sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Se houvesse Correios em Caria, mandava esta carta para Belém


16/11/2018 
por Fernando Camilo Ferreira

Sr. Presidente,

Escrevo-lhe de Caria, vila de mais ou menos 800 habitantes, no Concelho de Belmonte, à beira da Serra da Estrela. A vida aqui é boa. Aqui, tudo o que a terra dá é bom. O resto, nem por isso.

Anunciaram-nos há pouco que a GNR vai passar a funcionar apenas das 9 às 5, para assuntos administrativos. A mim parece-me mal. Por um lado porque, se é para tarefas administrativas, não precisamos da GNR: Temos alguns rapazes e algumas raparigas que ainda não foram para a Suíça, sequer para Lisboa, nem mesmo para a Covilhã. Sabem mexer num computador e, por um salário modesto, podem cumprir as tarefas administrativas que a GNR vai cumprir. É só poupança para o Estado. Só em fardas, bote-lhe a conta. E em pistolas, que ainda por cima escusam de ser roubadas, que é uma coisa que acontece, nem se fala. Para não falarmos no quartel que, só em luz, deve custar para cima de um dinheirão. Tenho a certeza de que a Junta arranja lá uma salinha para os pequenos, como já fez para instalar uma espécie de Correios que é o que temos desde que fecharam os verdadeiros.

Aqui tudo fecha. Quer ver? Temos um Centro de Saúde, com um médico dedicado, competente e paciente, que é o que se quer. Ele farta-se de dizer, como na televisão, que temos de nos vacinar contra a gripe. Mas no Centro não há enfermeiro e, portanto, não há quem dê a injecção. Quer dizer, não há sempre, que à Terça-feira vem cá uma senhora colher sangue para as análises que o Doutor manda fazer e acho que também dá injecções. A senhora enfermeira, acho que é enfermeira, trabalha para uma empresa muito grande, a quem o Governo paga para fazer o que o Governo não quer, ou não pode fazer por nós. Dizem que sai mais barato, mas eu duvido. E, quando tínhamos enfermeiro no posto, ele dava as injecções, fazia curativos, ajudava os mais velhos e evitava um grande gasto em ambulâncias para ir às urgências à Covilhã de cada vez que alguém escorregava na calçada. Se calhar, se fizessem as continhas todas, ia-se ver e até saía mais em conta.

Como já disse, também fecharam os Correios. E, agora, também fecharam os de Belmonte. Agora, se quisermos ir ao correio, temos de ir à Covilhã. São 13 km. O que não há é transportes. Há tempos, fecharam a linha do comboio da Beira Baixa, e perdemos o transporte que tínhamos para a Covilhã ou para a Guarda. Um taxi para a Covilhã custa para cima de 17€, 34€ com a volta. E, ainda por cima, temos de ajudar a pagar os transportes lá de Lisboa e do Porto, uma coisa que eles lá têm, passe social ou lá o que é. Veja o Senhor que, dantes, quando os Correios pertenciam a todos e davam lucro, uma carta era deitada no correio num dia e, no dia seguinte, estava aqui na caixa de cada um. Agora, a conta da água, para vir de Belmonte a Caria, 7 quilometrozitos de coisa nenhuma, demorou, em Outubro, 11 dias e toda a gente, que por aqui é quase sempre de boas contas, passou pela vergonha de pagar fora do prazo.

A GNR aqui faz-nos muita falta. Os soldados já não são como eram dantes, assim macambúzios e barrigudos. Coitados, não sabiam mais. Não senhor. Agora são assim uns rapazes bem apessoados (e raparigas também, já mo afiançaram, mas aqui nunca apareceu nenhuma, mas eu cá acho bem), de boas falas, muito amigos de ajudar quem precisa. E, com aqueles carros a dar a volta à vila, com a pistola no cinto, sempre metem respeito.

E depois há outra coisa. Nós precisamos de muita coisa, nestas terras. Mas aquilo de que mais precisamos são pessoas. Gente nova. Os Correios, a GNR, um enfermeiro, um ou dois professores. Porque precisamos de que a menina dos correios se embeice por um soldado da GNR, que o enfermeiro engrace com uma das professoras, e que se volte a namorar na nossa terra. Disso é que precisamos.

É por isso que lhe escrevo. Para lhe pedir um favor. Aí em Lisboa há muitos soldados da GNR. Se precisarem de mais soldados noutro sítio, mandem os que aí estão. Eu também gosto de ver a fanfarra da GNR a desfilar à frente do carro do Sr. Presidente. Mas, em tempo de necessidade, vão-se os anéis e fiquem os dedos. E os anéis são os seus tocadores de charamelas e timbales. Os dedos são os nossos soldados, que são hoje a única recordação que temos de que aqui também é Portugal.


https://aventar.eu/2018/11/16/correios-em-caria/#more-1294731

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Óscar Lopes - Todos os amores são de perdição

