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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

José Pacheco - A liberdade de Corto Maltese e a inspiração de Spike Lee

SEMANÁRIO 09.02.2024

Exclusivo

FISGA

1994 Cong S.A. Suisse

Em Paris e Oslo, olha-se para a liberdade desenhada por Corto Maltese. Em Nova Iorque, Spike Lee abre o baú das suas inspirações

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08 FEVEREIRO 2024 22:57

João Pacheco

 

PARIS — OSLO — AVELLINO — VENEZA

Um dia, uma amiga da mãe pegou na mão esquerda do rapaz. Olhou e ficou horrorizada. Não havia ali a linha do destino. O rapaz não pensou muito e foi buscar uma lâmina de barbear do pai. Inventou na palma daquela mão uma linha profunda e longa. Pela vida fora, nunca chegaria a acumular tesouros bem fechados. Mas sempre foi livre.

O rapaz chamava-se Corto Maltese e tinha nascido na ilha de Malta, no verão de 1887, filho de uma cigana de Sevilha e de um marinheiro inglês de Tintagel, na Cornualha. Aliás, o viajante Corto Maltese nasceu para o mundo 80 anos depois, no livro “A Balada do Mar Salgado”, de 1967. Corto é a grande personagem criada pelo autor de banda desenhada Hugo Pratt (1927-1995). E viajou por vários continentes, partindo de La Valletta no veleiro “Vanità Dorata” (ou seja, Vaidade Dourada). Nos livros de Pratt, Corto viveu apaixonado pela liberdade, sempre pronto para partir. Era também capaz de declarar amor, perguntando: “Queres partir comigo?”

Um próximo destino cortomaltesiano pode ser Paris, onde o Pompidou terá de 29 de maio a 4 de novembro três exposições de banda desenhada em simultâneo. A iniciativa chama-se “La BD à tous les étages” (A BD em todos os andares), com destaque para “Corto Maltese, une vie romanesque” (uma vida de romance). Já na capital da Noruega, Corto Maltese está presente até 22 de março no Istituto Italiano di Cultura di Oslo, na exposição “Hugo Pratt. Opphavet, verket, livshistorien” (a herança, a obra, a biografia).

Da biografia de Pratt faz parte a amizade com o cartoonista Milo Manara, conhecido sobretudo pelo erotismo e pela beleza de livros de banda desenhada como “O Clic”. E, em entrevista ao Expresso em 2022, Milo Manara contou que Pratt era Corto Maltese, mudando o contexto histórico. “Corto Maltese vivia numa época em que não era preciso pedir autorização para chegar de barco e ancorar num sítio qualquer. Agora é completamente diferente.” No atual contexto histórico, a cidade de Avellino está na linha do destino de quem quiser ver a exposição “Milo Manara — Così fan tutte. Le Metamorfosi d’amore”, que está até 9 de março no Museo Irpino e parte da ópera “Così fan tutte”, de Wolfgang Amadeus Mozart. De Avellino, será boa ideia prolongar a linha da sorte até a uma ponta aquática do mapa de Itália, para caminhar sem destino por Veneza, um dos territórios importantes para Corto Maltese. Haja liberdade.


NOVA IORQUE

A inspiração de Spike Lee


Sim, poderíamos ocupar-nos apenas de massa fresca. Mas é essencial lembrar outros aspetos da História, no contexto atual de propagação da extrema-direita, na Europa e no mundo. Este póster foi feito em Itália em 1944, durante a II Guerra Mundial. Contém racismo e pertence à coleção do casal Spike Lee e Tonya Lewis Lee. O autor do cartaz desenhou-o nos últimos tempos do regime fascista do ditador Benito Mussolini (1883-1945). E sim, a ideia era que vinham aí os soldados americanos, preparados para pilhar e violar as riquezas e os corpos de Itália. Para estimular o medo e a coesão entre a população, era preciso mostrar que, com uma possível invasão norte-americana, chegaria o caos personificado por soldados afro-americanos. Agora, este bocado de guerra psicológica faz parte da exposição “Spike Lee: Creative Sources” (Fontes Criativas), que está até segunda-feira no Brooklyn Museum, em Nova Iorque. Para ir às fontes de inspiração do realizador afro-americano Spike Lee, há aqui mais de 400 objetos fornecidos pelo autor. Haja inspiração.

https://expresso.pt/revista/fisga/2024-02-08-A-liberdade-de-Corto-Maltese-e-a-inspiracao-de-Spike-Lee-05a3faac

terça-feira, 18 de julho de 2017

Corto Maltese, 50 anos depois

. . .


