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quarta-feira, 14 de julho de 2010

São José Almeida abriu o armário dos homossexuais na ditadura

Ípsilon


Estado Novo

São José Almeida abriu o armário dos homossexuais na ditadura

07.07.2010 - Raquel Ribeiro

"Os Homossexuais no Estado Novo" traça a homossexualidade (masculina e feminina) durante o Estado Novo, reescrevendo a história século XX português 
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Na apresentação do livro "Os Homossexuais no Estado Novo", de São José Almeida (ed. Sextante), há um mês, no Porto, a poeta e professora universitária Ana Luísa Amaral começava por questionar, citando Judith Butler (uma das mais proeminentes investigadoras americanas em estudos "queer" e activista de direitos LGBT), qual a necessidade de se falar em direitos dos homossexuais quando a Palestina ainda estava sob domínio israelita. Resposta de Butler: "Tudo tem a ver com a violência, por isso é impossível estabelecer prioridades."

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Ao Ípsilon, Ana Luísa Amaral completou esta ideia, explicando, a propósito do livro da jornalista do PÚBLICO São José Almeida, que "a forma mais conservadora de dar prioridade a determinados assuntos é dizer que assuntos políticos, como a crise económica, são mais importantes". "Não me parece: todos eles exibem violência. Uma sociedade que resolve as suas crises económicas, mas não resolve as suas crises sociais e de identidade, é uma sociedade injusta também." Nesse sentido, continua Amaral, "Os Homossexuais no Estado Novo" é um livro "completamente político, porque os assuntos de visibilidade são sempre políticos, digam respeito aos sem-abrigo, aos homossexuais ou às mulheres".

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Esta obra começou por ser uma investigação jornalística de São José Almeida sobre como viviam os homossexuais durante o Estado Novo, publicada na revista "Pública" no Verão de 2009. A autora explica na introdução que a investigação não parou aí, ainda que este seja um princípio, "um livro inacabado", ou até uma porta que se abre para um caminho que a sociedade portuguesa deverá percorrer de forma a "revisitar a história", e "se reencontrar consigo mesma". É altura, escreve, "de Portugal começar a ajustar contas com a História".

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Uma história de Portugal

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São José Almeida colige uma pesquisa totalmente original reunindo uma série de vozes de especialistas portugueses e estrangeiros, de testemunhos pessoais, de investigações, mas também recorrendo a um enquadramento teórico, científico e jurídico das problemáticas envolvendo a homossexualidade no século XX português. António Fernando Cascais, professor na Universidade Nova de Lisboa e especialista em história da homossexualidade em Portugal , é uma das fontes fundamentais usadas pela jornalista para compor a história dos homossexuais durante a ditadura. Ao Ípsilon afirma que esta investigação "é uma incursão num terreno que não estava pura e simplesmente desbravado".

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Almeida traça a história da homossexualidade em Portugal entre 1912 (ano da Lei sobre a Mendicidade) e 1982, quando entra em vigor o novo Código Penal (de que foram eliminados os artigos 70º e 71º, referentes àqueles que "se entreguem habitualmente à pratica de vícios contra a natureza"). A autora mostra como a homossexualidade é a "sexualidade transgressora numa sociedade patriarcal", sublinhando dois eixos no contexto português: um referente à "diferença de classe social, a diversidade de tratamento para quem é das elites e das aristocracias do regime e para quem é do povo"; e outro relacionado com os não-ditos, os silenciamentos, a "inexistência de uma identidade" que permita uma noção de comunidade, "partilha de grupo", comum durante estes anos. Ouvindo um número considerável de testemunhas que contam, em primeira mão, as suas experiências vividas sob a ditadura, São José Almeida demonstra os dois pesos e as duas medidas do regime relativamente aos homossexuais (das elites e das classes baixas), tendo em conta como a "repressão e a exclusão social a que estavam votados no Estado Novo levavam a que a sua vivência - em que a sexualidade ocupa um lugar central, como em todas as pessoas - fosse relegada para uma semi-clandestinidade, uma espécie de submundo, muitas vezes identificados como os 'bas-fonds' e o crime".