13.11.2018 às 8h00

Na primavera de 1955, Óscar Lopes, preso nos calabouços da PIDE no Porto, escreveu uma carta/ensaio de amor agora revelada
ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Carta/ensaio de amor escrita há 63 anos por Óscar Lopes quando estava preso nos calabouços da PIDE no Porto, encontrada agora no meio de papéis do espólio do professor e ensaísta, revela uma intensa digressão filosófica sobre o conceito de amor

texto
foto

De Óscar Lopes há ainda uma imensa história por contar, radicada, por exemplo, na escassa poesia publicada pelo professor e ensaísta (1917-2013) e na muita poesia que se lhe adivinha em todo o seu percurso de intelectual empenhado, marcado por um grande fascínio pelo saber científico, pelas matemáticas, pela linguística ou pela literatura. O seu espólio continua a ser estudado e descoberto. Pelo meio aparecem preciosidades, como a carta/ensaio de amor que se supõe ter sido escrita na primavera de 1955. Estava então preso nos calabouços da PIDE no Porto e supõe-se que terá sido dirigida a sua mulher, Maria Helena Madeira. Mesmo se, em rigor, pode ser vista como uma carta de um amor imenso, intenso, dirigido à mulher como ser global.
Descoberta por Manuela Espírito Santo, autora de “Retrato de Rosto”, a fotobiografia de Óscar Lopes publicada no final do ano passado, a carta deambulava, sem rumo, sem data, local ou destinatário, numa torrente de papéis constituída por notas de apoio às aulas, fichas de leitura, correspondência, manuscritos e tudo o mais que preenche o acervo do professor. A única referência ao ensaio de amor até agora encontrada deve-se a Eduardo Prado Coelho, numa carta datada de 2 de maio, muito provavelmente escrita na década de 1960.

Reprodução de uma das folhas datilografadas do texto de Óscar Lopes
“Dantes o espaço não tinha um centro. Ganhou-o agora; um olhar, um remoinho de coisas inapreensíveis a que chamo tu. Mas é um centro inquieto. És tu, ou talvez antes, qualquer coisa que só alcanço por ti. É, sob essa voz estridente de desespero e disfarce, uma outra voz inaudível mas infinitamente certa. É, sob esses gestos de fuga e atordoamento, o medo que para ti represento, um medo afinal ao encontro, ao impossível encontro de dois mundos condenados à incoincidência”.
Começa assim uma carta que, poucas linhas abaixo, proclama: “Sabemos que o amor é sempre de perdição por essência, que nunca o podemos medir com a vida; sobra sempre aquele resto que tanto dói e nos revolta sem causa. E a impossibilidade moral de comunhão física entre ambos dá-nos, por isso, ao menos, a imensa e difícil alegria trágica de viver a incomensurabilidade do amor, sem ser preciso romanceá-lo. Não confundimos a tragédia de essência com as fórmulas romanescas; o monte dos vendavais está-nos no sangue”.
À sensação de totalidade junta-se a noção de perda, porque àquela a quem se dirige (“Tu és o tu que digo a tudo o que tenho amado”), não pode deixar de oferecer palavras intensas como estas: “Amo-te como se tem um enorme desgosto.”
Pouco depois, acrescenta: “Quero-te porque existes, porque não posso enganar-me, que eu amo como só se pode amar com a certeza de estar certo; mas tudo o que tem valor neste mundo é filho de um amor de suor e agonia, sobre a cama de todo um infinito a separar-nos, e a ligar-nos por isso mesmo”.

Óscar Lopes junto da sua biblioteca
A intensidade do amor plasma-se numa constatação: “Amei sempre em tudo, e em qualquer corpo, o teu sorriso em mim já tão antigo.” Ciente de que “vivemos num mundo feito para deuses, mas não somos deuses”, Óscar Lopes prossegue: “Tu és hoje para mim o verso, a frase, a certeza fixada, a evidência da nossa divindade humana e real, pulverizada em tantos instantes a reaver. És o alfabeto com que leio a presença real no mundo de tudo o que os mitos prometem sem saber o que dizem.”
Àquele rosto “que dá expressão e sentido a tudo quanto existe”, o autor assegura: “Eu amo, porque te amo (e amo neste meu amar-te) toda esta leva de condenados à morte que temos sido desde as células mais antigas; e quando te beijo sem boca, que é o que faço todos os momentos, quando as minhas mãos se fazem olhar e te poisam levemente no corpo, há a amargura de um fim que é mais do que o nosso; é uma cólera represa a conspirar contra todas as cruzes dos cemitérios.”
Certo de que “não existe o que se chama um amor feliz (seria um contentamento apenas contente)”, parte desta evocação de Camões para a constatação de que “a nossa gloriosa espécie inventou o amor”. Porém, prossegue mais adiante: “tudo o que na terra e no mar nos aturde e delicia de mistério não basta, como imagem, para traduzir esta tão simples, e até imaginária explosão do teu corpo, num rito a que renuncio, mas que, simples amor, se me faz consciência.”
Há um amor absoluto a percorrer aquelas páginas datilografadas onde se escreve: ”Não existo como Adão masculino, porque nunca estarei completo fora de uma identidade contigo que, no entanto, passa pelo meu desejo, portanto pela evidência de seres radicalmente outra como a luva na mão. E não existo como Adão de Eva incluída, porque (ai de nós!) há entre ti e mim, como entre todos os que também dizem eu (e não sei amar como a ti), toda aquela infinita distância tu-eu que muda de sentido para cada um de nós mas subsiste sempre como relação invencível”.
Já muito perto do final da longa carta/ensaio, Óscar Lopes desabafa: “Odeio e estilhaço todos os espelhos em que me veja direta ou inversamente contente, e até em que simplesmente me veja (eu que não existo), na epopeia de uma matéria humanizada cuja eloquência mais viva é hoje a dos seus ritmos.”
A concluir, um apelo: “Ajuda-me a fazer essa alma. E que o teu sorriso tão antigo, sorriso de toda a mãe, irmã, namorada que me resta, me olhe desde essa esperança, a mais inominável e a mais certa, a quem emprestaste o teu rosto.”