Francisco Louçã

18 de Julho de 2017, 08:24

Por


Corto Maltese, 50 anos depois

P
arece que Mitterrand, perguntado sobre que personagens o impressionavam ou o seduziam, apontava para Corto Maltese. Matreirice, seria uma imitação mais elegante, mas escassamente menos narcísica, de um De Gaulle que afirmava que só temia a concorrência da popularidade de Tintin. Cada um vinha do seu tempo e, se ambos sobreviveram com um “perfume de lenda”, como escreve Umberto Eco sobre Corto, o facto é que foi Hugo Pratt quem marcou a imaginação que trespassa as fronteiras do espaço e da imaginação. Por isso, Corto Maltese é o herói moderno que sobrevive à sua contemporaneidade.

Talvez as pistas sobre este marinheiro maltês, filho de uma cigana de Sevilha e de outro marinheiro perdido, que nasceria em 1887 e cresceria no bairro judeu de Córdoba, ou seja, sem pátria, assistindo depois às guerras inaugurais do novo século, estejam por aí espalhadas: Italo Calvino participara na preparação de um guião de um filme, “Tikoyo e o tubarão” (1962, Folao Quilici), sobre uma criança que fala com o seu amigo tubarão, e horizontes oníricos desse tipo foram sendo explorados por muitos autores (veja-se a “Balada” ou “Mu”); e, evidentemente, a literatura de viagens aventurosas, de Rimbaud a Jack London, povoara a juventude de Hugo Pratt. Pratt, aliás, cresceu na Etiópia, viveu em Buenos Aires e Veneza, e sobretudo, percorreu as fábulas em que se mistura com Corto, a que dá forma no dia 10 de julho de 1967, com “A Balada do Mar Salgado” – fez agora cinquenta anos.
O maravilhamento de algumas figuras cimeiras da literatura com a banda desenhada, mesmo que a vissem como género menor, também não é de hoje e não se inventou certamente com Pratt. Steinbeck, que não era modesto, adivinhava provocatoriamente um Nobel para Al Capp, pela força do seu Li’l Abner, a representação encantatória do mundo rural norte-americano (e de uma simplicidade desarmante que levava a água ao seu moinho). Umberto Eco dedicou-se aos Peanuts e a Charlie Brown num livro, “Apocalípticos e Integrados” (edição portuguesa na Relógio d’Água), em que descreve os enquadramentos de cinema na tira do desenho.
Pode-se perguntar então de onde vem o ciúme ou a curiosidade que escritores de mérito têm da banda desenhada. No caso do sucesso de Pratt, percebe-se de onde vem essa sensação: é que Corto Maltese é mesmo um romance em forma de apresentação gráfica. Aliás, Pratt explora decididamente esse vínculo e pisca o olho à literatura clássica: Pandora lê Melville, Slutter lê Rilke e Shelley, Corto cita Conrad e a “Utopia” de More e, ao atravessar as mitologias (célticas, etiópicas, caribenhas, argentinas, venezianas, o vodoo ou o que lhe apetece), ao escolher com que se cruza (Butch Cassidy, o Barão Vermelho, Tiro Fixo, mas também Hemingway, Hesse, Joyce), vive aventuras que transcendem os limites do tempo. Nenhum romance pode pedir mais, se os traços são marcados, se as personagens vivem a sua vida, se nos surpreende, então é a melhor literatura. É certo que, sendo desenho, deciframos melhor nessas páginas alguma coisa do autor (Eco conta que a sua filha pequena, apresentada a Pratt, disse que ele era Corto), e portanto a mentira da literatura é vivida à nossa vista.
Mas Pratt morreu há vinte anos. Corto, que é mais teimoso, continua agora com o desenho dos espanhóis Juan Diaz Canales (Blacksad) e Rubén Pellejero, em “Sob o Sol da Meia Noite”, já editado em Portugal (Arte de Autor, 2017), anunciando-se um segundo livro desta dupla, “Equatoria”. Discutir-se-á se outro escritor pode continuar “Os Maias” ou “A Guerra e Paz” e dir-se-á que não pode. Mas, neste atrevimento, Corto cruza-se com Jack London, encontra rebeldes irlandeses, sonha com Rasputine, destrói uma rede de tráfico de mulheres, percorre o Yucon – e nós imaginamos o resto e aceitamos a aventura.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/07/18/corto-maltese-50-anos-depois/

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Hugo Pratt - o desejo de ser inútil




SOB O SIGNO DO GATO

1. - Uma infância veneziana (1927-1937)


- Qual das suas vidas nos vai contar?