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Este trabalho mostra, assim, como a história dos homossexuais no Estado Novo é, no fundo, coincidente com a história do próprio país durante esse período e da resistência ao regime. "Evidentemente que os homossexuais, enquanto grupo, nunca é apenas aquilo que é: é aquilo que é mais o que lhe acontece. É uma história do país durante esse período, uma história do regime e das suas características", explica Cascais.

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Ana Luísa Amaral diz que a obra "dá voz às vozes que estiveram em silêncio durante esse período", e são os testemunhos que a professora diz poderem vir a ser úteis nas suas aulas de Introdução aos Estudos Feministas, na Universidade do Porto, por exemplo: "Alguns testemunhos são muito importantes, pungentes, até. Esta disciplina pode sensibilizar os alunos para questões sobre o outro, aprender a ver o outro como um semelhante. Quem está ali podia ser eu. Mas [os testemunhos] também [servem] para os alunos se chocarem e se sensibilizarem com a estupidez da violência pela qual estas pessoas tiveram de passar." A noção de testemunho é sublinhada por Cascais que diz que "Os Homossexuais no Estado Novo" é, em termos metodológicos, "uma história oral, na primeira pessoa". Mas há uma "relevância histórico-política" que tem que ver com a "dar voz a quem não a tinha, reescrever a história noutros termos que não nos existentes: os do silenciamento, do enviesamento, dando rosto a estereótipos, humanizando-os."

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Poetas e escritores, pioneiros

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Salientando sempre a diferença de classes que se estabelecia na "comunidade" homossexual em Portugal (entre aspas porque, precisamente, essa comunidade não existia enquanto tal), a autora recorre a exemplos das artes e da literatura que, até certo ponto, foram pioneiros de uma forma de sentir a sexualidade durante a ditadura (António Botto, Eugénio de Andrade, Mário de Cesariny, Natália Correia, João Villaret, entre muitos outros). Essa é também a leitura de Eduardo Pitta no livro "Fractura - A condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea" (2003), onde textos de autores portugueses são analisados segundo uma perspectiva "gay" ou "queer".

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Nos anos 20, "uma nova ordem se anuncia", com a censura dos livros e posterior ostracização dos poetas Judith Teixeira, Raul Leal e António Botto. Botto foi saneado e exilou-se no Brasil no final dos anos 40. Citando Cascais, a autora escreve: "A partir daí, a homossexualidade exprime-se na literatura de forma cifrada, críptica. [...] Ninguém queria ter a sorte de Botto e de Teixeira, o próprio Eugénio de Andrade disse que não queria pagar em vida o que Botto pagou." Só mais tarde, na geração dos surrealistas com Cesariny (o "único homossexual português?", pergunta ironicamente Almeida), com Natália Correia e Ary dos Santos haveria uma maior abertura (social e até política) relativamente à homossexualidade.

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A referência a figuras de proa da literatura portuguesa pode ser polémica, nomeadamente no que diz respeito ao caso Jorge de Sena, já falecido, mas cuja família está ainda hoje viva. Ana Luísa Amaral diz que o livro de Almeida levanta a questão dos limites entre o público e o privado de "forma interessante": até que ponto, pergunta Amaral, "é que se deve questionar a eventual homossexualidade de Jorge de Sena partindo ou de entrevistas, ou do texto do autor? É complexo e polémico. Essa questão é saudável porque pode levantar um debate interessante sobre a crítica literária em Portugal."

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O "caso" Sena diz respeito à suposta homossexualidade do autor de "Sinais de Fogo", ainda hoje tido por vários especialistas como um dos romances pioneiros da literatura "queer" em Portugal. Citando Fernando Dacosta, a autora escreve: "[Sena] casou. Fazia, praticamente, um filho por ano, o que é uma atitude muito normal nos homossexuais. Conheci-o". Dacosta conta (corroborado por Eduardo Pitta) que Sena foi expulso da Marinha por ter sido apanhado com um rapaz. O conto de Sena, "Grã-Canária", incluído em "As Andanças do Demónio" é, "nesse sentido, autobiográfico", conta Pitta à autora. São José Almeida explica como a polémica estalou em 1982 quando o "Expresso" apresentou um trabalho de Arnaldo Saraiva sobre a homossexualidade em Jorge de Sena. Grupos de intelectuais escreveram cartas inflamadas (e indignadas) sobre o assunto. Para a autora, o "caso" Sena é, por isso, exemplar de toda a sua investigação: "Pela forma como tem sido interpretado e pelas polémicas que tem gerado, [Sena] é demonstrativo de como os passos para identificar as referências que permitam a construção de uma identidade 'gay' em Portugal são, muitas vezes, impossíveis de dar até muito tarde no século XX português".

