Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2025
Carlos Coutinho - [Crónica natalícia]
quinta-feira, 26 de dezembro de 2024
Pai Natal foi à guerra
quarta-feira, 25 de dezembro de 2024
Cartoons natalícios
Festas felizes… da parte de Banksy
José Gabriel - Os natais de boa memória
segunda-feira, 23 de dezembro de 2024
Carlos Esperança - Natal (Escrito em 2006)
segunda-feira, 25 de dezembro de 2023
Carlos Coutinho - Erosão frutuosa
HÁ muito que eu
trocava da melhor vontade todas as consoadas por qualquer sensoada, visto que,
no mínimo, uma ceia de comezaina destravada a soar a superstição é sempre de
uma noite que soa mal aos ouvidos de alguém como eu que tenho passado a vida a
ouvir dislates, além de arrotos e outros ruídos estomacais.
Em
contrapartida, uma refeição sem coisa soada pode ser alegremente um repasto sem
barulhos indesejáveis, dentro ou fora de casa.
Verifico e registo
que por entre palavras mortas há palavras a germinar, como julgo que também
pensa o linguista Salikoko Mufwene, para quem “falar da evolução da linguagem
não é uma metáfora”.
Teve, aliás, o
arrojo de criar uma teoria geral das espécies aplicada à comunicação e parece
que não foi tempo perdido. Disse mesmo que “há palavras inglesas noutras
línguas, porque, provavelmente, é mais fácil transmitir o significado com as
palavras inglesas do que com as palavras indígenas. Mas também é uma forma de
mostrar que alguém está atualizado no conhecimento do mundo.”
É, de resto, o
que vão fazendo muitos decisores, muitos analistas encartados, muitos
comentadores e muitos estrategas de café.
Mas quem sou eu
ara falar destas coisas, quando vejo que até o profissionalismo é uma forma de
avacalhar a natureza humana, dando como vantagem a capacidade de um fulano ser
cada vez menos genuíno e cada vez mais a máquina especializada e afunilada para
um ofício?
Penso até na
origem do nome António que comecei por encontrar na onomástica lusitana como a
marca de um genial orador barroco e andarilho que fixou o tecido da minha
língua, movendo-se sob uma válvula achatada de um molusco bivalve marinho da
família Pectinidae a que ainda chamamos vieira.
Na verdade,
António, segundo o Ciberdúvidas, é “talvez o nome mais popular da antroponímia
portuguesa, permanece de origem obscura, se bem que alguns lhe encontrem
etimologia etrusca que deu em latim ‘antonius’, “inestimável”, ou etimologia
grega, ‘anthonomos’, o ‘que se alimenta de flores’.
É certo que
existia já em Roma, designando uma ‘gens’ famosa da qual o mais conhecido é
Marco António”, mas daí a admitir que um certo António de Santa Comba se
alimentava de flores, embora andasse sempre encostado a uma cerejeira que
floria no Patriarcado de Lisboa, vai uma distância enorme.
E isto sem ter
em conta a vila de Vieira de Leiria, onde em tempos me refugiei por uma semana,
quando a PIDE, ainda sem saber o meu nome, andava à minha procura, por motivos
que não são agora para aqui chamados.
Vale a pena
saber que a área desta freguesia é constituída por dois elementos geológicos e
que um deles, representado por uma cobertura de areias de praia e de areias e
dunas, ocupa toda a faixa litoral. Podem também ser incluídos neste conjunto
moderno os aluviões do Lis. Na margem sul deste rio, entre as dunas do litoral,
a faixa aluvial é muito estreita e os aluviões penetram numa depressão
interdunar situada junto à praia de Vieira.
Mas, se um
António pode ser padre e até jesuíta, como pôr em dúvida as suas profecias,
incluindo as mais estapafúrdias, como a do Quinto Império, coisa universal e
sob a égide de Portugal?
2023 12 25
LEÃO TOLSTOI – UM CONTO DE NATAL
* LeãoTolstoi
Um camponês russo, muito cristão, pedia nas suas orações que Jesus o viesse visitar à sua humilde cabana.
Na véspera do Natal sonhou que o Senhor lhe iria aparecer. Teve tanta certeza da visita que, logo que acordou, levantou-se e imediatamente começou a limpar e a arrumar a casa para receber o tão esperado hóspede.
