Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 7 de março de 2025
Carlos Ferro - A LÍNGUA PORTUGUESA DE RASTOS - Preguiça linguística ou um “elefante na sala”?
quarta-feira, 1 de novembro de 2023
Pedro Tadeu - Um pacifista é um energúmeno?
terça-feira, 15 de agosto de 2023
DN - Entrevista a João Soares, por Pedro Cruz
João Soares:
"Sócrates fez uma asneira porque quem foi líder de um partido, não se
demite dele"
Artigo originalmente publicado a 14 de abril de 2023. O DN, durante o mês de agosto, republica algumas entrevistas marcantes e mais lidas desde o verão de 2022..
João Pedro
Henriques e Pedro Cruz
15 Agosto 2023
Filho do
principal fundador do PS, João Soares, ex-deputado, ex-presidente da Câmara de
Lisboa e ex-ministro de Costa, diz que todos os ex-líderes devem ser convidados
para a festa dos 50 anos, inclusivamente Sócrates, apesar da
"asneira" de ter deixado o partido.
Onde é que
estava no dia 19 de abril de 1973? Mário Soares e a mulher Maria Barroso
estavam na Alemanha, na reunião da fundação do Partido Socialista. Maria
Barroso é, aliás, a única mulher presente na fotografia que se tornou icónica e
que marca o nascimento do partido. E os filhos, Isabel e João? João Soares
tinha 23 anos. Hoje, com 73 anos, afastado da política depois de ter sido
deputado, presidente da câmara de Lisboa e (muito esporadicamente) ministro (da
Cultura), João Soares dá nesta entrevista DN/TSF a sua visão do que foi a
fundação do PS.
Onde é que
estava no dia 19 de abril de 1973?
Eu e a minha
irmã estávamos em Paris, curiosamente, mas estávamos evidentemente a par do que
se ia passar na Alemanha. E até recebemos indicações para, no final dos
trabalhos, mandar um telegrama para o Porto, para os irmãos Cal Brandão ou para
o António Macedo, com um texto perfeitamente anódino e pré combinado que
sinalizaria que as coisas tinham corrido bem e que o desfecho tinha sido aquele
que todos eles esperávamos.
Fernanda Câncio - Clericalismo e anticlericalismo, uma introdução
* Fernanda Câncio
15 Agosto 2023
Mais de um
século após a 1ª República e no ano em que finalmente se revelou a diabólica
dimensão dos crimes de abuso na Igreja Católica portuguesa, descobrimos que um
furor clerical tomou conta dos representantes do Estado e das autarquias, e que
ser anticlerical é descrito como ódio e fobia. Há coisas do demónio.
Achava que já
tinha escrito que chegasse a
propósito da Jornada Mundial da Juventude, mas a possessão beata dos
representantes do Estado e autarquias portuguesas não permite mudar de assunto.
Não bastou,
portanto, torrar dezenas de milhões de euros numa semana de propaganda religiosa
de uma igreja, nem vermos o primeiro-ministro a determinar, definitivo e
autocrático, como "absurdas essas polémicas" - as sobre os gastos -
assegurando de seguida que o tal retorno incrível que ia haver de todo esse
investimento é "imaterial" (em lugares no céu?). Não chegou termos a
conversão televisiva do presidente da Câmara de Lisboa em porta-cruzes. Não
chegou termos todos os canais de televisão trasladados em canção da boa-nova ou
lá como se chama aquilo. Não chegou sermos setenta vezes sete vezes
esbofeteados com a certificação de que como "80% do país é católico porque Censos" quem
não for católico ou quem, sendo-o, defenda a laicidade tem mais é de ficar bem
caladinho e perguntar se querem mais um café ou um copo de água ou umas dezenas
de milhões de euros, por obséquio.