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Mulheres e linguagem

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Além da história oral, o enquadramento científico e jurídico do homossexual é uma das mais-valias do livro de Almeida. Com base nas teorias de Egas Moniz e Asdrúbal António de Aguiar, da década de 20 do século passado, a autora explica que a homossexualidade era "vista como doença, que pode e deve ser tratada, e como perversão, que tem de ser corrigida, a bem da nova ordem social burguesa". Essa percepção (e as categorias desenvolvidas a partir desta) dominou o discurso oficial na ditadura.

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Para Ana Luísa Amaral, este enquadramento é uma primeira contribuição para a criação de "um léxico inclusivo para a cidadania". Isto quer dizer que "designações, categorias, o próprio conceito de homossexual e a sua naturalização, conceitos que dizem respeito às sexualidades, tornam-se abertos a toda a sociedade". O livro mostra, portanto, "como se esboroaram essas categorias e é um novo léxico que se vai construir". Cascais concorda: "Normalmente, os homossexuais não têm história, têm uma tipologia de doença, têm uma patologia." Com este livro, "isto está desfeito. A outra coisa que está desfeita é o preconceito histórico de que uma história dos homossexuais diz apenas respeito aos homossexuais, é uma micro-história ou a história de uma minoria. Ora, não há histórias só de minorias, porque as minorias nunca estão isoladas."

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Anna Klobucka, investigadora de Estudos Portugueses na Universidade de Massachusetts-Dartmouth, nos Estados Unidos, tem-se debruçado sobre questões de género e teorias feminista e "queer" na literatura portuguesa. "Do meu ponto de vista, que é também o da minha agenda de pesquisa e daquilo que me interessa pessoalmente, o que me parece mais útil e original [neste livro] é que permite desenvolver uma perspectiva de análise muito mais bem informada sobre o que se poderia chamar, segundo o livro de Eve Sedgwick, a 'epistemologia do armário português'." A ideia de "armário" (ou neste caso da sua "abertura", com o livro de Almeida) é, diz Klobucka, "um fenómeno universal no ocidente" que tem a ver com a relação que a homossexualidade estabelece com o (in)cumprimento "das regras em vários contextos culturais". Mas há diferenças entre países e épocas: "Usar fontes que se baseiam na realidade dos EUA ou da Inglaterra, ou mesmo de Espanha, para pensar e analisar o caso português é deslocado." O contexto português "é bastante distinto de outros que tenho estudado em obras teóricas e isso é muito precioso".

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O "armário" aqui aberto está na voz dos testemunhos, mas também no facto de Almeida tentar estabelecer sempre uma certa paridade entre a homossexualidade feminina e masculina. A autora escreve que, na história, a "mulher surge sempre como segunda figura", e a "concepção do lesbianismo" é decalcada da dos homens. Nesse sentido, tanto para Klobucka como para Ana Luísa Amaral o capítulo dedicado ao lesbianismo, "Mas isso existe?", é relevante. Klobucka afirma que a autora "faz muito com o pouco material que tem", dando máxima "inclusividade à esfera do lesbianismo que é particularmente invisível e usualmente mal documentada por comparação à homossexualidade masculina na cultura portuguesa". Klobucka acrescenta ainda que "a situação das mulheres portuguesas durante o Estado Novo era muito diferente do estatuto social dos homens e naturalmente a questão homossexual também tem de ser construída de uma forma diferente".
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sábado, 24 de maio de 2008

25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (18)


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* Fotos de Victor Nogueira (Évora)
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30 anos do 25 de Abril
Criado segunda-feira, 12 de Abril de 2004
Última actualização terça-feira, 27 de Abril de 2004

Tiago Petinga/Lusa
Lino de Carvalho tem acompanhado as questões da política agrícola no Parlamento, onde é deputado e vice-presidente

Livro "Reforma Agrária da utopia à realidade"
Lino de Carvalho conta história da Reforma Agrária
Por São José Almeida
12.04.2004
Público
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Trinta anos depois do 25 de Abril, Lino de Carvalho decidiu fazer o registo sistematizado da Reforma Agrária e dar-lhe o título de "Reforma Agrária Da Utopia à Realidade", volume editado pela Campo de Letras, na colecção Campo da História, que amanhã é formalmente lançado na Livraria Parlamentar, na Assembleia da República, depois de um primeiro lançamento no passado dia 5, em Évora, cidade pela qual é eleito deputado à Assembleia da República desde 1987.