A carta com as emendas do professor e ensaísta
A carta foi agora divulgada num opúsculo editado pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da qual Óscar Lopes foi ativo dirigente. Contém um posfácio de José Manuel Mendes e um prefácio de Lídia Jorge. Aí, a escritora sublinha que o professor e ensaísta “produziu um texto misto, que parece ter sido escrito em estado de êxtase, dirigido não a uma mulher concreta mas a uma mulher total, presente e ausente, passada e futura, amante, amada, filha e mãe, seu destino e sua própria causa, o que significa, e o texto várias vezes o refere, “tratar-se de uma torrente de escrita dirigida à Mulher Total, uma conceção próxima da forma como os neoplatónicos a descreviam e de como os românticos mais evanescentes a concebiam”.


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Vladimir Maiakovski - Meu Maio

* Vladimir Maiakovski


A Todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado.
A Todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeirode Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário – Este é o meu Maio!
Sou camponês – Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o Maio que eu quero!
Sou terra –
O Maio é minha era!

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Manuel Alegre - Nambuangongo, meu amor

* Manuel Alegre

Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo longo
e a cabeça cortada e a flor bombardeada
não tu não viste nada em Nambuangongo

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não corre.

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu.
Tu não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
cada carta é um adeus em cada carta se morre
cada carta é um silêncio e uma revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo longo 
tempo exactamente em cima do nosso tempo.
Ai tempo onde a palavra vida rima
com a palavra morte em Nambuangongo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Sophia de Mello Breyner Andresen - Esta gente

Sophia de Mello Breyner Andresen

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia" 

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Análise dos discursos de Bolsonaro

questões da sucessão

“VERDADE” E “LIBERDADE” AGORA APARECEM NA FALA DE BOLSONARO

Uma análise visual dos primeiros discursos do presidente eleito; antes de vencer, ele dava mais peso a "Brasil" e quase não citava "democracia"

MARCELLA RAMOS
29out2018_03h37

REPRODUÇÃO/REDE GLOBO
N
os três primeiros pronunciamentos de Jair Bolsonaro depois de eleito presidente do Brasil, duas palavras foram protagonistas: verdade e liberdade. Às 19h36 de domingo, minutos depois de confirmada a vitória, Bolsonaro iniciou uma transmissão para agradecer apoiadores no Facebook. Nos quase oito minutos de fala, repetiu “verdade” seis vezes. Esse foi o terceiro substantivo mais usado pelo candidato durante a transmissão, depois de “Brasil”, usado oito vezes, e “Deus”, repetido sete vezes. Em seguida, em pronunciamento na tevê aberta, o presidente eleito leu um discurso formal, em frente a sua casa na Barra da Tijuca. Neste, um pouco mais longo que o primeiro, repetiu a palavra “liberdade” onze vezes. Este também foi o terceiro substantivo mais usado, atrás de “Brasil”, repetido catorze vezes e “governo”, falado em treze oportunidades. Neste discurso, Bolsonaro também falou “verdade” cinco vezes.
Nuvem de palavras do discurso lido por Bolsonaro e transmitido pela tevê aberta depois de eleito presidente
piauí comparou as palavras usadas em cinco discursos de Bolsonaro, dois dos mais comentados quando ele era candidato e os três primeiros como presidente eleito. Foram analisadas a live no Facebook neste domingo, primeira fala após o resultado; o discurso de vitória lido para a imprensa, logo em seguida; uma terceira fala, mais curta, também pelo Facebook, duas horas depois; o pronunciamento pela mesma rede social depois do primeiro turno; e um discurso para seus apoiadores na avenida Paulista, também via internet, no dia 21 de outubro. Na análise, levou-se em consideração apenas palavras que tenham significado se usadas sozinhas.
Em todos os pronunciamentos, a palavra mais repetida é “Brasil”. Mas o peso dado à palavra, nos discursos analisados, era maior antes de ser eleito (como se vê abaixo). Quando comentou o resultado do primeiro turno, o então candidato repetiu o nome do país catorze vezes. Na transmissão para apoiadores na Paulista, falou vinte vezes. Neste, as outras palavras mais usadas foram “povo” e “pátria”, ambas repetidas cinco vezes cada. As palavras “liberdade” e “verdade” foram usadas só uma vez neste dia. Cenário diferente da pós-eleição.