- Conheço treze maneiras de contar a minha vida. Hoje, escolho a sétima, por amor ao número sete, que é também o do gato: o gato tem sete vidas, e para conhecer a sétima tem pois que morrer seis vezes. Há quem diga que os gatos têm nove vidas, mas a versão segundo a qual eles têm sete parece-me superior, porque se trata de um número cabalístico: o das sete portas, das sete chaves, cuja última abre o paraíso terrestre. E se abordarmos a história da minha vida pela via do esoterismo, deverei começar por precisar que sou do signo dos Gémeos. Cinco mil anos decorreram desde o baptismo das constelações zodiacais, e a configuração do céu mudou, mas parece-me preferível falar como se estivéssemos ainda no tempo dos caldeus. Tenho 13 maneiras de contar a minha vida e não sei se há uma verdadeira, ou sequer se alguma é mais verdadeira do que outra. Pessoa dizia que «temos todos duas vidas: a verdadeira, que é a que sonhamos na infância; e a falsa, que é a que vivemos em convivência com os outros»; e essa que sonhamos é a vida onde queremos viver, e talvez a mais autêntica. Como para Calderón, para mim, a verdadeira vida é um sonho, embora se possa também dizer que nasci em Itália, em Rimini, a 15 de Junho de 1927.


(…)

7. - Et in Helvetia, Hugo (1984-1991)

(…)

- Entre os seus antepassados e os seus descendentes, um ponto comum: cosmopolitismo.

- É verdade, o destino dos Pratt parece situar-se para lá das fronteiras, das raças, das religiões, das línguas. Foi sempre assim. Uma anedota, a propósito. O actor Boris Karloff, o intérprete no cinema de Frankenstein e do doctor Fu-Manchu, chamava-se na realidade Pratt. Recentemente, um dos seus descendentes encontra em Buenos Aires o meu filho Lucas e diz-lhe: «Parece que temos um primo italiano que é desenhador!»... Desde o falecimento de minha mãe e, pouco depois, da minha tia Irma, já não tenho família em Veneza, e agora sou o mais velho. Nenhum dos meus descendentes tem a minha nacionalidade, nenhum sequer é de cultura italiana. Quanto às mães dos meus filhos, uma é servo-croata, outra belga da Argentina, e as outras duas são brasileiras, sendo que, para uma delas, essa nacionalidade não significa nada; duas são de raça branca, uma é afro-americana, outra é ameríndia; nenhuma tem a mesma língua materna. Tenho quatro netos, dois de Lucas e dois de Tebocua: nenhum entende o italiano. Os filhos de Lucas falam o espanhol e o inglês americano - a língua da mãe - e os filhos de Tebocua um dialecto gé.

Entre os meus antepassados havia também uma grande diversidade linguística. O meu pai falava fluentemente o francês, que aprendera com o pai dele. Dirigia-se muitas vezes a mim em francês ou em inglês. A minha tia Eglantina exprimia-se também em francês. Quando eu era criança, falava-se em Veneza uma variedade de italiano bastante diferente do italiano oficial, e essa língua - na qual o meu avô escrevia os seus poemas - é a primeira que falei. Ainda hoje, se encontro um veneziano da minha idade, utilizamos espontaneamente o dialecto veneziano, e mesmo quando surge alguém de outra província, custa-nos abandoná-lo. Como a minha família, os meus amigos estão muito dispersos, e pelo mundo tenho antigos companheiros que gosto de reencontrar. Claro, desde a época em que estávamos juntos, cada um seguiu o seu próprio itinerário, e depois. com a idade, tomámo-nos maníacos, fala-se demasiado dos problemas pessoais, da saúde, dos filhos. Do que eu gosto, é de beber o meu whisky tranquilo, na companhia de um velho amigo que, também ele aprecie o whisky. Observamo-nos, vamos bebendo em silêncio, cada um sabendo que o outro se vai perdendo nas suas recordações.


- Qual é a visão que tem da história da sua vida?

- Eu sou testemunha de uma época ultrapassada, que conta histórias povoando-as com as suas experiências, as suas recordações, as fábulas que lhe foram transmitidas na infância. A minha vida está cada vez mais desligada do presente. Em Córdova, desde 1989, na sequência de uma exposição e do portfolio Corto en Cordoba, editado pelos meus amigos italianos da libraria parisiense Tour de Babel, o município cede-me uma residência muito antiga da Juderia, o velho bairro judeu. Lá organizo festas, reunindo todo o tipo de amigos, desde os santos ébrios às putas moralizantes: gosto de reunir gente diversa, e de provocar assim situações originais. Convido os ciganos, que dançam e tocam uma música que remonta à Idade Média. Em Córdova, não há como os ciganos para poder dar um espectáculo de romanças sefarditas.

