sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro


Monday, February 09, 2009

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (1)

Publicado em Castriana, n.º 1, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2002
A imensa maioria das biografias humanas são
uma transição baça entre o espasmo familiar e o esquecimento.
George Steiner
Se, desfeita a ilusão de viver, o viver por viver
ou para outros destinos que morrerão também
não nos enche a alma, por que viver?
Miguel de Unamuno
Nada há de tão importante para o homem
como o seu estado, nada mais temível para ele
do que a eternidade.
Blaise Pascal
.
1. O Mas..., que Ferreira de Castro publicou em 1921, numa edição de autor, é um livro invulgar na sua bibliografia. Adversativo, reticente, polémico, rebarbativo, híbrido nos géneros literários que encerra -- do ensaio ao panfleto e à ficção. (1)
.
(1) Sobre o primeiro título «português» do futuro autor de Terra Fria, ver Jorge de SENA, «Ferreira de Castro, mas...» [1966] Estudos de Literatura Portuguesa - I, Lisboa, Edições 70, 1981, pp. 207-211; e Ricardo António ALVES, «Ferreira de Castro, entre Marinetti e Kropotkine», O Escritor, n.º 11/12, Lisboa, Associação Portuguesa de Escritores, 1998, pp. 175-180.
(continua)
 .
 

Thursday, October 29, 2009

«A cruel indiferença do Universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (2)

Um dos textos mais interessantes e importantes é consagrado a Raul Brandão. Largamente judicativo, baseia-se nos três títulos emblemáticos que até então tinham vindo a lume: A Farsa (1903), Os Pobres (1906) e o Húmus (1917):

«O "Húmus é um grande livro: -- a erguer-se no campo florido do pensamento latino: -- estercolando revolta, esvrumando miséria e desgraça por todas as junturas: -- como um escarro dum gigante solitário sobre os tapetes macios duma sala de anões.» (2)

(2) Ferreira de Castro, «Raul Brandão», Mas..., Lisboa, 1921, p. 34.

Castriana, n.º 1, Ossela, Centro de Estudos Ferreira de Castro, 2002, pp. 112.



Wednesday, December 29, 2010

«A cruel indiferença do universo»: Raul Brandão e Ferreira de Castro (3)

Referindo-se ao que de específico existe na sua obra, à Dor e ao Sonho, à Verdade e à Descrença (assim mesmo, com maiúsculas, ibidem, p. 38), o novíssimo escritor referenciava os espectros que a povoam:

«Raul Brandão não criou personagens. Pegou na Desgraça, na Dor, no Ódio, na Cobiça, na Perversidade e pregou-lhes uma pernas cambaias. E abriu-lhes um boca disforme. » (ibid., p. 36).

Declarando não conhecer Raul Brandão, desejando mesmo não o conhecer para não se desiludir com uma mais que previsível fragilidade humana pudesse «manchar a transcendência de Raul Brandão pensador» (ibid., pp. 37-38), o texto em apreço -- aliás, previamente publicado na efémera revista A Hora (1) -- estaria na origem de uma amizade só interrompida em 1930, com a morte do criador da Candidinha: «ficara Raul Brandão meu amigo», recordará Castro décadas mais tarde, evocando este primeiro escrito. (2). Após ter lido o artigo, Brandão escreveria ao seu autor:

«São raras efectivamente as pessoas que em Portugal estimam os meus livros, mas essas bastam-me quando compreendem não o que vale a minha obra necessariamente imperfeita, mas o esforço que faço, para arrancar alguns farrapos ao limbo...» (3)

(1) No número 3, em 26 de Março de 1922: «Os grandes peninsulares -- Raul Brandão». Muitos dos textos do Mas... saíram previamente n'A Hora. Por outro lado, apesar de o livro ostentar a data de 1921 no frontispício, viria apenas a publicar-se no ano seguinte, uma vez que Castro foi pagando a sua impressão à medida das disponibilidades financeiras.
.
(2) Ferreira de Castro, «[Raul Brandão]», A Unidade Fragmentada. Dispersos de Ferreira de Castro, antologia e apresentação de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal, 1996, p. 235. Texto originalmente publicado em Raul Brandão -- Homenagem no Seu Centenário, Guimarães, Círculo de Arte e Recreio, 1967, pp. 52-54.
.
(3) Nespereira, 28 de Março de 1922. In Ricardo António Alves (ed.), 100 cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara Municipal, / Museu Ferreira de Castro, 1992, p. 9. (Cota do documento: MFC/B-1/13904/Cx.297/Doc.1).
.
 
.
.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A verdadeira amizade

Para: Victor
Assunto: feliz domingo
Data: 12/Dez 9:04
smileys falando

envie para seus amigos www.orkutfotomensagens.com.br
.
A VERDADEIRA AMIZADE 5 Boca doce granjeia muitos amigos e lábios afáveis atraem saudações. 6 Sejam muitos os teus amigos, mas o teu confidente um só entre mil. 7 Queres ter um amigo? Adquire-o com a prova e não te apresses em confiar nele; 8 porque há amigo que se vai com o tempo, e no dia da tribulação não é constante. 9 Há amigo que se torna inimigo, e descobrirá, para tua vergonha, querelas. 10 Há amigo que só o é para a mesa, e que nos dias da desgraça desaparece; 11 na tua prosperidade é como se fosse outro tu, na tua desventura afasta-se de ti; 12 se te colhe o infortúnio, volta-se contra ti, e oculta-se da tua presença. 13 Permanece afastado de teus inimigos, e com os teus amigos tem cuidado. 14 Um amigo fiel é um refúgio poderoso, e quem o encontra, achou um tesouro. 15 Amigo leal não tem preço, e nada se iguala ao seu valor. 16 Bálsamo vital é o amigo fiel; os que temem a Deus o encontram. 17 O que teme a Deus é constante na sua amizade porque qual é ele, tal é também o seu amigo. ECLESIÁSTICO, 6,5-17 AMIGOS E COMPANHEIROS 10 Não abandones o velho amigo, porque o novo não o iguala. Amigo novo é vinho novo, Faze-o envelhecer e depois bebe-o. ECLESIÁTICO, 9,10

Ñatal

Para: Victor
Assunto: Natal
Data: 11/Dez 15:31
Há mais, muito mais, para o Natal do que luz de vela e alegria; É o espírito de doce amizade que brilha todo o ano. É consideração e bondade, é a esperança renascida novamente, para paz, para entendimento, e para benevolência dos homens
.

