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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A sombra de Saramago - Wellington Machado

COLUNAS

Terça-feira, 3/8/2010
A sombra de Saramago



Não vou falar dos romances históricos da primeira fase da obra de José Saramago (1922-2010). Os críticos já os incensaram devidamente. Vou me ater aos livros chamados ideológicos do escritor - prefiro chamá-los de romances ensaísticos. Aliás, essa coisa de ideologização geralmente não dá uma boa história. Vários escritores que tentaram se envolver com política - ou com governantes - tiveram suas imagens arranhadas. Não são bons de escolha. Só pra citar de memória, não foram boas as incursões políticas de Sartre, Gabriel Garcia Marques, Céline, Gunter Grass, Heidegger, Brecht, Ezra Pound e José Saramago.

Esquerdistas e direitistas à parte, o interessante é que o valor das obras desses escritores não decai, principalmente quando elas são usadas para ilustrar teses ou teorias, nos mais diversos campos do saber - filosofia, sociologia, psicologia, etc. George Orwell, por exemplo, ganhou notoriedade com sua obra 1984, onde o personagem-símbolo do livro, o Grande Irmão - uma criação do governo totalitário para amedrontar e intimidar a população -, monitorava as pessoas 24 horas por dia, através de uma espécie de TV, chamada Teletela. Os olhos ameaçadores do Grande Irmão, espalhados por todos os locais públicos e privados, serviram de base, nos últimos anos, para a criação de programetes de TV, onde a grande massa de telespectadores fazem as funções do ditador.

A obra-prima de Orwell também é incansavelmente citada quando se analisa a nossa perda de privacidade, principalmente pós-11 de setembro. Haja vista a quantidade de câmeras espalhadas pelas cidades, nos elevadores, portarias, lugares públicos e privados. Vivemos uma espécie de totalitarismo consentido, nos moldes do 1984.

No romance Farenheit 451, de Ray Bradburry - brilhantemente filmado por François Truffaut -, o governo tenta extinguir os livros. Os bombeiros não apagam incêndios, mas incineram livros. Quem tivesse livros em casa era visto como um conspirador. O livro de Bradburry é constantemente lembrado quando se quer abordar a manipulação intelectual das massas ou os efeitos deletérios dos programas bobos de televisão.

A fase ensaística do escritor José Saramago oferece também, a meu ver, uma série de possibilidades ilustrativas, alegorias e metáforas contemporâneas, que, assim como Orwell, Bradbury ou Aldous Huxley, servem muito para pensar o mundo e a época em que estamos inseridos. Após a obra-prima O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que interrompeu a fase histórica de Saramago, surge em 1995 o Ensaio sobre a Cegueira. Considero esta, juntamente com A Caverna (2000), os ápices da literatura alegórica do escritor. Mas as outras não são desprezíveis.

A obra Ensaio sobre a Cegueira abre um precedente para inúmeras interpretações metafóricas. É uma obra aberta a especulações, tais como os motivos que levaram o escrivão Bartleby (de Herman Melville) a dizer "prefiro não fazer", toda vez que recebia uma ordem na repartição onde trabalhava. A cegueira branca que acomete a população daquela cidade imaginada por Saramago, tanto pode ser a falta de um horizonte, um chão firme para as pessoas nesse mosaico de possibilidades - ou impossibilidades - que se nos apresenta a contemporaneidade, como pode ser também uma metáfora de um governo ditatorial que dizima brancamente sua população.

Mas cabe também um outro enfoque. A obra pode ser analisada a partir da convivência daquelas pessoas dentro daquele galpão, onde são aprisionadas. A falta de alguém para organizar o ambiente faz com que cada um aja como bem entender, defendendo seus interesses individuais. O que seria de uma sociedade sem governo e sem leis? Ensaio sobre a Cegueira é uma retratação fiel do homem que é o lobo do homem, de Thomas Hobbes: pessoas brigando, matando-se por comida, estupro, etc. O livro mostra as consequências de uma sociedade sem leis e um Estado omisso.

Já em Todos os Nomes (1987) - um livro até meio esquecido pela crítica -, vemos um tal sr. José trabalhando numa espécie de cartório - a Conservatória Geral do Registro Civil. Trata-se de um sujeito íntegro, de hábitos simples, que mora em um cubículo (inspiração do comunista Saramago?). Cansado da rotina burocrática pesada, da exploração de sua mão-de-obra e do chefe autoritário - que o repreende ferozmente pela barba por fazer -, ele decide se rebelar e usar os registros dos nomes para alterar a biografia das pessoas, fazer um exercício de ficção. A própria estrutura intricada, labiríntica da Conservatória pode ser vista como uma metáfora das dificuldades que encontramos para lidar com nossos dilemas internos. A atitude do sr. José, imoral, reflete sobre os limites éticos ante a repressão.