Discurso transmitido a apoiadores na Avenida Paulista, em 21 de outubro


Discurso feito logo depois do resultado do primeiro turno

N
os seus dois primeiros discursos depois da vitória, Bolsonaro citou a Constituição uma vez em cada pronunciamento, deixando de citar apenas no terceiro, feito mais tarde pelo Facebook. Nos outros dois, antes da vitória, não há menção à palavra. O discurso lido para a imprensa na frente de sua casa foi aquele em que o capitão da reserva mais explorou as variações da palavra “democracia”. O nome do regime foi citado uma vez, durante a fala “faço de vocês minhas testemunhas: esse governo será defensor da Constituição, da democracia e da liberdade. Isso não é uma promessa. É um juramento a Deus. A verdade vai libertar esse país”. Variações do termo, como “democrático” e “democrática”, apareceram duas vezes cada em outros momentos do discurso, e “democráticas”, uma vez. A soma desses termos é bem superior a qualquer referência a democracia nos dois discursos feitos quando estava em campanha. Na fala transmitida na avenida Paulista, Bolsonaro reproduziu só uma vez as palavras “democrática” e “democracia”. Na live do Facebook logo após a confirmação do resultado (que se vê abaixo), no pronunciamento depois do primeiro turno e na fala mais curta deste domingo não houve menção às palavras.
A primeira live de Facebook transmitida por Bolsonaro depois de eleito
Nos pronunciamentos deste domingo é possível perceber uma mudança no tom do presidente eleito. Na live feita assim que confirmada a vitória, Bolsonaro falou em “socialismo”, “esquerda” e “extremismo” (citou uma vez cada uma). Já no discurso oficial, para a tevê, ele não repetiu as palavras, e nem variações delas. Por outro lado, no discurso que leu, usou “seringueiro”, que não aparece em nenhuma das outras falas – o que também acontece com “opinião” e “opiniões”, ditas uma vez cada. Os dois primeiros discursos após a eleição citam “libertará”, com duas variações na fala oficial: “libertaremos” e “libertar”. Variações dessas palavras não apareceram nos dois discursos anteriores à eleição.
“Pacificar” e “unir” aparecem no terceiro pronunciamento feito pelo candidato, na noite de domingo, duas horas depois de ter vencido a disputa. Foram ditas, cada uma delas, uma vez pelo presidente eleito.

A terceira fala de Bolsonaro após a vitória, também transmitida via Facebook no domingo.

MARCELLA RAMOS (siga @marcellamrrr no Twitter)

Marcella Ramos é jornalista baseada no Rio de Janeiro.
https://piaui.folha.uol.com.br/verdade-liberdade-fala-bolsonaro/

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

José Afonso - Neste livro do Mundo



* José Afonso

 Neste livro do mundo
Quase perfeito
Preto e branco irmanados
De igual jeito
Quem não foi a tribunal
Quem teve mão
Nos juizes da Santa Inquisição
Em menino te ensinaram
mentiras que a morte leva
para outra morte bem longe
de pensares que outra contrária
Com a tua se aglomera
Neste livro de concórdia
Só tem guarida infinito
Por Giordano Bruno amado
Como se fora seu filho
Acima da besta fera
que na fogueira o lançava
aquela verdade brilha
à morte à morte diziam
os que não adivinhavam
que era verdade a mentira
Até o mar se acomoda
e paciente requebra
Enquanto gritas à toa
A tua verdade cega
Conta as areias da praia
O grande mago do mundo?
Só não mente quem não sente
Que o mistério não tem fundo

Mário Cesariny - Liberdade

* Mário Cesariny


A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só.
Mas são mais revérbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moeda corrente do libertino

Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime.
Quanto mais perseguido mais perigoso.
Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro
– nunca sairá um escravo.
Autoridade e liberdade são uma e a mesma coisa.


domingo, 28 de outubro de 2018

Caetano Veloso - Alegria, Alegria


Rodrigo Cardozo
Publicado a 05/10/2011


* Caetano Veloso


Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...


Márro de Carvalho - Fascismo foi isto

* Mário de Carvalho

Um manifesto do escritor Mário de Carvalho (publicado na sua página no FaceBook) contra o esquecimento e o revisionismo histórico e contra o desejo que alguma direita tem de apagar a ditadura fascista de Salazar das páginas da História de Portugal:

“Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores».
Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura.
Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares.
Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser.
Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor.
Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado».
Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado».
Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família».
Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar».
Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores».
Eu nunca me apercebi do «dia da Raça».
Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha.
Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo;
Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar».
Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim.
Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes.
Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto.
Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos.
Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai.
Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros».
Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal.
Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada.
Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono».
Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia.
Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial».
Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães.
Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol.
Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua.
Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada;
eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio.
Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida.
Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados.
Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes.
Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país.
Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão.
Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos.
Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias.
Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado.
Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina.
Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária.
Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais.
Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado.
Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos.
Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde.
Eu nunca tive o meu telefone vigiado.
Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria.
Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro.
Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública.
Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida.
Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado».
Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação».
Eu nunca fui preso.
Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil.
Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer;
Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado.
Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço.
Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche.
Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono.
Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor.
Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país.
Eu nunca vivi num regime de partido único.
Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.”

https://veredas104320730.wordpress.com/2018/10/28/mario-de-carvalho-fascismo-foi-isto/

Ferreira Gullar - Não há Vagas

* Ferreira Gullar


O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

— porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

sábado, 27 de outubro de 2018

Carlos Drumond de Andrade - Mãos dadas

* Carlos Drumond de Andrade

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


(Poema da obra Sentimento do mundo)

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Ferreira Gullar - Agosto 1964

* Ferreira Gullar


Entre lojas de flores e de sapatos, bares,
mercados, butiques,
viajo
num ônibus Estrada de Ferro-Leblon.
Volto do trabalho, a noite em meio,
fatigado de mentiras.

