas racistas.

Aliás, de forma semelhante, os membros da UE e da NATO têm vindo a encorajar, há décadas, as ações da Letónia e da Estónia para derrotar os direitos de centenas de milhares de residentes de língua russa que foram apelidados de "não cidadãos". Agora, estão a discutir seriamente a introdução da responsabilidade penal pela utilização da língua materna. Altos funcionários declaram oficialmente que a divulgação de informação sobre a possibilidade de os estudantes locais passarem nos programas de ensino à distância em russo deve ser considerada quase como uma ameaça à segurança nacional e requer a atenção das autoridades policiais.

Voltando à Ucrânia. A conclusão dos acordos de Minsk, em fevereiro de 2015, foi aprovada por uma resolução especial do Conselho de Segurança - em total conformidade com o artigo 36º da Carta, que apoia "qualquer procedimento de resolução de litígios que tenha sido aceite pelas partes". Neste caso, Kiev, a DPR e a LPR. No entanto, no ano passado, todos os signatários dos Acordos de Minsk, exceto Vladimir Putin (Angela Merkel, François Hollande e Petr Poroshenko), admitiram publicamente e até de bom grado que, quando assinaram este documento, não tinham qualquer intenção de o cumprir. Apenas procuravam ganhar tempo para reforçar o potencial militar da Ucrânia e enchê-la de armas contra a Rússia. Durante todos estes anos, a UE e a NATO apoiaram diretamente a sabotagem dos acordos de Minsk, pressionando o regime de Kiev a resolver o "problema do Donbass" pela força. Isto foi feito em violação do artigo 25º da Carta, segundo o qual todos os membros da ONU são obrigados a "obedecer às decisões do Conselho de Segurança e a executá-las".

Recordo que, no pacote dos acordos de Minsk, os líderes da Rússia, Alemanha, França e Ucrânia assinaram uma declaração em que Berlim e Paris se comprometeram a fazer bastante, incluindo ajudar a restaurar o sistema bancário no Donbass. Mas não mexeram um dedo. Acabámos de ver como, contrariamente a todas estas obrigações, Pavel Poroshenko anunciou um bloqueio comercial, económico e de transportes ao Donbass. Na mesma declaração, Berlim e Paris comprometeram-se a promover o reforço da cooperação trilateral no formato UE-Rússia-Ucrânia para uma solução prática para as preocupações comerciais da Rússia, bem como a promover "a criação de um espaço humanitário e económico comum do Atlântico ao Oceano Pacífico". Esta declaração foi também aprovada pelo Conselho de Segurança e estava sujeita a implementação de acordo com o já referido artigo 25º da Carta das Nações Unidas. Mas este compromisso dos dirigentes da Alemanha e da França revelou-se uma "farsa", mais uma violação dos princípios estatutários.

O lendário ministro dos Negócios Estrangeiros da URSS, A.A. Gromyko, observou, com razão, mais do que uma vez: "dez anos de negociações são melhores do que um dia de guerra". Seguindo este preceito, negociámos durante muitos anos, procurámos acordos no domínio da segurança europeia, aprovámos o Ato Fundador NATO-Rússia, adotámos as declarações da OSCE sobre a indivisibilidade da segurança ao mais alto nível em 1999 e 2010 e, desde 2015, insistimos na aplicação incondicional dos acordos de Minsk resultantes das negociações. Tudo isto está em plena conformidade com a Carta das Nações Unidas, que exige "proporcionar condições para a justiça e o respeito pelas obrigações decorrentes de tratados e outras fontes do direito internacional". Os nossos colegas ocidentais espezinharam este princípio quando assinaram todos estes documentos, sabendo de antemão que não os iriam cumprir.

Falando de negociações. Continuamos a não as abandonar. O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, falou sobre isso muitas vezes, inclusive muito recentemente. Gostaria de recordar ao ilustre secretário de Estado que o Presidente da Ucrânia, Vladimir Zelensky, assinou um decreto que proíbe as negociações com o Governo de Vladimir Putin. Se os Estados Unidos estão tão interessados nelas, penso que não será difícil "dar a ordem" para que a ordem executiva de Vladimir Zelensky seja cancelada.