Lá fora, uivava uma violenta tempestade de granizo e neve, e o camponês prosseguia as suas tarefas domésticas, ao mesmo tempo que vigiava a sopa de legumes, que era o seu prato preferido.
De vez em quando ia olhar a estrada, sempre na expectativa. Passado algum tempo, viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade no meio do nevão. Era um pobre bufarinheiro, que carregava às costas um fardo bastante pesado. Com pena do homem, saiu da cabana e foi ao encontro do pobre mercador. Levou-o para o interior, pôs roupa dele a secar perto do lume da chaminé e repartiu com o hóspede a sopa de legumes. Apenas consentiu em deixá-lo partir quando viu que recuperara forças para retomar a jornada.
Olhando depois pela janela, vislumbrou uma mulher na estrada coberta de neve. Foi ter com ela e deu-lhe abrigo na choupana. Fê-la sentar-se próximo da chaminé, deu-lhe de comer, agasalhou-a com a sua capa… Não a deixou partir enquanto não viu que tinha de novo forças suficientes para a caminhada.
A noite caía… E Jesus não vinha!
De esperança quase perdida, foi novamente foi à janela e perscrutou a estrada atapetada de neve. A custo viu uma criança, percebendo que se encontrava perdida e enregelada pelo frio…Saiu mais uma vez, pegou na criança ao colo e levou-a para a cabana. Deu-lhe de comer, e não demorou muito para que a visse adormecida junto ao calor da chaminé.
Cansado e desolado, o camponês sentou-se e acabou também ele por adormecer junto ao fogo.
Porém, de súbito, uma luz radiosa, que não provinha da lareira, iluminou tudo! Diante do pobre homem, surgiu risonho o Senhor, envolto numa túnica branca!
– Ah! Senhor! Esperei-Vos todo o dia e não aparecestes, lamentou-se.
Jesus respondeu:
– Por três vezes, visitei hoje a tua cabana: o mercador que socorreste, aqueceste e alimentaste…era Eu! A pobre mulher, a quem deste a capa…era Eu! E essa criança que salvaste da tempestade, era Eu também…O Bem que a cada um deles fizeste, a mim mesmo o fizeste.
Este conto já tinha sido publicado no Estrolabio a 20 de Dezembro de 2010. Cliquem em:
VerbArte – Duas visões diferentes sobre o Natal – Estrolabio (sapo.pt)
domingo, 24 de dezembro de 2023
Jaime Nogueira Pinto - Breve história do Natal
Entre as
coloridas e fartas festas inclusivas de coisa nenhuma, todos precisamos de
contemplar o presépio.
23 dez. 2023
Por estes dias
chegam notícias de que várias companhias multinacionais, no estrito cumprimento
das novas regras para uma “quadra festiva” mais vazia, colorida e inclusiva,
ordenaram o cancelamento do presépio ou a sua exclusão das instalações.
A perseguição a
Cristo e aos cristãos não é uma bandeira nova, nem sequer neste canto do mundo,
mas não deixa de ser curioso que a sanha anti-cristã, hasteada pelos velhos
maçons e jacobinos da Terceira República francesa – e da nossa Primeira
República –, seja agora agitada pelos accionistas bilionários e os executivos
milionários do grande capital globalista em nome da “inclusão”.
A primeira
tentativa séria e organizada de cancelar o presépio deu-se logo à nascença,
quando o rei Herodes, ferido na sua sensibilidade e majestade, ordenou a
matança dos inocentes, esperando eliminar esse outro “rei dos Judeus” que,
supunha, lhe iria roubar a coroa. Mas o Menino escapou e cresceu em graça e
sabedoria, para que a Encarnação se cumprisse em Redenção.
As
primeiras narrativas
As primeiras
narrativas do Natal estão nos Evangelhos de S. Lucas (Lc 2, 1-14) e de S.
Mateus (Mt 1, 1-25). O Evangelho de Mateus começa com a genealogia de Jesus
Cristo, filho de David que “da mulher de Urias, gerou Salomão”. A genealogia
tem 14 gerações, de Abraão a David, outras 14 de David até ao desterro da
Babilónia e mais 14 do desterro da Babilónia a Cristo. A mulher de Urias era
Betsabé e David, além de a roubar ao marido, mandou-o para a frente de combate
para lhe apressar a morte. É esta a linha genealógica de “José, esposo de
Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo”. É também Mateus que narra a
perplexidade de José, que ao saber da gravidez de Maria decide “repudiá-la em
segredo” – até que um anjo do Senhor lhe aparece em sonhos para lhe revelar o
mistério da Encarnação.
