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domingo, 9 de fevereiro de 2025

Alexandra Lucas Coelho - Gaza voltou a casa, estropiada, épica. A Europa perdeu a II Guerra em Gaza





* Alexandra Lucas Coelho

Dezenas de prisioneiros palestinianos, incluindo gente sem culpa formada, ou seja reféns, foram libertados na Cisjordânia pelas trocas do cessar-fogo. Em geral maltratados, com marcas de tortura, alguns lembrando os sobreviventes do Holocausto. E recebendo um milésimo da comoção mundial que rodeia os reféns do Hamas.» Para um “ocidente” em plena miséria moral, nem gente serão. Tal como para Trump são empecilhos a remover de vez, para construir uma “nova riviera” sobre os seus cadáveres. Mas o heroísmo palestiniano não será vencido, nem a solidariedade dos povos do mundo o abandonará.


1. Precisamos de ir à Bíblia, ao que só imaginamos ou nos assombra, para dar conta do que aconteceu esta segunda-feira, 27 de Janeiro de 2025, em directo nos nossos ecrãs, na nossa mão. Um povo —os palestinianos — a caminhar ao longo do Mediterrâneo, naquela faixa litorânea que todos os antigos povos do Mediterrâneo percorreram, e está na Bíblia com o nome que tem até hoje: Gaza. Não era mais uma réplica do Êxodo. Nem do êxodo mítico de Israel, nem do êxodo que vimos com os nossos olhos em Outubro de 2023, quando esse mesmo povo— os palestinianos — foram forçados por Israel a deixar o Norte de Gaza com crianças, bebés, grávidas, velhos, doentes, estropiados, incluindo o meu amigo W, como contei no primeiro texto a seguir ao 7 de Outubro. Um êxodo que retomou a Nakba (Catástrofe) de 1948, desdobrando-se em deslocações sucessivas nos últimos 15 meses e meio.

O que se deu agora foi o contra-êxodo. Meio milhão de palestinianos dentro de carros, carrinhas, carroças mas sobretudo apeados. Eram eles mesmos, com os seus corpos, a Faixa de Gaza — ou a nossa mais épica Faixa Humana —, caminhando de volta a casa, quilómetros. E levavam a chave ao pescoço, levavam lenços, bandeiras, tambores, pandeiretas. Cantavam de alegria, beijavam o chão. Agradeciam ter vivido para voltar. Muitos não tinham água nem comida, nem pernas para muito. Nem pernas, alguns. Infinitamente mais estropiados do que há 15 meses e meio. Todos viveram um holocausto, ficaram órfãos de alguém, e sabiam que voltavam para a ruína, da própria casa ou do que havia em volta. Mas uma mulher dizia: a nossa alegria é mais importante do que a casa. E uma menina que perdera o pai: hoje é o dia mais importante da história do mundo. E aquele futebolista que nasceu para ser pai: é o mais belo regresso a casa. Vi, no último ano, pelo Instagram, as filhas dele crescerem dentro da tenda. A mais nova a gatinhar, depois a andar, de repente dois dentes. Sempre a rir, incrivelmente a rir. Até ao dia em que o pai desencantou uns dinossauros pequeninos, e ela chorou aterrorizada porque nunca vira um boneco. Então ali estava ela, radiante às cavalitas do pai, a subir a Faixa de Gaza a pé, entre trincheiras e arame farpado. E Bisan Owda, que aos vinte e tal anos atravessou um genocídio a falar connosco, a levantar os humanos do chão porque víamos Gaza com ela, e porque a víamos a ela, Bisan disse: eu estava a sobreviver para este momento. Ela cruzara o Corredor de Netzarim com que Israel dividira o Sul e o Norte, matando quem se aproximasse. Cruzara de sul para norte com meio milhão de pessoas. Que talvez amanhã não possam dizer: ainda estou viva. Mas hoje podem, dizem, abrem a porta da ruína, montam uma tenda onde era a casa, respondem a Trump. Não serão “limpos”.

2. Egipto e Jordânia não querem dois milhões de palestinianos. Nem um milhão, nem nenhum. Trump garante que os dobra, aos egípcios, aos jordanos (“Vão fazê-lo.”). Não sabemos até onde isto pode ir, mas nos últimos dias Steve Witkoff — o magnata do imobiliário que Trump transformou em negociador tipo máfia (assina o cessar-fogo, para teu bem) — já foi à Arábia Saudita, a Israel e a normalização está aí a apitar. Trump vai receber Netanyahu, e mandou-lhe as bombas de destruição máxima que Biden embargara para não dar estrilho, enquanto continuava a mandar outras. Trump é a própria patente do estrilho para os próximos quatro anos. O seu novo embaixador em Israel diz que não há palestinianos, nem ocupação. A sua nova embaixadora na ONU diz que Israel tem direito bíblico à Cisjordânia.

E, a propósito de Cisjordânia, enquanto15 reféns já foram libertados em Gaza (incluindo cinco soldadas israelitas), felizmente muito mais saudáveis do que o mundo imaginava, Israel aproveitou para arrasar o campo de refugiados de Jenin. Não sem uma ajuda miserável da Autoridade Palestiniana. Milhares de desalojados. Mas além de Jenin, as forças de Israel têm atacado outras partes da Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Enquanto os colonos tratam de muitas outras, incendiando aldeias, casas, carros. Tudo isto desde o cessar-fogo. Que também vigora no Líbano, que também é bombardeado. Ao mesmo tempo, dezenas de prisioneiros palestinianos, incluindo gente sem culpa formada, ou seja reféns, foram libertados na Cisjordânia pelas trocas do cessar-fogo. Em geral maltratados, com marcas de tortura, alguns lembrando os sobreviventes do Holocausto. E recebendo um milésimo da comoção mundial que rodeia os reféns do Hamas. Aquela organização que Israel ia extinguir mas tem exibido milhares de homens armados a cada libertação de reféns. Quem conhece a Palestina sabe que o Hamas não vai ser extinto à bomba. Só é possível esvaziá-lo: se a Palestina for livre. Familiares de reféns israelitas imploram, entretanto, a Trump e ao Governo de Israel que a guerra não recomece até ao último refém ser libertado. Como se em Gaza os únicos humanos fossem os reféns. Famílias israelitas amorosas dos seus (e dos restantes israelitas), bravas lutadoras pelos seus (e pelos restantes israelitas). Israel é um país dividido, convulso. Mas destes 15 meses e meio emergiu uma grande maioria, mais clara do que nunca: a dos que não vêem, ou não querem ver, os palestinianos. Desumanizaram-nos. Viram que Israel pode fazer o que quer, matar com inteligência artificial, negar as evidências de genocídio, torturar nas cadeias, colonizar mais, anexar e safar-se sem sanções. E nos próximos quatro anos Israel tem Trump. Está em velocidade de cruzeiro na alienação.

Mas qualquer judeu consciente, em Israel ou no mundo, sabe que os últimos 15 meses e meio marcam a história dos judeus para sempre. O Estado de Israel fortaleceu-se contra a vergonha de os judeus não terem resistido quando eram perseguidos (ou, pior, terem colaborado). Mas há a vergonha em curso, de se continuar a fortalecer à custa de ser o mais forte, enquanto destrói outro povo.

3. Essa é uma das razões por que a Europa perdeu, simbolicamente, a Segunda Guerra em Gaza. Perdeu-a por ter deixado Israel fazer tudo o que fez desde 7 de Outubro, e por ter colaborado no genocídio mesmo. A Europa que foi gerando o Estado de Israel, pelo anti-semitismo de séculos, pelo sionismo desde o fim do século XIX e enfim pela sua culpa no Holocausto, é a mesma Europa que perdeu a guerra nas ruínas de Gaza. Como se a Segunda Guerra nunca tivesse acabado até agora.

Pensei nisto há dias, ao ouvir poemas de Primo Levi no lançamento da tradução portuguesa (A Uma Hora Incerta, Edições do Saguão). Primo Levi é aquele sobrevivente de Auschwitz que a maioria hoje no poder em Israel vê (ou ignora) como se ele não tivesse continuado a pensar. Mas ele continuou por mais de 20 anos, o bastante para ter dito coisas que hoje seriam chaves para Israel ver o seu próprio buraco, se fosse capaz.

Os 80 anos da libertação de Auschwitz celebraram-se justamente na segunda-feira em que meio milhão de palestinianos voltavam a casa —mas não para a liberdade. Os polacos estenderam a passadeira a Netanyahu, mas ele não esteve para isso (além de que tinha um julgamento). E o que seria preciso dizer nesse dia em relação a Gaza não foi dito pela Europa, mais uma vez.

Salvam-se as excepções do costume. Como a Espanha, que anunciou 50 milhões extras para a UNRWA, essa agência criada depois da Segunda Guerra para assistir os palestinianos que o mundo abandonara. Ontem Alemanha, França, Reino Unido fizeram uma declaração de apoio à UNRWA, banida por Israel desde quinta-feira, e apelando a Israel para que isso nãose concretize. Com que pressões? Que sanções?

Pior só a última declaração de Rangel, a dizer que Portugal se mantém na sua posição “tradicional” dos dois Estados, mas não é oportuno reconhecer a Palestina. Para o poço sem fim da vergonha. O contrário da coragem palestiniana.

Fonte: “Público”, 1.02.2025 
https://www.odiario.info/gaza-voltou-a-casa-estropiada-epica/

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Hugo Dionísio - Trump mostra a face imperial que era suposto permanecer escondida

* Hugo Dionísio 

 Trump faz tudo por apresentar-se como o “real deal”, ao invés do “politicamente correcto” que caracteriza a, igualmente bárbara, atitude liberal e neoliberal. Sob Trump todos podemos aceder ao privilégio de vermos o império em toda a sua brutalidade e visceralidade, sem máscaras comportamentais, sem filtros emocionais.

As reacções de estupefacção, repúdio e algum desconforto que se propagaram pela imprensa mainstream, a propósito das declarações de Donald Trump, quanto à tomada da Groenlândia à força, do canal do Panamá e mesmo do Canadá, enfermam, na sua maioria, da mais desavergonhada hipocrisia, enormes doses de ilusão e inaceitável ignorância, especialmente por parte daqueles que fazem da sua vida dizer aos outros o que pensar, pressupondo-se que, para tal, estivessem em posse de um nível de informação acima da média.

Face ao que tem constituído, desde a sua fundação, o comportamento dos Estados Unidos da América, dos seus presidentes, órgãos de soberania e daquelas que actuam como os seus principais tentáculos, dentro e além-fronteiras, falo das corporações multinacionais, afinal, em que destoa o comportamento de Donald Trump? É nova esta postura por parte de um presidente dos EUA?

Voltámos ao tempo do “politicamente incorrecto”, da falta de polidez e educação, máscaras utilizadas para criar a ideia de que a elite norte-americana tem em atenção as pretensões alheias, cumpre o direito internacional e respeita a soberania das outras nações? Temos de assistir, outra vez, à reedição do desfile moralista que caracterizou o primeiro mandato, mesmo que acabassem todos, não apenas a fazer o que ele disse, mas, mais importante ainda, a não desfazer o que foi feito?

Donald Trump, como se verá mais tarde, apenas dá voz e corpo ao poder que julga e, de algum modo sabe, ter na mão, fazendo-o da forma mais directa, pragmática e brutal que é seu jeito. Que foi jeito de muitos ao longo da história dos EUA. Inclusive de Biden. Trump faz tudo por apresentar-se como o “real deal”, ao invés do “politicamente correcto” que caracteriza a, igualmente bárbara, atitude liberal e neoliberal. Sob Trump todos podemos aceder ao privilégio de vermos o império em toda a sua brutalidade e visceralidade, sem máscaras comportamentais, sem filtros emocionais.