Não: tínhamos
ainda de ver uma autarquia - a de Oeiras - mandar retirar, na véspera da chegada do papa, um cartaz
que, custeado por um crowdfunding de 300 cidadãos, lembrava e
honrava, à guisa do memorial prometido que não aconteceu, as 4800 vítimas
estimadas de abuso sexual na Igreja Católica portuguesa desde 1950. Tínhamos de
ver uma autarquia - a de Loures - "convidar
para a missa" os seus munícipes, como se uma missa, católica ou de
outro culto qualquer, fosse uma espécie de concerto do Tony Carreira ou dos
Xutos oferecido pelo município para alegrar os cidadãos. Tínhamos de ver um
autarca - Moedas, de novo - a anunciar que decidira nomear um equipamento
público, a ponte sobre o rio Trancão, "Cardeal Dom Manuel Clemente", calcando as regras
municipais para a toponímia que implicam não apenas votação camarária e
apreciação pela comissão criada para esse efeito como, por regra, só atribuir o
nome de quem tenha morrido há pelo menos cinco anos (isto para não falar
da genuflexão daquele "Dom"). E tínhamos ainda de ver a
conta Twitter oficial da Câmara de Lisboa a "ocultar" (censurar,
portanto) respostas a esse anúncio que se limitavam a reproduzir o cartaz com o
número de vítimas de abuso, chegando até a bloquear quem assim respondia. Uma
conta oficial de uma autarquia a tratar como difamação, insulto ou calúnia os
números da comissão nomeada pela própria Igreja Católica.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2023
Pedro Tadeu - Quais foram os agentes provocadores da revolta no Brasil?
11 Janeiro 2023 —
Tratar os milhares de pessoas que
invadiram e vandalizaram o complexo de edifícios dos Três Poderes em Brasília
como "terroristas", como vi um grande número de comentadores fazerem,
parece-me trair a suposta racionalidade democrática que esse epíteto pretende
demonstrar - não distinguir massas populares manipuladas dos agentes
provocadores dessa manipulação, que levam tantas pessoas a agirem como turba
destruidora, parece-me mesmo um exercício antidemocrático.
Aquilo que estou a designar por
"agentes provocadores" desta sublevação, desta recusa em aceitar um
resultado eleitoral livre e justo, abrange um espetro largo de pessoas, ideias
e instituições e existem, com nuances, tanto no Brasil, como nos Estados
Unidos, como em Portugal. Estão mesmo por todo o lado.
Há "agentes
provocadores" de primeira linha nesta ação no Brasil: os políticos
bolsonaristas mais radicais que ajudaram à sua organização, os empresários que
a financiaram ou os polícias e militares que deliberadamente a permitiram.
Há "agentes
provocadores" de segunda linha, bastante mais difíceis de dissipar: o
estado de espírito que gera esta mobilização para a pancadaria advém da
capacidade de convencer estas pessoas de estarem a viver numa sociedade em que
são enganadas pelo governo, onde as eleições são fraudulentas, onde os
políticos do regime democrático são quase todos corruptos, onde há uma suposta
campanha moral contra a família tradicional, onde se sugere que quem é patriota
é perseguido, onde se apregoa que o "verdadeiro cristianismo" é
acossado, onde se acusa o Sistema Educativo de "corromper" as mentes
dos alunos, onde se convence que os subsídios para os pobres desempregados vêm
de dinheiro "roubado" aos que trabalham, onde se assegura que quem
tem mérito é prejudicado, onde se propagandeia que a liberdade está limitada.
Esta segunda linha de
"agentes provocadores" da sublevação é alimentada por igrejas
pentecostais, por propagandistas das redes sociais, por extremistas
organizados, por fanáticos fascistas, por militares saudosistas da ditadura
brasileira, por empresários gananciosos e por justiceiros iluminados.
E há, também, uma terceira linha
de "agentes provocadores" para esta violência que é culturalmente
secular e que as democracias, erradamente, não combatem e, até, promovem: a
crença de que o êxito das sociedades depende de um líder esclarecido, de um
privilegiado que tudo resolve, e não de um esforço coletivo e participado de toda
gente; a convicção de que o direito à liberdade permite o abuso sobre o outro e
a formação de "tribos" identitárias de combate supremacista sobre
outras "tribos"; a aceitação da submissão geral a um poder superior,
seja ele divino, politico ou económico, como sendo essa "a ordem natural
das coisas".