Vice-presidente da Assembleia da República, enquanto deputado pelo PCP - de que é militante desde de 1969 e cujo Comité Central integra desde Dezembro de 1988 -, Lino de Carvalho tem, nos últimos 17 anos, dedicado-se às questões relacionadas com a agricultura e as políticas e estratégias agrícolas ou ausência delas em Portugal. A sua mais recente área de intervenção parlamentar, no capítulo agrícola, foi precisamente a defesa de políticas de incentivo à exploração agrícola do perímetro de rega da Barragem do Alqueva, sendo o responsável pelo projecto de lei do PCP que procurou instituir um "banco de terras" estatal para arrendamento e um limite máximo de extensão da propriedade na zona.
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Tendo como imagem de capa um pormenor de óleo de Rogério Ribeiro, "Unidade Colectiva de Produção", o livro inclui também uma recolha interessante de espólio documental de cartazes, folhetos de propaganda e fotografias da época relacionadas com a Reforma Agrária.
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No prefácio, Fernando Oliveira Baptista sustenta que este livro "revela uma preocupação e um percurso inconformados com a paralisia a que a grande propriedade conduziu o Alentejo" um diagnóstico que, segundo o mesmo professor, se identifica, "nas suas grandes linhas, com o traçado há sete décadas por Mário de Castro, um autor hoje esquecido, mas de quem Lino de Carvalho quis recuperar o testemunho em defesa da Reforma Agrária". Oliveira Baptista salienta mesmo que o facto de Lino de Carvalho referenciar Mário de Castro demonstra a "forma abrangente e consensual como Lino de Carvalho conduz a argumentação e retira conclusões".
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O espírito de abertura com que o deputado comunista, Lino de Carvalho, fez este livro é salientado ainda por Fernando Oliveira Baptista quando afirma: "A profunda discordância com Lopes Cardoso, ministro da Agricultura no VI Governo Provisório e parte do I Governo Constitucional, não o levaram, com justiça, a omitir que 'este sempre assumiu a necessidade da Reforma Agrária e não hesitou em afirmar que esta configurava uma das grandes conquistas alcançadas pelas massas trabalhadoras após o 25 de Abril de 1974'."
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A estrutura do livro parte das "Razões para uma Reforma Agrária", em que Lino de Carvalho começa a fazer o historial da Questão Agrícola e da luta pela reestruturação agrária e agrícola do Alentejo. Depois passa a apresentar o processo da ocupação-colectivização dos latifúndios alentejanos para se dedicar, de seguida, ao que chama de "Contra-Reforma Agrária". Isto sem deixar de abordar os "níveis produtivos e as preocupações sociais da Reforma Agrária". Por fim, Lino de Carvalho dedica um capítulo à questão: "Há lugar para uma nova Reforma Agrária?".
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Com a autoridade de ter estado ligado ao processo da Reforma Agrária - foi membro fundador dos secretariados das Unidades Colectivas de Produção/Cooperativas Agrícolas e vice-presidente da Federação nacional de Cooperativas de Produção e ter estado ligado à organização das 12 Conferências da Reforma Agrária - Lino de Carvalho dá assim o seu contributo para a historiografia da revolução do 25 de Abril e do Portugal do século XX.
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Mas não deixa de advertir: "Não é pois uma obra académica ou o resultado de uma aturada investigação, que continua por fazer, a partir do imenso espólio documental existente e da memória viva daqueles que protagonizaram o processo da Reforma Agrária e a sua liquidação. É tão-somente o produto da minha memória, do meu próprio arquivo e das minhas reflexões. Seguramente incompleto." Mas com certeza incontornável para quem quiser fazer a história da Reforma Agrária.