Boa Tarde e Feliz Natal

Para: Victor
Assunto: bOA TARDE
Data: 11/Dez 15:15

Mesmo Assim - Madre Teresa de Calcutá

Para: Victor
Assunto: olá
Data: 10/Dez 20:09
MESMO ASSIM As pessoas são irracionais, ilógicas e egocêntricas. Ame-as MESMO ASSIM. Se você tem sucesso em suas realizações, ganhará falsos amigos e verdadeiros inimigos. Tenha sucesso MESMO ASSIM. O bem que você faz será esquecido amanhã. Faça o bem MESMO ASSIM. A honestidade e a franqueza o tornam vulnerável. Seja honesto MESMO ASSIM. Aquilo que você levou anos para construir, pode ser destruído de um dia para o outro. Construa MESMO ASSIM. Os pobres têm verdadeiramente necessidade de ajuda, mas alguns deles podem atacá-lo se você os ajudar. Ajude-os MESMO ASSIM. Se você der ao mundo e aos outros o melhor de si mesmo, você corre o risco de se machucar. Dê o que voc.ê tem de melhor MESMO ASSIM. 
.
Madre Tereza de Calcutá [b]Lembrei de você!
.
Orkutei.com.br

Confira mais figuras de Fim de Semana no www.orkutei.com.br

smileys falando

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Alexandre O'Neill em 3 poemas




.
 18 de Outubro de 2009.
  Não se pode salvar o Mundo, mas se fizeres algo de bom e criativo serás um filho da puta a menos."
 
Tchalê Figueira
Artista plástico cabo-verdiano
 Alexandre O'Neill em 3 poemas
A Bicicleta
.
O meu marido saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.

.
Alexandre O'Neill
Auto-retrato
.
O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sobre a ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...

.
Alexandre O'Neill
.
.
http://www.blood-pack.com/index025.htm
.
.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Elegia Escrita em um Cemitério Campestre - Thomas Gray


.
 7 de Outubro de 2009.
  Tinha noite que não saía de casa porque sabia que na rua ia querer fazer de novo, não ia me segurar. Deito e rezo, pra tentar me controlar."
Francisco de Assis Pereira
O Maníaco do Parque

 Elegia Escrita em um Cemitério Campestre
Elegia Escrita em um Cemitério Campestre
Avisa o sino que esmorece o dia;
A tarda grei mugindo o aprisco busca;
Lasso cultor à choça vai, tardia,
Deixando o mundo a mim e à sombra fusca.

Ante os olhos se esfuma o país vasto,
Cum silêncio solene os ares calam;
Salvo onde zune de um besouro o rasto,
Ou tinem chocas, que o redil embalam;

Salvo na torre antiga, que hera veste,
Onde à lua se queixa ermo francelho,
Se alguém, vagando, temerário investe
O seu domínio solitário e velho.

À sombra de olmos, teixos, nessa areia
Onde torneia o chão outeiros vários,
Para sempre os avós toscos da aldeia
Em cela estreita dormem solitários.

Aromas que respira a madrugada,
Gorjeios que do ninho as aves soltam,
Do galo o grito agudo, ou trompa ousada,
Em vão por eles chama; eles não voltam.

Para sempre o fogão calor lhes nega,
Nem terão da consorte à tarde o mimo;
Nenhum pequeno irá ver se o pai chega,
Nem, saltando, colher o afago primo.

A seara cedeu-lhe à foice as messes,
Coa charrua quebrou da terra os combros;
Alegre os bois jungiu; e quantas vezes
Cortou troncos, e trouxe a lenha aos ombros!

Não despreze a ambição tão útil lida,
Sorte escura, caseira, mas contente;
Nem olhe com desdém prole subida
Os símplices anais da pobre gente.

Vanglória de alta estirpe protectora,
Tudo quanto a beleza e bens nos deva,
Da morte espera a inevitável hora:
Da glória a estrada à sepultura leva.

Soberbos! não cuideis que estes errassem:
Se a memória troféus na campa escusa,
Templo vasto que os bronzes atroassem,
Engrossando o epicédio, aqui não se usa.

Não restauram no peito o fogo extinto
Urna histórica, bustos expressivos;
Nem morto pó, que encerra este precinto,
Movem hinos, lisonja, grata aos vivos.

Talvez neste lugar jaz desprezado
Um peito que celeste fogo enchia;
Mão que o ceptro do império houvera honrado,
E na lira prodígios criaria.

Mas a seus olhos a ciência, rica
Dos despojos do tempo, ocultou tudo;
Reprimiu nobre ardor penúria; e fica
Gelado o génio que aquecera o estudo.

Nas grutas insondáveis do oceano
Quantas pérolas puras assim moram!
Quantas boninas nascem, murcham, no ano,
Florescem no deserto, e ali descoram!

Colher aplausos de um senado atento,
Afrontar dores, alcançando glória,
Grato povo fazer povo opulento,
E ler nos olhos dele a própria história;

Vedou-lhe o fado; e não vedou sòmente
Virtudes grandes; restringiu-lhe o crime:
Não os deixa invadir um trono ingente,
Fecha a porta à piedade, o amor comprime.

Constranger do remorso a interna luta,
Apagar do rubor a interna chama;
Acrescentar do luxo a sede bruta,
Cos encómios que aumenta a voz da fama,

Nunca os sóbrios desejos seus souberam,
Nunca no vil ruído desvairaram;
No ignoto e fresco vale onde nasceram
Durante a mansa vida prosperaram.

Estes ossos, contudo, campa escura
Protege contra insultos, onde moram;
Com versos toscos, rústica escultura,
A quem passa, um suspiro é quanto imploram.

Soletra rude muda o nome e a idade;
Em lugar de elegia, ali dominam
Textos santos, sentenças de verdade,
Que ao rústico a morrer constante ensinam.

Quem se verá sem susto em precipício
De entrar no esquecimento tenebroso?
Quem fixará das luz cálida o quício
Sem olhar para trás terno e saudoso?

O que morre confia-se em quem ama,
Pronto espera no instante em que falece;
Da cova mesma a natureza clama,
Seu indómito fogo a cinza aquece.

Tu, que cuidas nos mortos medianos,
Que os seus feitos sem arte assim descreves,
Se um triste aqui trouxerem desenganos,
E perguntar teu fado e dias breves:

"Ao romper da manhã o vi mil vezes,
(Talvez diga um pastor encanecido)
Veloz pisando o orvalho, em quaisquer meses,
Indo encontrar o sol no outeiro erguido.

Junto da faia, que d'além acena,
E a raiz caprichosa estende e enleia,
Lasso, deitado ao sol, e absorto em pena,
A fonte olhava, e o borbulhar da areia.

Junto daquele bosque o vi queixoso,
Lamentando o enfadonho seu cuidado;
Já pálido, já triste e duvidoso,
Louco de dor, de amor desesperado.

Certo dia faltou no usado outeiro,
Perto da mata, e da árvore valida;
No outro não se viu junto ao ribeiro,
Nem na planície, na estação florida:

Com repousos, mortalha, e triste arreio,
Ao adro, no seguinte, foi levado:
Chega-te e lê o verso, pois eu creio
podes ler o que a pedra tem gravado".

                    Epitáfio

Aqui jaz descansado no regaço
Da fria terra um moço ignoto à fama;
Vítima da tristeza e fado escasso,
Mas génio qual o céu deu a quem ama.
De alma sincera, e de bondade extensa,
Deu à miséria quanto tinha - pranto:
Merecia do céu tal recompensa,
Teve um amigo, e só desejou tanto.

