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quinta-feira, 4 de maio de 2023

Carlos Coutinho - Flagelações



* Carlos Coutinho  

   ESTA brisa matinal rasteirinha trouxe-me agora à memória o mundo romanceado por Manuel Lopes na sua Ilha de S. Vicente, onde nunca estive, “Os Flagelados do Vento Leste”. 

   O extraordinário romancista, que nasceu no Mindelo, em 23 de dezembro de 1907 e faleceu em Lisboa, a 25 de janeiro de 2005, foi um dos fundadores da decisiva revista “Claridades”, tendo escolhido um território insular em tudo coincidente com o das outras ilhas cabo-verdianas, açoitadas diariamente por um vento africano absolutamente cruel e insidioso.

   Aliás, com tema idêntico, Manuel Ferreira, um escritor que nasceu na  [Gândara dos Olivais, Leiria, em 1917 e faleceu em Linda-a-Velha, Oeiras, em 1992, tendo sido presidente da Associação Portuguesa de Escritores, muito penou em Cabo Verde, onde esteve como oficial do Exército colonial com a patente de capitão.

   Acontece que de Cabo Verde só conheço a Ilha de Santiago, a maior e mais cosmopolita, por onde cirandei em tempos e onde ainda impera a memória horrenda do Campo de Concentração do Tarrafal. 

   Também aí chega vento desertificante do Sara, geralmente conhecido como harmatão ou harmatã, seco e poeirento, soprando de dezembro a meados de março, sendo em Cabo Verde também designado por lestada e bruma seca.

   Cito o primeiro parágrafo de “Os Flagelados do Vento Leste”:

   “Agosto chegou ao fim. Setembro entrou feio, seco de águas; o sol peneirando chispas num céu cor de cinza; a luminosidade tão intensa que trespassava as montanhas, descoloria-as, fundia-as na atmosfera espessa e vibrante. Os homens espiavam, de cabeça erguida, interrogavam-se em silêncio. Com ansiedade jogavam os seus pensamentos, como pedras das fundas, para o alto. Nem um fiapo de nuvem pairava nos espaços. Não se enxergava um único sinal, desses indícios que os velhos sabem ver apontando o dedo indicador, o braço estendido para o céu, e se revelam aos homens como palavras escritas.”

   Trata-se, pois, de uma ilha inóspita em que a seca atravessa a paisagem, as vidas e as entranhas daqueles que vivem da terra e que desesperadamente olham para o céu à procura de chuva em fiapos de nuvens esquecidas pelo vento.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Crioulo cabo-verdiano

 

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Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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Crioulo cabo-verdiano (kriolu, kriol)
Pronúncia: /kɾiˈolu/, /kɾiˈol/
Falado em: Cabo Verde e em comunidades emigradas em diversos países.
Total de falantes: 926.078[1]
Família: Línguas Crioulas
 Crioulo de base portuguesa
  Crioulos Afro-portugueses
   Crioulos da Alta-Guiné
    Crioulo cabo-verdiano
Estatuto oficial
Língua oficial de: Nenhum Estado. Discute-se actualmente a sua possível oficialização em Cabo Verde.
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: --- (B) cpp (T)
SIL: KEA
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O crioulo cabo-verdiano é uma língua originária do Arquipélago de Cabo Verde. É uma língua crioula, de base lexical portuguesa. É a língua materna de quase todos os cabo-verdianos, e é ainda usada como segunda língua por descendentes de cabo-verdianos em outras partes do mundo.
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Índice

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Nome e relevância

A designação mais correcta desta língua é «crioulo cabo-verdiano», mas no uso diário, a língua é simplesmente chamada de «crioulo» pelos seus falantes. O nome «cabo-verdiano» ou «língua cabo-verdiana» foi proposto para quando a língua estiver padronizada.
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O crioulo cabo-verdiano reveste-se de particular importância para o estudo da crioulística pelo facto de se tratar de o crioulo (ainda falado) mais antigo, por ser o crioulo de base portuguesa com o maior número de falantes nativos, por ser o crioulo de base portuguesa mais estudado, e por ser um dos poucos crioulos em vias de se tornar uma língua oficial.
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O crioulo cabo-verdiano reveste-se também de importância para o estudo diacrónico da língua portuguesa pelo facto de o crioulo ter conservado algum léxico, alguma fonologia e alguma semântica do português dos Sécs. XV a XVII.
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Classificação interna

Apesar da pequenez territorial, a situação de insularidade fez com que cada uma das nove ilhas desenvolvesse uma forma própria de falar crioulo. Cada uma dessas nove formas é justificadamente um dialecto diferente, mas os académicos em Cabo Verde costumam chamá-las de «variantes», que é o termo que passaremos a empregar neste artigo.
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Essas variantes podem ser agrupadas em duas grandes variedades. A Sul temos a dos crioulos de Sotavento que engloba as variantes de Brava, Fogo, Santiago e Maio. A Norte temos a dos crioulos de Barlavento que engloba as variantes de Boa Vista, Sal, São Nicolau, São Vicente e Santo Antão. 
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Para mais pormenores, consultar os artigos referentes a cada uma das variantes.
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As autoridades linguísticas em Cabo Verde consideram o crioulo como uma língua única, e não como línguas diferentes. Seguindo a política da Wikipédia, neste artigo não será favorecido, nem se incidirá sobre uma variante específica. O crioulo cabo-verdiano será tratado como uma língua única conforme tem sido a política da Wikipédia.
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Como algumas formas lexicais do crioulo cabo-verdiano podem ser diferentes conforme as variantes, por convenção, as palavras e as frases serão apresentadas num modelo lexical de compromisso, numa espécie de «crioulo médio» de forma a poder ser apreendido por um falante de qualquer das variedades e para não ferir suscetibilidades. Sempre que necessário será apresentada, imediatamente depois da palavra, a transcrição fonémica (ou por vezes, a transcrição fonética) segundo o AFI. Quando as formas lexicais forem demasiadamente diferentes será apresentado depois da palavra (entre parêntesis) de que variante é originária a respectiva palavra.
Em alguns casos, o modelo lexical intermédio que será apresentado pode não existir, mas será usado por motivos de comparação linguística. Aqui vão dois exemplos:
  • O verbo *lumbú /lũˈbu/ que significa «pôr às costas», e deriva da palavra portuguesa «lombo», já não existe. Sofreu uma dissimilação consonântica em Sotavento (bumbú /bũˈbu/), sofreu uma dissimilação vocálica em São Vicente e Santo Antão (lambú /lɐ̃ˈbu/) ou então os dois fenómenos em Boa Vista, Sal e São Nicolau (bambú /bɐ̃ˈbu/). No entanto, aqui neste artigo será utilizada a forma *lumbú.
  • A palavra portuguesa «joelho» deveria ter evoluído regularmente para *djuêdju /ʤuˈeʤu/ em crioulo. No entanto, essa forma já não existe. Em Brava, Fogo e Santiago a forma é duêdju /duˈeʤu/, em Maio, Boa Vista, Sal e São Nicolau a forma é zuêdj’ /zuˈeʤ/, em São Vicente e Santo Antão a forma é juêi’ /ʒuˈej/. A antiga forma do crioulo cabo-verdiano pode ser atestada pelo crioulo guineense onde a palavra é djúdju /ˈʤuʤu/. Aqui neste artigo será utilizada a forma *djuêdju.
Para o ortografia que será usada neste artigo ver a secção Sistema de escrita.
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De um ponto de vista linguístico as variantes mais importantes são as de Fogo, Santiago, São Nicolau e Santo Antão, e qualquer estudo profundo do crioulo deve ter em conta pelo menos estas quatro variantes. São as únicas ilhas que receberam escravos directamente do continente africano, e são as ilhas que possuem características linguísticas mais conservadoras e mais distintas entre si[carece de fontes?].
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De um ponto de vista social as variantes mais importantes são as de Santiago e São Vicente, e qualquer estudo ligeiro do crioulo deve ter em conta pelo menos estas duas variantes. São as variantes dos dois principais núcleos urbanos (Praia e Mindelo), são as variantes com maior número de falantes e são as variantes que têm uma tendência glotofagista sobre as variantes vizinhas[carece de fontes?].
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O crioulo de São Vicente foi divulgado através dos poemas de Sérgio Frusoni. Por seu lado, o crioulo da Brava é conhecido através das mornas de Eugénio Tavares, o crioulo de Santo Antão pelos contos de Luís Romano de Madeira Melo e o crioulo do Fogo pela colectânea de contos de Elsie Clews Parsons.
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Diferenças entre os crioulos:
Crioulo do
Fogo
Crioulo de
Santiago
Crioulo de
São Nicolau
Crioulo de
São Vicente
Crioulo de
Santo Antão
Português
Ês frâ-m’.
[es fɾɐ̃]
Ês flâ-m’.
[es flɐ̃]
Ês fló-m’.
[es flɔm]
Ês dzê-m’.
[eʒ dzem]
Ês dzê-m’.
[eʒ dzem]
Eles disseram-me.
Bú câ ê bunítu.
[bu kɐ e buˈnitu]
Bú câ ê bunítu.
[bu kɐ e buˈnitu]
Bô câ ê b’nít’.
[bo kɐ e bnit]
Bô câ ê b’nít’.
[bo kɐ e bnit]
Bô n’ ê b’nít’.
[bo ne bnit]
Tu não és bonito.
M’ câ sabê.
[ŋ kɐ sɒˈbe]
M’ câ sâbi.
[ŋ kɐ ˈsɐbi]
M’ câ sabê.
[m kɐ saˈbe]
M’ câ sabê.
[m kɐ saˈbe]
Mí n’ séb’.
[mi n sɛb]
Eu não sei.
Cumó’ qu’ ê bú nômi?
[kuˈmɔ ke bu ˈnomi]
’Módi qu’ ê bú nómi?
[ˈmɔdi ke bu ˈnɔmi]
Qu’ manêra qu’ ê bô nôm’?
[k mɐˈneɾɐ ke bo nom]
Qu’ manêra qu’ ê bô nôm’?
[k mɐˈneɾɐ ke bo nom]
Qu’ menêra qu’ ê bô nôm’?
[k meˈneɾɐ ke bo nom]
Como é o teu nome?
Bú podê djudâ-m’?
[bu poˈde ʤuˈdɐ̃]
Bú pôdi djudâ-m’?
[bu ˈpodi ʤuˈdɐ̃]
Bô podê j’dó-m’?
[bo poˈde ʒdɔm]
Bô podê j’dá-m’?
[bo poˈde ʒdam]
Bô podê j’dé-m’?
[bo poˈde ʒdɛm]
Podes ajudar-me?
Spiâ lí!
[spiˈɐ li]
Spía li!
[spˈiɐ li]
Spiâ li!
[spiˈɐ li]
Spiá li!
[ʃpiˈa li]
Spiá li!
[ʃpiˈa li]
Olha cá!
Ê’ cantâ.
[e kɒ̃ˈtɐ]
Ê’ cánta.
[e ˈkãtɐ]
Êl cantâ.
[el kɐ̃ˈtɐ]
Êl cantá.
[el kɐ̃ˈta]
Êl cantá.
[el kãˈta]
Ele/ela cantou.
Bú tâ cantâ.
[bu tɐ kɒ̃ˈtɐ]
Bú tâ cánta.
[bu tɐ ˈkãtɐ]
Bô tâ cantâ.
[bo tɐ kɐ̃ˈtɐ]
Bô tâ cantá.
[bo tɐ kɐ̃ˈta]
Bô tâ cantá.
[bo tɐ kãˈta]
Tu cantas.
M’ stâ cantâ.
[ƞ sta kɒ̃ˈtɐ]
M’ sâ tâ cánta.
[ƞ sɐ ta ˈkãtɐ]
M’ tâ tâ cantâ.
[m tɐ tɐ kɐ̃ˈtɐ]
M’ tí tâ cantá.
[m ti tɐ kɐ̃ˈta]
M’ tí tâ cantá.
[m ti tɐ kãˈta]
Eu estou a cantar.
Screbê
[skɾeˈbe]
Scrêbi
[ˈskɾebi]
Screbê
[skɾeˈbe]
Screvê
[ʃkɾeˈve]
Screvê
[ʃkɾeˈve]
Escrever
Gossím
[ɡɔˈsĩ]
Góssi
[ˈɡɔsi]
Grinhassím
[ɡɾiɲɐˈsĩ]
Grinhassím
[ɡɾiɲɐˈsĩ]
Grinhessím
[ɡɾiɲeˈsĩ]
Agora
Pôrcu
[ˈpoɾku]
Pôrcu
[ˈpoɾku]
Pôrcu
[ˈpoɾku]
Tchúc’
[ʧuk]
Tchúc’
[ʧuk]
Porco
Conxê
[kõˈʃe]
Cônxi
[ˈkõʃi]
Conxê
[kõˈʃe]
Conxê
[kõˈʃe]
Conxê
[kõˈʃe]
Conhecer
Dixâ
[diˈʃɐ]
Dêxa
[ˈdeʃɐ]
D’xâ
[ʧɐ]
D’xá
[ʧa]
D’xá
[ʧa]
Deixar
Dixâ-m’ quétu!
[diˈʃɐ̃ ˈkɛtu]
Dexâ-m’ quétu!
[deˈʃɐ̃ ˈkɛtu]
D’xó-m’ quêt’!
[ʧɔm ket]
D’xá-m’ quêt’!
[ʧam ket]
D’xé-m’ quêt’!
[ʧɛm ket]
Deixa-me quieto!
Dôci
[ˈdosi]
Dóxi
[ˈdɔʃi]
Dôç’
[dos]
Dôç’
[dos]
Dôç’
[dos]
Doce
Papiâ
[pɒˈpjɐ]
Pâpia
[ˈpɐpjɐ]
Papiâ
[pɐˈpjɐ]
Falá
[fɐˈla]
Falá
[faˈla]
Falar
Cúrpa
[ˈkuɾpɐ]
Cúlpa
[ˈkulpɐ]
Cúlpa
[ˈkulpɐ]
Cúlpa
[ˈkulpɐ]
Cúlpa
[ˈkulpɐ]
Culpa
Nhôs amígu
[ɲoz ɒˈmigu]
Nhôs amígu
[ɲoz ɐˈmigu]
B’sôt’ amígu
[bzot ɐˈmiɡu]
B’sôt’ amíg’
[bzot ɐˈmiɡ]
B’sôt’ emíg’
[bzot eˈmiɡ]
O vosso amigo
(O amigo de vocês)
Scúru
[ˈskuru]
Sucúru
[suˈkuru]
Scúr’
[skur]
Scúr’
[ʃkur]
Scúr’
[ʃkur]
Escuro
Cárru
[ˈkaru]
Cáru
[ˈkaɾu]
Córr’
[kɔʀ]
Córr’
[kɔʀ]
Córr’
[kɔʀ]
Carro
Lébi
[ˈlɛbi]
Lébi
[ˈlɛbi]
Lêb’
[leb]
Lêv’
[lev]
Lêv’
[lev]
Leve
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Para mais exemplos consultar a Lista de Swadesh — Crioulo cabo-verdiano.

 Origens

Mornas — Cantigas crioulas
de Eugénio Tavares.
um dos primeiros livros com textos em crioulo
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A história do crioulo cabo-verdiano é difícil de traçar devido, primeiro, à falta de registos escritos desde a formação do crioulo, segundo, devido ao ostracismo a que o crioulo foi relegado durante a administração portuguesa.
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Existem presentemente três teorias acerca da formação do crioulo cabo-verdiano[2]. A teoria eurogenética defende que o crioulo foi formado pelos colonizadores portugueses, numa simplificação da língua portuguesa de modo a torná-la acessível aos escravos africanos. É o ponto de vista de alguns autores como Prudent, Waldman, Chaudesenson, Lopes da Silva. A teoria afrogenética defende que o crioulo foi formado pelos escravos africanos, aproveitando as gramáticas de línguas da África Ocidental, e substituindo o léxico africano pelo léxico português. É o ponto de vista de alguns autores como Adam, Quint. A teoria neurogenética defende que o crioulo formou-se expontaneamente, não por escravos nascidos no continente, mas pela população nascida nas ilhas, aproveitando as estruturas gramaticais inatas com as quais todo o ser humano nasce. É o ponto de vista de alguns autores como Chomsky, Bickerton, que explicaria porquê que os crioulos localizados a quilómetros de distância apresentam estruturas gramaticais similares, mesmo sendo de base lexical diferente. O melhor que se pode dizer é que nenhuma dessas três teorias foi concludentemente provada.
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Segundo A. Carreira[3], o crioulo cabo-verdiano ter-se-ia formado a partir de um pidgin de base lexical portuguesa, na ilha de Santiago, a partir do Séc. XV. Esse pidgin seria depois transposto para a costa Ocidental da África através dos lançados. A partir daí, esse pidgin teria divergido em dois proto-crioulos, um que estaria na base de todos os crioulos de Cabo Verde, e outro que estaria na base do crioulo da Guiné Bissau.
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Cruzando documentos referentes à colonização das ilhas com a comparação linguística é possível conjecturar algumas conclusões. A propagação do crioulo cabo-verdiano nas diversas ilhas foi feito em três fases[4]:
  • Numa primeira fase foi colonizada a ilha de Santiago (2.ª metade do Séc. XV), e em seguida a do Fogo (fins do Séc. XVI).
  • Numa segunda fase foi colonizada a ilha de São Nicolau (sobretudo na 2.ª metade do Séc. XVII), e em seguida a de Santo Antão (sobretudo na 2.ª metade do Séc. XVII).
  • Numa terceira fase, foram colonizadas as restantes ilhas a partir de populações originárias das primeiras ilhas: Brava foi colonizada a partir de populações do Fogo (sobretudo no início do Séc. XVIII), Boa Vista foi colonizada a partir de populações de São Nicolau e Santiago (sobretudo na 1.ª metade do Séc. XVIII), Maio foi colonizada a partir de populações de Santiago e Boa Vista (sobretudo na 2.ª metade do Séc. XVIII), São Vicente foi colonizada a partir de populações de Santo Antão e São Nicolau (sobretudo no Séc. XIX), Sal foi colonizada a partir de populações de São Nicolau e Boa Vista (sobretudo no Séc. XIX).