O que antes estava vedado senão a uma elite de comando ou aos teimosos que insistem em assumir uma postura crítica em relação a qualquer facto, ideia ou informação que lhes surja, passa agora a desvelar-se a todo o povo. Nesse sentido, a atitude de Trump é mais democratizadora, ou seja, mais mobilizadora da acção democrática, no sentido em que activa, exorta e suscita a acção de resposta a um grupo social muito mais vasto, antes adormecido pela polidez, inocuidade e falsidade da atitude política situacionista.

Será a proposta de Trump assim tão diferente de outras anexações que os EUA foram fazendo ao longo da sua curta, mas intensa história? Seriam os EUA a superpotência que hoje são se, em meados do século XIX, não tivessem anexado o Texas, tornando-o no 28.º Estado? Ou a Califórnia? Estados cuja partição deu ainda origem a Arizona, Colorado, Nevada, Novo México e Utah?

E quem foi o senhor responsável por tal anexação? Um Republicano? Nem por isso. O responsável foi o democrata James K. Polk, eleito como 11.º presidente dos EUA, tendo como objectivo a anexação do Texas, Califórnia e Oregon. É claro que se tratava do Partido democrata recém-criado, intrinsecamente liberal e pré-guerra civil. Mas o processo não difere substancialmente do intervencionismo norte americano, às mãos de democratas e republicanos, nos últimos 80 anos. Para tal bastou enviar uns colonos para esses locais, financiar a sua revolta e aplicar o chamado “Corolário Polk”, segundo o qual os EUA incorporariam os territórios cujos “povos” quisessem – mui “democraticamente” – a eles juntar-se. Os “povos”, portanto).

Importa ainda referir que a doutrina do “Destino Manifesto” era defendida essencialmente pelo próprio partido democrata, fundado em 1828. Foi com base nesta doutrina que se justificou a guerra contra o México que acabou com a conquista dos territórios atrás referidos. Ao contrário, os Whigs, estavam contra o intervencionismo externo, principalmente no que tinha a ver com os colonizadores europeus. E não será a atitude de Trump um corolário da aplicação, sem máscaras, da Doutrina Monroe? A doutrina, segundo a qual, a América Latina foi classificada como “o pátio das traseiras” dos EUA?

Convenhamos que o expansionismo norte-americano não se ficou por aqui, chegando a Porto Rico, território no qual os EUA praticaram todo o tipo de barbaridades para impedir a autodeterminação daquele povo, o qual apoiava esmagadoramente o Partido Nacionalista de Porto Rico (War against all Puerto Ricans, revolution and terror in America’s colony, de Nelson A. Denis), mantendo-se até hoje aquele território como uma colónia. Os povos indígenas terão centenas, senão milhares, de histórias iguais à de Trump. Trump é, na realidade, um presidente realmente americano.

Já na actualidade, nada mudou, a não ser a capacidade propagandística, beneficiando amplamente dos conhecimentos científicos na área da comunicação e propaganda. Os exemplos de anexação são profusos, sendo a Síria apenas mais um exemplo. Foi com Obama que chegaram as tropas norte-americanas à Síria, nomeadamente a partir de 22 de Setembro de 2014, supostamente para combater o ISIS, embora se saiba que, no essencial, as tropas enviadas por Obama estiveram no local a formar, treinar e mobilizar, o que designaram como “Exercito Livre da Síria” e os seus “rebeldes moderados”). Em 2019, foi Trump quem desmobilizou as tropas na Síria, tendo deixado algumas para trás, segundo ele para “ficar com o Petróleo”.

Interessante, ou apenas mais um exemplo do porquê de toda esta atitude face a Trump ser de uma hipocrisia monumental, é que Joe Biden, após cumprir um mandato inteiro, não apenas não desocupou o território sírio ilegalmente ocupado, como ainda teve papel fundamental, no apoio à Turquia, para destruir esta nação, criando condições para uma permanência mais prolongada e enraizada pelos EUA. Tão pouco acabou com o roubo descarado do petróleo.

Portanto, a verdade aqui é muito simples: Trump, como Bush pai, como Bush filho, foram apenas as caras feias a quem os democratas – defensores do destino manifesto dos EUA, do globalismo e do intervencionismo – acusaram de praticar os actos que, mais tarde, os próprios democratas não apenas consolidaram, como aprofundaram. Com a excepção do Afeganistão, de onde Biden retirou, o normal são os democratas, os seus discípulos e procuradores na europa, Austrália, Japão, Coreia do Sul e Nova Zelândia, atirarem as culpas do intervencionismo aos republicanos, mas os democratas, tal como os republicanos, não apenas não desfazem, como continuam e aprofundam tais políticas.

O exemplo do Afeganistão está para Biden como a retirada do Iraque está para Trump. Se Trump não retirou totalmente, tal deveu-se, uma vez mais, ao petróleo. Biden, mesmo depois de o parlamento Iraquiano ter votado a saída das tropas americanas, continuou a resistir à retirada das mesmas.

As frentes internacionais abertas por Trump, nenhuma foi encerrada por Biden. A guerra tecnológica contra a Huawei, foi intensificada e alargada por Biden a outras empresas e tecnologias, e idem para a guerra comercial. Ao contrário de Trump, que no seu primeiro mandato conseguiu dialogar com Vladimir Putin, Biden recusou-se a qualquer contacto e, à boa maneira democrata, aprofundou os fossos relacionais com um país tão importante como a Federação Russa, criando uma crise de segurança internacional que há muito tempo não se vivia.

Foi também sob a “liderança” do Partido Democrata que a NATO destruiu a Jugoslávia, foi com Biden que ocorreu o primeiro genocídio televisionado e online da história humana, em Gaza. Aliás, se existe figura proeminente e presente no intervencionismo norte-americano nos últimos 30 a 40 anos, essa figura é Joe Biden, braço direito de Bill e Hillary Clinton ou Barack Obama.

Todos se recordam da forma como Joe Biden disse, ao lado de um embasbacado e hierarquicamente subordinado Chanceler Scholz, que destruiria o gasoduto NordStream se a Rússia “invadisse” a Ucrânia. O gasoduto, propriedade conjunta da Federação Russa e de países da OTAN, foi assim destruído o que, nos termos do direito internacional constitui um acto de guerra contra uma infra-estrutura civil, para mais, propriedade soberana de países “aliados”. Esta ameaça, mais tarde concretizada, nada difere, na essência, na brutalidade e no desrespeito pela soberania alheia, da pretensão que Trump assumiu relativamente à Groenlândia, a despeito da Dinamarca.

Talvez os “moderados”, epiteto usado para designar os fanáticos pelo situacionismo e demais fanboys do globalismo neoliberal liderado pelos EUA, gostem daquelas narrativas encomendadas para esconder a verdade, como aquela que foram um grupo de ucranianos bêbados que num dos mares mais bem guardados do universo, não apenas fizeram uma festa de arromba como rebentaram uma instalação energética protegida pelo direito internacional. Mas esta narrativa paradoxal, delirante e mentirosa apenas confirma tudo o que aqui tenho dito. Trump e dos Democratas apenas diferem na dose de honestidade com que assumem os seus interesses reais. O primeiro diz ao que vai, à moda do faroeste, os segundos são mentirosos e ilusionistas compulsivos, especialistas em apontar para um lado e virar para o outro, beneficiando do uso científico das disciplinas do ilusionismo e contorcionismo.

Tal como Trump, cuja atitude demonstra a pouca conta em que tem os actuais dirigentes europeus, não os considerando dignos sequer de recurso a um discurso eufemístico ou mistificador que justificasse a agressão, Biden não foi diferente. Tão pouco respeitou Scholz como chefe de estado de um dos países – ainda – mais importantes do mundo. Confirmando o que constatamos sobre o caracter de tais figuras, Sсholz nem se defendeu ou defendeu o seu país. Nem para tentar uma qualquer manobra de diversão. Uma piada, graçola ou qualquer coisa. Como se a proximidade ao chefe o congelasse de medo.

Talvez, os supostos “moderados”, a maioria dos comentadores que povoam as cada vez mais irrelevantes TV’s mainstreans ocidentais e os eleitos para cargos políticos que se limitam a seguir as directrizes emanadas dos directórios de poder dos EUA/G7 e OTAN, dêem muito valor a uma atitude cínica e hipócrita, tão em voga nos corredores do poder no ocidente e que consiste em pensar-se uma coisa e dizer-se outra; em querer-se muito algo e mostrar-se que nem se quer assim tanto. Mas quem está no terreno, no dia a dia da realidade, da luta pela sobrevivência e da luta pela transformação do mundo, talvez beneficie com a susceptibilidade de um número crescente de pessoas, olharem para as TV’s e, ao invés de assistirem a um qualquer show politicamente estilizado do Copperfield, terem acesso, para variar, à verdadeira cara do império, aos seus tiques, feitios e caprichos.

Não sei se trágico, se caricato, mas o espaço público no ocidente, o espaço da “pós-verdade” tornou-se num amplo e continuado teatro em que figuras desfilam continuada e sucessivamente, fazendo parecer que se faz o contrário do que se pratica, fazendo acreditar que se defende o contrário do que se objectiva, fazendo por esconder os reais responsáveis por aquilo que todos vemos e revemos acontecer. Nestes palcos da ilusão, em que se transformaram os órgãos de comunicação social, mistificar tornou-se sinónimo de informar e o ilusionismo tornou-se na própria comunicação.

Em tal palco, como é óbvio, figuras como Trump, Putin, Xi Jinping, Maduro, Claudia Sheinbaum, Lukashenko, Fico ou Orban, sejam quais forem os seus campos político-ideológicos, são figuras profundamente odiadas. O que pensam dizem e o que dizem, em regra, coincide com o que defendem. Cometem ainda o pecado mortal de pretenderem exercer o poder que lhes foi constitucionalmente acometido, não admitindo ingerências que não estejam de acordo com a sua vontade e com as responsabilidades a eles atribuídas. Este caracter soberano (consigo próprios e com os outros) e altivo, granjeia-lhes epítetos de “ditadores”, os quais, convenhamos, muitas vezes têm como fonte um folhetim de seu nome “CIA World Factbook”.

Tendo a certeza que 70% da população mundial não se importaria nada de viver numa “ditadura” como a Bielorussa em que qualquer ser humano é “obrigado” a não passar fome, não dormir na rua, não ficar no desemprego, não ficar à espera de operações médicas anos a fio, não sucumbir ao analfabetismo e à iliteracia e a não viver o drama do crime violento, tais classificações nada mais me merecem do que um sorriso irónico, quando se considera “democracia” atribuir o poder a meia dúzia de oligarcas e condenar vastas maiorias à miséria, e “ditadura” conferir condições dignas de vida, não à maioria, mas a toda a população, impedindo os oligarcas de mandarem e desmandarem à sua vontade, sob pena de exclusão. Assim, sem misticismos, nem ilusões. Tal como quando condenam, perseguem e calam todos os que tentam subverter, em nome de interesses estrangeiros, tais nações.

O que devemos questionar é para que necessitamos de um poder que diz estar contra a tortura, mas mantém Guantanamo a funcionar e, como essa instalação, milhares de prisões secretas em todo o mundo. Ou, um poder que, nos últimos 80 anos, transferiu cerca de 20% da riqueza produzida anualmente, dos 50% mais pobres, os trabalhadores, para os 10% mais ricos, os oligarcas, passando esses 10% a dominar mais de 30% do output dos EUA e os 50% mais pobres a quedar-se por uns meros 6 ou 7%. Tudo isto enquanto se fazem belos discursos sobre democracia – para os 10% mais ricos certamente – e direitos humanos, sempre que estes não colidam com interesses mais importantes, como os monetários.