A esta loucura toda associam-se,
no entanto, gravosas contribuições geradas dentro do próprio regime
democrático, uma quarta linha de "agentes provocadores": de facto, a
corrupção existe; de facto as desigualdades sociais agravam-se; de facto a
política é suja; de facto há uns que comem tudo e outros que não comem nada; de
facto elegem-se cada vez mais indivíduos do que propostas políticas; de facto a
sociedade globalizada tenta eliminar o patriotismo da equação socioeconómica,
reduzindo-o ao estatuto de amor de uma equipa de futebol (ver estes agressores
vestidos com a camisola amarela da seleção brasileira diz tudo...); de facto o
Sistema Educativo não equipou as populações para resistirem por si mesmas à manipulação
ideológica; de facto a única resposta contra a polarização do debate público
tem sido uma sucessiva tentativa de o censurar e não de resolver os problemas
que ele revela; de facto, a intolerância insuportável contra as minorias
sexuais e étnicas gerou uma serie de soluções discriminatórias positivas que
põem pobre contra pobre, em vez de unir todos os pobres contra quem os explora;
de facto é a divisão violenta entre os mais desfavorecidos que serve os
interesses de quem manipula estas pessoas para vir a dominar, em regime
absoluto, a riqueza geral criada pelo povo.
A democracia, enquanto funcionar
assim, terá sempre opositores violentos.
https://www.dn.pt/opiniao/quais-foram-os-agentes-provocadores-da-revolta-no-brasil-15635684.html
Fernanda Câncio - Bem-vindos à fakedemocracia
Primeiro nos EUA e depois no Brasil, o assalto aos símbolos do poder democrático por quem recusa, em nome do "povo", o resultado de escrutínios eleitorais coloca-nos perante a evidência de que democracia, justiça e bem são noções que variam de acordo com quem ganha ou perde - como no futebol.
Fernanda Câncio
10 Janeiro 2023
Neste domingo em Brasília, como a 6 de janeiro de 2021 no
assalto ao Capitólio, pudemos ver em direto, ou quase em direto, as imagens dos
assaltantes por si próprios, filmando tudo e filmando-se, através da partilha
orgulhosa nas redes sociais - como quem não coloca sequer a hipótese de estar a
cometer um crime e portanto a oferecer às autoridades as provas e identificação
necessárias para os encontrarem e processarem.
Podemos, é claro, explicar isso com a excitação, aliada à
falta de inteligência - ou ingenuidade, se quisermos ser caridosos. Mas sendo
do conhecimento geral que muitos dos assaltantes do Capitólio foram
identificados e acusados com base nas imagens partilhadas pelos próprios ou por
companheiros de assalto, talvez seja avisado pensar noutras explicações.
Além de todos os motivos tontos, que também existem, como o
da compulsão da selfie, aquelas pessoas querem mostrar-se naquele assalto
porque consideram estar a fazer algo heroico, pelo bem, e ter com elas, por
elas, muita gente, que pensam poder "levantar", contagiar, ganhar,
com a partilha. Não é só o assalto que é uma ação política - a partilha faz
parte da ação, como modo ostensivo de demonstrar que não só quem protagoniza
não aceita a ideia de estar a cometer um crime como despreza quem assim o possa
considerar. Porque, e o sequestro das cores do país e da sua bandeira como
símbolos do movimento significam isso, para quem ali está, aquele é "o
verdadeiro Brasil", o verdadeiro "povo".
Justamente, na entrada de um dos edifícios, ouve-se um dos assaltantes
dizer: "Já está tomado, estamos na casa do povo." Se
a casa é do povo, e se aquele é o povo, não há crime, pelo contrário; trata-se
de retomar legitimamente o que foi roubado, segundo o princípio básico da
democracia - um governo do povo, para o povo e pelo povo.
E nesse sentido não há nada mais simbólico que as filmagens
da entrada no Supremo Tribunal e da sua destruição, como o empunhar ante a
multidão, por um dos assaltantes, daquilo que sabemos agora ser uma cópia da
Constituição de 1988 (a filmagem começou por ser partilhada referindo que se
tratava do original).