Algumas das pessoas que convido são consideradas importantes: homens de negócios apressados, editores sempre entre dois aviões, entre dois contratos. Observam e escutam esse espectáculo, e dizem-me que aquela é que é a verdadeira vida. Eles começam a interrogar-se sobre o seu modo de vida, sobre o interesse real do que fazem, e já não querem saber do trabalho. Essas festas são uma viagem ao passado, uma viagem estética em busca da beleza perdida. E graças a essas festas, a beleza do passado faz-se de novo presente. Nessa música sefardita, no olhar dessa bela judia renasce a Juderia de Córdoba. Nessas ciganas de sangue judaico, é Rebeca que está de regresso a Córdova, e Rebeca é sempre bela.

Convoco também as descendentes dos Almorávidas berberes, elas vestem-se como outrora, elas dançam, elas cantam, e através delas Fátima é sempre bela. Lá fora, está muito calor, mas aqui o pátio cheio de sombra está florido todo o ano. Ouve-se o repuxo de água, um cigano toca guitarra, uma nuvem passageira confere uma nova tonalidade aos azulejos. As rolas levantam voo das laranjeiras que rodeiam a mesquita. Essa maravilha de pedra é trabalhada como um bordado, cujos motivos fossem fechaduras: falta apenas a chave para abrir a porta do paraíso muçulmano. No pavimento do pátio - um tapete mineral - as jovens dançam, e Rebeca e Fátima são sempre belas.  

(...)

7 PORTAS PARA UM UNIVERSO



1.      - 1ª porta ou a viagem do peregrino

(…)

- Utilizou por várias vezes a palavra «peregrinação»: as suas viagens não são, como se poderia crer, as de um aventureiro, mas as de um peregrino.

- Há efectivamente em todas as minhas viagens esse aspecto «pilgrim's progress», para retomar o título do livro de Bunyan ... Assim como um muçulmano, por exemplo, sente a necessidade de durante a sua vida visitar diversos lugares importantes para ele, como Meca ou Kairouan, eu senti a necessidade de ir aos lugares que estão associados ao meu mundo interior. Porquê essa necessidade? Sem dúvida pelo desejo de confirmar, de prestar homenagem, e pela minha educação romântica.

Se viajei muito, foi porque os meus pais, os livros, os filmes, me iniciaram nisso desde a infância. Tenho horror, evidentemente, às viagens organizadas, às visitas colectivas em rebanho turístico. Preciso de estar só. Não suporto sequer as visitas guiadas e pagas antecipadamente ao Crazy Horse ou ao Folies-Bergêre, por exemplo ... A maior parte das minhas viagens não deviam nada ao acaso, visavam objectivos precisos. A minha geografia está sempre ligada a um mundo literário e fantástico. Para mim, uma viagem é uma busca desencadeada por uma leitura. Se eu for à nascente do Nilo. será com os romances de Rider Haggard ou os relatos das explorações de Speke e Burton. Serão eles os meus guias turísticos. A minha definição da viagem ideal, é Schliemann indo a Hissarlik para aí encontrar Tróia. As minhas viagens foram para mim ocasião de ir a um lugar que já existia na minha imaginação. Sempre andei' procura das origens. Quando aos dez anos partia para África, a minha esperança era de aí encontrar os lugares da banda desenhada Tim Tyler's Luck. E hoje, não poderia ir a qualquer lado, aqui, em Grandvaux, sem procurar onhecer o passado desse lugar, sem me perguntar o que terá havido no local onde agora é a minha casa. Talvez no futuro, alguém, ao ver essa casa, diga que era a de um conhecido desenhador de finais do século vinte ...

Eu vejo-me como um elo de diferentes cadeias que percorrem tempo, estabelecendo uma continuidade desde as origens até agora. A minha relação com Stevenson - ou com outros -, é isso. Oumais belo, mais poético do que o elo de uma cadeia, sou um ponto da circunferência de uma roda. Gosto do círculo, essa forma perfeita. Em criança, brincava de bom grado com o arco. Uma linda menina que faz correr um arco com uma haste é um espectáculo interessante. Uma das minhas mais antigas recordações é de uma menina, mais velha do que eu - eu teria talvez quatro anos - que empurrava assim um arco. Que bela visão ...

- Dizia você que a sua família o tinha iniciado nas viagens?