Situação Actual

Diglossia: aviso (lei) em português; publicidade em crioulo.
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Apesar do crioulo ser a língua materna de quase toda a população de Cabo Verde, o português ainda é a única língua oficial. Como a língua portuguesa é utilizada na vida quotidiana (na escola, pela administração pública, em actos oficiais, etc.) o português e o crioulo vivem num estado de diglossia[5]. Em consequência desta presença generalizada do português, regista-se um processo de descrioulização em todas as variantes dos crioulos cabo-verdianos.
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Atente-se neste texto fictício:
Variante de Santiago:
Quêl mudjêr cú quêm m’ encôntra ónti stába priocupáda púrqui êl sqêci dí sês minínus nâ scóla, í cándu êl bâi procurâ-’s êl câ olhâ-’s. Alguêm lembrâ-’l quí sês minínus sâ tâ pricisába dí material pâ úm pesquisa, entõ êl bâi encontrâ-’s nâ biblioteca tâ procúra úqui ês cría. Pâ gradêci â túdu quêm djudâ-’l, êl cumêça tâ fála, tâ flâ cômu êl stába contênti di fúndu di curaçãu.
Variante de São Vicente:
Quêl m’djêr c’ quêm m’ encontrá ônt’ táva priocupáda púrq’ êl sq’cê d’ sês m’nín’s nâ scóla, í cónd’ êl bái procurá-’s êl câ olhá-’s. Alguêm lembrá-’l qu’ sês m’nín’s táva tâ pr’cisá d’ material pâ úm pesquisa, entõ êl bâi encontrá-’s nâ biblioteca tâ procurá úq’ ês cría. Pâ gradecê â túd’ quêm j’dá-’l, êl c’meçá tâ fála, tâ dzê côm’ êl táva contênt’ d’ fúnd’ d’ curaçãu.
Tradução para português:
Aquela mulher com quem eu encontrei-me ontem estava preocupada porque ela esqueceu-se das suas crianças na escola, e quando ela foi procurá-las ela não as viu. Alguém lembrou-lhe que as suas crianças estavam a precisar de material para uma pesquisa, então ela foi encontrá-las na biblioteca a procurar o que elas queriam. Para agradecer a todos os que ajudaram-na, ela começou a falar, dizendo como ela estava contente do fundo do coração.
Nota-se neste texto várias situações de descriolização / intromissão do português:
  • cú quêm / c’ quêm — estrutura do português «com quem»;
  • encôntra / encontrá — léxico português, em crioulo seria mais comum átcha / otchá;
  • priocupáda — léxico português, em crioulo seria mais comum fadigáda;
  • púrqui / púrq’ — léxico português, em crioulo seria mais comum pamódi / pamód’;
  • sês minínus / sês m’nín’s — estrutura do português (concordância dos plurais);
  • procurâ-’s / procurá-’s — léxico português, em crioulo seria mais comum spiâ-’s / spiá-’s;
  • olhâ-’s / olhá-’s — fonética do português (intromissão do fonema /ʎ/);
  • quí — léxico português, a conjunção integrante em crioulo é ’mâ;
  • sâ tâ pricisába / táva ta pr’cisá — léxico português, em crioulo seria mais comum sâ tâ mestêba / táva tâ mestê;
  • material, pesquisa, biblioteca — palavras pouco comuns num basilecto; se são palavras em português usadas ao falar crioulo devem ser pronunciadas em português e escritas em itálico ou entre aspas;
  • úqui / úq’ — intromissão do português «o que»;
  • gradêci â / gradecê â — regência com preposição errada, a preposição «a» não existe em crioulo:
  • fála — só em São Vicente e Santo Antão é que se usa a forma falá, nas outras ilhas é papiâ;
  • cômu / côm’ — intromissão do português «como»;
  • curaçãu — fonética do português (redução do fonema /o/ para /u/ e pronúncia /ɐ̃w/ em vez do crioulo /õ/);
O mesmo texto «corrigido»:
Variante de Santiago:
Quêl mudjêr quí m’ encôntra cú êl ónti stába fadigáda pamódi êl sqêci sês minínu nâ scóla, í cándu quí êl bâi spiâ-’s êl câ odjâ-’s. Alguêm lembrâ-’l ’ma sês minínu sâ tâ mestêba «material» pâ úm «pesquisa», entõ êl bâi atchâ-’s nâ «biblioteca» tâ spía cusê quí ês cría. Pâ gradêci pâ túdu quêm quí djudâ-’l, êl cumêça tâ pâpia, tâ flâ módi quí êl stába contênti di fúndu di coraçõ.
Variante de São Vicente:
Quêl m’djêr qu’ m’ encontrá má’ êl ônt’ táva fadigáda pamód’ êl sq’cê sês m’nín’ nâ scóla, í cónd’ êl bái spiá-’s êl câ oiá-’s. Alguêm lembrá-’l ’mâ sês m’nín’ táva tâ mestê «material» pâ úm «pesquisa», entõ êl bâi otchá-’s nâ «biblioteca» tâ spiá c’sê qu’ ês cría. Pâ gradecê pâ túd’ quêm qu’ j’dá-’l, êl c’meçá tâ fála, tâ dzê qu’ manêra qu’ êl táva contênt’ d’ fúnd’ d’ coraçõ.
Como consequência desta descrioulização existe um contínuo entre variedades basilectais e acrolectais.
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Um pequeno inquérito estudantil levado a cabo em 2000 a alunos do 12.º ano de quatro escolas secundárias públicas de São Vicente e de Santo Antão revelou pouca receptividade ao uso do crioulo na sala de aulas. A razão principal é que o crioulo é uma língua de uso privado na vida quotidiana. Mas, assim que uma conversa se torna formal ou oficial, a língua portuguesa é sempre a preferida.
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Apesar de o crioulo não estar oficializado, existe uma normativa governamental que defende a criação de condições necessárias para a oficialização do crioulo[6]. Essa oficialização ainda não foi efectivada sobretudo porque o crioulo não está normalizado, por vários motivos:
  • Existe uma grande fragmentação dialectal. Os falantes opõem-se a falar uma variante que não seja a sua.
  • Ausência de normas a estabelecer qual a forma correcta (e grafia) a ser adoptada para cada palavra. Por ex.: apenas para a palavra correspondente à palavra portuguesa «algibeira», A. Fernandes[7] regista as formas algibêra, agibêra, albigêra, aljubêra, alj’bêra, gilbêra, julbêra, lijbêra.
  • Ausência de normas a estabelecer quais os limites lexicais a serem adoptados. É frequente os falantes do crioulo, ao escrever, juntarem classes gramaticais diferentes[8]. Por ex.: pâm... em vez de pâ m’... «para que eu...».
  • Ausência de normas a estabelecer quais as estruturas gramaticais a serem adoptadas. Não são apenas diferenças dialectais, até numa só variante encontram-se flutuações. Por ex.: na variante de Santiago, quando existem duas orações e uma é subordinada à outra, existe concordância nos tempos dos verbos (bú cría pâ m’ dába «tu querias que eu desse»), mas alguns falantes não a praticam (bú cría pâ m’ dâ ou bú crê pâ m’ dába).
  • O sistema de escrita adoptado (ALUPEC) não foi bem aceite por todos.
  • Ainda não estão estabelecidos os níveis de linguagem: familiar, formal, informal, científico, gíria, etc.
É por esse motivo que cada falante ao falar (ou a escrever) utiliza o seu próprio dialecto, o seu próprio sociolecto, o seu próprio idiolecto.
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Para ultrapassar estes problemas, alguns autores[9] defendem um processo de normalização dos crioulos de Sotavento em torno da variante de Santiago e outro processo de normalização dos crioulos de Barlavento em torno da variante de São Vicente. Assim sendo, o crioulo tornar-se-ia numa língua pluricêntrica.

Sistema de escrita

Apesar de o ALUPEC ser o único sistema de escrita oficialmente reconhecido pelo governo de Cabo Verde, a mesma lei permite o uso de outros modelos de escrita, «desde que apresentados de forma sistematizada e científica». Por esse motivo, como nem todos os leitores estão familiarizados com o ALUPEC ou com o AFI, nos artigos do Wikipédia sobre o crioulo cabo-verdiano foi adoptado um sistema de escrita alternativo:
  • O som /s/ será representado de um modo etimológico, isto é, se em português é escrito com ç em crioulo é escrito com ç, se em português é escrito com ss em crioulo é escrito com ss, etc..
  • O som /z/ será representado de um modo etimológico, isto é, se em português é escrito com s em crioulo é escrito com s, se em português é escrito com z em crioulo é escrito com z.
  • O som /ʧ/ será representado por tch.
  • O som // será representado por dj.
  • O som /ʃ/ será representado de um modo etimológico, isto é, se em português é escrito com ch em crioulo é escrito com ch, se em português é escrito com x em crioulo é escrito com x.
  • O som /ʒ/ será representado de um modo etimológico, isto é, se em português é escrito com g em crioulo é escrito com g, se em português é escrito com j em crioulo é escrito com j.
  • O som /k/ será representado de um modo etimológico, isto é, se em português é escrito com c em crioulo é escrito com c, se em português é escrito com qu em crioulo é escrito com qu.
  • O som /ɡ/ será representado de um modo etimológico, isto é, se em português é escrito com g em crioulo é escrito com g, se em português é escrito com g em crioulo é escrito com g.
  • A escolha entre a letra m, n ou o til para representar a nasalidade das vogais é feita segundo uma base etimológica, ou seja, se em português é escrito com m em crioulo é escrito com m, se em português é escrito com n em crioulo é escrito com n, se em português é escrito com til em crioulo é escrito com til.
  • A sílaba tónica leva sempre acento gráfico; estamos conscientes que é uma sobrecarga de acentos mas é a única maneira de representar inequivocamente a sílaba tónica e o grau de abertura da vogal, simultaneamente.
  • Para representar uma vogal que foi elidida usa-se o apóstrofo ’.
Convém referir que este sistema de escrita é adoptado neste artigo da Wikipédia apenas para simplificar aos leitores. Não se trata de nenhum sistema oficial, nem deve ser indicado como referência para a escrita do crioulo cabo-verdiano.
Ver artigo principal: ALUPEC

Vocabulário

O vocabulário do crioulo cabo-verdiano vem em grande parte do português. Embora as diversas fontes não estejam de acordo, os números oscilam entre 90 a 95 % de palavras originárias do português. O restante provém de diversas línguas da África Ocidental (mandinga, wolof, fula, balanta, manjaco, temne, etc.), e o vocabulário proveniente de outras línguas é diminuto (inglês, francês, latim, etc.).
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A página das Etimologias do Dicionário Caboverdiano Português On-Line fornece uma ideia de diferentes origens do vocabulário cabo-verdiano.
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O crioulo manteve alguns vocábulos que já caíram em desuso no português contemporâneo. Outros vocábulos, embora persistem no português contemporâneo, ou mantiveram o significado que tinham outrora, ou sofreram evoluções semânticas. Por ex.:
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Palavra em crioulo Significado que tem em português Significado que tem em crioulo  .
afrónta afronta, desafio desespero, inquietação
botâ colocar, pôr arremessar, atirar
confortâ confortar, dar conforto resignar-se
fadíga cansaço, fadiga arrelia, preocupação
fúscu fusco, obscuro bêbado
limária do português «alimária» animal de pecuária
máncu do português «manco» coxo
papiâ do português «papear» falar
pintchâ do português «pinchar» empurrar
pólpa polpa, parte carnuda das frutas nádegas
pupâ do português «apupar» gritar
tchêu cheio muito, muita, muitos, muitas

Fonologia

O crioulo cabo-verdiano possui os seguintes fonemas (segundo o AFI):
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Vogais
  anteriores
não-arredondadas
centrais
não-arredondadas
posteriores
arredondadas
fechadas /i/, /ĩ/   /u/, /ũ/
semifechadas /e/, /ẽ/   /o/, /õ/
semiabertas /ɛ/, /ɛ̃/ /ɐ/, /ɐ̃/ /ɔ/, /ɔ̃/
abertas   /a/, /ã/  
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Consoantes e semi-vogais
  labiais apicais pré-dorsais pós-dorsais
nasais /m/ /n/ /ɲ/ /ŋ/
oclusivas e africadas /p/ /b/ /t/ /d/ /ʧ/ /ʤ/ /k/ /g/
fricativas /f/ /v/ /s/ /z/ /ʃ/ /ʒ/    
semi-vogais /w/   /j/  
vibrantes   /ɾ/   /ʀ/
laterais   /l/ /ʎ/  
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Para mais pormenores:
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Alguns livros de linguística acerca do crioulo.

Gramática

A gramática do crioulo cabo-verdiano é significativamente diferente da gramática do português. Em contrapartida, apresenta muitas similaridades com outros crioulos, quer sejam de base portuguesa ou não.
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Exemplos de crioulo cabo-verdiano

Exemplo 1 (variante de Santiago)
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crioulo transcrição segundo o AFI tradução para português
Ôi Cábu Vêrdi,
Bô qu’ ê nhâ dôr más sublími
Ôi Cábu Vêrdi,
Bô qu’ ê nhâ angústia, nhâ paxõ
Nhâ vída nâce
Dí disafíu dí bú clíma ingrátu
Vontádi férru ê bô nâ nhâ pêtu
Gôstu pâ lúta ê bô nâ nhâs bráçu
Bô qu’ ê nhâ guérra,
Nhâ dôci amôr

Stênde bús bráçu,
Bú tomâ-m’ nhâ sángui,
Bú rêga bú tchõ,
Bú flúri!
Pâ térra lôngi
Bêm cába pâ nôs
Bô cú már, cêu í bús fídju
N’ úm dôci abráçu dí páz
/oj ˈkabu ˈveɾdi
bo ke ɲɐ doɾ mas suˈblimi
oj ˈkabu ˈveɾdi
bo ke ɲɐ ɐ̃ˈɡustiɐ ɲɐ pɐˈʃõ
ɲɐ ˈvidɐ ˈnɐse
di dizɐˈfiw di bu ˈklimɐ ĩˈɡɾatu
võˈtadi ˈfɛʀu e bo nɐ ɲɐ ˈpetu
ˈɡostu pɐ ˈlutɐ e bo nɐ ɲɐz ˈbɾasu
bo ke ɲɐ ˈɡɛʀɐ
ɲɐ ˈdosi ɐˈmoɾ

ˈstẽde buz ˈbɾasu
bu toˈmɐ̃ ɲɐ ˈsãɡi
bu ˈʀeɡɐ bu ʧõ
bu ˈfluɾi
pɐ ˈtɛʀɐ ˈlõʒi
bẽ ˈkabɐ pɐ noz
bo ku maɾ sew i buz ˈfiʤu
nũ ˈdosi ɐˈbɾasu di paz/
Oi Cabo Verde,
Tu que és a minha dor mais sublime
Oi Cabo Verde,
Tu que és a minha angústia, a minha paixão
Minha vida nasceu
Do desafio do teu clima ingrato
A vontade de ferro és tu no meu peito
O gosto pela luta és tu nos meus braços
Tu que és a minha guerra,
O meu doce amor

Estende os teus braços,
Toma-me o meu sangue,
Rega o teu chão,
Floresce!
Para que a terra longe
Venha acabar-se para nós
Tu com o mar, o céu e os teus filhos
Num doce abraço de paz
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Excerto da letra de Dôci Guérra da autoria de Antero Simas. A letra completa pode ser encontrada (com uma ortografia diferente) em CABOINDEX  » Doce Guerra.
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Exemplo 2 (variante de São Vicente)
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crioulo transcrição segundo o AFI tradução para português
Papái, bêm dzê-m’ quí ráça quí nôs ê, óh pái
Nôs ráça ê prêt’ má’ brónc’ burníd’ nâ vênt’
Burníd’ nâ temporál dí scravatúra, óh fídj’
Úm geraçõ dí túga cú africán’

Ês bêm dí Európa farejá riquéza
Ês vendê fídj’ dí África nâ scravatúra
Carregód’ nâ fúnd’ dí porõ dí sês galéra
D’bóx’ dí chicôt’ má’ júg’ culuniál

Algúns quí f’cá pralí gatchód’ nâ rótcha, óh fídj’
Trançá má’ túga, ês criá êss pôv’ cab’verdián’
Êss pôv’ quí sofrê quinhênt’s ón’ di turtúra, ôi, ôi
Êss pôv’ quí ravultiá tabánca intêr’
/pɐˈpaj bẽ dzem ki ˈʀasɐ ki noʒ e ɔ paj
noʒ ˈʀasɐ e pɾet ma bɾɔ̃k buɾˈnid nɐ vẽt
buɾˈnid nɐ tẽpoˈɾal di ʃkɾɐvɐˈtuɾɐ ɔ fiʤ
ũ ʒeɾɐˈsõ di ˈtuɡɐ ku ɐfɾiˈkan

eʒ bẽ di ewˈɾɔpɐ fɐɾeˈʒa ʀiˈkɛzɐ
eʒ vẽˈde fiʤ di ˈafɾikɐ nɐ ʃkɾɐvɐˈtuɾɐ
kɐʀeˈɡɔd nɐ fũd di poˈɾõ di seʒ ɡɐˈlɛɾɐ
dbɔʃ di ʃiˈkot ma ʒuɡ kuluniˈal

ɐlˈɡũʒ ki fka pɾɐˈli ɡɐˈʧɔd nɐ ˈʀɔʧɐ ɔ fiʤ
tɾɐ̃ˈsa ma ˈtuɡɐ eʒ kɾiˈa es pov kabveɾdiˈan
es pov ki soˈfɾe kiˈɲẽtʃ ɔn di tuɾˈtuɾɐ oj oj
es pov ki ʀɐvultiˈa tɐˈbãkɐ ĩˈteɾ/
Papai, vem dizer-me que raça nós somos, oh pai
A nossa raça é pretos com brancos brunidos no vento
Brunidos no temporal da escravatura, oh filho
Uma geração de portugueses com africanos

Eles vieram da Europa farejar riquezas
Eles venderam filhos da África na escravatura
Carregados no fundo do porão das suas galeras
Debaixo do chicote e jugo colonial

Alguns que ficaram por aqui escondidos nas montanhas, oh filho
Misturaram-se com os portugueses, eles criaram este povo cabo-verdiano
Este povo que sofreu quinhentos anos de tortura, oi, oi
Este povo que revoltou-se inteiramente
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Excerto da letra de Nôs Ráça da autoria de Manuel d’ Novas. A letra completa pode ser encontrada (com uma ortografia diferente) em Cap-Vert :: Mindelo Infos :: Musique capverdienne: Nos raça Cabo Verde / Cape Verde.
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Exemplo 3
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crioulo transcrição segundo o AFI tradução para português
Túdu alguêm tâ nacê lívri í iguál nâ dignidádi cú nâ dirêtus. Ês ê dotádu cú razõ í cú «consciência», í ês devê agí pâ cumpanhêru cú sprítu dí fraternidádi. /ˈtudu ɐlˈɡẽ tɐ nɐˈse ˈlivɾi i iˈɡwal nɐ diɡniˈdadi ku nɐ diˈɾetus ez e doˈtadu ku ʀɐˈzõ i ku kõʃsiˈẽsiɐ i ez deˈve ɐˈʒi pɐ kũpɐˈɲeɾu ku ˈspɾitu di fɾɐteɾniˈdadi/ Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.
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Tradução livre por parte de (?) do 1.º artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos

Referências

  1. ↑ Ethnologue
  2. ↑ Santos, Carlos, «Cultura e comunicação: um estudo no âmbito da sociolinguística»
  3. ↑ Carreira, António (1982)
  4. ↑ Pereira, Dulce (2006)
  5. ↑ Duarte, D. A. (1998)
  6. ↑ Resolução n.º 48/2005 (Boletim Oficial da República de Cabo Verde – 2005)
  7. ↑ Fernandes, Armando Napoleão Rodrigues (1969)
  8. ↑ Pereira, Dulce, «Pa Nu Skrebe Na Skola»
  9. ↑ Veiga, Manuel (2002)