Nem mais virtudes nem fraquezas queiras
Arrancar deste sítio tenebroso;
Umas e outras foram passageiras,
E caíram nas mãos de um Deus piedoso.
.
Thomas Gray
Tradução de Marquesa d'Alorna
PS: Foi mantida a grafia original da tradução
.,
.
http://www.blood-pack.com/index025.htm
.
.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

"ELEGY WRITTEN IN A COUNTRY CHURCH-YARD" - Thomas Gray



Thomas Gray - Elegy Written in a Country Churchyard





The curfew tolls the knell of parting day,
The lowing herd wind slowly o'er the lea,
The plowman homeward plods his weary way,
And leaves the world to darkness and to me.

Now fades the glimm'ring landscape on the sight,
And all the air a solemn stillness holds,
Save where the beetle wheels his droning flight,
And drowsy tinklings lull the distant folds;

Save that from yonder ivy-mantled tow'r
The moping owl does to the moon complain
Of such, as wand'ring near her secret bow'r,
Molest her ancient solitary reign.

Beneath those rugged elms, that yew-tree's shade,
Where heaves the turf in many a mould'ring heap,
Each in his narrow cell for ever laid,
The rude forefathers of the hamlet sleep.

The breezy call of incense-breathing Morn,
The swallow twitt'ring from the straw-built shed,
The cock's shrill clarion, or the echoing horn,
No more shall rouse them from their lowly bed.

For them no more the blazing hearth shall burn,
Or busy housewife ply her evening care:
No children run to lisp their sire's return,
Or climb his knees the envied kiss to share.

Oft did the harvest to their sickle yield,
Their furrow oft the stubborn glebe has broke;
How jocund did they drive their team afield!
How bow'd the woods beneath their sturdy stroke!

Let not Ambition mock their useful toil,
Their homely joys, and destiny obscure;
Nor Grandeur hear with a disdainful smile
The short and simple annals of the poor.

The boast of heraldry, the pomp of pow'r,
And all that beauty, all that wealth e'er gave,
Awaits alike th' inevitable hour.
The paths of glory lead but to the grave.

Nor you, ye proud, impute to these the fault,
If Mem'ry o'er their tomb no trophies raise,
Where thro' the long-drawn aisle and fretted vault
The pealing anthem swells the note of praise.

Can storied urn or animated bust
Back to its mansion call the fleeting breath?
Can Honour's voice provoke the silent dust,
Or Flatt'ry soothe the dull cold ear of Death?

Perhaps in this neglected spot is laid
Some heart once pregnant with celestial fire;
Hands, that the rod of empire might have sway'd,
Or wak'd to ecstasy the living lyre.

But Knowledge to their eyes her ample page
Rich with the spoils of time did ne'er unroll;
Chill Penury repress'd their noble rage,
And froze the genial current of the soul.

Full many a gem of purest ray serene,
The dark unfathom'd caves of ocean bear:
Full many a flow'r is born to blush unseen,
And waste its sweetness on the desert air.

Some village-Hampden, that with dauntless breast
The little tyrant of his fields withstood;
Some mute inglorious Milton here may rest,
Some Cromwell guiltless of his country's blood.

Th' applause of list'ning senates to command,
The threats of pain and ruin to despise,
To scatter plenty o'er a smiling land,
And read their hist'ry in a nation's eyes,

Their lot forbade: nor circumscrib'd alone
Their growing virtues, but their crimes confin'd;
Forbade to wade through slaughter to a throne,
And shut the gates of mercy on mankind,

The struggling pangs of conscious truth to hide,
To quench the blushes of ingenuous shame,
Or heap the shrine of Luxury and Pride
With incense kindled at the Muse's flame.

Far from the madding crowd's ignoble strife,
Their sober wishes never learn'd to stray;
Along the cool sequester'd vale of life
They kept the noiseless tenor of their way.

Yet ev'n these bones from insult to protect,
Some frail memorial still erected nigh,
With uncouth rhymes and shapeless sculpture deck'd,
Implores the passing tribute of a sigh.

Their name, their years, spelt by th' unletter'd muse,
The place of fame and elegy supply:
And many a holy text around she strews,
That teach the rustic moralist to die.

For who to dumb Forgetfulness a prey,
This pleasing anxious being e'er resign'd,
Left the warm precincts of the cheerful day,
Nor cast one longing, ling'ring look behind?

On some fond breast the parting soul relies,
Some pious drops the closing eye requires;
Ev'n from the tomb the voice of Nature cries,
Ev'n in our ashes live their wonted fires.

For thee, who mindful of th' unhonour'd Dead
Dost in these lines their artless tale relate;
If chance, by lonely contemplation led,
Some kindred spirit shall inquire thy fate,

Haply some hoary-headed swain may say,
"Oft have we seen him at the peep of dawn
Brushing with hasty steps the dews away
To meet the sun upon the upland lawn.

"There at the foot of yonder nodding beech
That wreathes its old fantastic roots so high,
His listless length at noontide would he stretch,
And pore upon the brook that babbles by.

"Hard by yon wood, now smiling as in scorn,
Mutt'ring his wayward fancies he would rove,
Now drooping, woeful wan, like one forlorn,
Or craz'd with care, or cross'd in hopeless love.

"One morn I miss'd him on the custom'd hill,
Along the heath and near his fav'rite tree;
Another came; nor yet beside the rill,
Nor up the lawn, nor at the wood was he;

"The next with dirges due in sad array
Slow thro' the church-way path we saw him borne.
Approach and read (for thou canst read) the lay,
Grav'd on the stone beneath yon aged thorn."

THE EPITAPH

Here rests his head upon the lap of Earth
A youth to Fortune and to Fame unknown.
Fair Science frown'd not on his humble birth,
And Melancholy mark'd him for her own.

Large was his bounty, and his soul sincere,
Heav'n did a recompense as largely send:
He gave to Mis'ry all he had, a tear,
He gain'd from Heav'n ('twas all he wish'd) a friend.

No farther seek his merits to disclose,
Or draw his frailties from their dread abode
(There they alike in trembling hope repose)
The bosom of his Father and his God.
.
http://www.umiacs.umd.edu/~ridge/local/elegy.html

.
*****
.

Elegy Written in a Country Churchyard | Introduction

Thomas Gray's "Elegy Written in a Country Churchyard" was first published in 1751. Gray may, however, have begun writing the poem in 1742, shortly after the death of his close friend Richard West. An elegy is a poem which laments the dead. Gray's "Elegy Written in a Country Churchyard" is noteworthy in that it mourns the death not of great or famous people, but of common men. The speaker of this poem sees a country churchyard at sunset, which impels him to meditate on the nature of human mortality. The poem invokes the classical idea of memento mori, a Latin phrase which states plainly to all mankind, "Remember that you must die." The speaker considers the fact that in death, there is no difference between great and common people. He goes on to wonder if among the lowly people buried in the churchyard there had been any natural poets or politicians whose talent had simply never been discovered or nurtured. This thought leads him to praise the dead for the honest, simple lives that they lived.
.
Gray did not produce a great deal of poetry; the "Elegy Written in a Country Churchyard," however, has earned him a respected and deserved place in literary history. The poem was written at the end of the Augustan Age and at the beginning of the Romantic period, and the poem has characteristics associated with both literary periods. On the one hand, it has the ordered, balanced phrasing and rational sentiments of Neoclassical poetry. On the other hand, it tends toward the emotionalism and individualism of the Romantic poets; most importantly, it idealizes and elevates the common man.