- Eu aludia à decisão do meu pai de me levar para a Etiópia e a diversas pequenas viagens efectuadas com ele durante a minha estadia por lá. Por exemplo, quando eu tinha onze anos, levou-me a Dirédaoua, e encontrámos Henry de Monfreid, que ele conhecia bem. Lembro-me de um homem grande e esguio, afável, que tinha uma loja de material eléctrico. Na época eu não sabia que ele fizera contrabando e que era conhecido como escritor. Hoje, com vários estudos publicados sobre ele, Henry de Monfreid é alguém de muito controverso, mas já na minha infância assim era: eu apercebera-me que muitas pessoas o detestavam. Quanto aos seus livros, acho-os interessantes, pois tratam temas muito pouco conhecidos, se bem que, em La Voile carrée, Vladimir Pozner lhe tenha mostrado essa via. Quanto à relação entre Henry de Monfreid e Pierre Teilhard de Chardin, ela deixa-me perplexo: porque se interessaria esse paleontólogo e teólogo católico por tal aventureiro? Dá que pensar, o que versariam as suas discussões quando se encontravam ambos em Djibouti, em 1928-1929 ... Ideologicamente, não me sinto próximo de Henry de Monfreid: ele era o cronista cúmplice do marechal Graziani, era contra Hailé Sélassié, foi recebido por Mussolini. Mas o aventureiro intriga-me, e por ocasião de um dos meus regressos ao Corno de África, fui pois visitar os lugares onde ele viveu: Dirédaoua, Djibouti e Obock, onde a sua grande casa é agora ocupada por religiosas: no final da minha peregrinação encontrei freiras.

(...)

7. – Sétima porta ou o desejo de ser inútil

(…)

- No entanto, desde Goethe, que gostava das «histórias com gravuras» de Tõpffer, fundador do género, a Michel Serres, que termina seu novo livro Le Tiers-Instruit com um retrato de Hergé, houve grandes intelectuais que se interessaram pela banda desenhada.

- Sim, mas entre os intelectuais, como em toda a parte, o que lornina é o conformismo. E se certos intelectuais de renome, como Umberto Eco ou Jean Markale, escreveram prefácios para os meus álbuns, é porque têm bastantes pontos em comum comigo. Nós somos mais ou menos da mesma geração, temos uma mentalidade de investigador, lemos bandas desenhadas de aventuras na nossa juventude - ao passo que a geração de 1968 privilegiou as bandas desenhadas humorísticas e satíricas. E como eu, Markale e Eco gostam de explorar mundos bastante alheios ao que se chama o mundo da realidade. Jean Markale vive num sonho céltico, entre o mágico Merlin e a fada Morgana, e por isso não é muito estranho que ele se tenha interessado por As Célticas. Umberto Eco também se passeia por mundos esotéricos, em busca de mitos. Gostei evidentemente dos seus romances, O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, mas também das suas apostilas [Postille al Nome de la Rosa/Porquê «O nome da rosa?»], em que nos dá uma ideia do trabalho que efectuou. O Pêndulo de Foucault, mais ainda que O Nome da Rosa, foi criticado porque nele se apresenta um mundo que nem sempre é directamente abordável pelos leitores, mas a meu ver caberia aos leitores documentarem-se: Umberto Eco convida os leitores para o seu mundo, não tem nada que o mu- dar para o tornar mais acessível. Tenho relações cordiais com Markale e Eco, que também não gostam de viver apenas no presente das modas e dos seus preconceitos, e gosto do que eles fazem, mas não me parecem representativos dos intelectuais em geral, nem do que os intelectuais pensam da banda desenhada.

- A sua casa não está mobilada como uma verdadeira casa, é uma biblioteca onde instalou algumas camas, algumas mesas e algumas cadeiras ...

- É exactamente isso. Neste momento encontramo-nos na sala dos livros sobre a América do Norte. Eu moro numa biblioteca, é a realização de um dos sonhos de Borges. Mas não precisei para isso de me tomar bibliotecário: cheguei ao mesmo resultado fazendo o inverso, criando uma biblioteca à minha volta. Não li integralmente todos os meus livros, mas folheei-os a todos, e se me falta uma informação, posso ir directamente ao livro que ma prestará. A minha experiência com os livros permite-me ir directamente ao essencial. A minha documentação, nomeadamente iconográfica, é tal que já não tenho necessidade de fazer pesquisas nas grandes bibliotecas do mundo. Recentemente, escrevi para o meu amigo desenhador Manara uma história sobre um gaúcho na Argentina aquando da invasão inglesa de 1806: tinha comprado há um ano todas as obras que tratam dessa questão. Só me faltam umas férias para poder ler os meus livros tranquilamente: antigamente, consagrava o meu tempo livre à pesquisa de livros, agora tenho os livros, mas falta-me tempo livre. Posso deixar um livro dormir anos numa prateleira, mas um belo dia preciso dele; reencontro-o, e até me parece que me censura por tê-lo abandonado durante tanto tempo. Eu sou o nómada da minha biblioteca. Por vezes, num velho livro, descubro um papel que alguém deixou, uma flor seca. Não me desagradaria acabar assim, seco e espalmado entre as páginas de um livro. Claro, eu não pareceria uma malva-rosa, talvez até fosse assustador, mas gostaria de acabar assim.   