Que vemos ali? Uma deslegitimação do regime através
da dessacralização da sua lei fundamental e do tribunal que tem por função
interpretá-la e aferir por ela quaisquer leis e práticas, ou uma pretensa
recuperação, pelo "povo" que os assaltantes creem representar, dos
princípios constitucionais que proclamam dar-lhes razão (um dos
artigos da Constituição tem sido sistematicamente invocado pelos bolsonaristas
como fundamento para um golpe militar)?
Na verdade, para aquelas pessoas, como para os assaltantes
do Capitólio, a convicção de que estão perante um roubo não tem sequer de se
fundar na ideia, alegada quer por Trump e trumpistas quer por Bolsonaro e
bolsonaristas, de que houve uma fraude eleitoral. Há uma espécie de conclusão
tautológica: se não foi ao seu lado, ao seu candidato, que foi
reconhecida a vitória, então a eleição não foi justa. Como para os fanáticos
futeboleiros, qualquer derrota só pode explicar-se por "roubo",
qualquer resultado que não o desejado só pode ser ilegítimo.
Assim, as mesmas regras e instituições que serviram para dar
a vitória a Trump e Bolsonaro deixam de ser credíveis quando são
derrotados. A democracia só é democracia se ganharem; as leis e os
tribunais só são para respeitar se prenderem Lula; quando o soltam passam a não
valer nada.
Os mesmos que exigiam "lei e ordem" e uma
"intervenção militar" para "repor a legalidade" podem então
escavacar edifícios públicos, roubar artefactos valiosos, esfaquear quadros,
defecar nos gabinetes, espancar polícias (os polícias que os enfrentaram;
também os houve) e os seus cavalos, num festim de ódio e absurdo.
Queremos acreditar que este espectáculo indecente terá o
efeito contrário do pretendido; que nos muitos milhões que votaram em Trump e
Bolsonaro - lembremos que perderam por muito pouco - há uma maioria que não se
revê nos assaltos de janeiro de 2021 e 2023. Que acontecimentos como estes
contribuem para enfraquecer a respetiva base de apoio, alienando muita gente, e
são por isso erros políticos - e Lula, depois de uma primeira reação
destemperada no domingo, soube esta segunda-feira corrigir o tom e o discurso
de modo a ir ao encontro de quem, não tendo votado nele, se queira demarcar do
ocorrido.
Aliás, de tal modo o que aconteceu pode revelar-se danoso
para o bolsonarismo que há quem esteja já a pôr a hipótese de que a aparatosa
ausência de reação policial em Brasília foi fruto de um maquiavelismo - o de
permitir que os vândalos agissem à vontade, de modo a que Bolsonaro e o seu
movimento caíssem em desgraça, perdendo apoio nacional e internacional.
É verdade que internacionalmente Bolsonaro viu até líderes
de extrema-direita como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni
demarcarem-se de modo inequívoco do sucedido (quiçá vêm daí as fortes dores de
barriga que, dizem-nos, o acometeram na Florida), e que o próprio, isolado,
amedrontado e sonso, acabou por fazer o mesmo. Mas aquilo a que assistimos nos
EUA e agora no Brasil (e mais ainda porque se repetiu no Brasil depois de
acontecer nos EUA, em óbvia remake do filme americano) não é
apenas um sinal daquilo que já sabemos - que no seio das democracias estão a
crescer exponencialmente movimentos cujo intuito, consciente ou inconsciente, é
derrubá-las, chegando ao paradoxo de exigir, como o fazem os
bolsonaristas, a implantação de ditaduras militares como "salvação"
do país e do próprio regime democrático.
Estes acontecimentos medonhos demonstram que a ideia de
democracia se transformou, para muita gente, num conceito plástico, vazio, que
não corresponde a qualquer conjunto de princípios. Uma espécie de fakedemocracia,
ou democracia alternativa - como as fake news e os factos
alternativos, é o que der jeito no momento.
https://www.dn.pt/opiniao/bem-vindos-a-fakedemocracia-15629461.html