Elegy Written in a Country Churchyard Summary

.

Lines 1-4:
In the first stanza, the speaker observes the signs of a country day drawing to a close: a curfew bell ringing, a herd of cattle moving across the pasture, and a farm laborer returning home. The speaker is then left alone to contemplate the isolated rural scene. The first line of the poem sets a distinctly somber tone: the curfew bell does not simply ring; it "knells"—a term usually applied to bells rung at a death or funeral. From the start, then, Gray reminds us of human mortality.
.
Lines 5-8:
The second stanza sustains the somber tone of the first: the speaker is not mournful, but pensive, as he describes the peaceful landscape that surrounds him. Even the air is characterized as having a "solemn stillness."
.
Lines 9-12:
The sound of an owl hooting intrudes upon the evening quiet. We are told that the owl "complains"; in this context, the word does not mean "to whine" or "grumble," but "to express sorrow." The owl's call, then, is suggestive of grief. Note that at no point in these three opening stanzas does Gray directly refer to death or a funeral; rather, he indirectly creates a funereal atmosphere by describing just a few mournful sounds.
.
Lines 13-16:
It is in the fourth stanza that the speaker directly draws our attention to the graves in the country churchyard. We are presented with two potentially conflicting images of death. Line 14 describes the heaps of earth surrounding the graves; in order to dig a grave, the earth must necessarily be disrupted. Note that the syntax of this line is slightly confusing. We would expect this sentence to read "Where the turf heaves"—not "where heaves the turf." Gray has inverted the word order. Just as the earth has been disrupted, the syntax imitates the way in which the earth has been disrupted. But by the same token, the "rude Forefathers" buried beneath the earth seem entirely at peace: we are told that they are laid in "cells," a term which reminds us of the quiet of a monastery, and that they "sleep."
.
Lines 17-20:
If the "Forefathers" are sleeping, however, the speaker reminds us that they will never again rise from their "beds" to hear the pleasurable sounds of country life that the living do. The term "lowly beds" describes not only the unpretentious graves in which the forefathers are buried, but the humble conditions that they endured when they were alive.
.
Lines 21-24:
The speaker then moves on to consider some of the other pleasures the dead will no longer enjoy: the happiness of home, wife, and children.
.
Lines 25-28:
The dead will also no longer be able to enjoy the pleasures of work, of plowing the fields each day. This stanza points to the way in which the "Elegy Written in a Country Churchyard" contains elements of both Augustan and Romantic poetry. Poetry that describes agriculture—as this one does—is called georgic. Georgic verse was extremely popular in the eighteenth century. Note, however, that Gray closely identifies the farmers with the land that they work. This association of man and nature is suggestive of a romantic attitude. The georgic elements of the stanza almost demand that we characterize it as typical of the eighteenth century, but its tone looks forward to the Romantic period.
.
Lines 29-32:
The next four stanzas caution those who are wealthy and powerful not to look down on the poor. These lines warn the reader not to slight the "obscure" "destiny" of the poor—the fact that they will never be famous or have long histories, or "annals," written about them.
.
Lines 33-36:
This stanza invokes the idea of memento mori (literally, a reminder of mortality). The speaker reminds the reader that regardless of social position, beauty, or wealth, all must eventually die.
.
Lines 37-40:
The speaker also challenges the reader not to look down on the poor for having modest, simple graves. He suggests, moreover, that the elaborate memorials that adorn the graves of the "Proud" are somehow excessive. In this context, the word "fretted" in line 39 has a double meaning: on the one hand, it can refer to the design on a cathedral ceiling; on the other hand, it can suggest that there is something "fretful," or troublesome, about the extravagant memorials of the wealthy.
.
Lines 41-44:
The speaker observes that nothing can bring the dead back to life, and that all the advantages that the wealthy had in life are useless in the face of death. Neither elaborate funeral monuments nor impressive honors can restore life. Nor can flattery in some way be used to change the mind of death. Note here Gray's use of personification in characterizing both "flattery" and "death"—as though death has a will or mind of its own.
.
Lines 45-48:
The speaker then reconsiders the poor people buried in the churchyard. He wonders what great deeds they might have accomplished had they been given the opportunity: one of these poor farmers, the speaker reasons, might have... » Complete Elegy Written in a Country Churchyard Summary
.
http://www.enotes.com/elegy-written
.


Dee Brown, Enterrem meu coração na curva do rio




Clique sobre a imagem para ampliar!
.
Enterrem meu coração na curva do rio,
.
É o eloquente e meticuloso relato da destruição sistemática dos índios da América do Norte. Lançando mão de várias fontes, como registros oficiais, autobiografias, depoimentos e descrições de primeira-mão, Dee Brown faz grandes chefes e guerreiros das tribos Dakota, Ute, Sioux, Cheyenne e outras contarem com suas próprias palavras sobre as batalhas contra os brancos, que, na segunda metade do século XIX, terminou por desmoralizá-los, derrotá-los e praticamente  extinguí-los.
.
Publicado originalmente em 1970, este livro foi traduzido para dezessete línguas e vendeu quatro milhões de exemplares. Com ele, Dee Brown, um dos maiores especialistas em história norte-americana, mudou para sempre o modo do mundo ver a conquista do Velho Oeste e a história do extermínio dos peles-vermelhas.
.
Índice:
.
1 - Suas maneiras são decentes e elogiáveis
2 - A Longa marcha dos Navajos
3 - A guerra chega aos Cheyennes
4 - Invasão do rio Powder
5 - A guerra de Nuvem Vermelha
6 - O único índio bom é um índio morto
7 - Ascensão e queda de Donehogawa
8 - Cochise e as guerrilhas apaches
9 - A guerra para salvar o búfalo
10 - A guerra pelas Black Hills
11 - O êxodo dos Cheyennes
12 - O último chefe apache
13 - Dança dos fantasmas
14 - Wounded Knee
Bibliografia


"Onde estão hoje os Pequots? Onde estão os narragansetts, os moicanos, os pokanokets e muitas outras tribos outrora poderosas de nosso povo? Desapareceram diante da avareza e da opressão do Homem Branco, como a neve diante de um sol de verão. Vamos nos deixar destruir, por nossa vez, sem luta, renunciar a nossas casas, a nossa terra dada pelo Grande Espírito, aos túmulos de nossos mortos e a tudo que nos é caro e sagrado? Sei que vão gritar comigo: Nunca! Nunca!"
TECUMSEH, dos shawnees

"De quem foi a voz que primeiro soou nesta terra? A voz do povo vermelho que só tinha arcos e flechas...O que foi feito em minha terra, eu não quis, nem pedi;os brancos percorrendo minha terra...Quando o homem branco vem ao meu território, deixa uma trilha de sangue atrás dele...Tenho duas montanhas neste território - as Black Hills e a montanha Big Horn. Quero que o Pai Grande não faça estradas através delas. Disse estas coisas três vezes; agora venho dizê-las pela quarta vez."
.
MAHPIUALUTA (Nuvem Vermelha), dos sioux oglalas
.
Em tempo: Imagem e textos do livro "Enterrem meu coração no curva do rio", Editora L&PM, primeira edição na coleção L&PM Pocket, outubro/2003. Escrito por Dee Brown, traduzido por Geraldo Galvão Ferraz, 396 páginas, formato 10 x 17cm, R$ 20,00.
.
http://www.texbr.com/artigos/artigos2004/0223_dee_brown.htm
.