O que o guiou na sua vida?


- A curiosidade intelectual. Eu tenho curiosidade de conhecer o amanhã. A minha vida está cheia de surpresas e de prazeres. As minhas pesquisas em diversos domínios abriram-me mundo e a mim mesmo. Quando passeio por Aigues- Mortes e vejo uma ruela que se chama rue de l' Amour-Aveugle [Rua Amor Cego], sinto a necessidade de saber porquê ... e acabo descobrir que outrora havia ali um bordeI onde trabalhavam raparigas cegas. Dediquei assim uma grande parte da minha vida a ir de procura em procura, de viagem em viagem e de livro em livro. Alguns passaram assim toda a sua vida, e eu compreendo-os. E depois um dia depara-se com uma falha, o documento: por exemplo, queimado na Idade Média, e é então que alguém como eu pode ocupar esse vazio criando uma história: a sós comigo mesmo, dou a minha interpretação, e graças à imaginação saio do círculo em que todos esses livros me tinham encerrado.






domingo, 30 de março de 2014

Sargento Kirk, criado por Pratt y Oesterheld

Página/12


Querido Kirk

Esta carta al memorable sargento creado por Pratt y Oesterheld pertenece a Carta al Sargento Kirk y otros poemas de ocasión, el libro de poemas de Juan Sasturain que la editorial Gárgola distribuirá la semana que viene en Buenos Aires.
 Por Juan Sasturain

Cañadón Perdido
Arizona State, USA
Querido Kirk, espero que al recibo de la presente
te encuentres bien, disfrutando
de un seco, enérgico verano
en el desierto –no recuerdo un
solo día de lluvia en tus
andanzas– en compañía de los
tuyos: Maha, el Corto y el
barbado doctor Forbes.
Te aclaro –hace tiempo que
no tendrás noticias mías–
que si me vieras no me reconocerías:
he crecido un poco –eso sería lo
de menos–, tengo la cara llena de
pelos y se me han poblado los alrededores
de mujeres y de hijos.
Suelo tener la cabeza ocupada
en mil asuntos sin importancia y
casi he olvidado –te pido me perdones–
el episodio de Corazón Sutton, la
cara del cacique pawnee y el nombre
del jefe de Fort Gibson.
En fin, bien sabes que han pasado
algunos años desde entonces,
cuando nos veíamos todas las semanas
y compartíamos una intimidad
que me enorgullecía.

Puedo darte –si quieres– noticias
de tus viejos: Hugo volvió a Italia
hace mucho y se dedica a ser
famoso y tratar de olvidarte en otros hijos.
A veces lo consigue: habrás oído
hablar del otro Corto, el Maltés, un
poco irónico para tu amistad pero
es hombre de agua y de este tiempo,
tu desierto puesto al día y
sin remordimientos.
En cuanto a Héctor, el viejo, no se fue.
Anduvo algunos años lidiando por estos
arrabales del mundo y de la democracia,
eligiendo bien en general
–me entiendes: del lado de los indios–
y no le fue mejor que a ti:
perdió amigos, el buen nombre en las
editoriales, cuatro hijas.
No es mucho en un país lleno de
sangre; es demasiado para un
hombre solo. Ahora es uno más en
una lista larga y llena de agujeros,
otros reciben tardíos premios
en su nombre.
De tus amigos, algo te puedo contar.
Juan Salvo, el extraviado Eternauta,
volvió para juntarse con la gente, hizo
la guerra como un acto de amor, los
Ellos le dejaron la historieta y se
quedaron con la historia por ahora.
Ernie estuvo por Vietnam y fue
un fracaso: alguien tecleaba
la Remington por él, le trabucaba
los papeles o algo así.
De Ticon, nunca más supe. Tampoco de
Caleb o Numock, sólo versiones
muy lavadas de aquellos bosques grises
con indios adornados e ingleses de paseo.
Al infalible Randall
lo fueron desbancando oscuros primos
mellizos, malas fotocopias
de su sombría puntería. En fin...


