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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Que tal é o novo Astérix?



Que tal é o novo Astérix? Há 30 anos que não era tão bom

"O Papiro de César" é o melhor livro de Astérix desde os anos 80. Ele não está à altura das grandes obras de Goscinny e Uderzo, mas após tantas décadas de fome sempre dá para consolar a barriga.

João Miguel Tavares

Título: O Papiro de César

Autor: Jean-Yves Ferri (texto) e Didier Conrad (desenho)
Editor: Asa
Páginas: 48
Preço: 12,90 €

Há uma maneira simpática e uma maneira antipática de analisar o novo livro de Astérix. A maneira antipática é dizer que ele não chega aos calcanhares dos melhores livros assinados por Goscinny e Uderzo – o que é verdade. A maneira simpática é dizer que este é o melhor livro de Astérix em 30 anos – o que também é verdade.

Tudo somado, e tendo em conta que três décadas de orfandade gaulesa conferem o direito a um certo consolo crítico e noticioso, mais vale começar pelos elogios e valorizar o facto de a dupla que tomou conta da série em 2013 – Jean-Yves Ferri (texto) e Didier Conrad (desenho) – ter resgatado Astérix do enorme buraco onde Albert Uderzo o tinha enfiado.

Estamos, claro está, a falar da qualidade artística da obra: em termos financeiros, e com a chegada da série ao cinema de imagem real em 1999, a máquina de produzir sestércios nunca deixou de carburar (os quatro filmes realizados desde então alcançaram quase 50 milhões de espectadores, só em França), e mesmo os últimos (e péssimos) livros assinados por Uderzo atingiram sempre tiragens de três milhões de exemplares.

Só que a certa altura, sobretudo com o inenarrável O Céu Cai-lhe em Cima da Cabeça (2005), onde entravam extraterrestres, super-homens, naves inspiradas na BD japonesa, um mau da fita que parecia o Duende Verde do Homem-Aranha e um bom da fita que tinha roubado as luvas ao rato Mickey, o caso atingiu níveis de inimputabilidade. Aquilo fazia tanto sentido num álbum de Astérix como marisco num cozido à portuguesa.

Perante isso, a família de Albert Uderzo lá terá arranjado finalmente coragem para convencer o senhor a parar de torturar os pobres gauleses, que apesar de resistirem ainda e sempre ao invasor estavam com manifestas dificuldades em resistir ao seu criador.

A verdadeira razão para isso já foi repetida inúmeras vezes: René Goscinny, o genial argumentista de Astérix, Lucky Luke ou Iznogoud, era a grande alma da série, e ela nunca recuperou da sua morte, no já distante ano de 1977.



Eram os seus notáveis argumentos que faziam toda a diferença,com a Gália do ano 50 a.C. transformada num engenhoso espelho onde se refletiam as preocupações da França contemporânea. Através de notáveis anacronismos e jogos de linguagem só acessíveis a leitores mais sofisticados, Goscinny mantinha ao mesmo tempo uma pulsão aventureira capaz de agradar aos mais jovens, e foi essa mistura de níveis de compreensão que impulsionou a série para o sucesso.

Para quem quiser saber mais sobre Goscinny, aqui fica um pequeno e divertido vídeo:




E aqui fica um longo documentário, René Goscinny: Profession Humoriste (1998), de Michel Viotte:




Astérix não é caso único de orfandade – Lucky Luke padeceu do mesmo mal. Após a morte de Goscinny, Morris continuou a desenhar Lucky Luke com péssimos resultados, e ele só voltou a ter alguma gracinha recentemente, quando Achdé e Laurent Guerra pegaram na série.

Uderzo, nesse aspecto, foi mais inteligente, porque publicou muito menos e geriu muito melhor o legado de Astérix. Além disso, justiça lhe seja feita: Goscinny sempre foi excelentemente servido pelo magnífico traço de Uderzo, um argumentista medíocre mas um extraordinário desenhador.

Aliás, se o atual trabalho de Didier Conrad não deixa de impressionar pela sua fidelidade a Uderzo, há sempre ali qualquer coisa que fica aquém, tal como o falsificador de quadros tem grandes dificuldades em captar a verdadeira alma do artista. O traço é competentíssimo, sem dúvida, mas nunca atinge a elegância e a harmonia dos melhores momentos de Uderzo.

