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quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Alda Lara : Regresso

* Alda Lara

Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar...
Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!...minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o humus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor...
Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monotono, igual,
do casario plano...
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruidos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede...Tenho sede dos crepusculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais...
Saudade...Tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçõeiras,
das cheias alucinadas...
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...
Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...
Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acacias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
Voltei!...
(Alda Lara 1948) - poetisa angolana

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Alda Lara - Prelúdio

Alda Lara

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...

Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.

É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada..

Lisboa, 1951 (Poemas, 1966)

Este poema foi cantado por Paulo de Carvalho cuja interpretação pode ser ouvida em https://www.youtube.com/watch?v=PyAAZdbtFio


Uma bela interpretação, mas os meninos que a mãe negra ajudou a criar e que se ausentaram (talvez para estudarem em Portugal) esquecendo as suas histórias seriam os ... brancos. É a eles que se refere a poetisa Alda Lara (médica e branca, que teve de "abandonar" Angola para cursar as universidades de Lisboa e Coimbra). Faço este comentário por causa das oportunas imagens que vão iiustrando o poema

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Alda Lara - Testamento

* Alda Lara
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O Domingo na Poesia ~ segundo vários escritores - 02

15 de Outubro de 2013 às 14:06
* Victor Nogueira

Nas nossas vidas o que é o domingo ? Antes de tudo, o dia de ir à missa, dia de religião mas também de convívio, de vestir o fato de ver-a-Deus. Especialmente em Luanda, dia de ir à praia na estação quente ou de na estação fresca (cacimbo) almoçar num dos restaurantes dos arredores (frango assado ou bacalhau assado ou bife com ovo a cavalo e batatas fritas) - não me lembro se na estrada do Cacuaco, se na da Catete. Dia do passeio dos tristes, sobretudo em Portugal - pela linha do Estoril (com os meus padrinhos), em Lisboa, pela Estrada da Póvoa (de Varzim) ou a Matosinhos ou à Foz do Douro e Castelo do Queijo, se no Porto (com os meus avós). Ou de ir a Goios e conviver com os meus primos e primas. Também havia em Luanda o passeio dos tristes, de ir até à ponta da Ilha do Cabo (com lanche numa cervejaia), ou ao Cacuaco ou à barra do rio Dande,

Em Portugal  era também para muitos portugueses/as o dia do namoro, no jardim, não poucas vezes com a banda a tocar no coreto. Era de sábado para domingo também o dia (ou a noite) dos bailaricos, nas sociedades recreativas, as miúdas sob o olhar atento das mães, das  tias ou dos irmãos mais velhos. E também o dia das bebedeiras dos homens nas tabernas. Ou da ressaca. E era também para muita gente o dia da ida ao cinema, fossem de estreia, fossem de "reprise", estes com dois filmes diferentes. 

Mas poemas que se referem a isto aparecerão mais à frente, noutra nota. Hoje, selecionei e partilho estes. Boa leitura.

* Manuel Alegre – Poemarma
* Alfred Lichtenstein - Domingo à tarde
* Vinicius de Morais - Soneto de um domingo
* ferlumbras - Domingo à noite merece um poema
* Cazuza -  QUERIDO DIÁRIO (TÓPICOS PARA UMA SEMANA UTÓPICA)
* Jorge de Sena - Lisboa um domingo
* Alda Lara - AS BELAS MENINAS PARDAS


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* Manuel Alegre

Poemarma


 Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua
.
Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas .

Que o poema fique. E que ficando se aplique
A não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
Voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui.



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* Alfred Lichtenstein

Domingo à tarde


Em ruas podres acampa o casario,
Sobre cuja bossa baço sol clareia.
Um cão de luxo perfumado e com cio
Atira ao mundo olhares de quem esgazeia

De fraldas cheias gritam bebés zangados.
Numa janela, a apanhar moscas, está um moço.
Um comboio no céu, sobre ventosos prados,
Vai pintando lento e longo traço grosso.

Como máquinas matraqueiam ferraduras.
Cheios de pó chegam ginastas ruidosos.
Lançam-se gritos brutais de tascas escuras.
Mas são cortados por inóspita maviosos.

Nos lupanares, onde s atletas lutam,
Difuso entardecer já tudo engole.
Um realejo uiva e criadas cantam.
Um homem esmaga mulher podre e mole.

A tradução portuguesa do poema é de João Barrento.
~in http://viciodapoesia.wordpress.com/2013/03/10/domingo-a-tarde-o-poema-de-alfred-lichtenstein-com-paisagens-urbanas-de-egon-schiele/


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* Vinicius de Morais

Soneto de um domingo


Em casa há muita paz por um domingo assim.
A mulher dorme, os filhos brincam, a chuva cai...
Esqueço de quem sou para sentir-me pai
E ouço na sala, num silêncio ermo e sem fim,

Um relógio bater, e outro dentro de mim...
Olho o jardim úmido e agreste: isso distrai
Vê-lo, feroz, florir mesmo onde o sol não vai
A despeito do vento e da terra que é ruim.

Na verdade é o infinito essa casa pequena
Que me amortalha o sonho e abriga a desventura
E a mão de uma mulher fez simples, pura e amena.

