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segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Amílcar Cabral ~ Morreu Lumumba, para que África viva!



* Amílcar Cabral

Fevereiro de 1961
Fonte: Buala.

Transcrição e HTML: Fernando Araújo.

O original deste documento encontra-se nos arquivos de Amílcar Cabral na Casa Comum da Fundação Mário Soares em Lisboa, incluído no dossier intitulado Correspondência e documentos dactilografados assinados por Amílcar Cabral 1960. Encontra-se na pasta n.º 04616.076.024. A sua reprodução foi possível através da generosa autorização da Casa Comum / Fundação Mário Soares. A transcrição, onde se procedeu à correcção de gralhas e à actualização da ortografia sem jamais truncar o sentido do texto, é da responsabilidade da editora FALAS AFRIKANAS. O documento fac-similado encontra-se Falas Afrikanas.

Na tarde de 13 fevereiro de 1961, um comunicado proveniente do Katanga anunciou ao mundo a morte de PATRÍCIO LUMUMBA, primeiro ministro do Congo e dos seus companheiros de prisão, os ministros OKITO e M’POLO.

Esta notícia foi geralmente acolhida com espanto, horror e repulsa. Para a África que quer ser VERDADEIRAMENTE livre, é uma notícia de LUTO.

Nos dias seguintes, soube-se que, na realidade, LUMUMBA e seus companheiros tinham sido ASSASSINADOS pelos militares belgas havia já várias semanas, aquando da sua transferência da prisão de Thysville para o Katanga. Esta revelação veio ainda aumentar a indignação internacional.

As reacções a esse bárbaro e cobarde assassinato se fizeram imediatamente sentir, e continuam a manifestar-se no dia-a-dia: em quase todas as capitais e principais cidades do mundo as embaixadas da Bélgica e também as dos Estados Unidos foram atacadas pelo povo; diversas manifestações produzem-se todos os dias, não somente contra aqueles países mas também contra a Organização das Nações Unidas e principalmente contra o seu Secretário-Geral, Dag Hamarskjoeld, que é justamente acusado de principal responsável do assassinato de Lumumba e dos seus companheiros, como veremos mais adiante.

Na República da Guiné, o 14 de fevereiro foi decretado dia de luto nacional; após um meeting, o Governo tomou as seguintes decisões: 1.º: Mandar um enérgico telegrama às Nações Unidas, acusando essa Organização da responsabilidade desse odioso crime, e exigindo a imediata demissão do Secretário-Geral DAG HAMARSKJOELD; 2.º: Reconhecer o Governo do senhor Gizenga (sucessor legal de Lumumba), como único Governo legal do Congo, prometendo-lhe todo o seu apoio na sua luta para desembaraçar o Congo dos colonialistas e imperialistas; 3.º: Condecorar Patrício LUMUMBA, a título póstumo, com o grande cordão da Ordem da Fidelidade ao Povo (a Guiné já tinha agraciado LUMUMBA com o colar de COMPANHEIRO DA INDEPENDÊNCIA AFRICANA).


O Gana, o Mali, Marrocos, Indonésia, Cuba, Jugoslávia, Albânia, Polónia, Alemanha Oriental e a República Árabe Unida, também decretaram luto nacional, acusaram as Nações Unidas desse crime, exigiram a demissão de Hamarskjoeld, e reconheceram o Governo de GIZENGA, a quem estão dispostos a ajudar.

A União Soviética, não somente exigiu a demissão de Hamarskjoeld, mas declarou que, DESDE JÁ, deixava de o reconhecer como Secretário-Geral das Nações Unidas, e que vai ajudar a luta do Povo Congolês contra os imperialistas e seus lacaios.

Estamos certos que outros países que ainda não se pronunciaram, virão engrossar a lista de protesto contra esse bárbaro e selvagem assassinato.

Nenhuma dúvida subsiste em como o assassinato de Patrício LUMUMBA foi friamente tramado pelos imperialistas com a cumplicidade das Nações Unidas e do seu Secretário-Geral DAG HAMARSKJOELD, cuja atitude desde o início da questão congolesa foi mais que suspeita e por várias severamente criticado.