José, S. José,
é uma criatura de silêncio e de bastidores. Nunca fala, aceita a vontade de
Deus, cumpre sem comentários. Bossuet e Charles de Foucault admiravam-no por
isso; e até o improvável Sartre, em Barioná, contempla o seu
silêncio:
“[N]ão sei o
que dizer de José e José não sabe o que dizer de si mesmo. Adora e está feliz
por adorar, mas sente-se um pouco em exílio. Creio que sofre sem o admitir.
Sofre porque vê o quanto a mulher que ama se parece com Deus, o quanto ela já
está perto de Deus. Pois Deus rebentou como uma bomba na intimidade desta
família. José e Maria estão separados para sempre por esse incêndio de
claridade. E toda a vida de José, imagino, será para aprender a aceitá-lo.”
RECOMENDAMOS
- O
aviso dos EUA ao Irão e o cerco a Netanyahu
- Qatar:
Hamas deu primeiro "sim" a proposta
- Protestos
e irrelevância política na agricultura
- Lula
celebra "restauração da harmonia"
Já S. Lucas
conta o Natal começando por dar notícia do recenseamento do Império, ordenado
por Augusto, que leva José e Maria, de Nazaré, na Galileia, a Belém, a “cidade
de David”. Aí se narra o nascimento do Menino, com a manjedoura, os animais, os
anjos, os pastores.
Em nenhum
destes textos encontramos referências, directas ou indirectas, que apontem para
o dia 25 de Dezembro como a data do nascimento de Cristo. O 25 de Dezembro só
aparece em documentos da transição do século IV para o século V, como “natus
Christus in Betleem Judea”. O dia 6 de Janeiro, doze dias depois, é então dado
como o dia da Epifania, da chegada ao presépio de “uns magos vindos do
Oriente”. Mas as origens da fixação da data continuam envoltas em mistério e
polémica. Há quem diga que se deve unicamente à cristianização de uma festa
pagã, a festa do Sol Invictus, fixada no dia 25 de Dezembro pelo imperador
Aureliano, em 274. Os pagãos do Norte da Europa também celebravam o sol no
solstício de Inverno e sabemos que o Papa Gregório, o Grande, nos princípios do
século VII, defendia a cristianização das festas e dos templos pagãos, quase
tão aplicadamente, convenhamos, como agora se regula e se induz a laicização do
Natal.
Também sabemos
que em 1223, há 800 anos, S. Francisco de Assis inaugurou a representação do
presépio, em Greccio, encenando, com os camponeses locais, o nascimento de
Jesus numa gruta/curral (“presépio” vem do latim praesaepium, que
quer dizer estábulo ou curral). Assim, assistido por toda a criação, debaixo
das estrelas e dos anjos, entre animais, pastores e magos, se reencenava o
nascimento do Menino Deus na periferia e nos bastidores de tudo.
As
reencenações do Natal
A grande
pintura europeia ilustraria copiosamente este humilde e silencioso início da
nossa era: Fra Angelico pintava uma Anunciação; Philippe de
Champagne, O Sonho de José; van der Goes, Maria e José a
caminho de Belém, viagem que Bruegel, o Velho, retrataria no meio das
gentes, numa paisagem de pequena cidade europeia com neve. A riqueza da Adoração
dos Magos, de Boticcelli, contrastava com a austeridade da Adoração
dos Pastores de Gaddi ou de Giorgione, e é difícil imaginar maior
aparato do que na Procissão dos Reis-Magos, do florentino
Benozo Gozzoli.
Também a
pintura portuguesa celebraria o Natal, com a Adoração dos Pastores, de
Gregório Lopes, e a Adoração dos Reis Magos, de Vasco Fernandes, em
que o artista imagina o tradicional rei negro Baltazar como um chefe índio do
Brasil. A adoração dos magos, a epifania universal do nascimento de Cristo,
vindo para todos e para cada um dos homens e dos povos, foi também tratada por
Francisco de Campos, o maneirista do século XVI, e por Domingos Sequeira já no
século XIX.
Há quem diga
que Charles Dickens veio depois reinventar o Natal, em 19 de Dezembro de 1843,
ao publicar A Christmas Carol. Ou que o veio devolver à verdade
original.