Muito gostarão, tais gentes, de ouvir Biden, numa mesma conferência de imprensa, dizer que vai enviar armas para Israel e, logo de seguida, dizer que está preocupado com a situação humanitária em Gaza e pedir a Netanyahu que seja mais brando com as bombas que, ele próprio, lhe autorizou o envio. Também gostarão bastante de ver Blinken dizer que tem de “ajudar” a Ucrânia com mais armas e depois acusar a Federação Russa de deitar prédios ucranianos abaixo, para eliminar os soldados que para lá a OTAN envia. Ou assistir a Zelensky dizer que luta pela democracia enquanto eliminou toda a oposição à esquerda e ao centro.

A polidez e o cinismo que fazem confundir com “cultura democrática” e “respeito institucional” têm por base os mesmos princípios – ou falta deles – que os levam a proibir órgãos de comunicação social, em nome da defesa da “liberdade de expressão”, e perseguir indivíduos em redes sociais, escutando chamadas telefónicas, vídeos e analisando mensagens privadas, em nome da defesa da liberdade de opinião. É em nome desta polidez que se calam os biliões de dólares anuais que o orçamento norte americano consagra para a comunicação social, para que produza informação que “contrarie a influência maligna” de Rússia, China ou Irão (https://www.hudson.org/.../countering-malign-prc...

). Mesmo que, para se produzirem tais mensagens, se tenha de inventar, mentir e manipular factos. Como é que alguém são e minimamente preocupado com o seu povo admite que um país estrangeiro use fundos sem fim para eliminar a relação entre a Europa e a China, ou a Europa e a Rússia, como se fossem nossos patriarcas ou tutores e os povos europeus estivessem sujeitos a um processo de inabilitação civil, incapazes de exercer os seus direitos e assumir os seus deveres.

Ao assistirmos à intromissão de Elon Musk na política europeia, usando do seu “X” para propagar as suas ideias, todos os que se mostram chocados deveriam pensar duas vezes e perceber que a utilização do “X” por Musk não difere da utilização do Facebook, Google ou comunicação social mainstream (concentrada segundo os auspícios de Clinton) pela casa branca e pela CIA. O desrespeito que Musk demonstra pela soberania dos estados membros europeus não difere do desrespeito a que se deram os representantes políticos desses estados consigo próprios e com os povos que dizem defender, quando prescindiram de governar e deixaram tudo nas mãos de Washington e da mandatária Úrsula von der Leyen. No fundo, Elon Musk está apenas a utilizar um poder que sabe existir, assim, sem máscaras também.

Trump, Elon Musk ou J.D Vance (ainda vão aparecer tipos a dizer que os apoio) desconcertam esta gente porque denunciam, sem subterfúgios, sem falsas modéstias, sem hipocrisias, o estado de submissão e subordinação em que se encontram os políticos europeus face à Casa Branca, face ao império corporativo que agora chefiam. Sabendo-o, usam com toda a frontalidade tal poder, rebaixando os destinatários das suas ordens ao nível do que são: meros funcionários corporativos à procura de trepar na carreira e corruptos (moral ou financeiramente) procuradores, tão fáceis de manipular. Se existe capacidade que todos líderes afirmativos têm é a de saberem onde se encontram os gatilhos que manipulam cada ser, cada personalidade. Como ninguém, sabem puxá-los e premi-los para obterem o que pretendem.

Perante tal comportamento, gentes como António Costa, Úrsula von der Leyen, Kaja Kallas, Montenegro, Starmer, Scholz, Macron ou Meloni (que agora promovem como uma nova Mussolini 2.0 em versão woke), ficam totalmente desarmados. Já não existe faz de conta. Das duas uma, ou seguem o líder ou são triturados. A outra opção é lutar, assumir uma alternativa. Trump obriga-os a assumir um comportamento e a deixar o pântano da indecisão, do salamaleque, do cinismo seguidista. Nenhum trepador gosta de ser desmascarado desta forma. Nem para o bem, nem para o mal.

Como têm provado as administrações democratas, as atitudes brutais que os republicanos assumem, são sempre mais tarde confirmadas e aprofundadas pelos democratas. Tal como fazem os partidos “social-democratas e socialistas” (agora todos “liberais”) na europa, relativamente aos partidos assumidamente neoliberais, conservadores e reaccionários. Os segundos abrem o caminho, que mais tarde os primeiros consolidam, dizendo que não o estão a fazer. No final, todos sabemos que ficámos mais pobres. E assim se cria a aparência de movimento que mantêm tudo na mesma.

Esta não é mais do que a história do “polícia bom – polícia mau”. O papel dos Trumps e Bush é o de levar mais longe o destino manifesto, que é como quem diz, o alargamento do império, para que venham então os Clintons e Obamas como salvadores, e, por entre belas palavras de unidade, liberdade e democracia, normalizar a barbaridade que pretendiam e da qual retiraram vantagem. Falando em progresso, todos constatamos que vivemos numa sociedade mais violenta, mais empobrecida, mais atrasada, menos democrática.

Afinal, de que precisa o mundo senão da verdade? Seja ela brutal e opressiva, seja ela inaceitável ou desconfortável. Mas que seja a verdade e, nesse caso, Trump é muito mais fiel à verdade que Biden. Trump dá-nos a verdadeira face dos EUA, aquela que não é mascarada e obscurecida, ou abonecada, pelos discursos gobelianos do Partido democrata. Até quando mente e conspira Trump nos diz a verdade, porque o faz com tanta presunção, imbecilidade e arrogância que se torna fácil desacreditar e desmontar o discurso.

Com a verdade é possível lutar. Odeiam Trump porque nos mostra quem é o inimigo, dando nome e corpo ao monstro que se esconde por detrás do globalismo liderado pelos EUA. Tudo o que o Partido Democrata e seus seguidores e esforçam tanto por esconder ao povo… Deixou de ser secreto!

20 de Janeiro de 2025

 Fonte: 

 https://canalfactual.wordpress.com/2025/01/20/trump-mostra-a-face-imperial-que-era-suposto-permanecer-escondida/

https://www.odiario.info/trump-mostra-a-face-imperial-que

quinta-feira, 11 de março de 2021

Pedro Pezarat Correia - Relatório de Sevícias ou (Se)viciado?

* Pedro Pezarat Correia   

«Vivemos hoje uma fase política insidiosa em que uma onda revanchista, inspirada na extrema direita populista, tudo aproveita numa sinistra manobra cujo objetivo final é o ajuste de contas com o 25 de Abril. Depois do aproveitamento da morte Marcelino da Mata, “uma operação de abutres” como certeiramente lhe chamou Matos Gomes ressurge, com idêntico carimbo, o Relatório das Sevícias.»

Entramos na semana do 11 de Março em que se somam 46 anos sobre o frustrado golpe de setores militares spinolistas que tinham na retaguarda, muitos sem o saberem, o MDLP e o ELP e visava inverter o processo revolucionário, impedir as eleições para a Constituinte e instaurar um “cesarismo” de poder pessoal. Culminou a contrarrevolução que se iniciara na própria noite 25 de Abril de 1974 com a emenda que Spínola, apoiado pela JSN, impôs ao Programa do MFA. As grandes roturas do PREC que aceleraram o ritmo da revolução foram, todas, mais do que iniciativas revolucionárias, respostas a golpes reacionários: Palma Carlos, 28 de Setembro, 11 de Março.

Vivemos hoje uma fase política insidiosa em que uma onda revanchista, inspirada na extrema direita populista, tudo aproveita numa sinistra manobra cujo objetivo final é o ajuste de contas com o 25 de Abril. Depois do aproveitamento da morte Marcelino da Mata (MM), “uma operação de abutres” como certeiramente lhe chamou Matos Gomes ressurge, com idêntico carimbo, o Relatório das Sevícias. Documento de 1976 foi, então, recebido com muitas reservas por membros do CR dada a óbvia intenção de salientar excessos em momentos críticos do PREC mas justificar os do 25 de Novembro.

Os canais da “oportuna” difusão do relatório, que nunca foi secreto, são os mesmos que se indignaram com a referência a atos criminosos da e na guerra colonial e é gritante, mas nada estranho, o dualismo de critérios que invocam. Sobre a guerra não há provas, não houve julgamentos, há que ter em conta o contexto bélico em que ocorreram. Quanto às sevícias, cuja gravidade não tem paralelo com aqueles, também não há provas, também não houve julgamentos, mas aqui o contexto, o de um processo revolucionário ameaçado por uma contrarrevolução violenta envolvendo o ELP, o MDLP, o Plano Maria da Fonte, a rede bombista, os apoios externos, não interessa. Os eventuais crimes da e na guerra há que esquecê-los para que não manchem a sua memória, as sevícias têm de ser apontadas para que não se esqueçam e não se repitam.

Há um pormenor que lhes escapa: os eventuais crimes da e na guerra colonial jazem no silêncio porque a ditadura os abafou e deles se serviu. As sevícias são públicas porque o próprio regime de Abril promoveu a sua investigação. Que importa isso?

A revivalista “glorificação” da guerra colonial, com o ignóbil aproveitamento da morte de MM, ensaiou uma manobra de diversão invocando os maus tratos que este sofrera no RALIS, nos quais tentou envolver Diniz de Almeida, um dos mais destacados militares do MFA. É obsceno. Diniz de Almeida é um homem digno, de caráter, corajoso e está acima dessa canalhice. Não estava no quartel, foi chamado com urgência para acudir à situação, logo que chegou resgatou MM, tirou-o das mãos dos “torquemadas” do MRPP. Isto é omitido no Relatório das Sevícias que, aliás, noutra passagem, até trata o MRPP como vítima. Não admira, no 25 de Novembro o MRPP foi “aliado” do Grupo dos Nove, esteve com os vencedores (efémeros) e viria a destacar-se nas represálias que, na sua sequência, também não faltaram.

É uma campanha aberrante e uma revisão da história. Se há algo consensual entre historiadores, politólogos, sociólogos, nacionais e estrangeiros, é a moderação da Revolução dos Cravos, o baixo nível de conflitualidade em que se desenvolveu, a tolerância com os responsáveis e torcionários do regime derrubado. E, é factual, os atos de maior violência tiveram sempre a marca da contrarrevolução.

Repito o que já escrevi, lamento que o PR esteja a deixar-se envolver nestas manobras sujas. Mas a mágoa maior, que me fere a alma, é “sentir” aí camaradas de Abril. Quem, conscientemente, participou no 25 de Abril, só por ignorância ou estupidez pôde surpreender-se por, com a instauração da liberdade plena, a guerra colonial ter ficado irremediavelmente condenada e, com ela, o próprio império. Se, hoje, capitães de Abril se sentem honrados por terem participado na guerra colonial, é porque admitem que os seus objetivos, a manutenção da ditadura e a preservação das colónias, eram justos. É então a altura de pedirem desculpa por terem participado no 25 de Abril que pôs fim à “honrosa” guerra e liquidou o império, essa nossa “pertença congénita”.

Por mim, estou tranquilo e em paz com o que fiz.

A terminar junto a minha voz às muitas outras que assinalam os 100 anos do PCP. Pelo seu passado de luta, foi precursor do 25 de Abril. Depois foi um dos partidos fundadores do regime democrático. Nunca tive e não terei qualquer ligação partidária, já concordei e já discordei do PCP. Hoje, como ontem, continuo a considerá-lo indispensável no processo democrático. É credor do meu respeito.