O ônibus sacoleja. Adeus, Rimbaud,
relógio de lilases, concretismo,
neoconcretismo, ficções da juventude, adeus,
que a vida
eu compro à vista aos donos do mundo.
Ao peso dos impostos, o verso sufoca,
a poesia agora responde a inquérito policial-militar.

Digo adeus à ilusão
mas não ao mundo. Mas não à vida,
meu reduto e meu reino.
Do salário injusto,
da punição injusta,
da humilhação, da tortura,
do horror,
retiramos algo e com ele construímos um artefato
um poema
uma bandeira

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

DISCURSO DE MANDELA NO JULGAMENTO DE RIVÔNIA (1964)

* Nelson Mandela

Discurso no Julgamento de Rivônia (1964), na Suprema Corte de Pretória, dois anos após ter sido preso.

“A falta de dignidade humana vivida pelos africanos é resultado direto da política de supremacia branca. A supremacia branca supõe a inferioridade negra. A legislação que visa preservar a supremacia branca institucionaliza essa noção. As tarefas subalternas na África do Sul são invariavelmente realizadas por africanos. Quando qualquer coisa precisa ser carregada ou limpada, o branco olha em volta, à procura de um africano que o faça por ele, quer o africano seja empregado por ele, quer não. Devido a esse tipo de atitude, os brancos tendem a enxergar os africanos como uma raça diferente.

Não os enxergam como pessoas que têm suas próprias famílias; não percebem que nós temos emoções; que nos apaixonamos, como se apaixonam os brancos; que queremos estar com nossas mulheres e nossos filhos, como os brancos querem estar com os deles; que queremos ganhar dinheiro, dinheiro suficiente para sustentar nossas famílias adequadamente, alimentá-las, vesti-las e fazê-las frequentar a escola. E que empregado doméstico, jardineiro ou lavrador braçal pode algum dia ter a esperança de fazer isso?

As leis do passe, que para os africanos estão entre as mais odiadas da África do Sul, tornam qualquer africano passível de ser barrado pela polícia a qualquer momento. Duvido que exista um único africano do sexo masculino na África do Sul que não tenha em algum momento tido um desentendimento com a polícia em torno de seu passe. Centenas e milhares de africanos são colocados na cadeia todos os anos devido às leis do passe. Ainda pior que isso é o fato que as leis do passe separam maridos e mulheres e levam à desintegração da vida familiar.

A pobreza e a desintegração da vida familiar têm efeitos secundários. Crianças perambulam pelas ruas das “townships” porque não têm escolas a frequentar, ou não têm dinheiro que lhes possibilite frequentar a escola, ou não têm pais em casa para verificar se vão à escola, porque pai e mãe, quando os dois estão presentes, precisam trabalhar para manter a família viva. Isso leva a uma ruptura nos padrões morais, ao aumento alarmante da ilegitimidade e à violência crescente que explode não apenas politicamente, mas em toda parte. A vida nas “townships” é perigosa. Não se passa um dia sem que alguém seja apunhalado ou agredido. E a violência é levada para fora das “townships”, para as áreas residenciais brancas. As pessoas têm medo de andar sozinhas na rua à noite. Os assaltos e arrombamentos de casas vêm aumentando, apesar do fato de que tais crimes podem agora ser punidos com a sentença de morte. Sentenças de morte não podem curar a ferida aberta.

A única cura consiste em mudar as condições nas quais os africanos são forçados a viver, atendendo às suas reivindicações legítimas. Os africanos querem receber salários que possibilitem a sobrevivência. Os africanos querem fazer o trabalho do qual são capazes, e não o trabalho do qual o governo os declara capazes. Queremos poder viver onde obtemos trabalho, e não ser impedidos de viver numa área porque não nascemos ali.

Queremos ser autorizados e não obrigados a viver em casas alugadas que jamais poderão ser nossas. Queremos fazer parte da população geral, e não ser confinados em nossos guetos. Os homens africanos querem ter suas mulheres e seus filhos vivendo com eles onde eles trabalham; não querem ser forçados a viver de modo antinatural em albergues de homens. Nossas mulheres querem estar com seus companheiros, e não viver nas reservas como viúvas permanentes. Queremos o direito de estar fora de casa às 23h, e não sermos confinados em nossos quartos, como criancinhas. Queremos o direito de viajar em nosso próprio país e buscar trabalho onde quisermos, e não onde o Burô do Trabalho nos manda. Queremos uma participação justa na África do Sul como um todo; queremos segurança e uma participação na sociedade.

Sobretudo, Meritíssimo, queremos direitos políticos iguais, porque sem esses direitos nossas deficiências serão permanentes. Sei que isso soa revolucionário aos brancos deste país, porque a maioria dos eleitores será formada por africanos. Esse fato faz o homem branco temer a democracia.

Mas não se pode permitir que esse temor seja um obstáculo à única solução que vai garantir harmonia racial e liberdade para todos. Não é verdade que a extensão do direito de voto a todos resultará em dominação racial. A divisão política baseada na cor é inteiramente artificial e, quando desaparecer, desaparecerá também o domínio de um grupo de cor por outro. O CNA já passou meio século lutando contra o racismo. Quando triunfar, como certamente fará, não mudará essa política.