Dickens estava
no coração da Londres vitoriana, da Londres do capitalismo selvagem, das
crianças exploradas, daquele mercantilismo aristocrático-liberal desregulado em
que, a par de um discurso oficial cristão, a vida era dura, muito dura, para a
grande maioria. Uma sociedade onde as crianças pequenas trabalhavam na
Indústria, os devedores iam para a prisão até pagarem a dívida e as classes
operárias não tinham direitos. O escritor dos Pickwick Papers já
tinha publicado, além dos Papers, Oliver Twist, Nicholas
Nickleby e The Old Curiosity Shop. A Christmas
Carol levara-lhe seis semanas a escrever, e escrevera-o para o Natal.
Iria vender seis mil exemplares em seis dias.
As criaturas do
outro mundo estavam na moda entre os românticos (Byron e Robert Southey
importavam os vampiros orientais dos românticos alemães) e os fantasmas do
Natal de Dickens não destoariam num tempo em que, da Alemanha, com o Príncipe
Alberto, marido da rainha Vitória, também chegavam as árvores de Natal.
Chesterton
chamaria a Dickens o “porta-voz dos pobres”, mas George Orwell achá-lo-ia pouco
rigoroso na descrição da classe operária e, sobretudo, pouco revolucionário. E
talvez Dickens, na sua Londres vitoriana, estivesse mesmo mais preocupado com o
Bem e com o Mal dos homens do que com a sociologia e a luta das classes.
Dickens era
filho de um “naval clerck” que em 1824 fora preso na Marshalsea Debtor’s Prison
por uma dívida de 40 libras a um padeiro. John Dickens, que o filho descreverá
como um “oportunista jovial e sem noção do dinheiro” era chefe de uma família
numerosa. Charles, então com 12 anos, não iria para a prisão com o resto da
família, mas teria de trabalhar na Warren’s Blacking Factory, onde ganharia o
sentido de orfandade e de humilhação que aparece em alguns dos seus jovens
heróis. Nessa primeira metade do século XIX inglês, as prisões de devedores,
reguladas pelo Act for the Relief of Insolvent Debtors in England de
1813, estavam cheias. Dickens contribuiria com os seus para a abolição do
sistema, que só aconteceria em 1869.
O Natal
dos pobres e das crianças
Mas se Dickens,
em Dezembro de 1843 reinventava um Natal particularmente virado para as
crianças, um ano antes, na Itália por unificar, já um sacerdote caminhava pelas
ruas de Turim, com um bando de rapazes, entoando cânticos de Natal.
Tal como o Anjo
aparecera em sonhos a José para que tratasse de Maria e do Menino, assim também
a Don Bosco, lhe viria pedir que tratasse dos miúdos da rua. A grande
referência de Don Bosco, de S. João Bosco, era um outro santo, S. Francisco de
Sales. E foi com o seu nome que baptizou o primeiro Oratório onde recolheu os
jovens, bem como a Ordem que fundou, os salesianos. Francisco de Sales vivera
na transição do século XVI para o século XVII e tinha uma grande frase sobre o
Dinheiro: “O Dinheiro – dizia – pode ser um bom servidor, mas é sempre um mau
senhor”. E sobre o Natal tinha escrito em carta a Santa Joana Francisca de
Chantal:
“Pareceu-me
ver Salomão no grande trono de marfim, dourado e esculpido, que não tinha igual
em reino algum, como dizem as Escrituras; ver, em suma, aquele rei que não
tinha igual em glória e magnificência. Mas prefiro cem vezes ver o querido
pequeno Menino na manjedoura do que todos os reis nos seus tronos”.
https://observador.pt/opiniao/breve-historia-do-natal/
Entre as
coloridas e fartas festas inclusivas de coisa nenhuma, todos precisamos de
contemplar um presépio cada vez mais silenciado e ignorado, lembrando o que até
Jean Paul Sartre soube dizer aos prisioneiros franceses para quem escreveu e
encenou o seu auto de Natal:
“Como hoje é
Natal, tendes o direito de exigir que vos seja mostrado o presépio.”
Um Santo Natal.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
António Guerreiro - Des-Natal é que é!
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
A “desnatalidade” talvez possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente.