O oleiro Cipriano é um senhor de 74 anos, personagem principal do livro A Caverna. Sua vida psicológica e material vai à bancarrota quando vê seus vasos de barro, fruto do trabalho de suas mãos, serem substituídos por vasos de plástico, vendidos em larga escala no grande Centro - uma construção enorme, como os shopping-centers. Na segunda metade do romance, Cipriano vai conhecer o Centro, ver o que há lá de tão extraordinário. Depara-se com uma multidão de consumidores encantados com aquele lugar, onde poderiam fazer suas compras com facilidade e até mesmo morar lá dentro. O título do livro é uma analogia ao mito de Platão, onde as pessoas são cegas - ou ofuscadas - à sua condição de prisioneiras. A caverna é o Centro, e as pessoas que estão lá dentro são cegas em relação ao consumo.

A Caverna oferece-nos um arsenal de caminhos para reflexão. No primeiro momento, dá-se a desumanização do homem - ou a perda da sua liberdade -, quando Cipriano passa a não manipular mais a natureza (o barro) com as próprias mãos. Ele é uma vítima do avanço tecnológico, da produção em larga escala. A questão do consumismo exacerbado, motor do capitalismo, é retratada quando Cipriano entra no grande Centro e vê aquela multidão indo às compras.

Saramago era um observador crítico contemporâneo. Atento aos acontecimentos. Em 1996, houve uma celeuma no meio científico com a notícia da clonagem da simpática Ovelha Dolly. Foram inúmeros os intelectuais que associaram o feito a um perigo para a humanidade. Houve um temor generalizado de se concretizar a manipulação genética para produzir uma sociedade em castas, como os Ípsilons (menos evoluídos) e os Alfas (muito evoluídos) de Admirável Mundo Novo, ficção científica de Aldous Huxley. Saramago digeriu isso tudo e lançou, em 2002, O Homem Duplicado. No livro, Tertuliano Máximo é um professor de história que, ao assistir a um filme em VHS, se surpreende ao ver um clone seu em cena. Tertuliano trava uma batalha hercúlea à procura do seu duplo, permeado pela angústia, pelos dilemas e os perigos de se ter um semelhante à solta.

Inúmeras obras ou autores são desenterrados para afirmar ou ilustrar a condição social ou humana. As sombras de Orwell (totalitarismo), Huxley (clonagem) ou Bradbury (manipulação cultural de massas) sempre estão presentes nas análises sobre o avanço tecnológico e seus efeitos na sociedade ou no indivíduo. Na mesma linha de raciocínio - cada um a seu estilo -, Saramago deixou, em seus romances, uma miríade de opções para a reflexão sobre as relações de poder dos Estados, sobre os dilemas morais, o consumismo, a perda de liberdade, a manipulação genética. O Saramago ensaísta será incluído no panteão de escritores sobre cujas obras muito vai-se falar.

A opção pelo comunismo sempre prejudicou a análise das obras do escritor. A direita nunca o engoliu. Vai daí a exaltação à sua primeira fase, histórica, e uma certa má vontade em relação aos seus romances com tom ensaístico. Saramago era um humanista. E ser humanista é condição anterior (a priori) a ser de centro, direita ou esquerda.

Em 1997, a Nasa enviou a Marte o Soujourner - um pequeno carro-robô que custou milhões de dólares - para analisar o solo daquele planeta. Perguntado sobre o que achava do feito, Saramago foi lacônico: "não consigo entender como o ser humano consegue gastar milhões e milhões de dólares para enviar a Marte uma geringonça, enquanto há ainda gente morrendo de fome aqui na Terra". Afora as discussões anacrônicas sobre direita e esquerda, voltando ao básico do básico do ser humano, não é que a sombra desse português nos faz pensar?