É isso, portanto, que o CNA combate. Nossa luta é uma luta verdadeiramente nacional. É uma luta do povo africano, inspirada por nosso próprio sofrimento e nossa própria experiência. É uma luta pelo direito de viver. [alguém tosse]

Dediquei toda minha vida a esta luta do povo africano. Lutei contra o domínio branco e lutei contra o domínio negro. Defendi e prezo a ideia de uma sociedade democrática e livre, em que todas as pessoas convivam em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual eu espero viver e que espero ver realizado. Mas, Meritíssimo, se preciso for, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer.”

Fonte: http://www1.folha.uol. com.br/mundo/2013/12/1381517- e-um-ideal-pelo-qual-estou- disposto-a-morrer-leia-1- parte-de-discurso.shtml

domingo, 21 de outubro de 2018

Ferreira Gullar - Poema Sujo

* Ferreira Gullar

 Poema sujo
turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia


Trecho de Poema Sujo
https://www.revistabula.com/12068-os-10-melhores-poemas-de-ferreira-gullar/

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

“A luta é minha vida” discurso de Nelson Mandela em 26 de junho de 1961



Em carta de 1961, com o CNA proscrito, Mandela anuncia os planos de luta contra o apartheid

Carta deixada pelo líder, Nelson Mandela, em 26 de junho de 1961, explicando sua decisão de continuar com o ativismo político depois de o Congresso Nacional Africano (ANC) ter sido proibido pelo governo sulafricano. Mandela convoca seu povo a resistir às violências da minoria branca, exorta a comunidade internacional a reagir e afirma que sua escolha é “lutar pela liberdade até o fim” de seus dias.

“A magnífica resposta ao apelo do Conselho Nacional de Ação para uma greve de três dias e o maravilhoso trabalho feito pelos organizadores e trabalhadores do campo por todo país prova novamente que nenhum poder na Terra pode parar um povo oprimido determinado a ganhar a própria liberdade. Diante de uma intimidação sem precedentes do governo a empregadores e de falsidades grosseiras e distorções por parte da imprensa, imediatamente antes e durante a greve, as pessoas da África do Sul amantes da liberdade deram um gigante e sólido apoio às resoluções históricas e desafiadoras da Conferência de Pietermaritzburg. Trabalhadores de fábricas e escritórios, empresários na cidade e no campo, estudantes em universidades, escolas primária e secundária, inspirados por um patriotismo genuíno e ameaçados pela perda de empregos, o cancelamento de alvará de funcionamento e a ruína das carreiras escolares, despertaram para a ocasião e gravaram em tom enfático a oposição à república Branca, imposta à força pela minoria. À luz do conjunto formidável de forças hostis que estavam contra nós e as condições difíceis e perigosas em que nós trabalhamos, os resultados são os mais inspiradores. Estou confiante de que se nós trabalharmos mais e de forma mais sistemática, o governo Nacionalista não vai sobreviver por muito tempo. Nenhuma organização no mundo poderia ter resistido e sobrevivido ao bombardeio maciço e em grande escala dirigido a nós por parte do governo durante o último mês.

Na história de nosso país, nenhuma campanha política já havia merecido a atenção séria e de respeito que o governo Nacionalista nos deu. Quando um governo procura reprimir uma manifestação pacífica de um povo desarmado, mobilizando os recursos completos do Estado, ele reconhece o apoio poderoso da massa. Pode haver alguma outra evidência que prove que nos tornamos um poder para ser lembrado e a mais forte oposição ao governo? Quem pode negar o fato de que, desde o final do mês passado, a questão que tem dominado a política sul-africana não são as celebrações republicanas, mas nossos planos de greve geral?

Hoje é 26 de junho, um dia conhecido em todo cumprimento e largura de nosso país como Dia da Liberdade. Neste dia memorável, nove anos atrás, 8.500 de nós, dedicados lutadores pela liberdade,  deferimos um poderoso golpe contra as repressivas políticas de cor do governo. A coragem incomparável deu a eles o apreço e afeição de milhões de pessoas aqui e de fora. Desde então, tivemos várias campanhas em agitação nesta data e foi observado por centenas de milhares de nosso povo como um dia de dedicação. É apropriado que neste dia histórico eu possa falar a vocês e anunciar novos planos para a abertura da segunda fase da luta contra a República Verwoerd, e por uma Convenção Nacional.

O famoso poster, criado por Mickey Patel, mostra Mandela na época de seu ativismo político e traz uma legenda de Fidel Castro: “Condenam-me. Isso não importa. A história me absolverá”. Arte: Centro de Memória Nelson Mandela