22 de Dezembro
de 2023, 10:20
É Natal. É
tempo de falar de natalidade. Em Itália é um assunto na ordem do dia porque o
“Inverno demográfico” transalpino é o mais frio de toda a Europa, que no seu
conjunto já está em estado de “colapso demográfico” há algum tempo – de tal
modo que, segundo os dados oficiais, em 1950 um europeu médio tinha 29 anos e
hoje tem 43. A palavra “desnatalidade”, que designa o défice da taxa de
nascimentos em relação à taxa de mortalidade, soa como um termo bizarro. Talvez
ela possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que
nos convoca coercivamente para uma mobilização total.
Ainda a Itália,
o bel paese por antonomásia: há alguns anos, quando a taxa de
natalidade já era baixa, mas ainda não tão “depressiva”, a Itália deitou-se no
divã para analisar os sintomas patológicos advindos de ser um país de filhos
únicos e produziu muita psicologia social. Desta “ciência” espontânea,
impressionista, resultaram algumas conclusões como esta: ser filho único
promovia a emancipação das raparigas (a quem, tradicionalmente, cabiam tarefas
domésticas e o dever de se inclinarem perante as prerrogativas masculinas dos
homens da família), mas tinha tornado os homens muito mais frágeis, uma
fragilidade que eles tentavam superar com atitudes de macho mimado, de maridos
insuportáveis que, uma vez divorciados, voltam a casa da mamma, de
onde na verdade nunca saíram.
Agora, já não
se trata da discussão sobre o “filho único” e as suas idiossincrasias, mas da
inexistência de filhos: “Porque é que em Itália já não se fazem filhos?”,
pergunta-se por lá com insistência. Até um filósofo como Giorgio
Agamben (do qual pensamos que só se interessaria por estas questões
demográficas na medida em que elas estão no centro da biopolítica
contemporânea) escreveu na rubrica que mantém no site da
editora Quodlibet um texto que é quase um obituário, logo no título “Finis
Italiae”.
Nele se afirma:
“Se existe na Europa um país em que alguns dados permitem certificar com sóbria
precisão a data do fim, este é a Itália (...). A perdurar, este declínio
[demográfico] conduziria em três gerações à extinção do povo italiano.” Quem
leu os escritos de Agamben sabe que jamais ele lamentaria esse facto em chave
nacionalista. Mas ele esclarece logo a seguir o que motiva o seu discurso
lutuoso: “O que me entristece é a possibilidade perfeitamente real de que não
exista mais ninguém para falar italiano, que a língua italiana se torne uma
língua morta. Que ninguém mais possa ler a poesia de Dante como uma língua
viva, como Primo
Levi a lia em Auschwitz ao
seu companheiro Pikolo.”
Evidentemente,
os Outonos e as previsões de Invernos demográficos como o da Itália, em toda a
Europa, não suscitam lamentos pela sorte que estará reservada a Camões (mas o
português está a salvo: é falado noutras latitudes de elevada fecundidade, por
enquanto) ou a Goethe (também nas questões demográficas a Alemanha já começa a
fazer a sua “viagem a Itália”).
A preocupação é
de outra ordem, consentânea com o “paradigma económico” que domina a política,
mas também a vida dos indivíduos: a queda drástica da natalidade ameaça a
estabilidade económica. E isso é suficiente para vê-la como um fenómeno crítico
para o qual as economias não estão preparadas porque o seu motor tem uma lógica
de funcionamento incompatível. Noutros planos que não o económico, a baixa de
natalidade oferece-se a uma discussão sobre se é uma coisa negativa ou
positiva.
A questão
fundamental é assim formulada: se há cada vez menos nascimentos e cresce a
população envelhecida, quem pagará, no futuro, os serviços de saúde e as
pensões? Mas este modo de declinar o problema omite a sua raiz profunda: o
capitalismo é uma religião do débito e cada criança que nasce já nasce
endividada, isto é, com uma “culpa” original (quantas vezes se insistiu, desde
a crise financeira de 2008, que a palavra alemã Schuld significa
“dívida” e “culpa”?).
O débito
público dos Estados e o débito privado são o pressuposto das actuais
modalidades de sujeição e implicam uma garantia: que haja no futuro quem os
pague. Evidentemente, este futuro, no caso do débito público (que nos
transforma todos em sujeitos devedores e se apropria das nossas potencialidades
individuais) é sem data. Por isso é que se diz que a dívida é para ser gerida,
isto é, reproduzida, mas não saldada. Mas esta condição implica que haja a
garantia de que a fábrica do homem endividado continue a produzir cada vez mais
sujeitos devedores. Se a fábrica de fazer filhos pára, deixa de haver
acumulação de “capital humano” à altura do investimento esperado. E dá-se o
colapso.