Carta do Chefe Seattle ao presidente dos Estados Unidos




.
.
AleZawadzki | 26 de Setembro de 2008 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 1 utilizadores que não gostaram deste vídeo

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007


Carta do Chefe Seattle ao presidente dos Estados Unidos


Em 1854, o presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Pierce, enviou uma carta ao cacique, Noah Sealth da tribo Duwamish, mais conhecido como Chefe Seattle, onde manifestava o interesse de adquirir a terra onde viviam aqueles índios.
.
Essa foi a resposta do Chefe Seattle:
.
"Como é que se pode comprar ou vender o céu, o calor da terra? Essa idéia nos parece estranha. Se não possuímos o frescor do ar e o brilho da água, como é possível comprá-los?

Cada pedaço desta terra é sagrado para meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra na floresta densa, cada clareira e inseto a zumbir são sagrados na memória e experiência de meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.
Os mortos do homem branco esquecem sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos úmidos nas campinas, o calor do corpo do potro, e o homem - todos pertencem à mesma família.

Portanto, quando o Grande Chefe em Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós.O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos considerar sua oferta de comprar nossa terra. Mas isso não será fácil. Esta terra é sagrada para nós.Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas o sangue de nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se de que ela é sagrada, e devem ensinar as suas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais.

Os rios são nossos irmãos, saciam nossa sede. Os rios carregam nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar a seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue seu caminho. Deixa para trás os túmulos de seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria de seus filhos e não se importa. A sepultura de seu pai e os direitos de seus filhos são esquecidos. Trata sua mãe, a terra, e seu irmão, o céu, como coisas que possam ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.

Eu não sei, nossos costumes são diferentes dos seus. A visão de suas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreenda.Não há um lugar quieto nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar de folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. Mas talvez seja porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos.

E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o choro solitário de uma ave ou o debate dos sapos ao redor de uma lagoa, à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo. O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio vento, limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.

O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como um homem agonizante há vários dias, é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que mantém. O vento que deu a nosso avô seu primeiro inspirar também recebe seu último suspiro. Se lhes vendermos nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.

Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como seus irmãos.Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir.Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecer vivos.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais se fossem o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo a seus pés é a cinza de nossos avós. Para que respeitem a terra, digam a seus filhos que ela foi enriquecida com as vidas de nosso povo. Ensinem as suas crianças o que ensinamos as nossas que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo.

O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.

Mesmo o homem branco, cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos - e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: nosso Deus é o mesmo Deus. Vocês podem pensar que O possuem, como desejam possuir nossa terra; mas não é possível. Ele é o Deus do homem, e Sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra lhe é preciosa, e ferí-la é desprezar seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as outras tribos. Contaminem suas camas, e uma noite serão sufocados pelos próprios dejetos.

Mas quando de sua desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre a terra e sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos bravios sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnadas do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruída por fios que falam.

Onde está o arvoredo? Desapareceu.
Onde está a águia? Desapareceu.
É o final da vida e o início da sobrevivência."

O nome da cidade de Seattle é em honra desse grande chefe, que acabou eternizado, como um exemplo de amor e respeito ao meio ambiente. Nada mais atual.

Abraços!!
.
.http://olharglobal.blogspot.com/2007/12/carta-do-chefe-seattle-ao-presidente.html
.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Saramago: uma obra que continua além do ponto final





Beatriz Santana, de São Paulo (SP)
 



• Alan (nome fictício) é um operário atualmente desempregado de 31 anos. Em fevereiro deste ano ele leu pela primeira vez um livro do escritor português José Saramago, “O homem duplicado”, emprestado da biblioteca do Senai. Desde esta primeira leitura, Alan se apaixonou pela escrita de Saramago. Leu em poucos meses mais três livros: “O evangelho segundo Jesus Cristo”, “Caim” e “Ensaio sobre a cegueira”. Alan conta que “no começo foi um impacto a forma como ele escreve, com um texto corrido, diálogos sem a separação de parágrafo e indicação de travessão. Mas depois, quando a gente se acostuma, fica interessante. Passei a gostar daquela forma, tanto que às vezes me dá vontade de usar certas palavras e expressões que ele usa e que não usamos normalmente”.

Alan começou a conhecer a obra Saramago poucos meses antes da morte do escritor, ocorrida neste 18 de junho. Este exemplo mostra a capacidade da literatura de Saramago de tocar as pessoas.

Operário, tradutor, funcionário público, escritor
José Saramago morreu de falência múltipla dos órgãos aos 87 anos de idade, ao lado de sua mulher Pilar Del Rio, em sua casa na ilha de Lanzarote, nas Ilhas Canárias. O escritor já estava doente há algum tempo e seu estado se agravou nas últimas semanas. Quando falou sobre a morte, ou autor definiu: “O corpo também é um sistema organizado, e a morte não é mais do que o efeito de uma desorganização”.

Nascido em uma família pobre, ele não teve acesso a uma universidade, apesar do gosto pelos estudos. Assim como Alan, Saramago cursou um ensino técnico e tornou-se operário. Também tinha como fonte de suas leituras e aprendizados as visitas frequentes à Biblioteca Municipal Central de Lisboa.

Saramago publicou seu primeiro romance aos 25 anos, “Terra do Pecado”. Foi funcionário público e, em 1955, para aumentar os rendimentos, começou a fazer traduções de obras de grandes autores como Hegel, Tolstói e Baudelaire, entre outros. Em 1975, ele vai trabalhar no Diário de Notícias.

Hormônio comunista
Viveu a Revolução dos Cravos e levantou até o final de sua vida a bandeira comunista como uma necessidade para a solução dos problemas do mundo. Dizia que “assim como tenho no corpo um hormônio que me faz crescer a barba, há outro que me obriga a ser comunista”.

Uma de suas atitudes políticas mais criticadas foi a defesa dos palestinos contra a ocupação israelense. Recentemente também realizou uma campanha de ajuda aos haitianos, vítimas do terremoto ocorrido no país.

As duras polêmicas com a Igreja marcaram a vida e a obra do escritor ateu. Em livros como “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim”, Saramago ousa reescrever a Bíblia em tom de farsa e ironia, arreganhando as frestas das entrelinhas ambíguas dos textos bíblicos, introduzindo humor e conflito na relação entre Criador e criatura.

Saramaguiana
Saramago escreveu diversas obras de prosa e poesia, porém foi em 1980, com a publicação de “Levantados do chão”, que a literatura do escritor ganha suas características mais marcantes. O livro teve como tema a vida da população pobre do Alentejo.

A forma desenvolvida por Saramago, com escassez de pontos finais, longos parágrafos, ausência de travessões, o que a princípio pode causar estranhamento no leitor, é também o que confere ao texto uma fluidez única. Já no livro “O ano de 1993”, por sua vez, sua prosa se contorna em pequenos parágrafos ritmados que quase se tornam poesia. Além disso, marca a literatura saramaguiana a beleza inusitada das metáforas que comandam por livros inteiros a reflexão sobre temas filosóficos e sociais.