Wellington Machado
Belo Horizonte, 3/8/2010
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domingo, 27 de dezembro de 2009

DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS - George Orwell

 DIGESTIVOS

Sexta-feira, 24/2/2006
Digestivo nº 267
Julio Daio Borges








Literatura >>> Política versus literatura

Há muito tempo ouvimos falar dos ensaios de George Orwell, o autor de 1984 e A Revolução dos Bichos. Sua obra de não-ficção é quase tão célebre quanto seus dois clássicos como romancista. Orwell viveu intensamente a primeira metade do século XX, experimentando os impactos diretos e indiretos de duas guerras mundiais, sendo um militante de esquerda e, depois, desiludindo-se com política. Fora a aventura de ser escritor (um salve-se-quem-puder em qualquer época, mesmo que em inglês). Um pouco dessa intensidade está em Dentro da Baleia e outros ensaios (2005, Cia. das Letras, 227 págs.), com organização de Daniel Piza e orelha de Sérgio Augusto. E Orwell vale sempre pela sua honestidade intelectual. Inesquecíveis as passagens em que ele desmonta a esquerda, apontando que a melhor motivação para alguém se converter ao socialismo é a falta de trabalho ou dinheiro. Ou então desconstruindo a classe conservadora da Inglaterra, derrubando totens como Johnatan Swift, de Viagens de Gulliver – que, para Orwell, só podia ser impotente sexualmente, para ter tanto horror ao corpo... E é incrível que, de lá pra cá, o mundo tenha mudado muito, mas não tenha, ao mesmo tempo, mudado tanto. Orwell já via sinais de decadência no maniqueísmo de esquerda & direita antes da metade do século XX – mas continuam praticando-o até hoje. No Brasil... Fora os insights literários que valem, igualmente, o livro. As vivências do escritor como resenhista e até profissional do mercado livreiro, num sebo. A fatalidade de assistir à execução de um prisioneiro de guerra; o desconcerto de ter de matar um elefante; e, de repente, o dever de ter de desmascarar Gandhi (ou qualquer outro herói com alguma aura “santa”). Orwell combina a incisividade de um bom filósofo com a clareza de um grande prosador. Sempre será um autor inevitável, para quem quiser revisitar as idéias do século passado.
Dentro da Baleia e outros ensaios (trecho) - George Orwell - 2005 - 277 págs.
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Sinopse

Os brasileiros conhecem bem o George Orwell de '1984' e 'A Revolução dos Bichos', duas fábulas políticas que marcaram época pelas críticas ao totalitarismo em imagens fortes. Mas a faceta de jornalista e ensaísta, apresentada em 'Dentro da Baleia', merece igual atenção. Sua prosa de não-ficção tem a mesma capacidade de prender o leitor e, de tão cristalina e flexível, tornou-se um estilo que as boas escolas de jornalismo estudam no mundo todo. Seus temas continuam vivos por obra e graça de sua transparência corajosa poder descritivo. Mesmo as reflexões políticas circunstanciais falam ao leitor de hoje. A organização do livro, a cargo do jornalista Daniel Piza, procura abarcar a variedade de assuntos que interessava a Orwell. Na primeira parte, o autor escreve sobre a carreira de escritor e lembra o período em que trabalhou como vendedor num sebo de livros. Ele também discute a arte da resenha e cria a categoria dos 'bons livros ruins', aqueles que seguimos lendo com empolgação mesmo cientes dos defeitos. Na segunda parte, temos o Orwell memorialista e analista político. Textos como 'Um enforcamento' e 'O abate de um elefante' são clássicos do jornalismo literário. Em 'Reflexões sobre Gandhi', Orwell causa controvérsia ao criticar a vaidade do pacifista mais famoso do século XX. Na terceira e última parte, literatura e política se misturam ainda mais, e ele examina autores como H. G. Wells, Tolstoi, Swift e Mark Twain à luz de suas opções políticas.