Bibliografia

sobre o crioulo
  • Os dialectos românicos ou neo-latinos na África, Ásia e América (Coelho, F. Adolpho, 1880; capítulo 1: "Crioulo da Ilha de Santiago")
  • O crioulo de Cabo Verde. Breves estudos sobre o crioulo das ilhas de Cabo Verde (Botelho da Costa , Joaquim Vieira & Custódio José Duarte, 1886)
  • A Parábola do Filho Pródigo no crioulo de Santiago, do Fogo, da Brava, de Santo Antão, de S. Nicolau e da Boa Vista: O crioulo de Cabo Verde (Botelho da Costa , Joaquim Vieira & Custódio José Duarte, 1886)
  • Dialectos crioulos-portugueses. Apontamentos para a gramática do crioulo que se fala na ilha de Santiago de Cabo Verde (Brito, A. de Paula, 1887)
  • O dialecto crioulo de Cabo Verde (Silva, Baltasar Lopes da, 1957)
  • Cabo Verde. Contribuição para o estudo do dialecto falado no seu arquipélago (Duarte, Dulce Almada, 1961)
  • O dialecto crioulo - Léxico do dialecto crioulo do Arquipélago de Cabo Verde (Fernandes, Armando Napoleão Rodrigues, 1969)
  • The Creole dialect of the island of Brava (Meintel, Deirdre, 1975) in Miscelânea luso-africana coord. Marius F. Valkhoff
  • A linguistic approach to the Capeverdean language (Macedo, Donaldo Pereira, 1979)
  • O crioulo de Cabo Verde - surto e expansão (Carreira, António, 1982)
  • Left-dislocation and topicalization in Capeverdean creole (Braga, Maria Luiza: Ph.D. Dissertation, University of Pennsylvania, 1982)
  • Variation and change in the verbal system of Capeverdean crioulo (Silva, Izione Santos -1985)
  • O crioulo da ilha de S. Nicolau de Cabo Verde (Cardoso, Eduardo Augusto, 1989)
  • Kabuverdianu: Elementaria seiner TMA-Morphosyntax im lusokreolischen Vergleich (Thiele, Petra. Kabuverdianu, 1991)
  • "O princípio da parcimónia em crioulo de Cabo Verde" (Pereira, Dulce, 1992: in Actas do II. Colóquio sobre Crioulos de base lexical portuguesa, pp. 141-151)
  • O crioulo de Cabo Verde: Introdução à gramática (Veiga, Manuel, 1995)
  • Bilinguismo ou Diglossia (Duarte, Dulce Almada, 1998)
  • Dicionário Caboverdiano-Português, Variante de Santiago (Quint(-Abrial), Nicolas, Lisboa: Verbalis, 1998)
  • Dicionário Caboverdiano-Português, Variante de Santiago (Quint(-Abrial), Nicolas, Lisboa: Verbalis-Priberam, CD-ROM, 1998)
  • Le créole du Cap-Vert. Etude grammaticale descriptive et contrastive (Veiga, Manuel, 2000; exemplos em crioulo de São Vicente e de Santiago)
  • Le Cap-Verdien: Origines et devenir d'une langue métisse (Quint, Nicolas - 2000)
  • Grammaire de la langue cap-verdienne: Étude descriptive et compréhensive du créole afro-portugais des Iles du Cap-Vert (Quint, Nicolas, 2000)
  • Dictionnaire Cap-Verdien/français (Quint, Nicolas, 2000)
  • Dicionário do Crioulo da Ilha de Santiago - Alemão (Lang, Jürgen; Tübingen, 2002)
  • The syntax of Cape Verdean Creole. The Sotavento Varieties (Baptista, Marlyse, 2002)
  • Dicionário Prático Português-Caboverdiano/Disionári Purtugés-Berdiánu Kiriolu di Santiagu Ku Splikasom di Uzu di Kada Palábra (M. Mendes, N. Quint, F. Ragageles, A. Semedo; Lisboa: Verbalis, 2002)
  • O Cabo-verdiano em 45 Lições (Veiga, Manuel; Praia: INIC, 2002)
  • Parlons capverdien : Langue et culture (Nicolas Quint, Aires Semedo; 2003)
  • Le créole capverdien de poche (Nicolas Quint, Aires Semedo; Chennevières-sur-Marne: Assimil, 2005)
  • Crioulos de base portuguesa (Pereira, Dulce; Lisboa: Caminho, 2006)
  • Crioulo de Cabo Verde — Situação Linguística da Zona do Barlavento (Delgado, Carlos Alberto; Praia: IBNL, 2008)
textos escritos em crioulo
  • Os Lusíadas (estâncias 8 e 9 do Canto V) Teixeira, A. da Costa, 1898
  • Folk-Lore from the Cape Verde Islands (Parsons, Elsie Clews, 1923: Contos de Cabo Verde; livro 1: em inglês, livro 2 em crioulo)
  • Mornas - Cantigas Crioulas, Tavares, Eugénio, 1932
  • Renascença de uma civilização no Atlântico médio (Melo, Luís Romano de Madeira, 1967: Colectânea de poemas e de novelas em português e em crioulo)
  • 100 Poemas - Gritarei, Berrarei, Matarei - Não ou para pasárgada (Martins, Ovídio, 1973) - Poemas em português e em crioulo
  • Negrume/Lzimparin (Melo, Luís Romano de Madeira, 1973: Contos em crioulo com tradução portuguesa)
  • "Textos crioulos cabo-verdianos" (Frusoni, Sérgio) em Miscelânea luso-africana, 1975 coord. Marius F. Valkhoff
  • Vangêle contód d'nôs móda (Frusoni, Sérgio; Fogo, 1979; Novo Testamento)
  • A Poética de Sérgio Frusoni — uma leitura antropológica (Lima, Mesquitela; Lisboa, 1992)

Ligações externas

sobre o crioulo
1977
textos escritos em crioulo

quinta-feira, 4 de março de 2010

Congresso de Literaturas Africanas Língua Portuguesa

Congresso de Literaturas Africanas
Língua Portuguesa

 Resumos das comunicações

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Agnaldo Rodrigues da Silva
(Universidade do Estado de Mato Grosso)

CRUZAMENTOS ENTRE OS TEATROS ALMADINO E OSWALDIANO

RESUMO
Em meio à estagnação cultural reinante em Portugal e Brasil, no início do século XX, destacam-se, no âmbito do teatro, dois autores contestadores que recusam a tradição já deteriorada e optam pela experimentação de novas formas teatrais. São eles: Almada Negreiros e Oswald de Andrade, cujas peças, Deseja-se Mulher e O Rei da Vela, se revelam exemplares das transformações impostas pelos movimentos vanguardistas do início do século XX, mais precisamente ao primeiro desses movimentos: o Futurismo. Em Deseja-se Mulher, Almada adere a uma nova modalidade cênica. Atribui à peça um tom levemente aristocrático (de crítica sócio-existencial), encaixando personagens, cujas características divergem-se. Em O rei da Vela, Oswald simboliza a crise de 1929, momento em que se cristalizaram diversas rebeliões, que forçaram a ruptura dos diversos campos sociais e estéticos, mediante a concepção de arte engajada politicamente. De diferentes maneiras O Rei da Vela e Deseja-se Mulher expressam diretrizes futuristas, principalmente no que se refere à concepção de espaço cênico (cenografia), a contestação do teatro burguês e a crise sócio existencial. Ambas as peças apresentam uma linguagem simbólica, um estilo alegórico, cujas personagens e situações passam por um processo de carnavalização. Aqui se encontra a vida desviada de sua ordem habitual, “vidas às avessas”, um “mundo invertido”, em que as leis, proibições, restrições, que determinam o sistema e a ordem da vida real e comum deixam de ter importância.

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Alberto Oliveira Pinto
(CEA/FLUL – Universidade de Lisboa)

história oral angolana em A Casa Velha das Margens de Arnaldo Santos
Resumo
A leitura de A Casa Velha das Margens de Arnaldo Santos permite-nos entrever uma história de Angola alternativa à que emerge do discurso escrito colonial, ainda presente na memória dos angolanos, e que vai ao encontro da que o registo oral, desaparecido ou silenciado, procurava preservar. Este romance mostra-nos como só o povo angolano pode hoje reabilitar a sua memória histórica silenciada, guardada nas suas tradições, e a partir dela construir uma nação cultural e política que tenha por referência os heróis como Domingos, que se embrenha na mata para lutar pela independência. Esse povo angolano é constituído pelos excluídos, cujo testemunho silencioso, de par com a enunciação no súngui dos provérbios, das adivinhas, dos muimbos e das makas, assim como as mucandas dos ambaquistas e os poemas de Kuxixima kia Muxima, parecem ser a única via para que Angola se liberte da letargia a que o colonialismo e o neocolonialismo a condenaram e os angolanos se conheçam, finalmente, a si próprios.
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Abordaremos neste estudo os modos como os processos tradicionais de narração oral da história de Angola interferem no discurso do romance histórico angolano contemporâneo em três perspectivas: a das adivinhas, das makas e dos provérbios, “géneros” narrativos emergentes da conversa ao serão, o súngui, a das mucandas dos ambaquistas e a da narrativa épica.

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aldónio gomes

A língua portuguesa em África: comunicação, norma e poder

resumo
A convivialidade. Da língua portuguesa respeitada à funcionalidade das línguas locais. A norma em construção.
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O sobressalto. A procura do poder. A exortação ao uso das línguas locais e a sua acção mobilizadora. A língua portuguesa consolidada, por vezes língua local, e via para o poder e a sua aplicação. A preocupação da norma.
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A recepção do poder e a sua aplicação. A língua veículo e factor de união. A norma é a norma: respeita-se. Importa "afinar" o português.
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A dinamização do poder e o comando da economia. Recuperação das línguas locais. A língua portuguesa como norma vacilante: confrontos com marcas bantas, inglesas e africânderes e com novas cargas semânticas.
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Da língua à literatura.

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Alexandre Huady Torres Guimarães
(Universidade Presbiteriana Mackenzie e Colégio Presbiteriano Mackenzie São Paulo – Brasil.)

A bala como índice da opressão:
um paralelo entre Mia Couto e João Cabral de Melo Neto.

resumo



Entre eles, o moçambicano Mia Couto, que compôs Vinte e Zinco, uma narrativa passada em seu país. entre os dias 29 e 30 de abril de 1974. Nesta grafa-se a presença de uma personagem, portuguesa e branca, chamada Irene, que amava o moçambicano e quase-preto Marcelino. Este era mecânico e um revolucionário lutador da liberdade de seu povo, um defensor do fim do domínio português sobre as terras de sua gente.
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No dia 24 de abril, um antes do marco da liberdade, Margarida, irmã de Irene, entra no quarto de sua irmã para as lides da casa e, nele, encontra aberto o caderno de poemas de Irene, o qual contém um poema que possui como tema central o projétil, a bala.
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Com a bala surge, nas linhas do poema, composto por Irene, a idéia da opressão vivida pelo povo moçambicano, que muitas vezes tinha seus levantes calados pelas balas das tropas coloniais. Marcelino, Marcelindo, como Irene o chamava, foi morto por uma destas balas que voavam das espingardas.
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Quarenta e três anos antes, em 1956, o recifense João Cabral de Melo Neto publicou Morte e vida Severina: auto de natal pernambucano, composto nos anos de 1954 e 1955. 
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O poema conduz o leitor na via de Severino, que em vossa presença emigra, o qual busca a vida no Recife caminhando, conta a conta, por entre a morte.
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Logo na segunda conta de seu rosário, Severino defronta-se com a morte de um defunto de nada, um Severino Lavrador, que foi morto de bala, pois esta mais longe vara.
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Severino Lavrador foi morto por possuir, no ombro da serra, dez quadras de lavoura, onde plantava. Entretanto, seu desejo de mais espalhar-se levou-o a uma tocaia onde encontrou a pássara, a ave-bala que o levou à morte.
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Neste ato, fica clara a opressão latifundiária existente no Brasil, país de extensão continental com terras muito mal distribuídas e com a manipulação do poder, muitas vezes, em determinadas regiões, controlado pela espingarda que Mais campo tem para soltar [...] as filhas-bala.
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Apesar de épocas distintas, testemunham-se, portanto, contextos sociais muito próximos, em virtude da opressão vivenciada nos dois países: Moçambique, que no correr da narrativa faz-se livre, e Brasil. Como índice desta percepção, a bala.

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Alfeu Sparemberger,
(Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul)

O caso da Guiné-Bissau: manancial oral e colonial e dificuldades escritas – uma teoria

resumo

Esta comunicação pretende analisar como a literatura oral dos diversos grupos culturais da Guiné-Bissau e suas respectivas tradições lingüísticas, como a inclusão da área cultural comum, o crioulo, afirma aspectos de identidade cultural e de memória coletiva. Somada a esta investigação, examina as recolhas de contos de base etno-cultural conduzidas pelos integrantes do Boletim Cultural da Guiné Portuguesa (l964-1973), como reveladoras de uma sobreposição de experiências e de mapeamento territorial. Neste sentido, coexistem durante o período colonial dois campos de saber atravessados por uma mesma questão: de um lado, a presença de sociedades ágrafas, mas com um rico manancial de tradição oral e, de outro, a ocorrência de um registro em versão portuguesa, com implicações acerca da fidelidade da transcrição.

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Américo Oliveira
(Escola Superior de Educação de Leiria)

A tradição oral angolana e as recolhas: história breve e teoria

Resumo

A tradição oral angolana, nomeadamente a respectiva literatura de tradição oral, sofreu, como todos os sectores, as consequências do conflito armado. Está na hora de efectuar o balanço do que está feito e do que há para fazer, antes que os “mais-velhos”, essas bibliotecas ambulantes, nos abandonem para sempre. Pretende, por isso, este pequeno estudo efectuar o balanço do acervo bibliográfico editado até hoje no campo da literatura angolana de tradição oral e debater algumas teorias tipológicas utilizadas pelos colectores no registo escrito da referida literatura.

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Ana Luísa V. Marques Teixeira

Novos rumos na narrativa moçambicana: Paulina Chiziane, Lina Magaia e Lília Momplé, ou a consolidação do cânone

resumo

Esta comunicação percorrerá as mais recentes etapas no desenvolvimento da narrativa moçambicana, através da leitura dos contributos de três autoras: Paulina Chiziane, Lina Magaia e Lília Momplé. Pretende-se apresentar, de uma forma necessariamente sumária, o percurso literário de cada uma destas autoras, bem como a sua contribuição no sentido da re-escrita da história de Moçambique, através do que escolhemos designar por funcionalidade literária. Deste modo, a nossa viagem pelos textos de Chiziane, Magaia, e Momplé permitir-nos-á, através de uma abordagem interdisciplinar característica dos estudos culturais, não só perceber o caminho seguido pela narrativa, dita ficcional, moçambicana, nos finais dos anos oitenta e princípios dos anos noventa do século XX, como também desvendar o registo de visões particulares da história do Moçambique pré e pós-independência.
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Paulina Chiziane publicou até agora quatro romances: Balada de Amor ao Vento (Maputo, 1991); Ventos do Apocalipse (Lisboa,1999); O Sétimo Juramento(Lisboa, 2000); e Niketche. Uma história de poligamia (Lisboa, 2002). Lina Magaia tem publicados: Dumba Nengue. Histórias trágicas do banditismo – I (Maputo, 1987); Duplo Massacre em Moçambique. Histórias trágicas do banditismo – II (Maputo, 1989); e Delehta. Pulos na Vida (Maputo, 1994). Lília Momplé produziu, já, três volumes: Ninguém matou Suhura (Maputo, 1988); Neighbours (Maputo, 1995); e Os olhos da cobra verde (Maputo, 1997).
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De que modo contribuíram estes títulos para a afirmação da narrativa moçambicana? De que forma são estas autoras responsáveis pela consolidação de uma voz feminina na produção literária moçambicana? Mais significativo ainda, de que forma podemos considerar cada um destes como um registo documental da idiossincrasia moçambicana em momentos históricos específicos? Estas são algumas questões que visamos colocar, estimulando o início do que pretendemos se torne uma séria e empenhada reflexão crítica sobre o recente rumo tomado pela literatura moçambicana.

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Ana Margarida Fonseca
(Instituto Politécnico da Guarda)

Desafios da alteridade – representações do outro na ficção portuguesa e africana pós-colonial

resumo

Se aceitarmos como certo que não existe identidade sem o confronto com a diferença, esta asserção revela particular pertinência em contexto pós-colonial, uma vez que as representações identitárias nele implicadas são construídas na base do contacto entre diferentes povos, culturas, ideologias e práticas. Assim, independentemente das formas assumidas por esse contacto, a dimensão da alteridade – o eu ao espelho do outro, ou o outro que se constrói por confronto com o eu – é fundamental na definição de imagens de identidade quer individuais quer colectivas.
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Com esta comunicação, será nosso objectivo descrever e analisar as representações do outro na ficção pós-colonial, tomando para tal narrativas de Mia Couto, Pepetela e António Lobo Antunes. Conduziremos Assim, o nosso discurso por entre a alteridade constituinte dos sujeitos, procurando compreender as representações identitárias que se revelam, antes de mais, pela descoberta e reconhecimento da diferença. A esta abordagem está subjacente, por um lado, a adopção de um ponto de vista comparativo, segundo o qual procuraremos relacionar ficções pertencentes a espaços unidos por um passado colonial comum, e por outro lado, a consideração de perspectivas abertas pelas teorias pós-coloniais desenvolvidas nas últimas décadas.


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Ana Paula Ferreira.
(University of California at Irvine)

“Fantasmas insepultos: ‘Raça’, racismo, nação”

resumo

Se é certo que falar de raça no contexto das literaturas africanas em língua portuguesa se tem considerado ‘pouco menos que uma heresia’ (Russell Hamilton), certas suposições anti-fundamentalistas do pensamento pós-moderno têm contribuído para obviar a necessidade de reflectir sobre os signos de ‘raça’ e de racismo que marcam porventura ansiosas linhas de fuga nos imaginários da nação dita pós-colonial.  A presente comunicação pretende ensaiar, assumidamente a título não especializado, o rastejo dessas linhas de fuga nas vozes individuais, fugitivas ou talvez ‘sonâmbulas’, que pululam panoramas ficcionais de nações-em-processo  dificilmente ausentes de ideologias eurocêntricas de nação assentes em estruturas binárias de Eu/Outro, que será outra forma de enunciar ‘racismo’.  Contemplar-se-ão aqui em princípio Mayombe, de Pepetela, e um número de contos incluídos em Cada Homem é uma Raça, de Mia Couto.

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Ângela Bonifácio Vítor
(Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias)

resumo
“Caminante, no hay camino, se hace el camino al andar.”
(António Machado)


“Pelo sonho é que vamos… partimos, somos.”
(Sebastião da Gama)

Começamos pela mão dos poetas. Avançamos pelo sonho de uma escola em que educar é libertar. Uma escola na qual a educação é uma relação de abertura, um diálogo entre pessoas que crescem em simultâneo com ritmos diferentes. Uma educação que ganha sentido quando personalizada. Realçamos, porém, que tal circunstância implica a existência do espaço necessário para a relação interpessoal; um espaço que compromete e responsabiliza.
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Sendo certo que a multicultura é um bem precioso, em muitas escolas a diversidade cultural dos alunos tende, ainda, a tornar complexo o diálogo na educação. Como contornar essas dificuldades e aproveitar o pluralismo? Terá a escola multicultural possibilidade de se tornar uma escola intercultural? Como proceder à partilha dos vastos elementos de que cada cultura é portadora, uns na sua originalidade, outros no seu sabor universal?
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Afinal, reconhecer culturas e receber delas tudo aquilo que torna mais rico o processo educativo constitui o desafio que a descoberta e a aposta na alteridade impõem. Num tempo de mudança, de respeito pelas diferenças, estas são algumas das questões que nos propomos abordar.