Devido a este caráter ímpar de seu texto, Saramago é tido por muitos críticos como um dos principais nomes da literatura de língua portuguesa, figurando lado a lado com nomes como Fernando Pessoa e Guimarães Rosa. Este reconhecimento lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

A morte
Na conquista de novos e inesperados leitores, como Alan, a obra de Saramago vive. Assim como Alan, muitos ainda poderão conhecer e se apaixonar pela literatura de Saramago.

A morte, que agora chega aos olhos do escritor, foi tema de algumas de suas obras. Em “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, Saramago homenageia Fernando Pessoa, mostrando como teria sido a morte deste seu heterônimo. Já o livro “Intermitências da Morte” se inicia com a frase “No dia seguinte ninguém morreu”. Nele, Saramago expõe as reações da Igreja, do governo, da imprensa, das famílias e instituições diante do fenômeno da ausência da morte.

Falemos, portanto, da ausência da morte de Saramago. Saramago não gostava de pontos finais, apenas salpicava vírgulas a gosto. Sua morte, desta forma, não pontua um final de sua existência, perpetua sua obra em eternos parágrafos intermitentes.
 
.
.http://www.pstu.org.br/cultura_materia.asp?id=11709&ida=0
.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Nando Poeta lança cordel '1º de Maio'



da redação




• No Dia dos Trabalhadores, Nando Poeta lança mais um cordel: 1º de Maio, Dia Internacional de Luta dos Trabalhadores, pela Editora Luzeiro. O texto é composto por 48 estrofes de seis versos cada.

Nando lembra e homenageia os Mártires de Chicago, que marcaram a data em 1886. Durante uma forte greve geral por redução de salários e melhores condições de trabalho, centenas de operários foram mortos pela repressão policial.

Nando também adaptou trechos do discurso dos operários e da “A Internacional comunista”, hino dos trabalhadores escrita pelo francês Eugene Pottier e composto pelo belga Pierre Degeyter no século XIX.

Parsons faz o discurso,
Em prol do trabalhador:
“A farsa da patronal
Traz o sofrimento e dor
Que as forças sociais
Combatam o explorador.”

O poeta transpõe para os dias de hoje a luta daqueles trabalhadores. Ao longo do cordel, ele defende que os trabalhadores do mundo inteiro se unam contra a exploração dos patrões e dos governos. Nando também critica as megafestas das centrais pelegas, que promovem shows e sorteiam prêmios, desviando o foco da luta.

Todo Primeiro de Maio
Dia do trabalhador
Todos devem ir às ruas
Pra mostrar o seu valor
Conquistando mais direitos,
Enfrentando o opressor.


O poeta
Nando Poeta nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte, em 1962. formado em Ciências Sociais, hoje ele reside na capital paulista, onde é professor e militante do PSTU. Em São Paulo, Nando tem divulgado a literatura de cordel.

Em 2008, lançou A turbulência econômica, que pode ser lido aqui no Portal. Em 2009, lançou Mulheres em luta, em homenagem ao 8 de março. Ambos foram lançados pela Editora Luzeiro. Pela Casa do Cordel, lançou Bush e Obama e a peleja da CUT com a Conlutas.

O lançamento do cordel 1º de maio será em São Paulo, no dia 1º de maio, próxima sexta-feira. O evento acontece a partir das 19h, no bar Frango com Tudo, que fica na rua Canuto do Val, 115, metrô Santa Cecília.
.
http://www.pstu.org.br/cultura_materia.asp?id=10075&ida=0
.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O PRESÉPIO por Carmen Montesino

 a Terça-feira, 21 de Dezembro de 2010 às 23:31
.
Era véspera do Natal.
.
Não lhe deixavam luz; mas que importava? Às escuras armaria o Presépio. E logo principiou. Enrolou o moinho, pôs-lhe as velas; esticou o papel azul que fingia o céu e pregou nele com um alfinete a meia Lua; espalhou o vidro moído, num S á volta das palhas; dispôs as figurinhas, suspendeu os anjos.

Deram onze e três quartos.
Ajoelhou.
Batia-lhe o coração, parecia-lhe que deviam ser milagrosas as figurinhas, que delas lhe viria algum bem, consolação da sua vida triste.

Meia noite!
Acendeu os fósforos e ficou embevecido!
Nunca assim vira coisa tão perfeita. Os anjos voavam deveras, os cavalos dos reis galopavam, o rio corria, as velas giravam no moinho e os pontinhos do Menino Jesus sorriam-lhe no rosto, a S. José e a Nossa Senhora!

Pôs-se a cantar, como lá na aldeia:

  Andava nessas campinas,Esta noite, um querubim!

(in Antologia de Histórias Portuguesas de Natal, por Vasco Graça Moura)


.
(1)

P.S. Um feliz Natal para todos !

.
 ..
(...)
.
Victor Nogueira
Bjo e uma canção natalícia e de Ano Novo :-)
.
.
.
(1)

What Child Is This

pfrodigal | 11 de Agosto de 2006 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 21 utilizadores que não gostaram deste vídeo
http://www.mitchfewell.com/jay for part learning mp3's to this song and... you can go to http://www.mitchfewell.com/tunes for free mp3's from Mitch
.
.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Nascimento de Jesus, Um Cordel sobre o Natal - Euriano Sales


.
.
euriano | 23 de Dezembro de 2008 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 4 utilizadores que não gostaram deste vídeo
O Nascimento de Jesus, Um Cordel sobre o Natal.
Textos: Euriano Sales - Ilustrações: Meg Banhos - Locução e Edição: Euriano Sales -  Trilha: Sa Grama

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

João de Calais: do cordel à literatura de quadrinhos

Notícias

Vermelho - 19 de Novembro de 2010 - 9h45

Cantam nautas choram flautas
Pelo mar e pelo mar
Uma sereia a cantar
Vela o Destino dos nautas.
(Augusto dos Anjos. Barcarola)

Cordel Câmara Cascudo inclui este romance entre os “Cinco Livros do Povo”.
.
A história de João de Calais pertence ao ciclo de cordel denominado “morto agradecido”. Câmara Cascudo inclui este romance entre os “Cinco Livros do Povo”, juntamente com “Donzela Teodora”, “Imperatriz Porcina”, “Roberto do Diabo” e “Princesa Megalona”.

A origem de João de Calais é francesa. Atribui-se à Madeleine Angélique Poisson a autoria da história. Casando-se com um espanhol, a escritora passou a ser conhecida como Madame de Gómez. No Brasil, a história de João de Calais foi divulgada por Câmara Cascudo ( prosa) e pelos cordelistas (poesia).

Na década de 1990, a editora Scipione publicou oito contos tradicionais de literatura popular, reescritos e ilustrados por Ricardo Azevedo e Ciça Fittipladi. “João de Calais” integra essa coleção.

Em 2010, a editora FTD lançou “História do navegador João de Calais e de sua amada Constança”, versão de Arievaldo Viana. Os textos da Scipione eram em prosa, a nova edição da FTD alia o cordel (sextilhas) à literatura de quadrinhos.