8 de Março de 2021

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  11.Mar.21     

quarta-feira, 16 de março de 2016

Miguel Urbano Rodrigues - Fátima e a enigmática meditação de José Luís Peixoto


Miguel Urbano Rodrigues

16.Mar.16 :: Colaboradores
… «José Luis Peixoto abstêm-se de atacar a religião, as crendices populares e a vidente Lúcia. Empurra para os leitores a tarefa de extrair ensinamentos da sua obra. Um dos méritos de Em teu ventre é, creio, a ausência de teorização. O escritor, humanista fora de época, medita e convida à meditação sobre a aventura humana em busca de Deus por temor da morte.»


José Luis Peixoto é um escritor que deixará marcas profundas na literatura portuguesa. Um dos mais importantes das últimas décadas.

A minha companheira, grande admiradora de José Luis Peixoto, perguntou-me o que pensava de Em teu ventre, o seu mais recente livro.

Respondi que tinha gostado, mas sentia dificuldade em emitir uma opinião pela complexidade da obra.

É diferente de tudo o que escreveu antes. Ele fez-me recordar Kafka e Joyce, mas a sua escrita não tem afinidades com a de Joyce nem com a de Kafka.

Em teu ventre, perturba, surpreende e desorienta da primeira à última página. O leitor interroga-se na busca de respostas que não encontra.

Grandes media internacionais têm elogiado muito o livro. Tudo gira em torno das chamadas aparições de Fátima e da pastorinha Lúcia que, junto de uma azinheira, viu a mãe de Jesus e dela recebeu mensagens que somente revelou parcialmente e a conta-gotas. A última, a da «conversão da Rússia», foi tornada pública pelo Papa Joao Paulo II, que recebeu dela esse segredo.

O livro é uma simbiose daquilo a que chamarei um relato novelesco, de poemas em prosa, e de uma meditação caótica do autor sobre a relação entre o humano, o divino, a maternidade, e a rotina de aldeias do mundo rural português habitadas por seres abertos à procura do transcendente. A ignorância e a banalidade monótona, com frequência dolorosa, das suas existências são indissociáveis do cenário.

O livro abre com uma fala poética de Deus sobre a esperança, mas o Senhor logo empurra quem o escuta para a casa de uma família da aldeola de Aljustrel, Fátima.

Ali nasceu Lúcia, a futura vidente, a ultima de sete filhos de uma camponesa, Maria, e de Abóbora, um pequeno agricultor que prefere conversas na taberna ao falatório sobre aparições de Nossa Senhora. É católico como todos na aldeia, mas não acredita nas aparições. Maria, a mulher, também não e sofre pela filha.

A reza de ave marias e padre nossos e o ritual do agradecimento a Deus das refeições integram o quotidiano da família.

Durante algum tempo até o pároco desconfia das visões dos pastorinhos e das mensagens divinas.

Mas o rumor dos contatos de Lúcia e dos primos Francisco e Jacinta com a mãe do nazareno já ultrapassou o casario da aldeia.

De muito longe começam a chegar peregrinos rumo à Cova da Iria, lugar onde anos depois será construída a capela das aparições e, posteriormente, uma enorme e feia basílica. Numa das primeiras peregrinações ao lugar milhares de pessoas garantem ter visto o sol parar.

Muitos tocam com as mãos Lúcia e os primos, que também viram a Virgem mas não lhe escutaram as mensagens, dirigidas apenas a Lúcia.

Fala-se em milagre e uma auréola de santidade principia a envolver a misteriosa menina, interlocutora da divina judia que gerou Jesus sem pecado.

Maria, a mãe de Lúcia, continua angustiada e o bispo de Leiria, por algum tempo, adota uma atitude de expectativa.

Na aldeia, onde a maioria dos moradores é analfabeta, a Historia é uma ciência desconhecida e ignora-se que a Virgem, afinal, não era virgem, pois Jesus tinha irmãos mais velhos.

Entretanto, o nome da até então obscura freguesia de Fátima (palavra árabe e nome de uma filha do Profeta Maomé, esposa de Ali, o quarto Califa Omeiade, venerado como santo pelos xiitas), já corre pelo vasto mundo.

As supostas aparições são instrumentalizadas pela Igreja atingida pelo ateísmo da I Republica. As gigantescas peregrinações da primavera e do outono chamam a Fátima, hoje cidade, centenas de milhares de devotos da Virgem.

As aparições e mensagens ganham a dimensão de milagres inexplicáveis. Francisco e Jacinta, que morreram adolescentes, com a epidemia da pneumónica, foram beatificados.

Quatro Papas já foram a Fátima e um deles, Joao Paulo II, recebeu de Lúcia, que se tornara freira da Ordem dos Carmelitas Descalços, a revelação do segredo da «conversão da Rússia». Os outros segredos constam de depoimentos da vidente, amplamente divulgados pela hierarquia da igreja católica. Lúcia fala como profeta, anuncia o fim da guerra, a inevitabilidade de outra, maior, alude ao Inferno, que segundo o papa Francisco aliás não existe, tal como o Purgatório.

O falecimento de Lúcia em 2005 ficou assinalado por três dias de luto nacional, decretados pelo governo de Sócrates, que ignorou a morte do general Vasco Gonçalves a 5 de Junho do mesmo ano. A vidente será certamente canonizada, a avaliar pelo processo de beatificação que desrespeitou normas históricas do direito canónico.

As dioceses portuguesas e o Patriarcado estão já ativamente empenhados a preparar as comemorações do centenário das aparições em l917.

O acontecimento terá uma dimensão mundial e atrairá a Fátima o Papa Francisco, devoto como os seus predecessores da Virgem portuguesa. A campanha de divulgação do grande evento já principiou, aliás, a assumir um cariz ideológico que extrapola a religião.

No seu ambicioso livro, José Luis Peixoto abstêm-se de atacar a religião, as crendices populares e a vidente Lúcia. Empurra para os leitores a tarefa de extrair ensinamentos da sua obra. Um dos méritos de Em teu ventre é, creio, a ausência de teorização. O escritor, humanista fora de época, medita e convida à meditação sobre a aventura humana em busca de Deus por temor da morte.

Vila Nova de Gaia, Março de 2016

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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Agatha Christie - O segredo do seu êxito



* Miguel Urbano Rodrigues




Agatha Christie (1890/1978) foi uma escritora importante?

Sim, muito importante. Dos seus livros, traduzidos em 100 idiomas, foram vendidos mais de 4 mil milhões de exemplares. Um total de vendas assombroso, somente superado pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare.

Mas porventura foi uma grande figura da literatura mundial? Não.

Sobre ela foram escritos dezenas de livros, quase todos elogiosos. Uma das suas peças de teatro, A Ratoeira, permaneceu no cartaz no Reino Unido durante mais de uma década. A Rainha Elisabeth, sua grande admiradora, atribuiu-lhe o título de Lady do Império.

Mas nunca obteve o apreço da crítica literária séria.

Como explicar o seu êxito comercial que ultrapassa o de qualquer outro autor de romances policiais, de Conan Doyle a Georges Simenon?

A leitura da sua autobiografia* ajudou-me no esforço para encontrar uma resposta.

Agatha nasceu numa mansão da estância balnear de Torquay. O pai era um americano britanizado. Não trabalhava, como era habitual na época vitoriana para quem vivia dos rendimentos.

Nas memórias a escritora recorda uma infância feliz numa família abastada da alta classe média. Quando no final do século XIX diminuíram os dinheiros que chegavam dos EUA, os pais alugaram a casa de Torquay e foram passar um ano no sul de França e depois na Bretanha, onde o custo de vida era menor.

«Uma das coisas que, penso, sentiria mais - escreveu na velhice – se fosse criança nos dias de hoje, seria a ausência de criados».

As referências à criadagem da época, que ela admirava pelo «orgulho profissional», são abundantes.

Agatha nunca frequentou uma escola. Estudou em casa e em pensionatos franceses, sobretudo música e canto.

Casou aos 22 anos, em l912, com Archibald Christie, um oficial da Força Aérea, que, finda a I Guerra Mundial, se tornou corretor da City londrina. Amou intensamente o companheiro, viajou pelo mundo com ele, mas após 14 anos de um casamento harmonioso (nasceu uma filha em 1919), o marido apaixonou-se por uma amiga e pediu o divórcio. A escritora conta que olhou para ele e percebeu que afinal era «um desconhecido». Agatha, angustiada, desapareceu durante dias, sofreu horrores, teve uma crise de amnésia.

O seu primeiro livro, um policial, foi escrito durante a guerra mas, recusado por seis editoras, somente foi publicado em 1920. Passou praticamente despercebido.

Durante anos Agatha resistiu a assumir-se como escritora, embora publicasse romances com alguma frequência. O êxito tardou. Para ele contribuiu a personagem que criou, Hercule Poirot, um excêntrico detetive belga muito vaidoso.

A publicação em folhetins dos primeiros livros e a adaptação ao teatro de outros foi para ela uma importante fonte de recursos. No início da II Guerra Mundial já era a escritora mais lida da Inglaterra e nos EUA a sua popularidade era enorme.

Muito inteligente, sensível, com uma imaginação prodigiosa, sentiu sempre dificuldade em se expressar em público, mas cativava as pessoas, era uma comunicadora superdotada.

«Sou muitas coisas - assim se retratou na Autobiografia - bem-disposta, exuberante, distraída, esquecida, tímida, afetuosa, completamente desprovida de autoconfiança, moderadamente altruísta (…) Gosto de sol, de maçãs, de quase todo o tipo de música, de comboios, de quebra-cabeças numéricos, e de tudo o que tenha a ver com números, de nadar no mar, de silêncio, de dormir, de sonhar, de comer, do cheiro de café, de lírios, da maioria dos cães e de ir ao teatro».

Essa confidência não ajuda muito a avaliar a sua personalidade complexa, contraditória, desconcertante.

Nas suas viagens por todos os continentes acumulou uma soma impressionante de conhecimentos. Mas não os transformou numa cultura extensiva, integral. Não tentou sequer esse desafio.

Nos seus livros o leitor não encontra um pensamento estruturado, uma meditação profunda sobre a existência e a História dos países do Médio Oriente onde viveu largos anos.

Ciente das suas limitações, é uma escritora de espumas. Criou um estilo, mas cultiva o superficial, a banalidade.

O tratamento da temática do quotidiano é em alguns escritores de uma grande riqueza. Em Georges Simenon, por exemplo. Nos seus romances, ele retrata admiravelmente les petits gens, as porteiras de Paris, os taberneiros, as prostitutas, as velhas solteironas, os clochards do Sena. O comissário Maigret é a antítese do Poirot de Agatha.

Perguntaram um dia a André Gide quem era na sua opinião o maior escritor da França. A sua resposta desconcertou o entrevistador: Georges Simenon. Exagerou, mas o criador de Maigret atravessou as portas da grande literatura; a mãe de Poirot não.

A gente de baixo não merece atenção especial de Agatha. Não é por snobismo que a esquece. Concentra a sua atenção na sua gente. Com a exceção dos romances de Miss Marple, a velha senhora de uma aldeia inglesa, e de Tommy e Tupence, escolhe as personagens na aristocracia, na gentry britânica, na alta burguesia, no mundo das artes.

Diz ter sido inspirada por Conan Doyle. Mas um abismo intransponível separa Poirot de Sherlock Holmes.

Os seus livros estão infestados de estereótipos e de lugares comuns, de disparates. É categórica na afirmação de que a amizade entre homens e mulheres lhe aparece como um absurdo. Sofreu muito durante as duas guerras. Mas concluiu que «vencer uma guerra é tão desastroso como perdê-la». Não hesitou em confessar que «o melhor de escrever naquele tempo é que eu relacionava o trabalho diretamente com dinheiro».

Cultiva com requinte o suspense. Mas a sua técnica faz dela, para alguns críticos, uma «escritora batoteira». Porquê?