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António Germano Lima
(Universidade Portucalense)

A Morna: contribuições de Baltazar Lopes à compreensão da sua paternidade

resumo

Definimos a morna como sendo um subsistema cultural , de representações simbólicas do modo de vida do povo cabo-verdiano, representações essas que se realizam através da música, do canto, da poesia, do gesto e da coreografia.
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De entre os que se interessaram pelo estudo da morna, Baltazar Lopes da silva, filólogo, escritor, jurista e professor, realizou, em parceria com o musicólogo José Alves dos Reis, pesquisas sobre a morna antiga, nomeadamente na Boavista, na Brava e em S. Vicente, tendo dado uma contribuição valiosa, tanto no âmbito da definição como no da compreensão desse canto-dança.
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A nossa comunicaçãoincide precisamente sobre essa contribuição, debruçando-nos sobre três eixos fundamentais da emergência da morna:
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- origem etimológica do termo “morna”: Baltazar Lopes da Silva procura a origem do termo na língua portuguesa, refutando as teses de José Lopes da Silva que, por seu turno, privilegia as línguas inglesas e francesas;
- paternidade da morna: qual das ilhas de Cabo Verde terá sido o berço da morna? Em parceria com José Alves dos Reis, 
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Baltazar Lopes da Silva defende a tese de uma paternidade boavistense da morna, estabelecendo comparações com mornas da Ilha Brava e da Ilha de S. Vicente;
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- o canto-dança morna teve origem popular ou erudita? Uma outra questão discutida por Baltazar Lopes da Silva, concluindo que a morna teve a sua origem no seio do povo, tendo entretanto aristocratizado ao longo dos tempos, nomeadamente na Brava e em S. Vicente.
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Os estudos de Baltazar Lopes da Silva sobre as mornas boavistenses e as conclusões a que chegou constituem uma valiosa matéria-prima para o estudo da sociedade boavistense, porquanto é um dos cantos-danças que representam simbolicamente o modo de vida do passado cabo-verdiano.

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António Pascoal
(Universidade de Coimbra)

Craveirinha: existência, literatura e culturas
resumo

O presente trabalho procura estabelecer uma visão multiculturalista da obra de José Craveirinha, definindo coordenadas que percorrem as grandes unidades temáticas universais, muito para além de características nacionalistas e animistas que possa conter a sua poética. É feita referência os movimentos culturais que vitalizam a obra do poeta, assim como à especificidade do seu discurso que não encontra paralelo na poesia moçambicana e dificilmente se pode conceber num contexto literário português.
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Estabelece-se ainda uma bipolaridade entre discurso prometeico e discurso amoroso, pólos essenciais da expressão poética de Craveirinha. São feitas referências à sua vida, sempre por forma a concebê-la como orientadora da sua obra poética, senão como condicionadora. É também dada importância à questão do mito, tomado como suporte unificador de um projecto colectivo. Por outro lado, procura-se desmistificar a imagem do poeta como a de alguém dotado de angélica divindade a quem a musa inspirou graça poética e poder simbólico, ingredientes da alquimia da torre de marfim. Ao contrário, é a impureza que se procura associar a José Craveirinha, no sentido mais libertador do conceito.
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Palavras-Chave: bipolaridade do discurso; amor; dor; memória; Prometeu;
medo; ódio; Édipo; tempo; morte; justiça; vítima; impureza; misticismo;
amor/política/revolta; poeta «en la calle».
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Carlos J. F. Jorge
(Universidade de Évora)

Verne e o “outro” africano


resumo

Na longa produção de Verne, a “África negra”, ao sul do Sara é muitas vezes o palco da acção. Embora existindo como referente minuciosamente descrito – as partes que são importantes para a construção da diegese, entenda-se – tal continente não era conhecido de Verne a não ser através dos manuais, compêndios, tratados de geografia e ciências naturais e relatos de viajantes que eram acessíveis aos estudiosos da época. É curioso verificar que, desse continente desconhecido para Verne, e mesmo mal conhecido pelos seus contemporâneos que apenas o abordavam parcialmente, surjam imagens de imensa justeza. Tal justeza, no entanto, deve ser entendida em três dimensões pelos menos: uma acurada descrição da dimensão física, uma imensa preocupação pela compreensão - eivada de curiosidade e apelo do exótico - pela dimensão etnográfica (e mesmo antropológica) e um esforço de equacionar esses conhecimentos na dimensão do ideológico. O que emerge desse esforço é um “primeiro olhar colonial pleno”, em que o estatuto das personagens portuguesas aparecem francamente oscilando entre o “nós e o outro”, e os “indígenas” como entes entre o fabuloso e o digno de piedade.

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Carmen de Lourdes de Araújo Teixeira
(Universidade Federal da Paraíba)

O contra canto de Ovídio Martins

resumo
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Com este trabalho se pretende enfocar a parte de uma leitura intertextual, o poema Antievasão de Ovídio Martins, comparando-o com a poesia, Vou-me embora pra Pasárgada de Manuel Bandeira
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Para isso adotar-se-á uma perspectiva sócio-estilística buscando ver através da forma de expressão, as injunções ideológicas que norteiam o texto.

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CARMEN LUCIA TINDÓ RIBEIRO SECCO
(Universidade Federal do Rio de Janeiro)


POR ENTRE TINTAS, PALAVRAS E CORES _ panorama da poesia e pintura moçambicanas atuais

resumo

Esta comunicação tem como objetivo principal traçar um painel da poesia e da pintura moçambicanas atuais, mostrando como as letras e as telas ora se tingem do vermelho da guerra, ora do azul do sonho. Pretende evidenciar também que esse onirismo apresenta dupla tarefa: reinventar míticas tradições silenciadas e imprimir nova eroticidade às paisagens de morte ainda existentes em vários pontos do território moçambicano. O cromatismo da linguagem atinge o leitor, fazendo com que se torne cúmplice do compromisso poético, pictórico e político de redesenhar Moçambique, segundo uma cartografia própria, feita não só de consciência social, mas também de sonhos, tintas, sons e imagens guardados na memória e recriados pela imaginação.
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Carmen pagliuca
(Istituto Orientale – Nápoles)

“circum-navegação, memória e identidade”

resumo

As identidades da diáspora e a diáspora como marginalização e minoria. D Das reconstruções das memórias e identidades individuais para a reconstrução da memória e identidade nacional angolana, identidade inextricavelmente complexa e não passível de ser reduzida a uma.

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Claire Williams
(University of Liverpool)

Amnésia, anestesia e sinestesia em Vinte e Zinco de Mia Couto

resumo

A novela de Mia Couto entitulada Vinte e Zinco (Abril de 1999) foi uma das vinte e cinco publicações especiais lançadas pela editora Caminho para comemorar os vinte e cinco anos da Revolução dos Cravos, que aconteceu dezanove meses antes da proclamação da independência de Moçambique. É uma das obras mais brutais e críticas da política considerando que se trata das pulsões contraditórias da nostalgia da felicidade passada e a necessidade de apagar memórias traumáticas.
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O crescente pânico dos portugueses colonizadores, agora redundantes, aumenta em paralelo à euforia cada vez mais viva nos corações dos moçambicanos.
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A novela é rica em detalhes sensuais que parecem indicar uma volta à realidade que a independência promete e contém elementos sobrenaturais típicos da escrita de Couto.
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A presente comunicação analisa os mecanismos que ajudam os personagens a lembrar ou a esquecer, tanto como os vivos apelos aos sentidos(e ao bom senso) que acompanham os dois processos.

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CLAUDIA FABIANA DE OLIVEIRA CARDOSO
(UFF / Niterói, RJ, BR.)

A POÉTICA P’RA LÁ DO CERCADO DE PAULA TAVARES
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Resumo
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Esta comunicação tem por objetivo indagar em que medida se dá o entrecruzamento da tradição e da ruptura na produção poética da angolana Paula Tavares. Para tal, recuperamos a imagem do cercado, recorrente nos poemas da autora, que tende a nos revelar, através do espaço literário, todo o conflito do sujeito diante de um patrimônio marcado pelo passado e as constantes exigências de inovação que surgem em todos os níveis da vida coletiva. Isto porque, assim como a linguagem, a tradição surge na poesia de Paula Tavares não como algo cristalizado e sem vida, mas em permanente mudança, como vir-a-ser, como história. O passado resgatado tem importância na medida em que diz aos interlocutores atuais alguma coisa sobre o presente e, dessa forma, permite uma ação voltada para o futuro. Nessa perspectiva, analisaremos alguns poemas de Paula Tavares destacando, sobretudo, a abertura que sua escrita faz para o futuro, na busca de procedimentos inovadores, na constituição, enfim, de uma poética p’ra lá do cercado das

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Cláudia Sousa Pereira
(Universidade de Évora)

Literatura para Crianças e Jovens – edições africanas pós-independência em português (primeiras sistematizações)

resumo

O que chega ao público português mais jovem (mas não só) vindo de África, escrito em português, em forma de livro e sem ser recolha da tradição oral, é matéria desconhecida. Assim aprisionada em bibliotecas privadas, propriedade de eruditos, esta literatura morre nos seus “princípios de vida”. Serão mais uma vez questões políticas? Ou será puro desinteresse por quem trabalha em /com/para o campo literário da Literatura para crianças em Portugal? Numa vasta área que é a das Literaturas de Massas, em que as produções literárias para a Infância e Juventude acabam por se inserir, este “desconhecimento” parece-nos imperdoável.
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Propomo-nos, neste Congresso, apresentar uma inventariação crítica nossa destas obras, numa tentativa de lançar o interesse, e talvez a discussão, sobre um campo que, quando estudado e divulgado, permitirá aos jovens leitores da Europa portuguesa o encontro com os seus pares de África.

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Cláudio José de Almeida Mello
(UNESP/Brasil)

Leminski, Lobo Antunes e Pepetela: auto-reflexão como instrumento de contradominação

Resumo

Por meio de uma comparação entre os romances As naus, do português Lobo Antunes, A gloriosa família: o tempo dos flamengos, do angolano Pepetela e Catatau, do brasileiro Paulo Leminski, este trabalho faz um estudo dos procedimentos estéticos utilizados no metadiscurso presentes nessas obras, para mostrar o papel político da autoconsciência na construção dessas narrativas, a um só tempo ficcionais e históricas. O objetivo é colocar em questão os fundamentos do pós-modernismo, particularmente a auto-reflexão atitude de desconfiança no relato, questionamento das grandes narrativas , a partir de uma crítica marxista. A relevância deste trabalho está na tentativa de formulação de critérios de análise não hegemônicos no âmbito dos estudos literários, mas afinados com a literatura criticada a partir de um ponto de vista múltiplo que considera, sim, a importância da cultura e do local, entretanto sem esquecer as transformações econômico-sociais que engendram as tensões presentes nas a " da África pelo autor de Ilha de Nome Santo.

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David Brookshaw
(Universidade de Bristol, Inglaterra)

A angolanidade em viagem: a obra de Jorge Arrimar

resumo
Houve sempre escritores angolanos obrigados a focalizarem a sua terra natal desde o exílio, sendo o exemplo mais conhecido desta condição o fundador da nação e da moderna poesia angolana, Agostinho Neto. Por sua vez, a independência de Angola em 1975, seguida quase imediatamente pela guerra civil, trouxe outra onda de escritores, cujas obras refletem uma 'angolanidade' vista do exílio - uma 'angolanidade em viagem'. Por ventura um dos escritores mais interessantes dessa geração de exilados é JorgeArrimar. A obra deste autor é cíclico no sentido em que começa com uma>série de poemas,  Ovatyilongo (1975), que evocam a sua região natal
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(Chibia, Sul de Angola), continua em várias colectâneas evocativas de uma longa estadia no Oriente via os Açores, Murilaonde e Fonte do Lilau (1990),e Secretos Sinais (1992), para voltar às suas raízes angolanas num primeiro romance, O Planalto dos Pássaros (2002). Esta comunicação visa fazer uma apreciação da obra de Arrimar, prestando uma atenção especial às temáticas do desenraizamento e de uma angolanidade regional muito própria deste autor, vista através do prisma da memória e da história.

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EDNA MARIA DOS SANTOS
(Universidade do Estado do Rio de Janeiro)


CRÍTICA, ESTÉTICA E PRAZER: pequeno inventário sobre as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa no Estado do Rio de Janeiro

RESUMO

Memória, esquecimento e praxis: algumas reflexões sobre a importância das Literaturas Africanas de Língua Portuguesa no Estado do Rio de Janeiro. O exercício da seleção, do cânone, da crítica. O trabalho de alguns escritores através do olhar e do prazer de alguns críticos.

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Elisalva Madruga Dantas
(Universidade Federal da Paraíba)

RESSONÂNCIAS BRASILEIRAS NA POÉTICA AFRICANA CONTEMPORÂNEA

Resumo

Afirmado e confirmado pela crítica, o diálogo poético afro-brasileiro já não constitui para os estudiosos das literaturas africanas de língua portuguesa nenhuma novidade.
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Iniciado em meados do século XIX, conforme o comprovam as produções do angolano José da Silva Maia Ferreira e do são-tomense, Costa Alegre, esse diálogo se fortalece, no século seguinte, a partir dos anos 40, em decorrência do projeto ideo-estético, voltado para a afirmação de uma identidade nacional, que passa a nortear o fazer literário africano, levando os poetas a se identificarem com as propostas , entre nós defendidas pelo movimento modernista, desencadeado a partir dos anos 20, quando então se estreita a relação dos poetas africanos com os poetas brasileiros. Desse modo, poetas como Manuel Bandeira, Drummond, João Cabral de Mello Neto, Jorge de Lima, ao lado de romancistas como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge Amado, Guimarães Rosa, entre outros, passam a integrar a plêiade de interlocutores desse diálogo poético até hoje entabulado com os poetas e escritores africanos de língua portuguesa. 
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Ciente dessa realidade, nos propomos verificar , através da leitura crítica de textos poéticos angolanos, como se dá, a partir dos anos 70, a continuidade desse diálogo, no quadro da literatura angolana, buscando, assim, apreender as ressonâncias brasileiras na poética africana contemporânea. Como corpus do trabalho a ser realizado, tomaremos por base a produção poética de David Mestre, Ruy Duarte de Carvalho e João Melo, poetas cujo fazer reflete, sobremodo, uma acurada preocupação estética.

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Elizabeth vera cruz

«Terra Morta» A simbologia do poder colonial em Castro Soromenho

 

A obra de Castro Soromenho, integrada no neo-realismo, traz à luz o sentir, o viver, a dura realidade que foi a colonização portuguesa, no presente caso, por terras de Angola. Como se traduziu a manifestação deste mesmo poder, como o negro se coisifica, as relações entre brancos, negros e mestiços no interior de Angola, tudo isto convoca os leitores para a leitura obrigatória da sua obra.
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Considerado um clássico da literatura angolana, o romance “Terra Morta” é igualmente tido como sendo o expoente máximo da obra de Soromenho, inaugurando um novo período na sua produção literária. A partir da pequena povoação de Camaxilo - sede de circunscrição - , o autor retrata não somente o quotidiano dos seus habitantes, como traça o ambiente político-social da época. Isto é, através do quatro pictórico de Camaxilo, terra, gentes, cultura e sociedade são postos a nu. O poder e a situação colonial são, assim, a tessitura que define, engendra e enquadra a teia de relações de que Camaxilo é um microcosmos.

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Elsa Rodrigues dos Santos
(Presidente da Sociedade da Língua Portuguesa)

Convivência e conivência do crioulo com o português no discurso narrativo de
VOZ DE PRISÃO de Manuel Ferreira


Resumo

   Na ficção de Manuel Ferreira, consagrado ao espaço cabo-verdiano, VOZ
DE PRISÃO que mais evidencia a convivência e a conivência do crioulo com o
português. Uma espécie de bilinguismo, um compromisso entre os dois espaços
linguísticos que exprime a dualidade do povo cabo-verdiano.
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    A língua é não só preocupação para o autor, mas igualmente para as
personagens que se confrontam entre os dois modos de se expressar: ou em
língua portuguesa ou em crioulo, principalmente na vida familiar e em
ambiente festivo.
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    E é através da personagem Nha Joja, que se assume também como narradora
de eventos da sua terra e das vivências mais marcantes do universo
cabo-verdiano, como por exemplo, a repressão sobre os rebelados, que se
revela a mesma preocupação linguística, isto é, a conciliação do bem falar
português e a utilização natural do crioulo.
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    Em VOZ DE PRISÃO, Manuel Ferreira procura resolver o problema do
discurso literário, a nível linguístico, instituindo simultaneamente a
função poética do texto.
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    Consegue-o através de uma espécie de terceira língua onde recria o meio
social e cultural de S. Vicente, transposta, em determinadas passagens, para
Portugal ou para Angola, dentro da comunidade cabo-verdiana.
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    Desta reacção resulta a originalidade da obra, pois a linguagem é também
ficção, mostrando a realidade e construindo o universo ficcional em paralelo
com o mundo real.
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    Este romance pode, assim, tornar-se paradigma para uma solução
linguística na literatura africana de língua oficial portuguesa, tal como o
é igualmente "LUUANDA" de José Luandino Vieira. Pode servir também como
ponto de partida para uma reflexão sobre a encruzilhada em que se encontra a
maioria dos africanos no confronto do português com as suas línguas
maternas.



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Emily Knudson
(University of Minnesota)

Homens Negros, Mulheres Brancas: A Representação Metonímica e a Performance das Relações Coloniais e Neocoloniais em Relações (Inter)Raciais Pessoais

resumo

No livro Peau noire, masques blancs, Frantz Fanon discute a assimilação das pessoas negras à cultura europeia, ou, falando doutra maneira, a sua alienação da cultura relativamente à cultura negra. Em outras palavras, Fanon examina a maneira como as pessoas negras assumem (ou põem, como uma pessoa poria, uma máscara) a identidade “branca.” A semelhança do meu título, “Homens Negros, Mulheres Brancas,” com o de Fanon não é acidental. Eu, usando o argumento de Fanon como ponto de partida, mostro nesta comunicação que os homens negros, especificamente os homens negros africanos, assumiram valores “ocidentais” ao forjarem relações sexuais, românticas, ou, como Russell G. Hamilton as têm chamado, “erótico-raciais.” Digo que “assumiram,” usando o tempo do passado, porque a maioria dos meus exemplos vêm de ou se ambientam no período da ocupação colonial europeia de África ou do período neocolonial imediatamente posterior à independência. A minha análise das relações interraciais e a sua representação na literatura podem ser pensadas entre uma análise literária e etnográfica já que eu pretendo elucidar os efeitos e produtos do momento inicial do contacto, isto é, entre pessoas reais de carne e osso, e aliás, os sujeitos de minha pesquisa não são reais, mas ficcionais. A fonte principal dos meus dados é o romance A Geração da Utopia de Pepetela, mas ao longo desta comunicação, também farei referências a outros textos em prosa, poesia e cinemas africanas. Todos os exemplos vêm dos PALOP, e todos supõem uma justaposição de nações, culturas e povos entre Portugal e África.