Pero no era mi intención
llenar estas cuartillas con
recuerdos de amigos de papel o
carne y hueso. Claro que no.
Sin embargo, no sabría decirte
en realidad por qué te escribo.
Acaso sea la burguesa soledad, ciertas
mentiras descubiertas entre dientes o
el aire esquivo y apurado con que
paso delante del espejo.
Te diré que no es fácil andar
a esta altura del mundo y de
la historia personal. Extraño
tu ranch y tus caballos,
esa amistad viril sin psicoanálisis
y hasta olvido que en tu mundo
de comanches y balazos no
habría lugar para mi cobardía.
No me acuerdo ahora de grandes
cabalgatas ni de puñetazos providenciales;
sólo me queda una escena: el manchón
de una hoguera en la noche y
tu simple certeza para
explicarle al Corto que más vale
luchar por una causa justa
que hacerlo simplemente por dinero.

Los comentarios corren por tu cuenta,
pero en un país sin hogueras ostensibles
y el desierto almidonado por la espada
no es fácil leer tus aventuras sin
nostalgia. Y no digo la pavada
de la moda a lo Presley o los
Cadillacs del ‘50. Quiero decir
que todo se ha complicado en estos años
que han venido cortos, lluviosos, sin
verano, mal barajados para la aventura
y con un cierto aire de perdonavidas
del que te mira pasar porque mañana
te la dará sin asco y por la espalda.
Hoy ese pibe que cabalgaba a tu
lado a los doce años se ha
bajado del caballo, desensilló hasta que
aclare otra vez, la próxima,
el bueno, que le dicen.

Tú me recuerdas –la culpa es de él,
de Oesterheld, este tuteo literario que
entorpece los cariños–, tú me recuerdas,
te decía: cuarto grado, miércoles de mañana,
me comía la vereda en el camino hacia
el Hora Cero que desplegaba tu blanca y
seca geografía. Un desierto, un
cañadón, el atajo salvador,
un tomahawk en la punta de un indio,
una bala que buscaba tu brazo, el hombro
o alguna costilla cruzada en el
camino al corazón.
Hoy los tomahawks llueven de punta o
por televisión, las balas suelen encontrar
corazones grandes, vulnerables, ya no
hay atajos salvadores y no quedan sargentos
desertores en el Séptimo de Caballería.

Quiero decir que las historias tuyas
eran un prólogo simple, un golpecito en
el medio de la espalda hacia adelante.
La vida reservaba la sortija en un
recodo con la certeza de tus corazonadas.
El mundo era un globo por inflar, una
mujer por besar, una escalera alfombrada por
el escenógrafo de la Paramount.
Sólo había que esperar
que el director golpeara las
palmas, alguien encendiera las luces,
y todo empezara de una vez.
Es cierto: todavía esperamos las palmadas,
el chasquido de la luz del set
y la metafísica patada en el culo
que nos mande a escena.
Pero no hay tiempo para las frustraciones
de la pequeña –chiquitiiiiiita– burguesía,
especie en extinción desde años ha
en sus variantes más coloridas.
Algunos suelen deambular por oficinas hostiles o
países aparentemente democráticos, sentirse
juntos en la cancha de fútbol o las
librerías de viejo, de pasada.

Correr como un imbécil por Palermo, creer
en Ramakrishna o el poder terapéutico de la
mosca en mano, en la confluencia cívico-militar
y otros fantasmas son estrategias endebles
para los que nacimos con el
empujón de tu mirada segura bajo el kepi
encasquetado con la solidez de los
ideales de la juventud.
Por eso es mentira esta película:
al fondo del cañadón, espaldas contra la
roca, con las balas y las flechas
silbando alrededor clásicamente,
viendo caer a la gente como moscas
–la idea es pobre, verdadera–
escuchamos un clarín salvador, un
galope nutrido de casacas azules y
banderita al viento. Pero no.
No venís vos al frente. Es Reagan.
Cambiemos de canal, de vida, de esperanza.

Al fin, querido Kirk, dear sargent,
espero que a la terminación de
la presente te encuentres bien,
en compañía –ya te lo dije–
de los tuyos y ahora también de los
(pedazos) míos, disfrutando
del aire limpio de un cielo
blanco de revista vieja.
Te informo, al respecto, que
ahora los kioscos son
verdes y blindados como los sueños
de un general de caballería
de estos tiempos, y que hay poco para
leer si no es en los ojos de la gente.
Tal vez por eso me dedico a juntar
figuritas con tu cara, tomar mate y
hacerme cada día más tanguero.
Una estrategia de amor, no
una coartada.

Pero tampoco es éste el lugar
para salvarse o encontrarle todas las
patas al gato personal, que nunca
importa demasiado sino a uno.