Agatha lembra que gostou sempre de abrir «pistas falsas», para enganar o leitor. Mas oculta até às últimas páginas informações indispensáveis para a identificação do criminoso. Em alguns casos, depois de matar várias pessoas, este só aparece quase no final.

O happy end, talvez para atenuar o choque inerente à violência do tema, é frequente nos seus livros, sobretudo a relação amorosa entre personagens secundárias.

As viagens da juventude e as prolongadas estadas com o segundo marido no Iraque contribuíram para o êxito de alguns dos seus romances.

A pedido de um amigo, escreveu aliás um romance policial cuja ação se situa no Egipto faraónico.

Mas os leitores não encontram nesses livros algo que possa revelar um interesse profundo da autora – sequer interesse - pelas culturas da Assíria, da Suméria, ou do vale do Nilo no tempo do último Ramsés.

Na Autobiografia, iniciada em 1950 e concluída em 1965, três quartos são dedicados à infância, à adolescência, à juventude, ao convívio com o primeiro marido. Os 48 anos vividos com Max Mallowan, o segundo marido, um eminente arqueólogo, merecem-lhe menos atenção. A desproporção choca o leitor.

***

Agatha Christie somente é concebível na Inglaterra do seu tempo. Como mulher e escritora foi totalmente inglesa, inimaginável noutro país, noutro século.
Mas escreveu para milhões de não ingleses, foi por eles admirada como pelos seus compatriotas.

Como compreender, como explicar o seu imenso, surpreendente êxito literário?

Creio que para ele foi determinante ir ao encontro do que é comum no «gosto» da esmagadora maioria dos leitores de qualquer nacionalidade.

Ela escreveu o que as pessoas gostam que lhes digam.

Agatha faz-me pensar nas audiências enormes das telenovelas, na abertura à mediocridade. Penso também no êxito dos comentadores políticos da televisão cujas opiniões ofendem a inteligência.

Obviamente que Aristóteles ou Einstein não poderiam inspirar ao homo sapiens contemporâneo o interesse despertado pelos livros de Agatha Christie.

29.Ago.15 ::  


Autobiografia, Agatha Christie, 900 páginas, Editora ASA, Lisboa,2011

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A reconfiguração do Estados ao serviço do grande capital - Filipe Diniz


 
Filipe Diniz
24.Fev.10 :: Colaboradores

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“Se o Estado que a política de direita gera se coloca em confronto insanável com os interesses, direitos, aspirações e liberdades dos trabalhadores e do povo, a luta dos trabalhadores e do povo fará com que, cedo ou tarde, chegue a momento em que essa contradição será superada, numa radical ruptura que retome o caminho de Abril.”

Para abordar o tema que me foi proposto – o da reconfiguração do Estado ao serviço dos grandes interesses económicos – será talvez necessário recuar mais longe do que a década que temos em análise, incluindo até o período da resistência antifascista. É útil relembrar, no contexto actual, o que Álvaro Cunhal escreveu acerca das posições da burguesia liberal sobre as necessidades de modificação ou substituição do Estado fascista pela revolução democrática: [existe uma] «íntima relação entre os objectivos políticos que cada sector atribui à revolução antifascista e as suas posições em relação ao problema do Estado: quanto menores são as transformações de ordem social e política encaradas, tanto menores são as exigências de modificação ou substituição do Estado fascista».
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Um dos traços mais originais da nossa Revolução consistiu no facto de se terem operado no País, num muito curto período de tempo, transformações sociais e económicas profundas sem que, em algum momento, se tivesse constituído um poder coerentemente revolucionário e sem que se tivesse criado um aparelho de Estado correspondente às transformações alcançadas. Mais ainda, essas transformações prosseguiram ainda quando já se instalara nos órgãos de poder uma correlação de forças profundamente desfavorável.
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Muito do que fora alcançado foi destruído. Mas que tenha sido possível, primeiro, realizar tão profundas transformações nas condições existentes e, depois, defendê-las de forma tão prolongada num quadro de relações de poder profundamente desfavoráveis continua a constituir um dos traços mais notáveis do processo de Abril. 
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No decurso do período mais criador da Revolução e apesar das contradições internas nos órgãos de poder existentes foi possível a tomada de muitas decisões e medidas progressistas. E mesmo quando o ímpeto transformador de Abril foi detido ter-se-á prolongado durante um certo período uma situação com características muito semelhantes àquelas que Lenine prevê no seu texto clássico sobre o Estado, ou seja, a possibilidade de ocorrerem «excepcionalmente períodos em que as classes em luta se mantêm uma à outra tão perto do equilíbrio que o poder de Estado [….] alcança momentaneamente uma certa autonomia face a ambos». 
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Quando Marx e Engels reflectiram sobre a questão do Estado, a única experiência real de um poder exercido pela classe operária e pelo povo eram os breves e heróicos dias da Comuna de Paris. Quando Lenine escreveu «O Estado e a Revolução» os sovietes eram já uma nova e importante realidade, mas não fora ainda criado o primeiro Estado proletário da história nem existia ainda verdadeiro poder soviético. A teorização marxista identificou justamente, desde as primeiras formulações, o Estado como instrumento de dominação e opressão de classe e como factor de reprodução dessa dominação. Mas ao longo de todo o século XX e até aos dias de hoje surgiram diferentes formas de organização do Estado, desde os estados fascistas às democracias burguesas que, pressionadas pela luta dos trabalhadores – animada pela ampla consagração de direitos aos trabalhadores e aos povos nos países socialistas – integraram no sistema do Estado um conjunto de importantes funções sociais. Desde o final do século passado e até hoje um processo complexo de hegemonização do campo capitalista pelo imperialismo levou à derrota do campo socialista e a um feroz ataque, sob a bandeira do neoliberalismo, aos direitos conquistados pelos trabalhadores. A constituição de instituições supranacionais – decorrente da tendência para a uma ordem internacional hegemonizada por uma só potência – com o imperialismo assumir no plano internacional tarefas de repressão anteriormente reservadas aos estados nacionais (como sucede ao abrigo do chamado «direito de ingerência humanitária»); a abdicação de parcelas – cada vez mais importantes – da sua soberania por parte dos estados dependentes. 
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Mas a avaliação do papel do Estado permanece necessariamente centrada na identificação dos interesses de classe ao serviço dos quais é organizado. No decurso da década cujo balanço fazemos a prevalência desses interesses tornou-se ainda mais evidente do que em qualquer período anterior desde 1976. Tornou-se mais evidente nomeadamente no plano das funções sociais do Estado, no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores, no que diz respeito ao papel e às missões das forças armadas e de segurança, no que diz respeito à justiça, no que diz respeito ao papel do Estado na economia e no ordenamento do território, no que diz respeito às liberdades e garantias dos cidadãos e ao regime democrático, no que diz respeito à mutilação da soberania nacional. Os fenómenos de desresponsabilização do Estado manifestam-se tanto no plano das leis com no das estruturas do aparelho de Estado.

Ofensiva em todas as frentes
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Quando a direita afirma que há funcionários públicos a mais isso significa fundamentalmente que do que se trata é de reduzir as funções sociais e culturais do Estado. A colocação de milhares de trabalhadores do Ministério da Agricultura na situação de disponíveis acompanhou o processo de destruição da agricultura portuguesa; o emagrecimento do orçamento para a cultura artística e a abdicação do projecto da sua democratização traduziu-se no esvaziamento técnico-financeiro e humano da Direcção Geral da Cultura. O Estado externaliza aspectos das suas funções técnicas e as estruturas, descentralizadas ou meramente desconcentradas, dos ministérios deixam de ser órgãos de apoio aos trabalhadores para se tornarem tentáculos do aparelho de Estado, exercendo funções de controlo e propaganda. 
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Depende determinantemente do papel assumido pelo Estado a concretização do direito dos cidadãos à educação, à cultura, à saúde, à justiça. E é assim porque incumbe ao Estado proporcionar condições de igualdade na concretização desses direitos a cidadãos que, por força não apenas da sua situação social e económica mas também da sua localização no território nacional estão à partida em posições de profunda discriminação e desigualdade. Mas o que se acentuou ao longo desta década foram processos de redução do papel do Estado no sentido de assegurar esses direitos, de alienação de responsabilidades pela privatização directa ou indirecta e a mercantilização de serviços públicos, de reorganização das redes de equipamentos e serviços em termos que agravam ainda mais as desigualdades regionais. A escola pública, o posto de saúde, a maternidade, o tribunal ficam mais longe e mais caro. O interior do País fica mais discriminado e desertificado, a faixa litoral mais congestionada e subequipada, o País mais assimétrico. 
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A reconfiguração da Escola Pública torna mais desiguais as crianças e os jovens no que diz respeito à rede e aos custos, mas torna-as ainda mais desiguais perante a organização curricular, os programas de ensino, os conteúdos, as condições de funcionamento que encaminham para o insucesso as crianças e os jovens oriundos de meios social, económica e culturalmente mais marginalizados. 
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O desmantelamento dos direitos sociais, nomeadamente o direito à saúde e o direito à segurança social, avançou sob a capa da «sustentabilidade». Mas aquilo que é dito insustentável enquanto universal e público, torna-se um bom negócio quando passa a privado e acessível apenas aos que o podem pagar, porque o Estado assegura aos privados que se houver lucros são seus, mas se houver prejuízos o Estado pagará por eles. 
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A reconfiguração do Estado ao serviço do capital monopolista constitui uma longa narrativa, que passa por todo o processo de privatizações, nesta década sobretudo marcada pelas obscuras negociatas em torno do sector energético. Privatizações no interesse do grande capital mas também, no final da década, nacionalizações com o mesmo sentido, enterrando milhões provenientes do sector público da banca em socorro dos bancos afundados em resultado de operações que, em alguns casos, são simplesmente do foro criminal.
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O Estado não só vem transferindo para o sector privado o que é rentável, tanto no sector empresarial como nos serviços públicos. O Estado age também no sentido de que esses sectores se tornem ainda mais lucrativos e rentáveis, nomeadamente através das comissões ditas «reguladoras» para a fixação das tarifas e dos preços, dos benefícios fiscais, da tolerância face ao funcionamento em cartel, ao desinvestimento, à fraude e à evasão fiscal, de uma política laboral que incentiva o constante agravamento da exploração dos trabalhadores. Acompanhando e apoiando a financeirização da economia o Estado tornou-se peça fundamental no empolamento da especulação fundiária e imobiliária (à qual os grandes grupos financeiros estão intimamente associados), nomeadamente através dos processos de alienação do património imobiliário público sob a tutela de diferentes ministérios, do favorecimento de amplas operações ditas de reabilitação urbana nas quais a componente especulativa é central, como sucedeu em Lisboa com a Expo 98 e como sucede com várias das operações POLIS, ou com a escandalosa excepcionalidade atribuída aos processos PIN e PIN+.
O Estado não é neutro
As Forças Armadas que desempenharam um tão decisivo papel na Revolução de Abril existem hoje num quadro profundamente diferente, com efectivos profissionais e contratados, subordinadas a um conceito estratégico desprovido de efectivo compromisso patriótico e ligado ao povo, participando, contra a Constituição, em operações de agressão e ocupação imperialista no Kosovo, no Iraque, no Afeganistão. O papel do Estado não pode ser o mesmo numa democracia antimonopolista ou num regime em que o grande capital controla de forma cada vez mais determinante o poder político. O Estado não é neutro, e a sua intervenção ou é democrática, como instrumento de defesa e concretização dos direitos, aspirações e liberdades populares e dos trabalhadores, esmagadoramente maioritários, ou assume a defesa e concretização dos interesses do grande capital, dos exploradores, dos interesses infinitamente minoritários de todos aqueles cuja prosperidade reside na perpetuação das desigualdades, das injustiças, da hipoteca dos interesses nacionais, e, nesse caso, configura-se tendencialmente como um Estado antidemocrático.
Quando vemos hoje construir-se passo a passo um processo de governamentalização do aparelho da justiça, de centralização dos serviços de informações e das forças de segurança, de pressão e controle de toda a comunicação social, já de si tão controlada e desprovida de pluralismo, quando vemos uma política que justifica toda a sua iniciativa pela defesa dos grandes interesses económicos, ao mesmo tempo que conduz uma brutal ofensiva contra os direitos dos trabalhadores, quando vemos aprovar-se legislação que tem como único objectivo estrangular financeiramente o PCP e negar ao PCP o direito de se organizar de acordo com os seus estatutos e a vontade dos seus militantes, quando se sucedem os propósitos de alterar a legislação eleitoral em termos que visam distorcer radicalmente a expressão da vontade popular, este quadro já nada tem a ver com o Portugal de Abril, mas tem muito a ver com tudo contra o qual Abril se realizou.
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Dizem os nossos clássicos que o Estado surge, não em consequência das contradições internas numa dada sociedade, mas a partir do momento em que essas contradições se tornam irremediavelmente insanáveis.
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Se o Estado que a política de direita gera se coloca em confronto insanável com os interesses, direitos, aspirações e liberdades dos trabalhadores e do povo, a luta dos trabalhadores e do povo fará com que, cedo ou tarde, chegue a momento em que essa contradição será superada, numa radical ruptura que retome o caminho de Abril.
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Texto da intervenção de Filipe Diniz, em 6 de Fevereiro, no seminário organizado pelo PCP, «Dez anos de Política de Direita».
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http://odiario.info/?p=1493
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sábado, 10 de julho de 2010