Só que o argumento de Jean-Yves Ferri, mesmo não chegando também ele perto do virtuosismo de livros como A Volta à Gália,Astérix na Córsega ou O Domínio dos Deuses, é muito mais consistente do que qualquer coisa que Uderzo tenha escrito. Ele parte de uma boa ideia inicial – a publicação da obra (autêntica)Guerras da Gália, de Júlio César – para a partir daí iniciar uma reflexão sobre as fugas de informação e o papel dos media no mundo actual. À boa maneira goscinnyana, existe um protagonista decalcado de Julian Assange (Gerapolémix), que tenta divulgar publicamente um capítulo eliminado de Guerras da Gália e é perseguido pelos romanos por causa disso, refugiando-se na inevitável aldeia gaulesa. 



Nesse sentido, O Papiro de César é bem mais conseguido e ambicioso do que o primeiro livro assinado pela dupla Ferri/Conrad em 2013, Astérix entre os Pictos, que se limitava a ser uma aventura mais ou menos convencional passada na Escócia. Ainda assim, o sucesso desse livro permitiu a Jean-Yves Ferri e a Didier Conrad largarem tudo o que faziam para se dedicarem em exclusivo a Astérix – e os resultados desse esforço são agora bem visíveis. Os novos pais do irredutível gaulês parecem estar definitivamente encontrados.

Não vale muito a pena continuar a chorar pelo Astérix das décadas de 60 e 70, porque, na verdade, não é só Goscinny que não volta – é também a nossa juventude e um mundo onde a banda desenhada era a porta de entrada de todos os miúdos no mundo das letras. Esse tempo acabou, levado por muitas das tecnologias que são agora parodiadas em O Papiro de César, pelo que mais vale conformarmo-nos com o que há. E o que há é isto: um novo Astérix que não envergonha o seu passado. Já não é mau.

http://observador.pt/2015/10/23/que-tal-e-o-novo-asterix-ha-30-anos-que-nao-era-tao-bom/

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Comunicação em quadrinhos, Julian Assange vira personagem de Asterix



14 de outubro de 2015 - 13h08 

Não há dúvidas de que o valor da informação é uma das grandes questões deste século. Não à toa o idealizador do site Wikileaks, Julian Assange, se tornou um “vilão” aos olhos dos Estados Unidos quando ousou quebrar as regras (e o sigilo) do imperialismo e alertar a população mundial sobre os riscos existentes em mecanismos de transmissão de informação aparentemente seguros. 

Por Mariana Serafini



Reuters

O ilustrador Didier Conrad e o roteirista Jean-Yves Ferri anunciam a nova obra
É com este mote que os personagens deAsterix vão viver aventuras relacionadas ao mundo da comunicação na próxima edição do HQ. Asterix e o Papiro de Césarchega ao público em todo o mundo simultaneamente no dia 22 deste mês, já traduzido em 20 idiomas. 

Julian Assange, que ainda não sabe da homenagem devido à dificuldade de ser contatado em seu asilo na embaixada do Equador em Londres, inspirou o mocinho Superpolemix. O jornalista vai encarar o vilão Promocionus, uma espécie de “novo assessor” de Júlio César, inspirado no publicitário francês Jacques Séguéla. 


O anúncio da nova edição foi feito nesta segunda-feira (12), em Paris, por meio de uma coletiva de imprensa em plena Torre Eiffel, com os novos autores Jean-Yves Ferri (roteirista) e Didier Conrad (ilustrador). O evento contou com a presença do criador do quadrinho, Albert Uderzo – aposentado em 2010 – e da filha de seu colega René Goscinny, Anne Goscinny. 



Durante a coletiva os criadores revelaram que a ideia inicial era chamar o personagem inspirado em Assange de Wikilix, mas, por fim, acharam “muito óbvio”. O jornal onde Superpolemix trabalha se chama Matin de Lutèce. Outro a integrar a história é o Le Mundus, mas os criadores garantiram que não tem nenhuma relação com o diário francês Le Monde


A primeira edição lançada sob a criação dos novos roteiristas foi em 2013, Asterix entre os Pictos, vendeu 2,4 milhões de cópias na França e 4 milhões ao redor do mundo. 

Até hoje foram lançados 35 álbuns que venderam 350 milhões de exemplares e inspiraram 11 adaptações para o cinema – oito animações e três filmes –, além de jogos, brinquedos e um parque temático. As histórias já foram traduzidas para 83 idiomas e 29 dialetos, são bastante populares em países da Europa, América Latina, África e Ásia, além da Austrália, Nova Zelândia e Canadá. Estranhamente os personagens gauleses ainda não conquistaram os leitores dos Estados Unidos e Japão.

Assista ao teaser de Asterix e o Papiro de César




Do Portal Vermelho

http://www.vermelho.org.br/noticia/271453-11