Livro de
recitações
“Estrangeiros
contribuem sete vezes mais para a Segurança Social do que beneficiam”
In PÚBLICO,
18/12/2023
Usando a
linguagem da economia utilizada no texto acima: à falta de “capital humano” e
mão-de-obra nacional, importa-se o que não temos do estrangeiro. Esta notícia
tem o efeito de contrariar alguns argumentos xenófobos e é potencialmente apta
a que muitos mudem de ideias e a que todos saudemos a vinda de trabalhadores
imigrantes. Mas devemos pensar para além deste factor pragmático: em última
instância, este modo de ver tais trabalhadores é análogo ao modo de ver a
cultura contra a qual Nietzsche se insurgiu. “Se acreditarmos que a cultura tem
uma utilidade, acabamos por confundir o que é útil com a cultura.” Se os
imigrantes são vistos exclusivamente à luz da sua contribuição para salvar o
nosso “paradigma económico”, eles ou são “paradigmáticos” ou são considerados
excedentes, supranumerários sem valor.
https://www.publico.pt/2023/12/22/culturaipsilon/cronica/desnatal-2074216
terça-feira, 27 de dezembro de 2022
Wham - Last Christmas
Last Christmas, I gave you my heart
But the very next day, you gave it away
This year, to save me from tears
I'll give it to someone special
Last Christmas, I gave you my heart
But the very next day, you gave it away (you gave it away)
This year, to save me from tears
I'll give it to someone special (special)
Once bitten and twice shy
I keep my distance, but you still catch my eye
Tell me, baby, do you recognize me?
Well, it's been a year, it doesn't surprise me
Happy Christmas
I wrapped it up and sent it
With a note saying: I love you, I meant it
Now I know what a fool I've been
But if you kissed me now
I know you'd fool me again
Last Christmas, I gave you my heart
But the very next day, you gave it away (you gave it away)
This year, to save me from tears
I'll give it to someone special (special)
Last Christmas, I gave you my heart
But the very next day, you gave it away
This year, to save me from tears
I'll give it to someone special (special)
Oh, oh, baby
A crowded room, friends with tired eyes
I'm hiding from you and your soul of ice
My God, I thought you were someone to rely on
Me? I guess I was a shoulder to cry on
A face of a lover with a fire in his heart
A man undercover, but you tore me apart
Ooh, ooh, now I've found a real love
You'll never fool me again
Last Christmas, I gave you my heart
But the very next day, you gave it away (you gave it away)
This year, to save me from tears
I'll give it to someone special (special)
Last Christmas, I gave you my heart
But the very next day, you gave it away
This year, to save me from tears (oh)
I'll give it to someone special (special)
A face of a lover
With a fire in his heart (I gave you my heart)
A man undercover, but you tore him apart
Maybe next year
I'll give it to someone
I'll give it to someone special (special)
Someone
Maria Jorgete Teixeira - O Natal da minha infância cheirava a fumo e a frio.
segunda-feira, 26 de dezembro de 2022
Carmo Afonso - Natal, a grande festa de termos de nos aturar uns aos outros
Opinião
Num mundo ideal, num Natal
próximo o tio facho e o cunhado homofóbico estarão diferentes. Desistir é mais
doloroso do que aturar.
* Carmo Afonso
26 de Dezembro de 2022, 0:00
«Vivemos em proximidade apenas
com aqueles que pensam como nós. São esses que procuramos para amigos e para
interagirem connosco nas várias plataformas. Estamos cada vez mais afunilados.
Nas redes sociais, temos os grupos dos comunistas, o dos bloquistas e o dos
centro-esquerda, e as barreiras entre eles são feitas a granito. À direita, os
fossos também existem. Mas diria que se notam menos. Talvez porque o que move a
esquerda são projetos que têm acentuadas diferenças entre eles, enquanto a
direita anda na disputa pelo pódio de quem mais critica o marxismo cultural.
Ninguém procura aproximações. Isto não acontece só em política. Há exceções;
amizades improváveis, mas elas reluzem e dão nas vistas de tal forma que
confirmam a regra de que aquilo não é suposto. Ficamos com a convicção de que é
mesmo possível viver num mundo em que todos foram escolhidos a dedo para não
nos contrariarem com as suas opiniões. E isso acontece se não forem
inteiramente coincidentes com as nossas. Facílimo.