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Fernanda Angius
(Escola Secundária de Albufeira)

A NOVA ESTÉTICA LITERÁRIA NOS ESCRITORES AFRICANOS
Escritores Novos e as suas heranças literárias em Moçambique e em Angola

RESUMO

Constata-se que alguns escriturários abandonaram as suas pretensões a escritor, e surgem , em seu lugar, algumas promessas de grandes escritores em Angola e Moçambique, produzindo textos que já revelam preocupação com o discurso literário, a sua exigência estética e originalidade criativa.
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Nesta Comunicação pretendo chamar a atenção para alguns nomes desconhecidos e para a evolução de outros que os estimularam e estão como enxerto na criação produzida, dando origem a textos que guardam os sabores recebidos do enxerto mas nos trazem um sabor novo, a algo já temperado com o gosto da palavra africana dita em português.
Fernanda Angius
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Apontarei o que considero como referência obrigatória para compreender bem o fenómeno da evolução literária desde Paulina Chiziane, Rogério Manjate, Guita Júnior, Francisco ….. Plalace Negro, poetas moçambicanos; e de Agostinho Neto, Manuel Rui e Paula Tavares até Ondjaki, escritores e poetas angolanos. Todos eles a prometerem a integração de um sangue novo nas literaturas de língua portuguesa em Africa.

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Fernanda cavacas

(Ministério da Educação)

desfiar memórias como quem vai desfolhando flores (sobre Mar Me Quer, de Mia Couto)

resumo

A trama narrativa de Mar Me Quer, em forma de novela, tece-se em pano africano com crenças e vivências de gentes moçambicanas que vivem no litoral de Moçambique e usam o mar para lhe roubarem o peixe que os alimenta. E é com o mar que se estabelecem relações de vida e de morte, é o mar que determina esse desenrolar de (a)casos fulcrais para as personagens. Desde logo o título da narrativa, Mar Me Quer, faz-nos desconfiar do decalque e do trocadilho em relação ao mal-me-quer da cantilena amorosa. Decalque justificado por ser uma das manias de Luarmina (uma das personagens principais) essa de desfolhar inúmeras flores ao fim de cada tarde na procura de um amor que lhe havia sido negado, enquanto vai pronunciando as palavras mágicas, como se descosturasse um pano nenhum. Ela e Zeca Perpétuo (a outra personagem principal) são dois pólos antagónicos dramaticamente presentes na construção da vida humana: o mar e a terra; o desejo de amar/ser amado e a impossibilidade de consumar esse amor; o passado e o presente na difícil conjunção de memórias e de sonhos; a dúvida da incompreensão ou do não reconhecimento dos símbolos e a certeza da tradição. Os oito capítulos em que esta estória se constrói outra coisa não são senão memórias que Zeca Perpétuo desfia em troca da ternura de Luarmina, enquanto esta desfolha pétalas de malmequeres na busca do amor perdido.

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Fernando Fraga de Azevedo

(Instituto de Estudos da Criança / Universidade do Minho)

Literatura infantil e promoção da competência literária. Leituras em torno de O gato e o escuro, de Mia Couto.

resumo

É nosso objectivo explicitar, através desta comunicação, o carácter de novidade semiótica que a obra O gato e o escuro, de Mia Couto, evidencia, correlacionando essa novidade com o papel de uma escrita literária para a infância na promoção da chamada competência literária. 
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Será prestada uma atenção primordial à relação de interacção semiótica entre as componentes estilísticas do texto verbal e as componentes estéticas do texto visual, enfatizando a relação de solidariedade semiótica que as une, a qual, no caso de uma escrita cujo destinatário primordial é a criança, nos parece de elevada importância, uma vez que, em larga medida, “compensadora” da reduzida “competência enciclopédica” dos seus destinatários preferenciais.

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Fernando Arenas
(University of Minnesota)

Reflexões críticas sobre a pós-colonialidade "afro-lusófona"


resumo

Esta comunicação oferece uma série de apontamentos críticos que visam chamar a atenção sobre o relacionamento entre pós-colonialidade e a globalização pós-moderna e o seu impacto sobre os países africanos de língua oficial portuguesa. Trata-se portanto de estabelecer um diálogo entre pensamento crítico africanista (e não só) e a literatura, cinema e música popular de diversos países africanos onde o português é falado, a fim de estabelecer os parâmetros de uma "cartografia epistemológica" a partir da qual poderia ser pensada uma pós-colonialidade "afro-lusófona" de conjunto mas também diferenciada nas suas especificidades nacionais e sub-regionais.

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Fernando santos neves
(Universidade Lusófona)

A “lusofonia” como “questão linguístico-literária” e como questão estratégica de geopolítica e de desenvolvimento

resumo

“Quod erit demonstrandum” e que o autor espera ter, no fim, demonstrado é a tese seguinte: mais que o projecto ou questão cultural e até mais que importante projecto ou questão linguística e literária, a Lusofonia é, também e até sobretudo, um importantíssimo projecto e uma importantíssima questão estratégica de geopolítica e de desenvolvimento humano para todos os Países e Povos de Língua Portuguesa. Acrescentando de imediato que os ditos Países e Povos de Língua Portuguesa, e designada e paradoxalmente Portugal e Brasil, ainda estão para descobrir efectivamente este novo e único caminho da sua realização e da sua afirmação no mundo globalizado do século XXI.

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Francisco Gomes Fragoso

da avidez e do gosto pelo teatro cabo-verdiano

resumo

O NOSSO TEXTO debruça sobre a avidez e o gosto do Cabo-Verdiano pela arte cénica, relevando a sua CAPACIDADE HISTRIÓNICA INATA, sem deixar , porém de salientar as inúmeras carências herdadas pelo País-Arquipélago neste âmbito, fruto de uma política cultural francamente negativa e confrangedora, implantada durante o período colonial. Chama a atenção pelo poder de impacto do Teatro no seio das comunidades e, bem assim, pela função que desempenha como FORÇA MOTRIZ da civilização. E parafraseando, à guisa de elucidação consentânea, Federico Garcia Lorca - o teatro é simultaneamente um meio de civilizar e um índice de civilização e complementarmente, Almeida Garrett – o teatro é um meio de civilização, mas não prospera onde a não há. Aborda, outrossim, a questão que se pretende com a importância dos AGENTES desta nobre arte, que é efectivamente, o Teatro, com ênfase, para a missão e ofício do actor e do encenador e, por que não, do público, estes três expoentes, sem os quais não há Teatro, na boa acepção da expressão. Dá conta ainda do fecundo labor do grupo cénico “Korda Kaoberdi”, este grande projecto cujo desígnio e objectivo visou a criação e a edificação de um Teatro genuinamente cabo-verdiano que, a despeito de nacional na sua constituição, não deixasse, contudo, de ser ecuménico e universal nos seus projectos e ambições. Desideratum que se conseguiu, aliás, materializar, de forma magistral e eloquente.
Enfim, releva a missão do grupo cénico “Korda Kaoberdi” por haver adoptado uma prática cénica, assaz consequente, buscando, fundo, o seu magistério no desígnio e objectivo acima postulados. Eis porque logrou guindar-se a um verdadeiro pedestal de estrelado, de alto nível, acabando por se impor, no plano nacional e internacional. Nesta óptica e perspectiva, impõe-se asseverar estar-se perante o lançamento das linhas de força e respectivo alicerce do verdadeiro advento da autêntica arte cénica no País – Arquipélago.

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Giovanni Ricciardi
(Università degli studi di Napoli)

A/ à volta da áfrica: francisco josé tenreiro, neo-realistas e arredores

resumo

Uma carta de Manuel de Campos Lima a Soeiro Pereira Gomes, pedindo informações e conselhos para ele e Sidónio Muralha e Francisco José Tenreiro irem trabalhar na África, oferece-me a oportunidade de discutir o relacionamento entre intelectuais na Lisboa dos anos ’40 e a “descoberta” da África pelo autor de Ilha de Nome Santo.

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Glória de Brito
(Universidade Aberta)

Marcas de reconhecimento e identidade do emigrante
na narrativa de Teixeira de Sousa

Resumo

Ao longo de quase dois séculos, desencadearam-se em Cabo Verde vários movimentos migratórios com destinos diferentes. As abordagens literárias da emigração organizam-se em torno da tematização das várias facetas do fenómeno (económica, social, psicológica, política...), propondo diversas figuras retóricas e reinvestimentos lexicais.
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Na narrativa de Teixeira de Sousa, a representação dos factores extrínsecos que marcaram a mobilidade demográfica (partida e regresso) e a diáspora repousa sobre imagens e símbolos em relação com a reformulação de uma nova sociedade emergente. Para além dos aspectos comuns aos fluxos migratórios, o autor concebe variados tipos e estilos de emigrantes de sucessivas gerações, sublinhando a sua intervenção na mudança da identidade social e individual.

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Hilary Owen.
(University of Manchester)

“Exotismos e Erotismos”. A Política da Amizade Feminina em Niketche. Uma História de Poligamia de Paulina Chiziane.

resumo

Esta palestra vai enfocar a importância da diferença sexual nos processos de transculturação que ligam passado e presente na transição moçambicana. Com referência ao último romance de Paulina Chiziane, Niketche. Uma História de Poligamia, vou analisar a influência da poligamia na definição duma possível “vox populi” no feminino, fazendo referência específica às questões seguintes: o eixo norte/sul na análise comparada de “patriarcados”, a economia do “desejo feminino” como economia material, e a desconstrução do tecido social pela amizade entre mulheres.

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Igor Cusack

literatura africana e gastronomia: um cozinhado apetitoso?

resumo

Em muitos romances, acções banais tais como idas à casa-de-banho raramente são mencionadas, e a ausência de tais acções passa despercebida ao leitor. Da mesma forma, as personagens de ficção podem aparentar passar pela vida quotidiana sem qualquer necessidade de comer ou beber. A maneira como a comida é retratada depende do género de literatura, por exemplo, se é romântica ou realista. Poderá também depender da atitude pessoal do autor em relação à comida. Na África Lusófona, as elites dirigentes têm proclamado que certa gastronomia pretende determinar se estes pratos – e a comida em geral – estão presentes em alguns romances e poemas da África Lusófona. Num extremo está a obra de José Luandino Vieira, que escrevia com entusiasmo acerca de pratos Angolanos como muamba o calulu; por outro lado, nos romances de Pepetela, as personagens, nas raras ocasiões em que comem, fazem-no em silêncio.


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Inácio Rebelo de Andrade
(Universidade Lusófona)

memória e história, da evocação à realidade

Resumo

1. Citando Eça de Queiroz, que refere n' A Relíquia que «sobre a nudez forte da verdade - o manto diáfano da fantasia», o autor da comunicação intui da afirmação que uma obra de ficção (no caso concreto, um romance) pode descrever uma realidade histórica, embora pintada com as cores da imaginação.
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2. As obras literárias ditas de «feição memorialista» fazem isso com mais rigor (lembre-se a propósito a novela famosa 0 Adeus às Armas, de Ernest Hemingway, inspirada na experiência pessoal vivida durante a 1ª Grande Guerra). Ainda que nem todas com a mesma fidelidade, essas obras dão sempre um «retrato» de épocas, acontecimentos, personalidades, etc., transformando-se assim num contributo importante para a História.
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3. 0 autor da comunicação tentou proceder desse modo com alguns livros que foi publicando: Saudades do Huambo (1994, 1999), Quando o Huambo Era Nova Lisboa (1998), Passageiro sem Bilhete (2003).

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Iris anancio

“De performances e de macacadas: uma leitura da produção dramatúrgica do angolano
José Mena Abrantes junto ao Elinga-Teatro”

Resumo

A análise dos processos de enunciação em peças de José Mena Abrantes remete a tensos e intensos imbricamentos textuais e discursivos. Adotando-se o signo do macaco utilizado na logomarca do grupo Elinga-Teatro como possível operador teórico, problematizam-se as performances da, com e sobre a linguagem, em relação à maneira como o dramaturgo procede à releitura da história, da cultura e da literatura de Angola.

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Jessica Falconi
(Universidade de Nápoles)

Ilha de Moçambique e a poesia moçambicana

resumo

O tema de Ilha de Moçambique configura-se como uma constante da poesia moçambicana desde os anos anteriores à independência do país até aos anos noventa, através de poetas como Rui Knopfli, Vergílio de Lemos, Nelson Saúte, Luís Carlos Patraquim e outros..

Ao entrar na escrita, essa antiga capital da colónia torna-se lugar mítico, símbolo da nação e da história e do mosaico de culturas que è Moçambique. Numa perspectiva histórica, literária e cultural em geral, a poesia sobre Ilha de Moçambique é fundamentalmente uma reflexão sobre a questão da identidade e da moçambicanidade.

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José Camilo Manusse
(Universidade Eduardo Mondlane - Maputo)

A representação do Herói em Portagem e Jubiabá
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resumo

A comunicação analisa os procedimentos técnico-narrativos da focalização omnisciente, focalização interna e do discurso avaliativo das acções das personagens para representação e projecção de João Xilim e António Balduíno à categoria de herói, em Portagem, de Orlando Mendes e Jubiabá, de Jorge Amado, respectivamente. O estudo tem como objectivo mostrar a articulação operada entre estas estratégias técnico-narrativas e a representação do herói. Com base numa abordagem comparatista, e com o objectivo de mostrar os aspectos comuns e distintivos, analisou-se o percurso dos protagonistas. O exame que se efectuou aos textos, permitiu perceber que os protagonistas tiveram percursos de vida diferentes, mas passíveis de uma relacionação.
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Movidos pela premissa de que o discurso da narrativa literária é produzido pelo narrador, a comunicação centra a reflexão em torno deste elemento estrutural fundamental. Foi ainda na base da premissa de que a adopção de um determinado procedimento discursivo pelo narrador e a história e da interpretação daqui decorrente que analisámos a funcionalidade do narrador.
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A comunicação defende que os procedimentos discursivos de focalização omnisciente, focalização interna e do discurso avaliativo das acções das personagens foram adoptados pelo narrador por darem a este a prerrogativa de fazer intrusões, manipulando, deste modo, os eventos diegéticos para um certo fim. Por outro lado, nos dois textos instituiu-se um narrador heterodiegético, o qual relata uma história à qual é estranho, dado que não é co-referente com qualquer das personagens do universo diegético. Ao adoptar este estatuto, o narrador reivindica, de forma subtil, a assunção de uma autoridade inquestionável.

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José Capela
(Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto )

O INICIO DO SÉCULO XX E AS CONDIÇÕES HISTÓRICAS PARA O EXERCÍCIO DA ESCRITA EM MOÇAMBIQUE
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RESUMO
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As condições históricas que permitiram aos naturais de Moçambique a prática habitual da escrita, cultivando algum grau de identidade e referida esta à sua moçambicanidade, a partir dos primeiros anos do século XX, são de natureza política, económica e sócio-cultural.
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A política liberal, nomeadamente a do Setembrismo e a da "Regeneração", além de ter levado a imprensa para Moçambique em 1854, foi tomando as medidas indispensáveis à extinção do antigo regime na colónia e à organização do estado colonial moderno. A desvinculação das terras e a abolição da escravatura e seu tráfico eram um facto mais ou menos consumado nos primeiros anos do século XX imediatamente após a instalação das companhias majestáticas e de plantação e a abertura dos portos e caminhos de ferro. A expedição das Oras Públicas despertaria a partir de 1877 uma dinâmica de carácter material e cultural sem precedentes na colónia. Um certo incremento da escolarização por iniciativa das missões católicas e protestantes, a agitação social promovida através das associações de classe e nomeadamente pela sua imprensa e a intervenção da maçonaria criaram o ambiente propício e facultaram os meios que possibilitaram a uma elite local a sua manifestação pública através da escrita.

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José Carlos Venâncio
(Universidade da Beira Interior)

Literatura, Sociedade e Africanidade. Considerações em torno de uma relação complexa

resumo

O objectivo da presente comunicação é o de debater algumas questões relacionadas com os possíveis contributos que a sociologia da literatura, enquanto experiência científica de charneira, pode oferecer à evidência e valorização das literaturas africanas nos idiomas da colonização. Após um breve historial sobre a constituição da sociologia da literatura como conhecimento científico autónomo, tomarei em consideração o historial e as marcas mais significativas do que se poderá considerar como africanidade, quer à luz da modernidade, quer da pós-modernidade. A terceira parte da comunicação será dedicada ao confronto das propostas epistemológicas e metodológicas da sociologia da literatura com os percursos das literaturas africanas, dando especial relevo às de língua portuguesa e ao género romance como unidade de investigação.

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José de Sousa Miguel Lopes

Cultura acústica e cultura letrada: o sinuoso
percurso da literatura em Moçambique
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Resumo
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Tomando como ponto de partida o lugar da acústica numa Antropologia dos sentidos, o autor procura traçar as características constitutivas da cultura acústica, que se baseia mais no som , no ouvido, do que na escrita, na vista.
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Após analisar as relações entre o oral e o escrito, são destacadas as marcas repetitivas e formulares presentes na poesia oral, nos provérbios e nas narrativas moçambicanas. Finalmente são abordadas as influências do universo da oralidade e da escrita em português, no sentido de procurar um Entendimento de como essas duas marcas influenciam hoje a literatura produzida em Moçambique.

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José María Durán Gómez
(Escuela Oficial de Idiomas Villanueva – Don Benito)
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“Traduzir em castelhano: dificuldades e gratificação”
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resumo

Entre os vários aspectos que dominam a tradução de obras literárias dos PALOP para o castelhano talvez seja preciso começar por um facto evidente: a quase nula existência de obras traduzidas. Por esta razão, as literaturas africanas em língua portuguesa são praticamente desconhecidas para o leitor culto espanhol (um exemplo: José Craveirinha não conhece versão espanhola de nenhum dos seus livros).
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Este aspecto extra-literário condicionará a recepção das obras assim como o exercício de traduzir, como se reflecte em vários prólogos ou apresentações, nomeadamente nos dois primeiros livros vertidos em espanhol de Mia Couto, Cronicando e Terra Sonâmbula. 
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As dificuldades à hora de mostrar a pluralidade de culturas, a diferente cosmovisão e mesmo os problemas lexicais serão analisados nas obras dos escritores melhor representados em língua castelhana, Mia Couto e Pepetela.

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josé maria rodrigues filho
(Universidade de Mogi das Cruzes)
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O processo de transmutação do conto “Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos”, de Luandino Vieira para o teatro.
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Resumo
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O texto narrativo de “Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos” facilita a transmutação para outras formas de linguagem artística porque nele é usado uma estrutura discursiva que oferece modelos de equivalência sígnica para as estratégias e performance áudio-visual-cinéticas. Um trabalho de adaptação já foi empreendido por este professor e publicado na revista da Universidade de Mogi das Cruzes, São Paulo, Brasil, Ano III, no. 3, de dezembro de 1992. A noção de teatralidade constante no conto reflete a questão de que a imagem sempre encontrará sua representação analógica, contínua e icônica da realidade. A linguagem verbal, quando representação simbólica do icônico, pode ter seu correspondente virtual na articulação de duplas situações enunciativas: a do texto-base para o texto recriado, no caso, com vistas à encenação. Sendo assim, serão analisados os conceitos de leitura, interpretação, crítica, adaptação, recriação, noções de intertextualidade, de prosódia, de equivalência, e de circunstâncias de recepção, que constaram do processo de transmutação.

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Jurema José de Oliveira
(Universidade Federal Fluminense)
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A hora dos ruminantes e Maio, mês de Maria
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resumo
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O estilo discursivo que norteia as narrativas de A hora dos ruminantes(1969), de José J. Veiga e Maio, mês de Maria (1997), de Boaventura Cardoso oscila entre a paródia e a alegoria. A paródia procura dar conta dos procedimentos necessários à configuração do trabalho artístico, depreendendo, categoricamente, lugar e voz dos enunciados, assim como a temática e a rede figurativa que ela põe em jogo na história que os romances contam. A alegoria, por sua vez, expõe um pensamento que representa determinada situação, mas pretende, de fato, dizer outra coisa. A obra de arte procura dizer o real, ainda que subjetivamente, como o real procura se dizer através da obra. Logo, cada um diz o outro e se diz no outro alegoricamente falando. Assim, com o intuito de abarcar a totalidade das coisas, ela funciona como o fio condutor na busca da "essência escondida”1. Logo, as frases precisam ter uma consistência semelhante àquela presente nos objetos representados, mas isso não significa que a representação possa atingir, exatamente, o objeto desejado.