Arievaldo Viana, conhecido cordelista cearense, criou o texto verbal e Jô Oliveira fez as ilustrações. Nos dados biográficos do cordelista e do ilustrador, aparecem essas informações: Arievaldo Viana nasceu em uma fazenda do Ceará nas proximidades de Quixeramobim e sua diversão de criança era ouvir a avó Alzira ler os folhetos de cordel. Jô Oliveira nasceu em Pernambuco, mas passou parte de sua infância em Campina Grande, Paraíba. Nos idos de 1950, envolveu-se com quadrinhos e cordel e esse gosto, adquirido na infância, perdura até hoje. Depois dessas informações, caminhemos em direção ao livro de Arievaldo Viana e Jô Oliveira.

Para escrever a história de João de Calais, Arievaldo partiu do texto em prosa apresentado por Câmara Cascudo e procurou uma maneira fácil de ser compreendido por leitores de “qualquer idade... dos oito aos 80 anos” (o cordel). Quando criança, teve contato com a versão de Severino Borges da Silva, uma edição da Luzeiro do Norte, folheteria de João José da Silva.

A história quadrinizada se inicia com invocação às musas e o poeta pede a proteção divina para falar sobre João de Calais. Embora o texto original tenha vindo da França, o cordelista prefere a pronúncia portuguesa – Calais e não Calé.

Dirigindo-se aos leitores, afirma que vai falar do amor de Constança e das batalhas de João. Dois motivos quase universais aparecem na história – “o morto agradecido” e a “esposa resgatada”.

No universo dos personagens, destacam-se: João de Calais, Constança e a prima Isabel, o pai de João de Calais, o rei de Palermo, pai de Constança, e o sobrinho do rei – Florimundo, “um jovem mau e egoísta/ sujeito péssimo e imundo” e um morto insepulto.

É uma história marcada por aventuras marítimas, pirataria, traições e ciúmes.

O traço vigoroso de Jô Oliveira captou os momentos de tensão e os personagens revelam aflição no olhar, medo diante das adversidades e assombro perante fatos estranhos. As cores fortes, com predomínio do amarelo e vermelho, condizem com o sol tropical do Nordeste.

Este folheto tem despertado a atenção dos estudiosos da literatura de cordel. A professora Neuma Fechine Borges, na década de 1970, analisou-o à luz da semiótica na sua dissertação de mestrado na Universidade Federal da Paraíba. O trabalho da professora Neuma Fechine foi apresentado em diversas cidades brasileiras, em Portugal e na França (Universidade de Poitiers).

Neuma Fechine não teve a oportunidade de conhecer a versão de Arievaldo Viana, partiu antes do tempo, mas, certamente, iria gostar de saber que o folheto de Severino Borges foi revisitado por um cordelista jovem que imprimiu uma nova feição à velha história de João de Calais.
.
.

.
renanbpf | 19 de Setembro de 2007 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 5 utilizadores que não gostaram deste vídeo
A TODOS QUE QUISEREM, PODER USAR DESTE VIDEO PARA TRABALHOS OU QUALQUER OUTRA APRESENTAÇÃO, SEM PROBLEMAS, BOM SABER QUE GOSTARAM DO TRABALHO !!! Foi um trabalho para o seminario de Português instrumental I da UNICAP, curso de DIREITO
.

Oswald Barroso: Sertão de Poesia

Notícias

Vermelho - 18 de Dezembro de 2010 - 0h01

O Cedro que eu conheci no início dos anos oitenta do século passado ainda era o município de pequenos sitiantes produtores de algodão, com a usina de sua cooperativa agrícola, a escola técnica e várias indústrias em pleno funcionamento, além de um comércio muito ativo, ares de antigo centro ferroviário, lugar próspero, onde corria algum dinheiro na zona rural e se podia contratar um cantador de viola ou um sanfoneiro dos bons para uma noitada inteira.

Por Oswald Barroso*

Talvez por isso, guardasse marcas da pequena Atenas cabocla que fora, espécie de São José do Egito cearense(1) , ou de Assaré de Patativa, já que naqueles sítios, apesar da faina intensa sobrava tempo para ouvir rádio e sonhar poesia.

 
Imagino que ali, durante a primeira metade do século 20, quando Idalzira nasceu, o cabra em vez de nascer chorando, como costuma acontecer, já nascia cantando, porque versejar era como falar. Então, veja lá, havia dentro de casa o pai João Bezerra, exímio poeta, e Joan ainda fala de um “Tio Clóidio” que na certa por ali andava. Além do mais, é preciso lembrar, o Cedro não por acaso ser berço de Geraldo Amâncio, um dos maiores cantadores brasileiros da atualidade, nascido exatamente nos meados dos mil e novecentos. Poesia, portanto, no meio em que Idalzira foi criada, era patrimônio familiar e comunitário, pra lá de literatura e arte, assunto cotidiano, jogo e divertimento, motivo para disputa, exibicionismo, duelo e desafio.

Sob inspiração das musas eram organizados torneios, festivais, com gêneros diversos de disputas, que incluíam perguntas e advinhas. Provas nas quais os contendores, homens ou mulheres, careciam mostrar poderes mágicos com as palavras, através de arranjos intrincados de sons, e arrotar valentia, como se estivessem manejando espadas invisíveis. Conforme o caso, precisavam fazer tremer o inimigo com versos indecifráveis e rimas terríveis, ou comover o coração das mais resistentes donzelas com a narrativa de romances enternecedores.
 
Leia também
 
Talvez, principalmente, da intimidade do lar se nutrisse aquela poética, porque naqueles sítios de então, a vida se completava em rima. Digo pela forma como Idalzira fala de sua própria experiência: “Eu rimo quando estou triste/Para as mágoas espantar/Rimo quando tenho saudades/Pois é muito feio chorar/Rimo quando estou contente/Rimo quando estou ausente/Querendo te abraçar.” E de jogos e brincadeiras, as rimas se espalhavam por afetos, sentimentos, desejos, angústias, saudades, aflições, em conversas de salas, cozinhas, alcovas e alpendres principalmente. Demoravam-se em sessões nas quais a palavra falada, cantada de preferência, medida, exata, bem escolhida, era cultivada e cultuada, debulhada em cordéis, fabulada em histórias que narravam desde os mitos da origem dos tempos até a última novidade apregoada na feira ou ouvida no rádio.

Em sítios assim, orgulho maior é ser membro de uma prole de poetas, trovadores, repentistas ou especialistas outros do verso, como a família Bezerra de Idalzira. Não por acaso, Erivan, o caçula, perde completamente a modéstia para seguir a tradição, quando afirma sua pertença a esse clã. Diz ele, numa bela quadra: “Eu sou a pedra turquesa/Minha mãe é uma safira/Sou filho de Idalzira/Poeta por natureza.” E não está mentindo, pois se trata de uma família onde o cultivo da arte poética é bem herdado, estando justificada a admiração recíproca, embora, como afirma com autoridade Joan, o filho mais velho, a mestra indiscutível seja a mãe.

xxx

Visitei o Cedro, quinze anos depois de haver lá morado, dessa vez como repórter, e também Morada Nova, outro município onde havia do mesmo modo trabalhado como educador em cooperativas de pequenos produtores de algodão. Outra era a realidade. Distritos e sítios esvaziados, plantações abandonadas. Comércio mais ativo só no dia de pagamento dos aposentados. A população envelhecera, o interior definhara. No Cedro as poucas indústrias, casas de comércio maiores e centros educacionais haviam fechado. A juventude emigrara. Nos sítios, principalmente, estabelecera-se um sentimento de abandono na fala dos velhos.