Deus que és pai como eu e a estimas, porventura:
Quando for minha vez, dá-me que eu vá sem pena
Levando apenas esse pouco que não dura.


Rio de Janeiro, 1944.

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Enviado por ferlumbras
em 23/04/2012 00:51:1

Domingo à noite merece um poema.


Domingo à noite merece um poema.
Desses com gosto de vômito e cinzas de cigarro.
Desses com gosto de goza feminina.
Domingo à noite merece tristesse, blues e barbarismos.

Ah, quem me dera incorporar Manuel Bandeira,
Bukowski, algum poeta maldito,
Algum poeta desconhecido,
Quem me dera ser eu mesmo por mais um verso,
E mandar tudo pro Diabo com uma caligrafia de médium!

Mandar o amor, a paixão, as ilusões,
Livros e mais livros sobre São Foucault,
Sobre a Perestroika e os puteiros da Lapa,
Lançar tudo no inferno junto com meus sonhos não satisfeitos
E meus Deuses Desconhecidos!

Quem me dera cuspir toda essas palavras na folha
Para que sujem a superfície dela como sangue:
Sangue que não se saiba donde veio.
Sangue que não se saiba de quem veio.
Menstruação de algum anjo.

Um dia qualquer já fomos gente,
Já fomos pessoas em algum momento dessa vida trágica.
Hoje somos apenas pessoas esperando que o Domingo à noite passe,
Esperando que alguma peça grega já não nos tenha traduzido,
Que algum poeta latino já não nos tenha amaldiçoado em versos.

Nesse momento, que passa despercebido como a Lua,
Estamos aqui, esperando que o fim do mundo chegue.
Então tenhamos pressa!
Antes que a Hora Que Ninguém Sabe seja agora,
E não tenhamos bebido a saideira das saideiras!
Quem sabe a Morte, de salto alto e cabelos soltos,
Não nos acompanhe na privada gorfando o nosso último gole?


Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=220136#ixzz2he9mdMLR

Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

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* Cazuza

QUERIDO DIÁRIO
(TÓPICOS PARA UMA SEMANA UTÓPICA)

Segunda-feira:
Criar a partir do feio
Enfeitar o feio
Até o feio seduzir o belo

Terça-feira:
Evitar mentiras meigas
Enfrentar taras obscuras
Amar de pau duro

Quarta-feira:
Magia acima de tudo
Drogas, barbitúricos
I Ching
Seitas macabras
O irracional como aceitação do universo

Quinta-feira:
Olhar o mundo
Com a coragem do cego
Ler da tua boca as palavras
Com a atenção do surdo
Falar com os olhos e as mãos
Como fazem os mudos

Sexta-feira:
Assunto de família:
Melhor fazer as malas
E procurar uma nova
(Só as mães são felizes)

Sábado:
Não adianta desperdiçar sofrimento
Por quem não merece
É como escrever poemas no papel higiênico
E limpar o cu
Com os sentimentos mais nobres

Domingo:
Não pisar em falso
Nem nos formigueiros de domingo
Amar ensina a não ser só
Só fogos de São João no céu sem lua
Mas reparar e não pisar em falso
Nem nas moitas dos metrôs nos muros
E esquinas sacanas comendo a rua
Porque amar ensina a ser só
Lamente longe, por favor
Chore sem fazer barulho


http://pensador.uol.com.br/poemas_cazuza/


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* Jorge de Sena

Lisboa um domingo

              1
Dominical a rua
e branco de silêncio
Agosto varre o sol
e papéis velhos das
soleiras carcomidas
por beirais de sombra.
              2
Não nada
e que fica
só mentira
alheia.
Não há nos defenda:
perfídia
alheia.
Que resta
e o durar mais
só como queira
maldade alheia.
               3
Um vento que ouço de árvores:
nenhuma voz humana.
Ninguém me ouve ninguém:
um vento que ouço de árvores.
               4
Do alto da ponte
encostas de cidade
e prata rio e mar.
               5
Rapazes conversam
em gritos grosseiros.
Silêncio de alegres mortos.
                                           (26/8/1973)

http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/antologias/poesia/o-exilio-e-as-patrias/


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* Alda Lara

AS BELAS MENINAS PARDAS

As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.

Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são todos dos dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, trás desenganos

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trajadas.
Direitinhas. Aprumdas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada

(Parece mal rir na rua!...)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas?...
outras raças?... , outros mundo?...
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!...

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_africana/angola/alda_lara.html



vem de O Domingo na Poesia ~ segundo vários escritores - 01
https://www.facebook.com/notes/victor-nogueira/o-domingo-na-poesia-segundo-v%C3%A1rios-escritores-01/10151715178124436

continua em O Domingo na Poesia ~ segundo vários escritores - 03
https://www.facebook.com/notes/victor-nogueira/o-domingo-na-poesia-segundo-v%C3%A1rios-escritores-03/10151721548799436
foto de família - num dos restaurantes dos arredores de Luanda
foto de família - num dos restaurantes dos arredores de Luanda

Foto de família - nas canoas dos pescadores para a ilha em frente à nossa casa, na Avenida da Praia do Bispo, em Luanda
Foto de família - nas canoas dos pescadores para a ilha em frente à nossa casa, na Avenida da Praia do Bispo, em Luanda