Levantado do chão Ou a história da epopeia do operariado agrícola Alentejano contada ao mundo



09.Jul.10 :: Outros autores
José
 SaramagoEste estudo de João Aguiar vem comprovar como o talento do escritor se sobrepõe á identificação com esta ou aqueloutra escola ou estilo literário quando ele desce com segurança e criatividade “às raízes da condição humana e transmit(e), a grandeza e as misérias, a angústia, a alegria e o medo que acompanham a aventura absurda da vida”.
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«Eu sou um trabalhador
Eu sou um trabalhador rural
Que semeia e colhe o pão
Sustento de Portugal

Sustento de Portugal
Que trabalhador sou eu
Que semeia e colhe o pão
Mas esse pão nunca foi meu

Eu sou um trabalhador
Que o trabalho sempre honrou
Mas que em paga apenas come
O pão que o diabo amassou.
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Poema de Vicente Rodrigues (1910-1982)
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José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998 e recentemente falecido, escreveu e publicou o essencial da sua obra nos 20 anos anteriores à conquista desse prémio. O primeiro dos romances em que se revela o seu estilo próprio de escrita é precisamente Levantado do Chão. Publicado em 1980, representa para o autor «o último romance do Neo-Realismo, fora já do tempo neo-realista» (Reis, 1998, p.118). De facto, não sendo estritamente um romance neo-realista, Levantado do Chão pode ser visto como um entroncamento para onde confluiu toda uma forma de fazer literatura em Portugal no século XX.
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Nesta obra de ficção Saramago aborda, por um lado, a história da vida e morte do latifúndio, com efeito, desde a Idade Média até finais dos anos 70 e, por outro lado, num espaço histórico mais curto, a saga da família Mau-Tempo «que, em três gerações (Domingos Mau-Tempo, seu filho João e seus netos António e Gracinda, esta casada com outra personagem central, António Espada), vai conquistar a terra para as capacidades do seu trabalho, vai arrancar-se à vergonha das humilhações, vai preencher a fome de uma falta total. O romance é, assim, a história de um fatalismo desenganado, constantemente combatido pelo apontar da esperança feita luta» (Seixo, 1987, p.39). As duas ondas históricas entrelaçam-se num período de tempo que vai do final do século XIX até aos anos seguintes à Revolução de 25 de Abril de 1974. Esta articulação entre dois planos tem a vantagem de oferecer uma problematização assaz instigante do papel e do lugar do(s) indivíduo(s) no desenvolvimento histórico mais vasto.
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Não obstante a narrativa atravessar diferentes regimes políticos (anos finais da monarquia, a I República, a ditadura fascista do Estado Novo, o regime democrático), nota-se um corte de grande significado na e para a vida das personagens: o antes e o pós 25 de Abril. Por outras palavras, no que toca à melhoria das condições de vida do operariado agrícola alentejano e da possibilidade de este surgir como sujeito colectivo portador de uma história própria e de dinâmicas de profunda democratização da sociedade, nenhum dos regimes anteriores à democracia foi capaz de admitir tal processo. «Entre o latifúndio monárquico e o latifúndio republicano não se viam diferenças e as parecenças eram todas, porque os salários, pelo pouco que podiam comprar, só serviam para acordar a fome» (Saramago, 2000, p.34). Nesse sentido, a situação económica e social dos trabalhadores até 1974 era assim descrita por António Gervásio, operário agrícola e actor participante nas lutas contra o fascismo na região a partir dos anos 40, «os assalariados agrícolas eram trabalhadores privados dos direitos mais elementares. Não havia emprego certo. Não tinham subsídio de desemprego, de férias, de baixa, nem reforma, nem direitos sindicais. Eram trabalhadores sem direitos nas mãos dos grandes proprietários» (Gervásio, 2004, p.182) [itálicos nossos].
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Neste cenário, o proletariado alentejano assumiu-se como um actor social de primeira importância na resistência ao regime fascista e na reivindicação por melhores condições de vida e de trabalho. A conquista das oito horas diárias de trabalho, acabando com o sistema do trabalho de sol a sol (que chegava às catorze e dezasseis horas diárias de trabalho), em Abril e Maio de 1962 é, nesse aspecto, elucidativo da relevância inapagável da luta da classe trabalhadora agrícola alentejana na contestação à ditadura e nas aspirações a uma outra sociedade. No contexto do latifúndio – com o cortejo de miséria, opressão e vulnerabilidade das vidas das famílias operárias – a luta pela posse da terra evidenciava-se como um pilar central e como um objectivo primordial para esses trabalhadores. Com o processo revolucionário e democrático subsequente à revolução de 1974, a Reforma Agrária surgiu como uma necessidade e uma exigência imperiosa das populações laboriosas dos campos do Sul (margem esquerda do Ribatejo, Alto e Baixo Alentejo). É o próprio José Saramago que numa crónica em 1977 manifesta a naturalidade com que os trabalhadores alentejanos e ribatejanos tomaram e ocuparam herdades agrícolas: «se a terra está aí e daí não pode sair, são vossos os pés que caminham nela, são vossas as mãos que a trabalham, são dos vossos pais e avós os ossos que estão debaixo dessa terra, depois de terem trabalhado e sofrido o que os filhos ainda hoje trabalham, mas, sofrido, basta» (Saramago, 1999, p.39). O impacto das ocupações de terras, o número de trabalhadores envolvidos, a convicção com que defendiam o que consideravam ser justo era tal, que a Reforma Agrária foi consagrada legalmente, inclusive na Constituição de 1976. Com a Reforma Agrária formaram-se cooperativas e UCP’s (unidades colectivas de produção) com administração económica e política dos trabalhadores sob supervisão do Estado democrático. A gestão operária com a Reforma Agrária era, então, uma realidade.
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No fundo, as UCP’s tinham como características fundamentais «a exploração comum da terra» e a «gestão democrática» (Barros, 1981, p.117) das mesmas. Explicitando, o controlo democrático e popular de base consubstanciava-se no «poder dos colectivos de trabalhadores de eleger e demitir as direcções e de decidir sobre os diversos aspectos das novas unidade e/ou de controlar todos os actos de gestão» (idem, p.119).
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Contudo, logo em 1976 a Reforma Agrária começou a enfrentar fortes adversidades externas para além das dificuldades herdadas do latifúndio (terras abandonadas, baixa aplicação de maquinaria à produção agrícola). Com a aprovação da chamada Lei Barreto (lei 77/77 – lei de Bases da Reforma Agrária) os trabalhadores tiveram de começar a entregar herdades que não atingissem um novo patamar legal de pontuação das áreas a expropriar. O cerco pelos sucessivos governos e dos antigos grandes latifundiários à Reforma Agrária iria apertar-se nos anos imediatamente seguintes, com os ataques aos trabalhadores e às UCP’s a atingirem níveis quase impensáveis de repressão.
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A ênfase aqui colocada na repressão e na contra-ofensiva sobre a Reforma Agrária deve-se ao facto de esse ter sido o factor principal, e em última análise decisivo, da derrota do processo de transformação da propriedade fundiária nos campos do Sul. Numa frase, a Reforma Agrária não se desmoronou mas foi derrotada. Muito mais do que algumas ineficácias económicas e erros na condução do processo – inevitáveis em qualquer acção humana, mais ainda quando o processo é executado por indivíduos de uma classe trabalhadora que pela primeira vez na sua história de centenas de anos tinham a gestão económica, social e política das suas vidas nas suas mãos – foi a reacção de classe das classes dominantes e do aparelho de Estado que colocaram um ponto final na Reforma Agrária. Aliás, a Reforma Agrária atingiu patamares de viabilidade e desenvolvimento económico só postos em causa precisamente pela repressão que foi alvo. Lembre-se, a título meramente ilustrativo, alguns dos aspectos bem-sucedidos economicamente com o processo da Reforma Agrária: a) os postos de trabalho antes da Reforma Agrária que rondavam os 21.700 e que em 1976 se cifravam em 71.900 e que até 1982 inclusive tiveram sempre um efectivo de trabalhadores superior à base de partida. A área total das UCP chega aos 1.130.000 de hectares de 1975 a 77. A produção de bovinos passou de 55.000 cabeças, antes da Revolução de Abril e das ocupações de terra, para 84.000 em 1976 e 103.000 em 1977. A produção de ovinos e caprinos, respectivamente, de 272.000 cabeças para 401.000 e 437.000. A produção de cereais passou de 90.000 toneladas para as 240.000 toneladas em 1976. O arroz passou de 23.550 toneladas para 38.000 toneladas em 1977. Os tractores antes da Reforma Agrária eram apenas 2.690, quase dobrando em 3 anos (4.560) (Leal, 2005, p.255-256). Portanto, o povo operário como sujeito conseguiu conquistas sociais e económicas jamais vistas na região. Por conseguinte, a tese burguesa de que as massas operárias e populares não saberiam administrar colectivamente a produção cai por terra perante a evidência empírica das conquistas extraordinárias da Reforma Agrária alentejana. Perante o sucesso económico, político e social da Reforma Agrária só a repressão furiosa e o cerco económico e financeiro poderiam destruir a mais bonita das conquistas de Abril.
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Até 1980, data de publicação de Levantado do Chão, podemos registar alguns dados da repressão contra o proletariado agrícola alentejano, precisamente um período de forte contra-ofensiva dos ex-latifundiários e respectivos governos contra a Reforma Agrária e a administração colectiva dos trabalhadores:
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«Foi a prolongada desocupação da herdade da Lobata, em Serpa, ainda em Novembro de 1976; foram os brutais espancamentos realizados na UCP S. Bartolomeu do Outeiro, em Portel, em 28 de Outubro de 1978; o cerco e a prática ocupação de Pias, no concelho de Serpa, em Julho de 1979, com mais de uma centena de pessoas espancadas e perseguidas ao longo das ruas; foi a utilização de balas de borracha maciça na UCP Fonte Boa da Vinha, em Évora, em Julho de 1979; foi o fogo aberto contra os trabalhadores na Cooperativa de Casebres em Agosto seguinte, que atingiram inclusive os ocupantes da carrinha que se deslocava para o Hospital Distrital de Évora transportando os feridos desta operação; foi a brutal entrega de reservas na herdade das Testas, na UCP 6 de Agosto em São Pedro da Gafanhoeira, Arraiolos, com um aparato nunca visto de metralhadoras, cavalos e cães e de que também resultaram vários feridos e presos; foi, em Julho de 1980, o tiroteio desencadeado contra os trabalhadores presentes na entrega de uma reserva na UCP Estrela da Manhã, em Vendas Novas; prisões arbitrárias e sem qualquer mandato judicial de alguns dos dirigentes mais destacados dos Sindicatos dos Trabalhadores Agrícolas, dos Secretariados das UCP/Cooperativas Agrícolas e dos dirigentes destas, atraídos ou levados sob coacção aos postos da GNR, onde durante horas eram alvo de autênticos sequestros e, em muitos casos, espancados» (Carvalho, 2004, p.84-85);
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Ao mesmo tempo, foi nesta altura que ocorreu