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O que a imprensa diz sobre: DENTRO DA BALEIA E OUTROS ENSAIOS
Estado de Minas  / Data: 11/2/2006
Política no ventre da baleia
João Paulo
George Orwell (1903-1950) entrou para a história como autor de dois romances políticos de denúncia, A revolução dos bichos e 1984. Entrar para a história não é apenas força de expressão. Com os dois volumes, ele se tomou um dos mais importantes críticos da experiência stalinista e do autoritarismo velado das chamadas sociedades livres, mesmo que pela força da metáfora. Orwell era um homem de esquerda, no sentido forte da palavra: era contra as injustiças, acreditava na ação política e confiava na direção civilizadora da história. De esquerda, mas nunca comunista. Antes de ser romancista - e talvez muito além de ficcionista -, George Orwell foi um jornalista ligado no seu tempo. Sua crítica e visão de mundo vêm exatamente de sua ética profissional: ele analisava o que se passava à sua volta, criticava o poder e apresentava seu olhar de maneira sempre clara. Não são muitos, atualmente, os jornalistas que agem assim, tanto na inteligência como na forma. Por isso a coletânea Dentro da baleia e outros ensaios tem, ainda hoje, grande interesse. O livro se divide entre os dois campos que tomaram a atenção de Orwell: a política e a arte. A seleção de Daniel Piza é equilibrada e inteligente. Na primeira parte, "Palavras, palavras", estão reunidos textos confessionais, que explicam de forma corajosa algumas das posturas do autor. No artigo "Por que escrevo", por exemplo, ele entrega: "Todos os escritores são vaidosos, egocêntricos e ociosos". Ao falar sobre o comércio de livros, confessa que está cansado de volumes antigos e, no texto sobre resenhas, afirma que a maioria dos livros não merece esse esforço. E completa: há mesmo livros considerados ruins que são mais úteis que obras-primas. Ao tratar de política, George Orwell se desdobra em duas vertentes. Numa, mostra sua vocação jornalística, ao narrar fatos da ocupação britânica e denunciar as condições subumanas de hospitais europeus. Orwell conhecia a realidade da classe trabalhadora e sabia que o sucesso da esquerda se devia mais ao desemprego que à ideologia marxista. A outra vertente, da crítica do poder, está representada no já clássico texto sobre Gandhi, em que parece mostrar o que todos viam e não tinham coragem de apontar: o projeto medievalista incapaz de resolver as grandes questões do país e a porção de vaidade presente na ação do líder indiano. George Orwell foi ainda bom analista de literatura, capaz de intuições argutas sobre Tolstoi, H.G. Wells e Henry Miller. Mas também de erros, como considerar a literatura de Mark Twain inferior à de Anatole France. Para um defensor da liberdade, é uma mancha sua participação na elaboração de listas de intelectuais criptocomunistas. Seu empenho era transformar política em arte. Talvez tenha falhado, ao achar que era possível estetizar a política. Mesmo nos erros, em muito menor número que os acertos, foi homem de seu tempo.