A opinião internacional está cada vez mais revoltada contra esse odioso assassinato, e é ainda muito cedo para prever as consequências de um tal barbarismo.

Mas, porque foi friamente tramado e executado esse bárbaro assassinato?

Porque quando o Colonialismo é forçado a retirar, ele deixa em seu lugar o neocolonialismo e o Imperialismo, tanto ou mais perigosos que o primeiro.

Porque no Congo os imperialistas tinham os seus dias contados enquanto vivesse Lumumba.

Porque LUMUMBA era um verdadeiro AFRICANO que não se deixava COMPRAR ou ser comandado pelos imperialistas.

Porque LUMUMBA era um patriota que lutava pela unidade dos povos do Congo e uma verdadeira INDEPENDÊNCIA DO SEU PAÍS.

Porque LUMUMBA lutava por um CONGO LIVRE, no seio de uma ÁFRICA LIVRE, sem obediência a quaisquer estrangeiros.

Porque LUMUMBA nunca cedeu às manobras dos imperialistas.

Porque LUMUMBA teve a coragem de lhes dizer publicamente: COLONIALISTAS E IMPERIALISTAS, FORA DE ÁFRICA! BASTA DE EXPLORAÇÃO DAS NOSSAS TERRAS!

Porque LUMUMBA foi sempre FIEL AO POVO que confiava nele, como o único que os poderia libertar do colonialismo, do neocolonialismo e do imperialismo.

Há 80 anos que o Congo, um país de 1.500.000 quilómetros quadrados (como França, Grã-Bretanha, Espanha, Portugal e Bélgica reunidos), com uma população de 14 milhões de habitantes, foi ocupado pelos belgas, um minúsculo povo europeu que, como todos os outros colonialistas, arrogaram-se da sagrada missão de trazer a África os “benefícios” dessa famosa civilização que ninguém encomendou, e que de resto não “espalharam”; como também todos os outros colonialistas, o que lhes interessava eram as imensas riquezas desse enorme país, cheio de recursos, terra de promissão para os famélicos belgas e fonte de receita para a insignificante Bélgica. Por isso, eles fizeram tudo para não perder o Congo, que nunca contavam abandonar (nem daqui a cinquenta anos)!

Para tal, o objectivo número um consistia em manter o povo na ignorância o mais longamente possível, o que se resume na célebre frase do General Janssens: “SEM ELITES, NÃO HÁ ABORRECIMENTOS”. E isso foi levado a cabo de tal maneira que hoje, após OITENTA ANOS da “presença civilizadora” dos belgas, somente seis congoleses obtiveram um diploma universitário, e isto à custa d’enormes sacrifícios das suas famílias. Apenas uns milhares sabem “ler e escrever”.

Essa revoltante política de ignorantismo e escravidão foi confiada às várias missões religiosas, subvencionadas pelos Belgas, que desempenharam com afinco a sua missão. Segundo as numerosas brochuras publicadas pelas missões, o catecismo dos congoleses, que eram tratados como “crianças crescidas”, consistia unicamente no RESPEITO E SUBMISSÃO AO BRANCO. Numa delas lê-se: O CONGOLÊS DEVE PREFERIR O CHICOTE DOS BELGAS À FOICE COMUNISTA. (Como se sabe, hoje em dia quando um povo aspira à sua liberdade é imediatamente acusado pelos colonialistas de “comunista” ou então dirigido por “comunistas”, pagos por Moscovo, como se nenhum povo quer ser livre sem ser comunista. Mas isto é já conversa fiada…).

Na já conhecida política de “dividir para reinar”, os colonialistas belgas atiçavam as rivalidades tribais, fomentando sangrentas lutas fratricidas entre as diversas raças do Congo.