Atualmente, na retórica dos nossos adversários, só ouvimos slogans: "invasão, agressão, anexação". Nem uma palavra sobre as causas profundas do problema, sobre como durante muitos anos alimentaram o regime abertamente nazi, reescrevendo abertamente os resultados da Segunda Guerra Mundial e a história do seu próprio povo. O Ocidente evita uma conversa substantiva baseada em factos e no respeito por todos os requisitos da Carta das Nações Unidas. Aparentemente, não tem argumentos para um diálogo honesto.

Há uma forte impressão de que os representantes ocidentais têm medo de discussões profissionais que exponham a sua demagogia. Proferindo encantamentos sobre a integridade territorial da Ucrânia, as antigas metrópoles coloniais calam-se perante as decisões da ONU sobre a necessidade de Paris devolver o Mayotte "francês" à União das Comores, e de Londres abandonar o arquipélago de Chagos e iniciar negociações com Buenos Aires sobre as ilhas Malvinas. Estes "campeões" da integridade territorial da Ucrânia fingem agora que não se lembram do significado dos acordos de Minsk, que consistiam na reunificação do Donbass com a Ucrânia, com garantias de respeito pelos direitos humanos fundamentais, principalmente o direito à sua língua materna. O Ocidente, que impediu a sua aplicação, é diretamente responsável pelo colapso da Ucrânia e pelo incitamento à guerra civil no país.

Entre outros princípios da Carta das Nações Unidas, cujo respeito poderia evitar uma crise de segurança na Europa e contribuir para harmonizar as medidas de confiança baseadas num equilíbrio de interesses, gostaria de referir o artigo 2º do capítulo VIII da Carta. Este artigo consagra a necessidade de desenvolver a prática da resolução pacífica de litígios com a ajuda de organizações regionais.

De acordo com este princípio, a Rússia, juntamente com os seus aliados, tem defendido consistentemente o estabelecimento de contactos entre a CSTO e a NATO, a fim de facilitar a implementação prática das decisões acima mencionadas das cimeiras da OSCE de 1999 e 2010 sobre a indivisibilidade da segurança, que estipulam, em particular, que "a nenhum Estado, grupo de Estados ou organização pode ser atribuída a responsabilidade primária pela manutenção da paz e da estabilidade na área da OSCE ou considerar qualquer parte desta região como sua esfera de influência". Todos sabem que era exatamente isto que a NATO estava a fazer – a tentar criar a sua vantagem total na Europa e agora na região da Ásia-Pacífico. No entanto, foram ignorados numerosos apelos dos mais altos órgãos da CSTO à Aliança do Atlântico Norte. A razão para uma posição tão arrogante dos Estados Unidos e dos seus aliados, como toda a gente pode ver hoje em dia, é a falta de vontade de conduzir um diálogo igualitário com quem quer que seja. Se a NATO não tivesse rejeitado as propostas de cooperação da CSTO, talvez isso tivesse evitado muitos dos processos negativos que conduziram à atual crise europeia, devido ao facto de a Rússia se ter recusado a ouvir ou ter sido enganada durante décadas.

Hoje, quando estamos a discutir o "multilateralismo efetivo" por sugestão da Presidência, não devemos esquecer os numerosos factos da rejeição genética do Ocidente a qualquer forma de cooperação igualitária. Que pérola a de Josep Borrell de que a Europa é "um jardim florido rodeado de selva". Trata-se de um síndroma puramente neocolonial que despreza a igualdade soberana dos Estados e as tarefas de "reforço dos princípios da Carta das Nações Unidas através de um multilateralismo efetivo" que estão hoje em dia em evidência no nosso debate.

Numa tentativa de impedir a democratização das relações interestatais, os Estados Unidos e os seus aliados privatizam cada vez mais, de forma aberta e sem cerimónias, os secretariados das organizações internacionais, contornando os procedimentos estabelecidos para as decisões sobre a criação de mecanismos subordinados com mandatos não consensuais, mas com a pretensão de se arrogarem o direito de culpar aqueles que, por qualquer razão, não agradam a Washington.

A este respeito, gostaria de vos recordar a necessidade de uma aplicação rigorosa da Carta das Nações Unidas, não só pelos Estados membros, mas também pelo Secretariado da nossa organização. Nos termos do artigo 100º da Carta, o Secretariado deve atuar com imparcialidade e não deve receber instruções de nenhum governo.