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ver

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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Julieta Gandra

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* São José Almeida

Julieta Gandra viveu 90 anos de ousadia. Desafiou regras, desafiou convenções, desafiou poderes. Foi uma referência para gerações de jovens de esquerda. Viveu a política com alegria e convicção e por uma causa: Angola

"Olhe! Em vez de estar aí parado ajude-me a carregar os embrulhos!" Sem dar tempo para ao pide, que lhe vigiava a casa, reagir, Julieta Gandra despejou os muitos pacotes com que chegara ao nº 7 da Ilha do Príncipe, em Lisboa, e obrigou assim o agente da polícia política a subir até ao 4º-B, carregando as suas compras em silêncio. Esta história desconcertante é recordada, entre sorrisos, por Diana Andringa, que, na segunda metade dos anos 60, morava no 5º-A e que conviveu com Julieta Gandra, médica, oposicionista, militante feminista e anticolonialista e, sobretudo, transgressora, falecida a 8 de Outubro, em Lisboa, com 90 anos.

Nascida a 16 de Setembro de 1917, em Oliveira de Azeméis, Maria Julieta Guimarães Gandra era filha de Aurora e Mário Gandra, solicitador e pequeno comerciante, e tinha três irmãos, Fernanda, mais velha e ainda viva, Ângela, e Hernâni, arquitecto que militou no PCP.

Julieta cursou medicina, em Lisboa, onde conheceu Ernesto Cochat Osório, oposicionista e poeta, natural de Angola. Depois de casados e de ter nascido, em 1944, o seu filho Miguel (que não quis colaborar neste trabalho), rumam de barco a Luanda. Julieta é então especialista em medicina tropical. Irá interessar-se por obstetrícia e ginecologia e será ela a introdutora do parto sem dor em Angola. Médica das jovens brancas da elite de Luanda, dá também consulta a mulheres pobres, brancas e pretas.

Em Luanda, priva com intelectuais não afectos ao regime e frequenta o Cine-Clube e a Sociedade Cultural de Angola. O que fora uma aproximação à oposição na faculdade torna-se ligação ao PCP em Angola. (Pacheco Pereira, Álvaro Cunhal, III vol. pp. 517-526). Em meados dos anos 50, participa na formação do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Vem de então a sua amizade com Agostinho Neto, Lúcio Lara, Paulo Jorge e Arménio Santos.

Durante a década e meia que vive em Angola, viaja. Vem a Lisboa. E, em 1958, depois de visitar, em Bruxelas, a exposição mundial, ruma à União Soviética. De regresso a Luanda, passa por Paris e Lisboa e, a sua sobrinha Ana Rita Gandra Gonçalves, ainda hoje se lembra das discrições de um espectáculo de Ives Montand e os discos de Léo Ferré que distribui pelos mais novos.Processo dos 50A 29 de Março de 1959, Julieta Gandra é presa pela PIDE. Em Agosto, realiza-se o primeiro julgamento político de nacionalistas angolanos, "o processo dos 50".

No final, os presos brancos serão enviados para a metrópole, enquanto os negros irão reabrir o Campo do Tarrafal.

A sua prisão causa polémica e constrangimento na Luanda branca. Era uma intelectual influente e médica da elite. Chegou a sair da prisão para ir assistir a um parto da filha de um engenheiro belga, responsável de uma petrolífera, que assim o exigiu.

O seu tempo de prisão em Luanda foi de cela aberta. Primeiro na PSP, onde a sua detenção incomodava, pois era médica da instituição. Depois, na ala feminina do hospital psiquiátrico, que funcionou como prisão, pois não havia cadeias para presas políticas. O director acaba por exigir mesmo a retirada do pide que vigia a porta, argumento: perturba as doentes da ala feminina.

Em Lisboa, amigos da família tentam libertar Julieta. Há mesmo quem interpele o ministro Paulo Cunha, ao que este responde: "Não me fale dessa senhora!"

Julieta foi acusada de ter dado 500 escudos ao MPLA, ter convidado para jantar um membro do movimento, ter enviado um sobrescrito contendo papéis do MPLA e ser militante do PCP. As provas nunca apareceram no Tribunal Militar de Luanda e o seu advogado ficou retido em Lisboa.

Foi condenada a 12 meses de prisão. Pena que foi agravada para dois anos de prisão maior e medidas de segurança de seis meses a três anos, após recurso do Ministério Público. Julieta recorre também e realiza-se novo julgamento, já em Lisboa, mas a pena aumenta: quatro anos de prisão maior e medidas de segurança de seis meses a três anos.