E enquanto os congoleses se matavam entre eles, na miséria, na ignorância, na fome, e na escravidão, “sob o chicote dos Belgas”, esses novos “donos” da terra, com os seus amigos imperialistas esgotavam as riquezas do país, enriqueciam-se sem o menor esforço enquanto o povo morria de fome. O Congo pertencia aos grandes “trusts” internacionais. Só um banco, a “Sociedade Geral” possuía CINQUENTA empresas, entre as quais TRÊS companhias de Caminho-de-ferro!

Trinta mil Belgas ganhavam mais do que UM MILHÃO de Africanos!

Nunca uma “Colónia” rendeu tanto!

Foi então que apareceu PATRÍCIO LUMUMBA.

Filho do povo que sofreu todas as misérias e opressões do regime colonialista, esse originário de uma das menos importantes tribos do Congo, os Batetelàs, Patrício LUMUMBA conseguiu elevar-se entre os seus compatriotas pela sua firmeza de carácter, sua incorruptibilidade, sua decisão firme e inabalável de UNIR OS CONGOLESES e LIQUIDAR O COLONIALISMO.

Em 1958, numa época de plena euforia colonialista belga, época em que no Congo só existiam “associações” tribais ou regionalistas consentidas pelos colonialistas e que pelas suas rivalidades e lutas constantes enfraqueciam o país e só favoreciam os colonialistas, nesse ano, Patrício LUMUMBA formou o MOVIMENTO NACIONAL CONGOLÊS, verdadeira organização política, sem distinções de raças, origens ou religiões, que tinha como principal objectivo a UNIDADE do país e a LUTA pela sua Independência.

Em menos de dois anos, apesar das repressões colonialistas e dos ataques das “associações” raciais e regionalistas, o MOVIMENTO NACIONAL CONGOLÊS tornou-se a maior organização política do país, e a única que lutava ferozmente pela independência do Congo. E a sua luta ininterrupta foi tão renhida e tão bem dirigida que em princípios de 1960, os Belgas, que não esperavam largar o Congo nem daqui a cinquenta anos, manifestaram a sua intenção de negociar uma “autonomia”, que foi aceite pelos outros partidos. Mas imediatamente viu-se que nada se poderia levar a efeito no Congo sem o MOVIMENTO NACIONAL CONGOLÊS. Então LUMUMBA, que se encontrava encarcerado, foi libertado e conduzido a Bruxelas para fazer parte da “mesa redonda”, onde se negociava o futuro do Congo.

Durante essas negociações, os belgas disseram: vocês não sabem nada, não estão preparados, de maneira que devem contentar-se com uma pequena liberdade, uma semi-autonomia sob a nossa protecção. LUMUMBA respondeu aos Belgas: NÓS QUEREMOS A NOSSA INDEPENDÊNCIA! NÃO QUEREMOS MAIS FICAR SOB A DOMINAÇÃO ESTRANGEIRA!

E perante essa atitude inabalável e intransigente de Lumumba, os Belgas tiveram que ceder. Mas cederam na intenção de continuar na mesma a explorar o Congo como dantes por meio de acordos, tratados, etc., pois ainda consideravam os africanos como “crianças crescidas” que eles poderiam facilmente continuar a dirigir em seu proveito. Mas foram depressa desenganados. Imediatamente após a proclamação da independência, os Belgas e seus aliados imperialistas, que tinham interesses no Congo mais do que a própria Bélgica, viram que com LUMUMBA no Governo do Congo, findava-se a exploração do Congo e que o Congo passaria a pertencer inteiramente aos congoleses. Então os imperialistas utilizaram todos os meios para se desembaraçarem de LUMUMBA: os Belgas invadiram o Congo com tropas vindas da Europa, e além disso, fizeram com que TCHOMBÉ traísse LUMUMBA, declarando a secessão do Katanga, principal fonte de riquezas dos colonialistas e imperialistas no CONGO. O país, que apenas há alguns dias tinha adquirido a sua independência, não estava suficientemente organizado para castigar o traidor TCHOMBÉ e ao mesmo tempo resistir à agressão estrangeira.

Então, LUMUMBA fez apelo à Organização das Nações Unidas para o envio de tropas que o ajudasse a correr com os invasores Belgas e restabelecer a paz no país.