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«O assassinato de dois trabalhadores da Reforma Agrária, António Casquinha e José Geraldo, o primeiro dos quais tinha somente 17 anos de idade e o segundo 57 anos, sucedeu em 27 de Setembro de 1979, em pleno Governo dirigido por Maria de Lurdes Pintassilgo, na herdade Vale de Nobre na UCP Bento Gonçalves em Montemor-o-Novo (…). Consumada a entrega do monte, a força da GNR destacada para a operação, em conjunto com os técnicos do Ministério da Agricultura e com grupos de agrários armados, apoderaram-se de múltiplas cabeças de gado bovino, propriedade dos trabalhadores. Junto o rebanho, deslocaram-se para o monte que tinha acabado de ser entregue, onde enfrentaram o legítimo protesto dos trabalhadores. Nesse momento vários tiros foram disparados por alguém do único grupo que possuía armas, GNR e agrários. Resultado: dois trabalhadores cairiam por terra para não mais se levantarem, perante a insensibilidade e as ameaças de repetição proferidas pelos comandos da GNR presentes. Até hoje nunca foram apuradas as responsabilidades materiais e directas destas mortes» (idem, p.87).
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As razões e motivações para esta sucessão de acontecimentos contra a Reforma Agrária devem-se ao facto de que as classes dominantes não podiam aceitar que os trabalhadores assumissem com êxito a gestão e produção de cinco centenas de modernas empresas agrícolas que eram as UCP’s.
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Portanto, é neste quadro histórico que surge a obra Levantado do Chão de José Saramago. Até às duas machadadas finais na Reforma Agrária – as revisões constitucionais de 1982 e de 1989 – o seu potencial de viabilidade económica ainda era real. Assim, Levantado do Chão é uma obra estética de elevado valor mas com uma componente militante rara, expressa num comovente incentivo do autor aos trabalhadores alentejanos para que prosseguissem com a sua luta.
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O painel de elementos sociais presentes em Levantado do Chão é notavelmente profícuo, com particular incidência no inventariar dos efeitos mais perversos da forma de organização da produção nos campos do Sul de Portugal durante a Primeira República e, sobretudo, durante o fascismo.
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a) A cumplicidade entre a polícia e os patrões,
«diz o sargento, Por falar em patrão, estou precisado de um bocado de lenha. Diz o feitor, Lá lhe irá uma carrada. Diz o sargento, E umas poucas telhas. Diz o feitor, Não será por causa disso que dormirá ao relento. Diz o sargento, A vida está cara. Diz o feitor, Mando-lhe uns chouriços» (Saramago, 2000, p.38);
b) a miséria que «empoeirava o rosto a esta gente» (idem, p.43) trabalhadora;
c) o trabalho infantil, «mas esta criança, palavra só por comodidade usada, pois no latifúndio não se ordenam assim as populações em modo de prever-se e respeitar-se tal categoria, tudo são vivos e basta, (…) esta criança é apenas uma entre milheiros, todas iguais, todas sofredoras, todas ignorantes do mal que fizeram para merecer tal castigo» (idem, p.56);
d) o desemprego e os baixos salários, «vão caravanas pelos caminhos à procura de um salário miserável» (idem, p.56);
e) o desprezo pelos indivíduos das classes populares, vistos como sub-humanos,
«o povo fez-se para viver sujo e esfomeado. Um povo que se lava é um povo que não trabalha, talvez nas cidades, enfim, não digo que não, mas aqui, no latifúndio, vai contratado por três ou quatro semanas para longe de casa, e meses até, e é ponto de honra e de homem que durante todo o tempo do contrato se não lave nem cara nem mãos, nem a barba se corte (…). É preciso que este bicho da terra seja bicho mesmo, que de manhã some a remela da noite à remela das noites, que o sujo das mãos, da cara, dos sovacos, das virilhas, dos pés, do buraco do corpo, seja o halo glorioso do trabalho no latifúndio, é preciso que o homem esteja abaixo do animal, que esse, para se limpar, lambe-se, é preciso que o homem se degrade para que não se respeite a si próprio nem aos seus próximos» (idem, p.73) [itálicos nossos];
f) as desigualdades sociais gritantes logo a partir da mais tenra idade e o fatalismo inscrito na condição social de pertença dos indivíduos, «aí está esse infinito estendal de sexos abertos, dilatados, vulcânicos, por onde rompem sujos de sangue e mucos os novos homens e as novas mulheres, tão iguaizinhos naquela miséria, tão diferentes logo nesse minuto, consoante os braços que os recebem, os bafos que os aquecem, as roupas que os envolvem» (idem, p.294) [itálicos nossos]. Estas são algumas exemplificações do vendaval de fenómenos que pintam a paisagem alentejana do período histórico anterior a 1974, com particular incidência nas circunstâncias em que o operariado agrícola vivia no decurso do regime fascista.
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Conquanto estes sejam indicadores com um elevado interesse sociológico, do nosso ponto de vista, o elemento de maior valor substantivo no romance aqui em mãos prende-se com o processo de formação da classe trabalhadora (Thompson, 1991). Evidentemente, Saramago não desenvolve nenhuma teoria nem sistematiza cientificamente dados empíricos e proposições analíticas. Tal não é o seu objectivo nem a criação artística propugna esse tipo de exercícios e operações. Assim, a riqueza de uma obra de arte avalia-se não apenas pela inovação formal – no caso a escrita fluente e poderosamente confluente de múltiplas vozes de Saramago – mas também pelos implícitos qualitativos e pelas marcas da sociedade que nela se plasmam. Em Levantado do Chão, como nó de (inter)mediação entre a linha histórica de longa duração da vida do latifúndio e a vida pessoal e colectiva da família Mau-Tempo, surge o já referido processo de formação da classe trabalhadora.
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Nas suas linhas mestras, uma classe social é um «fenómeno histórico, unificando um número de eventos distintos e aparentemente desconexos» (Thompson, 1991, p.8) em que nunca é vista como algo «definitivo, definido e como um facto consumado» (idem, p.937). Por conseguinte, uma classe é a corporização colectiva de práticas sociais, económicas, culturais e políticas e que é apreendida sob uma perspectiva relacional, ou seja, uma classe social não age de forma isolada mas em relação às dinâmicas e interesses objectivos e subjectivos das outras classes.
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Com efeito, o desenvolvimento histórico de uma classe social, em Levantado do Chão a classe trabalhadora, é uma constante, se bem que evolua a velocidades e ritmos heterogéneos, apesar das diferentes formas em que esta se manifesta na luta (económica, política e ideológica) de classes. De referir que a evolução política e ideológica de uma classe social, ainda mais quando estamos a tratar de classes dominadas, não é evolucionista. Se uma classe tem limites mínimos e limites máximos – gizados e ajustados pelas estruturas económica, política e ideológica/cultural que as enquadram e envolvem – para o desenvolvimento e maturação da sua consciência de classe, de formas de organização política e social, de bandeiras de luta, etc., a passagem entre esses vários níveis nunca é inelutável nem apriorística, mas releva sempre dos resultados políticos, sociais e económicos da conjuntura em que as várias classes se relacionam e confrontam.
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Começando pelo início, passe a redundância, encontramos Domingos Mau-Tempo, um operário/artesão que deambula e vagueia com a sua família de aldeia em aldeia no concelho de Montemor-o-Novo em busca de emprego. As formas que Domingos Mau-Tempo encontra para se “revoltar” com o “estado de coisas”, com a miséria, a fome e o desemprego reinantes são a bebida, as fugas persistentes de casa e da família para outras aldeias vizinhas e, no fim, no limite do desespero, o suicídio. Reportando-se aos anos 10-30 do século XX, fica-se com a ideia que a significação subjectiva dominante que os trabalhadores de então tinham da pobreza e da condição social em que viviam era de resignação e aceitação de uma ordem ou desígnio (quase) divino e inexplicável. «Também está [o filho] à mão direita do Pai, decerto em boa conversa com Domingos Mau-Tempo, a tentarem saber os dois porque é a desgraça tanta e o prémio tão pequeno» (Saramago, 2000, p.53). Nesta fase, a modalidade mais “avançada” de luta dos trabalhadores alentejanos espelhava-se na figura do maltês, portanto, pequenos bandos de operários desempregados que assaltavam na estrada e depois entregavam parte da colecta pelos trabalhadores mais pobres. Sobrevêm aqui semelhanças com os “bandidos sociais” descritos por Hobsbawm na sua obra Primitive Rebels (Hobsbawm, 1965). As lutas colectivas e espontâneas de trabalhadores alentejanos já ocorriam no tempo da Primeira República e no início do fascismo. Ao mesmo tempo, existiam formas de luta de indivíduos que isoladamente enfrentavam o poder dominante dos latifundiários. Relembre-se o caso de António Dias Matos (1890-1932), assassinado no Cantinho da Ribeira, concelho de Beja. Para mais informações sugere-se a leitura de (Lima, 2006, p.85-102; 133-145) e o posfácio de Manuel da Fonseca ao seu romance Seara de Vento (Fonseca, 2001, p.175-212). Portanto, a análise do processo de formação da classe trabalhadora em Levantado do Chão refere-se apenas ao sucedido no romance, logo sem extensões à restante realidade histórica alentejana.
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Sobre um desses malteses, José Gato, «nunca roubou nada aos pobres, a orientação dele era só roubar onde o havia, aos ricos» (Saramago, 2000, p.133).
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Deste estado em que o desespero, a inacção e a desorientação e onde a acção de grupos dispersos e sem objectivos políticos de luta (os malteses) eram as notas dominantes, passa-se para uma fase de crescente revolta e consciencialização dos trabalhadores. Primeiro, a acumulação de castigos físicos e de humilhações atinge um grau quase insuportável, aliado ao agravamento das dificuldades para se garantir emprego e um salário que permita a sobrevivência económica. Pavimentam-se aí os germes da revolta, até ver individual, dos operários. Aqui surge João Mau-Tempo, filho mais velho de Domingos Mau-Tempo e de Sara Conceição que «um dia, moído de pancada e de trabalho excessivo, desafiou a ameaça de ser esfolado e desossado [pelo capataz], e abriu-se com a mãe estupefacta» (idem, p.55). A insatisfação com a sua condição é cada vez mais visível – «tu és um homem, és o parceiro enganado de uma grande batota universal, brinca, que mais queres, o salário não dá para comer» (idem, p.76). O questionamento da sua situação e a verbalização (o que implica uma reflexão) da mesma, demonstra a passagem para um degrau superior de consciencialização social. Todavia, não há aqui ainda luta colectiva organizada. No romance, o atingir de um novo patamar surgirá durante e no final da Segunda Guerra Mundial. É neste período que uma onda popular de exigência de democratização percorre o país. Também é neste momento que o Partido Comunista Português se torna a força política hegemónica nos campos alentejanos. Nos anos posteriores à derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra ocorre também um ligeiro incremento na industrialização no país.
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A aplicação de maquinaria à produção agrícola resultaria, nas condições de um capitalismo atrasado, de um lado, na expulsão de mais operários do trabalho agrícola, elevando assim a taxa de desemprego nos campos e, de outro lado, na imposição de ritmos de trabalho (quase) insuportáveis.
«Vai o moço para a moinha, recebe-a na cara como um castigo, e o corpo começa de mansinho a protestar, para não mais lhe sobram as forças, mas depois, só não o sabe quem isto não tenha vivido, o desespero alimenta-se da extenuação do corpo, torna-se forte e a sua força regressa violenta ao corpo, e então, de dois feito, o rapaz, que se chama Manuel Espada, deixa a moinha, chama os companheiro e diz, Vou-me embora, que isto não é trabalhar, é morrer» (idem, p.101).