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Kelly Cristina Oliveira de Araújo

(Universidade de São Paulo)

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“Homens de política e homens de cultura: uma só trajetória na luta pela independência de Angola”
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resumo
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A partir da década de 1950, surge em Angola uma maior preocupação com a situação colonial a que o país estava submetido, fazendo eclodir movimentos de caráter nacionalista comandados por aqueles que haviam decidido romper o silêncio, em busca da restauração e resgate da dignidade africana.
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Estes homens, como Mario Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Agostinho Neto, António Jacinto, entre outros nomes igualmente importantes que poderiam ser aqui citados, eram acima de tudo homens de cultura, assim denominados por terem como objetivo primeiro a valorização e reabilitação da produção cultural negro-africana. 
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Nosso trabalho tem por objetivo refletir sobre o compromisso dos homens de cultura com a militância e com a política, na medida em que esta vanguarda militante e nacionalista tornou-se produtora e divulgadora de uma cultura que, no plano do discurso, negava a cultura do colonizador e o próprio empreendimento colonial. A partir disto, torna-se imprescindível associar às suas trajetórias o desempenho que tiveram como homens da política - atuantes no plano internacional, teceram redes e caminhos que buscavam conduzir Angola à independência.

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Laura Areias


(Pós) Independentes, mas libertas – na ficção de Mia Couto e da senegalesa Aminata Sow Fall
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resumo
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A leitura de certa escrita afro-francófona pós-colonial, de autoras como Ken Bugul ou Aminata Sow Fall, ambas do Senegal, chega a intrigar-nos pelo tipo feminino da mulher libertada do jugo de um regime mas rigidamente presa a um outro – o de uma ideologia ou de um modelo cultural importado do ocidente, tido como superior. Por outro lado, na ficção do moçambicano Mia Couto, as mulheres de condição social semelhante, a classe média ou média alta citadina, independentes desde 1975, a braços com uma guerra que se prolongaria por cerca de 30 anos, lutam por fabricar a sua identidade e adaptar-se a uma nova sociedade, usando de subtil astúcia para ludibriar e vencer.
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Numa caricatura a tocar o grotesco, o escritor critica, nas crónicas de 1988-89, com humor desencantado a petulância do novorriquismo, os desajustes sociais que o sonho socialista da Independência não conseguiu desfazer. Neste trabalho tentarei confrontar os dois modelos coloniais e culturais e procurar a razão por que uma cultura, sendo opressora pode ser simultaneamente tentadora; sendo destruidora dos valores ancestrais pode ser irresistível ao ponto de alienar radicalmente as suas vítimas; tentarei revelar os métodos usados pelos colonizadores para que tal fascínio perdurasse após a libertação do regime colonial. E confrontar estes com aspectos idênticos que ditaram outros comportamentos nas heroínas da ficção afro-lusófona, seguindo até ao desencantamento de que nos apercebemos em ambos os autores, senegalesa e moçambicano. Apoiarei teoricamente a minha pesquisa nos críticos africanos e ocidentais da escrita de mulheres e do pós colonialismo.

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Leonel Cosme

Agostinho Neto, o épico af.ricano
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resumo
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O Poeta que se fez Guerrilheiro para provar a Razão primeira da sua poesia e legitimar a mensagem nela proposta de libertação de Angola e da África colonizada, mas também do Negro humilhado de todo o Mundo – só poderia escrever uma epopeia. Não por cópia ou réplica ao modelo clássico, para celebrar as gestas heróicas, os fastos das vitórias, os desafios aos deuses pelo domínio das forças da Natureza – em refiguração dos heróis greco-latinos, como os cantaram Homero e Camões.
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O modelo dos poemas épicos de Agostinho Neto, que se tornam num único poema por força de um único enunciado – as “vozes dolorosas de África” – seria também único e irrepetível : o herói é colectivo, chama-se Negro ou Povo Angolano, e os Inimigos e os Deuses são terrenos e reais, não vieram do Hades nem do Olimpo, e chamam-se Escravidão, Racismo, Colonialismo, Ngola Kiluanji, Rainha Ginga.
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Assim, Agostinho Neto tomou lugar ao lado dos grandes poetas nacionais do século XX.

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Liliane Batista Barros
(Universidade do Estado de Mato Grosso)
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OS CAMNHOS DO SOL
resumo.
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As relações entre as literaturas brasileiras e africanas, ensejaram este estudo em um trabalho comparativo entre as obras Sagarana (1946) de João Guimarães Rosa e Luuanda (1961) de José Luandino Vieira, pela tensão no espaço, o sertão em Sagarana e o musseque em Luuanda, que os dois autores criaram. Inovador na arte de contar estórias, o autor de Sagarana, valendo-se da técnica narrativa dos contadores de estórias, introduz um novo fazer literário. Suas narrativas estão repletas de bichos, plantas, rios e personagens com quem nos identificamos. Mas o que nos chama a atenção é a alegria de viver dessa gentinha capioa que apesar dos desconformes da vida acredita na felicidade. A linguagem utilizada e a temática com a valorização da cultura angolana são as principais características na obra de Luandino. Nesse aspecto, temos o diálogo com Guimarães Rosa, pois Luandino foi escolher na fala e cultura popular a fonte para compor seus contos. Como Rosa, suas narrativas são permeadas por bichos e personagens marginalizadas. Nessas estórias, as carências sociais e a busca da liberdade são o cotidiano dos habitantes do musseque com sua luta pela sobrevivência e a procura da felicidade. Na obra de Rosa e na de Luandino, os elementos que compõem o espaço não são um quadro de valores fixos. Há neles a marca da reversibilidade, pois o espaço ajuda a falar da condição humana. Pelos elementos que compõem o espaço, Rosa e Luandino constróem um cosmo que não passa necessariamente pela geografia. Em nossas leituras, observamos que a natureza nas obras de Guimarães Rosa e Luandino se faz bastante presente nos diferente elementos, entre eles, a água, o sol, a vegetação. Os signos escolhidos para construir a natureza trazem consigo a reversibilidade tanto no movimento de construção do espaço quanto na relação do homem com o mundo. Nesse sentido o Sol que, junto com a chuva, simboliza a vida, a reprodução na Terra é o elemento celestial que pode ser benfazejo ou malfazejo, dependendo da proporção que atinge a terra. O sol é símbolo da fecundação, mas também pode queimar e matar. O nascente traz a esperança e o poente simboliza a morte. Marca a passagem do tempo pelo seu caminhar no céu. Por ser o centro do universo, também simboliza a realeza. No cristianismo, está ligado à figura de Deus. Os elementos da natureza são chamados a compor junto com o homem um mundo construído à revelia. Lugar dividido entre as forças contraditórias, os caminhos do sertão e do musseque são na verdade trilhas de um devir. De um mundo construído pela palavra em que o homem busca seu próprio destino. Em Rosa essa busca se dá pelo mágico e, em Luandino, pelo social.
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Livia Apa
(Istituto Universitario Orientale di Napoli, Itália)
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Aulas de geografia: cartografias, mapas, et loca da nação. Construção e desconstrução do cânone em Ruy Duarte de Carvalho
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resumo
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A minha intervenção vai apresentar uma leitura da obra de Ruy Duarte de Carvalho na perspectiva da deconstrução da ideia de espaço/lugar etnograficamente descrito pela memória e pela tradição colonial, frisando como toda ela pode ser lida como a procura de uma nova geografia capaz de definir, através do próprio acto de contar, percorrendo e cruzando vários géneros literários, a própria (de)construção narrativa, definindo limites e margens de um espaço literário e histórico que é , em si, enquanto espaço de memória colectiva, objecto capaz de dizer a nação.

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Lola Geraldes Xavier
(Escola Superior de Educação de Coimbra)
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Literaturas de língua portuguesa e (des)construção da identidade nacional.
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RESUMO
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Imagine-se um encontro entre Pepetela e João Ubaldo Ribeiro. Que teria o angolano a dizer ao brasileiro? Que diálogos se estabeleceriam? O que têm em comum estes autores, para além da língua portuguesa?
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Pretende questionar-se algumas das suas obras —A Gloriosa Família, A geração da utopia, Viva o Povo Brasileiro e O feitiço da ilha do pavão, por exemplo —, tentando comparar-se processos linguístico-literários de interrogar a história e a sociedade na busca da (des)construção de uma identidade nacional que tem muito de semelhante nestes espaços geográficos diferentes. O escritor é assim o arauto de uma sociedade a que pertence, mas que recusa, na tentativa de transformação. É, porém, uma recusa simbólica, pois, qual Sísifo aprisionado, nada mais pode do que desejar. Quais são os moldes desse desejo/utopia? Que possibilidades de concretização se percepcionam? 
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O diálogo comparativista prevê-se enriquecedor e as respostas provocadoras de outros diálogos...

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Manuel Gonç.alves Simões
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(Universidade de Veneza)
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O tema do retirante e outros temas nordestinos na narrativa cabo-verdiana: baltasar lopes, manuel lopes, luís romano e teobaldo virgínio
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resumo
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A comunicação tem como objectivo a análise dos temas recorrentes na literatura nordestina e sua eventual influência na literatura cabo-verdiana dos anos cinquenta e sessenta. O estudo compreende, como ponto de partida, os pressupostos do “manifesto regionalista” e as linhas programáticas do modernismo brasileiro, de algum modo coincidentes com as preocupações de “Claridade”, sobretudo em relação ao discurso sobre a terra e sobre o homem das ilhas: modo e voz do cabo-verdiano, quer dizer, a questão da identidade do arquipélago crioulo. Através da exegese crítica das obras de Baltasar Lopes e de Manuel Lopes (aqui consideradas menos aprofundadamente porque já objecto de alguns estudos) e pondo particularmente em evidência a obra narrativa de Luís Romano e o Teobaldo Virgínio, a presente investigação questiona o problema da homologia ou intertextualidade entre estas obras e as que vieram a caracterizar, pelos seus traços distintivos, a literatura nordestina. Confrontando as duas literaturas parece poder considerar-se que as semelhanças eventuais se caracterizam mais por uma homologia de princípio do que propriamente por um fenómeno de intertextualidade, considerando esta não como uma soma confusa e misteriosa de influências mas como o trabalho de transformação e assimilação de vários textos, operado por um texto centralizador que detém o comando de sentido (Laurent Jenny). Analisando as eventuais influências e estímulos criativos como fenómeno transcultural e o valor do que se considera como “peregrinações interculturais”, é possível entrever um fenómeno de “polinização” que do Nordeste brasileiro, até por uma identidade histórico-cultural, &ldqufertilizou” os litorais cabo-verdianos.
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Manuel muanza
(Universidade Agostinho Neto)
O poder e o conflito entre tradição e modernidade
resumo
A partir dos elementos que organizam a narrativa de Pepetela, lueji, procurarei explicar como Pepetela antecipou realidades que se manifestam, hoje, em Angola. O poder, por exemplo, tal como o ficcionou no elemento Lukano, tende – para quem o detém – a volatizar-se.
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O discurso enunciador do romance de Pepetela constrói, por analogia, perspectivas de análise da sociedade angolana, que procura fundar novas relações entre o poder, a tradição e a modernidade políticas impostas pela realidade e pelas transformações em curso.
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Se no romance o epílogo tende a encerrar a obra, não admitindo qualquer continuação, os elementos abrem-na à possibilidade de actualização e continuidade.

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Manuele Masini
(Università di Pisa)
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Madeira e Cabo Verde no diálogo das literaturas lusófonas.
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resumo
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A literatura de Cabo Verde se coloca dentro do diálogo das literaturas africanas de expressão portuguesa com as suas características próprias, e não deixando de ser uma literatura propriamente nacional, teve com a metrópole relações se calhar mais evidentes ao longo do tempo, constituindo desde muito cedo o natural ponto de contacto entre Portugal e as demais colónias portuguesas, e sobre tudo com o Brasil, e oferecendo, aliás, o mais antigo e maduro exemplo de literatura duma colónia capaz de pensar-se como literatura nacional e de participar ao diálogo literário com uma sua própria identidade. A natureza intrínseca ao “ser ilha”, a dimensão, até ontológica, da insularidade, e a função específica das ilhas atlânticas na história social e económica antes, e logo também cultural, de Portugal fazem com que a situação própria das ilhas de Cabo Verde possa chegar a ter correspondências com o que aconteceu na ilha de Madeira, que teve uma função parecida nos comércios portugueses e na cultura da cana de açúcar, e que logo tentou construir, e ainda tenta, uma sua literatura, que se não pode chegar a considerar-se nacional (e não só por ser Madeira parte do estado português: os exemplos das literaturas nacionais de Espanha, dentro dum único estado, demostram o contrário) com certeza reclama um papel específico também, creio, no sentido de fazer-se ponto de união entre várias experiências lusófonas, e é bem sabido que seja os madeirenses seja os cabo-verdianos tiveram sempre uma relação de amor em relação à literatura brasileira. Através dum breve estudo histórico-cultural das ilhas mencionadas na primeira metade do século XX, e destacando figuras de fundamental importância naquelas experiências (um Edmundo de Bettencourt e um Jorge Barbosa, por exemplo) tentaremos oferecer uma ideia crítica das literaturas madeirense e cabo-verdiana como ilhas-ponte (pontes oceânicas) entre as demais literaturas de expressão portuguesa.

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Margarida Calafate Ribeiro,
(Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra)
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Tristes Lusotropicalismos: uma leitura de Natureza Morta, de José-Augusto França e de Terra Morta, de Castro Soromenho
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Resumo
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Nesta comunicação abordarei os registos disfóricos do lusotropicalismo numa leitura de Natureza Morta, de José Augusto França e de Terra Morta, de Castro Soromenho tendo em atenção outros registos disfóricos e eufóricos que compõem o pano de fundo da época e do contexto político em que as duas obras surgiram.
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Maria Aparecida Santilli
(Universidade de São Paulo)

Literaturas Africanas (Língua Portuguesa):
O Romance Contemporâneo e as Vertentes da História

Resumo
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A opção por este tema deveu-se a um duplo interesse de operar com o romance, devida à sugestão do texto de Mikhail Bakhtin em que o considera, de um lado, um gênero ainda “ inacabado” e que melhor que todos, expressaria as tendências evolutivas do mundo; de outro, pelo fato de verificar-se, como pondera ele, uma romancização de outros gêneros entre os quais se inclui a História.
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Por essa perspectiva de Bakhtin, comportava ver-se uma questão pontual das Literaturas Africanas (Língua Portuguesa), persistente na atualidade: a de problematizar, no espaço da ficção, a História de povos emergentes que haviam de rever-se na ultrapassagem dos tempos de colonização.
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É o que se pretende apontar, em amostra constituída por um romance de Angola, de Cabo Verde e de Moçambique.

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Maria da Graça Gomes de pina
(Università degli Studi di Napoli )
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Perfis Sociais da Cantiga Finaçom: a mundividência cabo-verdiana em Inácia Gomes
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resumo
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Este pequeno estudo pretende contribuir para uma caracterização da finaçom tal como ela nos aparece cantada na ilha de Santiago, e para uma possível explicação da sua estrutura poética. 
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A ideia foi-me sugerida ‘indirectamente’ pela leitura de uma passagem da obra de Manuel Ferreira, A aventura crioula, onde se cita uma frase de Baltasar Lopes acerca da possível descendência das finaçom às cantigas de desafio e de mal-dizer. Tal ideia já me tinha surgido em mente aquando da leitura das manijas de Eugénio Tavares, mas a sua estrutura não paralelística desviou-me para as finaçom.
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Assim sendo, o objectivo principal deste pequeno contributo é o de verificar a veracidade desta atribuição, analisando passagens das letras improvisadas das finaçom de nha Nasia Gomi e pondo em relevo o fio que as liga à estrutura dos cantares da Idade Média.

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Maria Felisa Rodríguez Prado
(Grupo GALABRA – Universidade de Santiago de Compostela)
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MAPEANDO O MINDELO: CAIS DE PEDRA DE NUNO DE.MIRANDA

resumo.

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Tem-se chamado a atenção, relativamente à narrativa de Cabo Verde, para o facto de a cidade do Mindelo ocupar um lugar central, não apenas como referência geográfica mas também como paisagem, como sociedade e como lugar do humano, na ficção cabo-verdiana cujo universo está radicado no espaço urbano.
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Nuno de Miranda, produtor na diáspora portuguesa, aborda em Casi de pedra, romance publicado no fim dos anos oitenta, o problema da identidade –que parece central em toda a literatura de emigração– e fá-lo situando a acção no Mindelo, produzindo o retrato de um espaço que funciona como amostra e, como metonímia da parte pelo todo, remete para o conjunto de Cabo Verde. Reflecte, mais uma vez, a realidade social durante a crise –esta, a citadina, motivada pela diminuição de movimento do porto–, denominador comum.
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No retrato dessa paisagem é comum a apresentação do hoje e o reenvio para o passado, com o consequente alargamento da visão que permite estabelecer a verificação de um deterioramento físico, menos devido à acção da passagem do tempo do que à contínua degradação da situação económica do arquipélago.
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Almada (1997) telurismo e dramas do povo são as linhas de força que definem a moderna ficção cabo-verdiana

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Maria fernanda peixoto
(Universidade de Coimbra)
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propostas para uma antropologia literária
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resumo

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Reflexão epistemológica sobre as “relações” entre literatura e antropologia no contexto do pós-colonialismo e da crise de representação contemporânea, numa perspectiva transdisciplinar, de modo a constituir uma antropologia literária.
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A literatura entendida como uma pesquisa sobre a problemática humana enquanto antropologia implícita , constitutiva da dupla natureza do texto como objecto de análise e sujeito de conhecimento, a partir do carácter fundamentalmente verbal da condição humana.
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A ficção narrativa é resultado de actos de selecção (dos sistemas social, histórico, cultural e literário), de combinação (que opera por um processo de cruzamento de fronteiras), e de construção “como se”. A transgressão de fronteiras enquanto qualidade básica do acto de ficção manifesta-se no dentro do texto, compreendido a partir da análise do discurso, no seu carácter dialógico e polifónico, isto é, a socialidade do texto, no âmbito da Sociocrítica.

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Maria Grazia Orsi
(Università di Bari - Itália)
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RESUMO
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No âmbito duma tese de doutoramento em “Lusitanística” (Universidade de Bari-Pisa-Roma) conduzida pelas Professoras Maria José de Lancastre e Fernanda Toriello, estou a levar materiais para um estudo das variantes da colectânea de contos Luuanda (1ª ed. Luanda, ABC, 1964; 1ª ed. Lisboa, Edições 70, 1972) de José Luandino Vieira. .
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Fornecer-se-á um exemplo das variantes levantadas a partir da colação entre as duas edições:
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«Tinha mais de dois meses a chuva não caía. Por todos os lados do musseque, os pequenos filhos de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos dos jipes das patrulhas zunindo no meio de ruas e becos, de cubatas arrumadas à toa.» (In «Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos», p. 13, Luuanda, Lisboa, Edições 70, 1972).
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« Tinha mais de dois meses a chuva não caía e, por todos os lados do musseque, os pequenos filhos do capim de Novembro, verdes e novos, estavam vestidos com uma pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos quentes e pelos jipes das patrulhas passando na zona, no meio das ruas e becos que a desarrumação das cubatas desenhava à toa.» (In «Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos», p. 11, Luuanda, Luanda, ABC, 1964).