Pela acção das suas tropas e do seu Secretário-Geral Hamarskjoeld no Congo, as Nações Unidas revelaram ao Mundo e especialmente aos povos africanos que lutam pela sua liberdade que essa organização é um simples instrumento dos imperialistas. Com efeito, em vez de ajudar LUMUMBA, as Nações Unidas, pelo seu Secretário-Geral HAMARSKJOELD fizeram tudo para destituir LUMUMBA e colocar na chefia do Governo um homem de palha de sua devoção. Proibiu Lumumba de utilizar a rádio do seu país, não permitiu a reunião do Parlamento, que se manteve sempre fiel a LUMUMBA. Por fim, vendo que não havia maneira de destituir LUMUMBA pelas vias legais, as Nações Unidas e alguns países imperialistas procederam à obra de divisão, pela CORRUPÇÃO, do povo congolês. Foi assim que os imperialistas, por intermédio das Nações Unidas forneceram dinheiro, armas e munições ao coronel MOBUTU, chefe de estado-maior, homem de confiança de LUMUMBA, e fecharam os olhos à acção deste ignóbil INDIVÍDUO que TRAIU seu protector, TRAIU seu país, e TRAIU todo o Povo Africano, pois o caso do Congo é o caso de toda a África.

Finalmente, com conhecimento de HAMARSKJOELD e sem a menor reacção das suas tropas, as forças do TRAIDOR Mobutu, armadas e pagas pelas Nações Unidas, prenderam, maltrataram, espancaram até morrer, o grande patriota africano PATRÍCIO LUMUMBA, que só queria desembaraçar o Congo e a África dos Colonialistas e dos Imperialistas.

Vê-se, pois, que o principal responsável do maior crime da História Africana é o Secretário-Geral DAG HAMARSKJOELD que, para servir os interesses imperialistas, TRAIU Lumumba, que o chamou em seu socorro, TRAIU o conselho de Segurança que lhe tinha dado instruções precisas para ajudar LUMUMBA a pacificar o país, e TRAIU também todas as Nações que aspiram à LIBERDADE, e que até aqui depositavam inteira confiança nele.

Portanto DAG HAMARSKJOELD deve-se demitir, para que os povos que lutam pela liberdade possam enfim obter a sua independência.

LUMUMBA morreu, mas o “LUMUMBISMO” continua; mais vivo do que dantes. O “Lumumbismo” é hoje em dia a incarnação da luta de todos os povos pela sua liberdade, sua independência, pela liquidação completa do COLONIALISMO e do IMPERIALISMO.

LUMUMBA MORREU, PARA QUE A ÁFRICA VIVA, LIVRE, INDEPENDENTE E UNIDA.

POVOS DA GUINÉ E CABO VERDE:

Este longo relato sobre o que se passa no Congo, é muito interessante para nós. Leiam atentivamente este artigo, e encontrarão as mesmas semelhanças com o nosso caso, com o que se passou, com o que se passa nas nossas terras, desde a nossa situação de miséria, ignorância e escravidão, até aos nosso actuais problemas de UNIDADE para a LUTA. Porque a principal condição de LUTA é a UNIDADE.

Patrício LUMUMBA foi assassinado, porque os imperialistas COMPRARAM alguns traidores que provocaram a DIVISÃO do povo congolês. Ele não poderia ser assassinado se o povo continuasse UNIDO. 

Também nas nossas terras, onde sofremos a miséria, a fome, a escravidão, as nossas riquezas são exploradas pelos colonialistas e pelos “trusts” imperialistas. Apesar da bárbara repressão colonialista, conseguimos formar o PARTIDO AFRICANO DA INDEPENDÊNCIA, que é o único partido que não faz distinção de raças, origens, etc. O PARTIDO AFRICANO DA INDEPENDÊNCIA procura a UNIDADE dos nossos povos para a LUTA contra o colonialismo e contra o imperialismo. No interior como no exterior, nós somos cada vez mais fortes, a nossa luta cada vez mais renhida; temos a ajuda de todos os povos do mundo; agora a nossa vitória é certa, e já não está longe.