Depois do processo, o filho vem viver com a tia Fernanda e estudar no Colégio Moderno, da família Soares, de que era amiga, já que o pai de Julieta e João Soares foram correlegionários na I República. Mário Soares será o advogado já no período final da cadeia e conduzirá a libertação, após uma campanha internacional conduzida pela Amnistia, a partir de Londres.

Presa do ano
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Em 1964, Julieta Gandra é escolhida como "presa consciência do ano", depois de já ter sido o centro de uma campanha do grupo de defesa dos direitos humanos West Bristol, em 1962. Foi a primeira vez que um preso português é escolhido, o que voltará a acontecer com Mário Soares, em 1973, explica ao P2 Vítor Nogueira, da Amnistia Internacional, que privou também com Julieta Gandra.

No início de Julho de 1965, Julieta Gandra abandona finalmente a prisão de Caxias, onde chegara a 8 de Novembro de 1960. E onde partilhou cela com figuras como Maria Eugénia Varela Gomes, presa no Golpe de Beja, que sobre ela contou: ""Era muitíssimo inteligente, cultíssima, uma grande dama, corajosa politicamente, uma mulher frontal, impecável perante a PIDE, uma boa médica, uma mulher muito interessante."

Também a militante comunista Ivone Dias Lourenço partilhou cela com Julieta: "Era extremamente solidária, nunca fez vida à parte, nunca fez luta à parte. Ela foi sempre de uma extrema ajuda, culta, enciclopédica, interessava-se por tudo, viva, uma grande contadora de histórias, muito viajada, era o centro das nossas conversas, alimentava a curiosidade, tinha uma visão contemporânea do mundo. Eu própria considero que lhe devo o abrir dos olhos para o mundo."

Transgressão máxima
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É também na cela, em Caxias, que conhece Fernanda da Paiva Tomás, nascida a 8 de Novembro de 1928, com quem manterá desde então uma relação afectiva, até à morte de Fernanda, com um tumor cerebral, em 15 de Setembro de 1984.

Fernanda da Paiva Tomás era uma alta dirigente do PCP, que entrara já em ruptura com o partido - "queriam que ela deixasse a clandestinidade para visitar Joaquim Carreira, o pai do filho, que fora preso, e ela achava que era militante comunista e não companheira", conta Diana Andringa, que esteve na mesma cela de Fernanda, no final dos anos 60. Presa em 6 de Fevereiro de 1961, Fernanda só será libertada em 19 de Novembro de 1970, sendo a mulher que mais tempo sucessivo esteve presa pela PIDE, um total de nove anos e nove meses, que se somam a onze anos de clandestinidade anterior."Com a saída de Fernanda Tomás da cadeia foi uma lufada de ar fresco na vida da Julieta e naquela casa. Foi um período muito porreiro. Mas nunca abordei a relação, para mim eram apenas duas pessoas que viviam na mesma casa", diz Amílcar Sequeira, amigo de Julieta que até à sua morte continuou a visitá-la no lar, onde vivia desde 2001.

O início da relação entre ambas, em Caxias, é referido por Maria Eugénia Varela Gomes em Contra Ventos e Marés (pp. 229/230). Ao P2 apenas diz: "Era visível dentro da cela a relação das duas, escrevi porque é a verdade histórica." Já Ivone Dias Lourenço sublinha: "Era muito miúda, não tinha experiência de vida, não me apercebi de nada, só soube depois da Fernanda morrer.

"Apesar de o assunto ser omitido ainda hoje por muitos que privaram com as duas, Ana Rita Gandra Gonçalves, sobrinha de Julieta, assume: "Eu gostava muito da Fernanda, era uma pessoa muito especial. Elas tinham uma atitude muito natural em relação à situação. Não houve propriamente festa de casamento, mas naquelas idades não se faz isso."

Por sua vez, Maria Teresa Horta é peremptória em afirmar que, com o passar dos anos sobre a morte de Fernanda Tomás, "a relação foi silenciada, mas as pessoas sabem, até porque criou celeuma na própria cela". E prossegue: "Tinham uma afectividade imensa e uma solidariedade imensa entre as duas. Para fazer aquilo que elas fizeram, era preciso que houvesse uma grande coragem e um grande amor. Mesmo depois do 25 de Abril havia silêncio à volta do assunto. Não por elas, que não escondiam. Mas em relação à mulher é mais difícil falar-se, não há homossexualidade feminina porque não há sexualidade feminina."