Veja  / Data: 21/12/2005
O paranóico lúcido
Sombrio nas previsões e certeiro na crítica ao totalitarismo, George Orwell foi um dos maiores ensaístas do século XX
Jerônimo Teixeira Naquela que é sua previsão central, George Orwell errou. "Estamos rumando para uma era de ditaduras totalitárias", escrevia ele, em 1940, no artigo que dá título a Dentro da Baleia e Outros Ensaios (tradução de José Antonio Arantes; Companhia das Letras; 228 páginas), coletânea organizada pelo jornalista Daniel Piza. Os novos tempos que se anunciavam seriam os mais sombrios da história: o "indivíduo autônomo" seria eliminado da existência. Naquele momento, com a II Guerra Mundial em seus princípios, o prognóstico de Orwell talvez não fosse tão exagerado. Mas, mesmo depois da derrota de Hitler, o escritor ainda sustentaria a mesma tenebrosa profecia no seu último e mais conhecido romance. Escrito em 1948 e publicado no ano seguinte, 1984 descrevia um mundo opressivo no qual os cidadãos vivem sob a permanente vigilância de um Estado autoritário. Essa projeção ficcional felizmente não se concretizou. Os anos 80 do século XX, pelo contrário, assistiram ao início da derrocada do comunismo soviético, a inspiração mais imediata de 1984. Não é por nada que já se falou até de um componente paranóico na obra de Orwell. Mas foi esse alarmismo militante que o manteve firme na recusa de toda e qualquer forma de tirania. Ele foi dos poucos intelectuais da esquerda européia que não flertaram com o stalinismo. Pelo contrário, fez da denúncia da barbárie comunista uma de suas missões como jornalista e escritor. Orwell era uma contradição ambulante: o paranóico lúcido. Filho de um funcionário colonial inglês, George Orwell (nome literário de Eric Arthur Blair) nasceu na Índia, em 1903. Na juventude, tentou seguir os passos do pai e serviu como policial numa colônia britânica, a Birmânia (atual Mianmar). Data daí sua profunda desilusão com a violência do colonialismo, expressa em dois dos mais poderosos textos da coletânea, Um Enforcamento e O Abate de um Elefante. De volta à Europa, no fim dos anos 20, viveu entre Paris e Londres, trabalhando como vendedor de livraria, resenhista de livros e jornalista. Foram anos duros, que o autor relatou em Down and Out in Paris and London (algo como Na Pior em Paris e Londres). Chegou a viver entre mendigos, embora haja quem diga que ele romantizou esse trecho da própria biografia: o que era apenas vida boêmia e dissipação foi transformado em pobreza e privação. Mas o empenho de Orwell pelas causas políticas e sociais estava longe de ser apenas festivo. Em 1936, ele viajou para a Espanha para lutar pelos republicanos na Guerra Civil. Foi ferido no pescoço, o que lhe deixou seqüelas permanentes. Dali em diante, só conseguiria falar em tom baixo (o que não o impediu de trabalhar para a rádio BBC durante a II Guerra). Foi com um devastador ataque aos rumos autoritários da revolução russa que Orwell alcançou o sucesso de público como escritor. A fábula A Revolução dos Bichos, de 1945, é uma bela realização de um ideal do autor: transformar a escrita política em arte. Mas é como ensaísta que o poder de fogo de Orwell se mostra mais certeiro e destruidor. Impecáveis tanto na elegância do estilo quanto na lógica argumentativa, os artigos de Orwell desmontam enganos e contradições do pensamento esquerdista. Embora tenha sempre se declarado um socialista, o escritor se recusava a obedecer a qualquer linha partidária. "A aceitação de qualquer disciplina política parece ser incompatível com a integridade literária", escreve Orwell. Sua integridade, porém, sofreu um golpe póstumo grave quando se descobriu, nos anos 90, que Orwell entregara uma lista de "criptocomunistas" aos serviços de informação britânicos, em 1949 (um ano antes de morrer de tuberculose). Entre os "companheiros de viagem" do Partido Comunista apontados pelo dedo duro de Orwell encontravam-se escritores como J.B. Priestley e atores como Charles Chaplin. Apenas um dos acusados era de fato um espião a serviço dos soviéticos – o jornalista Peter Smollett, também suspeito de ter aconselhado um editor inglês a recusar A Revolução dos Bichos. Ao que parece, a lista destinava-se apenas a evitar que o governo inglês contratasse comunistas em potencial, e nenhum dos acusados sofreu alguma forma de retaliação (a Guerra Fria na Europa não produziu os efeitos histéricos que se viram nos Estados Unidos do macarthismo). Mas é melancólico saber que o escritor tenha se rebaixado à delação anônima – logo ele, que em 1984 criticou a vigilância estatal do "Grande Irmão" (o Big Brother, ironicamente convertido em nome de reality show). George Orwell acabou traído por sua própria paranóia.
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http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/imprensa/imprensa_diz.asp?nitem=3185276&sid=184105107111226645935820425&k5=39F72278&uid=
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Na pior em Paris e Londres - George Orwel






Digestivo nº 292 Confessions of a dishwasher
Mais de 55 anos se passaram desde a morte de George Orwell, mas, ao contrário de outras velharias do século passado, ele continua obrigatório como leitura. Não só por causa de 1984, de A Revolução dos Bichos e do Big Brother (expressão que ganhou vida própria, em encarnações as mais variadas) – mas por causa dos seus ensaios. Orwell derrubou o seu Muro de Berlim antes de que fosse erigido o próprio. É leitura mais que indicada para fundamentalistas de esquerda, mas não vamos perder tempo, aqui, com política. Sua mais recente aparição, pela editora Companhia das Letras, é Na pior em Paris e Londres (Down and out in Paris and London, no original), com posfácio de Sérgio Augusto. Não propriamente um livro de ensaios de Orwell, mas um testemunho sobre sua experiência em matéria de pobreza na Europa dos anos 20 – com direito a “pegadas” ensaísticas, em alguns capítulos, inevitáveis. Orwell é subempregado, passa fome e mendiga. Arrisca a vida, causa danos irreparáveis à sua saúde e convive com a escória da humanidade. (Ainda que defenda seus colegas de infortúnio em muitas passagens.) É seu primeiro livro e, quando foi publicado, mereceu a pecha de exagerado. Nosso S.A. conta que na edição do próprio Orwell, recuperada recentemente em um sebo, alguns trechos mais picantes estão marcados com “this happened very much as described”. Depois de ler, e ponderar, o leitor descobre que pouco importa se tudo é 100% verdade. É George Orwell. Também indicado – no tempo em que nossos escrevinhadores confessam suas misérias on-line – para provar que gênio não se adquire, necessariamente, com uma boa passagem pela sarjeta. Orwell queria a experiência, sim, mas antes já era George Orwell (essa é que é a diferença).
>>> Na pior em Paris e Londres - George Orwell - 256 págs. - Companhia das Letras
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Sinopse