Mas, tomem cuidado! Deveremos agora ser mais vigilantes que NUNCA! Os colonialistas fizeram e fazem tudo para entravar a nossa luta: prisões, perseguições, desemprego, fome, etc. tudo SEM RESULTADO!

Agora, como eles vêem que estamos quase a correr com eles, os colonialistas e imperialistas começam a utilizar esta outra arma, mais perigosa, que é a DIVISÃO.

Eles estão a COMPRAR alguns dos nossos irmãos, para TRAÍREM a nossa causa, fomentando a discórdia entre os nossos povos com questões de raças, origens, religiões, etc.

Alguns desses traidores vendidos aos colonialistas, já começaram a sua nefasta campanha de DIVISÃO, procurando assim entravar a nossa LUTA.

Esses lacaios dos colonialistas que só procuram seus interesses pessoais, sabem conscientemente que estão a TRAIR os nossos povos, e que estão a SERVIR os COLONIALISTAS.

Portanto, esses indignos africanos SÃO TRAIDORES À CAUSA AFRICANA, e como TRAIDORES devem ser tratados.

Povos da Guiné e Cabo Verde! Vejam o caso do Congo:

O único partido que lutou e conseguiu a independência, é o partido que não fazia questões de raças, de origens, etc. O Nosso Partido Africano da Independência, que é o ÚNICO que LUTA pela independência das nossas terras, é também o ÚNICO que não faz questões de raças, origens, etc. O lema do nosso Partido É UNIDADE e LUTA. UNIDADE de todos para a LUTA contra o nosso inimigo: O COLONIALISMO E O IMPERIALISMO.

Irmãos da Guiné e Cabo Verde! Continuemos sempre UNIDOS.

NÓS NÃO QUEREMOS AUTONOMIA. NÓS QUEREMOS A NOSSA INDEPENDÊNCIA COMPLETA!

Nas nossas terras não haverá TRAIDORES como TCHOMBÉ, MOBUTU e OUTROS.

Nas nossas terras haverá UNIDADE, PROSPERIDADE E BEM ESTAR.

Irmãos, PORTUGUÊS, é o europeu que nasceu em Portugal.

Qualquer africano que disser: EU SOU PORTUGUÊS, é um lacaio dos colonialistas, é um TRAIDOR, que deve ser LIQUIDADO de qualquer maneira.

E também o africano que disser que o Fula não é igual ao Bijagó, que os guineenses não devem dar-se com os caboverdianos, etc. etc. esse africano é também UM TRAIDOR, que deve ser ELIMINADO.

Todos os africanos que disserem que são portugueses ou que tentam dividir-nos com questões de raças, origens, etc. são traidores à causa africana, pagos pelos colonialistas para retardarem a liberdade e a independência dos povos africanos.

Esses traidores devem morrer!

Conacry, fevereiro de 1961.