No momento atual é suficiente dizer que nós planejamos fazer o governo impossível.  Daqueles que não podem votar não se pode esperar o pagamento de impostos a um governo que não é responsável por ele. Não pode ser esperado de pessoas que vivem na pobreza e na fome o pagamento de aluguel exorbitante ao governo e autoridades locais. Nós fornecemos os tendões da agricultura e da indústria. Nós produzimos o trabalho em minas de ouro, diamantes e carvão, das fazendas e indústria, em retorno por salários miseráveis. Por que nós deveríamos continuar enriquecendo aqueles que roubam os produtos de nosso suor e sangue? Aqueles que nos exploram e nos recusam o direito de organizar sindicatos? Aqueles que ficam do lado do governo quando encenamos manifestações pacíficas para afirmar as nossas revindicações e aspirações? Como os africanos podem servir em Conselhos Escolares e comitês que fazem parte da Educação Bantu, um esquema sinistro do governo nacionalista para privar os povos africanos da verdadeira educação em troca de educação tribal? Pode-se esperar que o povo africano contente-se em servir em conselhos consultivos e Autoridades Bantu, quando a demanda em todo o continente africano é para a independência nacional e autogoverno? Não é uma afronta aos africanos que o governo possa agora estender Autoridades Bantu às cidades, quando pessoas nas áreas rurais se recusaram a aceitar o mesmo sistema e lutaram contra isso com unhas e dentes? Qual africano não morre de indignação quando milhares de nosso povo são enviados à prisão todos os meses, por leis cruéis de passagem? Por que deveríamos continuar a carregar esses emblemas de escravidão? A não colaboração é uma arma dinâmica. Nós devemos recusar. Nós devemos usar isso para levar esse governo ao túmulo. Isso deve ser usado vigorosamente e sem demora. Todos os recursos dos negros devem ser mobilizados para retirar toda a cooperação com o governo Nacionalista.  Várias formas de ação industrial e econômica serão usadas para minar a economia já cambaleante do país. Nós vamos chamar os organismos internacionais para expulsar a África do Sul e vamos chamar as nações do mundo para romper relações diplomáticas e econômicas com o país.

Eu fui informado que o meu mandado de prisão já foi expedido e que a polícia está procurando por mim. O Conselho Nacional de Ação deu atenção integral à questão, e procurou o conselho de muitos amigos e organismos e eles me aconselharam a não me render. Eu aceitei este conselho e não vou me entregar a um governo que eu não reconheço. Qualquer político sério vai perceber que sob as condições de hoje neste país, buscar o martírio barato me entregando à polícia é ingênuo e criminal. Nós temos um programa importante pela frente e é importante realizá-lo de forma muito séria e sem demora.

Eu escolhi este último caminho, que é muito mais difícil e possui muito mais riscos e privações do que sentar na prisão. Eu tive que me separar da minha querida esposa e filhos, da minha mãe e irmãs, para viver como um fora da lei na minha própria terra. Eu tive que fechar o meu negócio, abandonar a minha profissão e viver na pobreza e miséria, como muitas pessoas estão fazendo. Eu vou continuar a agir como porta-voz do Conselho Nacional de Ação durante a fase que se desdobra e nas batalhas difíceis que vêm pela frente. Eu vou lutar contra o governo lado a lado com você. Palmo a palmo, milha a milha, até que a vitória seja alcançada. O que você vai fazer? Você vai se unir a nós ou vai cooperar com o governo e seus esforços de reprimir as revindicações e aspirações de nosso povo? Ou você vai permanecer em silêncio e neutro na questão de vida ou morte para o meu povo, nosso povo? Eu fiz a escolha de minha parte. Eu não vou abandonar a África do Sul, nem vou me render. Somente através de provisões, sacrifícios e ação militante a liberdade pode ser conquistada. A luta é minha vida. Eu vou continuar a lutar por liberdade até o fim dos meus dias.”



assinatura mandela

Fonte: BrasilAfrica
https://www.geledes.org.br/a-luta-e-minha-vida-discurso-de-nelson-mandela-em-26-de-junho-de-1961/


terça-feira, 16 de outubro de 2018

João Cabral de Melo Neto - Funeral dum lavrador


muitoalemjn
Publicado a 07/02/2010

* João Cabral de Melo Neto
Morte E Vida Severina


Esta cova em que estás, com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida

É de bom tamanho, nem largo, nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida

É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo, te sentirás largo

É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada nao se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida

É a parte que te cabe deste latifúndio
(É a terra que querias ver dividida)

Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas a terra dada nao se abre a boca



Guilherme Howes

Publicado a 06/11/2016




Morte e Vida severina é um livro do escritor brasileiro João Cabral de Melo Neto (1920-1999), escrito entre 1954 e 1955 e publicado em 1955. O nome do livro é uma alusão ao sofrimento enfrentado pelo personagem Severino. O livro apresenta um poema dramático (drama social), que relata a dura trajetória de um migrante sertanejo (retirante) em busca de sobrevivência na capital pernambucana.

Natália Correia - Ode à Paz

* Natália Correia

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
                               deixa passar a Vida!


"Ode à Paz", de Natália Correia, 
in "Inéditos (1985/1990)"

Marco Neves - Palavras portuguesas à solta nas Caraíbas?


14 out 2018 10:39 
A opinião de Marco Neves
Há uma língua muito parecida com o português perdida nas Caraíbas. E não é que os espanhóis andam de olho nela?


Porque é que a galiña atravessa o oceano?

O meu primo Rui Pedro esteve uns tempos em serviço nas Caraíbas — sim, há quem viaje até àquelas paragens para trabalhar.

Visitou várias ilhas, entre elas Curaçau, parte do Reino dos Países Baixos.

Uma pessoa aterra numa ilha daquelas e pensa encontrar muita coisa escrita em holandês, pois então. Talvez também em inglês ou, quem sabe, francês...

Ora, o que o meu primo não esperava era chegar a um restaurante e ver anunciado um prato de... «galiña»! Repare o leitor: o «ñ» poderá confundir-nos, mas é «galiña», não é «pollo»... E há mais...