Talvez por isso, a sensação que me veio ao ler a carta de Idalzira para Joan sobre o mote: “De uma casa cheia de gente/Só resta um gato e um cancão”, foi o de estar frente a uma nova “Triste Partida”, de um canto social, como o de Patativa do Assaré. Um canto de tristeza dos que ficaram e, porque não dizer também, dos que partiram. De uma família de sitiantes que vê seus filhos irem-se, um a um, às vezes para nunca regressarem. Por isso, o canto de Idalzira é geral e dói além de sua dor particular. É a dor do migrante e de sua terra, é a dor de dois terços do mundo. É a dor de um coração partido.

Mas a dor de Idalzira é também só dela e única, porque se foi Joan e depois, tão menino ainda, Erivan, o caçula. Logo ele. Nem adiantou o consolo da visita à residência universitária e o conselho ao filho, de colocar na parede uma gravura do sol brincando com a lua, no lugar da foto de uma mulher nua (na certa por causa da rima, pois ela queria certamente era que o filho colasse a gravura de uma santa). Nada preenche o vazio na casa após a partida dos filhos. Nem os bichos: “O cancão, meu grande amigo/Canta e pula sem parar/O gato fica a miar/Pensando que não lhe ligo/Porém baixinho lhe digo/Não tenha ciúme não/Que é grande meu coração/Amo a todos igualmente./De uma casa cheia de gente/Só resta um gato e um cancão...”

Se para quem fica o vazio não tem tamanho, para quem vai a dor tem a mesma proporção, como mostram esses versos antológicos de Joan: “Volto a pegar no papel/Pra mais uma vez escrever/Tentar assim combater/Esta saudade cruel/Que amarga como fel/Corrói o peito da gente/Dá uma dor tão pungente/Que quase eu dou razão/A quem mata a solidão/Em um copo de aguardente.”
"O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente".
Fernando Pessoa
E o que é tão grande para uma mãe quanto o vazio de uma casa sem os filhos? Um vazio que nem a zoada de um cancão e de um gato, de madrugada pedindo comida, abala? O que pode preencher a espera de uma mãe solitária enquanto sonha em reunir a família no final do ano? A poesia, Sultão! Responderia a princesa Sherazade.

A maga Idalzira também é iniciada nesse segredo. Para preencher o vazio de seu mundo, armou uma dimensão de versos e rimas. Fez-se aranha rainha, lançou suas linhas e estendeu sua teia entre os caibros, ligando filhos e netos. Dor e solidão, distância e separação, espera e abandono tratou de encantar em poesia. Por carta novamente a prole dos Bezerra deu corpo ao Cedro do velho João. Fez reviver os romances de amor, o lirismo dos trovadores, mas também os torneios cavaleirescos, os desafios, as disputas, os repentes, o humor corrosivo, o sarcasmo até, a valentia, a pabulagem, a briga, a dor, a traição, o ciúme, a intriga (por que não?), todos eles ingredientes indispensáveis para uma cantoria cheia de suspense ou para um cordel repleto de imprevistos.

Na correspondência mantida entre Idalzira, filhos e neta, a vida se faz arte e a realidade se encanta em ficção. Entre afetos e notícias trocados por mãe e filhos, os poetas inserem ingredientes propositalmente artísticos. Primeiro são os filhos que, brincando, fingem querer suplantar a mãe na arte poética. Ela como resposta lhes dá um puxão de orelha: – Respeita Januário! Depois, Joan e Erivan disputam a atenção e o amor de Idalzira simulando brigar por ela. Tudo para impressionar a mãe. E saem por aí, trocando rima, se exibindo para Idalzira, travando desafios, fingindo que a luta é só de brincadeira, pra mãe não se chatear com a arenga dos filhos. Em seguida, vêm os desafios lançados dos filhos à mãe e aceitos para saudar com versos cada neto que nasce, cada filho que casa, cada novo acontecimento na família. Mais adiante, é Joan que, para chamar atenção, se mostra escandalizado com o casamento da irmã e inventa de fazer graça, transformando aquilo num fato extraordinário.

A verdade é que nessa correspondência poética, não se sabe em que direção vai o fingimento, se no sentido de fazer a dor parecer maior para torná-la mais eficazmente artística, ou se no sentido de fazê-la artística para que se torne mais suportável. Não se pode precisar se a queixa da mãe é um pretexto para fazer poesia ou se fazer poesia é uma forma da queixa não se tornar aborrecida (porque sempre com muito bom humor), ou seja, da queixa poder ser feita reiteradamente, isto é, de fingir estar usando o pretexto da queixa para fazer poesia, quando a mãe quer mesmo é se queixar da falta de notícias do filho. Daí vem o dito de Fernando Pessoa colocado na abertura desse texto.

Muitas são cartas comuns como as de mãe orientando o filho, aconselhando o filho que se candidatou a vereador, ou a do filho consolando a mãe saudosa, outras da mãe com críticas e comentários políticos, mas há até mesmo cartas inusitadas como a do filho dando conselhos à mãe, escrita por ele como se aconselhasse uma filha, com muito humor e descontração. Depois entra a neta Geórgia na conversa e mantém o nível poético da correspondência, agora entre avó, filhos e neta.

Afinal, são cartas que ajudam a transformar a saudade em arte, a dor em vida, a solidão em beleza. Cartas que viraram atração entre os amigos de Joan e Erivan, lidas para o coletivo de estudantes. Cartas que, acima de tudo, revelam um imenso amor entre os três, agora quatro, sentimento bem traduzido nesses versos de Erivan para a mãe: “Me despeço de antemão/Já com saudade no peito/Mas sinto que é o jeito/Pois o tempo é um balão/Voando de hora em hora/Minha vontade era agora/Lhe mandar meu coração.”

Por tratar-se de um livro de correspondência poética, entre uma mãe e os seus, a obra já teria assegurado seu interesse e sua originalidade. De quebra, Idalzira ainda nos brinda com uma série de sonetos e outros poemas, em que fala de sua vida, de seus sentimentos, de sua família, de seus alunos e de sua terra, o Cedro. Trata-se, além do mais, de uma crônica do cotidiano rural, de um rico testemunho dos costumes, da política, da vida nos sítios, dos valores morais e do imaginário de uma vila sertaneja, onde ainda havia tempo e espaço para traduzir o mundo em poesia.

(1) Município do Alto Sertão do Pajeú pernambucano, berço de tantos poetas e cantadores famosos, entre os quais Rogaciano Leite e os irmãos Batista, Lourival, Dimas e Otacílio.

* Oswald Barroso é professor universitário, poeta, dramaturgo e pesquisador da cultura popular
.
.