'1984' não é apenas mais um livro sobre política, mas uma metáfora do mundo que estamos inexoravelmente construindo. Invasão de privacidade, avanços tecnológicos que propiciam o controle total dos indivíduos, destruição ou manipulação da memória histórica dos povos e guerras para assegurar a paz já fazem parte da realidade. Se essa realidade caminhar para o cenário antevisto em '1984', o indivíduo não terá qualquer defesa. Aí reside a importância de se ler Orwell, porque seus escritos são capazes de alertar as gerações presentes e futuras do perigo que correm e de mobilizá-las pela humanização do mundo.


Vídeos relacionados


Trailer - 1984
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1984, de George Orwell, com Fromm, Pimlott e Pynchon

DIGESTIVOS >>> Literatura

Quarta-feira, 23/12/2009
Literatura
Julio Daio Borges






Digestivo nº 427 >>> 1984, de George Orwell, com Fromm, Pimlott e Pynchon
Dentro da programação de relançamentos da obra de George Orwell, que a Companhia das Letras vem promovendo, acaba de sair 1984, com três posfácios que são um tesouro (além da obra em si). Este 1984, edição 2009, também inclui o apêndice dedicado à “novilíngua”, que Alexandre Hubner e Heloisa Jahn traduziram por “novafala” (acreditando na proximidade maior com o original, “newspeak”). Se alguém hoje se pergunta se deve ler 1984, deveria começar pelos posfácios de Erich Fromm, Ben Pimlott e Thomas Pynchon, ainda na livraria. O primeiro, escrito em 1961, evoca a proximidade da Segunda Guerra Mundial, a ameaça nuclear premente e os horrores do stalinismo. O segundo, de 1989, respira o ar da queda do Muro de Berlim, o fim das utopias socialistas e a vitória controvertida do liberalismo. Já o terceiro, de 2003, na aurora do novo milênio é o menos suscetível aos eflúvios da política (apesar do 11 de Setembro) e o mais literário de todos, e o mais biográfico. Só pelas datas, simbólicas de momentos históricos bem diferentes, é possível inferir como 1984, publicado pouco antes da morte de Orwell (em 1949), continua fundamental, e um poço inesgotável de interpretações. Valem as inquietações de Fromm: “Será que o homem pode se esquecer, um dia, de que é humano?”. Valem também as de Pimlott: “O heroísmo pode, de repente, se tornar vazio, porque não haverá mais ninguém para salvar”. E, igualmente, as de Pynchon: “Esse medo de se acomodar, de se vender, deve ser uma preocupação própria dos escritores”. A obsessão de Orwell com o poder – que, absoluto, corrompe absolutamente (Lord Acton) – produziu, quem diria, um livro poderoso. (Pena que os mandatários de hoje não leiam mais como os de ontem...)
1984

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1984

Conceito do Leitor: Conceito do LeitorConceito do LeitorConceito do LeitorConceito do LeitorConceito do Leitor | (opine)
Autor: ORWELL, GEORGE
Tradutor: JAHN, HELOISA
Tradutor: HUBNER, ALEXANDRE
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA - ROMANCES



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Sinopse


Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O’Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que 'só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade - só o poder pelo poder, poder puro.'


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Sobre o autor:

ORWELL, GEORGE

George Orwell worked successively as a private tutor, schoolteacher and bookshop assistant, and contributed reviews and articles to a number of periodicals in England. Down and Out in Paris and London was published in 1933. In 1936 he was commissioned by Victor Gollancz to visit areas of mass unemployment in Lancashire and Yorkshire, and The Road to Wigan Pier (1937) is a powerful description of the poverty he saw there. At the end of 1936 Orwell went to Spain to fight for the Republicans and was wounded. Homage to Catalonia is his account of the civil war. He was admitted to a sanatorium in 1938 and from then on was never fully fit. He spent six months in Morocco and there wrote Coming Up for Air. During the Second World War he served in the Home Guard and worked for the BBC Eastern Service from 1941 to 1943. As literary editor of the Tribune he contributed a regular page of political and literary commentary, and he also wrote for the Observer and later for the Manchester Evening News. His unique political allegory, Animal Farm was published in 1945, and it was this novel, together with Nineteen Eighty-Four (1949), which brought him world-wide fame.

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http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=2823750
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