Era o tema de uma instalação do
Rodrigo Oliveira. Dizia assim: “We cannot escape from each other.” A
perfeita maldição. E podia ser também a legenda para o Natal.
Este Natal, e depois de um
intervalo de dois anos cheios de limitações, as famílias voltaram a juntar-se e
esse reencontro foi uma boa maneira de avivar aquilo que poderia entretanto ter
ficado esquecido: temos de aturar-nos uns aos outros. Este ditado faz lembrar
um outro, mais ambicioso e utópico, que impunha que nos deveríamos amar uns aos
outros. A verdade é que, já que temos de nos aturar, seria mais fácil fazê-lo
se nos amássemos, mas ninguém nos pode pedir tanto.
Devemos fazer das nossas vidas um
exercício com alguma coerência e estabelecer limites para o que estamos
dispostos a tolerar e aquilo que já não é possível. É sabido que esse caminho
tende a ser cada vez mais apertado e que cada vez cabem lá menos. Não é nada
natalício.
Mas faz sentido. Se não toleramos
racismo, porque devemos tolerar um
familiar racista à mesa connosco? Sabemos que o racismo é um problema com a
importância e a potencialidade de causar sofrimento, injustiça e até a
destruição de vidas. Como ser tolerante com isto?
Mas, se falamos de racismo,
também podemos falar de homofobia. Porque devemos aceitar e receber na esfera
mais pessoal e íntima quem despreza ou desrespeita a forma como outros se identificam
ou amam?
E se falamos de homofobia, também
devemos falar de transfobia. É que milhares de portugueses, que já compreendem
o tema da homossexualidade, continuam a não entender as pessoas transgénero. É
o típico fenómeno de: “Tudo bem que gostem de pessoas do mesmo sexo, mas
mudarem de sexo já é doença e se continuamos assim isto vai por aí a fora e não
tem limites.” Eventualmente, uma boa parte dos portugueses é transfóbica. Que
fazer a estas pessoas?
Claro que está aqui presente um
pressuposto que não é o predominante nas famílias portuguesas: serem os
progressistas a ocupar o lugar de quem julga e avalia os restantes. Na maioria
das vezes, são os “fóbicos” e os “istas” que se encontram nessa posição e são
os “diferentes” que se sentem mal recebidos nas festas familiares ou que até já
desistiram de aparecer.
Os avanços que o mundo tem
feito no sentido de uma sociedade mais justa têm acontecido graças à
intolerância de muitos relativamente aos preconceitos dos outros. Também na
vida, como na regra matemática, o menos por menos pode dar mai
É matéria altamente pessoal. Mas
os avanços que o mundo tem feito no sentido de uma sociedade mais justa têm
acontecido graças à intolerância de muitos relativamente aos preconceitos dos
outros. Podíamos pensar que não é com intolerância que se cura a intolerância,
mas não é bem assim. A intolerância pode resultar. Também na vida, como na
regra matemática, o menos por menos pode dar mais.
É verdade que, se a família quer
estar junta, ela tem de se esforçar, mas os esforços não têm todos o mesmo
valor. Num anúncio espanhol do whisky J&B, deste Natal, vemos um avô
que, durante semanas, tenta aprender a maquilhar-se. Aquele processo surge como
sendo um enigma. Na noite da consoada, chama um dos netos à parte e faz-lhe uma
maquilhagem altamente profissional. É assim que o leva à mesa. Mistério
resolvido, e só não chora quem não tem coração. Cada vez mais os publicitários
convencem as pessoas a comprar coisas enquanto lhes passam uma mensagem relativa
a um tema sensível. Mas a escolha que fazem é capitalizar o progressismo. As
marcas apostam que são mais os que estão dispostos a mudar do que os
empedernidos.
Num mundo ideal, num Natal
próximo o tio facho e o cunhado homofóbico estarão diferentes. No mundo real,
pode ser um pai ou um irmão e podem não ter vontade nenhuma de ficar
diferentes. No mundo real, temos mesmo de nos aturar uns aos outros. Desistir é
mais doloroso do que aturar.
A autora é colunista do
PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico
https://www.publico.pt/2022/12/26/opiniao/opiniao/natal-festa-termos-aturar-2032681















.jpg)