Na primeira frase de fundo branco, aparece um estranho «porfabor». Sim, por favor, tenha o recibo «na man»!

Como o meu primo conhece as minhas inclinações linguísticas, tirou fotos às estranhas palavras caribenhas e mandou-me para eu ver.

Fiquei curioso e fui investigar. Descobri que estava perante o papiamento, que é língua oficial em Curaçau (em conjunto com o holandês e o inglês).

Aquelas palavras são, indubitavelmente, familiares. Um website do governo da ilha afirma isto: «Gobièrnu ke stimulá nos tur pa yuda otro kuida e sentido nashonalista i di patriotismo pa ku nos bandera ku ta un símbolo sagrado di nos Pais.» Não se percebe tudo, mas ficamos a saber que aquele governo quer estimular o patriotismo — e a bandeira é um símbolo sagrado.

Galegos nas Caraíbas?

O papiamento escreve-se com duas ortografias... Em Curaçao, usa-se uma ortografia de base fonética. Já noutras ilhas (como Aruba), usa-se uma ortografia mais etimológica e próxima da ortografia espanhola. O meu primo brincou: com tanta palavra portuguesa escrita à espanhola, até parece que as ilhas foram colonizadas por galegos...

Bem, galego não é. O papiamento é um crioulo, uma língua criada através do contacto de duas ou mais línguas. Há crioulos em muitos lugares do mundo — e que ninguém insinue que estas são línguas menores ou menos genuínas. A designação «crioulo» descreve apenas o modo de criação da língua. Há até quem diga que o inglês é um crioulo nascido do contacto entre a língua dos anglo-saxões e a dos viquingues (e, mais tarde, dos normandos). Mas não importa: muitas línguas nascem assim e este modo de formação não tem nada de redutor. O papiamento é uma língua tão completa e genuína para os seus falantes como o português o é para nós.

Mas donde vem esta língua?

Como acontece em muitos outros casos, não se sabe muito bem qual é a origem concreta deste crioulo em particular. Quando alguém começou a escrever em papiamento, já as gerações que o tinham criado tinham desaparecido muitos séculos antes.

É relativamente óbvio que a origem de grande parte do vocabulário é ibérica — mas não há certezas para além dessa. Há indícios de que a base é portuguesa, com influências espanholas e de outras línguas (incluindo o holandês). Um dos indícios é a proximidade gramatical ao crioulo cabo-verdiano, que ninguém acha ter alguma coisa que ver com o espanhol.

Ora, aqui dou um salto. Este facto delicioso sobre as línguas do mundo ajuda-nos a ver como cada país vê o mundo à sua maneira — por vezes, de forma muito subtil.

O leitor que queira saber mais sobre este crioulo pode rumar à Wikipédia portuguesa. A língua é descrita assim: «O papiamento é uma língua crioula derivada do português e de línguas africanas, com algumas influências de línguas indígenas da América, inglês, neerlandês e espanhol.» A base é portuguesa. As outras influências são apenas isso: influências. O espanhol, esse, está no fim da lista.

Rumemos agora à Wikipédia castelhana. Aqui está a descrição do papiamento (em espanhol, no original): «Trata-se de uma língua crioula. É provável que o seu léxico provenha principalmente do espanhol, à mistura com palavras de origem portuguesa, indígena e de diversas línguas africanas.» A enciclopédia virtual dos nossos vizinhos continua, explicando que o papiamento «tem por base um crioulo africano-português levado para o outro lado do oceano pelos escravos e reforçado pelos judeus sefarditas que saíram dos enclaves holandeses do Brasil».

Bem, se virmos bem, os factos são parecidos nas duas versões: até os espanhóis apontam para os crioulos africanos de base portuguesa. Mas a versão portuguesa sublinha a origem portuguesa, enquanto a espanhola repara em primeiro lugar no léxico espanhol.

Nada a dizer: fazemos isto todos os dias. Aquilo em que reparamos, a maneira como contamos os mesmos factos — tudo depende muito da nossa perspectiva. Este facto da vida, multiplicado por séculos e séculos, leva a histórias contadas de maneira diferente dos dois lados da fronteira.

Não confundamos, no entanto, isto que acabei de dizer com alguma espécie de «vale tudo». Os factos existem... Por exemplo, sobre o papiamento podemos dizer com segurança que é uma língua com uma intrigante proximidade às nossas línguas ibéricas, com uma história que passa pelas conversas dos escravos, dos judeus sefarditas fugidos do Brasil, da mistura de europeus, africanos e nativos americanos.

Uma língua fascinante que nós, portugueses do século XXI, conseguimos compreender às apalpadelas — e que nos lembra quão complicada, obscura e enredada foi a nossa História.

E pronto: o meu primo encontrou uma galiña num restaurante e acabámos todos por encontrar umas quantas palavras de sabor português e roupa tropical numa ilha das Caraíbas.

Marco Neves | Tradutor e professor. Autor do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa. Escreve sobre línguas, livros e outras viagens no blogue Certas Palavras.

https://24.sapo.pt/opiniao/artigos/palavras-portuguesas-a-solta-nas-caraibas#_swa_cname=sapo24_share&_swa_cmedium=web&_swa_csource=facebook&utm_source=facebook&utm_medium=web&utm_campaign=sapo24_share

https://www.certaspalavras.net/uma-lingua-a-portuguesa-nas-caraibas/