Já falámos do artigo 2º da Carta. Gostaria de chamar a atenção para o seu ponto-chave 1: "A Organização baseia-se no princípio da igualdade soberana dos Estados de todos os seus membros". Desenvolvendo este princípio, a Assembleia Geral da ONU, na Declaração de 24 de outubro de 1970 que mencionei, reafirmou "o direito inalienável de cada Estado de escolher o seu próprio sistema político, económico, social e cultural sem interferência de qualquer parte". A este respeito, temos sérias dúvidas quanto às declarações do Secretário-Geral António Guterres, de 29 de março, segundo as quais "o regime autocrático não garante a estabilidade, é um catalisador do caos e do conflito", mas "as sociedades democráticas fortes são capazes de se auto-corrigir e de se auto-aperfeiçoar. Podem estimular mudanças, mesmo radicais, sem derramamento de sangue ou violência". Involuntariamente, lembramo-nos das "mudanças" provocadas pelas aventuras agressivas das "democracias fortes" na Jugoslávia, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria e em muitos outros países.

Mais adiante, o estimado António Guterres afirmou que: "Elas (as democracias) são centros de ampla cooperação enraizados nos princípios da igualdade, da participação e da solidariedade". É digno de nota que todos estes discursos foram proferidos na "cimeira para a democracia" convocada pelo Presidente Joe Biden fora da ONU, cujos participantes foram selecionados pela administração dos EUA com base na lealdade – e não tanto a Washington como ao Partido Democrata no poder nos Estados Unidos. As tentativas de utilizar esses fóruns de encontro para discutir questões de natureza global contradizem diretamente o nº 4 do artigo 1º da Carta das Nações Unidas, que afirma a necessidade de "assegurar o papel da Organização como centro de coordenação de ações para atingir objetivos comuns".

Contrariamente a este princípio, há alguns anos, a França e a Alemanha proclamaram uma "aliança de multilateralistas", para a qual também convidaram apenas os obedientes, o que, por si só, reafirma a inevitabilidade da mentalidade colonial e a atitude dos iniciadores em relação ao princípio do "multilateralismo efetivo", hoje na ordem do dia. Ao mesmo tempo, foi implantada uma "narrativa" sobre a União Europeia como o ideal desse mesmo "multilateralismo". Bruxelas apela agora a que se alargue o mais rapidamente possível o número de membros da UE, incluindo, em particular, os países dos Balcãs. Mas o pathos principal não é o da Sérvia, nem o da Turquia, que há décadas conduz negociações de adesão sem esperança, mas o da Ucrânia. Afirmando-se como o ideólogo da integração europeia, Josep Borrell não hesitou recentemente em pronunciar-se no sentido de que o regime de Kiev deveria ser admitido na União Europeia tão logo quanto possível. Digamos que, se não fosse por causa da guerra, teria demorado anos, e desse modo– é possível e necessário sem quaisquer critérios. A Sérvia, a Turquia e outros ficarão à espera. Mas os nazis são aceites nas fileiras da UE sem entrar na fila.

Aliás, na mesma "cimeira para a democracia", o Secretário-Geral proclamou: "A democracia tem origem na Carta das Nações Unidas. As primeiras palavras da Carta – "Nós, os povos" – refletem uma fonte fundamental de legitimidade: o consentimento dos governados. É útil correlacionar esta tese com o "historial" do regime de Kiev, que desencadeou uma guerra contra uma grande parte do seu próprio povo – contra os milhões de pessoas que não aceitaram serem controladas pelos neonazis e russófobos que tomaram ilegalmente o poder no país e enterraram os acordos de Minsk aprovados pelo Conselho de Segurança da ONU, minando assim a integridade territorial da Ucrânia.

Aqueles que, contrariamente à Carta das Nações Unidas, dividem a humanidade em "democracias" e "autocracias", fariam bem em responder à pergunta: a que categoria atribuem o regime ucraniano? Não estou à espera de uma resposta.