https://www.marxists.org/portugues/cabral/1961/02/40.htm

sábado, 30 de janeiro de 2021

Carta de Patrice Lumumba a sua esposa




Minha querida esposa,

Eu estou escrevendo estas palavras a você, não sabendo se elas um dia chegarão em suas mãos, ou se estarei vivo quando você as ler.
Ao longo da minha luta pela independência de nosso país nunca duvidei da vitória de nossa causa sagrada, da qual eu e os meus companheiros temos dedicado todas as nossas vidas.
Mas a única coisa que nós queremos para o nosso país é o direito a uma vida digna, a dignidade sem pretensões e a independência sem restrições.
Isso nunca foi o desejo dos colonialistas belgas e de seus aliados ocidentais, estes que receberam, direta ou indiretamente, aberta ou secretamente, apoio de alguns oficiais dos cargos superiores das Nações Unidas, o corpo sobre o qual nós colocamos toda a nossa esperança quando recorremos a ele para obter ajuda.
Eles seduziram alguns dos nossos compatriotas, compraram outros e fizeram de tudo para distorcer a verdade e manchar nossa independência.
O que eu posso dizer é o seguinte, que eu, – vivo ou morto, livre ou preso – não é o que importa.
O que importa é o Congo, nosso povo infeliz, cuja independência está sendo espezinhada.
É por isso que eles nos trancaram na prisão e por esta razão eles mantém-nos longe do povo. Contudo, minha fé continua indestrutível.
Eu sei e sinto profundamente em meu coração que mais cedo ou mais tarde meu povo irá se livrar de seus inimigos internos e externos, que eles levantar-se-ão como um só e dirão “Não!” ao colonialismo, a fim de conquistar sua dignidade em uma terra livre.
Nós não estamos sozinhos. A África, Ásia, os povos livres e os povos que lutam pela sua liberdade em todos os cantos do mundo estarão sempre lado a lado com os milhões de congoleses que não desistirão da luta enquanto houver um colonialista ou um de seus mercenários em nosso país.
Para meus filhos, que eu estou deixando e que, talvez, não os veja novamente, eu quero dizer que o futuro do Congo é esplêndido e que eu espero deles, assim como todo congolês, o cumprimento da tarefa sagrada de restaurar a nossa independência e nossa soberania.
Sem dignidade não há liberdade, sem justiça não há dignidade e sem independência não existem homens livres.
Crueldade, insultos e tortura jamais poderão forçar-me a implorar por misericórdia, porque eu prefiro morrer de cabeça erguida, com uma fé indestrutível e uma profunda crença no destino de nosso país, do que viver submisso e renunciar aos princípios que são sagrados para mim.
O dia virá quando a história falar. Mas não será a história que será ensinada em Bruxelas, Paris, Washington ou nas Nações Unidas.
Será a história que será ensinada nos países que terão se libertado dos colonialistas e de seus fantoches.
A África irá escrever sua própria história e tanto no Norte como no Sul será uma história de glória e dignidade.
Não chores por mim. Eu sei que meu atormentado país será capaz de defender sua liberdade e sua independência.

Vida longa ao Congo!
Vida longa à África!

Da Prisão Thysville,
Patrice Lumumba

Traduzido por Igor Dias

http://territorioafricano.blogspot.com/2017/09/carta-de-patrice-lumumba-sua-esposa.html

Lumumba: "Discurso da proclamação da independência do Congo"

* Patrice Lumumba


Homens e mulheres do Congo,

Guerreiros vitoriosos da independência,

Saúdo-o em nome do governo congolês.

Peço a todos vocês, meus amigos, que lutaram incansavelmente em nossas fileiras, que marquem este dia 30 de junho de 1960 como uma data sagrada que estará sempre gravada em seus corações, uma data cujo significado você orgulhosamente explicará a seus filhos, para que que eles, por sua vez, possam relacionar com seus netos e bisnetos a gloriosa história de nossa luta pela liberdade.

Embora esta independência do Congo esteja sendo proclamada hoje por um acordo com a Bélgica, um país amigável, com o qual estamos em igualdade de condições, nenhum congolês jamais esquecerá que a independência foi conquistada na luta, uma luta perseverante e inspirada, que se realiza diariamente, uma luta em que não fomos intimidados pela privação ou pelo sofrimento e não nos detemos pela força nem pelo sangue.

Estava cheio de lágrimas, fogo e sangue. Estamos profundamente orgulhosos de nossa luta, porque foi justa, nobre e indispensável para pôr um fim à escravidão humilhante que nos é imposta.

Essa foi a nossa sorte nos oitenta anos de domínio colonial e nossas feridas são muito frescas e dolorosas demais para serem esquecidas.

Experimentamos trabalho forçado em troca de salários que não nos permitiam satisfazer nossa fome, vestir-nos, ter moradias decentes ou educar nossos filhos como entes queridos.

Dias e noites, fomos submetidos a zombarias, insultos e golpes porque éramos “negroes”. Quem nunca esquecerá que o preto era chamado de “tu”, não porque ele era um amigo, mas porque o “vous” educado era reservado ao homem branco?

Vimos nossas terras confiscadas em nome de leis ostensivamente injustas, que reconheciam apenas o direito dos poderosos.