Al final, creo que está claro
–lo veo ahora, después de tantas
vueltas– que no pienso en volver
atrás ni pedirte un caballo fresco
de los que cría el Corto en sus corrales
para escapar de mí o de lo que sea.
Supongamos, mejor, que yo te invito
y te venís –o vienes, como quieras–, que
hay algo urgente por hacer y con
sentido: salvar a la muchacha, defender
a los indios o cualquier otra causa
siembre abierta. En eso estamos.
Un abrazo. Tu amigo
Juan

(1981)

http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/radar/9-2680-2005-12-17.html

domingo, 29 de agosto de 2010

# Mü, a Cidade Perdida # Hugo Pratt (argumento e desenho)

BD

Nos labirintos da vida

  • Mü, a Cidade Perdida
  • Hugo Pratt (argumento e desenho)
  • Tradução de Paula Caetano Edições Asa
. Todos procuram a entrada "para um mundo subterrâneo, para Aztlan, o reino perdido de Posídon", afirma Colombia a um auditório extremamente interessado. A tarefa não é simples, diz Steiner: "Para entrar no mundo das lendas é necessário ser-se criança ou iniciado." A consequência maior desta asserção é que apenas a Corto será permitido percorrer o difícil e perigoso caminho que leva até à luz, desafiando os seus medos e fantasmas, debatendo-se com a dúvida acerca da sua própria experiência libertadora e superando os desafios que o fazem transcender-se. É uma viagem labiríntica, quase claustrofóbica, brilhante metáfora sobre os múltiplos caminhos da existência humana que levam ao conhecimento de si mesmo. Não por acaso, e com alguma ironia, o monge irlandês Brendan lembra que um labirinto é feito para nos perdermos nele. É uma forma de recordar a Corto Maltese que ele terá de sair dali sozinho e pelos seus passos, sem ajuda externa. Talvez a observação seja redundante, talvez seja pertinente, mas o certo é que o herói está mais interessado em encontrar Soledad, a amiga desaparecida misteriosamente de bordo do navio ancorado... 
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Há de tudo em "Mü, a Cidade Perdida" - um caimão gigantesco, um guerreiro índio musculado, homens-escorpiões e o próprio Rasputine, que vê Corto enterrar-se em areias movediças com a maior das indiferenças. Mas nem os mais clarividentes esperariam ver o herói num corpo-a-corpo com a sua própria sombra, provisoriamente perdida. As implicações são enormes, pois um homem sem sombra não pode progredir no "labirinto harmónico" sem a recuperar. Será mesmo necessário morrer para renascer, condição essencial para acabar com o pesadelo? 
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Ao situar o enredo da história em torno da Atlântida, o propósito de Hugo Pratt era o regresso à "tradição das bandas desenhadas de aventuras dos anos 30". Em particular, o autor aludiu uma vez à série norte-americana Brick Bradford, de Clarence Gray (desenho) e William Ritt (texto), onde também há incursões nas civilizações pré-colombianas, e chegou a admitir que os dois heróis viessem a encontrar-se ("gosto da ideia de fazer reencontrarem-se personagens de banda desenhada"). De facto, tal não aconteceu, mas nem por isso o resultado é menos fantástico: "Mü, a Cidade Perdida", relativamente mal-amada mesmo pelos mais incondicionais admiradores de Pratt e do seu herói, pode ser considerada a mais estranha aventura de Corto Maltese, passada num mundo sem tempo nem lugar, território da eternidade impregnado de lendas, símbolos e mistérios que ocultam a sua decifração a cada passo do herói em direcção a eles. 
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Nesta última banda desenhada, o autor aprofunda um registo narrativo e gráfico que já era bem visível na obra imediatamente anterior ("As Helvéticas"). A matriz histórica, política e de aventuras - que contribuíra para a legítima popularidade da série - cede lugar a uma maior ênfase na dimensão "contemplativa", que é característica dos últimos anos da vida de Pratt. Dominique Petitfaux, o grande biógrafo do criador veneziano, lembra que "Mü" é "mais onírica do que realista", mas também "mais irónica do que onírica": "Nessa época ele estava 'do outro lado do espelho', num mundo de mitos e desejoso de render homenagem aos que o tinham ajudado a construir o seu universo interior." Por isso, não surpreende que o artista invista pouco no grafismo, que aparece aos olhos dos admiradores mais radicais um pouco simplificado, e mesmo descuidado. Mas esse é apenas um efeito externo de algo mais essencial, assim sintetizado por Dominique Petitfaux: "A continuação dos episódios de Corto Maltese e as mudanças que se podem constatar remetem-nos, em última análise, para a evolução íntima do autor, para o seu envelhecimento e, indo ainda mais além, para essa realidade última que é a passagem do tempo." 
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