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Maria João Silvestre
(Universidade Nova de Lisboa)
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Contributo para o estudo da especificidade do romance africano de Língua Portuguesa
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resumo
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Este trabalho visa apontar linhas de reflexão sobre o novo romance africano de língua portuguesa.
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Optámos pela designação novo para identificar o nosso objecto de estudo, a criação romanesca da África lusófona produzida na década de noventa, com características que a distinguem da produção anterior; justificamos a utilização do termo de língua portuguesa, apesar da polémica instalada em torno do mesmo (vide Ferreira, 1989: 200-215), pelo facto de nos parecer o mais rigoroso: o vocábulo expressão, a alternativa, é demasiado abrangente, enquanto a opção em causa se restringe à identificação da língua que veicula a produção seleccionada.
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A pertinência do estudo do romance é evidente: o romanesco é um género em constante transformação e articulação com o público (Moisés, 1997:98), permitindo reflexões sobre os universos de produção e de recepção.
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Pela sua extrema maleabilidade (Luckács considera-o um género impuro, Bourneuf -1976: 8- questiona se haverá ainda um género identificável como romance) leva-nos à interrogação da possibilidade de existência de uma criação que obedeça a características comuns, ditadas pelas coincidências do contexto. E o contexto é o dos países africanos de língua portuguesa, tão díspares, mas também tão semelhantes, nos percursos histórico e social e no facto de produzirem uma literatura numa língua exterior que coexiste com outras realidades linguísticas.
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O estudo desenvolve-se em duas partes. A primeira parte sintetiza algumas abordagens da especificidade do romance de língua inglesa, de língua francesa e dos primeiros romances lusófonos.
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A segunda parte apresenta um estudo de análise do corpus seleccionado, representativo da produção romanesca africana de língua portuguesa, apontando reflexões sobre as peculiaridades da mesma.
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À distância de mais de duas décadas das independências destes países, questionamo-nos sobre o rumo da produção romanesca da África de língua portuguesa. 
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Delimitámos um corpus constituído por alguns dos últimos romances de autores africanos de língua portuguesa, representantes de cada um dos países em causa, à excepção de S. Tomé e Príncipe, do qual não encontrámos nenhum romance recente:
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Couto, Mia, O Último Voo do Flamingo, 2000;
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Almeida, Germano, A Família Trago, 1998;
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Pepetela, Lueji, 1990;
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Embaló, Filomena, Tiara, 1999.
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Cada uma das obras seleccionadas foi alvo de um estudo de análise, com os objectivos de: 
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a)constatar das afinidades entre as produções romanescas dos vários países africanos de língua portuguesa; 
b)identificar relações com as produções dos países africanos de língua francesa e de língua inglesa.
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A análise das obras terá em conta a temática e a extensão das obras, os aspectos peritextuais e gráficos, a articulação dos núcleos narrativos e da trama da obra, a classificação e as funções das personagens e dos narradores, a significação das focalizações, a relação com o narratário e os sinais que lhe são dirigidos, a complexidade temporal, as referências espaciais e a linguagem.


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Maria João Simões
(Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra)
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Coalescências fantásticas em Mia Couto e Mário de Carvalho

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resumo
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De acordo com a inovadora abordagem do fantástico empreendida por Alain Chareyre-Méjan em Le Réel et le Fantastique (1998: 14) o elemento assustador do fantástico deve-se à “pura indeterminação” (idem, 17) do existente proposto aos sentidos; mas aí reside também o seu fascínio, pois o “fantástico propõe no fundo a resistência da existência à categorização”, fazendo rever e reaparecer o real através do impossível imaginário (p. 108). Deste modo, o fantástico abre espaços subversivos dentro da fantasia pondo em causa a delimitação de fronteiras genológicas, axiológicas e outras. Este perspectiva permite desvendar determinados sentidos que emanam dos contos marcados pelo fantástico em Mia Couto e Mário de Carvalho, onde a coalescência de real e fantástico engendra uma transmudação mútua de um no outro. Neste sentido, o trabalho que agora se propõe visa analisar diferentes aspectos e estratégias no tratamento do fantástico nestes autores a partir dos contos “O embondeiro que sonhava pássaros” de Cada Homem é uma raça e “A máquina de costura” de Casos do Beco das Sardinheiras.

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Maria Luísa Baptista

“Aide-memoire” do jovem escritor comprometido

Resumo

A comunicação problematiza a possibilidade de produção de uma literatura cabo-verdiana emancipada da matriz metropolitana e analisa especificamente um conto de MANUEL LOPES, ovo germinal da sua novelística, exemplo concreto da ‘preceptística’ em causa.


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Maria manuela da silva duarte
(Escola Superior de Educação da Guarda)
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O gato e o escuro – Mia Couto no Ensino Básico ou a reinvenção da língua Portuguesa: a brincar com a língua também se aprende
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resumo
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Numa época em que o ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa coloca desafios cada vez mais prementes ao professor de língua materna, importa, acreditamos, reflectir sobre a pertinência de experimentar estratégias e métodos de ensino que conquistem o aluno para a aprendizagem desse instrumento de uso com o qual se familiarizou e não aprendeu a questionar ou problematizar.
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Assim, propomo-nos reflectir sobre o papel preponderante da oralidade na produção discursiva dos alunos do ensino básico (2.º e 3.º ciclos), perspectivando-a como auxiliar na remediação de desvios linguísticos (produzidos oralmente e por escrito). Tomaremos como suporte e ponto de partida a obra infanto-juvenil O Gato e o Escuro, de Mia Couto, por considerá-la exemplar na reprodução da oralidade do público-alvo. Procuraremos sublinhar o papel determinante da reinvenção da linguagem como revelador e tradutor de um conhecimento profundo da língua que se recria, admitindo cambiantes que a norma proíbe. Mia Couto como instrumento pedagógico-didáctico para aprender língua portuguesa, nos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, é o mote para o trabalho que nos propomos levar a cabo.

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Maria Manuela Jales C. de Araújo
(Centro de Estudos Sociais – Universidade de Coimbra)
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Francisco José Tenreiro e Noémia de Sousa: um diálogo com as vozes negro-americanas de Harlem
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resumo
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O presente texto propõe-se observar um possível percurso esclarecedor das condições de emergência do movimento cultural chamado Harlem Renaissance, assim como mostrar marcas de transculturalidade identitária desse momento na poesia africana de língua Portuguesa, especificamente em Francisco José Tenreiro e em Noémia de Sousa.
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No âmbito deste trabalho cabe apenas fazer a interpretação de um corpus literário constituído por dois poemas a nomear: «Negro de Todo o Mundo», de Francisco José Tenreiro, e «Deixa Passar o Meu Povo», de Noémia de Sousa.

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Maria Teresa Gil Mendes da Silva
(Università degli Studi de Napoli )
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Utopias do real vs. Distopias do irreal
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resumo
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Tentarei analisar a maneira como nas obras de alguns escritores angolanos e moçambicanos se foi construindo uma utopia que se pretendia concretizar, e como a pouco e pouco parece tomarem consciência de que alguns aspectos da realidade se transformaram em verdadeiras distopias. Estas terão a força de apagar o sonho e cancelar a utopia, ou será ainda possível criar uma nova utopia por cuja realização lutar?

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Maria teresa salgado
(Universidade do Rio de Janeiro)
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Vozes que fazem a diferrença
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resumo
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O trabalho pretende abordar aspectos da representação da mulher na ficção angolana contemporânea. Para isso, discutirá a construção das personagens Sara (A geração da utopia), de Pepetela e Maria (A vida verdadeira de Domingos Xavier), de Luandino Vieira. Como figuras relevantes na obra desses autores, elas serão enfocadas a partir de seu papel na construção da identidade angolana.

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Moema Parente Augel
(Universität Bielefeld - .Alemanha)
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DISSASSUSSEGU DI GUINÉ. LITERATURA GUINEENSE EM TEMPO DE CALAMIDADE
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RESUMO
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A presente comunicação pretende fazer conhecer algumas das mais recentes manifestações poéticas da Guiné-Bissau, produzidas durante e logo após o conflito armado de 1998/99, como um eco dos sentimentos despertados por aquela guerra fratricida e suas consequências. Escritores como Tony Tcheka, Felix Sigá, Respício Nuno, Huco Monteiro possuem poemas inéditos de grande valor, clamando por urgente divulgação. Pretendo ressaltar sobretudo a novíssima obra de Odete da Costa Semedo, No fundo do canto“, no prelo, com publicação planejada ainda para este ano. 
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A percepção pessoal ou coletiva sobre calamidades ou momentos extremos de crise tem sido fruto de pesquisas as mais diversas. A literatura nascida durante ou em consequência de um conflito militar ou político, debaixo das dores e dos sofrimentos causados pela fuga ou pelo exílio, durante a vida na clandestinidade ou no estrangeiro, ou produzida sob o medo da censura e apesar do cerceamento da opinião pública é de um valor imprescindível como produto estético e também como sinal de advertência para as gerações vindouras. Na Guiné-Bissau não foram poucos os autores que no passado ou na atualidade fizeram desse tema o cerne do seu labor de escritores.
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Odete da Costa Semedo, com o longo poema „No fundo do canto“, traz uma contribuição única no campo da poesia guineense, e não só. A autora reflete o clima depressivo que domina seu país, depois do conflito armado e também no momento atual. Expectativas não realizadas despertam sentimentos que deixam traços indeléveis na coletividade, seus efeitos abalam a autoconfiança e a própria identidade e representam um papel importante na relação entre literatura e experiência. A impotência face ao derramar do sangue inocente, a indignação sobre as destruições causadas pelas armas, a revolta sobre os resultados do desmoronamento do projeto nacional são tematizados em um extenso texto, estruturado em poemas curtos divididos em quatro sequências, em que o crioulo se mistura ao português e elementos da cultura multiétnica guineense emprestam uma grande plasticidade ao contexto.
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O que norteia o horizonte simbólico de Odete Semedo não são fatos precisos da história de seu país; não lhe interessou a literalização dos acontecimentos reais. Trata-se bem mais de pinceladas de uma paisagem de pesadelo, uma busca de um novo território depois do dilúvio. O inconsciente, com seus pavores e delírios, envolve o político e o ético em uma produção poética sem igual, em parte lírica, em parte épica, da mais extrema dramaticidade.
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Mais do que qualquer outro autor guineense, Odete Semedo trabalhou poeticamente o fenômeno da guerra e suas consequências morais e psicológicas. Entretanto, não se trata aqui de uma escatologia. Muito pelo contrário, seu „desabafo“ evidencia-se como um caminho para a superação das angústias e traumas de uma coletividade, a elaboração dos significados da realidade e um instrumento para a projeção de suas esperanças.

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Nataniel ngomane
(Universidade de São Paulo)
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um olhar atrás, um em frente
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resumo
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Russel Hamilton (1999) aponta a expressão literária de reivindicação cultural, protesto social e combatividade, característica das últimas décadas da ocupação colonial nos países africanos de língua portuguesa, como estando na base actual escrita desses países. Isso justifica, segundo este autor, o facto de as respectivas literaturas ainda encararem o passado enquanto caminham para o futuro, o que o leva a afirmar que “os antigos colonizados e os seus descendentes, mesmo com o fim do colonialismo oficial, avançam para o futuro de costas”.
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De facto, muitos dos textos literários moçambicanos produzidos depois da independência mantêm essa ligação com o passado. Seja com o passado histórico e sociocultural, seja mesmo com o passado literário. Tudo indica, pois, que se desenha na actual literatura moçambicana uma atitude de escrita que é também de rescrita desse passado, num gesto que se configura ainda de protesto contra as “distorções, mistificações e exotismos” cometidos – e que ainda se cometem – sobre a história e a realidade sociocultural africana, em Moçambique.
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É partindo desse prisma que a presente comunicação se debruça sobre esse olhar para trás com as atenções no futuro, procurando mostrar, a partir de Vozes Anoitecidas (1986) de Mia Couto e Ualalapi (1987) de Ungulani ba ka Khosa, como essa escrita retoma um projecto estético iniciado em Godido e outros contos (1952) de João Dias e Nós matámos o cão tinhoso (1964) de Luís Bernardo Honwana, revestindo-o de novas roupagens.
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É que se, por um lado, esse aspecto confere a Couto e Khosa, e as respectiva obras, o mérito de darem continuidade a um projecto estético iniciado em obras referenciais anteriores, por outros autores moçambicanos – ainda que de forma menos intrépida - , por outro, também lhes conferes o de, de forma arguta, operarem uma mudança significativa na elaboração discursiva da ficção narrativa moçambicana, com enfoque sobre a linguagem, assim contribuindo no fornecimento de subsídios para a instituição de uma tradição literária de escrita em Moçambique.

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norma lima
(Universidade Estácio de Sá)
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cabo verde e a antropofagia do brasil
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resumo
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O termo "influência" e correlatos foi e é utilizado, por alguns críticos e autores, para caracterizar a relação entre as literaturas brasileira e a cabo-verdiana.
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Originado do pensamento de Taine, no último quartel do século XIX, postulava que cada obra de arte deveria ser compreendida a partir da causa que a havia determinado. Superando este conceito, entendemos a relação estabelecida entre os textos cabo-verdianos e modernistas brasileiros como aquela imagem, no sentido de refundá-la em solo crioulo. Segundo esta ótica, o Movimento Modernista Brasileiro se constituiria um modelo, como ressaltou Baltasar Lopes no depoimento colhido por Manuel Ferreira no prefácio de Claridade, em sua colecção para a história das Literaturas Africanas de expressão Portuguesa, 1986.
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Modelo, este, de (re)ações desejáveis e propulsoras para a conscientização de uma legítima Literatura Cabo-verdiana,

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Paulo de Medeiros.
(Universiteit Utrecht.)
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“Quando os mortos falam: repensando o pós-colonialismo e o pós-modernismo como disjunção”
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resumo
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Esta comunicação pretende analisar alguns modos em como estratégias pós-coloniais e pós-modernistas são utilizadas de maneira a representar disjunções do tecido social em Cabo Verde e Moçambique a partir de uma comparação entre dois textos: O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano Almeida e Palestra para Um Morto de Suleiman Cassamo. Ambos os romances enfatizam uma preocupação com o passado que assume a forma de assombramento. Ao darem a voz aos mortos os dois textos evocam não só estratégias formais complexas como assinalam a importância da memória cultural na construção de uma identidade individual e nacional.
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Paulo Victorino dos Reis
(Universidade Agostinho Neto)
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Línguas africanas e tradição na modernidade literária
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resumo
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Trata-se de um tema bastante sintomático pela natureza das preocupações de ordem linguística, sociolinguística, literária e até mesmo sociológica que este levanta.
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Procuraremos, em primeiro lugar, abordar numa perspectiva prioritariamente sociolinguística o momento actual das línguas africanas (nacionais) na sociedade angolana. O conceito de modernidade na literatura deve ser avaliado, não somente em termos de periodização, mas acima de tudo, buscando o enquadramento semântico dos diversos constituintes da sua essência num contexto sociocultural concreto.
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A literatura angolana é bastante ousada em absorver os sinais da oralidade e da diversidade linguística que o mosaico nacional oferece, servindo-se essencialmente das suas vertentes de desenvolvimento, a saber: a literatura oral e a literatura escrita.
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Os pressupostos aqui avançados convergem na edificação de uma consciência (identidade) do homem angolano, o que é frequentemente entendido por angolanidade (nas suas mais diversas asserções) – diríamos, quanto a nós, uma ideologia linguística, que, de resto, é o leit-motiv da nossa abordagem.

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Patrícia Simões de Oliveira Rosa.
(Universidade Federal do Rio de Janeiro – Faculdade de Letras)
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A metamorfose do olhar – o lírico e o satírico em O último vôo do flamingo
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Resumo

A diluição entre as fronteiras de gênero. A identidade cultural questionada – ruptura e resgate. A construção do olhar: linguagem e memória. O reconhecimento do desconhecido. O contraponto com a alteridade colonizadora. O risível e a transgressão ideológica. A criatividade lingüística de Mia Couto e a utopia centrada no imaginário e no sonho.

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petar petrov
(Universidade do Algarve)
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O universo romanesco de mia couto

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resumo

Na produção narrativa do autor moçambicano Mia Couto, para além do conto, da “estória” e da crónica, merecem especial referência os seus quatro romances, que se destacam pela originalidade da escrita. Esta tem a ver com inovações nos diferentes planos da semiose literária, nomeadamente nos domínios técnico-compositivos e semântico-pragmáticos, que contribuem para configurar a moçambicanidade da sua expressão estética.
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regina claro
(Universidade de São Paulo)
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Morte, Segredos e a Escrita da História em Angola: Antônio de Assis Júnior

Resumo

O discurso sobre o passado tem como estatuto ser o discurso do morto. O objeto que nele circula não é senão o ausente, enquanto que o seu sentido é o de ser uma linguagem entre o narrador e os seus leitores, ou seja, entre presentes. A coisa comunicada opera a comunicação de um grupo com ele mesmo ao reportar-se a um terceiro ausente que é seu passado. O morto nesse sentido é a figura objetiva de uma troca entre vivos. 
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Mas falar dos mortos é também negar a morte, é quase desafiá-la. Um trabalho da morte e contra a morte.
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Fazer história nos remete à escrita. Escrita, que, por sua vez, aprisiona a oralidade cujos poderes são restringidos a esferas remotas, longínquas.
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No entanto, ela não pertence de modo algum, a um passado perdido e irrecuperável. O não presente, não é um pretérito irreversível, mas é tão somente o distante. Ela está excluída do “lúcido” e “bem ordenado” tempo da escrita, pela sua própria natureza que pertence a uma temporalidade de outra natureza. Mas tudo o que com o selo do Ser vem, à luz tem sempre a possibilidade de retornar à luz da Presença, pelos dons da Memória. 
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Nesse sentido, resgatar os elementos constitutivos de uma história da África plural e diversificada impõe, a nosso ver, o enfrentamento da relação oralidade e escrita, fundamental para a compreensão do problema das articulações entre formas diversas de preservação da memória e das culturas africanas. 
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E a escrita da História da África passa, necessariamente, pelo resgate da literatura africana, ela mesma testemunho das tensões e ambiguidades da relação oratura/escritura.
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No caso da presente comunicação, o fio de Ariadne será o romance de Antônio de Assis Júnior O Segredo da Morta, No jogo de segredos e mortes, a escrita ficcional, na verdade descobre e recupera, as tradições cognitivas e morais de um passado que reivindica representação. Através do engenho, o narrador desvela o que se encontra velado, e torna secreto o que quer revelado. Na medida em que os enigmas são apresentados, o autor revela outras intenções no interior de sua escrita. A escrita do autor faz histórias fazendo a História. A ficção viabiliza a composição de uma sociedade que se dar a conhecer. O exercício da escrita, incita a abrir alternativas para o ato de escrever a História. E no interior de um movimento paradoxal, o autor tenta equacionar um projeto de unidade.