Não esquecemos que a lei nunca foi a mesma para o branco e o preto, que era branda com uns, e cruel e desumana para os outros.

Experimentamos sofrimentos atrozes, sendo perseguidos por convicções políticas e crenças religiosas e exilados de nossa terra natal: nossa sorte era pior que a própria morte.

Não esquecemos que nas cidades as mansões eram para os brancos e as cabanas destruídas para os pretos; que um preto não foi admitido nos cinemas, restaurantes e lojas reservados aos "europeus"; que um preto viajava nos porões, sob os pés dos brancos em suas cabines de luxo.

Quem esquecerá os tiroteios que mataram tantos de nossos irmãos, ou as celas nas quais foram lançados sem piedade aqueles que não desejavam mais se submeter ao regime de injustiça, opressão e exploração usada pelos colonialistas como ferramenta de seu domínio?

Tudo isso, meus irmãos, nos trouxe um sofrimento incalculável.

Mas nós, que fomos eleitos pelos votos de seus representantes, representantes do povo, para guiar nossa terra natal, nós, que sofremos de corpo e alma com a opressão colonial, dizemos a você que daqui em diante tudo está terminado.

A República do Congo foi proclamada e o futuro do nosso amado país está agora nas mãos de seu próprio povo.

Irmãos, vamos começar juntos uma nova luta, uma luta sublime que levará nosso país à paz, prosperidade e grandeza.

Juntos, estabeleceremos justiça social e garantiremos a cada homem uma remuneração justa por seu trabalho.

Mostraremos ao mundo o que o preto pode fazer ao trabalhar em liberdade e faremos do Congo o orgulho da África.

Vamos providenciar para que as terras de nosso país de origem beneficiem verdadeiramente seus filhos.

Revisaremos todas as leis antigas e as transformaremos em novas que serão justas e nobres.

Pararemos a perseguição ao pensamento livre. Faremos com que todos os cidadãos desfrutem ao máximo das liberdades básicas previstas na Declaração dos Direitos Humanos.

Erradicaremos toda discriminação, qualquer que seja sua origem, e garantiremos a todos uma posição na vida condizente com sua dignidade humana e digna de seu trabalho e lealdade ao país.

Instituiremos no país uma paz que não se apoia em armas e baionetas, mas em concórdia e boa vontade.

E em tudo isso, meus queridos compatriotas, podemos confiar não apenas em nossas próprias enormes forças e imensa riqueza, mas também na assistência de inúmeros estados estrangeiros, cuja cooperação aceitaremos quando não se impor a nós uma política de ingerência, mas é dada em espírito de amizade.

Até a Bélgica, que finalmente aprendeu a lição da história e não precisa mais se opor à nossa independência, está preparada para nos dar sua ajuda e amizade; para esse fim, acaba de ser assinado um acordo entre nossos dois países iguais e independentes. Estou certo de que esta cooperação beneficiará ambos os países. De nossa parte, enquanto permanecermos vigilantes, tentaremos observar os compromissos que assumimos livremente.

Assim, tanto na esfera interna quanto na externa, o novo Congo criado pelo meu governo será rico, livre e próspero. Mas para alcançar nosso objetivo sem demora, peço a todos vocês, legisladores e cidadãos do Congo, que nos ajudem a ajudar.

Peço a todos que abandonem suas disputas tribais: elas nos enfraquecem e podem fazer com que sejamos desprezados no exterior.

Peço a todos que não desistam de nenhum sacrifício para garantir o sucesso de nossa grande empreitada.

Por fim, peço a você que respeite incondicionalmente a vida e as propriedades de concidadãos e estrangeiros que se estabeleceram em nosso país; se a conduta desses estrangeiros deixa muito a desejar, nossa Justiça os expulsará prontamente do território da República; se, pelo contrário, sua conduta é boa, eles devem ser deixados em paz, pois também estão trabalhando pela prosperidade de nosso país.

A independência do Congo é um passo decisivo para a libertação de todo o continente africano.

Nosso governo, um governo de unidade nacional e popular, servirá seu país.