E frisa: "Imagine-se o que é duas mulheres assumirem uma relação dentro de uma cela de uma cadeia da PIDE cheia de presas do PCP. É um acto de transgressão máxima, para mais porque são presas políticas do fascismo. Além da transgressão que as leva ali, há esta."

Uso da pílula em Portugal
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É também no período de Caxias que Julieta Gandra se afasta do PCP, embora sobre isso Ivone Dias Lourenço apenas diga: "Não sei quem se afastou de quem." Já Teresa Horta, que foi também militante do PCP, acrescenta: "Tentei falar sobre o assunto com Alda Nogueira [esteve presa na mesma cela] e com Georgete Ferreira, ambas não quiseram falar." O afastamento consuma-se já fora da prisão e dá-se a aproximação à extrema-esquerda, se bem que o centro da luta de Julieta fosse a questão colonial.

Junta-se então ao filho em casa da irmã Fernanda e pouco depois começa a dar consultas em Sintra e monta consultório na Rua Manuel da Maia, em Lisboa, onde dará emprego a Aida Paula, com quem esteve presa em Caxias. Volta a exercer clínica, tornando-se uma das ginecologistas percursoras do uso da pílula em Portugal.

"Ela ia muito à frente, falava com grande liberdade do prazer sexual a que a mulher tinha direito sem ser penalizada com a gravidez. E pesava sobre ela o peso da suspeição do regime. Era uma mulher muito corajosa", afirma Teresa Horta acrescentando: "Fazia muita medicina gratuita, o que lhe interessava era aquilo que hoje se chama serviço público."

Santuário angolano
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Após alguns meses a dormir no consultório, aluga a casa da Rua Ilha do Príncipe. Será este o lugar mítico para gerações de militantes de esquerda não alinhados com o PCP e, acima de tudo, o santuário do independentismo angolano.

"Ela era uma referência. A casa da Julieta era importante. Para mim foi um livro aberto", diz Amílcar Sequeira. É lá que as novas gerações convivem com figuras do independentismo. "Permitiu-nos ouvir históricos como o Ilídio Machado e Arménio Santos", salienta Diana Andringa que assume a dívida: "Se me perguntarem qual a minha pátria, digo Angola. De alguma forma, Julieta ajudou-me a isso. Fez-me não ter vergonha de ser branca e privilegiada."É lá que se realiza, após o 25 de Abril, a primeira reunião para organizar a primeira manifestação anticolonial, onde estiveram Carlos Antunes e Cabral Fernandes, entre outros. E Julieta integra uma delegação da Casa de Angola que vai ao Alvor, durante a assinatura do acordo das independências, reunir-se com Agostinho Neto.

Em 1975, regressa a Luanda, para ai montar o serviço de saúde e despacha directamente com Neto. Fernanda Tomás vai consigo e trabalha no Ministério da Educação. Julieta Gandra instala o serviço de vacinação e a rede de enfermeiros e faz o levantamento para determinação de epidemias. Regressa a Lisboa profundamente doente, de urgência, em 1977, e ruma a Londres onde lhe é diagnosticado um edema pulmonar.

A dívida de Angola para com Julieta Gandra é expressa numa subvenção que recebia irregularmente do Governo angolano e que completava a subvenção atribuída no Governo de António Guterres, em reconhecimento da sua luta como antifascista. Mas recusou-se a receber a Ordem da Liberdade, já no segundo mandato de Jorge Sampaio.

"Era pessoa forte, opinativa", lembra Ana Rita Gandra Gonçalves. "Obrigava-nos a pensar. Tinha pouca paciência para chavões. Na altura da guerra do Biafra, dizia que não era adoptando uma criança que se resolvia o problema. Tinha muita paciência para nós, os mais novos, mas não tinha paciência para pieguices e disparates", lembra Diana Andringa e acrescenta: "Era uma militante feminista e anticolonial. Em tudo o que dizia e fazia estava presente que as mulheres são iguais aos homens, têm os mesmos direitos e os mesmo deveres, até o dever de pensar."

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