Falando dos princípios da Carta, coloca-se a questão da relação entre o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral. O "coletivo ocidental" tem promovido agressivamente e há muito tempo o tópico do "abuso do direito de veto" e conseguiu – através de uma pressão não muito correta sobre outros membros da ONU –uma decisão de considerar o tópico relevante na Assembleia Geral após cada aplicação deste direito, o qual o Ocidente está a provocar cada vez mais deliberadamente. Isto não é um problema para nós. As abordagens da Rússia a todas as questões da ordem do dia são abertas, não temos nada a esconder e não é difícil voltar a afirmar esta posição. Além disso, o recurso ao veto é um instrumento absolutamente legítimo, previsto na Carta, para evitar a adoção de decisões que poderiam provocar uma cisão na Organização. Mas, uma vez que o procedimento para discutir o uso do veto na Assembleia Geral foi aprovado, por que não pensar nas resoluções do Conselho de Segurança que não foram vetadas, que foram adotadas, inclusive há muitos anos, mas que não foram implementadas, apesar das disposições do artigo 25º da Carta. Porque é que a Assembleia Geral não considera as razões para este estado de coisas – por exemplo, no que diz respeito às resoluções do Conselho de Segurança sobre a Palestina e sobre toda a gama de problemas do Médio Oriente e Norte da África, sobre o JCPOA, bem como a Resolução 2202, que aprovou os acordos de Minsk sobre a Ucrânia.

O problema associado aos regimes de sanções também requer atenção. Já se tornou a norma: o Conselho de Segurança, após longas negociações – em estrita conformidade com a Carta – aprova sanções contra um país específico e, em seguida, os Estados Unidos e os seus aliados impõem restrições unilaterais "adicionais" contra o mesmo Estado que não foram aprovadas pelo Conselho de Segurança e não estão incluídas na sua resolução como parte do "pacote" acordado. Na mesma série, outro exemplo flagrante é a decisão que Berlim, Paris e Londres acabam de tomar, através das suas legislações nacionais, de "prorrogar" as restrições ao Irão que expiram em outubro e que estão sujeitas a um termo legal, de acordo com a Resolução 2231 do Conselho de Segurança da ONU. Ou seja, os países europeus e o Reino Unido declaram que a decisão do Conselho de Segurança expirou, mas não se preocupam com isso, têm as suas próprias "regras".

Tudo isto torna ainda mais urgente considerar a questão de que, após a adoção pelo Conselho de qualquer resolução de sanções, nenhum dos membros da ONU teria o direito de a desvalorizar, impondo as suas próprias restrições ilegítimas contra o mesmo país.

É igualmente importante que todos os regimes de sanções do Conselho de Segurança sejam limitados no tempo, uma vez que o seu carácter indefinido priva o Conselho de flexibilidade em termos de influência sobre as políticas dos "governos sancionados".

O tema dos "limites humanitários das sanções" também requer atenção. Seria correto que quaisquer sanções a submeter ao Conselho de Segurança fossem acompanhadas de avaliações das suas consequências para os cidadãos através das agências humanitárias da ONU, em vez de exortações demagógicas dos nossos colegas ocidentais [a dizerem] que "as pessoas comuns não sofrerão".

Caros colegas,
Os factos falam da mais profunda crise nas relações internacionais e da falta de desejo e vontade por parte do Ocidente para ultrapassar esta crise.

Espero que ainda exista e seja encontrada uma saída para esta situação. Para começar, todos têm de assumir a responsabilidade pelo destino da nossa Organização e do mundo – num contexto histórico, e não do ponto de vista de alinhamentos eleitorais oportunistas e momentâneos nas próximas eleições nacionais de um Estado-Membro. Permitam-me que vos recorde mais uma vez: há quase 80 anos, ao assinarem a Carta das Nações Unidas, os líderes mundiais concordaram em respeitar a igualdade soberana de todos os Estados – grandes e pequenos, ricos e pobres, monarquias e repúblicas. Por outras palavras, já nessa altura, a humanidade reconhecia a necessidade de uma ordem mundial igualitária e policêntrica como garantia da estabilidade e da segurança do seu desenvolvimento.

Por isso, hoje não se trata de nos submetermos a uma qualquer "ordem mundial baseada em regras", mas sim de cumprirmos com todas as obrigações assumidas aquando da assinatura e ratificação da Carta na sua totalidade e interligação.

21/Setembro/2023

[*] Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação Russa.

Ver também:

A versão em inglês encontra-se em karlof1.substack.com/p/lavrovs-devastating-unsc-presentation.

Este artigo encontra-se em resistir.info