Apelo a todos os cidadãos congoleses, homens, mulheres e crianças, para que se dediquem resolutamente à tarefa de criar uma economia nacional e garantir nossa independência econômica.

Glória eterna aos lutadores pela libertação nacional!

Viva a independência e a unidade africana!

Viva o Congo independente e soberano!

30 de junho de 1960

 https://www.novacultura.info/post/2020/06/30/lumumba-discurso-da-proclamacao-da-independencia-do-congo

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Patrice Lumumba - Chora, Ó Negro Irmão Bem-Amado



* Patrice Lumumba

Chora, Ó Negro Irmão Bem-Amado
Ó Negro, gado humano desde há milénios
As tuas cinzas espalham-se a todos os ventos do céu
E construíste outrora os templos funerários
Onde dormem os carrascos num sono eterno
Perseguido e cercado, expulso das tuas aldeias
Vencido em batalhas onde a lei do mais forte,
Nestes séculos bárbaros de rapto e carnificina,
Significava para ti a escravatura ou a morte,
Refugiaste-te nestas florestas profundas
Onde a outra morte espreitava sob a sua máscara febril
Nos dentes do felino, ou no abraço imundo
e frio da serpente, esmagando-te pouco a pouco.
E depois veio o Branco, mais dissimulado, astucioso e rapace
Que trocava o teu ouro por pacotilha
Violentando as tuas mulheres, embriagando os teus guerreiros,
Recolhendo nos seus navios os teus filhos e filhas
O tantã
vibrava de aldeia em aldeia
Levando ao longe o luto, semeando a aflição
Anunciando a grande partida para margens longínquas
Onde o algodão é Deus e o dólar Rei
Condenado ao trabalho forçado, como um animal de carga
Da alva ao crepúsculo sob um sol de fogo
Para te fazer esquecer que eras um homem
Ensinaram-te a cantar os louvores de Deus.
E esses diversos cânticos, ritmando o teu calvário
Davam-te esperança num mundo melhor...
Mas no teu coração de criatura humana, não pedias mais
Que o teu direito à vida e ao teu quinhão de felicidade.
Sentado ao pé do fogo, com os olhos cheios de sonho e de angústia
Cantando melopeias que traduziam a tua tristeza
Por vezes também alegre, quando a seiva subia
Dançavas, perdido, no orvalho da noite.
E foi daí que jorrou, magnífica,
Sensual e viril como uma voz de bronze
Nascida da tua dor, a tua poderosa música,
O jazz, hoje admirado no mundo
Obrigando o homem branco a respeitar-te
Dizendo-lhe em voz alta que doravante,
Este país já não é dele como nos velhos tempos.
Permitiste assim aos teus irmãos de raça
Levantar a cabeça e olhar de frente
O futuro feliz que a libertação promete.
As margens do grande rio, plenas de promessas
São doravante tuas.
Esta terra e todas as suas riquezas
São doravante tuas.

E lá no alto, o sol de fogo num céu sem cor,
Com o seu calor abafará a tua dor
Os seus raios ardentes secarão para sempre
A lágrima que os teus antepassados verteram,
Martirizados pelos seus amos tirânicos,
Neste solo que tu amarás sempre.
E farás do Congo uma nação livre e feliz,
No centro desta gigantesca África Negra.




[Poema publicado, pela primeira vez, em Setembro de 1959, no jornal INDEPENDANCE, órgão do Movimento Nacional Congolês (M.N.C.), partido que Lumumba passou a liderar a partir de Outubro de 1958. O poema foi reproduzido em La pensée politique de Patrice LUMUMBA, textes et documents recueillis par Jean VAN LIERDE, Présence Africaine, 1963, pp. 6970 e em Patrice Lumumba, a colectânea de textos apresentada por Georges Nzongola Ntalaja, CETIM, 2013, pp. 3133, de onde foi retirado para esta tradução e publicação.]




http://jornalcultura.sapo.ao/dialogo-intercultural/patrice-lumumba-a-ternura-do-heroi-de-africa