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roberto francavilla
(Universidade de Siena)
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Quem inventou a Morabeza?
Identidade e originalidade na literatura caboverdiana.
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Resumo
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A minha intervenção terá como objecto a literatura caboverdiana e em particular a chamada “Geração de ‘80”, cujos poetas, se por um lado nem sempre alcançam um nível formal afim a representates das gerações anteriores, por outro questionam-se acerca da originalidade duma “imagem” caboverdiana construida a partir de ideias que facilitam a aproximação ao contexto crioulo por parte do “leitor modelo”. Exemplo típico é o da morabeza. A praxis textual permite a fixação (e a mitificação), dentro do polissistema literário, de signos nem sempre correspondentes à uma intenção autorial, até criar estereótipos culturais impermeáveis. A minha abordagem, baseada nos princípios da imagologie, tenta investigar o discurso polémico que alguns poetas (muitos dos quais reunidos na antologia Mirabilis – De veias ao sol) desencadearam em relação tanto às gerações de “Claridade” e “Certeza”, quanto aos riscos de apropriação neocolonial da imagem cultural caboverdiana por parte do contexto português.

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Roberto Vecchi
(Università di Bologna)
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Performatividade e narrações da nação na poesia angolana
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resumo
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O performativo representa um dos dois tempos constitutivos da produção da nação como narração, proporcionando uma problematização interessante da relação entre povo como imagem e povo como signo de diferença cultural. Desse ponto de vista, a poesia angolana, no processo de formação da sua voz descolonizada, oferece um território privilegiado onde projecto cultural e o projecto político da nação se combinam e se entrecruzam. Tendo com objecto alguns textos poéticos de referência, tentar-se-á mostrar como primordialmente a nação se configura a partir da temporalidade intermediária dos poetas que percorrem e traduzem os limites de sentido, a perda de identidade no processo de significação da identificação cultural, mostrando uma margem interna, ambígua e instável, da narração da comunidade imaginada a que os seus poemas remetem.

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Robson Lacerda Dutra
(Universidade Federal do Rio de Janeiro)
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Entre o mar português de ruínas e as ondas da resistência angolana
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resumo
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A viagem ultramarina portuguesa resultou em um mar de ruínas no qual jazem utopias portuguesas e africanas.
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Em Autópsia de um mar de ruínas, de João de Melo, a voz enunciadora mescla o testemunho do autor, que lutou nas matas do norte de Angola com a de diversos personagens dos chamados anos de guerra em que se deu a falência do projeto colonialista português.
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De igual modo, a obra de Pepetela revela, sobretudo a partir de A geração da utopia, a desilusão e a falência do projeto de independência de Angola. Tal constatação se dá através de uma trama narrativa fragmentada na qual muitas “verdades” emergem e que, a partir da ficção, questiona e revê a história chamada oficial.
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Dois mares: um português e outro angolano, ambos povoados por carcaças naufragadas. A obra de Pepetela, no entanto, faz ressurgir a esperança a bordo de uma nau capitaneada pelo imaginário angolano e que navega em um mar lilás de novas possibilidades.

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Rosângela Sarteschi
(Universidade de São Paulo)
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Literaturas Africanas na perspectiva dos Estudos Comparados
Mayombe, de Pepetela e Balada na praia dos cães, de Cardoso Pires
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Resumo
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Esta comunicação deriva de uma pesquisa maior que tem por objetivo comparar o romance angolano, Mayombe, de Pepetela e o romance português, Balada na praia dos cães, de José Cardoso Pires.
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Assim, pretendo aqui apontar algumas questões teóricas referentes ao comparativismo literário, aplicáveis ao caso específico das literaturas dos países em questão, como sejam a questão do conceito de literaturas nacionais e a questão das eventuais trocas/influências entre diferentes séries literárias, com uma reflexão específica fundada na estrutura do romance polifônico.

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Rubens pereira dos santos
(Universidade Estadual Paulista)
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brasil e cabo verde: duas literaturas irmãs
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resumo
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As literaturas do Brasil e de Cabo Verde sempre tiveram pontos de contato. A empatia de intelectuais cabo-verdianos pelos escritores brasileiros é bastante conhecida. Os poetas da geração Claridade sempre afirmaram que a literatura brasileira modernista servira de motivação para que eles buscassem o caminho da caboverdianidade. Todavia, a admiração de intelectuais ilhéus pelos brasileiros surgiu antes da publicação de Claridade. Pedro Cardoso em seu importante estudo sobre o folclore cabo-verdiano destaca alguns autores brasileiros: Machado de Assis, Alberto de Oliveira, Olavo Bilac e Euclides da Cunha. O nosso estudo pretende resgatar essa ligação num trabalho que envolve poetas e escritores das várias gerações cabo-verdianas. Jorge Barbosa, Manuel Lopes, Onésimo Silveira, Armênio Vieira, Orlanda Amarílis, pelo lado cabo-verdiano; Jorge de Lima, Ribeiro Couto e Manuel Bandeira pelo lado brasileiro. Trata-se de parte de uma pesquisa que estamos realizando sobre as relações literárias Brasil /Cabo Verde. Poder-se-á notar através dos textos apresentados que há uma clara intertextualidade entre os brasileiros e cabo-verdianos. Jorge Barbosa, com seus poemas sobre o mar e a recorrente temática da evasão tem seu trabalho ‘iluminado’ pelos versos do Bandeira da Pasárgada; Manuel Lopes com Os flagelados do vento leste vê em Graciliano Ramos o seu irmão do sul que encontrou uma solução para a literatura regionalista, solução esta que poderia ser indicativa para a solução cabo-verdiana. Compreendendo a delicada situação que vivemos hoje neste mundo globalizado, entendemos que a nossa tarefa reveste-se da maior importância na defesa das artes e das culturas dos países lusófonos. Para que nosso intento se transforme em realidade, torna-se essencial conhecermos as literaturas de língua portuguesa, divulgá-las entre nós, enfim mantermo-nos unidos para que tenhamos força.

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Rui de azevedo teixeira
(Universidade Aberta)
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mayombe, de Pepetela, e Jornada de África, de Manuel Alegre – aproximações e afastamentos
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resumo
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Uma comparação contrastiva, através de leituras globais dos dois romances que se centram na Guerra Colonial, no Norte de Angola.

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rui manuel formoso nobre santos
(Escola Superior de Educação da Guarda)
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as relações linguístico-literárias entre portugueses e africanos: da imposição à difícil aceitação
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resumo
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A descoberta, iniciada no séc. XV, e colonização da costa africana, pelos portugueses, transportou consigo um dos primordiais bens de qualquer civilização, a sua língua de comunicação. Esta, o português, num curto espaço de tempo, destronou as formas de comunicação indígena existentes, vindo a ocupar um lugar de destaque nessas comunidades: de língua política e veicular, passou a oficial, e, mais tarde, a instrumento de criação literária.
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No que a este aspecto diz respeito, a produção literária africana (de expressão portuguesa, entenda-se) foi inicialmente marcada pelo cânone europeu, no entanto, ainda no nosso século, com a progressiva consciencialização cultural da africanidade, os escritores africanos romperam com o molde emulado e caminharam para a maioridade literária, fundamentada no seu mundo e crenças.
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Se aos africanos mais não restou do que fazer sua a língua do estrangeiro, do mesmo tipo não parece ser, passados que estão mais de vinte e cinco anos sobre a independência, da tutela portuguesa, dos países africanos (de expressão portuguesa), o nosso sentimento institucional quanto à recepção dos produtos literário-culturais, produzidos, em lusa língua, por autores africanos e luso-africanos.
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Será esta dualidade que nos pretende, ainda que de forma sintética, ocupar, tendo sobretudo por base o lugar que a literatura africana de expressão portuguesa ocupa nos textos propostos pelo sistema educativo, mormente para o Ensino secundário.
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José Craveirinha, Escritor Moçambicano, Africano, Lusófono e Universalista: Reminiscências Literárias e Pessoais, In  Memoriam.
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Russell G. Hamilton
(Vanderbilt University)
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josé craveirinha, o poeta moçambicano, lusófono, africano e universalista: recordações in memoriam
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Resumo
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Esta  comunicação aborda a natureza multifacetada de José Craveirinha como homem e  escritor.  A fim de estabelecer um contexto  para a tese principal da comunicação,  começo por  especificar os valores denotativos e conotativos referentes aos adjectivos "moçambicano, africano, lusófono e universalista". O texto principal da comunicação  constitui uma análise das quatro classificações  e das suas ligações recíprocas. Citando poemas e contos relevantes,  procuro mostrar como as várias facetas, tanto no conteúdo como na forma de obras individuais assim como no conjunto da produção literária de Craveirinha, resultaram na sua grandeza como artista e homem.  A comunicação aborda tais assuntos como negritude, mestiçagem, pan-africanismo, lusofonia, internacionalismo, multiculturalidade, a "fraternidade" dos idiomas  e   povos e a estética como força universal.

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Salvador Magalhães Mota
(Faculdade de Letras da Universidade do Porto)
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O imaginário colonial na imprensa diária portuense na transição da monarquia para a república.
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RESUMO
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Pretendemos com esta comunicação observar o interesse que as questões coloniais despertaram na opinião pública, na elite intelectual e na camada dirigente do País analisando notícias publicadas na imprensa diária do Porto, sobretudo, a mais importante com recurso a um ou outro periódico publicado em Lisboa. Indagaremos até que ponto algumas ideias proclamadas tinham aplicação e aceitação prática no viver quotidiano das populações africanas e europeias. É nossa intenção detectar alguns traços evidenciadores do colonialismo português. Para melhor atingirmos o desiderato a que nos propomos, dividimos o presente trabalho em 3 partes. Na primeira parte faremos um breve enquadramento da época que estamos a tratar, na segunda caracterizaremos um pouco os periódicos que vão ser objecto da nossa atenção prioritária, como sejam: Jornal de Notícias, Comércio do Porto, Primeiro de Janeiro, a Palavra publicados no Porto e o Diário de Notícias e o Século editados em Lisboa. Na terceira, a mais desenvolvida evidenciaremos algumas questões candentes do colonialismo português como os sentidos da construção de um império colonial, o fomento de obras públicas, as missões religiosas e a problemática da emigração bem como o conjunto de contradições e vulnerabilidades que elas mesmas encerram.

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sara raquel duarte reiis da silva
(Universidade do Minho)
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estranhões & Bizarrocos, de josé eduardo Agualusa e a aventura da “inventividade”
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resumo
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A presente comunicação pretende dar conta de uma leitura de Estranhões & Bizarrocos [Estórias para adormecer anjos] , de José Eduardo Agualusa, obra com grafismo de Henrique Cayatte, tendo como ponto de partida a ideia de aventura ou de privilégio da «inventividade», espécie de processo- matriz na construção temático-discursiva de todos os textos coligidos na colectânea em questão.
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Assim, tendo por base a noção de macrotexto, partiremos da interpretação do título e do subtítulo, elementos que, conjugados com outros paratextos da obra, se apresentam plenos de relevância semântica, até uma abordagem das personagens, dos topoi, das situações ou dos universos recriados, destacando-se os traços transgressores do mundo empírico que evidenciam.
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Procurar-se-á, ainda, não só analisar aspectos atinentes à arquitectura textual, mas também fixar as estratégias narrativas e ficcionais perseguidas nestes textos de Agualusa, no sentido da apreensão, a este nível, de algumas das marcas paradigmáticas que individualizam a escrita literária para crianças.

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sandra manuela de sousa campos
(Universidade de Birmingham)
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mulheres na diáspora africana: os contos de orlanda amarílis e dionne brand
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resumo
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No âmbito da área temática do comparativismo literário, esta comunicação pretende efectuar uma leitura paralela entre duas autoras da diáspora africana, Orlanda Amarílis, de Cabo Verde, e Dionne Brand, da ilha de Trinidad, Caraíbas. Apesar das suas vivências linguísticas e geográficas serem completamente díspares, estas escritoras têm em comum as suas origens africanas, a sua experiência de vida na diáspora e, portanto, a sua pertença à cultura do ‘Black Atlantic’. 
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Assim, os seus textos demonstram claramente a sua preocupação em explorar conceitos como espaço, movimento, migração, exílio, terra-mãe, desenraizamento, através, sobretudo, de personagens femininas que procuram compreender as duas identidades enquanto mulheres de origem africana a viver na sua ilha ou longe dela. Mulheres que estão envolvidas num constante processo de negociação de identidades entre o espaço da terra-mãe e o da diáspora, o que nos leva a sugerir que estas autoras preconizam nos seus contos um certo sentido de insegurança e de impermanência. Sentido esse que se torna ainda mais exacerbado quando, de igual modo, se negoceiam identificações de raça, classe e sexualidade.

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shirley de Souza gomes carreira
(Universidade Gran. Rio de Janeiro)
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Um breve olhar sobre a representação da mulher em A geração da utopia, de pepetela
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resumo
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Os estudos de gênero têm privilegiado não só a literatura de autoria feminina como também têm buscado registrar mudanças na representação da mulher em obras de autoria feminina.
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A geração da utopia, de Pepetela, registra a participação feminina no movimento de luta pela independência de angola.
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Ao fazê-lo traça perfis distintos de mulher, que operam no universo ficcional de modo a concretizar simbolicamente, em seu relacionamento com as personagens masculinas, o ideal revolucionário, a África mítica, a adoção da ótica do dominador e a falência da utopia.
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Esta comunicação propõe uma breve análise desses perfis femininos e o modo pelo qual concorrem para instaurar o discurso de perplexidade e desencanto que caracteriza o romance.

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Silvania núbia chagas
(Universidade de São Paulo)
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Brasil e moçambique: guimarães rosa e mia couto, olhares que se bifurcam.
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resumo
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Guimarães Rosa e Mia Couto, através de suas obras, em momentos diferentes, se voltam para o passado na tentativa de resgatar a tradição de seus países, que de certa forma estão imbricadas, tendo em vista carregar em seu bojo os costumes europeus desde a colonização. Colonização esta que tem em comum o mesmo colonizador.
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O presente trabalho faz um cotejo desse processo – o resgate da tradição – na escritura dos dois autores, na tentativa de verificar quais são as confluências e as e divergências que existe entre as tradições dos dois países – Brasil e Moçambique.
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silvie spanková
(Universidade de Bnno – República Checa)
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Entre Mito e História
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resumo
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Uma das feições salientes dos romances de Pepetela compreende o confronto entre o mundo tradicional, representado pela sociedade ancestral, guardiã dos valores míticos, e o contexto histórico, moldado pelos vectores do determinado espaço geográfico e temporal. Tal confronto constitui o permanente diálogo entre a tradição e história, veiculado por uma linguagem fortemente simbólica que, através de vários tipos de discurso, proporciona vários sentidos, perspectivas e mundividências. Um lado deste diálogo – o discurso correspondente ao acervo da comunidade tradicional, formado pelas lendas, mitos, ritos ou contos orais, comunica, assim, com o discurso constituído pelas referências históricas e alusões ao domínio de ideias políticas. 
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O nosso objectivo será reflectir um p.ouco sobre a linguagem simbólica de Pepetela, portadora de uma pluralidade de pontos de vista e, em especial, sobre esse diálogo entre a tradição e história que está no cerne da mensagem da narrativa. O corpus do nosso trabalho inclui os exemplos dos romances pertencentes a várias fases da escrita pepeteliana, como, p. ex., Muana Puó, Mayombe, Parábola do Cágado Velho e A Gloriosa Família.

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suzana rodrigues pavão
(Puc- Minas)
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A presente comunicação pretende analisar a trajetória de duas nações através de dois personagens construídos nas obras Jornada de África, de Manuel Alegre e A Geração da Utopia, de Pepetela, respectivamente Sebastião e Aníbal. Sebastião, o alferes, é a construção do personagem que representará a transformação ideológica de um país que viveu da imagem de um poder que viria da dominação colonial. Ao reviver o mítico rei, Sebastião, fará o rompimento com a ideologia conservadora que mantém o espírito nacional português a tantos séculos. O novo Portugal surgirá do retorno à Pátria para poder olhar-se no espelho da verdade e assim, existir no mundo presente. 
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Enquanto Sebastião será o colonizador que não aceita a colonização, Aníbal será o combatente colonizado, que aprende a viver, pensar e lutar junto aos colonizadores. O lugar de exílio será o ponto de ligação entre os dois personagens. Ambos estão fora dos seus lugares para dessa forma poderem criar a utopia de suas nações.

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susanna ventura
(Universidade de São Paulo)
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"A escrita e seus agentes na obra romanesca de Mia Couto".
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Resumo
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A comunicação pretende mapear o papel da escrita e das personagens que dela se utilizam na obra de Mia Couto, com ênfase na parte dela escrita na forma romance. Assim sendo, serão focalizadas as obras: "Terra Sonâmbula", "A Varanda do Frangipani", "O Último Voo do Flamingo" e "Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra", levando-nos a refletir sobre o papel representado pela escrita e seus agentes na obra coutiana.

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vilma lia martin
(Universidade de São Paulo)
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O discurso irônico nos contos de Luandino Vieira e de João Antônio
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resumo
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Se é fato que a boa literatura só se realiza plenamente à margem da cultura oficial, o angolano Luandino Vieira e o brasileiro João Antônio parecem cumprir seu papel de grandes contistas.
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Ao optar por um gênero que, graças à sua estrutura condensada, encontra na ironia um dos pilares de sua elaboração, ambos os escritores valem-se do discurso irônico para dar voz aos impasses típicos de universos urbanos periféricos, impactados pela imposição da modernidade.
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Este trabalho irá apontar, em algumas histórias desses esc.ritores, como a ironia se traduz num princípio formal capaz de articular contradições e questionar perspectivas hegemônicas.

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Virgínia Maria Gonçalves
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O quilombismo poético dos Cadernos Negros no Brasil

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resumo
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O quilombo, geralmente identificado com a República de Palmares (1597-1697), deve ter seu significado ampliado, pois tornou-se uma forma de expressar a luta dos afro-descendentes brasileiros contra o racismo e outras formas de violência sofridas por estes, no contraponto com a falaciosa &ldquodemocracia racial” brasileira. O quilombismo literário passou a ser evocado como a forma de expressão artística dos afro-descendentes, especialmente a partir de 1980, quando o Quilombjoje Literatura, em São Paulo, assume a publicação dos Cadernos Negros, iniciados em 1978, chegando, em 2003, ao seu 25º número, com a participação de jovens escritores, alguns dos quais se tornaram referência nacional e internacional da chamada “literatura negra”, no Brasil. O que se pretende nesta apresentação é verificar de que forma as mulheres escritoras dos Cadernos Negros se inscrevem no quilombismo poético, passando pela afirmação de um corpo, sistematicamente anulado ou estigmatizado, e pela enunciação de uma voz em que o negro (ou a negra) se expressa como sujeito de sua história.

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wanilda lima vidal de lacerda
(U. F. P. B.)
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Lueji: o nascimento de um império – múltiplos olhares e duas direcções
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Resumo
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Alargando-se para o passado e o presente, os múltiplos olhares dos narradores convidam o leitor à busca das causas históricas do processo político-social de Angola, e a procurar as motivações de natureza cultural e ideológica. Assim é que neste trabalho seguindo as duas direcções que se completam na confecção de qualquer texto literário: os dados da realidade (“realismo”) e os da representação desta realidade (“simbolismo”) unificados em única história, um único mundo paralelo ao real, completando e esclarecendo este último, tenta-se entender a história de Angola.
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http://www1.ci.uc.pt/litafro/files_congresso/resumos.htm
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