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Temos aqui um primeiro exemplo de greve espontânea. As consequências para os trabalhadores não tardam em chegar, «no domingo foram os quatro [grevistas] à praça e não arranjaram patrão. E no outro, e no outro também. O latifúndio tem boa memória e fácil comunicação, nada lhe escapa, vai passando palavra, e só quando muito bem lhe parecer dará o feito por perdoado, mas esquecido nunca» (idem, p.107-108).
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Esta espontaneidade tende a ser superada pela difusão de reuniões de trabalhadores, «encontram-se aos três e aos quatro em sítios escondidos, e mantêm grandes conversações. Fala sempre um de cada vez e todos os mais ouvem. E quando acabam dispersam-se na paisagem, quando possa ser por caminhos desviados, levando papéis e decisões. A tudo isto chamam organização» (idem, p.120-121) – e conjuntamente com a forte presença de uma cultura popular baseada em ideias de solidariedade e unidade supra-individuais, forjam-se laços de identificação colectiva de classe.
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Resumindo, a existência de uma liderança política revolucionária e ligada aos interesses dos trabalhadores (o PCP), o carácter colectivo da cultura popular e a ruptura com a inércia e o conformismo contribuem para que a classe trabalhadora se constitua como uma classe com interesses assumidamente tomados como distintos e opostos aos das classes dominantes. Em paralelo, a burguesia, os capatazes e a polícia respondem com o aumento da exploração e o recrudescimento da repressão. Contudo, esta reacção, não no imediato mas a prazo, tem como contra-resposta o fortalecimento da unidade dos trabalhadores e permite que estes compreendam e identifiquem mais objectivamente quem são os seus antagonistas e de onde vem a causa da sua condição de classe. A reacção das classes dominantes passa a ser um factor de politização da classe trabalhadora, na medida em que esta já tinha atingido um estádio de desenvolvimento político, ideológico e organizativo – que a não ser destruído pela violência física – se fortalecia no médio-longo prazo. Ou seja, o fosso entre universos (crescentemente) distintos – entre o mundo das vivências, das visões do mundo, das percepções dos vários grupos e classes sociais, das identidades colectivas, das práticas políticas dos operários agrícolas e das classes dominantes – era de uma tal magnitude, que apenas uma recomposição completa da estrutura económica da produção agrícola ou uma repressão que pudesse desarticular completamente a organização política da classe trabalhadora poderia eventualmente ter revertido tal processo. Sustente-se, todavia, que a prossecução deste processo repressivo exigiria uma intervenção do Estado incompatível com as suas forças e recursos de então. Em paralelo, uma recomposição da estrutura produtiva do latifúndio era igualmente incompatível com os interesses de classe de uma das fracções de classe politicamente mais poderosas e mais influentes do bloco no poder que se condensava no Estado fascista: o grande capital agrário e latifundiário. Por conseguinte, a tendência mais provável de desenvolvimento da luta de classes nos campos passaria pelo aprofundamento do antagonismo classista.
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Pelo seguinte trecho visualizam-se as características que sustentavam o estado de desenvolvimento da classe trabalhadora naquele período (a solidariedade , a identificação dos “patrões” como uma classe antagónica, de onde percebiam a migração dos frutos do seu trabalho para o lado da outra classe):
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«Camaradas, não se deixem enganar, é preciso que haja união entre os trabalhadores, não queremos ser explorados, aquilo que pedimos nem sequer chegava para encher a cova dum dente ao patrão. E avança o Manuel Espada, Nós não podemos ser menos que os camaradas das outras terras, que a esta hora reclamam um salário mais certo. E há um Carlos, outro Manuel, um Afonso, um Damião, um custódio, e um Diogo, e também um Filipe, todos a dizerem o mesmo, a repetir as palavras que acabaram de ouvir, só a repeti-las porque ainda não tiveram tempo de inventar outras suas próprias, e agora adianta-se João Mau-Tempo, (…) juntemo-nos todos para exigir o nosso salário, porque já vai sendo tempo de termos voz para dizer o valor do trabalho que fazemos, não podem ser sempre os patrões a resolver o que nos pagam» (idem, p.144).
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«Não há justiça se uns têm tudo e os outros nada, e eu só queria dizer que têm tudo e os outros nada, e eu só queria dizer que os camaradas podem contar comigo, é só isto e nada mais» (idem, p.212).
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Em Levantado do Chão saliente-se ainda que a existência de luta organizada, correlativa da elevação dos níveis de consciencialização dos trabalhadores aparece como o maior receio da classe dominante. Registe-se o seguinte diálogo entre o pároco e a esposa de um latifundiário «é o pior defeito que têm, o orgulho, Tem razão, senhor padre Agamedes, e o orgulho é um pecado mortal, O pior de todos, senhora dona Clemência, porque é ele que levanta o homem contra o seu patrão e o seu deus» (idem, p.243) [itálicos nossos]. O “orgulho” mencionado mais não é do que a assunção individual e colectiva que os trabalhadores adquirem da sua situação na sociedade e da aspiração e necessidade que encontram para se constituírem como uma classe politicamente independente dos interesses económicos, políticos e ideológico-culturais de outras classe sociais.
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Por outro lado, um factor que ao mesmo tempo contribui para incrementar a consciência de classe e que com a maturação desta se eleva a novos níveis é a luta colectiva operária. Isto é, a compreensão subjectiva da classe operária como uma classe diferente, oposta e antagónica ao grande capital (agrário, industrial, financeiro) espelha-se igualmente na extensão da luta reivindicativa no tempo. Portanto, a persistência temporal da luta, com avanços e recuos, em torno de exigências económicas e/ou políticas, é um aspecto capital na evolução qualitativa da formação da classe trabalhadora. Em paralelo, a compreensão de que a luta numa determinada conjuntura faz parte de um devir histórico, de um todo histórico, é igualmente importante, 
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«a Montemor vamos segunda-feira, reclamar o pão dos filhos e dos pais que os devem criar, Mas isso é o que sempre fizemos, e os resultados, Fizemos, fazemos e faremos, enquanto não puder ser diferente, Canseira que não acaba nunca, Um dia acabará, Quando já estivermos todos mortos e ao de cima vierem os nossos ossos, se houver cães que os desenterrem, Vivos haverá bastantes quando chegar esse dia» (idem, p.308) [itálicos nossos].
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Em simultâneo, a coragem em afrontar um inimigo com recursos – financeiros, militares e ideológicos – muito superiores e em que as suas reivindicações e bandeiras de luta prevalecem à repressão subsequente é uma prova do avanço progressivo da capacidade organizativa e da consciência de classe do proletariado alentejano. A isto acrescente-se também a transformação da luta económica (por salários, por melhores condições de trabalho, por horários de trabalho mais reduzidos, etc.) como catalisador da luta política. A acima referida luta pelas oito horas nos campos em 1962 foi complementada com a assunção do dia Primeiro de Maio como feriado dos trabalhadores em plena ditadura. Daí em diante, o dia da resistência antifascista passou a ser exactamente o dia 1 de Maio. Essas lutas da década de 60 – expressas no romance no envolvimento militante de Sigismundo Canastra, João Mau-Tempo, António Mau-Tempo e Manuel Espada (cunhado de João) – funcionaram, desse modo, como factor de: unidade operária, de confiança e ligação dos trabalhadores à única força política antifascista com implantação nas massas populares aí existente (o PCP); consciencialização e organização política; formação de quadros operários; abaixamento do volume de mais-valia apropriado pela burguesia; rachamento da legitimidade do regime fascista e da própria burguesia como classe dominante.
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Com a Revolução dos Cravos, chegam, entre outros, a liberdade política e a liberdade de manifestação,
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«está aqui escrito que o primeiro de Maio será festejado livremente, é dia feriado em todo o país, E então a guarda, insistem os de boa memória, A guarda desta vez fica a ver-nos passar, quem havia de dizer que uma coisa assim nos viria a acontecer um dia, a guarda quieta e calada enquanto tu gritas viva o primeiro de Maio» (idem, p.355).
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Parafraseando Ary dos Santos, com «as portas que Abril abriu» (Santos, 2004, p.309-330) os trabalhadores alentejanos finalmente consumaram as suas aspirações pela posse e trabalho da terra por si mesmos sem necessidade constrangimentos externos e em que os produtos do trabalho eram apropriados e distribuídos colectivamente.
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«E então num sítio qualquer do latifúndio, a história lembrar-se-á de dizer qual, os trabalhadores ocuparam uma terra. Para terem trabalho, nada mais, cubra-se de lepra a minha mão direita se não é verdade. E depois numa outra herdade os trabalhadores entraram e disseram, Vimos trabalhar. E isto que aconteceu aqui, aconteceu além, é como na Primavera, abre-se um malmequer do campo, e se não vai logo Maria Adelaide colhê-lo, milhares de seus iguais nascem em um dia só, onde estará o primeiro, todos brancos e todos voltados ao sol, é assim o noivado desta terra» (idem, p.361).
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Por conseguinte, é com a Reforma Agrária que o proletariado alentejano atinge o cume da sua capacidade organizativa e da sua consciencialização social e política. Isto para não falar da melhoria material e económica da sua vida quotidiana.
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Atentemos nas palavras de um operário agrícola que viveu esse processo. Palavras enunciadas no mesmo ano em que Levantado do Chão foi publicado.
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«Os trabalhadores alentejanos e ribatejanos nunca pensaram na terra para si e não continuam a pensar na terra para si, nunca foram gananciosos por terem um bocadinho de terra. Isto em falando numa maneira muito alentejana, os trabalhadores o que querem é pôr a terra a produzir para todo o povo português e a terra dos alentejanos e dos ribatejanos é de todo o povo português. Portanto, não queremos de facto um bocadinho de terra cada um, mas queremos de facto que a terra seja posta ao serviço da economia nacional e de todo o povo em geral. Não queremos, de facto, ficar com um bocadinho [de terra], outro ficar com outro, que a terra nos seja posta, como se costuma dizer, em nosso nome. A terra é do nosso país, a terra hoje é de quem volta a trabalhar. Esta é a ideia dos alentejanos, é aquilo que os alentejanos trabalhadores rurais sempre viram da terra» (Arraiolos, 1980, p.209).
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É todo este movimento histórico de transformação das práticas colectivas e políticas de classe do operariado agrícola alentejano que vibra e pulsa nas páginas de Levantado do Chão. Um romance onde se pode afirmar que os trabalhadores não são descritos externamente ao contexto histórico, mas onde a sua experiência histórica e humana é contada pela sua própria voz colectiva. Em 1980, pela voz individual de um dos seus.
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Bibliografia
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* Sociólogo
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